As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Meu querido mês de Agosto.

Ok, vamos tirar isto da frente: uuuuh um mês sem cá vir, bla bla bla, é uma vergonha, bla bla bla, nunca mais faço isto, bla bla bla, peço desculpa aos milhares de quarentidoizódependentes etc etc etc.

Pronto, vamos ao expediente!

Não gosto muito de fazer posts sobre os meus treinos. Não que não me apeteça, mas acho que ninguém aí desse lado tem muito interesse, por isso tenho restringido os posts às crónicas das corridas. Mas como sou um gajo egocêntrico e já tinha saudades de escrever aqui, decidi quebrar a regra e escrever um interessantíssimo POST DOS TREINOS!

Lembram-se quando há uns posts atrás tinha dito que estava acagaçado com a minha forma e a perspectiva de participar nos 112km da UTAX? Disse na altura que o mês de Agosto era o do tudo ou nada, que alguma coisa tinha que mudar ou não valia a pena lá ir. O mês começou de maneira perfeita, no Nocturno de Óbidos. Senti-me sempre bem e fiquei muito satisfeito com a minha prova. O plano era participar a meio de Agosto no Ultra Rocha da Pena, mas soube-me tão bem correr à fresca em Óbidos que tive miúfa do calor e desisti de participar. No entanto, Agosto era o mês do vai ou racha, e se não rachava na Rocha tinha que rachar nos treinos, mais concretamente nas duas semanas de férias que tinha no fim de Agosto!

Estas não podiam ter começado de maneira melhor. ...nem mais cedo! Primeiro dia de férias, despertador para as 4 da manhã, siga para a Serra de Sintra! O plano era fazer um longo de 50km, a seguir um percurso disponibilizado pelo Sommer (Sr. Ribeiro), que me fez companhia a mim e a um amigo nos primeiros 15km. Aí juntou-se outro amigo que nos acompanhou nos próximos 25km. Acabaram por ser 40km, 2000D+, em cerca de 6 horas. Pronto, este foi o registo factual. Agora deixem-me dizer-vos o que realmente interessa: Sintra é brutal! Que sítio incrível! Será que vocês, pessoas que vivem em Lisboa e arredores, sabem a sorte que têm? Não, melhor, será que nós, portugueses, sabemos a sorte que temos por ter sítios como Sintra à distancia de uma viagem de carro? Que sitio perfeito, tem de tudo! Foi brutal ver o nascer do sol, passar frio de madrugada enquanto subíamos ao Castelo dos Mouros, assar ao sol na descida da Peninha, parar na Pedra Amarela para comer um sandes descansado enquanto via a paisagem, curtir uma descida de Downhill como se fosse um puto de 5 anos a chapinhar numa poça de água... Sem abastecimentos, sem marcações, sem ultrapassagens ou tempos limite, as 6 horas passaram e não dei por elas. Vou voltar, de certeza. 

Sande de Presunto na Pedra Amarela
Domingo era dia de rumar a Quarteira, onde passaria as próximas duas semanas. O pior sítio do mundo para levar os treinos a outros nível, dizem vocês. E têm toda a razão, mas eu tinha um trunfo chamado Hugo Sá! Lembram-se de uma campanha da Prozis que fornecia tracks com percursos no Algarve? Pois é, estes eram idealizados pelo Hugo, um nortenho que rumou a sul há uns anos. Foi ele que me apresentou o Cerro da Cabeça de Câmara, um monte com 200m de altitude a 10 minutos de Quarteira. Foi lá que conheci um percurso de 10km quase sempre em trilhos de Downhill (todos devíamos perder um bocadinho do nosso dia a agradecer ao pessoal do BTT) super divertido, rápido e variado. Foi lá que fiz um treino com o João, o meu cunhado, outro com o Bruno, o mentor do ATR (Algarve Trail Running) que além de ser um atleta brutal é um gajo impecável, foi lá que corri com o Eduardo Merino, das quintas-feiras bravas, foi lá que voltei mais 6 vezes nas minhas férias e fui feliz em cada uma delas. Ok, menos naquela vez, curiosamente no meu dia de anos, que caí numa curva e deixei metade da nalga esquerda agarrada às pedras do monte.


Via do Infante de um lado, trilho brutal do outro e um emplastro a estragar a foto.

Não queria perder esta oportunidade de mostrar a nalga no blog.
O mesmo Hugo apresentou-me uma porta secreta ali para o lados de Portimão que nos levou a um universo paralelo em pleno Allgarve, de seu nome Serra de Monchique. Confesso, nunca lá tinha passado. Era um daqueles básicos para quem o Algarve é só praia e confusão. Não é, é muito mais, e um bocado grande desse "muito mais" é Monchique. Que maravilha correr ali. Subimos das Caldas de Monchique até à Picota (770m), descemos até Monchique e voltámos a subir, desta vez até ao ponto mais alto do Algarve, a Foia (902m). Passámos por bosques cerrados, por planaltos de pedra, por trilhos apertados, vegetação alta, vegetação baixa, vimos o mar, vimos o Algarve inteiro, fizemos parte da Via Algarviana, apanhámos chuva, vento, sol, frio, calor.... Monchique é um sítio mágico que merece um boa prova de trilhos. Tenho a certeza que mais cedo ou mais tarde vai aparecer, espero que pela mão da gente competente da ATR (organizadores do Rocha da Pena). Depois de conhecer o Bruno e o Hugo sei que ficaria em boas mãos. Ah, e podem contar com a minha inscrição!

Não queria acabar o capítulo Algarve sem antes referir uma coisa: o Hugo Sá e o Bruno Rodrigues deviam ser promovidos como património regional. Estão de férias lá em baixo? Falem com o Hugo, ele não se importa de vos mostrar os melhores cantos, a sério. Já o Bruno só conheci no último dia de férias, mas logo se prontificou a mostrar mais trilhos. Boa gente, pessoas impecáveis. Dêem-lhes confiança e o trail do Algarve vai explodir, acreditem.

Com o Hugo na Foia, a 900m de altitude.
Para o último fim de semana de férias reservei um longo em Évora, terra da Sara. Procurei saber de trilhos da Serra de Valverde, mas à ultima da hora deu-me a preguiça e achei interessante correr uma parte da Ecopista de Évora, ramal de Mora. A Ecopista surge da conversão de um ramal ferroviário e procura promover pontos de interesse histórico/culturais. Basicamente é um estradão fechado ao transito automóvel de 60km que liga Évora a Mora, passando por Arraiolos aos cerca de 30km, foi este o percurso que me propus a fazer. Eu gosto muito do Alentejo, e de Évora em particular, é possivelmente a minha cidade favorita em Portugal. Mas tenho que confessar que fazer este treino não foi lá muito boa ideia. Começou não ser boa ideia quando decidi partir apenas às 8 (que resvalou para as 8:30), acabei já perto do meio dia com temperaturas muito próximas dos 40ºC. Depois não foi boa ideia porque o percurso não era bem o que eu pensava, este não sobe e desce os montes que vai apanhando, rodeia-os mantendo-se sempre no sopé. A paisagem não varia praticamente nada do inicio ao fim, mantemo-nos longe das povoações e mergulhados na planície alentejana. Foram 27km planos como uma folha de papel e abafados como um forno. Esgotei os 2.5 litros de água que levava e acabei a derreter com o calor... Vou dar certamente outra oportunidade a Évora, mas não por ali. Não há por aí nenhum Eborense que me queira fazer companhia um dia destes? 

Amarelo e azul, all the way.
Foram duas semanas com muitos quilómetros (179) mas pouco efectivos, acabei por não fazer muitos treinos técnicos e procurei apenas divertir-me e aproveitar. Não terá sido a maneira ideal de apurar a forma para enfrentar os monstros que se avizinham, mas não mudava nada. Os muitos quilómetros contribuíram no entanto para o mês mais produtivo de sempre, 384km em Agosto! Nada mau!

Agora venha Arga! 

...Bem, na verdade antes ainda vêm três semanas de treino intenso, mas dizer isso é menos dramático.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Pedido de Ajuda

"A corrida é a mais importante das coisas secundárias", já dizia a famosa frase do movimento Spiridon. Todos concordamos que a mais importante das coisas principais é a vida.

É vida que vos venho pedir hoje.

De vez em quando há uma tragédia que nos toca mais fundo, e desta vez a sombra anda a rondar Almeirim. A filha de 3 anos de um amigo meu, colega de escola da minha Maria Amélia, está numa situação desesperada e urgente. Precisa de um transplante de medula óssea. Toda a comunidade está mobilizada, mas infelizmente, como sabem, as probabilidades de achar um dador compatível são terrivelmente reduzidas. É por isso que vos escrevo hoje. Para vos pedir, desesperadamente, ajuda. 

É muito fácil tornarem-se dadores potenciais de medula. Basta terem entre 18 e 45 anos, pelo menos 50kg e pelo menos 1.50m de altura. Depois tens que dar uma pequena amostra de sangue e preencher um inquérito. É só isso. Vais entrar numa base de dados internacional e, se tiveres muita sorte, activado como dador de medula. 

Se fores da região de Almeirim, o laboratório Joaquim Chaves (perto do Jardim da Republica) está a recolher amostrar de 2ª a sábado, das 8 às 11 da manhã. O resto do país pode consultar os locais para recolha aqui.

Por favor, ajudem. Se não for a nossa menina, os milhares de pessoas que precisam de um transplante. Agora vamos todos esperar que isto não passe do pesadelo que está a ser.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

VII Trail Nocturno da Lagoa de Óbidos (58km)

O Trail Nocturno da Lagoa de Óbidos é especial, ponto. Bastaram-me duas participações para perceber isso. Não é a mais longa ou a mais difícil, não é a que tem mais trilhos técnicos ou paisagens de cortar a respiração. Tem muitos estradões e, hajam pernas, até pode ser feita praticamente toda a correr! Então porque é que uma corrida que parece não ter nada a favor é tão especial?


Antes de mais, é especial porque Óbidos é uma vila especial. Começa por o ser quando ainda vamos na auto-estrada e vemos as muralhas que envolvem um sem fim de ruas estreitas e desorganizadas dispostas numa encosta, como se o projecto de urbanismo se baseasse num rabisco de uma criança. Lá dentro, milhares de pessoas literalmente vestidas a rigor alinhavam no ultimo dia da Feira Medieval que se realiza anualmente. Escudeiros com espadas de madeira, videntes, bruxas, bobos de corte  e guerreiros com focos de 200 lumens na cabeça vestidos com t-shirts fluorescentes misturavam-se todos criando um espectáculo esquizofrénico. Comigo viajou um portentoso contingente de 6 cavaleiros e 2 damas, da corte almeirinense, distribuídos pelas 3 distancias da batalha nocturna de Óbidos (55, 25 e 10km). Eram 20 horas quando acabámos de nos equipar no sobrelotado parque de terra fora das muralhas e nos dirigimos para o Jogo da Bola, local de chegada e de concentração para a partida.

Uma parte dos almeirinenses presentes, incluindo a Sara que se estreou nos trilhos!
Foi lá em cima que nos juntámos aos outros mil e tal atletas que esgotaram as inscrições do UTNLO em poucas horas. Os cerca de 30 minutos que aguardámos pela partida simbólica que nos levaria de novo à entrada da muralha foram suficientes para encontrar dezenas de caras conhecidas, incluindo uma grande parte da elite do trail nacional. A inclusão no circuito nacional de Ultra Trail da ATRP e a organização a cargo de decanos da corrida de montanha ajudam, mas é mais do que isso. Ninguém quer perder esta prova. Este ano havia a novidade das partidas conjuntas, o que resultou numa moldura humana impressionante na zona dos pórticos, mas que na minha opinião infelizmente tirou a diversão da partida simbólica. Era demasiada gente, acabámos por percorrer os 500 metros a andar quase em fila indiana.

Congestionado
A partida foi dada às 21:30 em sentido contrário ao do ano passado. Os primeiros 10km foram numa zona completamente nova em relação a 2014. Aliás, contas por alto, diria que cerca de 80% do percurso era diferente. A julgar por estes primeiros quilómetros a mudança estava a ser muito positiva. Muitos trilhos abertos de fresco, boas (mas curtas) subidas, descidas rápidas e em trilhos, passagens por túneis, outras por baixo dos grandes viadutos da A8, sempre muito rolante e divertido. Enquanto corria lembrava-me da Sara que vinha lá atrás na sua primeira incursão nos trilhos, na prova de 10km. Estava a ser uma amostra excelente!

Aspecto caótico na partida
A noite estava fresca, já tinha saudades de correr sem estar dentro de um forno. Sentia-me muito bem e várias vezes controlei o entusiasmo para não estragar o que podia ser uma boa corrida. Até aos 20km, onde estava situado o primeiro abastecimento, o percurso foi excelente. Algumas zonas em comum com o ano passado mas principalmente trilhos novos a estrear iluminados por um luar brutal. Nas passagens pelas povoações aproveitava para desligar o frontal e poupar pilhas, mas deixei de fazer isso quando percebi que era impossível orientar-me sem a luz a reflectir nos pequenos quadrados colados para nossa orientação. É o único reparo que tenho a fazer quanto à organização, as marcações. Talvez por estar mal habituado, mas perdi a conta às vezes que parei com dúvidas de qual o caminho a seguir. Tenho por sistema parar assim que tenho dúvidas, por isso acabo por não fazer muitos metros a mais, mas fui-me cruzando com muita gente desorientada. Enfim, nada de grave. Pelo menos durante a noite, não quero imaginar o pesadelo que terá sido ao pessoal que chegou de dia seguir as marcações!

Um dos tuneis onde passámos (estava seco)
O primeiro abastecimento sólido foi aos 20km, não parei no primeiro de líquidos aos 12. Mesas muitíssimo bem apetrechadas com o essencial e vários brindes, como melancia (não dá para tornar a melancia um alimento obrigatório em todas as provas?) e mini filhoses que comi que nem um alarve e ainda levei 3 ou 4 na mão para a viagem até ao próximo abastecimento.

Estes 12km, apesar de completamente novos, voltaram um bocado à matriz do ano passado: muitos estradões, algum alcatrão e quase sempre possível de fazer a correr. Foi talvez a parte mais desinteressante do percurso, mas felizmente sentia-me muito bem e os quilómetros passaram depressa, como podia comprovar nas placas informativas colocadas pela organização. Nelas podíamos ver a distancia (em contagem decrescente) para o próximo abastecimento e para Óbidos, um luxo, e ainda por cima batia certinho!

A caminho da praia
A chegada à praia foi coincidente com o abastecimento no km 32. A secção nas praias é a que marca o UTNLO. Quase como as arribas estão para o Monte da Lua, um daqueles factores que tornam a prova especial. Este ano a organização arriscou e cortou a secção pelo meio, só fizemos a segunda metade. Na pratica cortaram um segmento inicial de sobe e desce de dunas e deixaram a parte mais interessante e técnica, nas arribas. A consequência foi chegar às arribas menos cansado, o que permitiu desfrutar daquele cenário inigualável muito melhor. Acho que é de elogiar uma organização que tem a coragem de mexer com o ex-libris de uma prova com a convicção de que estariam a proporcionar uma melhor experiência aos atletas. Para mim, aposta ganha! Desfrutei muito mais da zona, senti-me bem e com o entusiasmo ainda acelerei um bocado. A luz da lua deixava o mar perfeitamente visível e reflectia na rocha clara desgastada pelas ondas, corríamos numa espécie de lusco fusco o que tornava a coisa ainda mais especial. Mais uma vez fiquei com a impressão que valeu a pena só por aqueles quilómetros.

O prato seguinte era outra secção marcante, e que até dá nome à prova: a Lagoa de Óbidos. São 10km planos, numa ciclovia que circunda a lagoa. Levei estes quilómetros na cabeça desde o início, sabia que era essencial chegar lá com pernas para o desafio psicológico que é ver a meta e saber que só lá chegaríamos uma hora depois. Foi assim, determinado, que percorri os 10km. Distraído por um concerto de HMB que estava a acontecer na Foz do Arelho e maravilhado pela luminosidade provocada pela lua gigante, cheguei a correr alguns quilómetros com o frontal desligado. Foi importante saber o que me esperava porque fui um pouco abaixo aos 5 ou 6km, mas sabia que dali a um quilómetro tinha que passar por um trilho no meio do caniçal que me obrigaria a andar uns 200m, por isso forcei até lá. Acabei por correr sempre a um ritmo a rondar os 5:30min/km, nada mau para quem já tinha quase 50km nas pernas!

Lagoa de Óbidos
O abastecimento surgiu aos 50km, a 8 da meta. Como sempre, muito animado, com muita gente, boa disposição e variedade de comida e bebida. Comi pouco, enchi os depósitos de água e segui caminho, já cheirava a meta!

Também esta secção final, com excepção dos últimos 3km, estava completamente mudada em relação a 2014. O ano passado penei muito naqueles últimos 3km, por isso este ano estava concentrado em percorrer o mais depressa possível os primeiros 5 e despachar aquilo de uma vez. Claro que só consegui isto porque estava num bom dia (ou noite) e ainda tinha pernas que me permitiram rolar sempre a bom ritmo. Foi nesta altura que pela quarta vez, sim QUARTA, fiz uma paragem técnica! Não sei se será do ar de Óbidos, mas este ano foi mais um caso sério de adubanço de pinhal. O que vale é que aprimorei bastante a minha técnica de cagar no mato à noite!

Tal como me lembrava, os últimos 3km mostraram mais uma face do UTNLO. Subidas a pique com cordas, descidas difíceis, parte-pernas à lá Abutres. Sempre que apanhava um troço que desse para correr metia o turbo. A analisar o track do garmin vejo que o meu pico de velocidade foi atingido aqui! Comecei a entusiasmar-me e a divertir-me muito naqueles trilhos técnicos, já fazia as subidas a correr e tudo eheh Quanto dei por mim já estava na base do castelo e só faltava a escadaria para o assalto final. Aquilo que o ano passado me custou tanto, desta vez fiz em passo de corrida e com um sorriso nos lábios! Incrível, há dias em que corre tudo bem!

Cheguei lá acima com 7h17 de prova para os 58km e 1500D+. Um tempo modesto, nada de especial. Mas fiquei super satisfeito porque me senti muito bem e acabei com força. Depois de ter sofrido tanto no Louzan e no Monte da Lua precisava de um boost de confiança como este. Assim que cheguei fui direito à mesa da comida, mas este ano nem toquei na sopa que estava muito calor. Estive um quarto de hora a enfardar melancia até ficar a deitar pela boca! No fim um banho quente nos muito bons balneários à nossa disposição e fiz-me à estrada até Almeirim com a Sara, que umas horas antes tinha completado a sua primeira prova em trilhos!

Na chegada, ainda a recuperar o fôlego
Quanto à prova, não precisava de ir lá uma segunda vez para comprovar que é realmente uma prova especial. Sim, é muito rolante e não tem altitude, mas também tem secções técnicas, trilhos corríveis, passagem por povoações, tem a praia, a lagoa, tem Óbidos e, acima de tudo, tem um grupo de fiéis que esgotam a prova em poucas horas e que dão um ambiente espectacular a esta corrida. Para o ano, no dia 1 de Junho à meia noite, lá estarei eu à frente do computador para me inscrever na oitava edição desta excelente corrida.

Já tenho para os amendoins e nozes, falta um para os pistachios 

   

domingo, 19 de julho de 2015

Ultra Trail Monte da Lua (52km) - A balança desequilibrada


O ano passado foi das provas que gostei mais de fazer, por isso decidi que ia ser uma das duas únicas que iria repetir este ano. Gostei porque achei das provas mais completas que já fiz. Tem de tudo, desde zonas corriveis, paisagens brutais, passagem por lugares históricos e turísticos, trilhos técnicos e dificuldade QB, num equilíbrio perfeito. Este ano houveram algumas alterações no percurso (assim de repente, talvez um terço do percurso tenha sido diferente) o que desfez esse equilíbrio fazendo a balança pender para um dos lados. Terá a qualidade da prova sofrido com isso? Para que dos lados pendeu a balança? O melhor é continuarem a ler...

(Peço desculpa por este teaser descarado).


Como sempre na Horizontes, a imagem das provas é perfeita. Trabalho da Astrodeck.
Às 8:15, como combinado, o Paulo Garcia, director da Horizontes, fazia uma breve explicação da prova. No areal estavam já os mais de 200 ultras que partiriam às 8:30, um quarto de hora antes dos muitos que participariam na prova curta de 25km.  "Nesta prova não há escaladas, nem cordas para descer, nem nada dessas coisas que agora parece que estão na moda", dizia o Paulo, uma frase que dita no Centro Nacional de Indignados, vulgo Facebook, daria a azo a pelo menos 100 comentários. Comigo estavam o Eduardo, que fez um desvio no caminho para me ir buscar a Rio de Mouro, e o Paulo, que fez um desvio no caminho para me ir buscar o dorsal à Pro Runner a semana passada.

A única foto onde aparecemos os três
Passava pouco das 8:30 quando partimos para a aventura. O ano passado deixei-me ficar praticamente para ultimo nos primeiros metros, o que me fez estar parado uns 5 minutos na passagem de uma linha de água, por isso acelerei um pouco para ficar bem posicionado na entrada dos trilhos. Só que uma das alterações em 2015 foi precisamente os 5km iniciais. Uma boa opção, aquela passagem era desnecessária. Curiosamente, foi nestes 5km iniciais que houveram os principais problemas de marcações. Apesar do pelotão ainda ir muito junto, várias vezes nos perdemos, já que em vez de fitas muitas vezes o percurso era apenas marcado com bolas pintadas. Ninguém me disse isso, mas julgo que terá sido mais um caso de fitas roubadas, já que o resto do percurso estava impecavelmente marcado, duma forma inteligente e eficaz, como é apanágio da Horizontes. 

Mais trilho menos trilho, mais estradão menos estradão, tal como o ano passado foram 18km de prelúdio até entrarmos finalmente na Serra de Sintra. Com passagens por Colares e chegada na zona histórica de Sintra apinhada de turistas para uma subida final até à Quinta da Regaleira, onde estava o primeiro abastecimento de sólidos. Apesar de terem sido 18km por trilhos pouco técnicos e estradões, nunca deixou de ser um percurso interessante. 

Até agora tudo bem.
Nada interessante era a humidade brutal que se fazia sentir. Apesar do sol ainda não brilhar, bastou-me correr 500m para ficar completamente encharcado em suor, e assim continuei até ao fim.

O primeiro de dois abastecimento sólidos estava bem composto e com tudo o que uma prova de 50km com este nível de dificuldade exigia. Cheguei lá com bastante fome, por isso ainda me demorei um bocado de volta dos biscoitos de manteiga, salgados e da melancia, que me soube pela vida. O segundo abastecimento sólido só estaria dali a 20km. Era muito longe, mas a julgar pelo percurso do ano passado seriam 20km tranquilos e não me preocupei. De qualquer maneira, avisado que só haveriam dois abastecimentos sólidos, carreguei com bastantes barras e geis para não ser apanhado desprevenido.

Após o abastecimentos entrámos na fase da prova que compensa o regresso ano após ano. A passagem pela Quinta da Regaleira e a subida do Parque das Merendas.

A misteriosa Quinta da Regaleira
É apenas a segunda vez que visito a Regaleira, ambas em prova, e mais um vez fiquei com a sensação que lhe devo uma visita bastante mais demorada. A descida do Poço Iniciático é sempre espetacular, assim como a descida pelos caminhos em pedra, este ano com o divertimento acrescido de ir a fazer slalom entre os milhares de turistas que por lá andavam. 

Saídos da Regaleira, iniciámos outro ponto alto do Monte da Lua: a subida ao Castelo dos Mouros pelo Parque das Merendas.


Uma subida que dá bastante trabalho, com muitas escadas, muita rocha e num ambiente brutal bem no coração da Serra de Sintra. Nesta altura estava uma neblina que dava um ar ainda mais místico às árvores gigantes que nos rodeavam. É nesta subida que passamos por uma exposição de fotografia permanente ligeiramente...digamos..fantasmagórica.

Foto roubada do blog da menina.
Ultrapassada esta dificuldade iniciámos a descida até à Lagoa Azul. Tal como no ano passado, foi uma descida muito tranquila e rápida. Primeiro por trilhos muito bons e depois por estradões a descer não muito inclinados, o que nos permitia correr a bom ritmo sem qualquer desconforto. 

Era lá que estava localizado um abastecimento de líquidos, onde enchi o camelback que se esgotou pouco antes de chegar ao abastecimento. A gerir o abastecimento estavam 3 miúdos nos seus 15, 16 anos. Perguntei a uma quanto faltava para o próximo, a resposta foi um enfadado "não faço a mínima ideia" e um revirar de olhos ehehe Um colega dela lá me disse que estávamos no km 28 (o meu relogio marcava 27.9, perfeito) e que o próximo estaria a 7 ou 8km (na verdade estava a 12km, mas a culpa é minha que não estudei o guia de participante).

Lagoa Azul - foto roubado ao blog Quarenta e Dois, que roubou a foto do Google.
Cheguei aos 28km com cerca de 3 horas e meia, confiante e com boas sensações. Pelo percurso do ano passado seguir-se-ia uma subida técnica mas curta, seguida de alguns estradões bons para correr que desembocariam no Trilho das Pontes, uma pista de Downhill feita em sentido contrário que nos levaria até ao topo, na Anta de Andrenunes. Foi uma secção que o ano passado não me custou nada de especial a fazer, o que me dava alguma confiança. Mas foi precisamente a partir daqui que a prova mudou completamente de cara.

Perfil 2015
Perfil 2014
Como é visível nesta comparação, percebe-se que a primeira metade da prova é sensivelmente igual, assim como os últimos 12km. Mas é ali no meio, entre os 28 e os 40km, que a coisa muda completamente de cara. A subida que nos levou até à Anta o ano passado transformou-se em 3 subidas. Ou seja, os estradões tranquilos que nos levariam até uma longa subida e descida fácil até à Azoia transformaram-se num parte pernas intenso quase sempre feito em pistas de downhill do BTT, ou para cima ou para baixo. 

Foi um segmento de 12km muito complicado, em terreno sempre com grandes inclinações e por vezes muito técnico. Subir pistas de Downhill é super difícil, mas descer também não é nada fácil. O calor apertava e o litro e meio de água com que tinha abastecido na Lagoa estava rapidamente a esgotar. Parecia que tínhamos entrado numa prova completamente diferente. Deixei de ver sorrisos nas pessoas para serem substituídos por esgares de sofrimento. A meio de uma subida inclinada passa um colega em sentido contrário. Tinha-se sentido mal, vomitou, e agora descia até à estrada. Incrível como a prova mudou completamente de cara, e eu estava a sentir isso não só no espírito mas principalmente nas pernas e na região lombar (culpa minha, desde Portalegre que não faço exercícios de reforço desta zona). 

A estucada final foi uma subida que já tinha ouvido falar várias vezes nas Crónicas do Sr. Ribeiro, do Luís Sommer. A subida ao Convento da Peninha.

Peninha. Uma foto que tirei com o telemóvel.
Mentira, é do Google :P
Ao contrário das outras todas que fizemos, esta subida era num estradão completamente exposto ao sol. Olhava para cima e via não só o Convento mas colegas a arrastarem-se umas centenas de metros à frente. No céu voava um omnipresente helicóptero, que em vez de andar a filmar o Tour preferiu passar a tarde toda a sobrevoar a Serra de Sintra. Foi quando dei por mim a lançar impropérios ao helicóptero que percebi que não estava a ter um bom dia!

A meio da subida ainda tivemos direito a um daqueles quadros que nos fazem lembrar exactamente porque é que aqui andamos. 


Esta era a vista a que tínhamos acesso durante a subida, mas em vez do mar víamos um manto de nuvens brancas, muito denso, a baixa altitude. Sabem quando vão num avião, passam as nuvens, aparece o sol e lá em baixo só vêm um manto branco? Era exactamente assim. Em cima um céu muito limpo, em baixo um manto branco que nem nos deixava ver o chão. Incrível. Foi nesta altura que tirei pela primeira vez a Go Pro do bolso da mochila para tirar uma fotografia, o momento sem dúvida que merecia. Infelizmente o cartão teima em não se meter sozinho dentro da máquina, por isso, mais uma vez, levei a Go Pro a passear uns quilómetros.

O segundo abastecimento de sólidos estava aos 40km, na Peninha. Já tinha esgotado a água há pelo menos meia hora e estava com bastante fome. Cheguei lá com 6 horas. Lembro-me que o ano passado comecei a descer a primeira arriba com 5 horas e meia, e ontem ainda me faltavam alguns quilómetros até chegar à Azoia... Bem o melhor é não pensar muito nisso.

A descida começou num trilho espectacular, muito bom para correr, e desembocou em estradões que nos levaram até à Azoia e as malvadas arribas.


As arribas são a imagem de marca do Monte da Lua. Toda a gente falava delas durante o percurso, toda a gente já ouviu falar delas mesmo que não tenha feito esta corrida. São quatro depressões. Quatro subidas e quatro descidas muito trabalhosas, muito técnicas, estupidamente inclinadas. Um carrossel do horror que quebra o espírito de qualquer um. As descidas são muito difíceis, a única preocupação é não cair por ali abaixo, as subidas são feitas pelas rochas, sempre inconstantes. Depois há a parte psicológica, no inicio da descida se olharmos para a frente vemos o final da subida e sabemos o que nos espera!

Felizmente, depois das provas que tenho feito nos últimos meses este ano não custou assim tanto. Na verdade não custou nada. A certa altura até comecei a saltitar de rocha em rocha! Foi uma marav.... 

LOL! ok, esqueçam, isto é tudo mentira. FOI UM HORROR!!! Ainda foi pior que o ano passado! Tinhas as pernas muito mais massacradas e com as cãibras a ameaçarem a cada passo. Parei uma data de vezes nas subidas para recuperar o fôlego. Mas imediatamente perdia-o quando reparava no sitio onde estava. São 5km que têm tanto de duro como de espectacular e, se me perguntarem a mim, valem a inscrição no Ultra Trail Monte da Lua!

Foi quando estava a chegar ao fim da quarta e ultima subida que me lembrei do prato que nos esperava de seguida. A subida em areia da Praia da Adraga.


Se já vinha moribundo, esta subidazita na areia deu cabo do resto. Foi uma miséria!

Os 2 ou 3km que se seguiram até chegarmos à Praia Grande deixaram-me a mesma impressão que o ano passado. Não lhes achei grande piada. Não tem nada de desafiante ou interessante. São chatos, muitas vezes na areia, no meio de vegetação densa. Enfim, suponho que é um mal necessário, a meta estava ao virar da esquina.

Antes de chegarmos ainda tivemos direito a um bónus. Este ano, em vez de corrermos na estrada ao lado da Praia Grande, descemos uma grande escadaria que nos levou à orla e foi lá, na areia húmida no meio dos banhistas, que corremos os cerca de 500 metros da praia. 


Ah e tal, correr à beira mar é giro! É giro a porra! Correr 500 metros na areia, quando já vamos com 50km nas pernas, não é lá muito giro! Ainda por cima no meio de uma data de gente jogar às raquetes e à bola na praia. Claro que vamos fazer os 500 metros sempre a correr, há que manter alguma dignidade! Ui, que me custou tanto!

Saímos da praia por uma escadaria, corremos mais uns 500 metros e estávamos de volta à Praia das Maçãs finalmente!

O levantar de braços não é de alegria. Foi a reacção de pânico quando percebi que tinha que saltar por cima daquela corda.
Como sempre, na chegada estavam a Sara e a Mel, que me receberam após 52km, 2500D+ e 8h27 depois, o que me valeu um 50º posto. Demorei mais uma hora que o ano passado! Fruto das alterações do percurso, principalmente, mas também me sinto muito longe da forma que tinha quando fiz o MIUT e que se prolongou até ao UTSM. Foram 20km finais muito sofridos, sem grande prazer em lá andar. Acabei completamente de rastos e quase não conseguia chegar ao balde de melancia que ataquei furiosamente durante um quarto de hora no abastecimento final. Contas por alto comi quilo e meio de melancia! Hoje ainda me sinto bastante desmoralizado e com sérias dúvidas quanto ao planeamento para o resto do ano. Ou alguma coisa muda durante o Verão ou os 112km do UTAX vão ter que ficar para 2016 :\

Quanto à prova, e respondendo à pergunta do capítulo inicial, é verdade que este ano se esticou um bocado a corda quanto à dificuldade, fazendo pender a balança de uma corrida anteriormente perfeitamente equilibrada. Mas, na minha opinião, não ficou nada a perder! A essência do Monte da Lua está toda lá. Uma prova muito completa, desafiante, variada, com todo o tipo de terreno e paisagens. Um bocado mais difícil, é verdade, mas longe de ser uma prova de dificuldade extrema. As marcações, exceptuando aqueles quilómetros iniciais (mais uma vez, tenho quase a certeza que foram actos de vandalismo e maldade), estava impecável. Quanto aos abastecimentos apenas acho que entre os 28 e 40km deveria haver mais um de líquidos, já que são 12km muito duros e com a temperatura que estava aposto que a grande maioria ficou sem água, tal como eu.  Provavelmente voltarei para o ano e com toda a certeza aconselharei esta prova como uma primeira incursão na distancia ultra!

Ah, no fim não há balneários para tomar banho. Mas quem é que se lembra disso quando se está com as pernas de molho nas águas geladas da Praia das Maçãs? :)

segunda-feira, 22 de junho de 2015

II Louzan Trail (52km) 2015 - Desilusão.

Custou-me escrever aquela palavra no titulo deste post. Custou-me porque me apercebi da dedicação e do muito trabalho realizado pelo Montanha Clube Trail Running, e vi sinceridade nos olhos dos voluntários que ao longo do caminho me confessavam, envergonhados, que a coisa não estava a correr bem. Custou-me por ter ouvido já no fim da boca do Luís Mota, uma das pessoas que mais gosto e admiro no desporto, um pedido de desculpas pelo que correu mal. Por isso tudo e por ter expectativas tão altas custa-me dizer que foi uma desilusão, mas a verdade é que foi. Não só pelo percurso que não foi totalmente do meu agrado (uma opinião pessoal e logo discutível, claro), mas pelas falhas óbvias de organização. No fim do dia só houve algo maior que a desilusão: a satisfação por ter conseguido chegar ao fim de uma das provas mais duras em que já participei.


O meu Louzantrail começou logo na sexta feira e os planos não podiam ser melhores: um fim de semana num dos meus sítios favoritos, Gondramaz, com a família e amigos. Ao todo éramos 9, incluindo dois amigos que iriam correr os 25km (lembram-se do Francisco?). Bom tempo, corrida, família, amigos, montanha...ah, vida boa! :)

Foto de família em Gondramaz
Os dorsais foram levantados na véspera, o que permitiu uma saída de Gondramaz bem descansada meia hora antes da partida da prova maior, numa altura em que o termómetro do carro marcava 22ºC. Nada que não estivéssemos à espera, a previsão era de temperaturas a rondar os 40ºC. Porque é que os meteorologistas só se enganam quando não convém? :\

Chegados ao centro nevrálgico da corrida, o Parque Carlos Reis na Lousã, ainda tive tempo de cumprimentar várias caras conhecidas antes da partida. Essa foi às 8:30 em ponto, numa altura em que já estavam os cerca de 160 atletas prontos para enfrentar os anunciados 45km com uns abismais 3500D+.

Primeiros metros. Aqui ainda era fácil.
Depois de percorridos cerca de 3km dentro da cidade entrámos finalmente na Serra por trilhos clássicos da Lousã, que já conhecia de outras aventuras. Apesar de ainda os reconhecer, a sensação de deslumbramento quando se penetra naqueles vales fundos ladeados por monstros ainda se mantém. A Serra da Lousã é brutal, e até ver o meu sitio preferido para correr. Uma espécie de parque de diversões da corrida, onde tudo é possível. Por enquanto corríamos numa face da Serra mais protegida do sol. A vegetação densa e o rio que atravessávamos de um lado para o outro tornavam o ar fresco e agradável, perfeito! O que não foi perfeito foi um companheiro que com 6km de prova achou que ainda ia a tempo de apanhar o Nuno Silva no 1º lugar, e então desatou a empurrar pessoal nestas passagens pelo rio de forma a ganhar preciosas posições. O resultado foi um colega empurrado que mergulhou na água fria e que se podia ter aleijado. Os óculos escuros do artista ficaram para trás esquecidos. O homem ia tão desembestado que nem nos ouviu a chamá-lo para devolver os óculos que eu apanhei e deixei no abastecimento mais próximo. Espero que não tenha tido problemas com os mosquitos que se esborracharam nos olhos devido à alta velocidade.

De nenúfar em nenúfar
Passado o fantástico Castelo da Lousã, continuei sempre em boa companhia pelos espectaculares trilhos que nos levariam até à aldeia do Talasnal. Num ritmo confortável e por trilhos muito bons para correr, ora subíamos (mais), ora descíamos (menos) ora abrandávamos para apreciar por momentos o sítio de sonho onde corríamos.

O espectacular Castelo da Lousã, tirado da net.
O Talasnal chegou depois de um subida bem empinada e um lance de escadas comprido, que já tinha feito a descer noutras aventuras  e que me deixou a escorrer água, completamente ensopado em suor. O abastecimento estava montado numa praça central da aldeia e ao pé estava um grupo de tocadores com um acordeão, um cavaquinho e mais uns instrumentos a animar o pessoal. Bananas, gomas, amendoins, tomate e batatas fritas. Fraco, mas é o primeiro, compreensível.  Comi uma banana com sal e emborquei 4 ou 5 copos de água. Antes de me ir embora fiz as habituais perguntas: a que km estamos, a que distancia está o próximo? "hmm ... err.... é o quilómetro 5 e tal, o próximo é +/- a 5 ou 6km". Olho para o relógio que marca 9km e olho para o rapaz meio atrapalhado. Confiro no dorsal, que tem uma representação do perfil altimétrico, que este abastecimento deveria estar aos 5.5km. Estávamos com 9km de prova e já com um erro de 3.5km. Não gostei, mas engoli.

Seguiu-se uma das subidas mais difíceis até então, cerca de 500D+ em 3km, até à primeira vez que tocaríamos a cota dos 1000m. Mais uma vez num trilho que já fiz a descer, bem embrenhado no meio do bosque num zigue zague furioso por entre as árvores. Uma daquelas subidas que dá prazer! Foi duro, muito duro, a fazer lembrar uma amiga que conheci na Madeira, mas igualmente divertida. Deixou marcas, mas soube muito bem chegar lá acima, sair da floresta e ter aquela sensação de missão cumprida.


Segundo abastecimento, 14.5km, duas horas e meia. Cheguei lá com fome e desgastado da subida, mas só tinham água e isotónico para me oferecer, assim aceitei. Mais uma vez não me souberam responder logo a que quilómetro deveríamos estar, mas chamaram outro membro da organização que confirmou o mesmo erro de 3.5km. Conformei-me com esta diferença, nem protestei (as pessoas que lá estavam não tinham culpa nenhuma). Incomodava-me mais a fome que tinha e fiquei um pouco receoso com a resposta "penso que no próximo há" quando perguntei quando haveria comida...

Seguiu-se a brutal descida até à aldeia de Candal. Brutal não tanto pela dureza, mas pela paisagem de postal que a Serra nos apresentava. Começou com um estradão muito inclinado e coberto de pedras soltas para depois entrar por trilhos e estradões mais suaves, que permitiam não ir tão concentrado no caminho e apreciar a paisagem. Afundávamo-nos num vale muito fechado, rodeado por monstros, e lá em baixo entalado entre as montanhas estava Candal com as suas casas de xisto.

Candal, tirado da net.
Cheguei ao abastecimento de Candal com quase 3 horas de prova e cheio de fome. Fui directo para a mesa da comida mas a perspectiva não era muito animadora.. Ao oferecido no 1º abastecimento só se juntava marmelada e um bolo seco que se empapava na boca à primeira trincadela. O desvio era agora de 4km em relação ao previsto, estávamos no quilómetro 18 e comia a segunda banana com sal do dia. Assim que saí do abastecimento fiz algo que cada vez faço menos, comi um gel e empurrei com água. Não gosto da sensação que dá, mas correr com fome ainda é pior.

A chegar ao Candal.
Eram 11 e meia e o calor já apertava, e muito. Comecei a parar em todas as fontes e ribeiros para molhar a cabeça e braços e assim foi até voltarmos à cota dos 300 e poucos metros por uma descida muito técnica após o Candal. Lá em baixo, no fresquinho, corremos um quilómetro na famosa levada, ponto de passagem obrigatório em todas as provas na Lousã. Infelizmente estava em obras e não tinha a água a passar, mas é sempre muito agradável correr no fundo do vale. Terminada a diversão, íamos começar a segunda grande subida do Louzan. que nos faria subir cerca de 600 metros em 5km, de volta aos 1000 metros de altitude.

Depois da levada iniciámos a subida por um troço onde passámos por 3 ou 4 escadotes (?) que desembocou num dos únicos segmentos em alcatrão. Foi cerca de 1km até voltarmos a entrar nos trilhos. À entrada deste novo trilho estavam vários bombeiros e um sinal de perigo, nunca é bom prenuncio :) Foi então que deixei de participar numa prova de trail e comecei um segmento de alpinismo. O local era uma cascata, que agora estava quase seca, por onde tínhamos literalmente que escalar. Várias vezes lancei os bastões para o patamar de cima e escalava as paredes como se fossem muros. Por esta altura apanhei um corredor veteraníssimo do nosso pelotão, que todos conhecemos, e que dizia raios e coriscos da organização, que aquilo era um exagero desnecessário e que se tinha inscrito num trail e não numa prova de aventura. Imagino o que terá dito uns quilómetros à frente, na subida ao Trevim...

A subida continuou durante muito tempo com a vegetação a ficar cada vez menos densa. Perto dos 1000 metros de altitude deixou mesmo de existir e agora escalávamos por estradões áridos completamente expostos ao sol. Apesar de ser a 4ª prova que faço na Lousã, nunca lá tinha corrido com céu limpo. É impressionante contemplar aquela paisagem e quase compensou o escaldão que apanhei no pescoço!

Estávamos novamente nos 1000m de altitude e lá ao fundo já se viam as antenas do Trevim, por isso psicologicamente foi duro quando tivemos que descer vertiginosamente outra vez até aos 600m, local onde estava o 3º abastecimento de sólidos, aos 27km (supostos 21km) na aldeia de Cerdeira.

Cerdeira
Este abastecimento foi em conjunto com a prova de 25km por isso estava cheio de gente. Foi bom porque encontrei o João, que estava comigo em Gondramaz, mas nunca me sinto confortável em abastecimentos muito cheios. A barraca da Super Bock fazia sucesso, mas durante a prova dispenso, por isso virei-me para a mesa da comida que estava cheio de fome. Bananas, gomas, tomate, amendoins..... Procurei por algo mais substancial como uma bifana ou sopa, mas tive que me contentar com mais uma banana com sal. Sabia que de seguida iria enfrentar a subida mais difícil da prova e não gostei nada de sair do abastecimento com fome. Meti mais um gel que disfarçou o desconforto e pus-me a caminho. 

O petisco seguinte era a conquista de Trevim, no ponto mais alto da Lousã aos 1160 metros. Era a minha quarta subida ao Trevim, mas foi de longe a mais difícil de todas. Refresquei-me numa fonte antes de enfrentar os cerca de 700D+ em menos de 3km.
Trevim
O sol estava a pique e forte como nunca. As temperaturas rondavam os 40ºC e o ar era muito seco, partimos da cota 600m, por isso a vegetação não era muita. Sabia que ia ser duro, mas nunca pensei que fosse tanto. Metade da subida foi por uma cascata seca, completamente coberta por pedras soltas e grandes, utilizei novamente a táctica de atirar os bastões lá para cima para conseguir escalar. De vez em quando atrás de mim rolavam dezenas de pedras grandes que eu receava atingissem alguém lá atrás. Pouco depois fui que quase acompanhei as pedras e fiquei de costas agarrado a um ramo seco. Uma escalada quase vertical, perigosa, que quando saiu da cascata continuou numa face completamente exposta da Serra. Não havia trilho, as marcações estavam apenas espalhadas na encosta, a subida era quase vertical com uma inclinação brutal. Confesso que não gostei desta subida. Não por ser dura, não é preciso pensar muito para me lembrar de subidas mais longas e duras que já fiz e gostei, simplesmente achei aquilo absurdo e desnecessário. Um exagero. Podem chamar-me menino à vontade, não estou aqui para ficar bem na fotografia, para mim a prova não tem que ser extremamente dura para ter qualidade e aquela subida, volto a frisar: na minha opinião, passou um pouco dos limites.

Demorei 24 minutos a cumprir o ultimo quilómetro da subida e a entrar no recinto das antenas do Trevim com 30km. Lá em cima vi algumas pessoas a atirarem a toalha ao chão e o caso não era para menos. Apressei-me para ir ao abastecimento que, mais uma vez, tinha apenas liquido. Desta vez a minha primeira pergunta não foi "a que quilómetro estamos" mas sim "quando é que há comida?". É no próximo, responderam eles. 

Descíamos agora na outra face da Serra, muito mais árida que a anterior. A subida começou por um trilho aos ésses entre árvores altas, muito divertido, mas logo desembocou num estradão ligeiramente a descer completamente exposto ao sol que se prolongou por 2 ou 3km. Os primeiros 30km tiveram 2400D+, uma enormidade, mas felizmente ainda tinha pernas para conseguir fazer o estradão a trote. Quando o corpo já se estava a habituar a esta nova solicitação, tau, toma lá uma subida de cento e tal metros verticais por um estradão! Subimos, subimos, chegámos às eólicas novamente, andámos 200 metros em plano e descemos por um trilho paralelo à subida, onde até dava para ver os companheiros que ainda subiam. Estes carroceis justificam-se quando a orografia do terreno não dá para mais, mas na Lousã...? 

Descíamos agora no que penso ser um trilho para o BTT, já que corríamos dentro de um carreiro fundo e muito estreito, com uns 20cm de largura, que subia e descia no meio dos pinheiros. Era difícil correr ali e aquele sobe e desce já me estava a parece novamente desnecessário. Há muito tempo que já não passávamos por nenhuma fonte ou ribeiro, dos nossos passos resultava uma poeira fina incomodativa que aumentava a sensação de secura. 

Cheguei ao abastecimento dos 30km com 37km de prova. Era o último abastecimento de sólidos por isso andava a sonhar há algum tempo com comida a sério que de certo estaria ali. Mas não. Bananas, gomas, amendoins, batatas fritas... Seis horas e meia de prova, fui para a 4ª banana com sal do dia. As meninas do abastecimento diziam bem dispostas que as gomas estavam a ser um sucesso. Quando repararam no olhar de quem lá estava quando disseram aquilo, acrescentaram "um sucesso, mas entre nós! eheheh" :\

A sério..?
Mais um gel no bucho e fiz-me ao caminho.

Continuámos por uma zona da Lousã que não conhecia, mas também não fiquei com saudades. Trilhos chatos, muito duros, um sobe e desce muito acentuado que me estava a dar cabo do juízo. A meio do caminho para o abastecimento oiço uma voz lá de cima a perguntar se quero água. Olho para o relógio e, fazendo conta ao desvio, os quilómetros batiam certo com o abastecimento dos 35. Digo que sim, e logo três rapazes descem o monte a correr com garrafões de água nas mãos! Afinal não era um abastecimento, eram 3 pessoas da organização que conscientes das dificuldades que estaríamos a passar andavam a oferecer água a quem encontravam pelo caminho! Espectacular e, lá está, por estas e por outras custa-me dizer que foi uma desilusão. 

Cheguei ao abastecimento do Terreira das Bruxas com 44km. Já estava confuso e não sabia em que abastecimento era suposto estarmos, se dos 35 ou 40km, por isso perguntei a quem lá estava. Ninguém respondeu e reparei que olharam entre eles de uma maneira um bocado envergonhada, até que um engraçado me pergunta "em que quilómetro estás?" 44, respondi eu, "então é isso!"....

Terreiro das Bruxas
Este abastecimento, apesar de estar anunciado apenas de líquidos, tinha as habituais bananas e laranjas. Só não reparei se havia gomas. No entanto nem consegui comer nada, o organismo já estava a desligar e cada vez estava mais frustrado com os agora 9km de diferença do previsto. Despachei-me dali e comecei a descer para os 10km finais de prova.

Antes de começar a ultima grande descida passámos por uma cabana de escuteiros onde estavam dois voluntários, miúdos novos. Indicaram-me o caminho e logo de seguida um deles, meio enfadado, pergunta-me "ainda faltam muitos?" ahaha

A julgar pelo perfil que nos entregaram a descida seria continua e prolongar-se-ia até ao próximo abastecimento, a 5km da meta. Fiz-me a ela com ânimo, a meta já estava próxima e ainda por cima estávamos a voltar ao lado bom da Lousã. Foi uma boa descida, muito variada, com troços técnicos, passagens por aldeias do xisto e subidas íngremes...! Pois, afinal não era bem sempre a descer até ao abastecimento, aliás, a descida ainda teve lá pelo meio uns 200D+! 

Foi na subida final, por um estradão que percorremos em sentido inverso no início, que rebentei. Arrastei-me sem dignidade por aqueles metros que nos levaram de volta ao Castelo e parei várias vezes para recuperar o fôlego à sombra. Era lá no Castelo, aos 49km (supostos 40) que estava o último abastecimento. Lá chegado sentei-me no chão e estiquei as pernas. Bebi a água quente que me davam e ouvi as queixas e frustrações de quem lá passava. As pessoas estavam indignadas, e com razão, compreendo que a certa altura tenham que descarregar. Mas eu não gosto de o fazer junto dos voluntários que estão nos abastecimento que não têm culpa nenhuma. Um dos membros da organização presentes lamenta que tenham sido feitos tantos esforços para proporcionar uma prova de topo e que depois as coisas tenham corrido tão mal, ao mesmo tempo que nos dava ânimo para os 6km até ao final. 

Os últimos quilómetros começaram por ser feitos ao longo de um riacho. Cruzámo-lo vezes sem conta e nesta altura já nem procurava rochas secas, muito pelo contrário. fazia mesmo questão de enfiar as pernas dentro de água, de preferência até ao joelho. 

Cheguei ao fim 10 horas certas depois de começar, completamente exausto e rebentado. Os últimos 6km, que afinal foram 4, contribuíram para os 52km de prova com 3000D+. Agora vem-me à cabeça os 50km dos Abutres, que com todos os condicionalismos ainda assim foram cumpridos em uma hora a menos! Fui 39º classificado, mas entre os cerca de 160 que iniciaram a prova somente 87 terminaram, quase metade!



Foi uma prova dura. Muito dura. Quase como se o objectivo principal da organização fosse proporcionar uma experiência extrema aos participantes, e essa foi uma das razões da minha desilusão. Quanto à minha apreciação do percurso é meramente uma opinião pessoal, o que não posso concordar é que, como já li por aí, digam que a organização foi "imaculada" e os abastecimentos "top". Até as marcações deixaram algo a desejar, com uma tendência para poupar fita. As falhas são facilmente resolúveis e aposto que para o ano não vão existir, o tipo de corrida é que, a manter-se, não me vai voltar a cativar. Enfim, é a minha opinião e pelo que tenho lido no facebook contrária à maioria dos comentários. O que vale é que ninguém me leva a sério!

segunda-feira, 15 de junho de 2015

II Grande Trail das Lavadeiras (42km)

Estava muito ansioso por participar nesta corrida. Já há uns meses que tenho falado com o João Marques, um membro da organização, que me andava a contar como estava a correr a preparação. Apercebi-me do trabalho duro que estavam a ter e associei muitas vezes ao nosso Trail de Almeirim. A proposta era uma prova de montanha com 42km, na região do Baixo Mondego. À primeira vista parece uma parvoíce fazer um trail numa zona com aquele relevo. Quase tão parvo como fazer um na Lezíria Ribatejana!


Levantei o dorsal no dia anterior e fui com a família passar a noite a Montemor o Velho, a pouco mais de 7km de Granja do Ulmeiro, base do GTL. Como a partida da prova era às 8:30 achei que, ficando lá, sempre dava para dormir mais umas horas. O raciocínio era bom e válido, mas a minha rica filha achou que 4 da manhã era uma hora perfeitamente aceitável para acordar e a estratégia foi por água abaixo. 

Pequeno almoço farto tomado no hotel (quem é que resiste a buffets de pequeno almoço em hotéis?), e às 8 estava na zona de partida. Por lá andavam já os outros 36 participantes na prova longa, aos quais se juntaram cerca de 400 que partiriam mais tarde para o trail curto (21km) e caminhada. No dia anterior, em conversa com a Sara, ao aperceber-me que eram tão poucos disse: "epah, é desta que consigo um top10!!", ao que a Sara respondeu com um pfff e revirar de olhos. Mas eu estava decidido: ia fazer um brilharete nas Lavadeiras!!


Aquecimento feito (mais uma vez, parto do principio que estar especado a olhar para o relógio de 30 em 30 segundos conta como aquecimento), posicionei-me estratégicamente na recta da meta, pus a minha game face, estudei a concorrência e preparei-me para a luta. A partida foi dada em contagem decrescente e rapidamente pus um ritmo alucinante para me juntar ao grupo da frente, éramos 7, estava dentro do objectivo. Seguiu-se um trabalho psicológico brutal. Estudei cada membro do grupo ao ponto de prever ataques deste ou do outro. Respondi a todos e andei no limite das minhas capacidades. A certa altura aproximei-me da primeira posição, mas logo de seguida respondiam ao meu ataque. Foram momentos muito intensos, uma brutalidade! Aguentei-me no grupo da frente até ao limite, mas tive que ceder quando não consegui mais. Foi uma luta épica que durou... ora deixa cá fazer as contas... 200 metros! Mas, hey, foram 200 metros do caraças!

Devaneios à parte, mudei o chip para o habitual e preparei-me para encarar os restantes 42km desta maratona de montanha. A organização apontava para 1400D+ (e bateu certinho) o que, numa prova tão longa, não assusta muito. Mentalizei-me que seria relativamente rolante e apontei para ritmos entre os 6 e 6:30 min/km .

A entrada nos trilhos aconteceu ainda nem estávamos com 500 metros e os primeiros 12km corresponderam ao que imaginei: muitos single tracks corríveis, num constante sobe e desce, curvas e contra curvas. Ou seja, diversão garantida!


sobidesce sobidesce sobidesce
Chegámos aos 12km depois de percorrer um estradão (um dos muito poucos onde passámos) de 2km, ao longo de uma plantação de arroz. Lá estava localizado o 3º (!!) abastecimento. Nunca tinha estado numa prova com tantos abastecimentos/km. Com excepção de um que estava a 8km, todos os outros estavam separados por 4 ou menos km. No total foram 10 em 42km! Muito completo s, em quase todos haviam bombeiros e em todos havia pessoal muito simpático e prestável. Ah, e muito importante, estavam exactamente no quilómetro anunciado, do 1º ao último.

O vassoura Pedro Santos num abastecimento
Saí deste abastecimento com uma média perto de 5min/km e boas sensações. Estava confiante para o resto da prova e achei que ia acabar mais cedo que o previsto. Mas foi então que as Lavadeiras me deram a volta e a prova mudou completamente de cara.

Os quilómetros seguintes foram incríveis e um verdadeiro hino ao trail. O Baixo Mondego não tem muita altimetria, não tem paisagens de cortar a respiração nem subidas que se prolongam quilómetros. Mas o Baixo Mondego tem um grupo de pessoas trabalhadoras que meteram na cabeça que iam proporcionar uma grande experiência a quem decidiu confiar neles. Meteram mãos à obra e abriram literalmente quilómetros de trilhos pelos sítios mais incríveis. Duma zona completamente inacessível, com mato cerrado, eles viam um trilho super técnico de muito difícil progressão. De ravinas viam uma descida alucinante só ultrapassável com cordas. De uma parede com poucos metros eles viam o sitio ideal para colocar degraus de madeira. Passei quilómetros dobrado para não bater na vegetação que nos cobria. Usei as mãos para me agarrar em troncos e pedras para subir ou para descer sem cair. Saltei por cima de dezenas de troncos. Andei na lama (pouca), em terreno muito difícil e em terreno que mais parecia um colchão. Trilhos que se prolongavam muito tempo e quase dispensavam marcações, que estava irrepreensível em todo o percurso. Andei entre pinhais, eucaliptais, campos de cultivo... Nunca tive aquela impressão de estar sempre no mesmo sitio. Entrei em dezenas de trilhos devidamente identificados com uma placa e ligados por escassos metros de estradão. Incrível o trabalho que este pessoal ali teve!

Rolante?
Foram muitos quilómetros assim, sempre intercalados com secções em que dava para correr, sempre em trilhos. O corpo estava a ressentir-se muito desta tareia e desde o inicio que corria completamente encharcado em suor por causa da elevadíssima humidade e temperaturas a rondar os 20ºC. Por volta dos 37km, e ainda com aquela sensação de não saber bem o que me tinha passado por cima, comecei a ter cãibras. Contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que tive cãibras em toda a minha vida, mas naquela subida os músculos das pernas começaram a ceder, um por um. Daí até ao fim foi maioritariamente a descer, mas sempre por trilhos técnicos que solicitavam todo o tipo de esforços ao corpo. Era um suplicio cada vez que tinha que transpor algum obstáculo mais técnico, com os músculos a ameaçar saltar.

3000m obstáculos
Os trilhos mantiveram-se quase quase até ao fim, desembocando na recta da meta que não tinha mais que 500 metros. Cheguei lá MUITO longe do tempo que imaginava quando passei aos 12km. Cinco horas e meia (média de 8min/km!) que me valeram o 15º posto, como sempre a meio da tabela.

Top 10? AHAHAH!! Não, a sério? TOP 10?? LOL
Na meta estavam como sempre a Sara e a Mel que me receberam com um abraço. Desta vez a diferença é que também me tiveram que ajudar a andar, porque os músculos das pernas acharam que 42km tinha sido o suficiente e decidiram que não faria o percurso carro-chuveiro sem me darem um cãibra geral! C'um caraças, até nos pés tive cãibras!

Estiiiiica!
Terminámos uma excelente manhã com o saboroso almoço servido pela organização, entre conversas com algumas caras conhecidas, antes de voltarmos a Almeirim.

Não quero acabar esta crónica sem bater num ponto. É inadmissível que uma prova com a excelência desta tenha tido apenas 37 atletas na partida da distancia rainha. Todos os que estiverem a ler isto, façam um favor a vocês próprios e não falhem a terceira edição. É uma prova brutal para se iniciarem no trail. Não estou a falar daquele "trail do estradão", mas trail a sério. Feio, sujo e mau. Bem localizado, perto de Lisboa, Coimbra e Porto, com uma organização que esteve perfeita em todos os aspectos. Os meus parabéns ao João e aos restantes Lavadeiros. Foi perceptível o vosso trabalho árduo e dedicação. Da minha parte só vão ouvir elogios. Bem, elogios e eventualmente também me vão ouvir a gemer em sofrimento, é que levei uma tareia brutal!! Obrigado e até para o ano!