As minhas corridas na estrada

terça-feira, 24 de março de 2015

I Trail de Almeirim

A véspera começou às 6 da manhã. Foi a hora que acordei para ir dar uma última volta teste ao percurso dos 30km. A manhã tinha acordado muito cinzenta e com chuva, o que aliado a uma noite anterior muito longa, originou uns primeiros 3 ou 4km de muito sacrifício e outros 27 corridos de forma quase mecânica. O percurso de 30km foi dividido em 6 e a cada secção foi atribuído um responsável, incluindo eu que fiquei com os primeiros 8km. Cada um de nós ficara encarregue de limpar e marcar a sua secção de um percurso idealizado pelo Omar (lembram-se dele de Sicó?). Parti com o objectivo de verificar o trabalho no percurso, mas sabia que nada falharia. Assisti nas ultimas semanas ao empenho de toda a gente para assegurar isso mesmo.

Gastámos cerca de 7km de fita nas marcações!
Assim que cheguei ao centro nevrálgico da prova, o Centro Cultural das Fazendas de Almeirim, recebo uma chamada do Omar, a perguntar se está tudo bem. Respondo que sim, impecável! Digo-lhe que antes de ir a casa ainda ia marcar os 2km iniciais, dentro da vila. Enquanto marco a recta da meta passo pelo Valter, que andava de casa em casa a bater à porta e a informar os moradores do que se ia passar. O Omar e o Valter são os pais deste trail (hey, não sou preconceituoso, vocês é que dizem que a vossa relação é quase um casamento ehehe), foi muito devido ao seu empenho e trabalho que tudo funcionou.

A tarde de sábado foi o climax de toda a preparação. Enquanto eu organizava os cerca de 40 voluntários que iam ficar espalhados nos abastecimentos e percurso, outras pessoas estavam encarregues de distribuir dorsais, outros organizavam a cobertura fotográfica e de video do evento, outros orientavam as barracas de expositores, montagem da estrutura do palco e pórtico e outros ainda andavam no terreno a colocar as placas indicativas dos quilómetros e com algumas mensagens humorísticas. Pessoas com muito poucas horas de sono e muito cansaço acumulado mas que vestiram a camisola desta corrida que era a nossa. Pessoas como o David, que durante mais de 3 meses perdia pelo menos 2 horas por dia a gerir uma por uma todas as inscrições que foram feitas e a responder aos mails enviados pelos participantes.

O despertar ansioso no dia D foi novamente às 6 da manhã. Para trás ficaram 2 ou 3 horas muito mal dormidas, mas isso não interessava nada. Era altura de rumar ao local do meu abastecimento com a comida e bebida carregada no carro, enquanto a Sara foi buscar os 3 espectaculares voluntários que o geriram. Chegámos, montámos tudo, ultimas explicações dadas e eram 8 horas, a uma hora do inicio.

A hora que com que fiquei de folga serviu para percorrer, a caminhar, a minha secção do percurso. Como sempre, ando pelos trilhos preocupado com a hipótese de alguém se perder. Passo pelo trilho que andei a limpar há umas semanas com a Sara e pelo outro que quase me levou à exaustão de enxada na mão a semana passada. Pouco antes das nove sento-me no fim do meu trilho favorito do percurso, no km 6, o que nós chamamos o Trilho do Javali. Não foi uma escolha inocente, sabia que se havia a remota hipótese de os atletas estarem felizes, no fim daquele trilho era a minha melhor chance de os ver a sorrir! Ligo a todos os meus colegas dos abastecimentos para um rápido OK e ficar descansado.

3, 2, 1.... Pronto, agora era tudo ou nada.


Estavam neste momento a percorrer o quilómetro e meio em alcatrão e estradão, logo antes de entrar no primeiro trilho. Sabia que aquele quilómetro era das secções mais duras do percurso, mas o meu medo era que alguém se perdesse naquela zona. Aos 3.5km estariam a passar pelo meu abastecimento. De certeza que não se demorariam, era muito cedo na corrida. A seguir iam entrar num trilho que serpenteava no meio dos eucaliptos que há uns dias tinha limpo com uma vassoura (sim, leram bem, vassoura ehehe), até desembocarem no estradão que os ia levar a uma das subidas mais compridas, no Cerro da Águia, não sem antes passar pela Sara que estava a fotografar no meio do mato. No fim da subida estavam dois voluntários que avisam para a descida perigosa logo a seguir, para depois subirem mais uma parede e finalmente entrarem no Trilho do Javali.

Tanto trabalho a varrer isto e já estava cheio de folhas..
Eram 9:28 quando vi o primeiro atleta, vinha num ritmo brutal. Logo a seguir passa um grupo onde vinha o Luís Mota e pouco atrás o João Colaço.  Fiquei por ali a ver passar os 200 atletas da prova longa de 30km. Vi desde os concentrados e intensos primeiros 20 ou 30 classificados aos descontraídos e sorridentes últimos 50. A todos analisei as expressões, à espera de um vislumbre que me contasse como estaria a correr a prova. Vi muita gente conhecida, da terra, da internet e de outras paragens. Aplaudi e incentivei cada um deles, como bem mereciam! Estive no meu Trilho do Javali até encontrar a Anabela que fez uma grande festa quando me viu! A Anabela vinha sorridente e com uma cara de satisfeita, o que me sossegou. Só a conheço do seu blog Run Baby Run (quer dizer, "só", entre aspas, porque se há coisa pessoal são estes nossos blogs!), mas é o suficiente para saber que se estivesse desagradada tinha-me dito logo ali! Com ela vinha o nosso Francisco Gaio, um super atleta de elite que vinha a fazer de vassoura neste dia.

O Francisco ao lado de um rapaz que começou agora a dar umas corridinhas :)
Comecei então a fazer o percurso em sentido contrário, até me cruzar com os 350 atletas dos 18km, desta vez na subida do Cerro da Águia. Na altura em que estava a arrumar as coisas dentro do carro os atletas já deviam estar a passar pela secção do Vasco (sim, o do Sicó!). Lembrei-me dele, da mulher Rita e a pequena Daniela que nos últimos fins de semana foram os 3 todos contentes limpar os trilhos e fiquei descansado, ali não ia falhar nada de certeza! Já tinham passado pelo David, que geria o 2º e um dos mais concorridos abastecimentos. A julgar pela foto, a coisa não correu mal!

Aqui com a simpática malta do Correr na Cidade
Quando chego ao Centro Cultural vou imediatamente descarregar as sobras do meu abastecimento para o da meta, que tinha obviamente muita procura. Vejo o Omar de microfone na mão e dezenas de pessoas por ali. Pergunto-lhe rapidamente se está a correr tudo bem, ele pensa que sim. Vou falando com alguns participantes dos 18km que já tinham chegado e todos me dizem que a prova lhes correu bem. Mas o que eu queria mesmo saber era: 1) perderam-se? 2) faltou comida nos abastecimento? 3) divertiram-se??

Abastecimento da meta (6º), que contava entre outras coisas com dezenas de bolos de pastelaria e chouriço :)
Entretanto já deviam estar a passar na Ponte D. Clemente, assim baptizada em homenagem ao seu Engenheiro/Arquitecto/Frade, o sempre simpático David Clemente, que estava responsável por aquela secção. Foi também ele o responsável pela utilização de quase metade da fita gasta (alguém notou naquela vedação a seguir à ponte?) ehehe


David Clemente
A fase seguinte incluía uma parede aos 20km gentilmente escolhida a dedo pelo Omar, que gostava muito de ter visto a ser subida! Esta era talvez a parte mais chata do percurso, com 2 ou 3km em estradão. Este desembocava finalmente num trilho aberto pelo pessoal do BTT da região que ia dar à famosa ponte que apontei como alternativa à 25 de Abril.

Aposto que houve meio-maratonistas que se arrependeram da escolha!
Estavam agora a chegar ao 5º e ultimo abastecimento no percurso, na Torre do Vigia. Este era gerido pelo humilde e incansável Joel, uma das pessoas mais voluntariosas que conheço. Era no percurso dele que estava o ultimo singletrack da prova e uma das subidas mais chatas, porque estava cheia de pedras. Depois entrariam em estradões e finalmente 500 metros de alcatrão que os levaria até à meta.

Joel
O primeiro classificado dos 30km chegou pouco tempo depois com o extraordinário tempo de 2h14 minutos! Um tempo incrível, mesmo em estrada! Assisti à sua chegada e de vários participantes enquanto entrava constantemente em contacto com os meus colegas nos abastecimentos. Um a um, foram acabando as suas funções e entregando as sobras na meta, de onde desaparecia tudo.

Entretanto, o ponto quente do trail transferira-se para outro lado: os banhos e o almoço. Não sei o que será mais difícil, organizar uma corrida para 800 pessoas ou um almoço para quase 1000! Era um ponto de honra e não podíamos de maneira nenhuma falhar ali. Prometeramos obviamente Sopa da Pedra, mas tínhamos como prenda bifanas e pampilhos, o bolo típico de Santarém. Na cozinha estava uma profissional contratada (melhor contratação da prova!) mas também voluntários e membros da equipa, como o nosso Iron Man Victor Rodrigues, que nem chegou a ver nenhum atleta equipado porque esteve das 8 às 16 enfiado na cozinha! 

Atenção, aquela coisa que se come nas Casas das Sopas com massa e couves NÃO é Sopa da Pedra!
Percorri os 500 metros que separavam o Centro Cultural dos banhos e almoço a pé e fui perguntando a toda a gente se estavam satisfeitos, se o banho tinha água quente, se a sopa estava boa, se a prova tinha corrido bem... Todos me respondiam com sorrisos! Sim, correu tudo muito bem! Alguns nem precisava de perguntar, vinham ter comigo pra dar os parabéns!

Quando cheguei ao refeitório havia uma fila razoavelmente grande, de umas 50 pessoas. Temi o pior! Pensei que o espaço era insuficiente, que não estavam a dar vazão! Mas não, haviam mesas e a comida saía a bom ritmo, simplesmente era MUITA gente! Eram 2 da tarde e não comia nada desde as 6:30, mas só me lembrei que tinha fome quando vi as bifanas em pão caseiro e a sempre saborosa Sopa da Pedra. Comi nos "bastidores" com uma companhia de excelência, o nosso padrinho Luís Mota, que me contou histórias do MIUT impressionantes o suficiente para me tirarem o sono mesmo num dia cansativo como este!

A fila entretanto foi estabilizando e finalmente reduzindo. Fui mais uma vez ao Centro Cultural, onde o David Alfaiate terminava a entrega de prémios. Confesso que esta foi a parte que correu pior. Esperámos demasiado tempo e os premiados já não estavam na zona... Provavelmente porque não temos lá grande experiência a subir a pódios :)

No Centro Cultural onde colegas de equipa e voluntários já arrumavam algumas coisas. Todos os atletas ou já se tinham ido embora ou estavam a acabar as suas refeições. Numa breve reunião entre os membros da equipa dividimo-nos por algumas tarefas. Uns foram lavar a cozinha e refeitório, outros lavaram os balneários, outros arrumaram o Centro Cultural e outros foram buscar as mesas e os caixotes do lixo espalhados pelo percurso. 

O dia acabou já ao fim da tarde. Não foi como nos filmes, com toda a gente abraçada e a fazer juras de amizade eterna. Acabámos todos completamente esgotados, drenados, cansados. Com dores nas costas, uns sem voz e outros sem paciência. Não nos lembramos de tirar uma foto de família! Nem nos apercebemos do que tínhamos acabado de fazer, na realidade! Não nos apercebemos que tínhamos criado um evento a partir do zero, para 800 pessoas. Uma equipa de 13 atletas amadores, sem qualquer experiência, a custo de muitas horas de sacrifício, tinha criado uma prova que vai ficar na memoria de muita gente que participou. Nem nos lembrámos que as nossas famílias também fizeram parte disto, quer a ajudar activamente quer pelo tempo que estiveram sem nós. Não demos imediatamente valor às dezenas de voluntários que foram incrivelmente competentes e empenhados.

Não nos lembrámos até que aterramos e olhamos para dentro. E então vimos, tinha tudo corrido bem. Não, tinha tudo corrido na perfeição. Melhor era quase impossível. Então sim, lembrámo-nos de toda a gente envolvida, de todos os participantes, de todas as entidades, de todos os patrocinadores, os vizinhos, os autarcas, os atletas da Associação 20km de Almeirim, os alunos da Escola de Alpiarça, lembrámo-nos do fabuloso Daniel e a sua incansável equipa. E eu lembrei-me dos meus colegas de equipa, os que estiveram há um ano nas reuniões iniciais e que discutiram um plano maluco de criar uma prova de trail na Lezíria Ribatejana!

Conseguimos.

Até para o ano!

terça-feira, 17 de março de 2015

4 Semanas

Faltam, a contar com esta, quatro semanas para o MIUT. Serão duas semanas de carga máxima, seguidas de uma de pouca intensidade e de uma de descanso: a da prova. Ao contrário do que é fortemente aconselhável, sou um daqueles corredores auto-medicados, ou seja, todo o meu plano de treinos é idealizado por mim com base em conversas com outros atletas e muita leitura. Claro que isto não é uma situação ideal, ainda mais quando me proponho a certos objectivos, como a prova na Madeira. Mas é o que é e tem sido assim desde que comecei a correr com mais frequência em 2011, quando completei a minha primeira Maratona. 


Quando decidi embarcar na aventura da Madeira pensava que sabia onde me estava a meter, mas a verdade é que estava longe de saber. Pensava que um treino diligente e intenso, sem azares de lesões, algumas provas/testes e muita força de vontade seriam suficientes para atravessar a ilha. No entanto, mesmo sem nunca ter pisado o solo da Madeira, estes 6 meses de preparação especifica deram-me outra perspectiva.

O treino não falhou. Trabalhei como nunca tinha trabalhado na vida para uma corrida. Quase sempre sozinho, muitas vezes no limite. Diminuí a quilometragem e aumentei brutalmente o trabalho de reforço muscular. Como disse aqui há uns tempos, não vai ser por falta de treino que não vou chegar a Machico. 

As lesões felizmente não apareceram de uma maneira muito significativa (a bater na madeira neste momento). Como sabem, houve aquele azar nos Abutres que me retirou 3 semanas de treino, mas isso está ultrapassado e compensado. Neste aspecto, culpo o reforço muscular. Tem ajudado muito também na prevenção de lesões.

As provas/testes que tinha idealizado eram os Abutres (muito técnico) e Sicó (muito longo). Se seguem o blog sabem que com maior ou menor dificuldade as superei. Não foi fácil, principalmente Sicó, mas cheguei ao fim com uma certeza: não vai ser a dureza do terreno ou a altura das montanhas que me vão parar. Vou ser lento, como sou sempre, mas vou conseguir transpor esses obstáculos. 

Quanto à força de vontade... bem, quem me conhece sabe que isso não vai ser definitivamente um problema.

Então o que mudou? Se todos os pontos estão a ser cumpridos, porque é que a cada dia que passa fico mais e mais receoso? A resposta é simples. A cada treino, prova, rampa, agachamento, série, aquecimento ou arrefecimento fico a conhecer um pouco melhor as minhas limitações. 

Não estou a ser humilde quando vos digo que apesar de estar a trabalhar com todo o empenho do mundo e de ter chegado aqui exactamente como queria, não sei se conseguirei cumprir os tempos limite. É tão simples como isso. O meu melhor pode não ser suficiente.

O MIUT é brutal. Podemos olhar para a prova de todas as perspectivas e a conclusão é sempre essa. É uma brutalidade de prova, quase desumano. A primeira barreira horária (8 horas) está situada aos 30km. Quando lá chegarmos já vamos com 2900D+, incluindo dois quilómetros verticais, e nem quero imaginar os 1300D- que de certeza não vão ser menos violentos. Para os cumprir vou ter que estar 100% focado desde o primeiro minuto. Se conseguir lá chegar antes das 8 horas, vai ser de certeza com muito pouca folga para enfrentar os próximos 30km em 7 horas. Vai ser assim até ao fim, de barreira horária em barreira horária. Não tenho qualquer problema em admitir isso, nem é modéstia da minha parte, para mim uma vitória no MIUT é chegar a Machico na madrugada de Domingo.


Até lá, vou continuar a treinar no limite e a dar tudo o que tenho. Vamos ver se será suficiente. Ah, e vou enchendo a alma com imagens destas :)


segunda-feira, 9 de março de 2015

Duas pontes - uma escolha óbvia

No dia 22 de Março há duas corridas muito diferentes mas que têm um ponto em comum: em ambas será possível passar por cima de uma ponte.



Para passar na primeira a tua corrida começará pelo menos um dia antes da prova, quando fores levantar o teu dorsal. O dia D vai começar 3 ou 4 horas antes do tiro de partida (se fores da grande Lisboa). Depois vais apanhar pelo menos um transporte público que te levará a um segundo transporte público (comboio) que, como sempre, seguirá COMPLETAMENTE sobrelotado até à outra margem do rio. Se tiveres sorte e fores madrugador, só vais demorar 1 hora a percorrer a pé os 800m que depois te separam da meta e de outros 30 mil participantes. Se tiveres azar e só chegares algumas horas antes à outra margem, corres o risco de passar a meta e já estarem a desmontar o pórtico.

Para a segunda, se morares na grande Lisboa, sairás no teu carro cerca de uma hora antes da partida, estacionarás num dos parques sinalizados pela organização. Vais levantar o teu dorsal descansado e a tempo de voltares ao carro para te equipares com os teus amigos para depois te juntares aos cerca de 700 atletas que estão inscritos.

Quando for dado o tiro de partida na primeira vais começar logo por passar por cima da ponte. Quer dizer, "logo" é uma maneira de dizer, porque primeiro vão ter que escoar pelo menos 30 mil atletas. Provavelmente só vais conseguir correr largos minutos depois da hora marcada. 

Depois de passar na primeira vais percorrer o mesmo percurso duas vezes, numa estrada que serve de palco a pelo menos uma dezena de provas. Na segunda vais passar num percurso imaginado e executado por uma dúzia de atletas amadores que tudo farão para que se divirtam em casa deles. Os mesmos atletas que abriram a punho cada um dos trilhos e caminhos que vais pisar.

Na primeira vais ouvir falar de um grupo de atletas de elite, mas não os vais ver. Na segunda vais poder partir ao lado da elite nacional do trail, junto a atletas como o Luís Mota e a Carmen Pires. Vais poder falar com eles e certamente ser retribuído com um sorriso.

No fim de passares por baixo do pórtico da primeira vais-te juntar a milhares e milhares de atletas suados que seguirão em cima uns dos outros durante algumas centenas de metros até receberem um calipo meio derretido. Na segunda, assim que terminares terás à tua disposição banhos quentes e a Sopa da Pedra que quiseres. Poderás comê-la descansado enquanto conversas com os teus amigos sobre a aventura vivida. Ao mesmo tempo, alguém está a entrar num transporte público para voltar a casa, onde chegará um par de horas depois. Isto se tiver passado por cima da primeira ponte.

Eu sei qual a ponte que vou passar no dia 22 de Março. E vocês? Ainda têm dúvidas?

Inscreve-te aqui.




domingo, 1 de março de 2015

Terras de Sicó (111KM) - ULTRA a sério!

Assim que saí do ultimo abastecimento, a 11km da meta, comecei com uma contagem decrescente. Não de quilómetros, mas de metros! Cada passo em frente ouvia uma voz no cérebro a dizer "já chega Filipe, não vês que estás desfeito? Não aguentas, já chega...". Olhava 10 vezes por minuto para o relógio e a porcaria dos metros não passavam. Quando tentava correr era uma dor agonizante nas articulações dos pés que eu forçava até ao limite, até ceder e voltar a andar. Não me lembro se foram 11km a subir, a descer ou em plano, já era tudo igual. O que eu sei é que se aumentassem 100m àqueles 11km era como se me apresentassem uma nova ultra pela frente.
Há aquele pessoal que diz que anda à procura dos seus limites. Não sei, não gosto muito de frases feitas. Mas uma coisa é certa, a palavra "limite" adquiriu um novo significado durante as mais de 18 horas que andei pela Serra de Sicó.

Cartaz oficial da prova
Tinha tirado a sexta-feira de férias, e com a miúda na creche consegui dormir bastante, relaxar em casa e preparar tudo calmamente para a aventura. É engraçado, por várias vezes pensei para mim mesmo "o dia não acaba sem antes fazer 111km!" mas sinceramente ainda me parecia um bocado irreal, como se ainda não me tivesse apercebido da epopeia que me esperava mais logo à noite, o que até nem foi mau já que andei muito pouco ansioso durante o dia. 

Chegámos a Condeixa às 18h e fomos levantar o dorsal, processo que decorreu normalmente. Volto para o carro e mostro o dorsal à Sara: "Hãn?? Esse é mesmo o teu número??" ahahah nem me tinha apercebido!

A sério que não foi de propósito!! :D
Como já por aqui disse, tento sempre aliar às provas que vou fazendo um programa familiar. Desta vez encontrámos uma casa para alugar em Casmilo, local de passagem da prova e a cerca de 8km de Condeixa. Uma casa super confortável que aconselho a toda a gente que esteja a pensar fazer uma escapada de fim de semana! Foi lá que jantámos calmamente os três e ainda tive tempo para descansar um pouco na cama até às 23h. Era hora de rumar a Condeixa!

A "nossa" casa. A miúda não fazia parte da mobília.
Estava um ambiente espectacular na praça da meta, parecia quase aqueles arraias de verão, nas festas da cidade. Eram centenas de pessoas a apoiar, não sei se familiares ou habitantes de Condeixa, mas em número como nunca tinha visto numa prova de trail! Rapidamente encontrei os meus colegas de equipa. Era altura de me despedir da Sara e da Maria Amélia e juntar-me aos outros cerca de 260 atletas que já tinham feito o controlo zero. 

David (em 1º plano), eu, Omar, Joel, Vasco e Jorge
A ansiedade e o nervosismo eram palpáveis. Risos nervosos, ultimas verificações quase maníacas do material, algumas fotos de grupo, incentivos aos amigos, despedidas de familiares... Toda a gente que anda nisto já sentiu o que são aqueles últimos minutos antes da partida, é incrível! Nesta altura tive um breve momento de introspecção e comecei a pensar na aventura brutal que cada um de nós ia enfrentar. Como cada uma daquelas almas viveria nas próximas horas, quem conseguiria e quem sucumbiria, os pensamentos que passariam pela cabeça de cada um e a maneira como aquele desafio lhes toldaria a vida. 

Bem, lamechices à parte, vamos lá a isto!


Depois da partida percorremos cerca de 5km ainda dentro de Condeixa. Notava-se o respeito que todos tinham pelos 111km, já que não se viam muitos dos habituais aviões que gostam de bater recordes pessoais de velocidade nestes primeiros quilómetros. Muito pelo contrário, todos iam muito descontraídos e bem dispostos. 

O percurso podia ser dividido em duas partes, com uma passagem aos 50km pelo ponto de partida. Mas não era só no papel que as duas partes eram distintas, iríamos perceber, e bem, no terreno. Quase como se fossem duas corridas diferentes!


Com a primeira subida, aos 6km, apareceu também um inimigo que nos iria acompanhar até ao fim: a chuva. Não era a chuva grossa dos Abutres, mas antes uma chuvinha molha parvos acompanhada por um nevoeiro denso que não nos largaria nunca mais. Estas condições podem parecer até óptimas para a corrida, mas sendo esta uma prova que duraria muitas horas, temos que nos lembrar de certas condicionantes. Primeiro nunca consegui sentir-me confortável, a chuva não era grossa mas era forte o suficiente para nunca me sentir seco. Segundo e mais importante ainda, era o nevoeiro. Durante cerca de 90% do percurso não conseguíamos ver mais que 50 metros à nossa volta. Agora imaginem o que é correr durante mais de 18 horas e só conseguem ver o trilho, estradão ou estrada à vossa frente! Nada de paisagens brutais, nada de distracções, só o caminho à vossa frente. Psicologicamente foi terrível!

Antes de chegarmos ao primeiro abastecimento, aos 10km, tive o meu momento "Calma Lá Oh Artista, e Mete-te No Teu Lugar!". Um senhor mais velho meteu conversa comigo e começou a falar-me do antigo circuito nacional de montanha, e de como estas provas eram diferentes há 30, 35 anos. Elah, 35 anos?? Nem era nascido ainda! Pois bem, o senhor tinha 64 anos, estava a fazer os 111km e tinha no currículo pequenas provas como as 100 milhas Ehunmilak, no país Basco!

O primeiro abastecimento apareceu depois de umas subidas +/- difíceis e uma descida complicada, mas vim sempre a resguardar-me e sentia-me super bem. Quando percebi que o abastecimento estava ali em baixo pensei logo que não valeria a pena parar ou então só comia uma bananita. Isto pensei eu, até ver o banquete que nos esperava! Bem, não há palavras para descrever os abastecimentos desta prova! Nunca vi nada parecido! Mas quanto a isso, falaremos à medida que formos avançando. Digo-vos apenas que estava a pensar comer apenas uma banana e acabei por comer pão caseiro com presunto e queijo fresco! :)

Depois do abastecimento surgiu a primeira de algumas subidas mais agressivas, daquelas de fazer os gémeos entrar em combustão. Felizmente não se prolongou durante muito tempo e ainda não seria esta a deixar marcas. O percurso nesta primeira parte seguia bastante acessível. Algumas, poucas, subidas, alguns trilhos bons de correr e alguns, muitos, estradões. 

O segundo abastecimento surgiu aos 16km. Outra das características desta corrida era o perfeito posicionamento dos abastecimentos. Nunca estavam a mais de 10km e muitas vezes a distancia até era menor. Estamos a falar de 11 abastecimentos MUITO completos! Por exemplo, neste segundo (e reforço, segundo) aos 16km comi uma bifana quentinha super saborosa! 

Não, não era um casamento. Era um abastecimento à Sicó!
Na chegada a Penela, onde estava o terceiro abastecimento, encontrei os meus amigos Omar e Joel. Tinham passado por algumas dificuldades (principalmente o Omar, que vomitou algumas vezes) e estavam a aproveitar o abastecimento para se recomporem. Juntaram-se a mim, ao David e ao Jorge e seguimos por alguns quilómetros os 5. 

Os 20km que se seguiram até à Base de Vida, em Penela, foram a minha melhor fase na prova. Sentia-me muito bem e o desconforto intestinal tinha sido resolvido numa casa de banho de um abastecimento. Sim, usei uma sanita num trail, espero não ser penalizado por isso! O Omar, já restabelecido, começou a aumentar o passo (normalmente ele é muito mais forte que eu) e eu fui acompanhando. Ficámos os dois sozinhos e assim seguimos até ao fim. Não tive medo de estar a abusar porque não me sentia a fazer esforço nenhum! A chuva até tinha abrandado e só sentia frio imediatamente após os abastecimentos, onde me estava a demorar sempre um bocadinho de mais, viria a perceber depois.

Ah, pequeno aparte, no abastecimento dos 40km existia nada mais nada menos que Sopa da Pedra!! ahaha Não tive coragem de comer, mas deixo aqui um louvor à organização! Fiquei-me por uma taça de arroz doce :)

Chegámos ao Pavilhão de Condeixa, à Base de Vida (53km), local onde estava o primeiro saco com muda de roupa, com 6h50, um pouco antes do nascer do sol. Ainda bem, estava muito saturado de correr à noite e o frontal aleijava-me na testa e nas orelhas. Não troquei de roupa nem de sapatilhas, mas decidi demorar-me bastante tempo. Sentei-me, estiquei as pernas, conversei com quem lá estava... Estive perto de meia hora no pavilhão, muitíssimo tempo. Mas era por uma boa causa! Certo..?

Não sei... Algo de estranho se estava a passar. O descanso, em vez de me dar energia, estava a ter o efeito precisamente contrário. O sorriso que trazia à entrada do pavilhão tinha desaparecido e comecei a sentir-me muito desconfortável. Decidi arrancar um pouco à frente do Omar para o abastecimento, que ficava numa escola a 200m do pavilhão. Eram 7:20 da manhã e o dia já tinha nascido, talvez o sol e a visão da manhã me dessem alento. 

Assim que saio do pavilhão foi como se me tivesse caído uma bigorna em cima. O dia que eu pensava que tinha clareado era afinal cinzentão. Uma rajada de vento frio gela-me e empurra a chuva que era agora muito mais forte que há pouco. Foram 200 metros completamente desanimado até chegar à cantina da escola, onde havia massa à bolonhesa para comer. Quando lá entrei até estava atordoado. Não tinha fome, sentia-me pesado, triste, desanimado. Como é possível uma mudança tão radical desde que entrei até que saí do pavilhão? Sentei-me numa mesa sem comer nada à espera do Omar. Ele chegou e comeu um prato de massa. Eu pedi o mesmo mas não consegui comer nada. Ficámos ali mais 10 minutos e eu a afundar-me cada vez mais. Vesti o impermeável e fiz-me ao caminho.

Ia começar a segunda parte da prova. Agora era a sério.

Foi assim, fisicamente bem mas psicologicamente de rastos, que percorri um dos trilhos mais espectaculares de todo o percurso, logo à saída de Condeixa. Muito técnico, a fazer lembrar a loucura dos Abutres (sem a lama), junto a um ribeiro de águas cristalinas e uma cascata daqueles que só se vêem nos postais! 


Nesta altura comecei a ficar preocupado. Enquanto percorria este trilho ouvia tudo quase como se fosse um eco e a minha visão estava sempre a tremer. Sentia uma dormência nos lábios e temi não conseguir continuar. O Omar perguntava-me se estava bem, respondia-lhe que me estava a ir abaixo. Pedi-lhe para ele seguir sozinho (algo que repeti 675 vezes aproximadamente durante a prova), que precisava de estabilizar. Ele insistia em esperar por mim e ir ao meu ritmo. Felizmente, mais uma vez o abastecimento não tardou e pude sentar-me um pouco enquanto comia uma sopa quente. As tonturas passaram, mas o mal estar insistia em ficar.

Se os 20km até ao pavilhão de Condeixa foram a minha melhor fase, os 20 que se seguiram foram de longe a pior. Falava com o Omar das famosas mortes e renascimentos que acontecem nas ultras, como tanto eu como ele já tínhamos passado por isso. Foi a essa esperança de segunda vida que me agarrei com todas as forças, mas ela estava a tardar em surgir. 

A tal chuva molha-parvos acompanhada de nevoeiro nunca deu tréguas, o que aumentava o desconforto e enlameava os trilhos. Não calamiticamente como nos Abutres, mas o suficiente para dificultar as subidas mais inclinadas. O percurso variava entre estradões longos e trilhos muito interessantes. Quanto à paisagem: zero. Praticamente não dei por ela. No fim de uma grande subida ouvia as eólicas com o seu barulho característico, sabia que provavelmente ali existia daquelas vistas de encher a alma, mas eu só via 50 metros de estradão à frente. Era quase como se corrêssemos de palas, muito muito desgastante! 

Um exemplo da vista que tínhamos. Ah, e reparem no colega lá em baixo a subir de gatas!
Os 70km coincidiram com a subida ao ponto mais alto do percurso, com 500m. Depois de alguns quilómetros a subir tínhamos agora um estradão ligeiramente a descer pela frente. 

"Vamos a isso", disse para o Omar. 

Começámos a correr.

Corremos até uma grande e divertida descida por um trilho inclinado e técnico que serpenteava pela encosta. Fizemos a descida sempre a correr até desembocar em novo trilho plano onde continuámos a ... correr! 

Algo estava a mudar. O Omar disse-me que estava com melhor cara e a verdade é que estava a começar a sentir-me bem! Conversávamos e riamos, falávamos dos trilhos e da vida em vez de mortes de renascimentos. Foi assim com este espírito que cheguei ao abastecimento de Degracias, aos 74km. Assim que começo a descer a rua para o abastecimento vi o tónico que me faltava para me trazer de novo para o mundo dos vivos: a Sara e a Mel!

Nota-se muito que fiquei contente por as ver? :)
Fartei-me de comer neste abastecimento, que mais uma vez era completíssimo! Insisti no pão caseiro com presunto e queijo fresco, que era o que me sabia melhor, mas variedade não faltava. 

Normalmente não gosto nada que esperem por mim, percebo que me querem ajudar, mas a verdade é que não gosto de pensar que estou a empatar alguém nem de me sentir pressionado a aumentar o meu ritmo. Depois dos 53km, quando eu fui abaixo, o Omar sentiu a necessidade de não me abandonar. Sei que ele podia bem ter feito pelo menos hora e meia a menos do que fez. O que me impressiona mais no Omar é que apesar de ter um potencial brutal (de certeza que vai andar lá na frente muito em breve) para ele há sempre valores mais altos que se levantam. Ajudar os amigos é um deles. Obrigado por isso Omar!

No abastecimento de Degracias
Seguimos novamente juntos e com um andamento confortável até entrar no Vale do Poio. Quando começámos a descer para o vale olhámos para a outra encosta e vemos um grupo a correr num estradão. Nãooo, pensámos nós, de certeza que já ali passámos! Se numa prova de estrada já chateiam os retornos, imaginem num trail! Começamos a correr num estradão muuuuuito chato, ligeiramente a subir que nunca mais acabava. Foram 3 ou 4 quilómetros ali, na base do vale, com metros e metros de estradão pela frente. Assim que inclinava um bocadinho começava logo a andar! O Vale do Poio estava a tornar-se uma valente poia até que vemos uma placa a dizer "Trilho do Poio" a entrar pra dentro das árvores. Trilho? Pronto, menos maus, vamos a isso!

Parecia que nos tinham dado um doce, desatámos logo a correr pelo trilho! Foi dos que gostei mais do percurso. Perfeitamente corrível, sempre aos ésses no meio de uma vegetação muito densa que até nos cobria a cabeça! Andámos naquele paraíso cerca de 1.5km até que saímos da vegetação e damos de caras com a zona mais impressionante da prova: o Canhão do Poio.


As fotos não lhe fazem justiça, muito menos print screens de uma filmagem que fiz com a go pro, mas era uma espécie de Grand Canyon. Duas grandes escarpas que se erguiam à esquerda e à direita e nós ali a andar num trilhozinho na base de uma delas! Ainda por cima o tempo ajudou e até abriu nesta altura! Fez-me pensar novamente na monotonia que é correr com nevoeiro, ter o privilégio de ver estas coisas ajuda muito. 

O posto de abastecimento de Poios, no fim do Canhão, situava-se ao quilómetro 83. Antes de lá chegarmos devemos ter passado por um carro dos bombeiros. Digo "devemos" porque eram tantos ao longo do percurso que a probabilidade de fazer 5km sem ver bombeiros era muito pequena! Impressionante, é o que me ocorre dizer! Eram centenas de bombeiros sempre com carros e ambulâncias. Nunca estive numa prova assim. 

Comi uma canja no posto de Poios (havia comida quente em praticamente todos os postos) e segui caminho, sempre com o Omar. Continuava a sentir-me bastante bem, mas naturalmente desgastado pelos muitos quilómetros que levávamos nas pernas. Principalmente os pés, que estavam cada vez mais doridos. Decidi fazer a prova toda com as minhas Salomon velhinhas o que pode ter sido um erro, mas não tinha confiança nenhuma nas Skechers. Infelizmente, penso que desta é que foram para melhor :(

Já não é só a malha exterior, já tem mesmo buracos :(
A segunda Base de Vida era em Tapéus, aos 93km. Aqui podíamos mudar novamente de roupa. Mas o que é que interessa mesmo em Tapéus? A mudança de roupa? Os massagistas que lá estavam? A assistência de bombeiros? Não, nada disso. Em Tapéus o que interessa reter é que havia leitão para comer!!! ahahah Sinceramente, nunca vi nada assim. Até comentei com o Omar que ao contrário de todas as provas, nesta ia acabar com mais peso em vez de perder!

Saímos de Tapéus para enfrentar a ultima subida antes da meta. seriam cerca de 7km até Casmilo, onde estava situado o ultimo abastecimento. Foi neste percurso que terminou o meu estado de graça. Desta vez já não era nada psicológico, nem tonturas ou tremores. Estava pura e simplesmente esgotado!

Infelizmente era este o meu estado quando, a meio do trajecto, atingimos a marca dos 100km! 


Porra, são 100km, foi a primeira vez! Que se lixe o cansaço e a porcaria da saturação, deste momento nunca mais nos esquecemos!!


Antes de Casmilo passámos por uma das zonas mais técnicas do dia, o Trilho das Buracas. As Buracas são uma formação geológica muito interessantes nas escarpas daquelas montanhas. Segundo percebi, eram antigas salas de grutas que ficaram a descobertos depois do desabamento de algumas encostas. O trilho era muito dificil e a progressão lentíssima. Fizemos as contas e demorámos 50 minutos a percorrer 5km!

Buracas de Casmilo
Chegados a Casmilo tínhamos tinha mais uma vez à minha espera a Sara e a Maria Amélia! Infelizmente, a primeira coisa que ela nos diz é que o nosso colega de equipaVasco estava na ambulância a receber assistência médica! Tinha-se sentido mal e vomitado. Lembram-se da Sopa da Pedra? Pois, o amigo Vasco achou por bem comer! ahah Fomos logo a correr para a ambulância onde estava o Vasco embrulhado numa manta térmica a receber assistência com uma cara chateada. 

Atão pah, vais ficar por aqui?

Perguntei eu.

A médica vira-se para mim e abana a cabeça a dizer que sim.

Ao que o Vasco responde:

Hãn? Nem pensar, isto é pra acabar! ahaha

Depois de alguma negociação com a médica, lá ficou decidido que iríamos os três juntos até ao fim! Ele ficou na ambulância a aquecer um pouco enquanto eu e o Omar fomos comer. Nada mais nada menos que caldo verde e uma bifana! 

Os três e a ambulância!
O Vasco rapidamente se apressou em dizer para nós seguirmos sozinhos, que ele não se importava de ir atrás porque estava mais lento. Mas eu sabia que tinha estoirado há algum tempo e que iria ser eu a fazer de âncora. E assim foi.

Voltámos ao inicio deste post. Estes 11km foram os mais difíceis dos 116. Começou com cerca de 2km sempre a descer por um trilho corrivel e bastante divertido. Percorri-o a correr, com dentes serrados e dores horríveis a cada passada. Quando acabava a descida e começava a subida era um sacrifício voltar a apoiar-me nos bastões, os braços estavam super doridos. Os pés, mais uma vez, eram o pior de tudo! Não a nível de bolhas, mas as articulações no tornozelo latejavam. A somar a isto tudo estava completamente drenado de energia e muito saturado de ali estar.

Mas já faltava tão pouco...

O Vasco e o Omar estavam a ganhar nova vida com o aproximar da meta e eu só os puxava para trás. Sentia-me pior que nunca por os estar a prender, mas simplesmente não tinha mais nada para dar!

A cerca de 500 metros da meta disse-lhes: pronto, vamos a isso.  


A uns metros do pórtico estava a Sara e a Mel, que puxei para o meu colo antes de passar a meta. Que ela fique orgulhosa do pai daqui a uns anos, é a única coisa que eu quero. 

Dizem que se vive uma vida cada vez que se corre uma ultra. Esta, vivi-a com o Vasco e principalmente com o Omar. Dei-lhes um abraço sentido no fim e digo-lhes agora que nunca me vou esquecer desta ultra aventura. Obrigado aos dois! Obrigado também à minha super mulher Sara, que percorre o que for preciso para me apoiar em todas estas doideiras. 


Quantos aos ensinamentos desta prova de como vai influenciar a minha preparação para o MIUT... Bem, falamos disso noutra altura. Agora vou ali comer o queijinho curado que ofereceram no fim e continuar a aproveitar esta nuvem de endorfinas onde me encontro a flutuar no preciso momento :)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

111km

Saindo de Almeirim e percorrendo 111km, podia ir:

  • A Espanha comer caramelos (é isso que se faz em Espanha, não é?).
  • À Luz, ver o Benfica esmagar.
  • À Mealhada, comer leitão.
  • À Nazaré, ver as ondas à Praia do Norte.
  • A Fátima, acender uma velinha pra não ter lesões. E para o Benfica ser campeão.
  • Ir e vir a Santarém 8 vezes, só porque sim.
  • Ao Samurai de Belém enfardar 3 pratos de Sushi no buffet e depois rematar com 2 pasteis ali ao lado (oh, as saudades do tempo de faculdade...).
  • Tirar uma selfie em frente à prisão de Évora.
  • Comer um queijo de Nisa. Em Nisa.
  • Ao Fim da Europa.
  • Estudar fenómenos no Entroncamento.
  • Comprar sal a Rio Maior, por causa das câimbras.
  • Passar o dia na praia à Comporta.
  • Comprar um copo à Marinha Grande para beber vinho frisante enquanto como leitão na Mealhada.
  • A Almada, ao Cristo Rei, fazer um treino de escadas (agora que penso nisso, dá pra subir lá acima de escadas?).
  • Comer 2 bifanas a Vendas Novas. Não, três, sff.
  • Ver o Benfica esmagar o Sporting, o Belenenses e a Académica, fora.

Mas não. Vou calçar as minhas Salomon desfeitas, carregar com 2 litros de água às costas e partir à meia noite de Sexta-Feira para 111km a correr na Serra de Sicó.  

Vá-se lá perceber...










sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Curtas

Pior cor de sempre?

Há algum tempo que queria comprar um segundo par de sapatilhas de trail. As minhas Salomon XT6 Softground, único par que tive até agora, serviram para todas as provas e treinos que tenho feito em trilhos. No entanto, há medida que fui aumentando a distancia, também aumentaram as exigências. As XT6 são bastante rígidas e oferecem uma segurança excelente em trilhos técnicos, mas quando as provas são mais rolantes sinto falta de algum conforto extra. Senti muito isso no Douro Ultra Trail, prova que demorei mais tempo a fazer até agora (13h40). No fim tinha os pés muito doridos (mas nada de bolhas ou feridas). Nesta, e em todas as grandes ultras, existia um abastecimento a meio da prova onde podíamos trocar de equipamento, nomeadamente de sapatilhas. Lembro-me de ter pensado na altura que a rapidez em trilhos técnicos já pouco ou nada me interessava e que o que gostava mesmo era de calçar umas Nike de estrada, daquelas tipo sofá, para fazer o resto da prova! Mais recentemente li este post, do blog De Sedentário a Maratonista, onde o José Guimarães fala dos sapatos que usou no UTMB. Ele fala da opção que tomou a meio da prova quando teve de escolher entre umas sapatilhas mais rígidas e seguras e outras que privilegiassem o conforto. Optou pelas segundas, as Skechers Go Run Ultra 2 e ficou muito satisfeito! 

As Go Run Ultra são as anti-sapatilhas de trail. À primeira vista nem se parecem nada com sapatilhas para os trilhos e depois têm uma característica MUITO RARAMENTE vista no equipamento para o trail: não são estupidamente caras! O meu par custou 64€, vejam bem! Eu a pensar que o preço base no trail era 100€...  Lá fui eu então à loja da Skechers no Vasco da Gama comprá-las. 

Boa tarde. Tem as Go Run Ultra tamanho 43?

Tenho sim, vou ver que cores há.

Ok, obrigado.

Desculpe, mas só temos nesta cor :\


Estão mesmo a pedir uma voltinha nos Abutres.
O quê, já?!?

Como disse lá atrás, as Salomon têm sido pau para toda a obra. E se posso dizer maravilhas delas a nível do desempenho, já a durabilidade deixa muito a desejar. Ok, é verdade que já sofreram muito, mas porra, a sola está quase tão lisa como as minhas Asics Excell 33 de estrada e a malha exterior na parte da frente do pé.... bem, vejam por vocês próprios:

Pessoal que usa Salomon, também vos acontece?
MIUT e a táctica possível. 

Quando decidi embarcar na aventura MIUT, em Outubro do ano passado, não tomei a decisão sem antes saber exactamente onde me estava a meter. Li e pesquisei muito sobre aquela prova e desenganem-se se acham que foi uma decisão impulsiva. Aliás, em toda a minha vida de corridas só fui mal preparado para 2 provas: a minha primeira maratona e o meu primeiro trail a sério. Sabia que me estava a propor fazer uma das provas mais duras da Europa, com uma altimetria de loucos e trilhos super técnicos. Ora, que eu saiba aqui pelo Ribatejo não consigo encontrar condições parecidas para treinar, apesar dos 200m de altitude da Serra das Fazendas não ficarem nada a dever ao Pico Ruivo na Madeira :) Por isso cheguei à conclusão que a única forma era alterar o método de treino. Desde então pus os fartleks e séries de lado e comecei a fazer um trabalho diário de reforço muscular, rampas e muita, muita escadaria. Foram 4 meses de muita carga que tiveram um grande teste há duas semanas nos trilhos muito técnicos dos Abutres, teste que, modéstia à parte, penso que superei com sucesso! É verdade que a progressão foi muito lenta, mas nunca me senti debilitado fisicamente, e as únicas marcas Abutricas que senti nos dias seguintes foram devido à queda que me provocou a distensão que vos falei há uns dias

De facto, há uma infinidade de coisas que podem correr mal na Madeira (basta lembrar do que me aconteceu nos Abutres), mas nunca será por falta de treino que não vou cortar aquela meta!


Virgem dos 3

A preparação para a Madeira não podia passar só pelo treino, as provas são muito importantes. Desde logo comecei a pensar nalguns pontos chave e testes que teria que cumprir até Abril. A meu ver, havia duas vertentes que tinha que melhorar muito: a prática em trilhos mais técnicos e a resistência para aguentar uma corrida de mais que 100km e previsivelmente cerca de 24 horas de esforço. Mesmo com 6 meses de antecedência, havia duas provas que serviriam quase como um tubo de ensaio.

A primeira era os Abutres, com os seus trilhos super técnicos. Este ano ainda por cima com as condicionantes que já estão fartos de ouvir falar. Foi um teste perfeito não só pelos trilhos técnicos mas também quanto à necessidade de adaptar o equipamento que tinha vindo a usar. De facto, se não tivesse sido aquela malfadada queda que me debilitou fortemente logo a meio da prova, tinha acabado em muito boas condições físicas e sem nunca sentir que seriam dificuldades técnicas a parar-me. 

A segunda prova de fogo era a barreira dos 3 dígitos, já que o máximo que fiz até hoje foram 83km, na Arrábida. Como disse o Paulo Pires no seu blog Runbook de um gajo que mudou de vida, o MIUT não é nem de perto nem de longe a melhor prova para se tentar os 3 dígitos pela primeira vez. Comecei então a procurar uma prova que me permitisse isso sem forçar a evolução que estava a ter. Pensei até em cumprir a distancia em modo treino, aqui por "casa", mas decidi inscrever-me no Ultra Trail Terras de Sicó, 111km. Este tem lugar daqui a duas semanas, o que me deixa a exactamente 6 semanas da Madeira. Não é o ideal, eu sei, mas penso que 6 semanas bem geridas são o suficiente para recuperar do esforço e por outro lado tenho a certeza que me vou sentir muito mais confiante se conseguir superar mais este teste. 

O Terras de Sicó é uma prova longuíssima mas pelo que tenho lido não será especialmente dificil tecnicamente, por isso parece-me o ideal. Além disso a partida é há meia noite, tal como na Madeira, o que é uma novidade para mim. 


8 Semanas e uma distensão

Faltam exactamente 8 semanas para dia 10 de Abril. Se retirar uma semana antes de Sicó e outra antes do MIUT sobram 6. Seis semanas de treino. A distensão que vos falei impediu-me de correr por uma semana e meia depois dos Abutres, só ontem recomecei a correr e muito devagar. A primeira consequência foi perder duas semanas de preparação, a segunda foi o cancelamento da participação no Trail do Castelejo (45km) que serviria como ultimo treino longo antes de Sicó. Eu sei que vou pagar, e bem, estas deficiências na preparação, mas as coisas são como são. Só resta dar o máximo nas 6 semanas que me restam e esperar que seja o suficiente. 

Escrevi "8 semanas" no Google. Adivinham o que me apareceu :)
Quarenta e Dois vezes 1

A data escapou-me na altura, mas fez há uma semana um ano que criei o Quarenta e Dois! Tem sido um prazer profundamente egoísta manter este blog, já que alia duas das coisas que gosto mais de fazer: correr e escrever. Lembro-me do dia em que o criei e de pensar "bem, mesmo que ninguém leia isto não faz mal, porque deu-me um gozo do caraças só escrever este post!". A verdade é que o número de visitas foi absolutamente surpreendente, ao ponto de às vezes nem acreditar. Uns mais "fieis", outros à procura de uma opinião sobre uma prova que também fizeram, mas já foram 40 mil as vezes que aqui vieram, o que não estava nem nas minhas melhores expectativas! Além disso conheci muita gente através dele, iniciei muitas conversas por causa disto e até pus amigos meus que nunca tinham pensado em corrida a falar de quilómetros e desnível acumulado! eheh Obrigado a todos!


Facebook

Umas semanas depois de criar o blog, iniciei também a página de facebook do Quarenta e Dois. A ideia era partilhar os posts que ia escrevendo com quem se interessava por eles, sem ter que chatear os meus "outros" amigos. Entretanto a coisa evoluiu e aquela página tem-me dado muito gozo. Além de mostrar os posts e escrever coisas que acho que não justificam um artigo no blog, partilho muitas vezes relatos de provas feitos por amigos, conhecidos ou estranhos, caso alguém me peça. Têm havido textos muito interessantes! Se não conhecem, passem por lá e deixem um gosto :)


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Distensão

"Uma distensão ou estiramento muscular, caracteriza-se por um rompimento parcial ou completo de fibras ou feixes musculares, resultante de um esforço extremo realizado pelo músculo em questão."

Queridos deuses da corrida, 

Ok, foi giro colocarem ali aquela pedra na Serra da Lousã. O bastão escorregou, eu torci-me todo, o músculo abdominal obliquo distendeu, fiz o resto da prova em sofrimento e tenho dores tão más desde esse dia que ainda nem sequer consigo pensar em correr... Ok, isso tudo aconteceu, mas foi engraçado! O pessoal riu-se (pelo menos vocês), foi uma rábula interessante no relato da prova. Deu aquele ar de Rambo, só ficou a faltar sarar a ferida com pólvora! Epah, mas faltam dois meses para o MIUT... e não é só isso, sabem? Há outros objectivos, outros pontos chave que não posso falhar até lá. Vá lá pessoal, ando obcecado com isto há 4 meses....

Por favor, dêem-me uma folga...

Não, espera, deixem-me tentar encontrar outras palavras... 

Ah, já sei:


NÃO ME FODAM!!!!!!!


Era só isso.

Obrigado,

Filipe