As minhas corridas na estrada

domingo, 1 de março de 2015

Terras de Sicó (111KM) - ULTRA a sério!

Assim que saí do ultimo abastecimento, a 11km da meta, comecei com uma contagem decrescente. Não de quilómetros, mas de metros! Cada passo em frente ouvia uma voz no cérebro a dizer "já chega Filipe, não vês que estás desfeito? Não aguentas, já chega...". Olhava 10 vezes por minuto para o relógio e a porcaria dos metros não passavam. Quando tentava correr era uma dor agonizante nas articulações dos pés que eu forçava até ao limite, até ceder e voltar a andar. Não me lembro se foram 11km a subir, a descer ou em plano, já era tudo igual. O que eu sei é que se aumentassem 100m àqueles 11km era como se me apresentassem uma nova ultra pela frente.
Há aquele pessoal que diz que anda à procura dos seus limites. Não sei, não gosto muito de frases feitas. Mas uma coisa é certa, a palavra "limite" adquiriu um novo significado durante as mais de 18 horas que andei pela Serra de Sicó.

Cartaz oficial da prova
Tinha tirado a sexta-feira de férias, e com a miúda na creche consegui dormir bastante, relaxar em casa e preparar tudo calmamente para a aventura. É engraçado, por várias vezes pensei para mim mesmo "o dia não acaba sem antes fazer 111km!" mas sinceramente ainda me parecia um bocado irreal, como se ainda não me tivesse apercebido da epopeia que me esperava mais logo à noite, o que até nem foi mau já que andei muito pouco ansioso durante o dia. 

Chegámos a Condeixa às 18h e fomos levantar o dorsal, processo que decorreu normalmente. Volto para o carro e mostro o dorsal à Sara: "Hãn?? Esse é mesmo o teu número??" ahahah nem me tinha apercebido!

A sério que não foi de propósito!! :D
Como já por aqui disse, tento sempre aliar às provas que vou fazendo um programa familiar. Desta vez encontrámos uma casa para alugar em Casmilo, local de passagem da prova e a cerca de 8km de Condeixa. Uma casa super confortável que aconselho a toda a gente que esteja a pensar fazer uma escapada de fim de semana! Foi lá que jantámos calmamente os três e ainda tive tempo para descansar um pouco na cama até às 23h. Era hora de rumar a Condeixa!

A "nossa" casa. A miúda não fazia parte da mobília.
Estava um ambiente espectacular na praça da meta, parecia quase aqueles arraias de verão, nas festas da cidade. Eram centenas de pessoas a apoiar, não sei se familiares ou habitantes de Condeixa, mas em número como nunca tinha visto numa prova de trail! Rapidamente encontrei os meus colegas de equipa. Era altura de me despedir da Sara e da Maria Amélia e juntar-me aos outros cerca de 260 atletas que já tinham feito o controlo zero. 

David (em 1º plano), eu, Omar, Joel, Vasco e Jorge
A ansiedade e o nervosismo eram palpáveis. Risos nervosos, ultimas verificações quase maníacas do material, algumas fotos de grupo, incentivos aos amigos, despedidas de familiares... Toda a gente que anda nisto já sentiu o que são aqueles últimos minutos antes da partida, é incrível! Nesta altura tive um breve momento de introspecção e comecei a pensar na aventura brutal que cada um de nós ia enfrentar. Como cada uma daquelas almas viveria nas próximas horas, quem conseguiria e quem sucumbiria, os pensamentos que passariam pela cabeça de cada um e a maneira como aquele desafio lhes toldaria a vida. 

Bem, lamechices à parte, vamos lá a isto!


Depois da partida percorremos cerca de 5km ainda dentro de Condeixa. Notava-se o respeito que todos tinham pelos 111km, já que não se viam muitos dos habituais aviões que gostam de bater recordes pessoais de velocidade nestes primeiros quilómetros. Muito pelo contrário, todos iam muito descontraídos e bem dispostos. 

O percurso podia ser dividido em duas partes, com uma passagem aos 50km pelo ponto de partida. Mas não era só no papel que as duas partes eram distintas, iríamos perceber, e bem, no terreno. Quase como se fossem duas corridas diferentes!


Com a primeira subida, aos 6km, apareceu também um inimigo que nos iria acompanhar até ao fim: a chuva. Não era a chuva grossa dos Abutres, mas antes uma chuvinha molha parvos acompanhada por um nevoeiro denso que não nos largaria nunca mais. Estas condições podem parecer até óptimas para a corrida, mas sendo esta uma prova que duraria muitas horas, temos que nos lembrar de certas condicionantes. Primeiro nunca consegui sentir-me confortável, a chuva não era grossa mas era forte o suficiente para nunca me sentir seco. Segundo e mais importante ainda, era o nevoeiro. Durante cerca de 90% do percurso não conseguíamos ver mais que 50 metros à nossa volta. Agora imaginem o que é correr durante mais de 18 horas e só conseguem ver o trilho, estradão ou estrada à vossa frente! Nada de paisagens brutais, nada de distracções, só o caminho à vossa frente. Psicologicamente foi terrível!

Antes de chegarmos ao primeiro abastecimento, aos 10km, tive o meu momento "Calma Lá Oh Artista, e Mete-te No Teu Lugar!". Um senhor mais velho meteu conversa comigo e começou a falar-me do antigo circuito nacional de montanha, e de como estas provas eram diferentes há 30, 35 anos. Elah, 35 anos?? Nem era nascido ainda! Pois bem, o senhor tinha 64 anos, estava a fazer os 111km e tinha no currículo pequenas provas como as 100 milhas Ehunmilak, no país Basco!

O primeiro abastecimento apareceu depois de umas subidas +/- difíceis e uma descida complicada, mas vim sempre a resguardar-me e sentia-me super bem. Quando percebi que o abastecimento estava ali em baixo pensei logo que não valeria a pena parar ou então só comia uma bananita. Isto pensei eu, até ver o banquete que nos esperava! Bem, não há palavras para descrever os abastecimentos desta prova! Nunca vi nada parecido! Mas quanto a isso, falaremos à medida que formos avançando. Digo-vos apenas que estava a pensar comer apenas uma banana e acabei por comer pão caseiro com presunto e queijo fresco! :)

Depois do abastecimento surgiu a primeira de algumas subidas mais agressivas, daquelas de fazer os gémeos entrar em combustão. Felizmente não se prolongou durante muito tempo e ainda não seria esta a deixar marcas. O percurso nesta primeira parte seguia bastante acessível. Algumas, poucas, subidas, alguns trilhos bons de correr e alguns, muitos, estradões. 

O segundo abastecimento surgiu aos 16km. Outra das características desta corrida era o perfeito posicionamento dos abastecimentos. Nunca estavam a mais de 10km e muitas vezes a distancia até era menor. Estamos a falar de 11 abastecimentos MUITO completos! Por exemplo, neste segundo (e reforço, segundo) aos 16km comi uma bifana quentinha super saborosa! 

Não, não era um casamento. Era um abastecimento à Sicó!
Na chegada a Penela, onde estava o terceiro abastecimento, encontrei os meus amigos Omar e Joel. Tinham passado por algumas dificuldades (principalmente o Omar, que vomitou algumas vezes) e estavam a aproveitar o abastecimento para se recomporem. Juntaram-se a mim, ao David e ao Jorge e seguimos por alguns quilómetros os 5. 

Os 20km que se seguiram até à Base de Vida, em Penela, foram a minha melhor fase na prova. Sentia-me muito bem e o desconforto intestinal tinha sido resolvido numa casa de banho de um abastecimento. Sim, usei uma sanita num trail, espero não ser penalizado por isso! O Omar, já restabelecido, começou a aumentar o passo (normalmente ele é muito mais forte que eu) e eu fui acompanhando. Ficámos os dois sozinhos e assim seguimos até ao fim. Não tive medo de estar a abusar porque não me sentia a fazer esforço nenhum! A chuva até tinha abrandado e só sentia frio imediatamente após os abastecimentos, onde me estava a demorar sempre um bocadinho de mais, viria a perceber depois.

Ah, pequeno aparte, no abastecimento dos 40km existia nada mais nada menos que Sopa da Pedra!! ahaha Não tive coragem de comer, mas deixo aqui um louvor à organização! Fiquei-me por uma taça de arroz doce :)

Chegámos ao Pavilhão de Condeixa, à Base de Vida (53km), local onde estava o primeiro saco com muda de roupa, com 6h50, um pouco antes do nascer do sol. Ainda bem, estava muito saturado de correr à noite e o frontal aleijava-me na testa e nas orelhas. Não troquei de roupa nem de sapatilhas, mas decidi demorar-me bastante tempo. Sentei-me, estiquei as pernas, conversei com quem lá estava... Estive perto de meia hora no pavilhão, muitíssimo tempo. Mas era por uma boa causa! Certo..?

Não sei... Algo de estranho se estava a passar. O descanso, em vez de me dar energia, estava a ter o efeito precisamente contrário. O sorriso que trazia à entrada do pavilhão tinha desaparecido e comecei a sentir-me muito desconfortável. Decidi arrancar um pouco à frente do Omar para o abastecimento, que ficava numa escola a 200m do pavilhão. Eram 7:20 da manhã e o dia já tinha nascido, talvez o sol e a visão da manhã me dessem alento. 

Assim que saio do pavilhão foi como se me tivesse caído uma bigorna em cima. O dia que eu pensava que tinha clareado era afinal cinzentão. Uma rajada de vento frio gela-me e empurra a chuva que era agora muito mais forte que há pouco. Foram 200 metros completamente desanimado até chegar à cantina da escola, onde havia massa à bolonhesa para comer. Quando lá entrei até estava atordoado. Não tinha fome, sentia-me pesado, triste, desanimado. Como é possível uma mudança tão radical desde que entrei até que saí do pavilhão? Sentei-me numa mesa sem comer nada à espera do Omar. Ele chegou e comeu um prato de massa. Eu pedi o mesmo mas não consegui comer nada. Ficámos ali mais 10 minutos e eu a afundar-me cada vez mais. Vesti o impermeável e fiz-me ao caminho.

Ia começar a segunda parte da prova. Agora era a sério.

Foi assim, fisicamente bem mas psicologicamente de rastos, que percorri um dos trilhos mais espectaculares de todo o percurso, logo à saída de Condeixa. Muito técnico, a fazer lembrar a loucura dos Abutres (sem a lama), junto a um ribeiro de águas cristalinas e uma cascata daqueles que só se vêem nos postais! 


Nesta altura comecei a ficar preocupado. Enquanto percorria este trilho ouvia tudo quase como se fosse um eco e a minha visão estava sempre a tremer. Sentia uma dormência nos lábios e temi não conseguir continuar. O Omar perguntava-me se estava bem, respondia-lhe que me estava a ir abaixo. Pedi-lhe para ele seguir sozinho (algo que repeti 675 vezes aproximadamente durante a prova), que precisava de estabilizar. Ele insistia em esperar por mim e ir ao meu ritmo. Felizmente, mais uma vez o abastecimento não tardou e pude sentar-me um pouco enquanto comia uma sopa quente. As tonturas passaram, mas o mal estar insistia em ficar.

Se os 20km até ao pavilhão de Condeixa foram a minha melhor fase, os 20 que se seguiram foram de longe a pior. Falava com o Omar das famosas mortes e renascimentos que acontecem nas ultras, como tanto eu como ele já tínhamos passado por isso. Foi a essa esperança de segunda vida que me agarrei com todas as forças, mas ela estava a tardar em surgir. 

A tal chuva molha-parvos acompanhada de nevoeiro nunca deu tréguas, o que aumentava o desconforto e enlameava os trilhos. Não calamiticamente como nos Abutres, mas o suficiente para dificultar as subidas mais inclinadas. O percurso variava entre estradões longos e trilhos muito interessantes. Quanto à paisagem: zero. Praticamente não dei por ela. No fim de uma grande subida ouvia as eólicas com o seu barulho característico, sabia que provavelmente ali existia daquelas vistas de encher a alma, mas eu só via 50 metros de estradão à frente. Era quase como se corrêssemos de palas, muito muito desgastante! 

Um exemplo da vista que tínhamos. Ah, e reparem no colega lá em baixo a subir de gatas!
Os 70km coincidiram com a subida ao ponto mais alto do percurso, com 500m. Depois de alguns quilómetros a subir tínhamos agora um estradão ligeiramente a descer pela frente. 

"Vamos a isso", disse para o Omar. 

Começámos a correr.

Corremos até uma grande e divertida descida por um trilho inclinado e técnico que serpenteava pela encosta. Fizemos a descida sempre a correr até desembocar em novo trilho plano onde continuámos a ... correr! 

Algo estava a mudar. O Omar disse-me que estava com melhor cara e a verdade é que estava a começar a sentir-me bem! Conversávamos e riamos, falávamos dos trilhos e da vida em vez de mortes de renascimentos. Foi assim com este espírito que cheguei ao abastecimento de Degracias, aos 74km. Assim que começo a descer a rua para o abastecimento vi o tónico que me faltava para me trazer de novo para o mundo dos vivos: a Sara e a Mel!

Nota-se muito que fiquei contente por as ver? :)
Fartei-me de comer neste abastecimento, que mais uma vez era completíssimo! Insisti no pão caseiro com presunto e queijo fresco, que era o que me sabia melhor, mas variedade não faltava. 

Normalmente não gosto nada que esperem por mim, percebo que me querem ajudar, mas a verdade é que não gosto de pensar que estou a empatar alguém nem de me sentir pressionado a aumentar o meu ritmo. Depois dos 53km, quando eu fui abaixo, o Omar sentiu a necessidade de não me abandonar. Sei que ele podia bem ter feito pelo menos hora e meia a menos do que fez. O que me impressiona mais no Omar é que apesar de ter um potencial brutal (de certeza que vai andar lá na frente muito em breve) para ele há sempre valores mais altos que se levantam. Ajudar os amigos é um deles. Obrigado por isso Omar!

No abastecimento de Degracias
Seguimos novamente juntos e com um andamento confortável até entrar no Vale do Poio. Quando começámos a descer para o vale olhámos para a outra encosta e vemos um grupo a correr num estradão. Nãooo, pensámos nós, de certeza que já ali passámos! Se numa prova de estrada já chateiam os retornos, imaginem num trail! Começamos a correr num estradão muuuuuito chato, ligeiramente a subir que nunca mais acabava. Foram 3 ou 4 quilómetros ali, na base do vale, com metros e metros de estradão pela frente. Assim que inclinava um bocadinho começava logo a andar! O Vale do Poio estava a tornar-se uma valente poia até que vemos uma placa a dizer "Trilho do Poio" a entrar pra dentro das árvores. Trilho? Pronto, menos maus, vamos a isso!

Parecia que nos tinham dado um doce, desatámos logo a correr pelo trilho! Foi dos que gostei mais do percurso. Perfeitamente corrível, sempre aos ésses no meio de uma vegetação muito densa que até nos cobria a cabeça! Andámos naquele paraíso cerca de 1.5km até que saímos da vegetação e damos de caras com a zona mais impressionante da prova: o Canhão do Poio.


As fotos não lhe fazem justiça, muito menos print screens de uma filmagem que fiz com a go pro, mas era uma espécie de Grand Canyon. Duas grandes escarpas que se erguiam à esquerda e à direita e nós ali a andar num trilhozinho na base de uma delas! Ainda por cima o tempo ajudou e até abriu nesta altura! Fez-me pensar novamente na monotonia que é correr com nevoeiro, ter o privilégio de ver estas coisas ajuda muito. 

O posto de abastecimento de Poios, no fim do Canhão, situava-se ao quilómetro 83. Antes de lá chegarmos devemos ter passado por um carro dos bombeiros. Digo "devemos" porque eram tantos ao longo do percurso que a probabilidade de fazer 5km sem ver bombeiros era muito pequena! Impressionante, é o que me ocorre dizer! Eram centenas de bombeiros sempre com carros e ambulâncias. Nunca estive numa prova assim. 

Comi uma canja no posto de Poios (havia comida quente em praticamente todos os postos) e segui caminho, sempre com o Omar. Continuava a sentir-me bastante bem, mas naturalmente desgastado pelos muitos quilómetros que levávamos nas pernas. Principalmente os pés, que estavam cada vez mais doridos. Decidi fazer a prova toda com as minhas Salomon velhinhas o que pode ter sido um erro, mas não tinha confiança nenhuma nas Skechers. Infelizmente, penso que desta é que foram para melhor :(

Já não é só a malha exterior, já tem mesmo buracos :(
A segunda Base de Vida era em Tapéus, aos 93km. Aqui podíamos mudar novamente de roupa. Mas o que é que interessa mesmo em Tapéus? A mudança de roupa? Os massagistas que lá estavam? A assistência de bombeiros? Não, nada disso. Em Tapéus o que interessa reter é que havia leitão para comer!!! ahahah Sinceramente, nunca vi nada assim. Até comentei com o Omar que ao contrário de todas as provas, nesta ia acabar com mais peso em vez de perder!

Saímos de Tapéus para enfrentar a ultima subida antes da meta. seriam cerca de 7km até Casmilo, onde estava situado o ultimo abastecimento. Foi neste percurso que terminou o meu estado de graça. Desta vez já não era nada psicológico, nem tonturas ou tremores. Estava pura e simplesmente esgotado!

Infelizmente era este o meu estado quando, a meio do trajecto, atingimos a marca dos 100km! 


Porra, são 100km, foi a primeira vez! Que se lixe o cansaço e a porcaria da saturação, deste momento nunca mais nos esquecemos!!


Antes de Casmilo passámos por uma das zonas mais técnicas do dia, o Trilho das Buracas. As Buracas são uma formação geológica muito interessantes nas escarpas daquelas montanhas. Segundo percebi, eram antigas salas de grutas que ficaram a descobertos depois do desabamento de algumas encostas. O trilho era muito dificil e a progressão lentíssima. Fizemos as contas e demorámos 50 minutos a percorrer 5km!

Buracas de Casmilo
Chegados a Casmilo tínhamos tinha mais uma vez à minha espera a Sara e a Maria Amélia! Infelizmente, a primeira coisa que ela nos diz é que o nosso colega de equipaVasco estava na ambulância a receber assistência médica! Tinha-se sentido mal e vomitado. Lembram-se da Sopa da Pedra? Pois, o amigo Vasco achou por bem comer! ahah Fomos logo a correr para a ambulância onde estava o Vasco embrulhado numa manta térmica a receber assistência com uma cara chateada. 

Atão pah, vais ficar por aqui?

Perguntei eu.

A médica vira-se para mim e abana a cabeça a dizer que sim.

Ao que o Vasco responde:

Hãn? Nem pensar, isto é pra acabar! ahaha

Depois de alguma negociação com a médica, lá ficou decidido que iríamos os três juntos até ao fim! Ele ficou na ambulância a aquecer um pouco enquanto eu e o Omar fomos comer. Nada mais nada menos que caldo verde e uma bifana! 

Os três e a ambulância!
O Vasco rapidamente se apressou em dizer para nós seguirmos sozinhos, que ele não se importava de ir atrás porque estava mais lento. Mas eu sabia que tinha estoirado há algum tempo e que iria ser eu a fazer de âncora. E assim foi.

Voltámos ao inicio deste post. Estes 11km foram os mais difíceis dos 116. Começou com cerca de 2km sempre a descer por um trilho corrivel e bastante divertido. Percorri-o a correr, com dentes serrados e dores horríveis a cada passada. Quando acabava a descida e começava a subida era um sacrifício voltar a apoiar-me nos bastões, os braços estavam super doridos. Os pés, mais uma vez, eram o pior de tudo! Não a nível de bolhas, mas as articulações no tornozelo latejavam. A somar a isto tudo estava completamente drenado de energia e muito saturado de ali estar.

Mas já faltava tão pouco...

O Vasco e o Omar estavam a ganhar nova vida com o aproximar da meta e eu só os puxava para trás. Sentia-me pior que nunca por os estar a prender, mas simplesmente não tinha mais nada para dar!

A cerca de 500 metros da meta disse-lhes: pronto, vamos a isso.  


A uns metros do pórtico estava a Sara e a Mel, que puxei para o meu colo antes de passar a meta. Que ela fique orgulhosa do pai daqui a uns anos, é a única coisa que eu quero. 

Dizem que se vive uma vida cada vez que se corre uma ultra. Esta, vivi-a com o Vasco e principalmente com o Omar. Dei-lhes um abraço sentido no fim e digo-lhes agora que nunca me vou esquecer desta ultra aventura. Obrigado aos dois! Obrigado também à minha super mulher Sara, que percorre o que for preciso para me apoiar em todas estas doideiras. 


Quantos aos ensinamentos desta prova de como vai influenciar a minha preparação para o MIUT... Bem, falamos disso noutra altura. Agora vou ali comer o queijinho curado que ofereceram no fim e continuar a aproveitar esta nuvem de endorfinas onde me encontro a flutuar no preciso momento :)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

111km

Saindo de Almeirim e percorrendo 111km, podia ir:

  • A Espanha comer caramelos (é isso que se faz em Espanha, não é?).
  • À Luz, ver o Benfica esmagar.
  • À Mealhada, comer leitão.
  • À Nazaré, ver as ondas à Praia do Norte.
  • A Fátima, acender uma velinha pra não ter lesões. E para o Benfica ser campeão.
  • Ir e vir a Santarém 8 vezes, só porque sim.
  • Ao Samurai de Belém enfardar 3 pratos de Sushi no buffet e depois rematar com 2 pasteis ali ao lado (oh, as saudades do tempo de faculdade...).
  • Tirar uma selfie em frente à prisão de Évora.
  • Comer um queijo de Nisa. Em Nisa.
  • Ao Fim da Europa.
  • Estudar fenómenos no Entroncamento.
  • Comprar sal a Rio Maior, por causa das câimbras.
  • Passar o dia na praia à Comporta.
  • Comprar um copo à Marinha Grande para beber vinho frisante enquanto como leitão na Mealhada.
  • A Almada, ao Cristo Rei, fazer um treino de escadas (agora que penso nisso, dá pra subir lá acima de escadas?).
  • Comer 2 bifanas a Vendas Novas. Não, três, sff.
  • Ver o Benfica esmagar o Sporting, o Belenenses e a Académica, fora.

Mas não. Vou calçar as minhas Salomon desfeitas, carregar com 2 litros de água às costas e partir à meia noite de Sexta-Feira para 111km a correr na Serra de Sicó.  

Vá-se lá perceber...










sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Curtas

Pior cor de sempre?

Há algum tempo que queria comprar um segundo par de sapatilhas de trail. As minhas Salomon XT6 Softground, único par que tive até agora, serviram para todas as provas e treinos que tenho feito em trilhos. No entanto, há medida que fui aumentando a distancia, também aumentaram as exigências. As XT6 são bastante rígidas e oferecem uma segurança excelente em trilhos técnicos, mas quando as provas são mais rolantes sinto falta de algum conforto extra. Senti muito isso no Douro Ultra Trail, prova que demorei mais tempo a fazer até agora (13h40). No fim tinha os pés muito doridos (mas nada de bolhas ou feridas). Nesta, e em todas as grandes ultras, existia um abastecimento a meio da prova onde podíamos trocar de equipamento, nomeadamente de sapatilhas. Lembro-me de ter pensado na altura que a rapidez em trilhos técnicos já pouco ou nada me interessava e que o que gostava mesmo era de calçar umas Nike de estrada, daquelas tipo sofá, para fazer o resto da prova! Mais recentemente li este post, do blog De Sedentário a Maratonista, onde o José Guimarães fala dos sapatos que usou no UTMB. Ele fala da opção que tomou a meio da prova quando teve de escolher entre umas sapatilhas mais rígidas e seguras e outras que privilegiassem o conforto. Optou pelas segundas, as Skechers Go Run Ultra 2 e ficou muito satisfeito! 

As Go Run Ultra são as anti-sapatilhas de trail. À primeira vista nem se parecem nada com sapatilhas para os trilhos e depois têm uma característica MUITO RARAMENTE vista no equipamento para o trail: não são estupidamente caras! O meu par custou 64€, vejam bem! Eu a pensar que o preço base no trail era 100€...  Lá fui eu então à loja da Skechers no Vasco da Gama comprá-las. 

Boa tarde. Tem as Go Run Ultra tamanho 43?

Tenho sim, vou ver que cores há.

Ok, obrigado.

Desculpe, mas só temos nesta cor :\


Estão mesmo a pedir uma voltinha nos Abutres.
O quê, já?!?

Como disse lá atrás, as Salomon têm sido pau para toda a obra. E se posso dizer maravilhas delas a nível do desempenho, já a durabilidade deixa muito a desejar. Ok, é verdade que já sofreram muito, mas porra, a sola está quase tão lisa como as minhas Asics Excell 33 de estrada e a malha exterior na parte da frente do pé.... bem, vejam por vocês próprios:

Pessoal que usa Salomon, também vos acontece?
MIUT e a táctica possível. 

Quando decidi embarcar na aventura MIUT, em Outubro do ano passado, não tomei a decisão sem antes saber exactamente onde me estava a meter. Li e pesquisei muito sobre aquela prova e desenganem-se se acham que foi uma decisão impulsiva. Aliás, em toda a minha vida de corridas só fui mal preparado para 2 provas: a minha primeira maratona e o meu primeiro trail a sério. Sabia que me estava a propor fazer uma das provas mais duras da Europa, com uma altimetria de loucos e trilhos super técnicos. Ora, que eu saiba aqui pelo Ribatejo não consigo encontrar condições parecidas para treinar, apesar dos 200m de altitude da Serra das Fazendas não ficarem nada a dever ao Pico Ruivo na Madeira :) Por isso cheguei à conclusão que a única forma era alterar o método de treino. Desde então pus os fartleks e séries de lado e comecei a fazer um trabalho diário de reforço muscular, rampas e muita, muita escadaria. Foram 4 meses de muita carga que tiveram um grande teste há duas semanas nos trilhos muito técnicos dos Abutres, teste que, modéstia à parte, penso que superei com sucesso! É verdade que a progressão foi muito lenta, mas nunca me senti debilitado fisicamente, e as únicas marcas Abutricas que senti nos dias seguintes foram devido à queda que me provocou a distensão que vos falei há uns dias

De facto, há uma infinidade de coisas que podem correr mal na Madeira (basta lembrar do que me aconteceu nos Abutres), mas nunca será por falta de treino que não vou cortar aquela meta!


Virgem dos 3

A preparação para a Madeira não podia passar só pelo treino, as provas são muito importantes. Desde logo comecei a pensar nalguns pontos chave e testes que teria que cumprir até Abril. A meu ver, havia duas vertentes que tinha que melhorar muito: a prática em trilhos mais técnicos e a resistência para aguentar uma corrida de mais que 100km e previsivelmente cerca de 24 horas de esforço. Mesmo com 6 meses de antecedência, havia duas provas que serviriam quase como um tubo de ensaio.

A primeira era os Abutres, com os seus trilhos super técnicos. Este ano ainda por cima com as condicionantes que já estão fartos de ouvir falar. Foi um teste perfeito não só pelos trilhos técnicos mas também quanto à necessidade de adaptar o equipamento que tinha vindo a usar. De facto, se não tivesse sido aquela malfadada queda que me debilitou fortemente logo a meio da prova, tinha acabado em muito boas condições físicas e sem nunca sentir que seriam dificuldades técnicas a parar-me. 

A segunda prova de fogo era a barreira dos 3 dígitos, já que o máximo que fiz até hoje foram 83km, na Arrábida. Como disse o Paulo Pires no seu blog Runbook de um gajo que mudou de vida, o MIUT não é nem de perto nem de longe a melhor prova para se tentar os 3 dígitos pela primeira vez. Comecei então a procurar uma prova que me permitisse isso sem forçar a evolução que estava a ter. Pensei até em cumprir a distancia em modo treino, aqui por "casa", mas decidi inscrever-me no Ultra Trail Terras de Sicó, 111km. Este tem lugar daqui a duas semanas, o que me deixa a exactamente 6 semanas da Madeira. Não é o ideal, eu sei, mas penso que 6 semanas bem geridas são o suficiente para recuperar do esforço e por outro lado tenho a certeza que me vou sentir muito mais confiante se conseguir superar mais este teste. 

O Terras de Sicó é uma prova longuíssima mas pelo que tenho lido não será especialmente dificil tecnicamente, por isso parece-me o ideal. Além disso a partida é há meia noite, tal como na Madeira, o que é uma novidade para mim. 


8 Semanas e uma distensão

Faltam exactamente 8 semanas para dia 10 de Abril. Se retirar uma semana antes de Sicó e outra antes do MIUT sobram 6. Seis semanas de treino. A distensão que vos falei impediu-me de correr por uma semana e meia depois dos Abutres, só ontem recomecei a correr e muito devagar. A primeira consequência foi perder duas semanas de preparação, a segunda foi o cancelamento da participação no Trail do Castelejo (45km) que serviria como ultimo treino longo antes de Sicó. Eu sei que vou pagar, e bem, estas deficiências na preparação, mas as coisas são como são. Só resta dar o máximo nas 6 semanas que me restam e esperar que seja o suficiente. 

Escrevi "8 semanas" no Google. Adivinham o que me apareceu :)
Quarenta e Dois vezes 1

A data escapou-me na altura, mas fez há uma semana um ano que criei o Quarenta e Dois! Tem sido um prazer profundamente egoísta manter este blog, já que alia duas das coisas que gosto mais de fazer: correr e escrever. Lembro-me do dia em que o criei e de pensar "bem, mesmo que ninguém leia isto não faz mal, porque deu-me um gozo do caraças só escrever este post!". A verdade é que o número de visitas foi absolutamente surpreendente, ao ponto de às vezes nem acreditar. Uns mais "fieis", outros à procura de uma opinião sobre uma prova que também fizeram, mas já foram 40 mil as vezes que aqui vieram, o que não estava nem nas minhas melhores expectativas! Além disso conheci muita gente através dele, iniciei muitas conversas por causa disto e até pus amigos meus que nunca tinham pensado em corrida a falar de quilómetros e desnível acumulado! eheh Obrigado a todos!


Facebook

Umas semanas depois de criar o blog, iniciei também a página de facebook do Quarenta e Dois. A ideia era partilhar os posts que ia escrevendo com quem se interessava por eles, sem ter que chatear os meus "outros" amigos. Entretanto a coisa evoluiu e aquela página tem-me dado muito gozo. Além de mostrar os posts e escrever coisas que acho que não justificam um artigo no blog, partilho muitas vezes relatos de provas feitos por amigos, conhecidos ou estranhos, caso alguém me peça. Têm havido textos muito interessantes! Se não conhecem, passem por lá e deixem um gosto :)


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Distensão

"Uma distensão ou estiramento muscular, caracteriza-se por um rompimento parcial ou completo de fibras ou feixes musculares, resultante de um esforço extremo realizado pelo músculo em questão."

Queridos deuses da corrida, 

Ok, foi giro colocarem ali aquela pedra na Serra da Lousã. O bastão escorregou, eu torci-me todo, o músculo abdominal obliquo distendeu, fiz o resto da prova em sofrimento e tenho dores tão más desde esse dia que ainda nem sequer consigo pensar em correr... Ok, isso tudo aconteceu, mas foi engraçado! O pessoal riu-se (pelo menos vocês), foi uma rábula interessante no relato da prova. Deu aquele ar de Rambo, só ficou a faltar sarar a ferida com pólvora! Epah, mas faltam dois meses para o MIUT... e não é só isso, sabem? Há outros objectivos, outros pontos chave que não posso falhar até lá. Vá lá pessoal, ando obcecado com isto há 4 meses....

Por favor, dêem-me uma folga...

Não, espera, deixem-me tentar encontrar outras palavras... 

Ah, já sei:


NÃO ME FODAM!!!!!!!


Era só isso.

Obrigado,

Filipe


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Trilhos dos Abutres 2015 (50km) - brutal.

Três e meia da manha, toca o despertador. Estou na cama desde as 22 a insistir num sono leve e ansioso. Oiço os estores a abanar com o vento e a chuva a cair, nada que não estivesse à espera, as previsões apontavam nesse sentido. Num pensamento arrogante agradeço pela intempérie "vamos a isso, quanto mais difícil melhor!", achava eu. É incrível o que meia dúzia de provas bem sucedidas fazem ao nosso ego. De repente já ousava fazer frente aos Abutres, de peito feito! Mas eles puseram-me no meu lugar. Não, eles mandaram-me um rotativo na peito, uma esquerda seguida de uppercut no queixo e finalmente um cuspidela na cara quando já estava no chão!

Excelente cartaz, com o saudoso João Marinho
A hora marcada para o encontro com os meus colegas dos 20km de Almeirim era às 4:30 da manhã, e foi a essa hora que partimos de Almeirim rumo a Miranda do Corvo. Muita chuva e vento pelo caminho aumentaram a ansiedade. Um nervoso miudinho apoderava-se de mim mas sem me provocar medo ou respeito, só me queria fazer ao caminho! A 10 minutos de chegarmos a Miranda recebo uma sms da organização a avisar que devido às condições climatéricas a partida seria adiada duas horas. Nãoooo!! Já me estava a ver nos trilhos e agora faziam-me esperar esta ETERNIDADE? Grande desilusão! Ainda por cima se estão condições perigosas tanto melhor, a malta quer é dureza!

....agora que penso nisso, juro que nesta altura passou um abutre a voar e se vinha a rir!

A ansiedade dentro do pavilhão era palpável. O levantamento dos dorsais decorreu sem qualquer problema e o saco de ofertas incluía um magnifico buff da prova, mesmo da marca Buff original! Por ali nos mantivemos durante hora e meia a fazer tempo até às 9, para nos equiparmos. O tempo em Miranda não estava muito mau, mas no horizonte dava para ver as omnipresentes nuvens negras a cobrir a Serra. 

A excelente e muito completa feira Abutrica, vista das bancadas.
Eram nove horas e finalmente fomos equipar-nos. Mais uma vez, a arrogância imperou. "impermeável? Epah não sei bem, se calhar levo só na mochila, não deve estar assim tão mau... Luvas não levo, só vai atrapalhar". Felizmente ainda tinha uma gota de bom senso em mim, e parti com uma camisola de manga comprida, uma t-shirt do clube por cima e o impermeável vestido. Um buff na cabeça e outro no pescoço. Nas pernas, o habitual calção curto e nenhuma compressão. Ah, e sem luvas. Falo-vos da minha escolha de equipamento porque mais à frente ela vai-se revelar crucial, quase fatal para a minha continuação em prova!

Depois de um justificadamente rigoroso controlo zero encaminhámo-nos para o exterior do pavilhão. Estava finalmente na hora da partida! Como que a gozar connosco, o tempo nesta altura estava óptimo! Um sol radioso e temperatura amena elevavam a moral e o entusiasmo. 536 atletas estavam prestes a entrar na aventura de uma vida. 

5 dos 7 Almeirinenses presentes
A partida foi dada às 10 em ponto. Iniciámos então cerca de 5km corridos dentro de Miranda, para dispersar o muito grande pelotão antes de entrarmos nos trilhos. Foram 5 ou 6km nas ruas da cidade, muitas vezes com vista para um ribeiro que corria furiosamente ao nosso lado, quase a transbordar. Apesar de no sábado não ter chovido anormalmente, o mesmo não se pode dizer dos últimos dias. Entre conversas com alguns atletas locais, disseram-me que há 3 dias que chovia ininterruptamente na Serra. Cá em baixo conseguimos ter vislumbres do resultado dessa chuva, quase como um aviso da natureza. 

O rio que transbordou e inundou um campo de jogos
Percorri estes 5km a forçar um pouco o ritmo o que me colocou na metade da frente do pelotão. Na altura achei que talvez tivesse abusado, mas agora sei que esta decisão pode ter ditado a minha continuidade em prova. Já vão perceber porquê.

A entrada nos trilhos foi tranquila. Algumas poças, alguma lama, subidas difíceis mas não demasiado inclinadas e 1 ou 2km de trilhos corriveis que serpenteavam na floresta da Lousã. À medida que avançamos ficamos mais e mais embrenhados na Serra e no mundo dos Abutres. O ribeiro que corria ao nosso lado atravessa-se vezes sem conta à nossa frente. Ora pra cá, ora pra lá, lá fomos passando por cima dele. Umas vezes era uma passagem tranquila, noutras lá íamos molhando uma perna até ao joelho. De repente deixa de haver leito do rio, há um liquido castanho que corre por todo o lado! Não dá para saltar de um lado para o outro do ribeiro porque estamos a subir por dentro dele!

A minha cara parece dizer "Elaaaah, então mas, mas...."
A chuva que caiu nos últimos dias escorria sem regras pelas encostas da Serra, todos os caminhos valiam. Os trilhos abertos serviam como canais que facilitavam a descida da água, e era mesmo por aí que ela decidia vir. Pelo caminho trazia terra, folhas e matéria orgânica que lhe escureciam a cor. De vez quando parecia que corríamos contra uma torrente de lava castanho escura, quase preta, viscosa, que avançava vagarosamente cobrindo completamente o chão à nossa frente. Os buracos e raízes apareciam de surpresa, à traição, e os pés enfiavam-se muitas vezes dentro de armadilhas que nos enterravam até acima do joelho. Dizer que a progressão era lenta é favor. O terreno era plano e provavelmente corrivel em condições normais, mas naquele dia as condições estavam longe de normais. Todos os passos eram cuidadosamente medidos e ponderados, a consequência de não fazer este processo seria uma queda ou um pé torcido.

Conseguem ver lá à frente alguém que caiu numa armadilha.
Os Abutres estavam finalmente a mostrar a sua personalidade. Rapidamente percebo que não me iam dar tréguas, nunca! A cada troço de 200m que conseguia correr seguia-se um obstáculo incrivelmente técnico. Começaram então a surgir as subidas. Mas não eram simples subidas! Eram autenticas escaladas por encostas completamente enlameadas. Cada passo em frente era um desafio, cada apoio era seguido de uma escorregadela. Subíamos agarrados a árvores, a pedras, aos bastões, uns aos outros, como desse! Subimos sem parar tempos e tempos, com a dificuldade sempre a aumentar, sem dar tréguas!

Um exemplo do tipo de subidas por onde andámos vários quilómetros
Esta prova é conhecida pela sua dificuldade técnica elevadíssima, mas não nos podemos esquecer de avaliar o desnível acumulado. Foram 2450d+ muito duros, quase sempre por trilhos muito técnicos que nunca nos deixavam subir com um passo certo. A meio de grandes subidas por vezes apanhávamos um descida a pique, um autentico escorrega de lama e pedras que exigia a máxima concentração e não permitiam o mínimo descanso. 

O perfil, que só conta uma parte (pequena) da história
O primeiro abastecimento, ao km 15, marcava o inicio do primeiro ataque aos 900m de altitude. Encostei no abastecimento para comer qualquer coisa, já que o pequeno almoço tinha sido às 4 da manhã. Assim que paro oiço um grande trovão. Ok, vamos ter festa. Foi logo a seguir ao abastecimento que apanho a primeira chuvada de granizo. Toda a gente que ia perto de mim começou aos gritos de alegria, sorrisos, piadas, ....  Já íamos com 15km de Abutres e mesmo assim continuávamos a menosprezá-los. Mas não ficaríamos a rir durante muito mais tempo.

Considero que a prova só começou verdadeiramente neste ponto, no inicio desta subida. Mais uma vez, foi implacável. Cada vez mais embrenhados num floresta muito densa. O som da água a correr era omnipresente, por todo o lado víamos correntes de água que desciam violentamente pela encosta. Muitas vezes a vir contra nós. O granizo que há pouco teve a sua piada não parou e até aumentou. Era agora incomodativo e aumentava ainda o caudal de água. As paredes sucediam-se e só eram interrompidas com descidas abruptas no meio da lama. Correr era praticamente impossível, até andar era difícil. Seguia com máxima concentração, sempre focado no passo seguinte.



À medida que subíamos e nos aproximávamos da cota máxima a temperatura baixava perigosamente. O vento soprava agora cortante, já que a vegetação diminuía à medida que chegávamos perto do topo. O granizo tinha-se transformado em flocos de neve que se transformavam em água assim que tocava no chão. Sentia-me a arrefecer muito e foi aqui que começaram os meus problemas. Estupidamente, e reforço a palavra ESTUPIDAMENTE, achei que não precisaria de luvas, logo eu que tenho muitas dificuldades em aquecer as mãos! Mas agora ia pagar um preço muito elevado por isso.

Dá para ver o granizo
Os polegares foram os primeiros a perder a sensibilidade. Custava-me agora a agarrar nos bastões. De seguida foram os dedos mindinhos. A perda de sensibilidade começou a dar lugar a uma dor horrível nos dedos. Parei, várias vezes, tirava a alça do bastão e tentava mexer as mãos, batê-las contra as pernas para ganharem vida, mas nada. Não conseguia dobrar 2 dedos de cada mão, e quando forçava o movimento tinha dores de morte. O vento, cada vez mais forte e frio, cortava-me as mãos que imploravam por calor. Comecei a sentir uma dormência muito grande nos 3 dedos que me "restavam", até deixar de sentir as pontas. Estava agora no ponto mais alto da Serra e debaixo de uma chuva intensa de granizo. A meio de cada subida só pedia um troço recto para conseguir correr e recuperar a temperatura corporal, mas o Abutre é cruel e no fim de cada subida apresentava-me mais um escorrega de lama dificílimo. Comecei a ter pensamentos tão negros como as nuvens que me cobriam, apetecia-me ir para casa ter com a minha filha e mulher, para o quentinho e conforto da minha casa. Estava a entrar em desespero com as mãos que deixei de sentir por completo. Foi num trilho apertado, bem lá em cima, que perdi a esperança. 

Mandei os bastões para o chão, não consegui encostá-los, e meti as mãos dentro do impermeável, junto ao corpo. para as aquecer com o calor corporal. Não estava a resultar e comecei a arrefecer ainda mais. Tirei a mochila para sacar da manta térmica e embrulhar-me nela, a minha prova acabava ali, só pensava como conseguiria voltar para casa!

Assim que tiro a mochila passa um colega por mim, que me pergunta se estou bem. Eu digo que estou +/-, que tinha perdido a sensibilidade nas mãos e que estava a arrefecer muito. Ele perguntou-me: "Queres umas luvas? Trouxe um par a mais!". 

Só conseguir balbuciar uns 4 ou 5 obrigados, que me tinha salvo a prova, obrigado obrigado! Ele reconheceu-me do blog, coincidência das coincidências, era o Paulo Oliveira do "Pela Estrada Fora"!! Continuei a agradecer-lhe, quase em lágrimas, até que ele seguiu. 

Tinha as mãos tão rígidas que não conseguia calçar as luvas grossas, até que passa mais um colega por mim que me pergunta se estou bem. Peço-lhe ajuda e ele passa ali dois minutos a calçar-me as luvas. Incrível. 

Nunca falei aqui no blog do famoso "espírito do trail", porque acho que isso não existe. O que acho mesmo que existe são pessoas boas, dispostas a fazer tudo para ajudar o próximo. O Paulo e o colega que me ajudou são duas dessas pessoas boas. Ainda agora me emociona pensar naqueles 15 minutos lá em cima e digo muito sinceramente que a minha prova teria terminado ali se não fossem eles. Obrigado aos dois, do fundo do coração! Ah, e Paulo, diz qualquer coisa nos comentários para eu te enviar as luvas pelo correio :)

A segunda melhor opção, a seguir ás luvas do Paulo 

Seguia agora com o ânimo restabelecido e com a moral em alta. As pernas até agora ainda não se tinham queixado, e tive sempre a sensação que conseguia passar todos os obstáculos. Talvez tenha sido esse excesso de confiança que me provocou o primeiro tombo a sério, numa descida. Escorreguei de rabo e de costas uns 10 metros, sem conseguir parar, até ficar com uma perna e nádega em sangue. Levantei-me, atordoado e sorri para os companheiros que vinham atrás. Siga, isto é para acabar!

Ainda antes de chegar ao abastecimento e controlo dos 30km passaríamos por algumas das zonas mais técnicas do percurso. Primeiro foi isto:


Porque as descidas não eram complicadas o suficiente, lá tivemos que descer por um ribeiro com espuma branca a correr furiosamente! Foram cerca de 300 metros muito perigosos. A meio deste curso de água passei por um atleta com um golpe grande no joelho, tinha caído numa das tais armadilhas. 

A descida abrupta continuava, e foi nesta altura que tive o meu segundo grande incidente da prova, que mais uma vez iria mudar o rumo das coisas.

Ao descer um dos famosos escorregas de lama apoiei todo o meu peso no bastão do lado esquerdo, que resvalou numa pedra. Isto originou um movimento muito estranho, como que me dobrei sobre mim mesmo lateralmente, não sei se conseguem imaginar. Ouvi imediatamente um som estranho e senti uma dor lancinante no flanco esquerdo.

Pronto, já te f.....

Levantei-me e levei a mão ao sitio onde me doía. Respirei fundo umas vezes e reparei que quando enchia muito a caixa era como se levasse uma facada. Ensaiei um passos de corrida, não era insuportável. Não voltaria a correr com alegria até ao fim da prova, teria sempre aquela nuvem negra e aquela dor forte cada vez que retomava o passo de corrida, cada vez que me apoiava no bastão e cada vez que respirava fundo. Mais uma vez, pensei que aquele não era o meu dia.

O abastecimento dos 30km era coincidente com o infame corte das 5h30. Até agora, nunca tinha feito nenhuma prova a olhar para o relógio preocupado com os tempos limites. Foi mais uma lição de humildade que os Abutres me deram! Quando passei pelo tapete de controlo do chip lembrei-me do post da Isa e olhei para o relógio. Cinco horas e 18 minutos. Por 12 minutos não fiquei logo ali retido! Este corte iria ser responsável pelo fim de prova de muita, muita gente. Uma quantidade à primeira vista absurda provocada por um tempo limite bastante complicado de cumprir, lembro que seguia +/- a meio do pelotão! No entanto, ele tinha razão de ser, e já vamos ver mais à frente porquê.

Este abastecimento marcava o inicio de mais um ataque ao topo da serra. Estava mal disposto, já bastante saturado daquele suplicio e a dor por baixo das costelas retirava-me o resto da alegria. Comi uns cubos de marmelada à pressa e fiz-me ao caminho, só queria chegar. 

Mais um erro.

Demorei quase duas horas a percorrer os próximo nove quilómetros. Mais uma vez sucederam-se as paredes de lama seguidas de pequenas descidas só para acabar de partir as pernas. Nesta parte do percurso nem faltou uma cascata de cerca de 2 metros (era mais alta que eu) que tivemos literalmente que escalar no meio da água! Nenhuma subida era fácil, nenhuma descida era fácil, nenhum troço dava para correr. Os Abutres estavam agora no seu auge, perfeitamente implacáveis!

Passámos ainda pela famosa cascata dos Abutres, que nesta foto estava calmíssima. Este sábado parecia um trovão autentico, com jactos de vapor por todo o lado, furiosa, assustadora, lindíssima!

Sacado da net
Subimos e subimos até a vegetação começar a desaparecer. O vento aumentou e a temperatura voltou a baixar abruptamente. Agora dava para ouvir as eólicas que permaneciam escondidas no meio das nuvens. A meio da subida comecei a ficar com muita fome e com tonturas, como aconteceu no Réccua Douro Ultra Trail. Tirei imediatamente as duas barras que levava comigo e comi-as sofregamente, com terra e lama à mistura. A subida continuava, bruta, sem dar folgas. A cada apoio do bastão era como se me dessem um murro no flanco, estava a ficar insuportável. As mãos estavam controladas mas sentia o corpo a arrefecer cada vez mais. Pela primeira vez sentia frio nas pernas e nos pés.

Até que finalmente chegámos ao topo, onde havia um abastecimento dentro de uma tenda. Lá dentro, milagre! Bifanas em papo seco quentinhas e um chá a ferver! comi duas bifanas, dois copos de coca cola e rematei com um copo de chá a ferver. Demorei naquele abastecimento pelo menos 20 minutos. Valeu cada segundo, mais uma vez enchi os depósitos de ânimo!

Saio do abastecimento e preparo-me para mais uma tareia na descida. Mas, acreditem ou não, o Abutre deu uma folga!!! Assim que saímos da tenda entramos num trilho no meio de pinheiros gigantes aos ésses pela encosta abaixo. Um trilho seco, sem descidas malucas, sem lama pelo joelho, sem ribeiros para atravessar - diversão pura! Os primeiros passos de corrida são feitos com um movimento muito forçado, dobrado, rígido, numa tentativa de disfarçar a dor por baixo das costelas. À medida que avanço começo a aquecer e a esquecer a dor, consigo assim correr cerca de 2km, sempre devagar, mas 2km de puro prazer. As pernas responderam sempre bem. Mais uma vez culpo o reforço muscular! O pior é quando tenho que parar numa subida e depois volto a abrir a passada para a corrida. Imediatamente é como se levasse uma facada. Tenho que fazer alguma coisa em relação a isto, não vou desistir a 10km do fim!

Como devem ter reparado, coloquei bastantes fotos no inicio do texto e depois deixei de pôr. Isto porque a certa altura cheguei à conclusão que para fazer filmes e tirar fotos significava quase sempre um desequilíbrio e posterior estatelanço no chão! Ainda por cima, cada vez que queria filmar tinha que limpar a câmara que estava sempre coberta de lama! Decidi deixar-me dessas aventuras e concentrar-me no caminho. Só para perceberem o que estou a dizer, vejam o estado da gopro no fim da prova:



O abastecimento dos 40km, o penúltimo, foi em Gondramaz, a aldeia do xisto que vos falei no post do Trail Serra da Lousã. Decidi tomar o brufen que levava comigo, para tentar amenizar as dores que sentia. Mais uma vez, dependi da ajuda de outra pessoa que me retirou o comprimido da mochila, abriu e mo deu para a mão. Desta vez um membro da organização. Obrigado!

Até ao próximo abastecimento seriam 5km. Estranhei logo a distancia ser tão pouca, mas depois percebi porquê, já que demorei uma hora a lá chegar.

O percurso começou com um quilómetro bastante corrivel. Sabia-me incrivelmente bem correr nesta altura. As pernas estavam muito massacradas mas até li tinha corrido muito pouco, por isso quando havia oportunidade para isso era uma alegria. O segundo quilómetro foi feito num trilho muito apertado, numa encosta íngreme. Até aqui tudo bem, mas havia o pormenor de termos que dividir o trilho com água que corria a toda a velocidade e bastante caudal. Coitada, tinha que descer por algum lado. No terceiro quilómetro voltámos a entrar dentro da floresta e para junto de água. Estávamos a entrar numa das partes que achei mais perigosas de todo o percurso. Sempre a entrar e a sair de cursos de água que corriam fora do caudal. Já eram 5 da tarde, estava a escurecer, imaginei fazer aquilo de noite e percebi a razão do corte tão apertado. Mais que nunca, ali senti que um passo em falso facilmente teria consequências desastrosas! Passámos por umas 10 "pontes" rudimentares, que mais não eram que dois ou três troncos cheios de musgo! Segundo soube depois, esta parte era em comum com o UTAX. Quando entrámos num estradão a 500 metros do abastecimento já era praticamente de noite, tinha que ligar o frontal. Segundo um colega que já tinha feito a prova dos 25km, até à meta seria um estradão tranquilo. 

AHAHAH claro...

Parei no ultimo abastecimento, a 5km da meta, apenas para ligar o frontal. O brufen fez efeito e aqueles últimos metros de corrida antes do abastecimento souberam-me muito bem! No abastecimento perguntei ao pessoal que lá estava quanto faltava para a meta. Responderam-me:

5km.

Boa. 

De lama.

Ok, nada de novo, mas já deitava lama pelos ouvidos.

De lama até ao pescoço.

Hm? Nah, devem estar a exagerar. Não pode ser pior do que já apanhámos até aqui!

Mas podia.

Os 3km seguintes foram indescritíveis. O tal "estradão tranquilo" estava coberto de água e lama. como se toda a água que tem caído tivesse ido ter ali. Passo sim passo não ficávamos com lama acima do joelho. Era de noite, estava completamente saturado, só me apetecia chegar! Enquanto pensava nisto enfiei o pé num buraco e fiquei com lama pela barriga! De noite! A chover! Sozinho! 

Na altura aquilo pareceu-me um bocado desnecessário. Não tinha nada de técnico, era só perigoso e molhado. Agora que penso nisso, chateia-me menos. O costume...

Acelerei até apanhar um grupo, não me apetecia nada ir sozinho naquelas condições. Esse mesmo grupo acompanhou-me até ao fim, no ultimo quilómetro que faltava percorrer dentro de Miranda.

Ah, mas antes da meta falta contar esta história:

Uma espécie de Walking Dead
Antes de mais, o tom pastoso resultante de uma camada muito grossa de lama que entretanto secou. Depois o sangue. Podia dizer-vos que foi num tronco que estava debaixo de água ou num calhau pontiagudo, mas não. Depois de 49km duríssimos foi no quilómetro final, dentro de Miranda, quando passámos por um jardim publico que eu decidi saltar por cima de um canteiro. De rosas.

A aventura chegou ao fim 9 horas certas depois. Foi um tempo bastante fraquinho, sei disso. Mas digo muito sinceramente que nesta prova senti-me um vencedor por ter conseguido terminar, sem qualquer ponta de exagero. Resta dizer que dos 538 iniciantes, apenas 319 terminaram, o que equivale a 59% dos atletas! 

Na meta, com o excelente troféu 
Dizer que foi duro é menosprezar o que se passou. Eu sei que os Abutres são assim, implacáveis, mas este ano ainda teve um condimento especial que elevou a fasquia. Foi extremo, incrível, brutal! Fiquei contente por ter superado o desafio e pelas lições que aprendi para o MIUT. 

Este deve ter sido o relato mais comprido que já escrevi, agradeço a quem teve paciencia para chegar até aqui! Desculpem, mas agora que penso nisso foi a prova com mais para contar que tive até hoje. 

Ah, e a mais difícil, não sei se já vos tinha dito! :)

Despeço-me com uma fotografia do meu lindo impermeável azul. Sim, vamos chamar-lhe azul.



terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Até ao Fim da Europa (e mais 300 metros)!!

Este domingo foi dia de romaria a Sintra. Desta vez não para correr nos trilhos da Serra, mas para participar em mais um Grande Prémio Fim da Europa. Foi apenas a minha segunda participação na prova, depois de 2 ou 3 anos me ter atrasado nas inscrições e daquele ano em que a prova não se realizou (pelo menos oficialmente). Este ano o Grande Prémio, que entretanto passou a mísera Corrida, foi brindado com um dia perfeito de primavera. Céu limpo, temperaturas não demasiado baixas e pouco vento. 


Apesar de ter sido apenas a primeira, a minha participação do ano passado foi o suficiente para colocar esta corrida no top 3 das minhas preferências em corridas de estrada. Curiosamente, ou nem por isso, foi muito pouco tempo depois de a correr que tomei a decisão de fazer este blog. 

O Fim da Europa é uma corrida diferente, tanto pela localização como pelo percurso. Nada ali é monótono ou maçador, tudo é desafiante. E os desafios começam logo pela logística da prova. Sendo ela linear (começa em Sintra e acaba no Cabo da Roca, 16.6km depois), a questão dos transportes pode ser uma grande complicação. Felizmente a organização disponibilizou um sistema de transportes colectivos. Dizem às más línguas que é muito complexo e que um dos pré-requisitos para a inscrição na prova deveria ser um grau de mestrado, para o conseguir perceber. Felizmente existe este esquema simplificado, feito pelo João Campos, que a meu ver deveria fazer parte do kit de entrega com o dorsal:


Como não encontrei este verdadeiro manual de sobrevivência antes da fazer a inscrição, decidi não pagar pela utilização dos autocarros, mas antes desenvolver o meu próprio esquema de logística. Passo então a descrever:

Os atletas A, B e C, arrancaram no carro X para se encontrarem com o atleta D (que estava no carro Y) e os atletas E e F (no carro W). O atleta C passou então para o carro W e foram nos carros X, W e Y ao encontro do atleta G que estava no carro Z à nossa espera na Azóia. Quando lá chegados, o atleta G juntou-se ao carro X e os atletas E e F, juntaram-se a C e D no carro W, e foram para Sintra, deixando os carros Y e Z na Azóia. No fim da prova, todos os atletas percorrem a pé a distancia entre o Cabo da Roca e Azóia para entrarem no carro Z (atletas A, B, G) e no carro Y (C, D, E F) em direcção a Sintra. Lá chegados, retomaram as posições iniciais e rumaram a casa. Simples!

Ora bem, como qualquer máquina oleada, esta logística permitiu-nos chegar exactamente em cima da hora de partida a Sintra. Quase que consigo ouvir as más línguas de que falava lá atrás a dizer que devíamos ter chegado antes, para fazer um aquecimento, fazer um xixi, relaxar, bla bla bla... Sabem lá eles! A partida era às 10:15, 10h10 é uma hora perfeitamente aceitável para chegar à recta da meta, e só tivemos que correr metade do caminho do carro atá lá, o resto foi só em passo acelerado! 

'Tá giro.. Mas eu vou só daqui a um quarto de hora, se não se importam.
Como já perceberam, só parti às 10:15, na segunda vaga de partida. Porquê? Perguntam vocês. Perguntam bem, mas não vos sei responder. Já dei voltas e voltas e não me lembro porque tive a ideia de me inscrever na segunda vaga. Esta segunda vaga de partida foi criada pela organização para diminuir o congestionamento do percurso naqueles primeiros quilómetros a subir. A ideia de fazer partidas diferenciadas parece-me lógica, mas sendo o critério apenas decidir se quer partir às 10 ou 10:15, a grande maioria preferiu partir às 10 restando pouca gente para a segunda vaga. Talvez seja boa ideia organizar as partidas por currais de tempos, como é habitual. Como estava pouca gente, consegui posicionar-me logo por baixo do pórtico e arrancar a bom ritmo.

Como sempre, não faço aquecimento antes das provas. A menos que ficar especado de braços cruzados a olhar para o relógio de 30 em 30 segundos conte como aquecimento. Percebo logo que os prós foram todos às 10, porque rapidamente me vejo no grupo dos 4 ou 5 mais rápidos desta segunda vaga. Ainda longe de estabilizar o ritmo e a respiração, foi a arfar e com os pulmões a sair pela boca que percorri aqueles primeiros 4km, quase sempre a subir. 

Não há muitas provas de estrada que faça sentido por aqui o perfil, mas esta é uma delas.
Tenho que confessar que conhecer o percurso desta corrida é uma grande vantagem. Sabia que depois destes 4km iniciais podia forçar o ritmo até apanhar a parede dos 10km, antes da grande descida, e foi isso que fiz. Por volta dos 4km comecei a apanhar o pelotão que partiu às 10, e começou o zigue-zague. No entanto não foi um grande constrangimento, já ia bastante disperso o que facilitou as ultrapassagens, quase nunca tive que abrandar e foram raras as mudanças rápidas de direcção. Por outro lado teve a vantagem de ir passando e cumprimentado alguns conhecidos! Foi nesta altura que consegui começar a correr com conforto. Atacava as subidas tentando não abrandar (sabia do ano passado que estas nunca seriam muito longas) e acelerava nas descidas. Seguia completamente focado na estrada, no ritmo e nas ultrapassagens, não deixando espaço para a contemplação dos sítios maravilhosos por onde passámos. Pensei nisso quando ao passar num abastecimento alguém disse "olhem para o mar!!", nessa altura levantei a cabeça e vi o sitio brutal onde estávamos. Dá que pensar, e fez-me ficar com saudades dos trilhos. 

Como já disse noutros posts, apesar de gostar cada vez mais de trail, há coisas que a estrada oferece que os trilhos nunca vão chegar perto. É verdade, se fosse um trail teria parado para ver a paisagem, ia mais devagar, descontraído... Mas nada paga aquela adrenalina de a meio da parede dos 10km, a correr quase de nariz no chão, com batimentos cardíacos a 200, respiração ofegante e pensar "vá láaa, puxa só mais um pouco!!!", até que fazemos a curva e vemos o topo da subida! Era altura de alargar a passada e dar cabo das pernas por ali abaixo! Seriam 6km a descer a pique, sentir os músculos das pernas a tremer a cada passada, tentar correr mais depressa e perceber que é fisicamente impossível, era a forçar até ao Fim da Europa!!!!! .....mas não sem antes parar para fazer um xixizinho...

Como sempre, a descida foi brutal. Enquanto corria tinha a perfeita noção que amanhã pagaria o preço por aquela tareia que estava a dar aos músculos, mas era tarde de mais para pensar nisso. Tinha agora passado a Azóia, estava na recta da meta e era só curvar à esquerda antes do farol! Opsss, afinal não, a organização decidiu prolongar o percurso mais 300 metros, o que incluía uma subida gigantesca, maior que as outras todas juntas, e uma descida violentíssima num terreno super técnico!!! Ok, na verdade era só um sobe e desce pequeno, MAS não estava à espera daquilo!

A chegar à meta. Conseguem ver lá atrás a BRUTAL descida.
Terminei com o tempo de 1h11, três minutos mais rápido que o ano passado, o que me deixou muito satisfeito já que na altura andava a treinar para a maratona de Sevilha e estava muito perto da minha melhor forma. Nunca falei aqui no blog de classificações, porque muito sinceramente não me importo rigorosamente nada com elas, apesar de gostar de ver em que parte do pelotão é que me situei. Mas fiquei orgulhoso do 61º lugar em 2300 finishers! Acordei no dia seguinte com dores nos gémeos e o resto das pernas doridas. A uma semana dos Abutres pode ser problemático. Logo se vê...

Quanto à prova, mais uma vez correspondeu às expectativas. Um percurso super desafiante, nada monótono e muito divertido. Os abastecimento (dois) pareceram-me bem posicionados, apesar de não ter bebido água em nenhum deles (focado na estrada, no ritmo, etc etc, lembram-se?), os snacks no fim da prova, juntamente com o chá quente, já são um clássico e para mim muito bem vindos! Só tenho pena de mais uma vez não ter havido medalha. Sim, eu sei que estão cheios de lata nas gavetas e que não se interessam nada por isso, mas eu cá gosto de as receber e guardar. 

Espera-me agora uma semana descontraída (a primeira em muito tempo), a descer até à Serra da Lousã. Vamos lá ver então esses famosos Abutres.