O Trail Nocturno da Lagoa de Óbidos é especial, ponto. Bastaram-me duas participações para perceber isso. Não é a mais longa ou a mais difícil, não é a que tem mais trilhos técnicos ou paisagens de cortar a respiração. Tem muitos estradões e, hajam pernas, até pode ser feita praticamente toda a correr! Então porque é que uma corrida que parece não ter nada a favor é tão especial?
Antes de mais, é
especial porque Óbidos é uma vila especial. Começa por o ser quando ainda vamos
na auto-estrada e vemos as muralhas que envolvem um sem fim de ruas estreitas e
desorganizadas dispostas numa encosta, como se o projecto de urbanismo se baseasse
num rabisco de uma criança. Lá dentro, milhares de pessoas literalmente
vestidas a rigor alinhavam no ultimo dia da Feira Medieval que se realiza
anualmente. Escudeiros com espadas de madeira, videntes, bruxas, bobos de corte e guerreiros com focos de 200 lumens na
cabeça vestidos com t-shirts fluorescentes misturavam-se todos criando um
espectáculo esquizofrénico. Comigo viajou um portentoso contingente de 6
cavaleiros e 2 damas, da corte almeirinense, distribuídos pelas 3 distancias da
batalha nocturna de Óbidos (55, 25 e 10km). Eram 20 horas quando acabámos de
nos equipar no sobrelotado parque de terra fora das muralhas e nos dirigimos
para o Jogo da Bola, local de chegada e de concentração para a partida.
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| Uma parte dos almeirinenses presentes, incluindo a Sara que se estreou nos trilhos! |
Foi lá em cima
que nos juntámos aos outros mil e tal atletas que esgotaram as inscrições do
UTNLO em poucas horas. Os cerca de 30 minutos que aguardámos pela partida
simbólica que nos levaria de novo à entrada da muralha foram suficientes para
encontrar dezenas de caras conhecidas, incluindo uma grande parte da elite do
trail nacional. A inclusão no circuito nacional de Ultra Trail da ATRP e a
organização a cargo de decanos da corrida de montanha ajudam, mas é mais do que
isso. Ninguém quer perder esta prova. Este ano havia a novidade das partidas
conjuntas, o que resultou numa moldura humana impressionante na zona dos
pórticos, mas que na minha opinião infelizmente tirou a diversão da partida
simbólica. Era demasiada gente, acabámos por percorrer os 500 metros a andar
quase em fila indiana.
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| Congestionado |
A partida foi
dada às 21:30 em sentido contrário ao do ano passado. Os primeiros 10km foram
numa zona completamente nova em relação a 2014. Aliás, contas por alto,
diria que cerca de 80% do percurso era diferente. A julgar por estes primeiros
quilómetros a mudança estava a ser muito positiva. Muitos trilhos abertos de
fresco, boas (mas curtas) subidas, descidas rápidas e em trilhos, passagens por
túneis, outras por baixo dos grandes viadutos da A8, sempre muito rolante e
divertido. Enquanto corria lembrava-me da Sara que vinha lá atrás na sua
primeira incursão nos trilhos, na prova de 10km. Estava a ser uma amostra
excelente!
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| Aspecto caótico na partida |
A noite estava
fresca, já tinha saudades de correr sem estar dentro de um forno. Sentia-me
muito bem e várias vezes controlei o entusiasmo para não estragar o que podia
ser uma boa corrida. Até aos 20km, onde estava situado o primeiro
abastecimento, o percurso foi excelente. Algumas zonas em comum com o ano
passado mas principalmente trilhos novos a estrear iluminados por um luar
brutal. Nas passagens pelas povoações aproveitava para desligar o frontal e
poupar pilhas, mas deixei de fazer isso quando percebi que era impossível
orientar-me sem a luz a reflectir nos pequenos quadrados colados para nossa
orientação. É o único reparo que tenho a fazer quanto à organização, as
marcações. Talvez por estar mal habituado, mas perdi a conta às vezes que parei
com dúvidas de qual o caminho a seguir. Tenho por sistema parar assim que tenho
dúvidas, por isso acabo por não fazer muitos metros a mais, mas fui-me cruzando
com muita gente desorientada. Enfim, nada de grave. Pelo menos durante a noite,
não quero imaginar o pesadelo que terá sido ao pessoal que chegou de dia seguir
as marcações!
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| Um dos tuneis onde passámos (estava seco) |
O primeiro
abastecimento sólido foi aos 20km, não parei no primeiro de líquidos aos 12.
Mesas muitíssimo bem apetrechadas com o essencial e vários brindes, como
melancia (não dá para tornar a melancia um alimento obrigatório em todas as
provas?) e mini filhoses que comi que nem um alarve e ainda levei 3 ou 4 na mão
para a viagem até ao próximo abastecimento.
Estes 12km,
apesar de completamente novos, voltaram um bocado à matriz do ano passado:
muitos estradões, algum alcatrão e quase sempre possível de fazer a correr. Foi talvez a
parte mais desinteressante do percurso, mas felizmente sentia-me muito bem e os
quilómetros passaram depressa, como podia comprovar nas placas informativas
colocadas pela organização. Nelas podíamos ver a distancia (em contagem
decrescente) para o próximo abastecimento e para Óbidos, um luxo, e ainda por
cima batia certinho!
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| A caminho da praia |
A chegada à praia foi coincidente com o abastecimento no km 32. A secção nas praias é a que marca o UTNLO. Quase como as arribas estão para o Monte da Lua, um daqueles factores que tornam a prova especial. Este ano a organização arriscou e cortou a secção pelo meio, só fizemos a segunda metade. Na pratica cortaram um segmento inicial de sobe e desce de dunas e deixaram a parte mais interessante e técnica, nas arribas. A consequência foi chegar às arribas menos cansado, o que permitiu desfrutar daquele cenário inigualável muito melhor. Acho que é de elogiar uma organização que tem a coragem de mexer com o ex-libris de uma prova com a convicção de que estariam a proporcionar uma melhor experiência aos atletas. Para mim, aposta ganha! Desfrutei muito mais da zona, senti-me bem e com o entusiasmo ainda acelerei um bocado. A luz da lua deixava o mar perfeitamente visível e reflectia na rocha clara desgastada pelas ondas, corríamos numa espécie de lusco fusco o que tornava a coisa ainda mais especial. Mais uma vez fiquei com a impressão que valeu a pena só por aqueles quilómetros.
O prato seguinte era outra secção marcante, e que até dá nome à prova: a Lagoa de Óbidos. São 10km planos, numa ciclovia que circunda a lagoa. Levei estes quilómetros na cabeça desde o início, sabia que era essencial chegar lá com pernas para o desafio psicológico que é ver a meta e saber que só lá chegaríamos uma hora depois. Foi assim, determinado, que percorri os 10km. Distraído por um concerto de HMB que estava a acontecer na Foz do Arelho e maravilhado pela luminosidade provocada pela lua gigante, cheguei a correr alguns quilómetros com o frontal desligado. Foi importante saber o que me esperava porque fui um pouco abaixo aos 5 ou 6km, mas sabia que dali a um quilómetro tinha que passar por um trilho no meio do caniçal que me obrigaria a andar uns 200m, por isso forcei até lá. Acabei por correr sempre a um ritmo a rondar os 5:30min/km, nada mau para quem já tinha quase 50km nas pernas!
| Lagoa de Óbidos |
O abastecimento surgiu aos 50km, a 8 da meta. Como sempre, muito animado, com muita gente, boa disposição e variedade de comida e bebida. Comi pouco, enchi os depósitos de água e segui caminho, já cheirava a meta!
Também esta secção final, com excepção dos últimos 3km, estava completamente mudada em relação a 2014. O ano passado penei muito naqueles últimos 3km, por isso este ano estava concentrado em percorrer o mais depressa possível os primeiros 5 e despachar aquilo de uma vez. Claro que só consegui isto porque estava num bom dia (ou noite) e ainda tinha pernas que me permitiram rolar sempre a bom ritmo. Foi nesta altura que pela quarta vez, sim QUARTA, fiz uma paragem técnica! Não sei se será do ar de Óbidos, mas este ano foi mais um caso sério de adubanço de pinhal. O que vale é que aprimorei bastante a minha técnica de cagar no mato à noite!
Tal como me lembrava, os últimos 3km mostraram mais uma face do UTNLO. Subidas a pique com cordas, descidas difíceis, parte-pernas à lá Abutres. Sempre que apanhava um troço que desse para correr metia o turbo. A analisar o track do garmin vejo que o meu pico de velocidade foi atingido aqui! Comecei a entusiasmar-me e a divertir-me muito naqueles trilhos técnicos, já fazia as subidas a correr e tudo eheh Quanto dei por mim já estava na base do castelo e só faltava a escadaria para o assalto final. Aquilo que o ano passado me custou tanto, desta vez fiz em passo de corrida e com um sorriso nos lábios! Incrível, há dias em que corre tudo bem!
Cheguei lá acima com 7h17 de prova para os 58km e 1500D+. Um tempo modesto, nada de especial. Mas fiquei super satisfeito porque me senti muito bem e acabei com força. Depois de ter sofrido tanto no Louzan e no Monte da Lua precisava de um boost de confiança como este. Assim que cheguei fui direito à mesa da comida, mas este ano nem toquei na sopa que estava muito calor. Estive um quarto de hora a enfardar melancia até ficar a deitar pela boca! No fim um banho quente nos muito bons balneários à nossa disposição e fiz-me à estrada até Almeirim com a Sara, que umas horas antes tinha completado a sua primeira prova em trilhos!
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| Na chegada, ainda a recuperar o fôlego |
Quanto à prova, não precisava de ir lá uma segunda vez para comprovar que é realmente uma prova especial. Sim, é muito rolante e não tem altitude, mas também tem secções técnicas, trilhos corríveis, passagem por povoações, tem a praia, a lagoa, tem Óbidos e, acima de tudo, tem um grupo de fiéis que esgotam a prova em poucas horas e que dão um ambiente espectacular a esta corrida. Para o ano, no dia 1 de Junho à meia noite, lá estarei eu à frente do computador para me inscrever na oitava edição desta excelente corrida.
| Já tenho para os amendoins e nozes, falta um para os pistachios |








































