As minhas corridas na estrada

terça-feira, 22 de julho de 2014

Ultra Trail Monte da Lua - 50km

"Cinquenta e três quilómetros? Sete horas e tal?? Mas não foste sempre a correr pois não? Aaah então está bem!" É mais ou menos assim que têm sido as minhas conversas com os Muggles nos últimos dias (sim, fiz uma referencia extremamente nerd ao Harry Potter). Mas quem os pode censurar? Como é que se explica a alguém que uma subida é tão agressiva que nos deixa as pernas a arder no fim de 100 metros? Como é que se faz ver a uma pessoa que uma descida pode ser muito mais massacrante que a pior das subidas? Pois, eu também não sei, mas vou tentar nas próximas linhas descrever a experiência brutal que foi no sábado passado correr o Ultra Trail Monte da Lua.

Decidi há uns tempos que ia fazer umas provas de trail. Dar uma nova oportunidade a uma variante da corrida que comecei por olhar com muita desconfiança e até foi posta de lado depois de algumas experiências piores. Mudei o método de treino e a maneira de encarar as corridas, uma mudança de chip, como disse no último post. No sábado ia fazer o derradeiro teste. A última vez que tentei a distancia, o ano passado no Zêzere, foi 90% de sofrimento e 10% de diversão. Parti para o Monte da Lua com um único objectivo: inverter esta estatística.

O primeiro desafio desta corrida foi o planeamento e preparação. Já fiz algumas maratonas, li dezenas de textos sobre isso, posso dizer que consigo preparar a prova com relativa segurança. Mas e para uma corrida de 50km que vai durar 7 ou 8 horas? Nas ultimas duas semanas andei exaustivamente a preparar uma lista de itens para que não faltasse nada. Analisei previsões meteorológicas, ouvi conselhos de gente experiente e preparei-me mentalmente para a grande aventura. Toda esta antecipação fez subir muito os níveis de ansiedade, claro. Mas é aquela ansiedade boa, das borboletas na barriga, de estar a trabalhar e só pensar no momento em que passamos por baixo do pórtico da partida!

No sábado, às 8 da manhã, lá estava eu na Praia das Maçãs com os meus companheiros de Almeirim, juntamente com outros cerca de 200 atletas (? ainda não saíram as classificações, não sei bem quantos eram) que iam partilhar o percurso connosco. Sim, o percurso, porque a prova é diferente para cada um de nós. Depois de um briefing já no areal da praia, que confesso prestei pouca atenção, foi dada a partida.

Aí vão eles. Eu estava lá para trás.
Dificilmente poderíamos ter um melhor dia em Julho para correr que o que esteve no sábado. Nublado, temperaturas a rondar os 21 graus, sem chuva e sem vento. Perfeito!

Juntamente com o equipamento e comida, decidi levar comigo uma Go Pro emprestada para tirar umas fotos pelo caminho. Muito boa ideia, dizem vocês! Pois é, mas tinha sido bem melhor se a tivesse levado com a bateria carregada! O resultado foi um video de 10s da partida e puff, acabou-se a Go Pro. Ainda por cima embebido pelo espírito de Tarantino que há em mim, esqueci-me de ligar o cronometro até estar quase com 1km de prova... Qué burro! O resultado é que mais uma vez não tenho uma única foto da corrida. Todas as que vão ver neste post são escandalosamente roubadas do facebook.

Os primeiros 10 quilómetros foram tranquilos, quase sempre a subir ligeiramente. Disse a mim mesmo que ia andar em todas as subidas e assim fiz, mesmo aquelas que conseguia correr. Nesta altura seguia em conjunto com o meu amigo Victor. Houve um primeiro, e único, congestionamento para passar por um ribeiro logo aos 2º ou 3ºkm. Para a prova dos 50km não foi nada de especial, mas já ouvi dizer que nos 25 provocou um grande tempo de espera.

O tal ribeiro.
A prova teve poucos abastecimento, apenas 2 sólidos e 2 líquidos (só de água). É verdade que sim, eram poucos para uma prova destas, mas não sei se por já estar mentalizado para isso não senti necessidade de mais. O primeiro foi aos 16km, depois de 5km quase sempre a descer por uns trilhos rápidos muito giros. Racionei o litro de água que levava comigo e chegou mesmo à conta ao abastecimento. Felizmente que este estava no sitio certo e não 1km ou dois à frente, como às vezes acontece. Já ia com uma ligeira sensação de fome há algum tempo, por isso mal lá cheguei alambazei-me de banana, amendoins, batata frita, marmelada, tomate com sal e outros salgados que para lá havia. Soube-me espectacularmente bem e deu-me uma energia extra para os próximos quilómetros. No abastecimento o David juntou-se a mim e ao Victor. Seguimos os três juntos.

Para mim, a verdadeira prova começou logo a seguir ao abastecimento, no km 18, quando entrámos na Quinta da Regaleira. Nunca tinha visitado a Regaleira, que crime! Foi fantástico correr naqueles caminhos, num sobe e desce constante por trilhos e estradões. Em todo o lado respira-se mistério e simbolismo. O ponto alto foi a descida do Poço Iniciático, usado em rituais de iniciação à maçonaria. Senti-me um privilegiado por poder correr ali, e até me fez esquecer que já íamos quase com 20km nas pernas.

Poço Iniciático.

Já completamente embrenhados na Serra, a fase seguinte da corrida foi a subida ao Castelo dos Mouros. Esta foi a primeira subida a sério da prova. A certa altura passámos por uma grande escadaria, com degraus muito incertos, que me fez pensar no ultra trail da Madeira, onde os degraus são prato forte. É muito mais difícil do que parece. Nesta altura ainda não houveram troços muito compridos a subir, mas o caminho era extremamente técnico o que obrigava a uma série de esforços de recurso que foram moendo o corpo. Foi aqui que me separei dos colegas almeirinenses. Até ao fim da prova corri muitos quilometros completamente sozinho. Não é coisa que me aflija, e felizmente o percurso esteve sempre muito bem marcado, quer pelas fitas quer por bolas pintadas no chão. Nunca me perdi e raramente tive dúvidas sobre que caminho seguir.

O segundo abastecimento, este só de líquidos, estava situado aos 28km na Lagoa Azul. Eu não conhecia de todo a Serra de Sintra, mas aquele foi dos cenários que mais gostei. Principalmente porque não estava nada à espera de encontrar ali um lago daqueles. Antes do abastecimento houve 4 ou 5km bastante corriveis, em descidas pouco agressivas por trilhos e estradões. O ideal para retemperar energias. Aproveitei para encher os bidons que já estavam nas últimas. Mais uma vez o abastecimento estava no sitio certo, deu para racionar a água na perfeição.

O abastecimento estava naquele sitio com areia que se vê ali. (Obrigado Google)
O segmento seguinte, até ao terceiro abastecimento, era de 8km. Ao analisar o perfil altimetrico distinguimos uma secção com uma ligeira subida, depois uma descida e finalmente uma subida. Uma grande subida! Em termos absolutos foi a maior do percurso. Mais ou menos 400m em 3km.

Lá está ela, entre os km 30 e 33.
Confesso que entre os preparativos todos da prova, estudar o perfil não foi um deles. Só olhei para ele uma ou duas vezes, por isso nem sabia bem o que me esperava quando entrei num trilho que no inicio achei muito engraçado com umas pontezinhas artesanais em madeira. Até que passa uma bicicleta a voar em sentido contrário, e um gajo com protecções tipo futebol americano em cima dela. Hmmm...espera lá..então mas o gajo vem lançado..quer dizer que isto eventualmente vem a descer de algum sitio! Pois... tinha acabado de entrar no que mais tarde vim a saber ser o Trilho das Pontes, uma descida brutal feita para o pessoal do downhill. O pior é que nós íamos em sentido contrário!

Não encontrei nenhuma foto boa, mas aqui está uma pequena amostra.
Esta foi a primeira subida que me deixou mossa. Depois de cerca 20 minutos a subir, e com ela a ficar cada vez mais inclinada, a certa altura tive que parar um pouco, mãos nos joelhos, respirar fundo 2 vezes e fazer-me a ela de novo. Demorei quase 40 minutos a escalar esta parede de 3km! Respirei de alivio quando chegámos a um patamar e vi os ciclistas a equiparem-se todos para descer.

Antes do trilho das pontes, na parte plana e a descer, passámos por umas mansões abandonadas que não posso deixar de mencionar. Nesta altura ia a correr sozinho há uns 2 ou 3km, não via ninguém nem à frente nem atrás. De repente entro num jardim de uma propriedade privada e encontro isto:


Mais uma vez, as fotos não são minhas, mas eu também entrei lá dentro :)
Logo a seguir às pontes, cheguei ao terceiro abastecimento, de sólidos. Este era em comum com o 1º da malta dos 25km (era no 8º km deles), que já ali tinha passado toda. Tinhas as mesmas coisas que o nosso primeiro, mas já estava tudo muito escolhido. Acabei por comer menos, mas também já me estava a custar um pouco comer solidos, principalmente os salgados que se empapavam na boca. Salvou-me o tomate com sal. Os bidons enchi-os de novo. Calculo que durante toda a prova bebi entre 5 a 6 litros de água, pode parecer muito mas a verdade é que desde o 1º km que corri completamente ensopado em suor, todo o meu equipamento escorria água. Não estava sol nem muito calor, mas o tempo era extremamente húmido e abafado.

Terceiro abastecimento. Mais uma foto roubada do Facebook.
A fase seguinte era ligeiramente a subir até à Anta de Andrenunes. Estavamos a sair da serra e isso via-se até na vegetação. Quando entramos no planalto onde está situada a Anta correu imediatamente um ligeira brisa que quase deu para cheirar o mar. O Cabo da Roca era lá bem em baixo, estava quase a acabar, pensei eu!

Anta de Andrenunes.
A seguir à Anta foram quatro quilometros sempre a correr. Mais uma vez a variar entre trilhos rápidos e descidas pouco agressivas, espectacular para abrir um pouco mais a passada e aproveitar a energia potencial! Ainda não vos tinha dito, mas estava a sentir-me muitíssimo bem! Desde o primeiro quilometro que fazia as subidas a andar com uma passada vigorosa e aproveitei todas as secções planas e a descer para correr. As pernas responderam sempre bem, e não me custava nada passar de uma subida agressiva para um quilometro ou dois a correr a bom ritmo. Foi assim do 37º ao 41º km, quando chegámos a Azoia. Analisando os dados do Garmin, foram 4km sempre a rondar, ou mesmo baixar, dos 5min/km. A certa altura reconheci um troço do percurso do GP Fim da Europa, à entrada da Azoia. Sabia que o Cabo da Roca era já ali, não é que estava mesmo quase a chegar, ainda por cima com umas espectacular 5 horas e meia! Eish! Faltam 11 ou 12km, vou lançado, isto é coisa para acabar bem antes das 7 horas!!!

AHAHAHA ....

Pobre e ingénuo tolo...

Estão a ver o Farol lá à frente? Agora estão a ver aquelas duas ligeiras depressões antes de lá chegar? Pois..é claro que não fomos à volta.

Ainda estou para encontrar uma foto que faça justiça a esta arriba.
Ah, as famosas arribas! Tanto que ouvi falar delas! No perfil da prova parecem ligeiros montes, nada comparado com o acumulado que já levávamos nas pernas. Já me tinham avisado para a violência, mas eu achei que estavam a exagerar, não podia ser tão mau assim!

Mas era.

A primeira descida foi assustadora. Já li por aí muito pessoal indignado a queixar-se da insegurança. Eu não vou tão longe, não há muito que se pudesse fazer, a não ser que não quisessem incluir a arriba no percurso. Mas de facto tenho que confessar que a certa altura senti medo. A descida era incrivelmente inclinada e técnica, além disso íamos com 42km nas pernas, estas já não respondiam a 100%, e tive a noção algumas vezes que um passo em falso podia ter um resultado catastrófico (acreditem que não estou a exagerar). Foram várias as vezes que usei as mãos e por uma ou duas usei um 5º apoio (vulgo rabo).

Logo sem conseguir sequer pensar ou respirar, apanhamos com uma subida brutal. Autentica escalada por ali acima! A subida foi dura para as pernas, mas a descarga de adrenalina foi inevitavelmente menor, já que à nossa frente só víamos pedras para subir ou a sola das sapatilhas de um companheiro.

Andámos 4 vezes neste carrossel sádico. No fim da segunda tivemos uma pequena trégua no 4º e ultimo abastecimento situado no Cabo da Roca.

Foi duro mas tinha acabado! Parecia que me tinha passado um camião por cima, mas mantive o ânimo alto com a sensação que tinha superado a prova. Estava agora a correr numa estrada de alcatrão que ia dar a uma praia (Adraga?). Mais uma vez as pernas estavam a responder muito bem e consegui correr a bom ritmo sem problema! Faltavam agora 4 ou 5km, já não era nada!

Mas era.

Foi nesta praia que levei um último e brutal golpe. Uma subida de uns 400m toda em areia solta. Eu sei, não parece nada de especial, mas talvez devido ao cansaço acumulado (acumulado é a palavra certa) aquilo bateu-me de uma maneira muito forte.

Aqui está um amigo na dita cuja. Ah, podem ver ali naquela rocha da direita a tal bolinha que marcava o percurso.
Mais uma vez, como no Trilho das Pontes, tive que parar um bocado e respirar fundo. Nesta altura as nuvens tinham aberto e o sol brilhava forte. Estava cansado, a começar a desidratar, com muito calor... Faltavam apenas 3 ou 4km, mas pela primeira vez senti as forças a fugirem-me.

Os 2km depois da subida de areia foram os que menos gostei. Por trilhos sempre muito arenosos, com muita e densa vegetação junto à praia que não nos deixava correr. Não havia nenhum desafio de especial, era só chato correr ali!

Descemos finalmente até à Praia Grande para o final. Junto a um cruzamento estavam dois membros da organização aos quais perguntei quanto faltava. 1800m, responderam eles. Esta parte junto da praia foi um pouco anti-climax. Corremos no passeio junto à estrada. A dividir o espaço connosco estavam dezenas de veraniantes e surfistas. Tive que me desviar de alguns. Coitados, mal sabiam eles que ali ao lado iam uns bravos que tinham passado as ultimas 7 horas em esforço, se soubessem abriam alas!! ... Ou não eheh.

Uma ligeira subida final, esta até deu para correr, e ali estava ele - o areal da Praia das Maçãs! Lá estava o pórtico da chegada, lá estava a Sara com a Maria Amélia ao colo para me receberem como sempre. Tinha conseguido! 53km depois, voltei à praia das Maçãs com muito para contar! Só precisava de descer uma pequena arriba, passar por um riacho, correr 100m e já estava!

Esta foto é do pessoal dos 25km a partir, mas a pequena arriba que tivemos que descer na chegada é a que eles estão a subir.
De repente as pernas, que já nem estavam assim tão más, ficaram a 100%! Desci a arriba a saltitar como se estivesse fresquinho! Cheguei ao riacho, estavam uns miudos a brincar nas pedras que dariam para passar sem molhar os pés. Que se lixe! Já cheguei, que se molhem os pés! Pumba, pés molhados, saltareco para sair do riacho e....TAU!

Uma cãibra brutal no interior da coxa como nunca me tinha dado na vida! Nunca fui muito propenso a cãibras, e durante a prova toda nem tive sinais disso! Agora lá estava eu, a 100m da meta, agarrado à perna sem conseguir dar um passo ahahah que drama! De repente olho para a frente e vem a Sara a correr com a Mel ao colo a rirem-se muito "Anda filha, vamos ajudar o papá!! Aiii os meus pés, tou-me a queimar na areia!!" ahaha só visto. Eventualmente aquilo lá passou e quase que tinha que ser eu a ajuda-la a andar :)

Quase 53km e 7h25 depois cruzei de novo a meta na Praia das Maçãs. O objectivo a que me tinha proposto foi cumprido na plenitude. Gostei de cada quilometro desta prova e a percentagem de diversão suplantou em larga escala a de sofrimento. Quanto à organização, não vou alinhar nalgumas criticas que têm sido feitas. Sim, é verdade que os duches faltaram, mas chegar na praia tem esse inconveniente. Por outro lado pudemos fazer uma sessão de crioterapia no final que soube pela vida! O percurso esteve sempre bem marcado. Os abastecimentos é verdade que eram poucos em número, mas acho sinceramente que suficientes. Quanto ao preço... Bem, foi uma prova cara, mas temos que pensar que passamos pelo Parque Natural, Quinta da Regaleira, Monserrate, etc etc, tudo sítios que de certeza requeriam algum tipo de licença.

Entretanto, quanto a mim, fiquei definitivamente apanhado pelo trail. Daqui a duas semanas já tenho novo desafio, no Trail Nocturno da Lagoa de Obidos (50km), e assim que cheguei a casa inscrevi-me no meu próximo GRANDE desafio. Algo que já andava a pensar há algum tempo, mas estava expectante em relação a Sintra para decidir.

Olá Filipe Torres,
Foi registada a sua inscrição no evento Arrábida Ultra Trail, a decorrer no dia 16-11-2014

:)

segunda-feira, 7 de julho de 2014

5º Trail do Almonda - Mudar o chip

Quanto comecei a escrever este blog disse em tom de aviso que preferia estrada a trail. Comecei a correr em estrada há já alguns anos e antes disso vinha da natação. Eu sei que que pode parecer parvo, mas encontro muitas semelhanças entre os dois desportos. Em ambos levamos o nosso corpo ao limite durante um certo período de tempo, não há outras variáveis nem distracções. É por isso que gosto tanto dos dois desportos, gosto quando o trabalho é recompensado e de chegar ao fim de um treino ou prova e sentir que deixei tudo naquela ultima meia hora, hora, três horas, seja o que for.

As primeiras provas em trilhos que fiz fui com essa mentalidade. Estava numa prova, logo tinha que dar tudo com um único objectivo - cortar aquela meta o mais depressa possível! Escusado será dizer que não correram bem. Acabei por me divertir pouco e sofrer muito, o que me deixou com um sentimento amargo em relação ao trail. No entanto nunca consegui disfarçar que o apelo estava lá. Eu adoro correr em estrada, seja em prova ou treino, mas havia qualquer coisa nos trilhos que me puxava. Como é que podemos não gostar de correr na natureza, superar desafios épicos, passar os limites da nossa resistência? Pois é.. é impossível! Mas algo tinha que mudar na maneira como encarava o trail, estava na altura de mudar o chip. Foi o que fiz, e o primeiro grande teste foi ontem em Pedrogão.


A prova escolhida foi o Trail do Almonda. 30km com 1200m D+. Pelas estatísticas não me pareceu demasiado duro e ainda por cima era perto de casa. Além disso foi uma verdadeira armada de Almeirinenses à prova, ao todo éramos 8!

Inscrição feita, agachamentos e pranchas em cima do corpo, rampas subidas - tudo pronto! Eram 9 da manhã e estava na altura de finalmente encarar um trail como deve ser!

Para quem segue +/- a blogosfera sabe de dois factos incontestáveis: os trilhos no Inverno/Outono têm muita lama e no Almonda está um calor infernal. A organização também sabia disso e nos dias anteriores à partida desfez-se em conselhos para o calor, anunciou o apoio de bombeiros que iriam molhar os atletas e até chegou a ponderar adiantar a hora da partida. Pois é, o problema é que o aquecimento global tem destas coisas e ontem chovia torrencialmente às 9 da manhã! Bem, não havia nada a fazer, o melhor é começar já a correr que aquecemos num instante!

Ao analisarmos o perfil altimétrico da prova salta-nos logo à vista que os primeiros 10km parecem relativamente planos.


E de facto foram. Tirando algumas subidas curtas e técnicas, andámos sempre por trilhos com muitas pedras e MUITO enlameados, o que dificultava a aderência e nos fazia andar mais devagar. Nada de preocupante para mim, desde o inicio que imprimi um ritmo perfeitamente confortável, estava ali para aproveitar a viagem. 

Foi com esse espírito que parei em todos os abastecimentos para comer e beber água, desde o primeiro, aos 6km, ao quinto já nos 25. Ainda não participei em muitas provas de trail, mas pareceu-me espectacular abastecimentos de líquidos e sólidos de 5 em 5km! Ainda sobre a organização, não posso falar muito sobre a marcação dos trilhos porque como ia no pelotão acabava por ter quase sempre um corredor de referencia. Sei que houve pessoal que se enganou num ponto, admito que estivesse mal sinalizado mas não me apercebi. A mim pareceu-me tudo muito bem. 

Passados os primeiros 10km de corrida quase sempre constante (mesmo a um ritmo perfeitamente controlado e descansado demorei 60 minutos a fazer estes 10km), estava finalmente na altura de começar a subir. Era agora que ia ver se os agachamentos realmente resultam!

A grande subida da prova tinha aproximadamente 5km e 600m de acumulado positivo. Nesta altura entrámos verdadeiramente na serra. A subida foi quase toda feita num trilho estreito (single track) com vegetação cerrada que nos arranhava os braços, pernas e cabeça. Fi-la obviamente toda a andar, mas sempre numa passada constante e vigorosa que me permitiu até passar algumas pessoas. Subimos e subimos durante cerca de meia hora até finalmente a vegetação desaparecer. Lá ao fundo no nevoeiro vimos as famosas antenas, ponto de passagem obrigatório em qualquer trail. 

A grande subida estava feita e nem tinha dado por ela! Sentia-me muito bem fisicamente e nunca cheguei a ter aquela sensação que tive noutras alturas das pernas quase entrarem em combustão espontânea. Ok, não foi uma super subida, mas foi bastante longa. Longa o suficiente para há uns meses ter chegado lá acima de rastos. Agora sim, estou convencido que o tipo de treinos que tenho feito resulta mesmo!

Foi com esta dose extra de motivação que enfrentei os 5 quilometros seguintes praticamente todos a descer por single tracks muito rápidos e técnicos. Cada vez estava a gostar mais de estar ali, e pela primeira vez num trail não passei o tempo a olhar para o relógio à espera que os quilometros passassem. A segunda grande subida (muito menos agressiva que a primeira), mais uma vez a andar, foi também ela feita sem grandes problemas. A descida final foi super divertida, pelo que eu julgo ser um caminho de downhill dos ciclistas. Super rápida e técnica! Tive que por de lado as preocupações de me enrolar todo, mas valeu a pena. Os últimos 5 quilometros foram os mais aborrecidos da prova, numa estrada quase sempre plana e um pouco monótona num vale.

Cruzei a meta numas modestas 3 horas e 39 minutos. Eu sei que isto parece um lugar comum, mas realmente o tempo foi o que menos interessou nesta prova. Considero que o objectivo foi plenamente cumprido! Nesta altura estou com a motivação em níveis máximos para os 50km de Sintra daqui a duas semanas e com outra segurança quanto às minhas capacidades. Que chegue o dia 19!

A única foto minha que encontrei. Na parte final, o tal vale monótono.


segunda-feira, 30 de junho de 2014

Saltar às Fogueiras

Um mês e uma semana depois da maratona do Luxemburgo tive finalmente o meu regresso a uma prova. E que regresso! Há qualquer coisa de especial nesta corrida que não se consegue explicar. Foi só a minha segunda participação (já fiquei 2 anos apeado por me ter atrasado com a inscrição),  mas não tenho problema nenhum em dizer que só não é a minha prova preferida por razões sentimentais - os 20km de Almeirim continuam a ocupar o primeiro lugar do pódio.

21:30, Peniche, 2300 atletas, dois foguetes rebentam e está dada a partida para a 35ª Edição das Corridas das Fogueiras!


Desde o Luxemburgo que tenho corrido pouco. Nas duas semanas seguintes fiz um autentico reset à corrida e desde então tenho aumentado suavemente o volume, incluindo 1 ou 2 treinos de fartlek por semana. O que não tem abrandado nada são os treinos de reforço muscular. Felizmente consegui meter na cabeça (e na minha rotina) os tais 3 treinos por semana e ainda não falhei nenhum. Os dias de andar dorido já passaram há muito e andava a sentir-me muito bem nas ultimas semanas, inclusivamente quando puxava pelo corpo durante os fartleks. Mas o primeiro teste a sério ia ser em Peniche. Não que esperasse bater o meu record dos 15km (até porque nem sei bem qual é eheheh), mas pela primeira vez em algum tempo fiz uma prova sem saber muito bem como estava o meu corpo.

Costuma dizer-se que aprendemos com os erros, mas não foi o meu caso. O ano passado disse a mim mesmo que ia para a partida pelo menos meia hora antes para evitar a confusão inicial, mas outros valores se levantaram (estava a dar o Colômbia - Uruguai, mundial é mundial...) e só fui para lá 15 minutos antes. Toda a gente que fez esta corrida já passou por isto - os primeiros 500m são um suplicio. É muita gente afunilada numa estrada estreita, é quase impossível correr a não ser que se parta nos 100 primeiros. No entanto não aponto isto como um defeito da prova. Pareceu-me ouvir o speaker dizer que para o ano iriam alterar o percurso para poderem ter mais gente. A ser verdade ficava triste. Esta confusão faz parte da prova, trocava 50 avenidas largas por aquela estrada estreita cheia de gente a apoiar sem problema nenhum! Enfim, o resultado de chegar tão tarde foi demorar quase 3 minutos a passar por baixo do pórtico e um primeiro quilometro 1 minuto mais lento que o mais lento dos outros 14. Mas isso interessa pouco, a viagem tinha começado!

Mais zigue zague, menos zigue zague, e do 1º ao 6º km lá consegui meter o ritmo que queria. Aliás, até estava uns bons 15s abaixo dele, mas sentia-me super bem! É aproveitar enquanto dá, até porque a Corrida das Fogueiras só começa verdadeiramente aos 6km. É por volta dessa distancia que passamos a 2ª de 3 vezes pela tal estrada estreita da partida, desta vez em sentido contrário, para nos enfiarmos dentro da cidade e começar o sobe e desce até chegarmos finalmente ao mar. 

É incrível o que passamos dentro de Peniche. A cidade sai verdadeiramente toda à rua para apoiar do 1º ao ultimo atleta! Não há nenhum sitio em Portugal assim, pelo menos que eu tenha visto. Toda aquela envolvencia resulta num boost brutal de adrenalina e nem mesmo o sobe e desce de ruas estreitas me abrandam o passo. Mas chegámos ao km 8 e era hora de subir, a mais longa longa do percurso, +/- 1km imagino eu. Foi nesta subida que mergulhámos finalmente na escuridão e começamos a melhor parte da corrida. 

Quero fazer aqui um apelo. Toda a gente, repito - TODA a gente que corre, tem que vir obrigatoriamente pelo menos uma vez às fogueiras. Está escuro? Sim, escuro de mais, assusta nem sequer ver a estrada. Está vento? Sim, uma ventania que nos empurra pra trás. Tem subidas? Sem dúvida, do inicio ao fim. O fumo das fogueiras às vezes intoxica? Yep, por causa do vento. Trocava estes 4 ou 5km por outra prova qualquer, seja ela qual for? É que nem pensar! Só nós, o som das sapatilhas a bater no alcatrão (há lá coisa mais bonita?), o barulho do mar e o crepitar das fogueiras. Estava de tal modo a gostar que quando vi finalmente a luz artificial, sinal que estávamos a voltar a Peniche, fiquei triste por a prova ter 15 e não 21km! Agora já só faltavam mais 2km e mais uma vez levávamos um banho de multidão e de apoio dentro de Peniche. Que contraste, que loucura de prova!

Entretanto lá fui olhando para o relógio e para surpresa minha nunca abrandei o ritmo daqueles primeiros 6km. O melhor de tudo é que me senti sempre muito bem a correr e subir e nunca tive a impressão de estar a chegar ao limite. Queres ver que os agachamentos e as pranchas resultam?? :)

Cruzei a meta com 1h02 (média de 4:05min/km). Não me lembro se é o meu melhor tempo aos 15km, mas a partir de agora vou considerar este o meu record! Esta prova merece esta lembrança, e para o ano que não há mundial, nem europeu, nem jogos olímpicos (convinha também que o Benfica não jogasse nenhum particular de pré-época eheheh), vou fazer por estar mais cedo na meta e pelo menos recuperar o primeiro minuto.

Em suma, foi uma noite muitissimo bem passada. Como sempre com as minhas miúdas e desta vez com a companhia dos meus cunhados. Que fique já aqui dito - para o ano, nem que seja de muletas, vou voltar a saltar às fogueiras!




quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um pé à frente do outro?

Sempre ouvi dizer que correr era só por um pé à frente do outro. Será mesmo?

Ora bem, a pedido de várias famílias (na verdade foram só 2 ou 3 pessoas..) vou fazer um post sobre os já famosos exercícios de reforço muscular. Acho que é universalmente aceite que para se evoluir, mesmo a nível amador como o nosso, temos que fazer mais do que correr na rua. Mais cedo ou mais tarde todos vamos sentir necessidade disso. Seja para evitar lesões, para aumentar a resistência ou para aguentar melhor aquelas subidas lixadas numa prova de trail.

Para começar, quero frisar bem um ponto:

Estou (MUITO) longe de ser um entendido na matéria. Na verdade só faço este tipo de treino há três semanas, tudo o que sei foi por conselhos de um amigo, ele sim um expert já com muitos agachamentos nas pernas. Posto isto, não esperem deste post explicações biomecânicas ou citações de artigos científicos para comprovar os meus pontos.

Voltando aos exercícios. Como disse, só faço isto há três semanas, por isso ainda tive nem tempo nem um verdadeiro teste para confirmar se a coisa resulta. A única coisa que neste ponto já posso afirmar é que se na primeira semana andei completamente empenado, a roçar a invalidez, nesta altura já aguento muito melhor as repetições e nem ando dorido.

Os meus treinos baseiam-se num principio: faço 3 conjuntos de 3 exercícios, e repito cada conjunto 3 vezes. No total, não demora mais que 30 minutos. Não os faço num ginásio, mas sim em casa ou num jardim em Almeirim. Nesta altura ando a fazê-los 3 ou 4 vezes por semana, mas penso que no futuro ficar-me-ei pelas 3, precisamente nos 3 dias por semana em que faço descanso activo (6km de corrida a ritmo lento, que cumpro depois dos exercícios).

Quando comecei, andei algum tempo aos papeis a tentar perceber que tipo de exercícios deveria fazer, por isso, para ajudar quem também quer começar, vou deixar um exemplo de um tipo de treino. Atenção, isto é só UM exemplo, existem combinações quase infinitas de exercícios, é só fazer uma pesquisa rápida por "plank", "squats" ou "crunches" no google. O número de repetições depende muito de cada pessoa, como disse, não sou um entendido na matéria. Vou indicar as que faço nesta altura, que penso ser de um nível bastante baixo. Acho que cada um depois deve adaptar às suas capacidades.

CONJUNTO 1

Exercício 1
Prancha simples - 1 minuto

Exercício 2
Apesar dos seguintes serem dois exercícios diferentes, eu considero-os só um, e faço tudo de seguida. Atenção, nos agachamento é importante que os joelhos não passem para a frente dos pés. Tem que se esticar o rabo.


Agachamentos com salto - 20 vezes
Agachamento normais - 20 vezes

Exercício 3
Prancha lateral - 30s de um lado, e sem parar o cronometro, 30s do outro. Tenho tentando levantar a perna que está por cima nos últimos 15s de cada volta.

Ok, este foi o CONJUNTO 1. Como disse, repito cada conjunto 3 vezes. Este primeiro conjunto costumo fazer um pouco mais leve que os outros dois, para aquecimento. Depois de repetir o conjunto três vezes passo para o conjunto seguinte.

CONJUNTO 2

Exercício 1
Não sei o que chamar a isto... É uma flexão de braços, e quando se estica os braços levo a perna à frente como a senhora está a fazer. Repito 20 vezes (10 vezes cada perna)


Exercício 2
Aguentar durante 1 minuto. 30s com as duas pernas no chão, 15s só com uma + 15s com a outra, tudo de seguida. Esta doi :P


Exercício 3
Deixar cair as pernas lentamente para a frente, sem que toque no chão, e voltar a subir. 20 repetições.


CONJUNTO 3

Exercício 1
Este chama-se Burpee e pelos vistos é muito famoso entre os praticantes de cross fit. O principio básico é que o peito tem que tocar no chão e na fase final temos que levantar os dois pés. Começamos com um agachamento, mãos no chão, pernas empurradas para trás, uma flexão, puxam-se as pernas novamente para a frente, e termina-se o agachamento com um salto. Repito 10 vezes.

Exercício 2
Aguento nesta posição 30 segundos. Depois, sem desligar o cronometro, levanto uma perna e aguento 15s, e depois mais 15 com a outra. Total - 1 minuto.


Exercício 3
Não encontrei nenhuma fotografia que exemplifique este exercício, por isso vou tentar explicar. Comecem na posição de prancha simples, levantam o braço direito e deslocam-no para a vossa direita. Pousam-no e voltam a levantar e trazer para a posição original. Repetem o mesmo com o esquerdo. 10 vezes cada braço.


Pronto, estão feitos os três conjuntos. Não se esqueçam, repitam 3 vezes cada conjunto. Como disse, isto é só um exemplo, existem milhares de exercícios que podem ir metendo nos conjuntos para a coisa não se tornar monótona. O meu primeiro grande teste a esta forma nova de treino vai ser nos 50km de Sintra. Depois logo digo se resulta ou se isto é só uma desculpa para ver imagens na net de miúdas a fazerem pranchas :)


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Mudar de vida

Ok.. o título do post é dramático, não é bem uma mudança de vida...

Sim. Tenho uma fotografia do Variações no meu blog. Lidem com isso.

Como sabem, se têm acompanhado o meu blog, a preparação para a maratona do Luxemburgo correu +/- por diversos factores. Desde uma lesão chata na anca a viroses múltiplas patrocinadas pela minha rica filha, mas principalmente por falta de motivação para treinar, particularmente treinos longos. No entanto, lá fiz a prova adaptando o ritmo às minhas capacidades físicas, e a coisa acabou por correr muito bem! Ah, já agora, depois de publicar o relato da prova fui reler o texto e fiquei com medo de transmitir a ideia errada. Pode parecer, pela carga dramática, que não gostei da prova por ter sofrido daquela maneira. Muito pelo contrário, adorei a maratona, e foi mesmo das que me deixou melhores recordações! Bem, isto para dizer que se andava pouco motivado, assim que acabei a prova fiquei com os depósitos de motivação completamente atestados! E o que é que se faz quando se está a flutuar numa nuvem de endorfinas e eufórico com uma prova?!? Ora pois...toca a inscrever noutras!!

É aqui que entra a parte do mudar de vida. De facto, estou com doses extra de motivação, no entanto apetece-me muito embarcar em novos desafios que não voltar a treinar para uma maratona. Vou deixar a sétima para o ano que vem, novamente no estrangeiro (tenho que por em prática o manual para provas no estrangeiro).

Ok, vamos lá ver a equação: 

Vontade de correr em trilhos + euforia recente pós maratona = ???

Sim, adivinharam. Igual a inscrições em provas de trilhos à bruta e como se não houvesse amanhã!!

Vamos lá então ver o calendário:

28 de Junho - Corrida das Fogueiras em Peniche - Caaaaalma, eu sei que esta não é de trilhos! Mas é das minhas favoritas e não quero perder a oportunidade de a fazer outra vez. Desta vez não me deixei atrasar nas inscrições (dorsal nº10 eheheh). Tenho a certeza que vai ser uma noite muito gira passada com familia e amigos, até a Sara vai à mini! A lavagem cerebral começa a dar os seus frutos..

6 de Julho - Trail do Almonda (30km) - Diz que vai estar quentinho.

19 de Julho - Trail do Monte da Lua (50km) - Quanto a esta prova gostaria de culpar agradecer ao Rui Soeiro que diligentemente foi plantando a semente em comentários, ao melhor estilo do Inception, até ser inevitável mudar a minha inscrição dos 25 para os 50km. Vai ser o meu grande teste e é aqui que vou tirar a limpo se realmente tenho gosto pelos trilhos ou não. Estou muito ansioso por esta prova.

2 de Agosto - Trail Nocturno da Lagoa de Obidos (50km) - No dia da maratona do Luxemburgo cheguei a casa dos meus amigos perto das 23. À meia noite desse dia abriram as inscrições para essa prova. À meia noite e um quarto estava inscrito. 

Entretanto, e de maneira a não repetir o sofrimento que passei no Ultra do Zêzere o ano passado, decidi começar a fazer treinos de força em casa. Pedi ajuda ao meu amigo João Pedro (o que fez a Transgrancanaria e este fim de semana meteu-se nas 100 milhas do Oh Meu Deus), que me deu uns esquemas para fazer em casa. Depois de três dias de agachamentos, pranchas, flexões e abdominais, tenho a apresentar os seguintes resultados:


  • Não consigo levantar os braços para lavar a cabeça no banho;
  • Não consigo rir nem tossir sem me doerem os abdominais;
  • Entrar e sair do carro é uma tarefa equivalente a arrancarem-me unhas com um alicate.


Acho que estou no bom caminho!


segunda-feira, 2 de junho de 2014

ING Night Marathon Luxembourg

Imaginem-se numa praia da nossa costa atlântica, num dia de 30ºC, que baixam para 25 ao pé do mar. Agora imaginem-se à beira mar, com os pés de molho que se vão enterrando à medida que as ondas vão e vêm. O sol disfarça os arrepios de frio provocados pela spray das ondas e por uma ligeira brisa fria que sopra. Um dia de verão perfeito! Mas algo está mal... Estão umas 30 pessoas à beira mar mas só 2 ou 3 dentro de água. Estás com calor e pensas em mergulhar, mas olhas para o mar e vês que as ondas estão a rebentar furiosas mesmo junto à praia. Lá ao fundo vês as outras ondas, maiores, a rebentar. Sentes imediatamente um enorme respeito pelo que tens à frente, pelo imenso mar. 

Era assim que estava no sábado às 18:30, meia hora antes de partir para mais uma maratona. A 200 metros via o pórtico de saída, sabia que bastar-me-iam dois minutos para passar por baixo dele, sabia que a partir do momento que o passasse não havia volta a dar. Como quem passa pela rebentação e se vê a uns metros da praia, assim que o transpusesse estava no mar, ia ter que nadar até ao fim, desse por onde desse.

A ING Night Marathon é um grande acontecimento no Luxemburgo. Cerca de dez mil pessoas (mil e poucas na maratona, algumas na corrida por estafetas e a grande maioria na meia) saem à rua para percorrer as ruas da cidade. Cidade essa que não é maior que, por exemplo, a nossa Almada ou Braga. Tem um centro histórico pequeno muito giro e depois várias bairros residenciais à volta. Ah, e depois tem outra característica que vai adquirir alguma importância nesta crónica: não sei se em toda a área da cidade existe alguma rua que seja plana!

Eram 19.00 quando se deu a partida da prova, numa zona nova um pouco afastada da cidade, imaginem a expo em Lisboa. Com o sol ainda a pique, temperatura a rondar os 20ºC, os 10 mil atletas partiram juntos, o que aumentou um pouco a confusão, mas nada de especial. Ruas largas trataram de escoar rapidamente toda a gente e não demorou muito até entrar no ritmo a que me tinha proposto fazer a corrida. Apesar da pouca experiência que tenho, é a suficiente para conhecer bem o meu corpo e principalmente respeitar a maratona. Sabia exactamente os meus limites e o máximo que poderia dar. A ideia era não fazer um tempo miserável, mas o suficiente para chegar ao fim e saber que dei tudo o que tinha, aproveitando para explorar a cidade e o ambiente. Era esta a minha estratégia planeada ao pormenor nas ultimas semanas, mas eram 19h, o tiro de partida tinha sido dado, nas colunas tocava a já gasta "I gotta feeling" e o pórtico estava a menos de 100 metros. Avanço devagar, respiro fundo, carrego no start do cronometro, e mergulho. Está na altura de passar a rebentação.

Assim que dou os primeiro passos de corrida sinto que a minha cabeça vai rebentar, aquela dorzinha irritante que apareceu depois de almoço, e que eu fui atribuindo à ansiedade, rebentou com toda a força assim que comecei a correr. Com o sol forte de frente, fui semi-cerrando os olhos, mas ela estava lá para ficar. Correu mal a passagem da rebentação, calculei mal o fim do set e quando ia a correr uma onda mais forte fez-me tombar, mas não havia volta a dar, é dar às pernas e esperar que passe.

Mergulhei finalmente por baixo da última onda. Já estava junto dos 2 ou 3 que via da praia, depois da rebentação, naquela zona onde podemos relaxar, deixar o corpo a flutuar e aproveitar o balanço da ondulação. Às vezes até arrisco boiar e fechar os olhos durante uns segundos. Os primeiros 10km de uma maratona são assim. Se formos com juízo, o ritmo inicial é muito abaixo das nossas capacidades numa corrida de 10km, nem damos pelos quilómetros a passar e vamos praticamente sem esforço, como se fosse a própria estrada a passar por nós, sem esforço, sem pensar, só prazer!

O percurso da maratona do Luxemburgo é o melhor que já fiz até hoje. Não, não é de todo plano, não há estradas largas para correr nem avenidas compridas. Aliás, se excluir os primeiros 3 ou 4km na zona nova da cidade, não passei por nenhuma recta com mais que 300m. Um suceder sem fim de subidas e descidas, curvas e contra-curvas, caminhos em parques, no centro da cidade, na periferia, passo por cima e por baixo de pontes, sem cruzar ou passar pelo mesmo sitio e nunca, nunca monótono! Mas o que me surpreendeu muito foi a participação das pessoas. Eu pensava que já tinha visto tudo em Sevilha e Barcelona, mas ontem fiquei com a impressão que toda a cidade saiu à rua para apoiar os atletas, absolutamente incrível a quantidade de gente que puxava por nós como se estivéssemos a liderar a prova! Se no centro eram aos milhares aos gritos, a formar corredores humanos, nos bairros residenciais era rara a casa que não tinha uma mesinha à frente, com um churrasco, e famílias inteiras alegremente a puxar pelos atletas enquanto faziam uma refeição e bebiam uns copos. Uma dezena de bandas de percussão espalhadas pelas ruas alegravam as hostes e foram às centenas os high-fives que distribui pelo caminho, fiz questão de não deixar ninguém pendurado! Quer dizer, não é bem assim, a certa altura vi dois miúdos de braço estendido, um com a camisola do Porto e outro com a do Benfica, adivinhem quem levou o high five mais sentido da noite ;) Os abastecimentos estiveram ao nível da prova, excelentes! Nunca tinha visto tantos e tão completos, desde o primeiro que contavam com água, isotónico e vários sólidos, nunca distanciados por mais que 5km, alguns bem menos que isso.

Os primeiros 28km da prova passaram assim, tranquilos. A dor de cabeça não me deu tréguas, mas sentia-me bem fisicamente. Mantive o ritmo com um rigor de relógio suíço e a estratégia estava a dar certo, sentia um certo desgaste nas pernas mas não me custava correr. Chegámos então ao km 29. 

Estava ainda a aproveitar o mar o baloiçar das ondas quando uma nuvem grande começou a tapar o sol que me estava a aquecer. Ao passar o km 29 entro numa descida muito inclinada com 1km de extensão. O declive forte massacra-me as pernas que já estavam cansadas. Sinto-me solto a descer, relaxo os braços e respiro fundo. Uma grande descida só pode significar uma coisa - vem aí uma subida.

Quase imediatamente sopra um vento forte mais frio que empurra o spray de uma onda que rebentava lá ao fundo. De repente sinto uma corrente forte a puxar-me mais para dentro do mar, estico o pé e toco no chão, há pouco não estava lá. Lá ao fundo vejo uma sombra negra a crescer e a aproximar-se, olho para trás e as pessoas na praia estão serenas a conversar, volto a olhar para a frente e a sombra está maior. Uma ligeira sensação de pânico assola-me. Começo a nadar em direcção a ela e vou olhando em frente, está maior. Está a formar-se uma parede, um muro negro que me puxa, cada vez com mais força.

Os três quilómetros seguintes são feitos no vale de Grund, depois da descida. O caminho é espectacular, carreiros com 2m de largura que serpenteiam ora dum lado ora do outro do rio. Passo por baixo das pontes altíssimas que atravessei ainda à pouco. As pernas ressentem-se da descida, mas vou aguentando o ritmo. O gel que tomei aos 30km deu-me algum ânimo, foi o terceiro, tomei outro aos 10km, aos 20 e voltarei a tomar aos 38km. Começo a ver as primeiras baixas à minha volta, o que desmoraliza um pouco.

Aos 33km surge uma subida que transforma esta maratona num verdadeiro trail urbano. Muito inclinada, com escadas, zigue-zague e longa, muito longa!

A parede está a ficar definida. Um verdadeiro monstro cinzento que parece sugar tudo à volta. Ela aproxima-se e eu sou atraído inevitavelmente a ela. 

Saí do Grund e voltei ao centro da cidade, onde estão as multidões que nos dão uma força extra. No entanto ele deixou-me marcas, já não corro com prazer e a minha cara deve transparecer isso num esgar de sofrimento, porque vejo as pessoas a puxar por mim como nunca. Estou no 35º km e contínuo a subir, agora por entre ruas estreitas no centro da cidade. Nesta altura já faço contagem decrescente para o fim, faltam 7km, quase nada!

Voltei à zona nova da cidade, no único sitio que dobra o percurso, os tais 4km inicias. Tomo o ultimo gel no abastecimento dos 38km e preparo-me para enfrentar quase 2km de uma subida ligeira mas constante. 

O monstro cinzento mostra-se agora em todo o seu esplendor. Não lhe vou escapar, penso. É impossível. 

Olho para o chão enquanto corro. Ok, não era bem correr, praticamente andava enquanto abanava mais os braços! Havia pouca gente inscrita na maratona, por isso ia praticamente sozinho. Aquela avenida grande com edifícios modernos dos dois lados, que há bocado passou despercebida era agora uma estrada infinita, deserta, sempre a subir. As pernas pediam que parasse. Pediam descanso, pedi de mais delas, 40km já era de mais, já chega!! 

41km, continuo a subir. Não percebo, de todas as maratonas que fiz quando cheguei aos 40km senti sempre uma energia extra, como se aqueles últimos 2km já não contassem! Mas naquele dia não, havia qualquer coisa mal....

Era agora o tudo ou nada. Ouvia a parede a desmoronar ao meu lado, parecia um trovão! Tinha que conseguir, um último esforço, vá lá!! 

Naquele último quilómetro todas as fibras do meu corpo pediam para parar, nunca passei por nada assim. Estava em modo automático, era um pé à frente do outro. Sentia cada passada como se fosse um filme em câmara lenta. 

Dou duas braçadas, uma última pernada, mergulho a cabeça por baixo da crista que já se tinha formado, o meu corpo é brutalmente impulsionado para cima.

41.7km. Estou a correr ao lado do pavilhão onde é a chegada. Lá ao fundo vejo a entrada, faltam 500m Filipe, está feito!

Sinto a onda a rebentar nas minhas pernas, a cabeça já passou. Abro os olhos, dou uma golfada de ar, consegui, passei!!

Os últimos 100 metros são corridos dentro de uma pavilhão enorme, música alta, fumo, luzes, centenas de pessoas. Na ultima curva vejo a Sara de braço no ar e esboço um grande sorriso, coisa que já não acontecia há uns 7 ou 8km. Foi com esse mesmo sorriso que passei a meta de braços no ar. Estava feita! 

Baixo a cabeça, desligo o cronometro, dou três passos atabalhoados e imediatamente agarro-me aos joelhos. Antes de partir combinei com a Sara que terminaria perto das 3h40. O tempo oficial foi 3h39m51s! A minha quarta pior maratona e vinte minutos mais lento que em Sevilha, mas fiquei tão ou mais orgulhoso que naquele dia! Foi uma prova duríssima, não só pelo percurso mas principalmente porque não estava tão bem preparado. 

Dei tudo o que tinha, sentia-me completamente esgotado. Nos bastidores da prova, onde nos davam comida e bebida, tive que me deitar 3 vezes no chão. Apetecia-me chorar com as dores que tinha, as pernas tremiam. Arrastei-me até me encontrar com a Sara que estava com a Maria Amélia ao colo e me abraçou. Agora sim, tinha chegado ao destino. Era altura de deitar o corpo na toalha e esperar que o sol me trouxesse de novo à vida.

Por enquanto a única foto que tenho da maratona. Na chegada, sentado no chão, mais morto que vivo, mas já ao sol :)

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Uma prova justa

Há uns tempos li no perfil de Facebook do Luís Mota, aquando da participação dele na Maratona de Madrid, que a Maratona é uma prova justa, e por isso a sua paixão pela distancia. Gostei muito da frase, que me ficou logo na cabeça. A Maratona é, sem dúvida alguma, uma prova justa. A mais justa! Não é uma prova que dê espaço a inspirações momentâneas, ou heroísmo de recta da meta. É muito simples, se treinas corre bem, se não treinas prepara-te, a senhora não faz prisioneiros!

Pela sexta vez estou na semana anterior a correr uma maratona. O que uma pessoa passa durante estes 5 dias é difícil de explicar por palavras. Por ser a sexta vez até podia ser menos intenso que a primeira ou a segunda, mas não, é sempre uma experiência muito forte. Foram muitas semanas a pensar no objectivo, muitos quilometros, ilusões, desilusões... Treinos e mais treinos, uns com prazer outros com (muito) sacrifício, a poucos dias de culminar. Vai ser no sábado, às 19:30, que vou correr a minha sexta maratona. A ING Luxembourg Night Marathon. 


Na semana anterior a Sevilha fiz aqui um post onde mostrava orgulhosíssimo o meu plano de treino cumprido quase escrupulosamente, com todos os treinos técnicos e longos feitos, cumprido na perfeição. Treinei bem, muito bem até! E, claro, a Maratona foi justa comigo! Bati o meu record pessoal e fiz a melhor corrida da minha vida.

Para Sevilha foi assim, bom. Para o Luxemburgo não. Para o Luxemburgo correu quase tudo mal! Desde uma má recuperação de Sevilha, uma bronquite, um problema na anca só resolvido há uns dias e de andar as ultimas 3 semanas a servir de receptáculo para tudo o que é virose que a minha querida filha trás da creche (febres, diarreia, vómitos, you name it!), a juntar a uma falta de motivação crescente, desta vez treinei mal, muito mal até! Só um pequeno termo de comparação, em semanas iguais corri 893km para Sevilha e 737km para o Luxemburgo, menos 160! Não tenho dúvidas que a senhora Maratona não vai deixar de ser justa comigo, mas felizmente a nossa relação já tem alguns anos, já a conheço minimamente e vou respeitá-la desde o inicio. Depois dos 4.45min/km impostos e cumpridos à risca em Sevilha, vou apontar para os 5.20min/km no Lux. Único objectivo: aproveitar os 42.195km do primeiro ao último metro!


Esta corrida tem a grande novidade para mim de ser feita à noite. Estou muito curioso por saber se o corpo vai reagir de maneira diferente e ainda não sei bem como vou fazer em termos de alimentação no próprio dia. De resto, pelo que tenho lido, a prova tem tudo para ser inesquecível. É toda corrida dentro da cidade, com algumas subidas e descidas, muita muita gente na rua, e um final apoteótico num pavilhão coberto. Estou ansioso pela partida, mas a tremer de medo de estar um senhor com uma marreta à minha espera lá para os 30km!


Ah, os geis foram a primeira coisa a entrar para a mala! :)