A véspera começou às 6 da manhã. Foi a hora que acordei para ir dar uma última volta teste ao percurso dos 30km. A manhã tinha acordado muito cinzenta e com chuva, o que aliado a uma noite anterior muito longa, originou uns primeiros 3 ou 4km de muito sacrifício e outros 27 corridos de forma quase mecânica. O percurso de 30km foi dividido em 6 e a cada secção foi atribuído um responsável, incluindo eu que fiquei com os primeiros 8km. Cada um de nós ficara encarregue de limpar e marcar a sua secção de um percurso idealizado pelo Omar (lembram-se dele de Sicó?). Parti com o objectivo de verificar o trabalho no percurso, mas sabia que nada falharia. Assisti nas ultimas semanas ao empenho de toda a gente para assegurar isso mesmo.
![]() |
| Gastámos cerca de 7km de fita nas marcações! |
Assim que cheguei ao centro nevrálgico da prova, o Centro Cultural das Fazendas de Almeirim, recebo uma chamada do Omar, a perguntar se está tudo bem. Respondo que sim, impecável! Digo-lhe que antes de ir a casa ainda ia marcar os 2km iniciais, dentro da vila. Enquanto marco a recta da meta passo pelo Valter, que andava de casa em casa a bater à porta e a informar os moradores do que se ia passar. O Omar e o Valter são os pais deste trail (hey, não sou preconceituoso, vocês é que dizem que a vossa relação é quase um casamento ehehe), foi muito devido ao seu empenho e trabalho que tudo funcionou.
A tarde de sábado foi o climax de toda a preparação. Enquanto eu organizava os cerca de 40 voluntários que iam ficar espalhados nos abastecimentos e percurso, outras pessoas estavam encarregues de distribuir dorsais, outros organizavam a cobertura fotográfica e de video do evento, outros orientavam as barracas de expositores, montagem da estrutura do palco e pórtico e outros ainda andavam no terreno a colocar as placas indicativas dos quilómetros e com algumas mensagens humorísticas. Pessoas com muito poucas horas de sono e muito cansaço acumulado mas que vestiram a camisola desta corrida que era a nossa. Pessoas como o David, que durante mais de 3 meses perdia pelo menos 2 horas por dia a gerir uma por uma todas as inscrições que foram feitas e a responder aos mails enviados pelos participantes.
O despertar ansioso no dia D foi novamente às 6 da manhã. Para trás ficaram 2 ou 3 horas muito mal dormidas, mas isso não interessava nada. Era altura de rumar ao local do meu abastecimento com a comida e bebida carregada no carro, enquanto a Sara foi buscar os 3 espectaculares voluntários que o geriram. Chegámos, montámos tudo, ultimas explicações dadas e eram 8 horas, a uma hora do inicio.
A hora que com que fiquei de folga serviu para percorrer, a caminhar, a minha secção do percurso. Como sempre, ando pelos trilhos preocupado com a hipótese de alguém se perder. Passo pelo trilho que andei a limpar há umas semanas com a Sara e pelo outro que quase me levou à exaustão de enxada na mão a semana passada. Pouco antes das nove sento-me no fim do meu trilho favorito do percurso, no km 6, o que nós chamamos o Trilho do Javali. Não foi uma escolha inocente, sabia que se havia a remota hipótese de os atletas estarem felizes, no fim daquele trilho era a minha melhor chance de os ver a sorrir! Ligo a todos os meus colegas dos abastecimentos para um rápido OK e ficar descansado.
3, 2, 1.... Pronto, agora era tudo ou nada.
Estavam neste momento a percorrer o quilómetro e meio em alcatrão e estradão, logo antes de entrar no primeiro trilho. Sabia que aquele quilómetro era das secções mais duras do percurso, mas o meu medo era que alguém se perdesse naquela zona. Aos 3.5km estariam a passar pelo meu abastecimento. De certeza que não se demorariam, era muito cedo na corrida. A seguir iam entrar num trilho que serpenteava no meio dos eucaliptos que há uns dias tinha limpo com uma vassoura (sim, leram bem, vassoura ehehe), até desembocarem no estradão que os ia levar a uma das subidas mais compridas, no Cerro da Águia, não sem antes passar pela Sara que estava a fotografar no meio do mato. No fim da subida estavam dois voluntários que avisam para a descida perigosa logo a seguir, para depois subirem mais uma parede e finalmente entrarem no Trilho do Javali.
![]() |
| Tanto trabalho a varrer isto e já estava cheio de folhas.. |
Eram 9:28 quando vi o primeiro atleta, vinha num ritmo brutal. Logo a seguir passa um grupo onde vinha o Luís Mota e pouco atrás o João Colaço. Fiquei por ali a ver passar os 200 atletas da prova longa de 30km. Vi desde os concentrados e intensos primeiros 20 ou 30 classificados aos descontraídos e sorridentes últimos 50. A todos analisei as expressões, à espera de um vislumbre que me contasse como estaria a correr a prova. Vi muita gente conhecida, da terra, da internet e de outras paragens. Aplaudi e incentivei cada um deles, como bem mereciam! Estive no meu Trilho do Javali até encontrar a Anabela que fez uma grande festa quando me viu! A Anabela vinha sorridente e com uma cara de satisfeita, o que me sossegou. Só a conheço do seu blog Run Baby Run (quer dizer, "só", entre aspas, porque se há coisa pessoal são estes nossos blogs!), mas é o suficiente para saber que se estivesse desagradada tinha-me dito logo ali! Com ela vinha o nosso Francisco Gaio, um super atleta de elite que vinha a fazer de vassoura neste dia.
![]() |
| O Francisco ao lado de um rapaz que começou agora a dar umas corridinhas :) |
Comecei então a fazer o percurso em sentido contrário, até me cruzar com os 350 atletas dos 18km, desta vez na subida do Cerro da Águia. Na altura em que estava a arrumar as coisas dentro do carro os atletas já deviam estar a passar pela secção do Vasco (sim, o do Sicó!). Lembrei-me dele, da mulher Rita e a pequena Daniela que nos últimos fins de semana foram os 3 todos contentes limpar os trilhos e fiquei descansado, ali não ia falhar nada de certeza! Já tinham passado pelo David, que geria o 2º e um dos mais concorridos abastecimentos. A julgar pela foto, a coisa não correu mal!
![]() |
| Aqui com a simpática malta do Correr na Cidade |
Quando chego ao Centro Cultural vou imediatamente descarregar as sobras do meu abastecimento para o da meta, que tinha obviamente muita procura. Vejo o Omar de microfone na mão e dezenas de pessoas por ali. Pergunto-lhe rapidamente se está a correr tudo bem, ele pensa que sim. Vou falando com alguns participantes dos 18km que já tinham chegado e todos me dizem que a prova lhes correu bem. Mas o que eu queria mesmo saber era: 1) perderam-se? 2) faltou comida nos abastecimento? 3) divertiram-se??
![]() |
| Abastecimento da meta (6º), que contava entre outras coisas com dezenas de bolos de pastelaria e chouriço :) |
Entretanto já deviam estar a passar na Ponte D. Clemente, assim baptizada em homenagem ao seu Engenheiro/Arquitecto/Frade, o sempre simpático David Clemente, que estava responsável por aquela secção. Foi também ele o responsável pela utilização de quase metade da fita gasta (alguém notou naquela vedação a seguir à ponte?) ehehe
![]() |
| David Clemente |
A fase seguinte incluía uma parede aos 20km gentilmente escolhida a dedo pelo Omar, que gostava muito de ter visto a ser subida! Esta era talvez a parte mais chata do percurso, com 2 ou 3km em estradão. Este desembocava finalmente num trilho aberto pelo pessoal do BTT da região que ia dar à famosa ponte que apontei como alternativa à 25 de Abril.
![]() |
| Aposto que houve meio-maratonistas que se arrependeram da escolha! |
Estavam agora a chegar ao 5º e ultimo abastecimento no percurso, na Torre do Vigia. Este era gerido pelo humilde e incansável Joel, uma das pessoas mais voluntariosas que conheço. Era no percurso dele que estava o ultimo singletrack da prova e uma das subidas mais chatas, porque estava cheia de pedras. Depois entrariam em estradões e finalmente 500 metros de alcatrão que os levaria até à meta.
![]() |
| Joel |
O primeiro classificado dos 30km chegou pouco tempo depois com o extraordinário tempo de 2h14 minutos! Um tempo incrível, mesmo em estrada! Assisti à sua chegada e de vários participantes enquanto entrava constantemente em contacto com os meus colegas nos abastecimentos. Um a um, foram acabando as suas funções e entregando as sobras na meta, de onde desaparecia tudo.
Entretanto, o ponto quente do trail transferira-se para outro lado: os banhos e o almoço. Não sei o que será mais difícil, organizar uma corrida para 800 pessoas ou um almoço para quase 1000! Era um ponto de honra e não podíamos de maneira nenhuma falhar ali. Prometeramos obviamente Sopa da Pedra, mas tínhamos como prenda bifanas e pampilhos, o bolo típico de Santarém. Na cozinha estava uma profissional contratada (melhor contratação da prova!) mas também voluntários e membros da equipa, como o nosso Iron Man Victor Rodrigues, que nem chegou a ver nenhum atleta equipado porque esteve das 8 às 16 enfiado na cozinha!
![]() |
| Atenção, aquela coisa que se come nas Casas das Sopas com massa e couves NÃO é Sopa da Pedra! |
Percorri os 500 metros que separavam o Centro Cultural dos banhos e almoço a pé e fui perguntando a toda a gente se estavam satisfeitos, se o banho tinha água quente, se a sopa estava boa, se a prova tinha corrido bem... Todos me respondiam com sorrisos! Sim, correu tudo muito bem! Alguns nem precisava de perguntar, vinham ter comigo pra dar os parabéns!
Quando cheguei ao refeitório havia uma fila razoavelmente grande, de umas 50 pessoas. Temi o pior! Pensei que o espaço era insuficiente, que não estavam a dar vazão! Mas não, haviam mesas e a comida saía a bom ritmo, simplesmente era MUITA gente! Eram 2 da tarde e não comia nada desde as 6:30, mas só me lembrei que tinha fome quando vi as bifanas em pão caseiro e a sempre saborosa Sopa da Pedra. Comi nos "bastidores" com uma companhia de excelência, o nosso padrinho Luís Mota, que me contou histórias do MIUT impressionantes o suficiente para me tirarem o sono mesmo num dia cansativo como este!
A fila entretanto foi estabilizando e finalmente reduzindo. Fui mais uma vez ao Centro Cultural, onde o David Alfaiate terminava a entrega de prémios. Confesso que esta foi a parte que correu pior. Esperámos demasiado tempo e os premiados já não estavam na zona... Provavelmente porque não temos lá grande experiência a subir a pódios :)
No Centro Cultural onde colegas de equipa e voluntários já arrumavam algumas coisas. Todos os atletas ou já se tinham ido embora ou estavam a acabar as suas refeições. Numa breve reunião entre os membros da equipa dividimo-nos por algumas tarefas. Uns foram lavar a cozinha e refeitório, outros lavaram os balneários, outros arrumaram o Centro Cultural e outros foram buscar as mesas e os caixotes do lixo espalhados pelo percurso.
O dia acabou já ao fim da tarde. Não foi como nos filmes, com toda a gente abraçada e a fazer juras de amizade eterna. Acabámos todos completamente esgotados, drenados, cansados. Com dores nas costas, uns sem voz e outros sem paciência. Não nos lembramos de tirar uma foto de família! Nem nos apercebemos do que tínhamos acabado de fazer, na realidade! Não nos apercebemos que tínhamos criado um evento a partir do zero, para 800 pessoas. Uma equipa de 13 atletas amadores, sem qualquer experiência, a custo de muitas horas de sacrifício, tinha criado uma prova que vai ficar na memoria de muita gente que participou. Nem nos lembrámos que as nossas famílias também fizeram parte disto, quer a ajudar activamente quer pelo tempo que estiveram sem nós. Não demos imediatamente valor às dezenas de voluntários que foram incrivelmente competentes e empenhados.
Não nos lembrámos até que aterramos e olhamos para dentro. E então vimos, tinha tudo corrido bem. Não, tinha tudo corrido na perfeição. Melhor era quase impossível. Então sim, lembrámo-nos de toda a gente envolvida, de todos os participantes, de todas as entidades, de todos os patrocinadores, os vizinhos, os autarcas, os atletas da Associação 20km de Almeirim, os alunos da Escola de Alpiarça, lembrámo-nos do fabuloso Daniel e a sua incansável equipa. E eu lembrei-me dos meus colegas de equipa, os que estiveram há um ano nas reuniões iniciais e que discutiram um plano maluco de criar uma prova de trail na Lezíria Ribatejana!
Conseguimos.
![]() |
| Até para o ano! |
































.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)