As minhas corridas na estrada

domingo, 20 de março de 2016

ESTOU VIVO!

Ora deixem só aqui desviar estas 6 fraldas sujas do mais novo, arrumar os 263 bonecos da mais velha, acalmar o choro duplo, tirar o som ao telemóvel do trabalho, fechar o mail, só mais um esforçozinho, espera, está quase, é agora..... CONSEGUI!!! Saí da toca, estou VIVO!!


Antes de mais, as boas noticias: estou finalmente 100% livre de lesões! 

Agora as más: falta 1 (UM) mês para o MIUT! 


Pronto, na verdade não é caso para tanto drama... Depois de 4 meses a batalhar com as consequências de ter abusado no ano de 2015, os últimos dois meses a treinar sem espinhas souberam incrivelmente bem. Sei que 3 meses de treino a sério para uma brutalidade de prova como o MIUT é muito pouco, mas também estou consciente que saber o que me espera é uma grande vantagem. 

A outra grande vantagem? Essa tem um nome: Sara. Num 2016 de máxima intensidade, com mudanças muito grandes na minha vida, se não fosse ela a segurar as pontas era impossível estar em condições para o MIUT. E a verdade é que estou bem! Tenho treinado muito, mas principalmente tenho treinado bem. Para isso contribuiu muito a descoberta de um novo parque de recreios a menos de 1 hora de casa, a Serra de Montejunto.

A vista no fim do treino de ontem
Poser...
Um pico a 670 metros, subidas com 3km e quase 500+ e uma variedade grande de trilhos muito técnicos. Um verdadeiro paraíso para treinar onde já apanhei de tudo: sol, chuva, frio, granizo do tamanho de berlindes e até um nevão!


Foram já vários os treinos com muito desnível e a consequência disso são algumas semanas a roçar os 5000d+. Sim, ando um bocado obcecado com isto do desnível positivo, mas porque me parece um factor determinante no treino para uma prova como o MIUT, com 7200d+ em 115km. Além de treinos com muita subida e descidas o mais longo e técnico que consigo encontrar, tenho-me focado muito em treinos de escadas, rampas e o muito útil Bosu. 

Entretanto ainda consegui encaixar dois treinos brutais na Serra de Sintra, num circuito perfeito, idealizado pelo treinador José Carlos Santos, o Sintra Trail Extreme Remixed. Um percurso com 26km e 1600d+, com 90% de single tracks muito, mas mesmo MUITO divertido! Uma espécie de condensado com tudo o que a corrida de montanha tem de bom e que devia ser obrigatório a toda a gente que faz trail.

No fim até dá direito a crioterapia na Lagoa Azul

Continuo sem nenhum acompanhamento no treino, apesar de ter plena consciência que o treino para uma prova como o UTMB requer mais do que instinto e senso comum... O MIUT vai ser determinante para a continuação ou não desta estratégia. 

Apesar do pouco treino sinto-me mais forte e melhor preparado do que o ano passado, e ainda me faltam duas semanas de carga. No entanto, há uma grande diferença em relação a 2015, apesar do treino ser melhor tenho zero provas este ano, enquanto que no ano passado nesta altura já tinha os 50km de Proença e Abutres e os 117km de Sicó. Estou menos desgastado, é certo, mas o ritmo de prova é completamente diferente e receio que possa vir a ser uma limitação na preparação. Com isso em mente, e porque me sinto bem, decidi ir aos 50km do Piodão dia 2 de Abril. Vai servir como ultimo grande treino, mas com uma grande condição: ao mínimo sinal de lesão paro imediatamente, para não acontecer como em Arga. Escusado será dizer que estou super ansioso que chegue a prova, estou cheio de saudades!


Ok, acabou aquele momento sublime do dia em que as sesta dos miúdos coincidem, de volta ao mundo real. Até ao Piodão!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Crónicas de mudança

Já devem ter reparado que o blog está muito parado ultimamente. Não é que não tenha vontade de escrever, essa continua muito viva, assim como o gosto de ler sobre corrida. Este blog ainda é o meu espaço preferido para escrever, mas os últimos dois anos levaram-no para um caminho inicialmente diferente do que imaginava. Tenho muita vontade de vos relatar as aventuras que vou tendo em provas, mas apenas isso. Tudo o resto parece-me um pouco desadequado para o que o blog se tornou. 

Acontece que em Arga, no ano passado, levei uma grande marretada. Não de ficar com os músculos amassados, mas percebi da pior maneira que sem dúvida alguma abusei nas provas que fiz no primeiro semestre de 2015. Acabei por pagar, e bem, o esforço todo que foi acumulado e não aguentei mais uma caminhada para a quarta prova de 100km de 2015. Cedi. Passei um calvário de lesões mal curadas, dores e dorzinhas, tudo fruto do excesso de carga. 

Com a noticia do UTMB decidi focar os meus esforços apenas em duas grandes provas este ano: MIUT e UTMB. Tudo o resto é dispensável, não vou arriscar um milímetro, principalmente se isso significar não conseguir estar presente em Chamonix. Custa-me muito, porque adoro provas e competir, mas a alternativa é muito, MUITO pior! Estou ainda inscrito no Piodão e Estrela Grande Trail, mas se na altura não me sentir a 100% terá que tomar o mesmo rumo que UTAX, Abutres, Proença, Ericeira, etc etc etc - o caminho do DNS. 

Dito isto, como percebem, neste momento tenho muito poucas provas para vos relatar. No entanto, comecei há umas semanas um desafio que me está a deixar muitissimo entusiasmado. Foi-me proposto pela A20KM TV, um projecto da Associação 20km de Almeirim, escrever uma série de crónicas sobre a minha ida ao UTMB. A ideia é escrever crónicas semanais sobre o trail, o UTMB, o treino, a ultra maratona, etc, mas dirigido a pessoas que, ao contrário de vocês que seguem o Quarenta e Dois, não estão intimamente ligadas à corrida de montanha. Tem sido muito refrescante e dá-me um gozo brutal, estou cheio de ideias e com vontade de escrever todos os dias!

Criei um separador novo aqui no blog (podem consultar o atalho na fotografia ali do lado direito ou na barra lá em cima) com a compilação de todos os artigos que escrevo. Convido-vos ainda a seguirem a minha página de Facebook, onde a actividade é muito mais regular (eu gosto muito do Facebook como ferramenta de comunicação, e não tenho vergonha de o admitir!) e ainda a página do Atletismo Almeirim, onde são publicadas primeiramente as crónicas.

Espero que gostem e que sigam com o mesmo interesse que o Quarenta e Dois vos despertou. Quero no entanto deixar bem claro, o blog não morreu! Só está mais completo :)


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Também odeio 12 coisas no trail

No seguimento do post do TopMáquina sobre as 12 coisas que ele odeia no trail, venho eu próprio destilar algum azedume e acrescentar os meus 12 pontos:

13 - Aquele pessoal que vai o caminho todo a gritar "PAU!", "PEDRA!", "BURACO!!". Pronto, agradeço a preocupação, mas quando vou num trilho qualquer não estou à espera que seja tipo ciclovia. Avisem quando virem alcatrão.

14 - Aquele artista que apanhamos a meio de uma prova e nos diz "aaah, eu hoje venho em modo treino!!"

15 - Enganar-me numa descida e ter que voltar para trás a subir.

16 - No inicio de alguma subida lixada alguém dizer "ui, isto não é nada comparado com o que apanhei no Ultra Trail da Charneca!!". 

17 - Aqueles minutos de horror quando se despe o impermeável num dia frio depois de chover e temos a tshirt toda transpirada.

18 - Aquele pessoal que vai o caminho todo a mandar bocas parvas alto e bom som. Normalmente é uma tendência mais acentuada nos primeiros quilómetros, depois amansam.

19 - Aquele "aaaaaah" condescendente quando confirmamos a alguém que algumas partes dos "x"km da prova são feitos a andar. Depois lá temos que explicar que há subidas que são coiso, e que algumas partes do percurso são não sei o quê...

20 - Atletas a ouvirem musica alta durante uma prova. A probabilidade da musica não prestar para nada é alta e toda a gente sabe os perigos de ficar com uma musica má na cabeça numa prova que pode durar horas. Palavra chave: headphones.

21 - Desculpas pré prova. O vosso interlocutor até pode parecer muito interessado, mas na verdade muito pouca gente quer saber se vos dói a barriga, se dormiram mal, se vêm em modo treino, se vêm só acompanhar um amigo, etc etc etc.

22 - Corta-fogos. No outro dia li um estudo que 1 em cada 10 pessoas já adormeceram a subir um estradão a pique.

23 - Perceber a meio de uma corrida que nos esquecemos de cortar as unhas dos pés e ter plena consciência que vamos acabar a prova a contorcer-nos nas descidas.

24 - Batatas fritas moles nos abastecimentos.

EDIÇÃO (lembrei-me de mais duas)

25 - Engarrafamentos na entrada dos trilhos.

26 - Quando vais a meio de uma prova, já todo desfeito, e ouves alguém dizer "agora é que isto vai começar eh eh eh eh!" (normalmente é só fogo de vista, ainda estão piores que nós).




quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Ultra-Trail du Mont-Blanc

Acho que já todos fizemos aquele exercício de parar um pouco e pensar nas acções e decisões que fizemos ao longo da nossa vida e que nos trouxeram até àquele preciso momento. É engraçado, faz-nos sentir intimidados e pequeninos. Infinitas pequenas variáveis ou acontecimentos marcantes que alteram por completo o rumo das coisas, tudo a fluir até este preciso momento. 

Não consigo sequer imaginar tudo o que me trouxe até às 08:56 de ontem. Estava dentro do carro, à porta do trabalho e com o telemóvel na mão. Lembro-me que desliguei o rádio e olhei para o relógio. Foi um ou dois minutos antes das 9 que fiz refresh no site. Consegui identificá-lo claramente. Um daqueles momentos que sabemos vai mudar TUDO. Fui seleccionado para participar no Ultra-Trail du Mont-Blanc.

Podia dizer-vos que a minha participação no UTMB começou naquele momento, mas é mentira. Começou muito antes, quando comecei a correr. Quando a meia maratona me parecia uma parvoíce que não dava prazer nenhum. Mais tarde foi a Maratona que passou do reino dos super-heróis para o dos comuns mortais. Continuou quando fiz a minha primeira corrida em montanha em 2012, dia em que jurei para nunca mais. Foi ganhando forma quando passei pela primeira vez a barreira dos 42km no ano seguinte. De repente estava nos 80km, depois 100, depois 115 na Madeira, cada vez mais alto, com uma vista mais desafogada do horizonte, limites alargados, mais confiante! Tudo isso levou até àquele típico momento de viragem. Parei, e pensei: "e se....?". 

E se tentasse o UTMB?

Hoje, aqui sentado, sei que a minha vida não vai voltar a ser a mesma depois daquele sorteio.

Fiquem por aí, acho que a viagem vai valer a pena.




terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Lamurias

Aviso à navegação: este post contém doses elevadas de queixume e lamurias, avancem por conta própria e risco.

PORRA PRA ISTO!

Farto, farto, FARTO destas merdas de dores e dorzinhas que não há meio de passarem! Desde Arga, altura em que provavelmente atingi um pico na preparação para o UTAX, que parece que abri a puta da caixa de Pandora. Ora é o gémeo direito, depois o gémeo esquerdo que tinha ciúmes, depois a merda do pé que no trabalho achou boa ideia virar-se ao contrário, bastões de carbono trocados por canadianas de alumínio... Três meses sem jeito nenhum de pára arranca nos treinos, provas canceladas umas atrás das outras, objectivos redefinidos, forma a milhas de distancia, moral a descer, peso a subir... BAAAAH!

Eu sei, o corpo humano não é uma máquina e o esforço a mais eventualmente tem que se pagar. Há 3 anos que não tinha um período de paragem de mais de uma semana, calculo que isto seja uma espécie de karma de corredor. Mas porra, já chega!!

Isto tudo conseguiu eclipsar um ano que até Setembro estava a ser perfeito, com boas provas e principalmente muito e bom treino. Se nos primeiros 9 meses tive uma média de 300km/mês, passei a 170 no ultimo trimestre. Até o somatório final ficou nos 3200km, aquém dos 3400 do ano passado. 

Entretanto têm sido muitas as provas canceladas. Mora, Ericeira, São Silvestre e Vicentino já saltaram, agora são os Abutres que estão no limbo. O que me assusta mais é o primeiro grande objectivo de 2016 a aproximar-se a passos largos, o MIUT. Faltam apenas 4 meses e sei, por experiência própria, que terão que ser 4 meses muito intensos para sobreviver novamente à Madeira. Quanto ao segundo objectivo, se tiver sorte falaremos dele a 13 de Janeiro.

O lado positivo é que parecem haver melhorias ultimamente. Vou arrastar-me para aquela luzinha ao fundo do túnel e rezar para que não seja só um frontal com pouca pilha esquecido no chão. Um revés agora era devastador para a moral e para os objectivos do ano novo que se aproxima.

Vamos lá a isto, então.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

I Meia Maratona de Évora - Correr no estado puro.

Este domingo corri a minha segunda prova de estrada do ano. Foi em Évora, a minha cidade portuguesa preferida. Desde que descobri a montanha têm sido cada vez menos as incursões no alcatrão, mas desenganem-se se acham que é por já não gostar. Foi no alcatrão que descobri a minha paixão pela corrida, naquela Meia Maratona de Lisboa, em 2003, onde levei das maiores marretadas da minha vida. Não, eu tenho corrido poucas provas de estrada porque, pura e simplesmente, tenho medo delas!

Partida brutal na Praça do Giraldo
Passo a explicar: eu não vou para estas provas passear. Não contem comigo para essa coisa do "ir em ritmo de treino". Tenho plena consciência que nunca hei-de ganhar nada, mas raios me partam se não deixo tudo o que tenho na estrada! Há muito poucas coisas que se comparem a irmos no limite, com todas as fibras do copo a pedir para parar ou abrandar, com músculos a arder, garganta com sabor a sangue, passar aquela ultima subida, aguentar naquele fio da navalha mais 100, 200, 3000 metros, dum lado a glória, do outro o inferno de ter de ceder, dentes cerrados, braços desconexos, passadas exageradamente largas, vês a meta, olhas para o relógio, mais um pouco e... vocês sabem o resto!

Até. À ultima. Gota.
A meia de Évora está incluída no circuito Running Wonders. Cinco corridas em locais turísticos, património da humanidade. A ideia de aliar a corrida ao turismo agrada-me bastante, pelo menos antes de começar a correr. Tenho que ser sincero, para mim, ao contrário de numa prova de trilhos onde os sítios onde passamos têm uma importância fulcral, na estrada isto só é importante até àquele momento mágico que é o tiro de partida. A partir daí meto a minha "game face" e só uma coisa importa: chegar ao fim o mais depressa possível. 

O tiro de partida foi dado na Praça do Giraldo. Lá estavam os cerca de 2000 atletas, divididos pela meia, mini (10km) e caminhada. Felizmente, os cinco mil anunciados pela organização não se confirmaram, porque nem a Praça nem os dois quilómetros iniciais dentro da parte histórica comportariam tanta gente. Foram dois quilómetros de uma espécie de trail urbano (seja lá o que isso for) que passou pelos espaços mais emblemáticos da cidade. Aqui reside a única critica que tenho a apontar a uma organização que roçou a perfeição. Preferia que após o inicio a prioridade fosse escoar o pelotão imediatamente para as avenidas e se guardasse a incursão mais urbana para o final. As bandas filarmónicas, as tunas, os músicos de rua, os monumentos e as travessas estreitas acabaram por ser abafados pela urgência de zigue-zaguear até encontrar caminho livre para correr. Esse, encontrei-o antes do terceiro quilómetro, quando entrámos nas variantes largas nas quais andámos 95% do percurso. Aí sim, começava a prova.


A meia de Évora não foi uma corrida fácil, tinha bastantes e longas subidas e este dia teve a agravante de estar uma grande ventania. Sim, estou a falar das subidas numa prova de 21.1km com 200d+! Há quem diga que uma prova de estrada com subidas é bom para o pessoal do trail, mas eu não podia estar menos de acordo. Estamos a falar de coisas completamente diferentes. Partindo do principio que vamos a um ritmo muito próximo do nosso limite em plano, uma pequena rampa pode ser tão assustadora como uma parede de 500d+ nos trilhos. Não há gestão de esforço, não há mãos nos joelhos ou parar a meio para recuperar o fôlego. O objectivo é um e só um: chegar lá acima e prejudicar o menos possível o ritmo médio, nem que para isso se chegue aos 200 bpm.

Aqui não dava para fugir do empedrado.
Apesar do percurso ser praticamente todo fora do centro da cidade, a presença de pessoas a apoiar foi constante, como tenho visto em muito poucas provas! Outra coisa que reparei foi o rigorosíssimo policiamento das ruas, a cidade literalmente fechou para esta corrida e é assim que deve ser. No geral, como disse no inicio, foi uma corrida que em termos organizativos esteve praticamente perfeita, apenas com o reparo que referi. Foi a corrida que Évora há muito merecia e será sem dúvida nenhuma um ponto de retorno anual obrigatório para mim. 

Foto do Sérgio Nuno Pontes
A minha prova foi exactamente o que estava à espera, muito aquém do que sou (e já fui) capaz. No inicio do ano, quando soube desta corrida, pensei que seria uma oportunidade excelente de finalmente fazer uma meia a sério, a rondar 1h25. O plano era após o UTAX dedicar-me 100% a ela, mas a porcaria da lesão estragou tudo. Sabia que estava a valer qualquer coisa à volta de 4:30 min/km e foi para esse ritmo que corri. Acabei com média de 4:24 e 1h34 de prova. Nada de especial, mas acreditem que foi TUDO o que tinha, por isso fiquei muito satisfeito.

Das medalhas mais bonitas que já recebi!
Tinha muitas saudades de correr na estrada. Confesso que me faz confusão o pessoal do trail que diz detestar estrada. Eu adoro correr, ponto. Não acho uma seca correr na estrada, simplesmente porque correr nunca será uma seca! Estas provas populares, para mim, representam a corrida no seu estado mais puro. Não há elementos externos a influenciar, há o teu corpo e a maneira como o preparaste. Ele não te vai entregar nem mais um grama do que lhe deste nas semanas anteriores, mas vai compensar-te o trabalho a 100% e isso para mim é lindo!

domingo, 15 de novembro de 2015

VII Trilhos de Casaínhos - Desilusão completa.

Depois da experiência ultrajante e enfurecedora que foi correr em Casaínhos o ano passado, quando seguia no grupo da frente e me perdi (e com isso perdi também, muito provavelmente, a hipótese de me qualificar para os mundiais de trail) e ainda assim acabei por passar uma excelente manhã, decidi que voltaria este ano. Desta vez ia provar, sem espaço para dúvidas, que aquilo não presta mesmo pra nada!


Infelizmente a coisa começou a correr mal assim que saí de casa com a família. O dia estava limpo e fresco. Hm.. "Com certeza lá em Casaínhos está a chover!". Mas não. Estava bom. 

Assim que chego e saio do carro, quem é que encontro? Aquele gajo que diz que só é maratonista quem faz sub 3 horas? O outro que diz que os ultras são peregrinos de Fátima porque andam nas provas, e que os que correm é porque estão dopados? Não, nada disso. Encontro o Paulo, um leitor do blog que se apresentou simpaticamente, o Ricardo Pebre, o famoso Espanhol (Nuno España), o Sommer e o Gonçalo, com quem tive um dos melhores treinos de sempre.... Enfim, só pessoal impecável! Estava a ficar difícil. Mas tinha a certeza que assim que começasse a prova a coisa ia descambar!


A minha cara de consternação aquando da partida
Lá arrancámos às 10:45 em ponto. O percurso foi muito alterado em relação ao ano passado, por isso corro sempre com a sensação que estou a conhecer os sítios pela primeira vez. E como foi bom conhecer aqueles trilhos abertos recentemente, limpos e rápidos, pela primeira vez! Ainda por cima, só para me irritar ainda mais, as marcações estavam perfeitas! Subimos os 3 primeiros quilómetros e descemos os 4 seguintes por single tracks muito variados. Em várias descidas, inconscientemente, sorria de prazer. Mas logo a seguir lembrava-me que estava ali numa missão!



A grande parede da prova este ano surgiu aos 7.5km. E que boa parede! Subi-a com as mãos nos joelhos e com a adrenalina extra de ir a olhar por cima do ombro à procura de um esquilo anafado que me tinha desafiado a uma prova dentro de uma prova, com a humilhação extrema do vencido ser oficialmente considerado um ovo podre. Subi com sabor a sangue na boca (já que falamos de esquilos..), a escorrer suor e pulsações no limite. Já perto do fim lembrei-me de já ter passado por um abastecimento e que, agora que estava com sede, de certeza que não havia nenhum lá em cima! ...Mas havia. Raios.

Metade da prova estava feita e até agora não tinha nadinha a apontar. Uma desilusão. Mas não perdi a esperança, com certeza a partir dali os trilhos iam ser substituídos por estradões, os voluntários deixariam de ser simpáticos (com alguns inclusivamente a tratarem-me pelo nome, como a Cláudia e o Jorge, vejam lá o desplante!), as marcações dos km deixariam de estar certas ao metro, as descidas passariam a ser chatas e as subidas curtas!

Mas não. Pelo contrário. Ainda ficou melhor! Trilho atrás de trilho, mais uma subida trabalhosa, voluntários em cada esquina, abastecimentos nos sítios certos, descidas técnicas e divertidas... Enfim... 

Praticamente dei a manhã por perdida quando passei a meta e fui recebido pela Sara e a Mel mas também por aplausos e sorrisos de pessoas da organização.

Com cara de poucos amigos na chegada
Saí de casa com o objectivo de confirmar que o facto de no ano passado ter sido das provas que me diverti mais tinha sido só um acaso, mas falhei redondamente. Mais uma vez acabei a prova em Casaínhos satisfeito! Uma desilusão..que me façam isto uma vez ainda vá, agora duas...

Pouco tempo depois chegou o Esquilo que já tresandava a ovo podre, mas que ainda assim se juntou a nós para o almoço. 


Ah! O almoço! É isso, de certeza que não presta pra nada! Pior, não só o almoço vai ser mau como o Espanhol afinal será um gajo horrível, o Sommer vai estar tão lixado que vai ser antipático e o ambiente será péssimo!! Só isso poderia estragar a manhã perfeita e confirmar os meus receios!

Desilusão, mais uma vez.. O almoço estava óptimo, o Espanhol é fixe e o Sommer continuou a ser dos gajos mais porreiros que conheci através do trail.

Bah...

O melhor é voltar para o ano.