As minhas corridas na estrada

domingo, 19 de outubro de 2014

Trail Serra da Lousã (42km) - Fui eu e o trilho...

... e mais uma data de gente que teve a mesma ideia!

Costuma dizer-se que não se deve voltar onde já se foi feliz. Ora bem, andei à procura no Google e não vi nada sobre voltar onde não se foi feliz. Como a minha estreia no trail há dois anos, precisamente nesta prova, não correu lá muito bem, decidi dar uma segunda oportunidade à Serra da Lousã. Este ano ligeiramente aumentada em relação a 2012 (de 30 para 42km), voltei a participar na série AXtrail, organizado pela GoOutdoor e mergulhar mais uma vez nas aldeias do Xisto.

Uma tipica aldeia do xisto
Como sempre, aproveitei a oportunidade para passar um fim de semana em família. Na sexta feira lá fomos direitos à Serra da Lousã, mais precisamente a Gondramaz, que segundo o Google Maps ficava a 20km de Castanheira de Pera, base do AXtrail. Depois de levantado o dorsal sem nenhum problema, lá seguimos para os tais 20km até Gondramaz para nos encontrarmos com uns amigos que também iam participar na corrida. Foi então que descobri que o Google Maps também gosta de trail, já que nos mandou por estradas de terra a atravessar a serra! A meio daquele raid TT, liga-nos a senhora da casa. Quando lhe disse onde estávamos responde ela muito admirada "mas estão de jipe??". Não..não estávamos... Bem, já que é para o mato, que vá a família toda :) Já agora, aproveito para recomendar a "Casinha do México" a quem queria visitar a Serra da Lousã, bons preços, pessoas simpáticas e uma casa muito confortável bem no coração da Serra. Ah, e sem um tracinho de rede de telemovel, seja de que rede for! Só não pensem é em ir quando for o Trail dos Abutres, por EU quero ir para lá! eheh

De nada, obrigado nós :)
No dia seguinte lá segui com o meu amigo Francisco que se ia estrear na distancia. Desta vez por estradas civilizadas, mas não menos sinuosas, lá chegámos a Castanheira bem a tempo dele levantar o dorsal e nos posicionarmos no pórtico. A meio da viagem apercebo-me que me esqueci do relógio em casa! Pânico! Voltar já pra casa, não posso correr sem relógio! Não, não há tempo, temos que seguir! E agora meu deus, o que hei-de fazer, já não posso correr, a minha vida acabou!!

Sem mais comentários
A partida acabou por ser adiada quase meia hora, por causa da lenta distribuição de dorsais. Pode considerar-se uma falha da organização, mas a verdade é que eram quase 500 atletas para o TSL e 300 para o mini trail. Claro que isto tudo podia ter sido previsto antes, mas enfim, são pormenores, nada de importante.

Às 10 da manhã, já depois de me ter encontrado com outros 3 colegas almeirinenses que tinham vindo no próprio dia, lá foi dada a partida. O primeiro quilometro, até sairmos de Castanheira e mergulhar na floresta, foi feito em estradas largas e estradões, uma boa maneira de dispersar o pessoal antes do afunilamento nos singles tracks, e a estratégia resultou, nunca houve grandes constrangimentos pelo menos na zona onde eu seguia. Não demorou muito até finalmente entrarmos na serra e começar a subir...bem, subir talvez seja um eufemismo, escalar é uma melhor palavra!

Os números deste trail assustam e apanham desprevenidos os mais distraídos. Seriam 42km com 2800d+, mas mais impressionante que isso era constatar que os últimos 12km seriam quase sempre a descer. Ou seja, teríamos que subir os tais 2800m em cerca de 30km. 


Já aprendi a desconfiar muito dos gráficos de altimetria, mas números são números, e 2800d+ em 30km metem respeito. 

A primeira grande subida levou-nos logo literalmente às nuvens, nos 1000m de altitude. Foram cerca de 6km sempre a escalar que serviram para dispersar o pessoal e acalmar os habituais ultra confiantes, que nos primeiros quilometros dos trails fartam-se de empurrar e ultrapassar pessoal nos trilhos estreitos e subidas não muito inclinadas. Nada como um bom declive para por tudo no lugar :)

Já perto do final da subida, entrámos no meio das nuvens. A temperatura baixou, o vento aumentou e a chuva intensificou-se. As bocas e risadas omnipresentes no inicio da corrida de repente pararam por completo. Os quilómetros seguintes foram percorridos num planalto lá bem em cima. Cerca de 4km bastante corriveis em estradões e trilhos rápidos. A certa altura, ia eu a correr confortavelmente, quando olho para o lado e vejo o Armando Teixeira! Caraças, não tenho relógio, mas devo ir a correr a 3 ao km, estou super forte!! Ou então o Armando veio só passear... ok, vamos antes pela segunda alternativa :) Cumprimentei a estrela, que se lembrou de mim do km vertical, e segui a meu ritmo. Mais uma vez achei-o impecável. Como não podia deixar de ser, toda a gente se metia com ele, mas respondia sempre com um sorriso.

A descida seguinte, como podem ver no gráfico, parece um autentico precipício. A melhor maneira que tenho para vos descrever aquela descida é dizer-vos que era uma cascata de lama no meio de árvores e pedras, e nós tínhamos de alguma maneira que chegar lá abaixo vivos! Ok, era muito perigoso, e quase inevitável cair (eu fui ao chão duas ou três vezes), mas não há duvida que era muito, muito divertido! Mais uma vez, os bastões foram os meus melhores amigos. Usei-os para controlar a descida, já que era o único ponto fixo que eu arranjava. Cada vez estou mais convencido que os bastões são uma parte essencial no trail. Não há que ter vergonha, não estamos a fazer batota, a verdade é que nos ajudam a subir, a descer, e são tão leves que não atrapalham nada quando precisamos de correr.

Os quilómetros que se seguiram até ao primeiro abastecimento, na aldeia do Talasnal, foram daqueles que nos lembram porque é que fazemos isto. Single tracks no meio da floresta, cobertos de caruma dos pinheiros que os tornavam macios, ora a subir ora a descer, sempre nas encostas da montanha, ora dum lado ora do outro do vale.  Quase sempre a correr a bom ritmo e com um sorriso nos lábios, foi assim que os percorri. De vez em quando abrandava e olhava para o lado, para ver a montanha. A Serra da Lousã é fantástica, não há duvida. Não me lembro de outra serra com tanta vegetação como aquela. As cascatas eram omnipresentes, várias vezes passámos por ribeiros que nos refrescavam os pés e pediam uma pequena paragem para molhar a cara e beber água gelada directamente da fonte. Seguia num pequeno grupo, todos à mesma velocidade, sem stresses de ultrapassagens, sem grandes conversas. Todos estávamos a ter um prazer brutal em correr ali, era óbvio. Lembro-me de ter pensado "pronto, já valeu a pena!".

O primeiro abastecimento, aos 14km, estava no Talasnal, uma aldeia do xisto.

Talasnal
Quanto aos abastecimentos, é a única critica que tenho a apontar à organização. Temos que nos lembrar que estes eram em comum com o pessoal dos 100km, e a verdade é que eram bastante fracos. Tinham o básico, é verdade, mas achei pouco. Principalmente porque lembro-me de há dois anos ter achado aquilo um autentico buffet de casamento. Ainda por cima, este estava situado numa casa pequena na aldeia. Estava tanta gente e tão abafado que perdi logo a vontade de me aproximar da mesa. Acabei por sair sem comer nada e já na rua comi um gel. Não me preocupou muito porque "só" tinha 42km pela frente, mas se estivesse na ultra tinha ficado bem chateado com aquilo!

Logo no quilómetro a seguir ao abastecimento, numa descida perigosa com muita pedra molhada, vi um grupo de 4 ou 5 pessoas e um deles sentado. Percebi logo que se tinha aleijado. Quase instantaneamente parece que perdi a concentração e também eu caí no meio das pedras! Não me aleijei nada de especial, mas fez-me lembrar que é preciso irmos sempre focados e nunca facilitar, é muito fácil termos acidentes sérios. O colega que estava sentado tinha feito um corte profundo na mão, estava uma poça de sangue no chão. Estive lá junto a ele alguns minutos. Já tinham chamado ajuda, e felizmente estávamos perto do abastecimento. Acabei por seguir já que estava a arrefecer muito. Nunca tinha visto tanta gente a ser forçada a desistir como nesta corrida. Vi várias pessoas com feridas em sangue, outras com sacos de gelo no corpo, outras vezes passaram por mim bombeiros para socorrer algum colega. 

O percurso entre o 1º e 2º abastecimento (10km) foi muito parecido com os quilómetros que antecederam o Talasnal, muito divertido, portanto. A certa altura passamos por uma levada com cerca de 1km. Do lado direito um canal que transportava água, do esquerdo um respeitável precipício!

Fotografia tirada da net. Aqui tem uma guarda de protecção, mas a maior parte da levada não tem nada.
Na fotografia a levada está vazia, mas como tem chovido muito nos últimos dias, ontem estava cheia, literalmente a transbordar! Várias vezes andámos com os pés dentro de água que transbordava para fora. Era um caminho bastante perigoso, mas foi irresistível percorre-lo a correr! 

Logo depois da levada começou a segunda grande subida. Como não podia deixar de ser, foi muito violenta. Lembrem-se que tínhamos 2800m d+ para escalar, distribuídos basicamente por duas grandes subidas. É claro que não iam facilitar.

O segundo abastecimento estava a meio desta segunda grande subida. A um km de lá chegarmos, entramos na aldeia de Cerdeira. Na base da encosta vejo 4 ou 5 pessoas sentadas numa fonte, soube mais tarde que estavam à espera de transporte da organização, iam desistir. À nossa frente estava uma escadaria com uns bons 400m! Como os degraus são duros! Fez-me logo pensar noutra prova ali para o meio do Atlântico, vocês sabem do que estou a falar...

Cerdeira. A escadaria subia a encosta toda, a serpentear no meio das casas.
Entrei no abastecimento e fiquei com a mesma sensação do primeiro. Pequeno de mais para tanta gente, além de mais uma vez estarem muito pouco apetrechados! Estavam lá também vários atletas da ultra, sentados e com ar acabado. Ouvi alguns deles a protestar por não haver comida quente, iam com mais de 70km nas pernas. Acho que a parte dos abastecimento é definitivamente a rever pela organização.

Estávamos no km 24, faltavam 6 para chegar aos 30, onde acabariam as subidas. Seguia-se a subida ao Trevim, o ponto mais alto da serra com 1200m de altitude. Foi definitivamente a secção mais dura da prova, com subidas daquelas em que até assusta quando olhamos para cima, ainda por cima quanto mais subíamos mais o tempo piorava, o nevoeiro era cerrado, o vento fortíssimo e a temperatura estava pelo menos 10 graus abaixo do que tínhamos apanhado lá em baixo. 

Trevim visto (ainda mais) de cima.
É nestas subidas pura e duras, pouco técnicas, que os bastões fazem valer mais o seu valor. Principalmente porque ajudam na postura, subimos mais direitos o que poupa muito as costas. Depois tem outra coisa boa, se formos concentrados neles conseguimos marcar o ritmo da subida e ir naquele passo constante até lá acima. Claro que nada substitui um bom treino, e nesse aspecto tenho que voltar a referir o milagre do reforço muscular. Desde que falei aqui dele há uns meses que faço pelo menos 2 vezes por semana, sempre em casa. A evolução tem sido brutal, mesmo a nível de massa muscular. Eu sei que é chato, mas vale mesmo MUITO a pena, acreditem em mim!

Chegado ao ponto mais alto, e depois de ultrapassar alguns colegas, chegou finalmente a grande descida até à meta. Os primeiros dois quilómetros foram num single track aberto na encosta, espetacular para correr, o que aumentou brutalmente a adrenalina. Estava a adorar cada metro daquela descida! Aliás, daquela prova!

Estava quase a acabar este segmento e chegar ao 3º e ultimo abastecimento quando recebo uma sms da Sara: "o Francisco vai desistir". Parei imediatamente e liguei-lhe, queria dizer-lhe que o mais difícil era até aos 30km, que depois era a descer e nem era violento! Infelizmente a Sara contou-me que ele estava a sofrer muito, que já tinha vomitado duas vezes e que tinha chegado à conclusão que simplesmente não dava para continuar. Estava na base da escadaria de Cerdeira, no km 22. Eu sei como custou ao Francisco desistir, como custa a qualquer um. Sei que antecipou esta corrida durante quase 3 meses, e treinou todos os dias com ela em mente. Enquanto corria pensei várias vezes em como ele estaria a gostar da prova, já que aquilo era exactamente o que ele me dizia que gostava no trail! Por isso, se há pessoa a quem deve ter custado horrores desistir foi a ele. Mas quando a Sara me disse do estado dele, percebi imediatamente que ele tinha tomado a melhor decisão. É importantíssimo reconhecer os nossos limites, para mim não há nada de honrado em passar horas e horas em sofrimento profundo só porque se meteu na cabeça que tem que acabar a prova. A decisão de desistir é muito difícil de tomar, mas não é de forma algum motivo de vergonha! Vergonha é nunca sequer tentar, e muito mais difícil do que decidir desistir é sair do sofá e trabalhar pelos nossos objectivos! O Francisco desistiu, mas vai-se levantar, treinar mais e melhor e enfrentar um novo objectivo! Nem que seja daqui a um ano, mas vai voltar a enfrentar uma prova destas! Agora, quem anda horas no limite e acaba por ceder, porque o corpo humano tem limites quer queiram quer não, muito facilmente cria traumas muito difíceis de ultrapassar. Saibam ouvir o vosso corpo, é suposto ser divertido, não é nenhum luta pelas nossas vidas!

Foi a pensar na desistência do Francisco, e agora com menos alegria, que percorri os metros até ao ultimo abastecimento. Cheguei lá sempre a correr a bom ritmo e não me sentia nada cansado. Pensei em nem sequer parar no abastecimento, mas o bom senso levou-me a parar um pouco. Mais uma vez era pobre, acabei por comer pouco, mas estive ali 5 ou 6 minutos a descansar até voltar a atacar os trilhos. Faltavam 10km, liguei à Sara e disse-lhe que se não houvesse surpresas demoraria hora e meia a chegar à meta.

Infelizmente, estes últimos 10km foram uma espécie de anti-climax depois da prova brutal que tinha sido até ali. Pareceram-me um bocado para encher, sempre por estradas de alcatrão, estradões e poucos trilhos. Sentia-me bem e fresco, fiz os 10km praticamente sempre a correr, e a meta estava já ali para ser cortada, não sem antes passarmos por um riacho com água por cima do joelho. Foi bom para tirar a sujidade toda que tinha nas pernas e limpar as sapatilhas, se é para cortar a meta, que seja com categoria! :)

Ok, pelos vistos não passei tempo suficiente dentro de água.
Cheguei à meta menos de uma hora depois. Já lá estava o Francisco com a família, a Sara e a Maria Amélia, como sempre. Demorei 6h34m a percorrer o percurso, não faço ideia da classificação, mas para mim foi o meu melhor trail até agora. Acho que geri bem o esforço desde o inicio, consegui correr sempre que quis e não me fui abaixo nas subidas. Fiquei muito contente com a minha corrida, mas fiquei com um amargo de boca quando soube que além do Francisco outros amigos meus tinham desistido. Aliás, ainda não sei quantos foram, mas pelos vistos houve mesmo muita gente a desistir nas duas provas! Para os meus companheiros de armas que desistiram, não se preocupem, a Serra estará lá para o ano e vamos voltar todos!

Aqui com o meu prémio de finisher. Ah, e com um chapéu que a organização me deu por ter concluído a prova :)
Quanto à organização, sinceramente aparte dos abastecimento não tenho muito para dizer. Todo o processo administrativo correu bem, o percurso estava impecavelmente sinalizado e havia bastante assistência durante toda a prova. No entanto, a minha prova era de 42km. Se as coisas funcionam neste regime para uma prova "curta", para uma ultra de 100km tem que ser muito diferente. Já li muitas criticas de atletas do ultra, inclusivamente de amigos meus, e apoio completamente o que dizem. Desde a falta de comida quente, a abastecimentos que não estavam na distancia certa até elementos da organização que deram indicações erradas de distancia até pontos do percurso. A UTAX é uma prova de referencia no calendário nacional, mas com a quantidade de oferta que há se não limam estas arestas arriscam-se a cair na vulgaridade. 

Em resumo, foi um fim de semana muitíssimo bem passado com o Francisco e a família, uma prova que me correu na perfeição, paisagens magnificas e trilhos super divertidos. Dificilmente posso pedir mais! Estou cada vez mais apanhado pelos trilhos e só penso em mais e mais objectivos! Que venham agora os miticos 20km de Almeirim e, daqui a um mês, os 80km do Arrábida Ultra Trail!


terça-feira, 14 de outubro de 2014

20km de Almeirim. Uma cidade = uma corrida

Mais do que uma prova de atletismo, os 20km de Almeirim são uma parte viva da minha cidade. Organizado por uma associação com o mesmo nome, vai este ano para a 28º edição, destacando-se de longe como a corrida de 20km mais antiga em Portugal.


Podia falar-vos do percurso super plano, da participação popular, das ruas largas ou da excelente e muito batida organização, mas os 20km de Almeirim são muito mais que o somatório disso. É algo difícil de explicar a quem não é de cá, mas esta corrida confunde-se com a própria cidade, como se as ruas tivessem sido projectadas a pensar naquelas centenas de atletas que anualmente nos visitam. Domingo, dia 26 de Outubro  às 10 da manhã realiza-se a 28º edição (sim, lerem bem, vigésima oitava!) da prova. 


A vocês, que vêm de fora, convido-vos a experimentar este verdadeiro clássico da corrida em Portugal. Garanto-vos que serão muitissimo bem recebidos e no fim ainda podem experimentar a nossa Sopa da Pedra e uma caralhota, oferecidas a todos os participantes. Aos que já cá vieram, sei que não preciso dizer grande coisa quanto à excelência da prova, de certeza não ficaram arrependidos. A todos, terei todo o gosto em vos receber na minha terra! Eu sei que há dezenas de provas todos os fins de semana, mas dificilmente encontrarão alguma com mais carisma que esta. Ah, e já agora com esta excelente relação preço/qualidade. Vou tentar ser subtil: INSCREVAM-SE JÁ!!!! :)

Quanto a mim, vai ser a minha oitava participação. Lá vou estar mais uma vez em frente à minha antiga escola primária e à biblioteca que vi a ser construída, desta vez sem a ansiedade de outros anos, mas sempre com a alegria extrema de correr na terra onde vivo há 31 anos! Infelizmente este ano não vou poder lutar para o meu record pessoal, já que uma semana antes (já no próximo sábado)  vou estar noutras paragens que decerto darão origem a um certo empeno geral...



Também esta prova é especial para mim, já que foi lá, há dois anos, que me estreei no trail. Na altura não fazia a mínima ideia o que era correr em trilhos. Lá fui com o João, meu companheiro de treinos para a maratona, com as minhas sapatilhas de estrada e uma garrafa de água na mão eheh "São só 30km", pensámos nós "é um treininho longo, é na boa!" ahaha certo.. Apanhámos uma tareia brutal, num percurso super técnico e ainda por cima choveu o tempo todo! Sem qualquer treino especifico, tive duas semana amassado e diverti-me pouco porque simplesmente não tive pernas para a prova. Agora, com uma mentalidade e preparação completamente diferentes, quero lá voltar e desfrutar daqueles magníficos trilhos, da Serra da Lousã e das Aldeias do Xisto. 

domingo, 5 de outubro de 2014

KM Vertical - Em caso de dúvida, é pra subir!

Ora bem.. 300km de carro para cada lado, pagar inscrição, noite num hotel em Seia, refeições, etc, para correr 3.7km e subir 1000m na vertical. 

Claro! Porque não?!


Este nosso vicio leva-nos a fazer coisas estranhas. Por exemplo, acho que ainda está para surgir o comentário a um trail que não inclua "eishh, aquela subida foi violentíssima, matou-me!!", no entanto, que atire a primeira pedra quem ao passar por uma qualquer montanha não pense "epah quem me dera sair do carro e subir aquilo tudo de uma assentada!". Para quem não padece do nosso mal soa ridículo, eu sei que sim! Mas há coisas mais fortes que nós, como a Serra da Estrela! Está certo, não é preciso ir longe para encontrar picos que envergonham o nosso, mas em Portugal Continental é o mais alto! Qual de nós não fez as famosas viagens de fim de semana com os pais à Serra? Fazer sku, ver os cãezinhos, moldar pseudo-bonecos de neve e chegar ao carro com as calças de ganga todas molhadas. Todos nos lembramos daquela escalada infinita no banco de trás do carro dos nossos pais, com uma montanha imponente do lado direito e um precipício do lado esquerdo, as varolas amarelas e pretas e o desejar a todos os santos que haja neve lá em cima. Admitam ou não, a Estrela é mítica e faz parte da nossa memória colectiva. Agora propõem-me um assalto à Torre numa escalada épica a correr? 


Com organização de um ícone do trail nacional, Armando Teixeira, teve lugar este domingo a edição zero do quilómetro vertical na Serra da Estrela. A proposta era vencer um desnível positivo de 1000m numa extensão de 3.7km. Para os poucos que estão a ler isto e não estão dentro do assunto, é mais ou menos o equivalente a subir de uma vez 300 pisos de um prédio. Sim, pela escada... Feitas as contas, enfrentaríamos uma rampa com cerca de 30% de inclinação. Os números assustam, é verdade, e foram estes números que me aguçaram a curiosidade. No entanto, depois de vencida a rampa, cheguei à conclusão que há mais no km vertical do que números. Pelo menos neste houve.

Depois de uma noite na excelente Quinta do Crestelo, em Seia, às 9:30 lá estávamos os 3 em Alvoco da Serra prontos para a partida. Já agora, para mim, que incluo sempre um programa familiar nas corridas que vou fazendo, é ouro sobre azul quando a organização tem alguma espécie de acordo com alojamento perto da meta. É verdade que muitas têm, mas raramente valem a pena. Não foi este o caso, a noite no hotel passou de uns impraticaveis 48 para 30€! De certeza que o meu caso não é único e acho que este é um aspecto que as organizações devem cada vez mais ter em atenção.

Bem, mas voltando à prova, às 9:30 lá estávamos para nos encontrarmos com mais dois Almeirinenses e os outros 76 atletas. No briefing curto, o muito simpático Armando Teixeira informou-nos que antes de iniciarmos a prova percorreríamos cerca de 1km numa partida simbólica, até à base da parede. Falou-nos ainda um pouco do percurso e das marcações. Retive a seguinte frase: "o percurso está marcado com setas e algumas fitas. Em caso de dúvida... é pra subir!" :)

Deixa lá ouvir o gajo.
Percorridos os 1000m, chegámos ao que ele chamou Jardim do Alvoco. Aqui começaram as novidades para mim. Ao contrário da partida tradicional, esta foi dada dois a dois, com cerca de 30s de intervalo. Neste tipo de prova curta, pareceu-me excelente ideia. Apesar de sermos poucos, aposto que os primeiros metros seriam todos em fila indiana. Desta maneira fomos sempre com alguém no horizonte, mas sem nunca causar constrangimentos. 


Jardim do Alvoco, Uma pequena clareira no sopé da montanha.
Se no trail ainda sou um novato, neste tipo de prova estava absolutamente a zero. Nos trilhos, o instinto diz-me para me poupar nas subidas. Ok, mas aqui vou poupar-me para quê? Já o equipamento, no outro dia fiz aqui uma lista extensa do que uso. Mas só vou correr 3.7km, será que é mesmo preciso aquela tralha toda?? E o tempo que vou demorar? A minha táctica é ir ver a edição anterior, ver o tempo que fizeram no meio da tabela, e assumir que não vou ficar muito longe disso. Normalmente resulta! Mas....estávamos na edição zero! Era como eu, estava a zero! Bem, feitos os cálculos mentais e ponderado o factor cagaço, decidi levar a mochila de hidratação com 1l de água e os bastões. Quanto à táctica decidi ir percebendo o que as pernas me diziam e improvisar pelo caminho. O tempo para chegar lá acima? Oh, logo se vê!

Outra novidade, em vez das habituais marcações km a km, esta era pelo desnível positivo! 
O Armando avisou-nos que os primeiros 900m seriam enganadores, que a verdadeira parede surgiria a seguir, com 2.8km e 850d+. Decidi seguir o conselho dele e não abusar nestes primeiros 900m. Ok, decidi isto antes da partida! Assim que chega a minha vez de partir o "Espirito dos 10km" (aquele que nos empurra para um 1º km de nivel Kenyano nas provas de 10km de estrada), há muito desaparecido, reaparece e desato a saltitar de rocha em rocha por ali acima! 

Tumba tumba tumba, eia caraças, pareço o Killian, estou imparável!! Tumba tumba tumba, mais um saltareco, alça a perna, mais dois passos ligeiros e..... elaaaaahhhhh - pulsação a mil, pulmões a saltarem pela boca, respiração ofegante! Ui, o que vale é que já devo ir a meio! Claro.. a meio dos primeiros 400m.... Rapidamente deixei de me armar em parvo e adoptei um ritmo confortável e constante. Demorei algum tempo a recuperar o fôlego. É verdade que comecei ambicioso de mais, mas acho que mesmo a começar devagar demoraria algum tempo até encontrar o meu ritmo. Afinal de contas, começamos a trepar completamente a seco!

Quando cheguei aos 900m já me estava a sentir bem, mas a prova só começaria ali. Nesse ponto, no meio da encosta, estavam umas 30 pessoas da organização, bombeiros, caminhantes, escuteiros, etc, que puxavam por nós. Os gritos acordaram o Espírito dos 10km, mas eu rapidamente amansei-o. Foi nesta altura que afinei a minha simples "táctica" - passo confortável e constante. O importante era não parar ou abrandar. Primeiro porque quebraria o ritmo, e depois porque há medida que subíamos, o ar ficava cada vez mais frio, e transpirado como estava arrefeceria muito depressa.

Ainda consegui tirar umas fotos. Aqui foi pouco depois dos 900m.
Os 2.8km, ou melhor, os 800m d+ seguintes, infelizmente não têm grande história. As rampas eram enormes e cada uma mais empinada que a anterior. Uma espécie de Diana em esteróides. Os músculos andavam perto da combustão, estava ensopado em suor e com respiração ofegante, mas cada vez que passava por uma placa com mais 100d+ ganhava novo fôlego. Corremos por baixo, no meio e finalmente por cima das nuvens. Com calor e com frio. Em troços de tufos macios e por cima de rochas à altura da cintura. A subir, subir, subir... Estava a divertir-me como um miúdo! Às vezes entusiasmava-me e desatava a correr por ali acima, mas era sol de pouca dura, logo a subida me punha no lugar. A certa altura vejo a placa dos 900d+. Mas mas mas..ainda agora comecei! Olhei para o relógio e já ia quase com uma hora! Como é possível, não dei pelo tempo a passar! Apertei um bocado depois dos 900d+, até que comecei a ver o pórtico de chegada. 

Como sempre, lá estava a Sara e a Maria Amélia à minha espera. Passei os bastões para uma mão e desatei a correr para ficar bem na fotografia!



Passei a meta 1 hora e 4 minutos depois de partir, o que como sempre me colocou a meio da tabela. Se foi bom? Não sei.. O que sei é que depois de cortar a meta fiquei com um amargo de boca. Ok, a subida foi brutal, super divertida e dura, mas...acabou tão depressa! Quer dizer, uma pessoa mete-se em coisas destas espera pelo menos uma pequena parte de sofrimento e superações épicas! Mas não..hoje foram só boas sensações, diversão, boa disposição...bah! :)

Da próxima vez levo esta peça de equipamento, já deve puxar mais pelo cabedal!
Agora mais a sério. Foi uma experiência nova que já queria fazer há algum tempo. Toda a gente que anda nos trilhos devia experimentar uma vez, porque é completamente diferente do habitual. É quase como um maratonista que vai fazer uma prova de 10km! Uma dose grande de adrenalina, mas acaba depressa de mais. Agora é hora de voltar aos treinos, o próximo desafio está quase aí - Trail Serra da Lousã (42km). Aposto que esta vai ter mais drama!

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Equipado até aos dentes!

Há algum tempo que queria fazer um artigo sobre o equipamento que uso no trail. Havia duas coisas que me deixavam de pé atrás quanto a fazer este post: primeiro por ainda ter feito poucas provas em trilhos, e depois por não ter propriamente referencias para comparação - só tenho uma mochila, um par de sapatilhas, uns bastões, etc. Por isso, não esperem deste post a típica critica (ou review, se preferirem). No entanto, para quem, como eu, está a iniciar, acho que pode ser interessante principalmente passar as sensações que o equipamento me transmite e como cada elemento pode ajudar na minha corrida. Como referencia vou usar a minha participação no Réccua Douro Ultra Trail (80km), onde tive oportunidade de testar a fundo o meu equipamento todo.

Quanto ao preço, tenho que admitir que a maior parte das coisas são bastante caras... Antes de comprar seja o que for, fiz uma pesquisa extensa na net à procura dos melhores descontos, e acreditem que vale a pena, cheguei a conseguir alguns equipamentos a metade do preço! Encontram-se boas oportunidades, é uma questão de terem (muita) paciência e vasculhar em todo o lado.

Vamos por partes então:

Sapatilhas - Salomon XT6 Softground
Tendo eu já bastantes quilómetros em estrada, estou farto de saber da importância de calçar bem. Para mim é sem duvida o elemento mais importante. No trail existem obviamente outros factores que não o conforto e amortecimento que importa procurar, tais como a durabilidade, o tipo de sola, o sistema de atacadores, o tipo de terreno, etc. As XT6 foram-me apresentadas por um amigo com mais experiência, e que por acaso calça o mesmo número que eu. Segundo ele, eram sapatilhas muito polivalentes e confortáveis, não especificas para um único tipo de piso. Quanto a mim, só tenho coisas boas a dizer delas. A única vez que me incomodaram foi por ter apertado de mais os atacadores, problema resolvido numa paragem rápida (ah, muito bom o sistema de atacadores também). Antes de correr com elas tinha feito alguns trails com sapatilhas de estrada, claro que a comparação é impossível, mas a segurança aumentou exponencialmente a descer. Comprei-as quase um número acima do meu número habitual, e o meu único arrependimento foi não ter mandado vir ligeiramente maior (um número completo acima) - depois de muitas descidas os dedos grandes dos pés começam a queixar-se de estarem a ser esmagados lá à frente. Parece-me que a parte da frente é muito estreita para o meu pé, não tenho espaço para os dedos. Nas primeiras corridas andei sempre com a sensação que o dedo mindinho estava encavalitado em cima do colega do lado. No DUT resolvi o problema besuntando bem os dedos com vaselina. A melhor critica que lhes posso fazer é que acabei os 80km do DUT sem dores de maior nos pés, sem bolhas e sem uma única unha negra! Uma vitória autentica :)

Mochila - Salomon Advanced Skin S-Lab 12l


Esta é daquelas que até arrepia quando ouvimos o preço, principalmente quando comparada com outras mochilas de hidratação. É verdade, é obsceno o que pedem por ela, apesar de se conseguirem bons descontos - eu comprei a minha com 40% a menos. Para verem uma critica a sério à mochila, vejam este video do Paulo Pires. Quanto a mim, o que vos posso dizer é que não me arrependo nem um segundo de a ter comprado, e olhem que sou um gajo bastante agarrado ao dinheiro eheh. Mais do que uma mochila, é quase um colete de hidratação, uma peça de roupa que vestimos e por acaso permite transportar água, gel, etc. Vem com duas garrafas de 500ml (soft flasks) para usar na parte da frente, mas não trás a bolsa tipo Camelback, para mim o único senão da mochila. Para aumentar a capacidade de transportar água podem optar por comprar uma bolsa de 10€ que se vende na Decathlon ou desembolsar mais 35€ e ficam com uma da Salomon (como se não bastasse o preço da mochila..). Pode parecer uma escolha óbvia, mas garanto-vos que vão ter que pensar 2 vezes depois de experimentarem uma e outra por uma simples razão: com a da Decathlon têm que fazer muita força para puxar a água (e sai um caudal muito pequeno), a da Salomon só têm que morder a válvula que ela sai logo, e com um caudal muito maior. Pode parecer insignificante, mas garanto-vos que não é, principalmente se já formos em esforço. No DUT levei 1.5l na parte de trás e uma das soft flasks com isotónico e pareceu-me o ideal. Não é muito prático encher o camelback, mas também quem é que tem pressa? Tem ainda uma quantidade muito grande de bolsos e bolsinhas, que chegam para levar tudo e mais alguma coisa. Nesta corrida, além dos 2l de água, levava impermeável, 4 geis, 4 barras, frontal, manta, copo, telemóvel, Go Pro, etc. O número de bolsos permite arrumar tudo +/- separado de modo a não haver chocalhos durante a corrida. Quanto à ajustabilidade, para mim é o ponto forte desta mochila, e faz esquecer imediatamente o dinheiro que damos por ela. Como eu disse atrás, quase que se veste como uma peça de roupa. Durante as quase 14 horas nunca em nenhum momento senti alguma irritação ou incomodo, e acho que isso diz tudo.

Bastões - Black Diamon Ultra Distance

No Douro Ultra Trail fiz um novo melhor amigo. Mas apesar de termos passado quase 14 horas juntos, só sei o street name dele - Black Diamond (penso que é rapper). Nunca tinha corrido com bastões e estreei os meus num treino no Almonda, 15 dias antes. Nesse treino fiquei um pouco na dúvida, na altura não lhes achei grande utilidade, nem tinha a certeza se me estavam a ajudar ou não. Todas as duvidas foram dissipadas no Douro. Acredito que não esteja a usar a melhor técnica, mas a verdade é que a coisa é bastante natural, e não só nas subidas! Não sabia que os bastões seriam úteis nas descidas até, sem me ter apercebido disso, os começar a usar nas descidas mais violentas como forma de aliviar a pressão nas pernas. Cheguei ao fim da prova com os braços doridos e isso só quer dizer uma coisa - toda a força que fiz com os braços não a fiz com as pernas. Apesar da minha mochila ter maneira de os transportar, corri com eles armados do inicio ao fim. São super leves (pagamos bem para isso), e não me incomoda muito correr com eles na mão. É muito mais prático porque quando precisamos deles estão logo ali. Quanto ao processo de escolha, mais uma vez foi baseado nos conselhos de amigos que têm uns iguais. Sei que existe outro tipo de bastões que têm um sistema de abertura telescopico. Já li opiniões favoráveis a uns e outros, mas como corri com eles sempre armados essa parte para mim é irrelevante. 

Frontal - Led Lenser H7


Quando comprei este frontal ainda nem sequer pensava em fazer trail. Usava-o nos meus treinos diários na altura do Inverno. Mais uma vez, se quiserem ver uma critica profissional espreitem este video do Paulo Pires. Para mim, o factor preponderante na escolha foi o conforto, e este frontal oferece isso. A minha cabeça tem um formato um bocado cilíndrico, o que faz com que a fita cá atrás escorregue desajustando a posição da luz. Felizmente, este modelo permite adaptar a inclinação da lanterna, o que ajuda muito. Além disso também podemos controlar a intensidade da luz e o foco, iluminando uma área maior ou menor. O controlo de intensidade é importante para pouparmos bateria. Quanto à bateria (neste caso 3 pilhas AA) teve um teste de fogo no Ultra Nocturno da Lagoa de Óbidos. Como andei sempre com a intensidade no máximo (300 lumens) esta foi-se após umas 5 horas, não apagando a luz mas diminuindo de intensidade. Penso que em futuras provas vou diminuir a intensidade para que dure a noite toda, os olhos também se habituam a correr no escuro. Nessa mesma prova cheguei a outra conclusão: o frontal é confortável em corridas pequenas, mas com o acumular das horas aconteceu um problema. Como a fita escorrega para baixo na nuca, vai apoiar nas orelhas, o que incomoda. A solução é muito simples: usar um buff, gorro ou chapéu!

Roupa


Neste capítulo confesso que sou do mais primitivo que pode haver. Vamos começar por baixo:

Meias - critério de escolha: ir à Decathlon e analisar a secção das meias. Procurar o preço mais caro e o mais barato e de seguida encontrar um que fique a meio (de preferência comprar um daqueles conjuntos que trazem logo 3 ou 4 pares). ...Eu sei, eu sei, as meias são quase tão importantes como as sapatilhas, é o que se diz! Mas sinceramente ainda estou para perceber porquê, para mim desde que sejam confortáveis e não se enrolem dentro da sapatilhas estão boas! Por outro lado, nunca corri com aquelas meias de compressão, secalhar o problema é esse...

Perneiras - Compressport R2 - Hoje em dia toda a gente corre com meias ou perneiras de compressão. Comprei o meu único par em 2011, antes de fazer a minha primeira Maratona. Por esta altura, além de terem um corte que faz quase o perímetro da perna, já foram tantas vezes lavadas que praticamente não fazem compressão, uso-as para não me arranhar quando faço trail. Já fui um grande defensor de perneiras de compressão, hoje em dias já não tenho bem a certeza... Talvez por isso, esqueci-me de levar para o DUT, mas não me preocupei muito com isso. Corri na mesma sem elas e a verdade é que não me fizeram falta... É verdade que as minhas estão muito gastas e já não fazem o efeito pretendido, mas estou reticente em voltar a gastar 30 e tal euros por outras (eu disse que era forreta eheh).

Calções - Só corri uma vez ou duas com calções de compressão e não me senti confortável. Tal como as perneiras, tenho algumas duvidas quanto aos benefícios. Uso daqueles básicos do atletismo, curtos e largos. Nunca me assaram as pernas e são confortáveis (e são baratos), para mim é o mais importante. Os que vêm na foto são os meus calções da sorte, oferecidos este ano na Maratona de Sevilha. No entanto, analisando o pelotão, é visível que 90% dos atletas usam calções e/ou perneiras de compressão, por isso provavelmente o problema é meu. Qualquer dia dou-lhes outra oportunidade.

Há outros equipamentos, nomeadamente os impermeáveis, que gostava de vos falar aqui e tentar perceber a exorbitancia que pedem pelos casacos, no entanto ainda não tive oportunidade de correr com um. Fica para um dia destes!

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Douro Ultra Trail - 80km - Um dia perfeito! ..Ou nem por isso?

Há dias perfeitos. Dias em que tudo corre como o plano, sem mudar uma virgula. Com a corrida é igual, todos nós já tivemos um desses dias. Começamos, corremos e cruzamos a meta com um sorriso enorme na cara. Passamos pela obrigatória dose de sofrimento, mas no fim tudo é esquecido e compensado quando passamos por baixo do pórtico de chegada! Vocês sabem do que eu estou a falar, de certeza!

Este sábado parti para a maior aventura da minha vida, o Réccua Douro Ultra Trail. A proposta era fazer 80km e quase 4500D+ nas encostas do Douro Vinhateiro e na Serra do Marão. Paisagens deslumbrantes, uma organização a prometer muito, amigos e família, a juntar a recentes "dias perfeitos" passados em trilhos de outras paragens, tudo fazia prever uma dessas corridas perfeitas! No entanto, no meio da minha confiança/euforia, esqueci-me de incluir um factor determinante nesta corrida: ia mergulhar de cabeça num mundo desconhecido. Sem me aperceber disso, comecei uma jornada que iria empurrar o meu corpo e principalmente a minha mente para um lugar extremo. Nas próximas linhas quero partilhar convosco a minha viagem, onde subi (literalmente) às nuvens e desci a lugares escuros e escondidos da minha mente. 

Será que foi um dia perfeito?


1ª Etapa - Peso da Régua (partida) - Rede

Sou azelha e não consigo assinalar a parte correspondente à Etapa, mas abram a imagem e vejam :)
A partida foi dada às 6 da manhã no Museu do Douro, na Régua. O hotel onde fiquei hospedado com o João, a Sara e a Maria Amélia ficava a 500 metros do Museu. Depois de uma noite naturalmente mal dormida, saí do hotel com o João às 5:30. Saímos descontraidamente para irmos ao encontro dos outros 3 colegas que tinham ficado em solo duro, num local designado pela organização. Nos 500 metros que percorremos na bonita avenida junto ao Douro os meus pés parecia que não tocavam no chão. Era noite serrada, temperatura amena e céu limpo iluminado por uma grande lua que deixava ver os contornos do rio e dos montes que se erguiam em todas as direcções. Sentia que ia ser um dia especial. Andei a antever isso nas ultimas semanas

A meta estava instalada num terraço com vista para o rio no Museu do Douro. Nele estava instalado o pórtico mais original e dos mais bonitos que já vi. 


Os nossos amigos já lá estavam, assim como o resto dos companheiros da viagem do dia. Nesta altura ainda não saíram as classificações, por isso não sei ao certo quantos éramos, mas certamente menos que 100. A noite, o local bucólico, as poucas pessoas presentes, a juntar à musica de tom épico que passava no fundo, reforçaram a minha sensação de que algo especial se ia passar nas próximas horas. 

Antes da partida o João Marinho, conhecido trailler/ciclista de montanha e organizador da corrida, fez uma breve apresentação da prova ao microfone. Este, ao contrário de praticamente todas as provas que participei, ouvi com atenção. Depois de confessar que adorava estar ali connosco, passou o microfone a outro e foi para a linha de meta dar a partida. 

10, 9, .. Cumprimentei os meus colegas 8, 7, .. desejos de boa prova 6, 5, .. tempo para mais uns saltinhos de ansiedade 4, 3, .. respirar fundo, de olhos fechados, 2, 1... 

Começou.

Saímos do terraço do museu e rapidamente descemos para as ruas do Peso da Régua junto ao Douro, para uma parte do percurso que eu penso ser em comum com a Meia Maratona do Douro Vinhateiro. O pelotão ia todo junto num silencio ansioso, como se todos estivessem não só a começar uma corrida mas a entrar noutro mundo. Percorremos +/- 2km ainda na Régua antes de chegar à primeira encosta a transpor. 

Logo no inicio desta primeira subida verifiquei uma característica, que acredito ser única, neste trail. Como vos disse no inicio, a proposta era correr não só na Serra do Marão mas também no Alto Douro Vinhateiro. Todos conhecemos as espectaculares vinhas instaladas nas encostas do Douro que fazem desta região Património Mundial, mas não são só as vinhas que fazem a região, são as aldeias, as adegas e as pessoas. A organização é local e sabe isso melhor que ninguém, e quis fazer desta prova uma experiência completa. Com excepção da parte na Serra, todo o percurso foi feito a entrar e a sair de pequenas aldeias, passando por intermináveis e omnipresentes vinhas. Em todas as aldeias que passámos, que foram muitas e muitos isoladas, nunca faltou o apoio dos habitantes que olhavam incrédulos para aqueles astronautas. Também para eles aquilo era uma experiência diferente, via-se que estavam orgulhosos de ter ali aquela gente nova na sua terra e isso notou-se em cada "bom dia" sempre retribuído. Ora, esta ideia de experiência completa leva-me a falar doutro ponto que acredito ser dos únicos a causar alguma polémica sobre a excelência da organização. Ao andarmos dentro das aldeias foi muito comum passarmos por sectores em alcatrão. Com contas muito por alto, penso que teremos corrido entre 6 a 8km no total em alcatrão. Enquanto lá corria pensei logo que seria polémico junto dos puristas do trail, mas eu aceitei de bom grado. Para mim esta característica de poder conhecer a fundo a região é muito mais importante e significativa que arranjar obstáculos super técnicos em todos os quilómetros.

Uma das pequenos aldeias por onde passámos.
Esta primeira etapa foi quase toda percorrida ainda de noite nas encostas do Douro. Uma subida lenta e pouco violenta por vinhas e aldeias. Logo nas primeiras vinhas fiquei com uma sensação que não me abandonou o resto da prova: como deve ser duro trabalhar nestas encostas! 

Nesta altura ainda era a lua que deixava perceber os contornos da paisagem, já desejava que o sol nascesse de uma vez, até parecia mal empregue andar ali e não apreciar o que nos rodeia! Este apareceu de vez depois de transpormos a primeira encosta, bem a tempo de iluminar um dos famosos vales do Douro. Foram tranquilos e seguros, os 13km até ao primeiro abastecimento em Rede. Sentia-me bem e confiante quando lá cheguei. Seria um dia perfeito, só podia!!

Passámos por inúmeros caminhos destes, aqui a ser limpo pela organização (louvável esforço!)
O 1º abastecimento estava super completo. Cheguei com um pouco de fome, apesar (ou por causa) do pequeno almoço que tomei. Decidi armar-me em esperto e comi uma pratada de massa com ovo ainda no hotel! O resultado foi não ter comido nada de jeito, problema que resolvi neste abastecimento. Sem pressas, demorei-me muito tempo nele. 

Em todos os abastecimentos estava afixado o menu que se seguia até à próxima paragem. Distancia, desnível positivo e negativo. Como podem ver no gráfico, este estava situado na cota zero, bem na base do serra. Seguia-se a conquista à Sra. da Serra, no topo do Marão. Seriam 18km com 2000d+.

2ª Etapa - Rede - Passos


A primeira parte da subida ao Marão foi muito parecida com a etapa anterior, continuámos de aldeia em aldeia e de vinha em vinha. Passámos por Mesão Frio, de onde partiu o trail de 44km, e seguimos com a subida lenta e constante. Nesta altura o pelotão, que seguia compacto, já se tinha desfeito completamente, e dificilmente se via alguém para trás ou para a frente. Eu continuei, agora já só acompanhado pelo João. Lá ao fundo erguia-se imponente o Marão. 

Por agora seguia a mesma estratégia de sempre. Subidas a andar e corrida em plano e a descer. Como sempre, estava a funcionar na perfeição. A confiança subia perigosamente, e a meio da etapa até mandei uma mensagem à Sara a dizer que estava mais rápido do que pensava, que o melhor era estar na Sra. da Serra mais cedo do que tínhamos planeado. Pobre ingénuo..!!

Durante esta etapa deu-se a primeira baixa do dia. Pela segunda vez, não aguentou um trail até ao fim, cedendo precocemente a uma falta de energia total. Mesmo após uma noite inteira a preparar-se, numa tentativa desesperada de encher os depósitos, mais uma vez a Go Pro que levei ficou-se pelos primórdios da prova! Resultado: transporte de um peso extra e zero fotografias durante o percurso! Obrigado Go Pro! O que vale é que os fotógrafos eram às dezenas em todo o lado, de certeza que vão aparecer por aí boas recordações. Por isso já sabem, a maior parte das fotos que vou aqui colocar são escandalosamente roubadas do facebook da organização :).

3ª Etapa - Passos - Sra. da Serra


O Marão.

Nunca tinha ido à Serra do Marão, por isso foi tudo uma completa descoberta. A sensação que fiquei foi que é uma serra muito pouco explorada, tudo parece virgem. Não se vêm estradas em lado nenhum, a única maneira de apreciar o local é percorre-lo como nós o fizemos - por trilhos e estradões. E, meu amigos, como o Marão tem potencial para ser apreciado!

Só um exemplo
A subida começou por um estradão na encosta de um vale monstruoso. O que vale é que o caminho não tinha grandes obstáculos, porque passei mais tempo a olhar para o que me rodeava do que para o chão. Não vi uma única estrada de alcatrão a dar acesso àquele vale, fomos uns privilegiados! Nesta altura o meu companheiro João afastou-se de mim. Fortíssimo a subir, deixei de o conseguir acompanhar assim que as inclinações aumentaram. O resto do percurso fui sempre sozinho.

O tal estradão ao longo da encosta.
Há umas semanas a organização fez um post no facebook a apresentar-nos a Diana, uma subida com 1km e 30% de inclinação. A Diana estava à nossa espera no km 27, e confesso que desde há algum tempo que estava ansioso por a conhecer. Foi exactamente nesse quilómetro que se fez a separação do trail para o ultra. O pessoal dos 44km seguiu pelo estradão, os tontos dos 80 viraram à esquerda, para enfrentar a encosta.

Um conselho que dou àqueles que, como eu, são inexperientes no trail: quando vos disserem que uma subida tem um nome, desconfiem! 

Senhora e senhores, a Diana!
Aqui noutra perspectiva, que também a favorece
Uff.. A Diana tem uma personalidade forte, há que dizê-lo.. Os 30% de inclinação são exactamente aquilo que se espera deles, demolidores. Num trilho super técnico a cortar a encosta virgem, esta ergue-se por centenas de metros à nossa frente. E como qualquer boa subida, é daquelas que quando pensamos que já está conquistada, ela saca de um pontapé rotativo que nos acerta em cheio no peito! Toma lá com mais uma escaladazinha que ainda não estás estafado o suficiente! Foi sem dúvida das melhores subidas que já percorri. A Diana passou mas deixou-me marcas, nunca mais me esqueço dela. Peço desculpa Sara, mas há que admiti-lo..

Transposta a Diana entrámos no coração do Marão. Descemos por estradões entre as grandes éolicas durante cerca de 1km até novo desvio à direita para mais uma escalada. Aqui foi a primeira e única vez que me enganei. Não que o percurso estivesse mal assinalado, mas ia distraído a olhar para o chão e não reparei. Dei por isso uns 200m depois, quando oiço um colega a assobiar lá BEM acima! Grande sorte, se não fosse ele tinha continuado embalado na descida. Quanto às marcações posso dizer que estiveram perfeitas. Nota-se quando o percurso é marcado por um praticante de trail, as fitas estão exactamente onde têm que estar. Além disso em quase todos os cruzamentos estavam voluntários (bombeiros, escuteiros, membros da organização ou simplesmente locais) que nos ajudavam e invariavelmente davam uma palavra de incentivo! Incansáveis do primeiro ao ultimo km, muito bem!

Antes da prova tinha dito à Sara que chegaria ao alto do Marão entre as 11 e 11:30 da manhã. Apesar do acesso de euforia a meio da subida, às 11:30 em ponto cheguei lá acima. No abastecimento estava a Sara e a Mel à minha espera, assim como o habitual banquete da organização. 

Uma imagem do abastecimento, bem no cimo da Serra. Na fotografia o Omar e uma parte da minha comitiva de recepção :)
Mais uma vez demorei tempo QB no abastecimento. Comi com calma e recuperei o fôlego da grande subida. Falei durante uns minutos com a Sara que me informou da situação dos meus colegas de Almeirim e fiquei descansado quando soube que todos estavam bem e animados. 

Depois da grande conquista da Sra. da Serra era altura de descer. Despedi-me delas e pus-me a andar. Estava na altura de descer das nuvens, literal e figurativamente.

Ao nível das nuvens.

4ª Etapa - Sra. da Serra - Soutelo


Quem corre em trilhos sabe de uma verdade incontestável: subir é difícil, mas descer pode ser tão ou mais penoso. A descida da serra começou por um troço de cerca de 2km em alcatrão, num caminho municipal muito rudimentar. Mergulhámos de novo na serra pouco depois. O João Marinho avisou-nos que este lado da serra teria muito mais vegetação que a encosta que subimos, e isso verificou-se imediatamente. Entrámos numa floresta densa, com árvores gigantes, daquelas que só vemos em postais dos Alpes. 

Já na floresta, a primeira parte da descida foi a mais técnica. Gostava de ter uma foto para vos mostrar, mas vou tentar ilustrar. Imaginem um rio a correr numa encosta. Agora imagem que em vez de água estão a correr pedrinhas. Agora imaginem que essas pedrinhas são rochas que vão desde o tamanho de uma bola de ténis a uma cadeira. Por fim imaginem que essas rochas são super angulosas e soltas. Pronto! Penso que é mais ou menos isto. Nesta descida arrisquei zero. Progredi de forma mais lenta que na subida, mas aquelas pedras soltas estavam mesmo a pedir um pé torcido e eu não quis arriscar. 

Depois do rio de pedra continuámos a descer por estradões embrenhados na floresta, até mais um desvio à direita. Um desvio, e que desvio. Os próximos 500 metros foram os meus preferidos de todos os 80km.

Saímos do estradão e entrámos a fundo na floresta densa. As árvores que se erguiam a dezenas de metros estavam baseadas num solo verde da vegetação densa e fofa. A organização abriu aqui um trilho que serpenteava entre os troncos gigantes das árvores. Corremos por este trilho encantado durante cerca de 300 metros até que saímos finalmente da linha das árvores e deparamo-nos com isto:

Tentem imaginar a vista sem a equipa da organização que fazia a limpeza dos trilhos :)
Dei três passos e tive que parar. Senti um arrepio no corpo todo, e lembro-me perfeitamente de ter pensado: é por isto que faço trail.

O 4º abastecimento estava situado em Soutelo, uma aldeia pequeníssima no coração da Serra. A descida, como previsto, tinha-me massacrado bastante as pernas, apesar de ter vindo ultra cauteloso. A cautela ficou reforçada quando a meio do percurso ouvi um membro da organização a dizer "poupai-vos nas descidas que ainda vão sofrer muito até Fontes!" Ok amigo, se tu o dizes, toca a abrandar!

No abastecimento estavam mais uma vez a Sara e a Mel, que como sempre me encheram os depósitos de ânimo. Disse-me que na Sra. da Serra ainda tinha apanhado o 5º elemento da comitiva Almeirinense, o David, que teve problemas de desidratação na subida e progredia com muita dificuldade. Vim a saber depois que mesmo com grandes dificuldades conseguiu terminar a prova. Um guerreiro, como sempre!

Ao contrário das previsões meteorológicas que apontavam para aguaceiros e trovoada, estava um dia de fim de verão perfeito, com céu limpo e temperaturas amenas. Ah, e muita humidade! Desde o primeiro quilómetro que corria completamente ensopado em suor. Depois da má experiência há duas semanas no Almonda, não facilitei e bebi quantidades enormes de água e isotónico.

Saí do Soutelo com o mau pressentimento que a próxima etapa seria determinante no desenrolar da prova. 

Não me enganei.

5ª Etapa - Soutelo - Fontes


É a velha questão e uma regra básica do trail: não se fiem nos gráficos de altimetria! De facto, ao analisar o desta prova, parecia que depois da subida ao Marão o percurso seria bastante acessível até à meta. Não podia estar mais enganado.

Com as pernas doridas da descida, comecei a percorrer os 14km que me separavam de Fontes com pouca confiança. O percurso foi um sobe e desce constante, não com segmentos muitos compridos, mas cada um mais duro que o anterior. A certa altura subimos uma encosta no meio das árvores daqueles que temos que nos agarrar o tudo o que podemos. O suor escorria em bica e sentia o coração a saltar pela boca. Agora que olho para o gráfico parece um pequeno saltinho...

A partir dos 45km comecei a olhar para o relógio de 5 em 5 minutos. Mau sinal. Sentia-me cada vez mais preso, cada vez mais fraco. O percurso não perdoava e quando começava a ganhar uma restea de confiança por uma descida menos violenta ele logo me atirava com uma dificuldade. A subir ou descer, já tudo me custava. Nesta altura os bastões tornaram-se os meus melhores amigos, utilizava-os nas subidas para me puxar, nas descidas para retirar alguma pressão das pernas e nos planos para conseguir correr.

Aos 53km olhei para o relógio e pensei "ok Filipe, estás a entrar em território desconhecido".  Vamos a ele então.

Os 53km coincidiram com o inicio de uma subida de cerca de 1km para entrar numa aldeia. Nessa subida, uns metros acima, vi o meu amigo João, o tal que é forte a subir. Tinha recuperado algum tempo e imediatamente animei com a perspectiva de fazer o resto da prova com ele, só tinha que o apanhar...!

Ataquei a subida.

Cada vez mais apoiado nos bastões prossegui numa marcha muito lenta e penosa. Ficava sem fôlego a cada investida e sentia as forças a diminuírem cada vez mais. 

Andava 50 metros e parava para descansar.

O João já tinha desaparecido há muito e com ele o ânimo. Demorei uma eternidade a entrar na aldeia e quando cheguei lá acima devia ir com muito má cara, porque uma rapariga da organização disse-me logo que tinha uma fonte a uns metros, para abastecer de água antes de atacar a próxima subida! Praticamente tomei banho nessa fonte. Bebi água, molhei a cara e os braços, ensopei o buff e voltei a mete-lo na cabeça. Senti-me refrescado e aliviou um pouco, o sol nesta altura estava a pique.

Antes da próxima subida tinha uns metros bons em plano, decidi que nem ia tentar correr. Tinha os níveis de energia tão em baixo que queria guardar tudo o que sobrou para a escalada. 

Faltavam 2km para o abastecimento de Fontes, e este estava no fim da subida. Assim que a ataquei percebi que ia ser dificil. Na minha cabeça era inconcebível que a rampa se prolongasse por 2km. 

Andava 20 metros e parava para descansar.

O sol estava agora na máxima força, e talvez por estarmos na encosta não corria uma brisa. Parecia que tinha uma torneira aberta na cabeça porque o suor não parava de escorrer para o chão, já que ia curvado para a frente, apoiado nos bastões.

Andava 10 metros e tinha que parar para descansar.

Tal como a Diana, esta era daquelas subidas que não paravam de crescer e crescer a cada curva. Mas se na Diana cheguei a achar piada a isso, esta estava a assustar-me. Estava a sentir a força a desaparecer e com ela o ânimo. Cada vez mais...

Andava 5 metros e parava curvado a respirar fundo.

De repente a subida ganhou novo fôlego e inclinou ainda mais, num trilho pedregoso que dificultava a progressão. Comecei a ficar com tonturas. Parei e olhei para a minha mão, tremia. Respirei fundo, bebi mais uns goles de água e voltei a pegar no bastão.

Andava 4 passos e parava 1 minuto.

Sentia-me constantemente com sede. Bebi água e mais água mas não passava. As tonturas continuavam, lembrei-me que podia ser fome. Comi sofregamente as 3 barras que levava comigo. Era mesmo fome, porque me souberam a pouco! Voltei a beber água e tentei subir de novo.

Andei 3 passos. 

Parei.

Aqui a minha mente começou a viajar por locais estranhos. Estava com 57 quilómetros, não conseguia dar 5 passos seguidos. Se no resto do percurso andei sempre sozinho nesta altura passaram por mim 3 ou 4 atletas, que me perguntavam se estava bem. Respondia orgulhosamente que sim, mas não estava. Comecei a pensar que não ia conseguir acabar. Não a prova, mas aquela subida! Como é que ia fazer? Será que alguém me ia lá buscar? Não sejas parvo Filipe, tens pelo menos que chegar lá acima, a Sara está à tua espera!

Andei 4 passos.

De repente, ao olhar para cima vi uma casa. Era Fontes, a terra prometida! 

Andei 20 metros.

Bebia água como se a minha vida dependesse disso, mas a sede não passava. Faltam mais de 30km, não vou conseguir. Só tenho que chegar ao abastecimento.

Andei 50 metros.

Estava finalmente no topo do monte. À minha frente tinha um estradão plano e não uma íngreme subida, como na ultima hora. Em vez de passos pequenos comecei a caminhar. Arrumei a ideia de desistir num canto escondido da minha mente e arrastei-me desta maneira até ao Quartel dos Bombeiros de Fontes, onde estava a Sara.

Quando cheguei ao abastecimento não sabia o que havia de fazer. Era aqui que tínhamos o saco para mudar de roupa e podíamos comer algo quente, mas eu não conseguia fazer uma coisa nem outra. 

Tenho fome, é isso, tenho que comer! Pousei os bastões e agarrei-me a um prato de massa servido por uma bombeira.


Voltei a beber vários copos de água e isotónico, comi mais banana, bolachas, amendoins, batata frita...tudo o que por lá havia. Não havia de desistir pela fome!

Não disse à Sara que a ideia de desistir me tinha passado pela cabeça, mas avisei-a que ia chegar mais tarde que o previsto. Agora já só me havia de ver na meta, de uma maneira ou de outra.

6ª Etapa - Fontes - Medrões


Mais uma vez olhando para o gráfico, esta etapa não parece nada de especial, com excepção daquela ultima subida para Medrões, mas eu aprendi bem na ultima etapa a não ligar a isso, ia avançar com a máxima precaução.

Nos 2km a seguir ao abastecimento nem tentei correr, conformei-me que não ia conseguir voltar a fazê-lo até ao fim. O bom é que já pensava em "até ao fim".

Fui alargando a passada da caminhada e pela primeira vez em algumas horas não dei pelo tempo a passar. O que estava a acontecer?

Tentei correr um pouco em plano. As pernas responderam afirmativamente. Parei pouco depois, não queria abusar. Transpus uma e outra subida a bom ritmo, desci sem ajuda dos bastões e até ganhei velocidade.

Aos 65km entrámos em Santa Marta de Penaguião, uma vila maior que as habituais aldeias por onde passámos. Aqui tivemos o momento mais "fora" da prova, ao passar pelo relvado da equipa de futebol local eheh A corrida a sobrepor-se ao futebol, pelo menos durante aquele dia!

Ao passar no centro de Santa Marta perdi o respeito e comecei a correr. Mais uma vez as pernas responderam! Mas..ainda há pouco não dava 3 passos seguidos! Não pensei muito nisso, estava a sentir-me cada vez melhor, siga!!! Mais uma e outra e outra vinha sobe socalco, desce escada... Como disse no inicio, as vinhas são omnipresentes!

Cheguei à base da ultima subida. Era agora ou nunca. Estava com 70km, era o ultimo obstáculo, a seguir era a descer até à meta! Ataquei-a com muita precaução, estava avisado depois da ultima. Desta vez as pernas trabalharam e seguiam o ritmo imposto pelos bastões. Parei a meio para comer o ultimo gel e mais uma barra. Voltei à carga e mais uma vez obtive resposta. Está quase..

A meio da subida tivemos o abastecimento de Medrões. Mais uma vez "gerido" por pessoas muitíssimo simpáticas e prestáveis, super atenciosas e sempre dispostas a dar uma palavra de motivação. Confortaram-me dizendo que faltava apenas mais 1km a subir, a seguir era uma descida até à Régua! Foi o abastecimento onde demorei menos tempo, já não conseguia comer nada, só pensava no momento de voltar a entrar no Museu do Douro! 

Neste abastecimento enviei uma sms à Sara: "72km, esta já não escapa!"

7ª Etapa - Medrões - Peso da Régua (META)


Cumpri o tal quilómetro a subir cada vez mais motivado. A Sara tinha-me respondido a dizer que estava muito orgulhosa e que já me esperava na meta. Está quase..!!!

Já te despachavas pai....
Assim que cheguei ao topo do monte e vi a descida comecei a correr. Faltavam 6km. Já nem sequer pensava nas pernas, nos pés ou nos braços que ainda há pouco latejavam. Corri, corri, corri... Desci por caminhos entre as vinhas, por aldeias, em estrada, em estradões.. Corri por descidas de pedras soltas e de calçada. Olhava em frente e lá em baixo via a cidade. Corria cada vez mais, mais depressa!

Entrei em Peso da Régua já com o sol a por-se, mas de dia. Desci mais uma estrada e estava agora à beira rio. As pessoas aplaudiam enquanto passava, nos passeios, nas varandas, até ouvi um incentivo de um automobilista! 

Faltava 1km e o percurso mandava-me para uma ciclovia. A mim pareceu-me um tapete vermelho estendido de propósito!



Corri o quilómetro que faltava nesta ciclovia. Olhei para o relógio e seguia a ritmos impróprios, mas já não importava, estava QUASE!!!

Uma ultima e pequena subida para voltar a entrar na cidade, já via o Museu lá à frente e ouvia os aplausos e musica. Entrei com os braços no ar a segurar os bastões, vi o João Marinho que recebeu todos os atletas, também ele levantou os braços. Vi a Sara com a maquina fotográfica na mão e a Mel em pé junto ao carrinho. Vi o espectacular pórtico a 50 metros. Corri uns últimos metros na relva e...

ESTÁ FEITO!

13 horas e 40 minutos depois estava de volta ao terraço do Museu do Douro! 



Foi um dia em que tudo correu bem, em que não senti dificuldades e andei com um sorriso durante as 13h? Não, de modo algum...

Foi um dia perfeito :)

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Eu, desleixado, me confesso.

Já passaram 3 semanas desde a ultima vez que fiz um post. Como penitencia aceito as 10 rampas prescritas (?? não sou cristão, a cena da confissão é capaz de não ser bem assim, mas vocês perceberam).

Aprendi a confessar-me com o Homer.

Pois é..entre o trabalho a apertar e a ultima semana de férias, nunca mais cá consegui vir. Por isso, e para atalhar caminho, este post vai ser escrito por tópicos, para ser mais amigável! 

Novos objectivos - novos treinos

  • Com a aposta em trails, e nomeadamente com a aproximação do grande dia (DUT), decidi fazer uma mudança nos treinos. Deixei de lado os fartleks e séries (que tanto gosto) para passar a fazer rampas duas vezes por semana. O objectivo era aumentar o acumulado positivo semanal, mais do que aumentar a distancia percorrida. O culminar foi uma semana com 2300D+, com uma ajuda de um treino especial, mas já lá vamos a esse.

13.5km com 700D+, nas rampas de Santarém. Nada mau!

Extreme Almonda

  • O tal treino especial que falei há pouco foi no sábado, dia 30 de Agosto. Juntamente com 3 colegas Almeirinenses decidimos que o Trail do Almonda deste ano tinha sido uma farsa e fomos fazê-lo como deve ser: com mais de 30ºC! Tracks carregados em dois relógios, e lá fomos nós! O meu objectivo principal para este treino era testar os bastões que vou levar ao DUT e ao mesmo tempo fazer um longo com um bom acumulado. Ok, essa parte correu bem, o objectivo foi cumprido na perfeição. Não contava era com outras duas vertentes de aprendizagem que aconteceram! Primeiro perdemo-nos antes de iniciar a primeira grande subida. "Vamos paralelos ao trilho, é só ir subindo!" Certo, ir subindo e tentar sobreviver a um mato cerrado que mais parecia arame! Foi quase 1km praticamente a rastejar, a levar constantemente com ramos na cara (nesta altura apeteceu-me queimar os bastões), com pernas e braços já em sangue de tanto arranhão. A segunda lição acentuou o cariz extreme deste treino. Lembram-se de no meu relato do Trail do Almonda como eu disse bem dos abastecimentos de 5 em 5km? Pois é.. curiosamente naquele dia não estava lá ninguém a distribuir água e tomate com sal. Só levei um litro de água que rapidamente percebi ser insuficiente. A partir dos 15km tentei poupar ao máximo, até estar tão desesperado que bebi sofregamente tudo de uma vez. Claro que não adiantou de nada. Nunca tinha chegado a tal ponto de desidratação e fiquei francamente assustado. A certa altura tinha vontade de urinar e já não conseguia. As pernas já não respondiam e sentia-me completamente esgotado, só pensava em beber água. O resultado é que no Douro Ultra Trail, além das duas garrafas de meio litro, vou levar ainda uma bolsa de 1.5l na mochila, é essencial não chegar a este ponto sem retorno.
A parte da Armada Almeirinense do Trail que esteve no Extreme Almonda.


Férias são para descansar!

  • Seriam, se não estive a escassas duas semanas de um trail de 80km! Este ano trocámos o campismo em Porto Covo por uma semana num apartamento em Armação de Pêra. Não posso dizer que tinha grandes saudades do Algarve, mas não tivemos coragem de nos enfiar numa tenda com a mai nova. O bom de ter uma miúda de 1 ano connosco é que nunca entramos propriamente em modo férias (bom??), por isso consegui correr todos os dias. Foi uma semana de 75km. Sempre em plano e a ritmo baixo, é certo, mas o ideal para descansar das rampas que já se estavam a acumular nas pernas das ultimas semanas. As pequenas mazelas que tinha no corpo desapareceram todas e agora é só confiar na velha máxima: "o treino está lá!", e esperar que seja suficiente para sábado.

Réccua Douro Ultra Trail

  • Eish! Faltam menos de 5 dias! Sábado às 6 da manhã parto para a maior aventura desportiva da minha vida. Ando ansioso há semanas, mas é uma ansiedade boa. Só quero que chegue a hora para me fazer ao caminho! O problema é que o caminho tem 80km e 4500D+, muitissimo mais do que qualquer coisa que fiz até hoje. Estou preparado? Tenho pernas para isso? O treino foi suficiente ou eficaz? Pois, boa pergunta. Não faço a menor ideia, é tudo novo para mim. De Almeirim vão 5 valentes aos 80km, a contar comigo. [Nota: será que existe outra terra em Portugal com tanto atleta de trail por habitante como em Almeirim? Principalmente tendo em conta que a cidade tem a orografia de uma folha de papel nova. Deve ser da Sopa da Pedra.] A Sara e a Maria Amélia, como sempre, vão comigo e vamos ficar duas noites por Peso da Régua. Penso que a prova não vai ter acompanhamento on-line, mas estou a estudar uma maneira da Sara ir fazendo updates no facebook do blog, até lá dou novidades, para quem queira seguir a prova. Ainda estou a estudar o equipamento que vou levar, e até sábado vou fazer um post sobre isso, para ler as vossas dicas. O perfil altimétrico é assustador. Destaca-se a subida ao Marão, que vai passar os 1400m de altitude. 



Parabéns ao Garmin!
  • Fez no dia 30 de Agosto 1 ano que comecei a correr com o Garmin 310xt. Foram 276 corridas e 3424km. Neste ano completei 3 maratonas e 3 ultra trails de 50km. Bati os meus records pessoais em praticamente todas as distancias e consegui passar incólume de lesões maiores! Mas o melhor de tudo foi mesmo o prazer que senti em praticamente todos os 3424km que corri. Dos 365 dias, só em 89 não saí de casa com as sapatilhas calçadas para correr. Passei horas sem fim sozinho, na estrada ou no mato. A corrida é mais do que um hobby, faz parte da minha vida. Já há uns anos que não existe um Filipe sem corrida, e isto só é possível por causa do grande pilar da minha vida, que é a Sara. Lamechices à parte, se não fosse a minha excelentíssima esposa comprovadamente a melhor do mundo, nada disto era possível. E sábado lá vai estar ela, com a Mel ao colo, à espera mais de meio dia que acabe de correr 80km. Parabéns ao Garmin? Nah, parabéns mas é a mim, que tenho uma sorte do caraças!