As minhas corridas na estrada

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Trilhos dos Abutres 2015 (50km) - brutal.

Três e meia da manha, toca o despertador. Estou na cama desde as 22 a insistir num sono leve e ansioso. Oiço os estores a abanar com o vento e a chuva a cair, nada que não estivesse à espera, as previsões apontavam nesse sentido. Num pensamento arrogante agradeço pela intempérie "vamos a isso, quanto mais difícil melhor!", achava eu. É incrível o que meia dúzia de provas bem sucedidas fazem ao nosso ego. De repente já ousava fazer frente aos Abutres, de peito feito! Mas eles puseram-me no meu lugar. Não, eles mandaram-me um rotativo na peito, uma esquerda seguida de uppercut no queixo e finalmente um cuspidela na cara quando já estava no chão!

Excelente cartaz, com o saudoso João Marinho
A hora marcada para o encontro com os meus colegas dos 20km de Almeirim era às 4:30 da manhã, e foi a essa hora que partimos de Almeirim rumo a Miranda do Corvo. Muita chuva e vento pelo caminho aumentaram a ansiedade. Um nervoso miudinho apoderava-se de mim mas sem me provocar medo ou respeito, só me queria fazer ao caminho! A 10 minutos de chegarmos a Miranda recebo uma sms da organização a avisar que devido às condições climatéricas a partida seria adiada duas horas. Nãoooo!! Já me estava a ver nos trilhos e agora faziam-me esperar esta ETERNIDADE? Grande desilusão! Ainda por cima se estão condições perigosas tanto melhor, a malta quer é dureza!

....agora que penso nisso, juro que nesta altura passou um abutre a voar e se vinha a rir!

A ansiedade dentro do pavilhão era palpável. O levantamento dos dorsais decorreu sem qualquer problema e o saco de ofertas incluía um magnifico buff da prova, mesmo da marca Buff original! Por ali nos mantivemos durante hora e meia a fazer tempo até às 9, para nos equiparmos. O tempo em Miranda não estava muito mau, mas no horizonte dava para ver as omnipresentes nuvens negras a cobrir a Serra. 

A excelente e muito completa feira Abutrica, vista das bancadas.
Eram nove horas e finalmente fomos equipar-nos. Mais uma vez, a arrogância imperou. "impermeável? Epah não sei bem, se calhar levo só na mochila, não deve estar assim tão mau... Luvas não levo, só vai atrapalhar". Felizmente ainda tinha uma gota de bom senso em mim, e parti com uma camisola de manga comprida, uma t-shirt do clube por cima e o impermeável vestido. Um buff na cabeça e outro no pescoço. Nas pernas, o habitual calção curto e nenhuma compressão. Ah, e sem luvas. Falo-vos da minha escolha de equipamento porque mais à frente ela vai-se revelar crucial, quase fatal para a minha continuação em prova!

Depois de um justificadamente rigoroso controlo zero encaminhámo-nos para o exterior do pavilhão. Estava finalmente na hora da partida! Como que a gozar connosco, o tempo nesta altura estava óptimo! Um sol radioso e temperatura amena elevavam a moral e o entusiasmo. 536 atletas estavam prestes a entrar na aventura de uma vida. 

5 dos 7 Almeirinenses presentes
A partida foi dada às 10 em ponto. Iniciámos então cerca de 5km corridos dentro de Miranda, para dispersar o muito grande pelotão antes de entrarmos nos trilhos. Foram 5 ou 6km nas ruas da cidade, muitas vezes com vista para um ribeiro que corria furiosamente ao nosso lado, quase a transbordar. Apesar de no sábado não ter chovido anormalmente, o mesmo não se pode dizer dos últimos dias. Entre conversas com alguns atletas locais, disseram-me que há 3 dias que chovia ininterruptamente na Serra. Cá em baixo conseguimos ter vislumbres do resultado dessa chuva, quase como um aviso da natureza. 

O rio que transbordou e inundou um campo de jogos
Percorri estes 5km a forçar um pouco o ritmo o que me colocou na metade da frente do pelotão. Na altura achei que talvez tivesse abusado, mas agora sei que esta decisão pode ter ditado a minha continuidade em prova. Já vão perceber porquê.

A entrada nos trilhos foi tranquila. Algumas poças, alguma lama, subidas difíceis mas não demasiado inclinadas e 1 ou 2km de trilhos corriveis que serpenteavam na floresta da Lousã. À medida que avançamos ficamos mais e mais embrenhados na Serra e no mundo dos Abutres. O ribeiro que corria ao nosso lado atravessa-se vezes sem conta à nossa frente. Ora pra cá, ora pra lá, lá fomos passando por cima dele. Umas vezes era uma passagem tranquila, noutras lá íamos molhando uma perna até ao joelho. De repente deixa de haver leito do rio, há um liquido castanho que corre por todo o lado! Não dá para saltar de um lado para o outro do ribeiro porque estamos a subir por dentro dele!

A minha cara parece dizer "Elaaaah, então mas, mas...."
A chuva que caiu nos últimos dias escorria sem regras pelas encostas da Serra, todos os caminhos valiam. Os trilhos abertos serviam como canais que facilitavam a descida da água, e era mesmo por aí que ela decidia vir. Pelo caminho trazia terra, folhas e matéria orgânica que lhe escureciam a cor. De vez quando parecia que corríamos contra uma torrente de lava castanho escura, quase preta, viscosa, que avançava vagarosamente cobrindo completamente o chão à nossa frente. Os buracos e raízes apareciam de surpresa, à traição, e os pés enfiavam-se muitas vezes dentro de armadilhas que nos enterravam até acima do joelho. Dizer que a progressão era lenta é favor. O terreno era plano e provavelmente corrivel em condições normais, mas naquele dia as condições estavam longe de normais. Todos os passos eram cuidadosamente medidos e ponderados, a consequência de não fazer este processo seria uma queda ou um pé torcido.

Conseguem ver lá à frente alguém que caiu numa armadilha.
Os Abutres estavam finalmente a mostrar a sua personalidade. Rapidamente percebo que não me iam dar tréguas, nunca! A cada troço de 200m que conseguia correr seguia-se um obstáculo incrivelmente técnico. Começaram então a surgir as subidas. Mas não eram simples subidas! Eram autenticas escaladas por encostas completamente enlameadas. Cada passo em frente era um desafio, cada apoio era seguido de uma escorregadela. Subíamos agarrados a árvores, a pedras, aos bastões, uns aos outros, como desse! Subimos sem parar tempos e tempos, com a dificuldade sempre a aumentar, sem dar tréguas!

Um exemplo do tipo de subidas por onde andámos vários quilómetros
Esta prova é conhecida pela sua dificuldade técnica elevadíssima, mas não nos podemos esquecer de avaliar o desnível acumulado. Foram 2450d+ muito duros, quase sempre por trilhos muito técnicos que nunca nos deixavam subir com um passo certo. A meio de grandes subidas por vezes apanhávamos um descida a pique, um autentico escorrega de lama e pedras que exigia a máxima concentração e não permitiam o mínimo descanso. 

O perfil, que só conta uma parte (pequena) da história
O primeiro abastecimento, ao km 15, marcava o inicio do primeiro ataque aos 900m de altitude. Encostei no abastecimento para comer qualquer coisa, já que o pequeno almoço tinha sido às 4 da manhã. Assim que paro oiço um grande trovão. Ok, vamos ter festa. Foi logo a seguir ao abastecimento que apanho a primeira chuvada de granizo. Toda a gente que ia perto de mim começou aos gritos de alegria, sorrisos, piadas, ....  Já íamos com 15km de Abutres e mesmo assim continuávamos a menosprezá-los. Mas não ficaríamos a rir durante muito mais tempo.

Considero que a prova só começou verdadeiramente neste ponto, no inicio desta subida. Mais uma vez, foi implacável. Cada vez mais embrenhados num floresta muito densa. O som da água a correr era omnipresente, por todo o lado víamos correntes de água que desciam violentamente pela encosta. Muitas vezes a vir contra nós. O granizo que há pouco teve a sua piada não parou e até aumentou. Era agora incomodativo e aumentava ainda o caudal de água. As paredes sucediam-se e só eram interrompidas com descidas abruptas no meio da lama. Correr era praticamente impossível, até andar era difícil. Seguia com máxima concentração, sempre focado no passo seguinte.



À medida que subíamos e nos aproximávamos da cota máxima a temperatura baixava perigosamente. O vento soprava agora cortante, já que a vegetação diminuía à medida que chegávamos perto do topo. O granizo tinha-se transformado em flocos de neve que se transformavam em água assim que tocava no chão. Sentia-me a arrefecer muito e foi aqui que começaram os meus problemas. Estupidamente, e reforço a palavra ESTUPIDAMENTE, achei que não precisaria de luvas, logo eu que tenho muitas dificuldades em aquecer as mãos! Mas agora ia pagar um preço muito elevado por isso.

Dá para ver o granizo
Os polegares foram os primeiros a perder a sensibilidade. Custava-me agora a agarrar nos bastões. De seguida foram os dedos mindinhos. A perda de sensibilidade começou a dar lugar a uma dor horrível nos dedos. Parei, várias vezes, tirava a alça do bastão e tentava mexer as mãos, batê-las contra as pernas para ganharem vida, mas nada. Não conseguia dobrar 2 dedos de cada mão, e quando forçava o movimento tinha dores de morte. O vento, cada vez mais forte e frio, cortava-me as mãos que imploravam por calor. Comecei a sentir uma dormência muito grande nos 3 dedos que me "restavam", até deixar de sentir as pontas. Estava agora no ponto mais alto da Serra e debaixo de uma chuva intensa de granizo. A meio de cada subida só pedia um troço recto para conseguir correr e recuperar a temperatura corporal, mas o Abutre é cruel e no fim de cada subida apresentava-me mais um escorrega de lama dificílimo. Comecei a ter pensamentos tão negros como as nuvens que me cobriam, apetecia-me ir para casa ter com a minha filha e mulher, para o quentinho e conforto da minha casa. Estava a entrar em desespero com as mãos que deixei de sentir por completo. Foi num trilho apertado, bem lá em cima, que perdi a esperança. 

Mandei os bastões para o chão, não consegui encostá-los, e meti as mãos dentro do impermeável, junto ao corpo. para as aquecer com o calor corporal. Não estava a resultar e comecei a arrefecer ainda mais. Tirei a mochila para sacar da manta térmica e embrulhar-me nela, a minha prova acabava ali, só pensava como conseguiria voltar para casa!

Assim que tiro a mochila passa um colega por mim, que me pergunta se estou bem. Eu digo que estou +/-, que tinha perdido a sensibilidade nas mãos e que estava a arrefecer muito. Ele perguntou-me: "Queres umas luvas? Trouxe um par a mais!". 

Só conseguir balbuciar uns 4 ou 5 obrigados, que me tinha salvo a prova, obrigado obrigado! Ele reconheceu-me do blog, coincidência das coincidências, era o Paulo Oliveira do "Pela Estrada Fora"!! Continuei a agradecer-lhe, quase em lágrimas, até que ele seguiu. 

Tinha as mãos tão rígidas que não conseguia calçar as luvas grossas, até que passa mais um colega por mim que me pergunta se estou bem. Peço-lhe ajuda e ele passa ali dois minutos a calçar-me as luvas. Incrível. 

Nunca falei aqui no blog do famoso "espírito do trail", porque acho que isso não existe. O que acho mesmo que existe são pessoas boas, dispostas a fazer tudo para ajudar o próximo. O Paulo e o colega que me ajudou são duas dessas pessoas boas. Ainda agora me emociona pensar naqueles 15 minutos lá em cima e digo muito sinceramente que a minha prova teria terminado ali se não fossem eles. Obrigado aos dois, do fundo do coração! Ah, e Paulo, diz qualquer coisa nos comentários para eu te enviar as luvas pelo correio :)

A segunda melhor opção, a seguir ás luvas do Paulo 

Seguia agora com o ânimo restabelecido e com a moral em alta. As pernas até agora ainda não se tinham queixado, e tive sempre a sensação que conseguia passar todos os obstáculos. Talvez tenha sido esse excesso de confiança que me provocou o primeiro tombo a sério, numa descida. Escorreguei de rabo e de costas uns 10 metros, sem conseguir parar, até ficar com uma perna e nádega em sangue. Levantei-me, atordoado e sorri para os companheiros que vinham atrás. Siga, isto é para acabar!

Ainda antes de chegar ao abastecimento e controlo dos 30km passaríamos por algumas das zonas mais técnicas do percurso. Primeiro foi isto:


Porque as descidas não eram complicadas o suficiente, lá tivemos que descer por um ribeiro com espuma branca a correr furiosamente! Foram cerca de 300 metros muito perigosos. A meio deste curso de água passei por um atleta com um golpe grande no joelho, tinha caído numa das tais armadilhas. 

A descida abrupta continuava, e foi nesta altura que tive o meu segundo grande incidente da prova, que mais uma vez iria mudar o rumo das coisas.

Ao descer um dos famosos escorregas de lama apoiei todo o meu peso no bastão do lado esquerdo, que resvalou numa pedra. Isto originou um movimento muito estranho, como que me dobrei sobre mim mesmo lateralmente, não sei se conseguem imaginar. Ouvi imediatamente um som estranho e senti uma dor lancinante no flanco esquerdo.

Pronto, já te f.....

Levantei-me e levei a mão ao sitio onde me doía. Respirei fundo umas vezes e reparei que quando enchia muito a caixa era como se levasse uma facada. Ensaiei um passos de corrida, não era insuportável. Não voltaria a correr com alegria até ao fim da prova, teria sempre aquela nuvem negra e aquela dor forte cada vez que retomava o passo de corrida, cada vez que me apoiava no bastão e cada vez que respirava fundo. Mais uma vez, pensei que aquele não era o meu dia.

O abastecimento dos 30km era coincidente com o infame corte das 5h30. Até agora, nunca tinha feito nenhuma prova a olhar para o relógio preocupado com os tempos limites. Foi mais uma lição de humildade que os Abutres me deram! Quando passei pelo tapete de controlo do chip lembrei-me do post da Isa e olhei para o relógio. Cinco horas e 18 minutos. Por 12 minutos não fiquei logo ali retido! Este corte iria ser responsável pelo fim de prova de muita, muita gente. Uma quantidade à primeira vista absurda provocada por um tempo limite bastante complicado de cumprir, lembro que seguia +/- a meio do pelotão! No entanto, ele tinha razão de ser, e já vamos ver mais à frente porquê.

Este abastecimento marcava o inicio de mais um ataque ao topo da serra. Estava mal disposto, já bastante saturado daquele suplicio e a dor por baixo das costelas retirava-me o resto da alegria. Comi uns cubos de marmelada à pressa e fiz-me ao caminho, só queria chegar. 

Mais um erro.

Demorei quase duas horas a percorrer os próximo nove quilómetros. Mais uma vez sucederam-se as paredes de lama seguidas de pequenas descidas só para acabar de partir as pernas. Nesta parte do percurso nem faltou uma cascata de cerca de 2 metros (era mais alta que eu) que tivemos literalmente que escalar no meio da água! Nenhuma subida era fácil, nenhuma descida era fácil, nenhum troço dava para correr. Os Abutres estavam agora no seu auge, perfeitamente implacáveis!

Passámos ainda pela famosa cascata dos Abutres, que nesta foto estava calmíssima. Este sábado parecia um trovão autentico, com jactos de vapor por todo o lado, furiosa, assustadora, lindíssima!

Sacado da net
Subimos e subimos até a vegetação começar a desaparecer. O vento aumentou e a temperatura voltou a baixar abruptamente. Agora dava para ouvir as eólicas que permaneciam escondidas no meio das nuvens. A meio da subida comecei a ficar com muita fome e com tonturas, como aconteceu no Réccua Douro Ultra Trail. Tirei imediatamente as duas barras que levava comigo e comi-as sofregamente, com terra e lama à mistura. A subida continuava, bruta, sem dar folgas. A cada apoio do bastão era como se me dessem um murro no flanco, estava a ficar insuportável. As mãos estavam controladas mas sentia o corpo a arrefecer cada vez mais. Pela primeira vez sentia frio nas pernas e nos pés.

Até que finalmente chegámos ao topo, onde havia um abastecimento dentro de uma tenda. Lá dentro, milagre! Bifanas em papo seco quentinhas e um chá a ferver! comi duas bifanas, dois copos de coca cola e rematei com um copo de chá a ferver. Demorei naquele abastecimento pelo menos 20 minutos. Valeu cada segundo, mais uma vez enchi os depósitos de ânimo!

Saio do abastecimento e preparo-me para mais uma tareia na descida. Mas, acreditem ou não, o Abutre deu uma folga!!! Assim que saímos da tenda entramos num trilho no meio de pinheiros gigantes aos ésses pela encosta abaixo. Um trilho seco, sem descidas malucas, sem lama pelo joelho, sem ribeiros para atravessar - diversão pura! Os primeiros passos de corrida são feitos com um movimento muito forçado, dobrado, rígido, numa tentativa de disfarçar a dor por baixo das costelas. À medida que avanço começo a aquecer e a esquecer a dor, consigo assim correr cerca de 2km, sempre devagar, mas 2km de puro prazer. As pernas responderam sempre bem. Mais uma vez culpo o reforço muscular! O pior é quando tenho que parar numa subida e depois volto a abrir a passada para a corrida. Imediatamente é como se levasse uma facada. Tenho que fazer alguma coisa em relação a isto, não vou desistir a 10km do fim!

Como devem ter reparado, coloquei bastantes fotos no inicio do texto e depois deixei de pôr. Isto porque a certa altura cheguei à conclusão que para fazer filmes e tirar fotos significava quase sempre um desequilíbrio e posterior estatelanço no chão! Ainda por cima, cada vez que queria filmar tinha que limpar a câmara que estava sempre coberta de lama! Decidi deixar-me dessas aventuras e concentrar-me no caminho. Só para perceberem o que estou a dizer, vejam o estado da gopro no fim da prova:



O abastecimento dos 40km, o penúltimo, foi em Gondramaz, a aldeia do xisto que vos falei no post do Trail Serra da Lousã. Decidi tomar o brufen que levava comigo, para tentar amenizar as dores que sentia. Mais uma vez, dependi da ajuda de outra pessoa que me retirou o comprimido da mochila, abriu e mo deu para a mão. Desta vez um membro da organização. Obrigado!

Até ao próximo abastecimento seriam 5km. Estranhei logo a distancia ser tão pouca, mas depois percebi porquê, já que demorei uma hora a lá chegar.

O percurso começou com um quilómetro bastante corrivel. Sabia-me incrivelmente bem correr nesta altura. As pernas estavam muito massacradas mas até li tinha corrido muito pouco, por isso quando havia oportunidade para isso era uma alegria. O segundo quilómetro foi feito num trilho muito apertado, numa encosta íngreme. Até aqui tudo bem, mas havia o pormenor de termos que dividir o trilho com água que corria a toda a velocidade e bastante caudal. Coitada, tinha que descer por algum lado. No terceiro quilómetro voltámos a entrar dentro da floresta e para junto de água. Estávamos a entrar numa das partes que achei mais perigosas de todo o percurso. Sempre a entrar e a sair de cursos de água que corriam fora do caudal. Já eram 5 da tarde, estava a escurecer, imaginei fazer aquilo de noite e percebi a razão do corte tão apertado. Mais que nunca, ali senti que um passo em falso facilmente teria consequências desastrosas! Passámos por umas 10 "pontes" rudimentares, que mais não eram que dois ou três troncos cheios de musgo! Segundo soube depois, esta parte era em comum com o UTAX. Quando entrámos num estradão a 500 metros do abastecimento já era praticamente de noite, tinha que ligar o frontal. Segundo um colega que já tinha feito a prova dos 25km, até à meta seria um estradão tranquilo. 

AHAHAH claro...

Parei no ultimo abastecimento, a 5km da meta, apenas para ligar o frontal. O brufen fez efeito e aqueles últimos metros de corrida antes do abastecimento souberam-me muito bem! No abastecimento perguntei ao pessoal que lá estava quanto faltava para a meta. Responderam-me:

5km.

Boa. 

De lama.

Ok, nada de novo, mas já deitava lama pelos ouvidos.

De lama até ao pescoço.

Hm? Nah, devem estar a exagerar. Não pode ser pior do que já apanhámos até aqui!

Mas podia.

Os 3km seguintes foram indescritíveis. O tal "estradão tranquilo" estava coberto de água e lama. como se toda a água que tem caído tivesse ido ter ali. Passo sim passo não ficávamos com lama acima do joelho. Era de noite, estava completamente saturado, só me apetecia chegar! Enquanto pensava nisto enfiei o pé num buraco e fiquei com lama pela barriga! De noite! A chover! Sozinho! 

Na altura aquilo pareceu-me um bocado desnecessário. Não tinha nada de técnico, era só perigoso e molhado. Agora que penso nisso, chateia-me menos. O costume...

Acelerei até apanhar um grupo, não me apetecia nada ir sozinho naquelas condições. Esse mesmo grupo acompanhou-me até ao fim, no ultimo quilómetro que faltava percorrer dentro de Miranda.

Ah, mas antes da meta falta contar esta história:

Uma espécie de Walking Dead
Antes de mais, o tom pastoso resultante de uma camada muito grossa de lama que entretanto secou. Depois o sangue. Podia dizer-vos que foi num tronco que estava debaixo de água ou num calhau pontiagudo, mas não. Depois de 49km duríssimos foi no quilómetro final, dentro de Miranda, quando passámos por um jardim publico que eu decidi saltar por cima de um canteiro. De rosas.

A aventura chegou ao fim 9 horas certas depois. Foi um tempo bastante fraquinho, sei disso. Mas digo muito sinceramente que nesta prova senti-me um vencedor por ter conseguido terminar, sem qualquer ponta de exagero. Resta dizer que dos 538 iniciantes, apenas 319 terminaram, o que equivale a 59% dos atletas! 

Na meta, com o excelente troféu 
Dizer que foi duro é menosprezar o que se passou. Eu sei que os Abutres são assim, implacáveis, mas este ano ainda teve um condimento especial que elevou a fasquia. Foi extremo, incrível, brutal! Fiquei contente por ter superado o desafio e pelas lições que aprendi para o MIUT. 

Este deve ter sido o relato mais comprido que já escrevi, agradeço a quem teve paciencia para chegar até aqui! Desculpem, mas agora que penso nisso foi a prova com mais para contar que tive até hoje. 

Ah, e a mais difícil, não sei se já vos tinha dito! :)

Despeço-me com uma fotografia do meu lindo impermeável azul. Sim, vamos chamar-lhe azul.



terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Até ao Fim da Europa (e mais 300 metros)!!

Este domingo foi dia de romaria a Sintra. Desta vez não para correr nos trilhos da Serra, mas para participar em mais um Grande Prémio Fim da Europa. Foi apenas a minha segunda participação na prova, depois de 2 ou 3 anos me ter atrasado nas inscrições e daquele ano em que a prova não se realizou (pelo menos oficialmente). Este ano o Grande Prémio, que entretanto passou a mísera Corrida, foi brindado com um dia perfeito de primavera. Céu limpo, temperaturas não demasiado baixas e pouco vento. 


Apesar de ter sido apenas a primeira, a minha participação do ano passado foi o suficiente para colocar esta corrida no top 3 das minhas preferências em corridas de estrada. Curiosamente, ou nem por isso, foi muito pouco tempo depois de a correr que tomei a decisão de fazer este blog. 

O Fim da Europa é uma corrida diferente, tanto pela localização como pelo percurso. Nada ali é monótono ou maçador, tudo é desafiante. E os desafios começam logo pela logística da prova. Sendo ela linear (começa em Sintra e acaba no Cabo da Roca, 16.6km depois), a questão dos transportes pode ser uma grande complicação. Felizmente a organização disponibilizou um sistema de transportes colectivos. Dizem às más línguas que é muito complexo e que um dos pré-requisitos para a inscrição na prova deveria ser um grau de mestrado, para o conseguir perceber. Felizmente existe este esquema simplificado, feito pelo João Campos, que a meu ver deveria fazer parte do kit de entrega com o dorsal:


Como não encontrei este verdadeiro manual de sobrevivência antes da fazer a inscrição, decidi não pagar pela utilização dos autocarros, mas antes desenvolver o meu próprio esquema de logística. Passo então a descrever:

Os atletas A, B e C, arrancaram no carro X para se encontrarem com o atleta D (que estava no carro Y) e os atletas E e F (no carro W). O atleta C passou então para o carro W e foram nos carros X, W e Y ao encontro do atleta G que estava no carro Z à nossa espera na Azóia. Quando lá chegados, o atleta G juntou-se ao carro X e os atletas E e F, juntaram-se a C e D no carro W, e foram para Sintra, deixando os carros Y e Z na Azóia. No fim da prova, todos os atletas percorrem a pé a distancia entre o Cabo da Roca e Azóia para entrarem no carro Z (atletas A, B, G) e no carro Y (C, D, E F) em direcção a Sintra. Lá chegados, retomaram as posições iniciais e rumaram a casa. Simples!

Ora bem, como qualquer máquina oleada, esta logística permitiu-nos chegar exactamente em cima da hora de partida a Sintra. Quase que consigo ouvir as más línguas de que falava lá atrás a dizer que devíamos ter chegado antes, para fazer um aquecimento, fazer um xixi, relaxar, bla bla bla... Sabem lá eles! A partida era às 10:15, 10h10 é uma hora perfeitamente aceitável para chegar à recta da meta, e só tivemos que correr metade do caminho do carro atá lá, o resto foi só em passo acelerado! 

'Tá giro.. Mas eu vou só daqui a um quarto de hora, se não se importam.
Como já perceberam, só parti às 10:15, na segunda vaga de partida. Porquê? Perguntam vocês. Perguntam bem, mas não vos sei responder. Já dei voltas e voltas e não me lembro porque tive a ideia de me inscrever na segunda vaga. Esta segunda vaga de partida foi criada pela organização para diminuir o congestionamento do percurso naqueles primeiros quilómetros a subir. A ideia de fazer partidas diferenciadas parece-me lógica, mas sendo o critério apenas decidir se quer partir às 10 ou 10:15, a grande maioria preferiu partir às 10 restando pouca gente para a segunda vaga. Talvez seja boa ideia organizar as partidas por currais de tempos, como é habitual. Como estava pouca gente, consegui posicionar-me logo por baixo do pórtico e arrancar a bom ritmo.

Como sempre, não faço aquecimento antes das provas. A menos que ficar especado de braços cruzados a olhar para o relógio de 30 em 30 segundos conte como aquecimento. Percebo logo que os prós foram todos às 10, porque rapidamente me vejo no grupo dos 4 ou 5 mais rápidos desta segunda vaga. Ainda longe de estabilizar o ritmo e a respiração, foi a arfar e com os pulmões a sair pela boca que percorri aqueles primeiros 4km, quase sempre a subir. 

Não há muitas provas de estrada que faça sentido por aqui o perfil, mas esta é uma delas.
Tenho que confessar que conhecer o percurso desta corrida é uma grande vantagem. Sabia que depois destes 4km iniciais podia forçar o ritmo até apanhar a parede dos 10km, antes da grande descida, e foi isso que fiz. Por volta dos 4km comecei a apanhar o pelotão que partiu às 10, e começou o zigue-zague. No entanto não foi um grande constrangimento, já ia bastante disperso o que facilitou as ultrapassagens, quase nunca tive que abrandar e foram raras as mudanças rápidas de direcção. Por outro lado teve a vantagem de ir passando e cumprimentado alguns conhecidos! Foi nesta altura que consegui começar a correr com conforto. Atacava as subidas tentando não abrandar (sabia do ano passado que estas nunca seriam muito longas) e acelerava nas descidas. Seguia completamente focado na estrada, no ritmo e nas ultrapassagens, não deixando espaço para a contemplação dos sítios maravilhosos por onde passámos. Pensei nisso quando ao passar num abastecimento alguém disse "olhem para o mar!!", nessa altura levantei a cabeça e vi o sitio brutal onde estávamos. Dá que pensar, e fez-me ficar com saudades dos trilhos. 

Como já disse noutros posts, apesar de gostar cada vez mais de trail, há coisas que a estrada oferece que os trilhos nunca vão chegar perto. É verdade, se fosse um trail teria parado para ver a paisagem, ia mais devagar, descontraído... Mas nada paga aquela adrenalina de a meio da parede dos 10km, a correr quase de nariz no chão, com batimentos cardíacos a 200, respiração ofegante e pensar "vá láaa, puxa só mais um pouco!!!", até que fazemos a curva e vemos o topo da subida! Era altura de alargar a passada e dar cabo das pernas por ali abaixo! Seriam 6km a descer a pique, sentir os músculos das pernas a tremer a cada passada, tentar correr mais depressa e perceber que é fisicamente impossível, era a forçar até ao Fim da Europa!!!!! .....mas não sem antes parar para fazer um xixizinho...

Como sempre, a descida foi brutal. Enquanto corria tinha a perfeita noção que amanhã pagaria o preço por aquela tareia que estava a dar aos músculos, mas era tarde de mais para pensar nisso. Tinha agora passado a Azóia, estava na recta da meta e era só curvar à esquerda antes do farol! Opsss, afinal não, a organização decidiu prolongar o percurso mais 300 metros, o que incluía uma subida gigantesca, maior que as outras todas juntas, e uma descida violentíssima num terreno super técnico!!! Ok, na verdade era só um sobe e desce pequeno, MAS não estava à espera daquilo!

A chegar à meta. Conseguem ver lá atrás a BRUTAL descida.
Terminei com o tempo de 1h11, três minutos mais rápido que o ano passado, o que me deixou muito satisfeito já que na altura andava a treinar para a maratona de Sevilha e estava muito perto da minha melhor forma. Nunca falei aqui no blog de classificações, porque muito sinceramente não me importo rigorosamente nada com elas, apesar de gostar de ver em que parte do pelotão é que me situei. Mas fiquei orgulhoso do 61º lugar em 2300 finishers! Acordei no dia seguinte com dores nos gémeos e o resto das pernas doridas. A uma semana dos Abutres pode ser problemático. Logo se vê...

Quanto à prova, mais uma vez correspondeu às expectativas. Um percurso super desafiante, nada monótono e muito divertido. Os abastecimento (dois) pareceram-me bem posicionados, apesar de não ter bebido água em nenhum deles (focado na estrada, no ritmo, etc etc, lembram-se?), os snacks no fim da prova, juntamente com o chá quente, já são um clássico e para mim muito bem vindos! Só tenho pena de mais uma vez não ter havido medalha. Sim, eu sei que estão cheios de lata nas gavetas e que não se interessam nada por isso, mas eu cá gosto de as receber e guardar. 

Espera-me agora uma semana descontraída (a primeira em muito tempo), a descer até à Serra da Lousã. Vamos lá ver então esses famosos Abutres.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Agora? Agora aguenta-te!

Foi assim a minha semana de recuperação dos 47km de Proença a Nova:

A certa altura pensei "elah, não achas que estás a exagerar? Ainda faltam 3 meses para o MIUT!".

Depois li isto:

"Passados pouco mais de 20km de prova e depois de já termos enfrentado uma outra subida até acima dos 1.000m de altitude, enfrentávamos agora a subida que vai de Chão da Ribeira até Estanquinhos. Embora ainda estivéssemos "frescos", esta talvez tenha sido uma das mais agressivas de toda a prova, pois em pouco mais de 4km de percurso subimos 1.200m de desnivel positivo (D+)."


"Espera-nos uma parede com 1300mD+. Há provas de 50km que nem isto têm e a gente ia mamar com eles ali em 8km depois de quase 12h de prova já. Definitivamente venham preparados amigos!"
"amigos antes de irem a correr inscrever-se já sabem. TREINEM que a coisa é dura."

E agora?? Abrandar os treinos?? AHAHA! Como me disse um amigo meu: olha, agora aguenta-te!


domingo, 11 de janeiro de 2015

Ano Novo, Proença a Nova (47km)

Três semanas depois do Ericeira Trail Run, este sábado foi dia de voltar a olhar para o Horizonte. Não estava nos planos até há pouco mais que uma semana, mas as saudades dos trilhos falaram mais alto e não resisti. A proposta era uma corrida de 40+ (47km, neste caso) que seria a primeira de 4 etapas do Circuito Território Centro, organizado pela Horizontes, esta a ser disputada em Proença a Nova. Como disse no post da Ericeira, apesar de não ter gostado especialmente da corrida, nunca seria fundamentalista ao ponto de dizer que não voltaria  a correr numa prova com aquela organização. Na verdade, tinha a certeza que mais cedo ou mais tarde iria correr outra, não pensei foi que fosse tão cedo!


Inscrevi-me na prova no último dia disponível para inscrições. O processo mental para a decisão foi o habitual: "ok, tenho os Abutres daqui a 4 semanas, Ericeira foi há duas, vou treinar bem e descansar até lá! ....Elaaaah!! olha aqui uma prova de 47km pra semana que vem! Pois claro que aceito!"

A primeira ultra do ano tinha partida marcada para as 9 horas de sábado em Sobreira Formosa. Arranquei de Almeirim com a Sara e o meu amigo e colega de equipa Vasco & família para a viagem de cerca de 150km que nos separavam de Proença, feitos sempre de noite. Foram 150km de temperaturas entre os 2 positivos e negativos, nada que não estivéssemos à espera! O levantamento dos dorsais foi feito sem problemas no secretariado que funcionava no local de partida. Já aqui, tive a primeira surpresa agradável do dia:

Provavelmente a t-shirt mais bonita que já recebi numa prova!
Como sempre, a imagem das provas da Horizontes é extremamente bem cuidada, e esta t-shirt é uma boa prova disso. 

O controlo zero e a concentração dos atletas para as duas provas foi feito no interior do museu Isilda Martins. Aqui foi dada uma partida simbólica seguida de um percurso de cerca de 200m para a verdadeira partida, nas ruas de Sobreira Formosa.

Concentração no interior do museu.
Temperaturas perto do zero, mas espírito e boa disposição em alta. Eram nove da manhã e estava na hora! A partida foi dada em conjunto para as duas provas (havia uma de 26km). Penso que não passou mais que um km para estarmos embrenhados na floresta. Um pinhal selvagem a perder de vista, cortado por estradas florestais cobertas de caruma que tapavam o xisto no chão. Sobe e desce constante que nos levava ou ao topo de montes, que nos mostravam um manto verde em 360º em todo o horizonte, ou a vales gelados cobertos de branco. Tudo dependia dos riachos que atravessámos vezes sem conta: se estávamos a chegar a ele é porque tínhamos deixado um pico e uma descida rápida, assim que o deixávamos para trás sabíamos que nos esperava uma subida!

Que venha a subida!
Como sempre, demorei algum tempo até estabilizar a respiração e o ritmo. Noto muito isto ultimamente, talvez por causa do frio. O que também demorou a estabilizar foi o equilíbrio: caí 3 vezes nos primeiros 6km! Acho que caí tantas vezes nestes 6km como no somatório de todos os trails que fiz. É do frio. Sim, vamos dizer que é do frio.

Os primeiros 15km foram assim. Trilhos apertados, uns mais outros menos técnicos, quase todos corríveis. Subidas duras, mas nunca demasiado duras ao ponto de não permitir desfrutar das descidas. E que descidas! Estou cada vez mais confiante no trabalho de reforço muscular que tenho feito, o que permite soltar-me nas descidas sem pensar nos quadrícepes dali a uns quilómetros. Ataco-as com um sorriso nos lábios e com adrenalina a sair por todos os poros!


Por volta dos 12/13km perdi-me, outra coisa que raramente acontece nas provas que faço. Não foi um grande desvio, talvez só 500 ou 600m, mas irrita-me muito perder-me! Ainda por cima foi completamente culpa minha, a sinalização estava impecável em todo o percurso. Estava a correr atrás de um colega e distraí-me. 

No briefing inicial o speaker avisou-nos para ter cuidado com os locais que estavam à sombra. Na altura não dei muita importância a isto, foi apenas durante a corrida que me apercebi. É verdadeiramente impressionante as diferenças de temperatura que se sente num espaço muito curto, quando passamos do sol para a sombra. Nunca senti nada assim! Os vales apertados por onde passámos provavelmente recebem poucas ou nenhumas horas de sol diárias, por isso o manto branco é permanente. Corremos ao longo de um desses vales brancos por um single track em cima de vegetação densa e fofa durante uns 2km, ao lado de um ribeiro. O branco da geada só era cortado pelo verde da erva no trilho. Dos sítios mais bonitos por onde alguma vez corri! 


A imagem possível. Claro que não faz justiça, mas conseguem ver o trilho na "neve".
O primeiro abastecimento sólido, aos 16km, chegou depois de um segmento bastante técnico numa encosta com muito xisto. Progressão muito lenta, com um precipício do lado esquerdo e uma montanha do lado direito. Até ali, melhor era impossível!

O abastecimento estava instalado na aldeia de Alvito e era completo QB, como é apanágio da Horizontes. Já aqui havia sopa quente, mas decidi não arriscar porque corria desde o inicio com um desconforto intestinal. Foi aqui o primeiro encontro com a minha equipa de apoio técnico, desta vez reduzida a um elemento já que temperaturas negativas e despertares às 5 da manhã são incompatíveis com crianças de ano e meio!

Esperavam-me agora outros 15km até ao próximo abastecimento. A julgar pelo perfil, seriam 10km com pouco desnível e 5km finais que nos colocariam a meio da grande subida da prova. Depois da Ericeira, a análise daqueles 10km deixaram-me com medo de apanhar um estradão longo e chato, mas não podia estar mais enganado. De facto, esta prova foi uma espécie de Anti-Ericeira. Disse na altura que me tinha desiludido a falta de critério na escolha do percurso, mas NUNCA senti isso em Proença! Sim, houve alguns (poucos) estradões e até asfalto para entrar e sair de 4 ou 5 localidades, mas tudo ali fazia sentido. 

Assim foi. Os 10km foram verdadeiramente espectaculares. Quase todos feitos num vale a acompanhar um riacho. O trilho era bastante apertado em terra mas com muito xisto. Ora numa margem ora na outra da linha de água. De vez em quando cortávamos para dentro da montanha e escalávamos uma parede, apenas para regressar logo a seguir ao rio. Muito bom!

A subida aos 650m da Serra das Talhadas foi feita em 8km. Com alguns segmentos muito duros. O ataque final foi feito por um trilho no meio de um pinhal, com uma inclinação brutal em zigue zague. Atingimos o ponto mais alto aos 35km. Seguia-se agora uma grande descida em estradão e estrada florestal.

Vista no topo da Serra, roubada do Google.
Foi na descida da Serra que levei uma lição de humildade. Afinal aquela confiança nos quadricepes era em excesso, e comecei a sentir isso a meio da encosta. Não abrandei, afinal já não faltava assim tanto, mas se quero pensar em objectivos maiores não posso chegar aos 40km com dores musculares daquelas! 

O ultimo abastecimento estava situado a 9km da meta, em Montes da Senhora. Era o mais completo dos três. Quanto à quantidade e posicionamento dos abastecimentos, foi completamente acertado. Quer em número quer na localização. Quando alguma coisa corre mal há que o dizer, mas o contrário também é verdade, e a organização desta vez esteve impecável em todo o processo. 

A personalidade do percurso manteve-se até ao ultimo quilómetro, mesmo antes da meta. 

O pórtico de chegada, instalado dentro do museu. 
Foram 5h44 para os 47km com 1800d+. Não faço ideia da classificação, mas para mim foi uma excelente prova. Cheguei em boas condições e diverti-me muito, como deve ser! 

Muito gira a medalha!
Mais uma vez levei a máquina de filmar. Já não me custou tanto transportar como na Ericeira, penso que já lhe apanhei o jeito. Ainda bem, porque gosto muito de ficar com estas imagens para recordação! Podem ver alguns dos sítios que descrevi. Ah, escusado será dizer para verem em HD e com som eheheh


Gostei muito da prova e adorei conhecer uma zona do país que conhecia muito mal. Já depois de chegar, em conversa com o campeão Luís Mota, ele dizia-me que a zona centro do país era das melhores para trails e completamente subvalorizada. Dou-lhe razão, e realmente em Portugal temos condições espectaculares para este tipo de provas.

Com os colegas de equipa Vasco e Francisco e o super Luís Mota. Atenção, o nosso Francisco Gaio foi 3º da geral! Um caso sério!
E pronto. Faltam agora 3 semanas para os Abutres. Vão ser 3 semanas de treino consciente, descanso QB e muito juizo. ....Elaaaahhhh uma prova de estrada com 17km a subir e descer a Serra de Sintra chamada GP Fim da Europa uma semana antes dos Abtures?? Claro que aceito!! :)



domingo, 28 de dezembro de 2014

Escadinhas de São Silvestre

Esta ultima semana, depois dos 66km da Ericeira, decidi fazer tudo bem. Andei de bicicleta no dia a seguir à prova, comecei com treinos curtos e lentos, comi e dormi bem, fiz duas sessões de alongamentos e acabei com um treininho tranquilo de 15km no sábado. Foi uma recuperação perfeita e sinto-me a 100%! 


Hmm... Pois.... Mas foi mais ou menos isso, vá.

Depois de um domingo de preguiça e de uma segunda feira que misturou muito trabalho com compras de ultima hora, o primeiro treino pós Ericeira ficou marcado para terça feira. E que melhor maneira de iniciar a recuperação do que um treino de escadas e rampas?

De escadas até ao Natal.


Terça feira foi o dia de finalmente experimentar o "Escadinhas e Subidinhas", do João Campos. O plano era simples, sair de comboio de Santarém, chegar lá uma hora antes, equipar tranquilamente no carro de um amigo e fazer o treino. Isto tinha corrido tudo muito bem se não tivesse perdido o comboio! O resultado foi ter que esperar hora e vinte na estação por um comboio que chegaria à hora exacta do inicio do treino (espera responsável pela constipação que ainda hoje me assola). Para não perder tempo com o equipamento, tive a ideia luminosa de me equipar na casa de banho da estação e vestir a minha roupa por cima, para depois a tirar na casa de banho do comboio. Podia escrever um post inteiro sobre equipar em casas de banho da CP, mas por agora chega dizer que os alongamentos para o treino ficaram feitos.

À chegada estava um grupo de cerca de 30 pessoas à minha espera, literalmente (o comboio atrasou-se 20 minutos). O João, autentico Mestre de Cerimonias, foi o primeiro a cumprimentar-me. Um pequeno briefing dado pelo comandante e estávamos todos sintonizados. Não sei há quanto tempo ele faz isto, mas fiquei impressionado pela maneira como conseguiu organizar um grupo muito heterogéneo num treino quase sem períodos de espera e que deu para que cada um andasse a seu ritmo, e não ao ritmo imposto pelos outros. O que eu pensava ser mais um convívio que treino transformou-se numa jornada bastante dura (668d+) de quase duas horas de sobe e desce de escadas e rampas, na companhia de gente bem disposta, alguns dos quais "conhecidos" do Facebook. Foi uma muito boa surpresa que só não vou repetir mais vezes porque, somadas as coisas, saí de casa às 18 e cheguei às 23:30! 

O perfil mais geométrico que alguma vez vi!

São Silvestre não era milagreiro, pois não?

Este sábado foi dia de participar na minha segunda corrida de 10km de 2014. Depois da Scalabis Night Race, onde bati o meu record pessoal, corria agora na São Silvestre de Lisboa.

Perdão, o nome é "El Corte Inglés São Silvestre de Lisboa".
Já aqui tinha dito que gosto de provas de 10km. Dificilmente há provas que elevem tanto os níveis de adrenalina e, neste caso em particular, a descida final da Avenida da Liberdade tem o condão de aumentar exponencialmente estes níveis. 

Pelo tempo conseguido na SNR obtive um dorsal para partir na zona SUB40, o que me permitiu arrancar praticamente debaixo do pórtico. Não que tivesse pretensões a ganhar alguma coisa, mas é óptimo evitar aquela confusão inicial destas corridas.

Depois de uma apresentação individual das estrelas da corrida, que achei muito interessante, foi altura de dar o tiro de partida.  

PUM - lá foram elas!

Espera lá, elas? Pois, a HMS teve a ideia peregrina de redifinir os conceitos de igualdade de sexos e faz com que a elite feminina parta quase 3 minutos antes da masculina! "Vá, vocês são mais fraquinhas, podem partir antes para ver se ganham alguma coisa ;)" Sou só eu que acho isto parvo? Enfim, paternalismos à parte, era altura de correr!


Estava no meio dos aviões, já devia estar à espera, mas aquele primeiro quilómetro foi uma loucura! Não me lembro de alguma vez ter feito um km tão rápido em prova, e fui muito mais ultrapassado do que ultrapassei! O declive negativo ligeiro ajudava e as pernas quase que mexiam sozinhas. Foi assim até chegar ao Terreiro do Paço, onde um reality check provocado pelo desnível que tinha passado de negativo a nulo me gritou aos ouvidos "ELAAHHH calma miúdo, não tens andamento pra isto!!".

Até voltar ao Terreiro do Paço foram 5km muito planos. Consegui estabilizar o ritmo (muito acima do km inicial, claro), mas nunca me senti confortável a correr. Ao contrário do habitual nas provas de 10km, onde nem dou pelos quilómetros a passar, agora estava sempre a olhar para o relógio à espera que os metros passassem. Algo não estava bem...

De volta ao Terreiro do Paço, era altura da subida até ao Marquês. Há aquele lugar comum do pessoal do trail estar tão habituado às subidas das montanhas que uma inclinaçãozinha na estrada não faz mossa, mas cá para mim isso só é verdade no papel e se alguém vos disser o contrário está a mentir! Tudo depende da intensidade, e numa prova de 10km em que vamos a dar o máximo, uma subida de 3km, por menos inclinada que seja, faz muita mossa.  Se no primeiro km consegui manter o ritmo, a muito esforço, foi a meio da Avenida da Liberdade que levei uma marretada como não levava há muito, as pernas simplesmente cederam. Estava a pouco mais de 200m da rotunda e ia começar a descida, mas as pernas não respondiam. Forcei, forcei, forcei... De repente penso que um tubarão mutante invisível, porque sobreviveu fora de água e eu não o vi, me deu uma dentada por baixo das costelas o que me provocou uma dor aguda insuportável! Há quem lhe chame dor de burro e o Google diz-me que é uma caimbra dos músculos do diafragma. O que eu sei é que não a sentia há anos, e naquele momento nem respirar conseguia, quanto mais correr!

Aí mesmo.
Olhei para o relógio e o meu ritmo era mais de um minuto mais lento que o resto da prova. Fiz umas contas rápidas e percebi quanto tinha que fazer no último km para pelo menos cumprir serviços mínimos. Lembrava-me perfeitamente da dose brutal de adrenalina que foi o ultimo km no ano passado, e foi com esse pensamento que, enquanto corria com uma mão no flanco, me arrastei pela rotunda.

Só falta 1 e é a descer!

A dor estava lá, mas as pernas falaram mais alto. Abri a passada e comecei a voar. Assim que tirei a mão do flanco, o movimento natural dos braços amplificou a dor. Eishhh que está pior! Nesta altura comecei a desviar-me para a berma e com a meta a 500m estive muito, muito perto de parar. Passaram por mim mais de 50 atletas, haja sofrimento!! Foi com um esgar de sofrimento que consegui cruzar a meta. Sem sorrisos, sem braços no ar, sem objectivo cumprido e sem record pessoal cilindrado. 

Os serviços mínimos foram cumpridos, honrei o meu dorsal sub40 e fiz 39:21. É um bom tempo, mas muito sinceramente o tempo era o que menos me preocupava nesta prova. Para mim, como em todas as provas, o mais importante era acabar bem disposto e com a sensação que dei tudo o que tinha. Bem, pelo menos metade do objectivo foi cumprido! Detesto inventar desculpas, por isso não vou andar para aqui com justificações. Para a próxima corre melhor!

Tirando pequenos pormenores, a organização desta corrida megalónama esteve irrepreensível. E o melhor de tudo é que a cidade ajudou - nunca corri com tanto apoio das pessoas em Portugal! Todas as ruas estavam cheias e em festa! O percurso é o mais óbvio e fazem bem em não arriscar. Houve uma boa camisola de oferta, um gorro/buff, alguns brindes, uma bonita medalha e ainda um saco de plástico para me embrulhar que me salvou a vida durante a quase hora completa que andei à procura da Sara e dos meus amigos no fim da prova! Regra nº1 de provas gigantes: combinar um ponto de encontro no fim :\ Com isso tudo ainda tive a oportunidade de ouvir o speaker dizer o meu nome "FILIPE TORRES DE ALMEIRIM, OS SEUS AMIGOS ESTÃO NA STARBUCKS À SUA ESPERA! REPITO, FILIPE TORRES DE ALMEIRIM!".

Esses mesmos amigos que estavam na Starbucks foram comigo no pós-prova cumprir a segunda parte da tradição São Silvestriana. Porque esta semana ainda não tinha comido o suficiente, venha de lá então esse naco na pedra!


E pronto, agora sim. Foi a ultima do ano, vou tirar um tempo para descansar e atacar a preparação para os Abutres....

...que começa amanhã de manhã, quando for treinar escadas :)




segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Ericeira Trail Run (66km) - Horizontes pouco claros


Dezembro é o mês das são Silvestres, provas curtas, urbanas, muitos amigos, ambiente de festa... A verdade é que as festividades, juntamente com o trabalho que aperta e os surtos consumistas que roubam o resto do tempo para treinar, a época convida a repouso e boa vida! É um mês que pomos de lado os desafios maiores, só queremos sopas e descanso! Não há mesmo nada que nos faça mudar isto! ....A não ser que alguém diga as palavras mágicas:

"Vai haver um trail de 60 e tal quilómetros em cima do Natal... bora?" Pronto, já que usas um argumento tão convincente...



Este sábado foi dia de correr a distancia maior do Ericeira Trail Run. Esta corrida contrariou teorias Darwinistas e apareceu por geração espontânea +/- 2 meses antes da data do evento. Como é apanágio das corridas da Horizontes a imagem era muito cuidada, mas desde o momento do anuncio da prova deu a ideia que a falta de informação (nas primeiras semanas o "site" da prova era uma única imagem) significava que o próprio conceito ainda estava a ser cozinhado na cabeça dos organizadores. No entanto, os ingredientes para o sucesso estavam todos lá: boa promoção via redes sociais, uma distancia convidativa para estreias no trail e outra maior numa altura em que há poucas provas grandes, e boa localização, perto de Lisboa. Pronto, temos um vencedor! Ou será que não?

Nas semanas que antecederam o dia, os meus receios foram sendo completamente abafados pela natural ansiedade e vontade de correr. No sábado lá fiz então a hora e pouco que separam Almeirim da praia de Ribeira D'Ilhas com a Sara, onde me encontrei com mais 7 (!!!) elementos da minha equipa, A20KM. 

A equipa com o herói, Luís Mota
O muito frio que se fazia sentir convidava os atletas a aguentarem nos carros o máximo de tempo possível até se dirigirem à meta. Às 7:45 (a partida era às 8) dirigi-me finalmente com os meus colegas para o controlo zero, a 20 metros da meta. Cerca de metade dos 100 atletas presentes já tinham feito o controlo, enquanto os outros 50 esperavam pacientemente que dois elementos da organização fizessem um controlo rigorosíssimo (como eu nunca vi) do material obrigatório. Enquanto isso, o speaker dizia que não adiaria a partida. Às 7:58 lá me consegui despachar e fui para o pórtico, com o speaker a repetir várias vezes que a partida era às 8, e que os meninos deviam ter ido fazer o controlo mais cedo. Entretanto bate as 8 horas, e com cerca de 20 atletas ainda no controlo zero, dá o sinal de partida! Vamos lá ver, nada contra o rigor no controlo, até acho muito bem! Mas, porra, haveria assim tanto problema em adiar a partida 5 minutos?? Enfim, a verdade é que regras são regras, e realmente já se podia ter feito o controlo há muito.. Bem, está na hora de correr!



Os primeiros quilómetros de prova foram feitos junto ao mar, subindo e descendo por trilhos e estradões largos que entravam e saiam de praias. Como sempre, e ainda por cima com o frio que estava, preciso de alguns minutos até estabilizar a respiração e correr com algum conforto. O caminho convidava a correr, mas a prova era longa e os constantes sinais na minha cabeça aconselhavam-me a precaver-me e avançar com cautela. 

Nas ultimas duas semanas antes da corrida a organização avisou vezes sem conta que o percurso seria todo ele passível de ser feito a correr, o que aos olhos de alguém (ainda mais) inexperiente poderia significar facilidades. No entanto, qualquer pessoa que já tenha feito distancias longas (mais que 30km), sabe que mesmo que o percurso não seja sinuoso, muitas horas a correr, mesmo devagar, desgastam brutalmente o corpo.


O primeiro abastecimento, apenas de líquidos, chegou aos 8km de prova. Portanto, íamos com 8km, praticamente todos feitos a correr e com os obrigatórios reservatórios de água cheios. Eu pergunto, será que alguém parou neste abastecimento? Ok, estava lá, mal não há-de fazer. 

Os próximos 8km, que nos separavam do primeiro abastecimento de sólidos aos 16km, foram feitos a afastar-nos da costa para dentro da mata. Tinha finalmente estabilizado a respiração e sentia-me bastante bem a correr. O percurso continuava igual, muitos estradões e asfalto que convidavam a correr, convite esse que eu aceitei. 

No abastecimento dos 16km, em Monte Bom, estava a Sara à minha espera.

Correr? Nah, primeiro há que pousar para a foto.
Este abastecimento deixou boas indicações. Muita variedade e qualidade, numa altura que já corria com bastante fome (o pequeno almoço foi às 5 da manhã). 

Foi com o estômago reconfortado e ânimo redobrado que voltei a enfrentar a estrad...perdão, os trilhos! O percurso agora levava-nos até Mafra, onde iríamos passar pelo Palácio Nacional e eu iria rever a Sara. 

Ponto prévio: eu adoro correr, seja em estrada ou trilhos. Não me importo demasiado que o percurso tenha algum alcatrão ou estradões. Como expliquei aquando do Reccua Douro Ultra Trail, às vezes é imperativo e até faz algum sentido que se façam alguns segmentos em estrada. No Douro serviu para mostrar aldeias escondidas que caracterizavam fortemente a região e as gentes da zona. Para mim, muito mais importante que haver obstáculos complicados a cada quilómetro, é que o percurso tenha carisma! Não sei se estou a romantizar demasiado a coisa, mas gosto de perceber que um trajecto faz sentido, que não se chega do ponto A ao B pelo caminho mais óbvio ou mais complicado, mas pelo que se enquadre mais na personalidade do trail! (Ok, esta se calhar foi pseudo-intelectual de mais :) )

Dito isto, na minha opinião, o que se passou nos quilómetros antes e após Mafra não fez sentido nenhum. Estrada atrás de estrada, cruzamentos, rotundas, passagem pelo MacDonalds (!!!) e até houve lugar a uma surreal volta de cerca de 2km pelo parque desportivo de Mafra, para sair quase pelo mesmo sitio! Eu percebo, o Palácio de Mafra é um ex libris, e sinceramente gostei de lá passar. Mas será que aquele era o único caminho??

Photobomb no Palácio de Mafra
Escusado será dizer que tanto alcatrão e estradão me obrigaram a correr ininterruptamente. Estava agora com 30km de prova em cerca de 3 horas, algo estranho num trail. A primeira consequência foi o desgaste brutal dos pés. As minhas Salomon são muito boas em trilhos técnicos, mas são muito duras para correr na estrada, parece que tenho duas tábuas nos pés a baterem com estrondo no chão. A segunda consequência derivada do desgaste foi correr com cada vez mais fome. Aqui entramos no que para mim foi outra grande falha nesta corrida.

Os 6 abastecimentos em 66km parecem perfeitamente adequados. Mas dos 6 abastecimentos, 3 deles eram só de líquidos (abastecimentos só de líquidos numa prova tão longa não me parece que faça muito sentido), o que quer dizer que os 3 abastecimentos sólidos estavam demasiado afastados uns dos outros - 16km até ao primeiro, 22km até ao segundo e 23km até ao terceiro! A juntar a isto, o terceiro abastecimento de sólidos estava a 5km da meta!! Apesar de estarem bem apetrechados, estavam muito mal posicionados. Corri quase sempre com fome, e pela primeira vez não trouxe para casa nenhum dos géis ou barras que levei (4 geis + 3 barras).

Bem, problemas à parte, antes do segundo abastecimento de sólidos, por volta do km 30, entrámos na que para mim foi a zona mais interessante da prova, a subida ao Penedo de Lexim. 

O Penedo de Lexim é uma formação geológica muita interessante situada no topo de uma colina. Segundo o Google era uma antiga chaminé vulcânica, e o magma que a formou sofreu arrefecimento lento e gerou minerais bem desenvolvidos. Para o alcançar subimos por um trilho bastante técnico (que saudades) que desembocou numa grande clareira no topo da colina! A descida? Adivinhem... Sim, foi pelo alcatrão :)

A descer a colina, onde estava a minha fotografa favorita :)
O segundo abastecimento sólido chegou depois de descer do Penedo. Cheguei lá esganado de fome. Como sempre, estava bem apetrechado, e desta vez até tinha uma sopa de legumes quentinha que me soube muitissimo bem! Se eu soubesse que já só ia comer na meta tinha repetido... 3 vezes!

Nesta altura tinha passado o meio da prova. Faltavam cerca de 30km que, segundo um membro da organização que estava no abastecimento, seriam mais interessantes e com menos estrada. De facto foram, andámos muito mais tempo em terra (mesmo assim, maioritariamente estradões), mas já estava de tal maneira desgastado que a partir dos 40km já fazia contagem decrescente!

A corrida confortável e controlada dos primeiros 30km estava a transformar-se num trote lento e muito difícil. Olhava para o estradão plano e recto que se estendia à minha frente como para uma encosta da Serra da Estrela, era um pé à frente do outro, olhos baixos e cabeça a fugir para outras paragens. O treino de reforço muscular anda a fazer bem, porque as descidas deixaram de me custar nos músculos. Por outro lado, os pés e articulações dos tornozelos gritavam por piedade a cada pancada no alcatrão ou terra dura. 

E os quilómetros não passavam...

Mais uma subida enorme...em alcatrão... e no topo da colina avisto finalmente o mar. Estamos no quilómetro 60, já não falta muito! Começa a descida para a Foz do Lizandro.

Sim, em alcatrão.

Era aqui que estava o ultimo abastecimento sólido. A 5km da meta. Como é óbvio, o cheiro a meta, o cansaço e o desgaste acumulado fizeram com que nem pensasse em comer. Depois como na meta, pensei eu. Pois, comi mas paguei, e bem, no bar da praia, porque abastecimento na meta nem vê-lo!

Edição - Soube, depois de escrever o post, que afinal havia mesmo um abastecimento na meta!! Só não reparei na sinalização (se existia) e ninguém me avisou. De qualquer maneira, critica retirada :)

Os 5km que faltavam até à meta foram também muito sofríveis. O trail era baseado na Ericeira, tem que haver mar, concordo. Mas aqueles quilómetros parecem ter sido traçados por alguém que vai fazer um treininho de 5km à Ericeira, e decidem correr no calçadão. Se há pouco fazia a contagem decrescente dos quilómetros agora era quase metro a metro!

Quanto à chegada, dificilmente poderia ser mais idílica. A descer por uma escadaria de madeira, com o pórtico à beira mar e o sol a pôr-se no horizonte. 


Cruzei a meta com 66.5km no relógio e 7h46 depois. O banho quente foi tomado no Parque de Campismo da Ericeira, e o repasto foi no Bar da praia. Do dia ficam as boas recordações passadas com amigos e com a Sara, algumas partes do percurso, mais um objectivo cumprido e principalmente o prazer imenso que dá correr. Seja em trilhos, em estrada ou estradões, a subir ou a descer - gosto de correr. 


Quanto à Horizontes, de quem tinha ficado com muito boa imagem no Monte da Lua, não queria estar a bater mais. Não tenho por sistema dizer mal da organização de provas, até porque sei que a grande maioria das vezes é trabalho voluntário e com gosto. Mas desta vez fiquei bastante desiludido, simplesmente porque me pareceu tudo planeado em cima do joelho e com algumas falhas básicas. Não vou ser fundamentalista e dizer que nunca mais participo em provas deles, mas espero que tenham aprendido com o que se passou no sábado.

Ah, já me esquecia, esta prova marcou a estreia oficial da minha nova companheira, a GoPro. Transportei-a no bastão (sim, levei bastões) e fui fazendo pequenos clips que editei quando cheguei a casa. O resultado é este video de 3 minutos. Façam o favor de ver, de preferência com som, que deu uma trabalheira a sincronizar com os tempos da música!


Quanto a mim, vou finalmente ceder ao ócio do fim de ano e ... participar numa São Silvestre! :D