As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Estrela Grande Trail (90km)

Cometi alguns erros este sábado na Serra da Estrela. O principal? Fui arrogante. Subestimei a prova e a Estrela. A humildade deve ser dos factores mais importantes quando se enfrenta uma montanha e desta vez não a inclui no meu equipamento obrigatório. O resultado foi o óbvio: voltei para o meu lugar com o rabinho entre as pernas, envergonhado, vergado a uma força infinitamente maior que eu.


A partida coincidiu com os primeiros raios de sol de um dia que se adivinhava perfeito para correr. Nem frio, nem muito calor, nem chuva. Perfeito, como o ambiente na partida. Deixei-me ficar lá bem para trás quando chegaram as 6 da manhã, e assim ataquei a primeira subida da prova, que surgiu poucos metros depois de passar o pórtico.


Sem tempo para grandes contemplações começamos a primeira escalada do dia, primeiro num estradão que zigue-zagueava entre árvores gigantes que de vez em quando abriam para nos dar um vislumbre do assombroso Vale Glaciar. Depois num trilho dentro de um bosque no cume da montanha, com a vegetação a ficar mais rasteira e os maciços graníticos mais frequentes, até virarmos a montanha, entrarmos no Vale do Rossim e darmos de caras com o espelho de água da represa que reflectia o azul do céu em contraste com os mantos verdes pontuados de cinzento do planalto. O sol, que entretanto também já tinha virado a montanha, disfarçava o vento frio e compunha este quadro quase irritantemente perfeito. Para trás tinham ficado 10km e quase 900 metros de subida, sinceramente nem dei por eles. Gosto destes inícios de prova brutos, nada como chegar ao topo de uma montanha fresquinho para dar confiança!


Os 12km seguintes, até ao 2º abastecimento na Garganta da Loriga, foram dos meus preferidos da prova. Quase sempre a subir, sempre em direcção à Torre que espreitava lá bem ao fundo, uma paisagem virgem e idílica, com mantos verdes rompidos por rochas gigantes que pareciam ter sido colocadas na terra por alguém com sentido de humor. Atravessámos a Fenda da Talisca, saltitámos por entre os milhares de charcos de água transparente, subimos e descemos rochas, cada vez mais alto, cada vez mais perto da Torre. Chegados muito perto dos 1900 metros, com a Torre quase à distancia de um braço, virámos para a Garganta da Loriga.

Talisca. Obrigado Google!
Já tinha ouvido falar muito desta descida. Criei uma grande expectativa em relação a ela, sabia que seria a mais difícil da prova e tinha-lhe um grande respeito. Aqui não fui arrogante, mas todas as projecções que tivesse feito estariam sempre a anos luz da realidade. Descemos por uma garganta super apertada, quase claustrofóbica, que parecia dividida em pequeno patamares à medida que progredíamos. Rochas e mais rochas. Impossível correr, impossível sequer ter um passo constante. Escorreguei dezenas de vezes em rochas molhadas, caí algumas, perdi o fôlego a cada patamar, senti as pernas a latejarem e desesperei quando a empreitada simplesmente parecia difícil de mais, mas depois entrávamos noutro patamar e...bem, tudo fazia sentido outra vez. O quilómetro final, já em estradão e a chegar a Loriga, foi feito a correr e a fazer contas de cabeça ao estrago provocado nas pernas pelos mais de 1000m de descida. Não há-de ser nada.

As pedrinhas da Loriga. 
Saí do abastecimento muito moralizado e confiante, a previsão do tempo de passagem batia certo quase ao minuto. No entanto tinha perfeita noção que a prova só começaria dali a 7km, quando estivesse na base da subida para a Torre.

Os quilómetros até lá, ao Alvoco, passaram sem grande história. Uma subida curta, seguida de uma descida fácil em estradão embalaram-me até ao abastecimento onde estavam a Sara e os miúdos. Sentei-me a comer uma canja calmamente, tirei a camisola térmica e confirmei com ela a previsão de 2 horas para a subida de 1200D+ até lá acima. Desde o início do dia que estava desejoso por enfrentar o quilómetro vertical do Alvoco, era o desafio final do EGT, chegado lá acima com pernas seria o suficiente para ir até ao fim calmamente. Achava eu.

Encarei esta subida quase como uma tarefa do trabalho. Acho que nem levantei a cabeça para olhar para a paisagem, a minha mente trabalhava como uma máquina: escolher onde meter os pés, avaliar o nível de esforço e adaptar a velocidade de subida. Se fosse preciso abrandar, abrandava. Comecei a passar alguns colegas e a ganhar confiança. Lembrava-me de quando fiz o quilómetro vertical há dois anos das partes mais difíceis e de quando serenava. A meio da subida, com 1 hora, comi um gel que quase me fez vomitar. Não tinha levado os géis habituais e que tão bem resultaram na Madeira, comprei antes uns à pressa na feira na noite anterior. É só gel, não há-de haver problema. O ultimo quilómetro, já muito mais suave que o resto da subida, é feito com a Torre em pano de fundo. Percorri-o a sorrir, orgulhoso pelo feito e por ter chegado ali aparentemente com pernas. A estratégia estava a resultar na perfeição, tinha domado a montanha, nada podia correr mal a partir dali!

A recepção :)
Entrei no abastecimento eufórico e virei-me para a mesa da comida. Meti uns bocado de queijo à boca que empaparam, tive que os cuspir na rua. Desde a canja do Alvoco que vinha mal disposto e a cada gole de água dava 2 ou 3 arrotos que se deviam ouvir a 2km (bonita imagem). Bah, agora também é só descer e gerir o resto da prova.

Despedi-me da Sara e dos miúdos, e combinei que já só os veria em Manteigas. Era agora altura de percorrer o famoso Trilho do Major, que nos levaria até ao Vale Glaciar. Encarei-o como uma recompensa pelo esforço da subida anterior. Nada como uma descida num trilho bonito e corrivel aos ésses pela montanha para recuperar de uma subida violenta. Mal podia esperar para o atacar!

Saímos da estrada na Torre e começámos a descer por uns caminhos com alguma rocha e muita água. Corremos 200 ou 300 metros na neve, que fizeram as delicias tanto dos atletas como dos fotógrafos, e voltámos à pedra. O caminho era espectacular, mas muito difícil. Cruzámos uma estrada de alcatrão e entrámos em novo trilho. Era agora que ia começar a minha descidazinha aos ésses boa de correr!

Miro Cerqueira, a fazer fotos de capa desde 2015.
Ah.. Mas.. Isto está cheio de pedra! Talvez descendo mais......não, pedra! 

Rocha, rocha e mais rocha. Mas não são pedras soltas, são rochas grandes que temos que alçar a perna, usar as mãos e o rabo para transpor! Uma brutalidade de descida, uma espécie de Garganta da Loriga! A paisagem era de cortar a respiração, mas ia de tal maneira atordoado que nem me apercebia. Nunca caminhei tanto numa descida, não conseguia correr em lado nenhum. Em parte pela dificuldade técnica mas principalmente pela bordoada que tinha levado. Ninguém me disse que a descida era fácil ou que era corrível, eu é que meti isso na cabeça. Este aparentemente pequeno revés foi o suficiente para despoletar tudo, a partir daqui foi sempre a descer. Não me interpretem mal, os 8km de descida são das coisas mais incríveis que já vi! Muito variados, desafiantes, técnicos... Mas o click já tinha acontecido, e não havia trilho fresquinho aos ésses que me desse a volta. 

Foi quase hora e meia a descer, muito lento. Perdi a noção das horas e o controlo do tempo a que devia comer, quando me lembrei disso tentei comer uma barra mas já só consegui dar uma dentada. Empurrei o resto com água o que me deixou mais enjoado. Depois como no abastecimento... 

Vejam a parte final do trilho, dá para ver as pedras. Foto da Sara.
O abastecimento apareceu depois de uma parede de 300D+ que nos voltou a levar para fora do Vale. Apliquei a estratégia do costume nas subidas, mas esta já foi muito a esforço. Foi com alivio que cheguei ao estradão que nos levaria até ao abastecimento em Poios Brancos, 54km percorridos.

Chegado lá pousei os bastões e preparei-me para comer. Experimentei bananas, uma barras de cereais, marmelada, queijo.. Já nada entrava. Não havia canja, era isso que me salvaria! Paciência, vou continuar, no Vale de Amoreira há de certeza.

A partir daqui a prova mudou radicalmente. Não a minha, essa mudou um pouco mais atrás como perceberam, mas o percurso da prova. Tornou-se de facto rolante, e a prova disso foram os 7km a descer quase sempre em estradão até ao Poço do Inferno, local do 8º abastecimento. Percorri-os quase sempre a correr, todos na casa dos 6min/km, mas sempre muito a esforço. Já nada saía naturalmente, sentia que estava à beira do precipício, ao mínimo desequilibro caía para o outro lado. Cheguei ao Poço do Inferno uma hora antes do inicialmente previsto, o que me dava uma boa margem para ainda conseguir as 16 horas, Talvez ainda desse...

Assim que saio do abastecimento, onde só havia líquidos mas não valeu de muito já que não conseguia beber nada, apanho uma pequena subida, a primeira desde o Vale Glaciar. E foi aí que...


Se houvesse mais neve no pico de certeza que o meu estoiro teria provocado uma avalanche.

Dez quilómetros separavam-me do abastecimento do Vale de Amoreira. Dez quilómetros de estradão quase sempre a descer mas com algumas picadas pelo meio. Nada de extraordinário não é? Pois, não devia ser, mas foi. 

Comecei por fazer as subidas cada vez mais devagar e a demorar mais tempo a recuperar antes de iniciar a corrida nas descidas, até que desisti e fazia as descidas a andar. Aqui ganhei uma nova companhia de viagem, as moscas. Verdes e moles, entravam-me para dentro da boca, ouvidos e nariz. Assim que parava atacavam. Agitava os braços feito maluquinho, estava a entrar em desespero! Por favor, quem estiver a ler isto e que tenha estado lá, digam-me que não estava a alucinar e existiam de facto moscas verdes mutantes naquela parte do percurso! 

De repente a ideia de desistir começou a formar-se na minha cabeça, cada vez que parava e me debruçava sobre os bastões ganhava mais consistência. Desde a Torre que não conseguia comer ou beber, algo porque nunca tinha passado antes e estava agora a ter o seu preço. Estava completamente drenado de energia, o próprio acto de segurar os bastões já era difícil e arrastava-os no chão enquanto andava. A 3km do abastecimento estava perfeitamente decidido a ter a primeira desistência da minha vida e conformado com a ideia, não fazia sentido continuar assim. O quilómetro final, já no alcatrão e ligeiramente a descer, demorei uma eternidade a percorrer. Sentei-me umas dez vezes no chão. Disse à Sara para me vir buscar. Estava em paz com a minha decisão, nada de dramas. 

Chegado ao abastecimento sentei-me numa mesa à parte do resto das pessoas, debrucei a cabeça sobre os braços e assim fiquei algum tempo. Não que me estivesse a sentir mal, mas nem forças para levantar a cabeça tinha! Tirei a mochila e preparei-me para esperar pela Sara. Estava irritado e frustrado, é completamente estúpido pensar que se tem uma ultra dominada só porque se desenvolveu "um sistema", como se não houvessem milhares de variáveis só à espera para nos mandarem abaixo. Não sei o que me chateava mais, se a constatação desse facto ou ter falhado redondamente os objectivos que tracei de maneira tão arrogante neste post

Passaram uns bons 20 minutos até a Sara aparecer. Nesse tempo algumas pessoas vieram falar comigo e tentaram convencer-me a continuar. Uma dessas pessoas foi a Carmen, que basicamente me trouxe de volta à terra. "Mas o que é que tens? Estás com vómitos? Caíste? Doi-te alguma coisa? Torceste um pé? Não?? Então não continuas porquê??? Cansados estão vocês todos! Vá ver!"

Pois..realmente.. nem um tornozelozito dorido...

Bem, mas estava decidido. Quando a Sara chegou ainda estivemos ali uns 10 minutos, até que me levantei para ir embora com ela. 

Meti a mochila às costas. Para ir embora, claro.

Peguei nos bastões. Para levar para o carro.

Comecei a andar em direcção ao carro, quando...

"Olha pronto, vou continuar. Até logo!" Virei as costas e segui caminho.

Desenganem-se, não há aqui nenhuma explicação romântica, nenhum renascer das cinzas ou final épico. Foi em modo Walking Dead que percorri os 20km que me separavam da meta. Primeiro arrastei-me os 800m D+ estradão acima, depois gatinhei nos 800m D- estradão abaixo. Continuei sem conseguir comer ou beber nada, até à manhã seguinte. Deprimente, completamente vergado. Sinceramente acho que não me arrependeria de ter ficado no abastecimento. Não há que fazer grande drama com as desistências, ninguém nos está a julgar, não temos nada a provar a ninguém. Não, nem é bem isso, na verdade ninguém quer saber! Ainda agora que estou aqui sentado a escrever tenho dúvidas se tomei a decisão certa.

Quatro horas depois do abastecimento do Vale de Amoreira, cheguei. Foram quatro horas que serviram para pensar bem nisto da ultra corrida, esta coisa insana de passar horas e horas num limite físico e mental. É estúpido, é masoquista, é, é, é...... pois, isso tudo! Mas.... depois chega a meta e...... o que é que eu estava mesmo a dizer...?






quarta-feira, 18 de maio de 2016

90 quê..?

Hm? 

Estrela Grande Trail? 

90 quê..? Quilómetros?

Ah, pois.. mas isso é só lá pra Maio! Dia 21 ou lá o que é...

Como é que é? Já estamos em Maio?

Ok...mas dia 21 é só.....

ESTE SÁBADO?!?


Pois é, numa altura em que ainda olho para a pulseira do MIUT que carrego no pulso direito com muita saudade e nostalgia estou a 2 dias de alinhar nos 90km com 5300m D+ do Estrela Grande Trail.

Quatro semanas separam as duas provas. É muito pouco? Pois é, têm razão. Felizmente o meu treinador é um gajo porreiro e compreensivo e deu-me o aval, mas só depois de uma conversa muito intensa. Foi mais ou menos assim:

- Man, queria muito ir àquela prova do Armando Teixeira na Estrela, com 90km...
- Hm, isso não é muito perto do MIUT?
- Sim. Mas é na boa!
- Ah, então está bem!

A seguir a Sara perguntou-me porque é que estava a falar sozinho e eu calei-me e fiz a inscrição.


Confesso que nunca tinha estado tão fora de uma prova como desta. Faltam dois dias e ainda não entrei de todo "na zona". Culpa da ressaca do MIUT que ainda não passou, do trabalho que tem sido intenso, e.. bem, por coisas da vida! Por um lado é bom, já que os níveis de ansiedade estão no mínimo, mas é estranho estar à beira do precipício e não sentir formigueiro na barriga. A verdade é que vai ser um desafio brutal: 90km n'A SERRA de Portugal. Sitio onde só corri uma vez mas que figura no meu imaginário como o derradeiro local para correr em Portugal. 

Parto para ela com vários objectivos. O primeiro, e mais importante, é conseguir fazer uma prova sólida nesta distancia. Consegui fazê-lo nos 50km do Piodão, mas falhei (sinto que foi por pouco, mas falhei) no MIUT 2016. Depois quero consolidar a minha forma a subir, que me tem deixado satisfeito, mas principalmente meter quilómetros de descidas nas pernas, onde ainda estou MUITO longe de ser eficaz. Acho que despendo demasiada energia nas descidas para a velocidade que levo, continua a ser a minha maior preocupação para o UTMB. O terceiro e ultimo objectivo é daqueles mais fúteis, mas gostava de voltar a conseguir um lugar no primeiro terço da tabela, como aconteceu no MIUT (sim, conto que os que desistem, e sim, foi mesmo mesmo mesmo no fim do primeiro terço eheh). 

Como sempre, fiz uma previsão do tempo estimado com base num sistema altamente complexo, criado por mim, que consiste em ir aos resultados do ano passado e ver quanto é que fez o gajo do meio. E o resultado foi: 16 horas. 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Madeira Island Ultra Trail - 2016

Quilómetro 70 - 1600m de altitude.
              
Para trás tinham ficado 69km de uma prova quase perfeita - tudo de acordo com o plano! De trás para a frente, controlada, sólida e confortável. Obstáculo atrás de obstáculo transposto. Cada vez mais confiante, mais sorridente e bem disposto!

Mas depois chegou o quilómetro 70.

No quilómetro 70 mudou tudo.


Já estávamos no avião da Easyjet, depois de muitas horas de espera dentro do terminal e de uma primeira falsa partida, quando o meu receio se confirmou - era impossível aterrar no Funchal naquela noite. Pelas cabeças de mais de metade dos passageiros do avião terá surgido imediatamente a mesma dúvida: será que chego a correr?? Felizmente, rapidamente e com uma eficácia espantosa, a Easyjet tratou de marcar um voo para a manhã seguinte e transportou-nos de autocarro para o luxuoso Hotel Marriot. Entretanto, enquanto dormíamos umas curtas 5 horas no que me pareceu o colchão mais confortável alguma vez produzido, o temporal que devastou a Madeira no dia anterior dissipou-se e permitiu-nos aterrar no espectacular aeroporto do Funchal por volta das 10:30 de sexta feira. Nessa altura caiu a ficha: o dia já começou há 5 horas e ainda tenho 115km para correr!

Abençoado colchão do Marriot
Era altura de assentar bagagens, levantar dorsais, almoçar e desligar os motores durante umas horinhas para repor o sono que fiquei a dever ao colchão do Marriot. Felizmente, tudo na Madeira parece que funciona bem e este processo foi muito rápido. Já deitado noutro colchão, o d'O Facho em Machico, depois de uma sesta retemperadora, finalmente sosseguei os receios de um começo em falso. Voo cancelado, planos furados, voltas alteradas... pouco interessa! Eram nove da noite e estava na hora de ir virar a ilha!

Eu e o Vasco, também ele repetente, despedimo-nos dos nossos companheiros de viagem, que teriam prova no dia seguinte, e entrámos no ultimo autocarro rumo a Porto Moniz. Os risos e piadas nervosas dos primeiros minutos deram lugar a um silencio sepulcral dentro do autocarro. Enquanto observava as escovas a limpar uns pingos de chuva do limpa para-brisas, revi a prova na minha cabeça, mas desta vez não numa perspectiva ansiosa, de quem quer saltar para o monte e enfrentar o monstro, mas com puro receio, de quem sabe o que vai encontrar. O nó na barriga apertou quando logo de seguida me lembrei da Sara e dos miúdos, que desta vez tinham ficado em casa. Comecei a entrar num local escuro na minha cabeça e peguei no telemóvel para lhe mandar uma mensagem a dizer que não me estava a sentir bem, mas em boa altura me deixei de pieguices e voltei a arrumá-lo no bolso.

Eu e o Vasco, que já conhecem de outras aventuras. 
Chegámos a Porto Moniz. Temperatura amena, como é habitual na Madeira, e chuva muito muito ligeira. Encaminho-me com o Vasco para a partida e sentamo-nos nos mesmos degraus onde estivemos o ano passado. Estou muito nervoso, o nó na barriga aumentou, mas como sempre a presença do meu amigo é tranquilizadora. Há pessoas assim, o Vasco é uma delas. Ultimo telefonema para casa, emociono-me quando oiço a minha Mel a dizer "gosto de ti pai, o pai ganha!" e despeço-me de todos. Tinha chegado a hora. Mais que em qualquer outra prova, é avassalador o sentimento de respeito que se sente naquele garrafão antes do pórtico de partida. Todos os caminhos me levaram até ali, agora era altura de cumprir o meu destino.

Estava bem lá atrás.
Partida dada e rapidamente me deixo ficar entre os últimos 50 dos 579 que partiram. A estratégia estava mais que definida na minha cabeça, ia enfrentar a prova de trás para a frente e os primeiros 27km eram uma fatia importantíssima do plano. Ao contrário do ano passado, onde dei tudo nesta parte da prova, agora teria que chegar a Estanquinhos seguro e confortável. Era fulcral que assim fosse, até psicologicamente.

Este ano está ainda mais gente nos primeiros metros depois da partida. Centenas ou milhares de pessoas a aplaudir e aos gritos! Impossível não ficar por um lado motivado, por outro envergonhado por começar a passo quando a subida empina. Mas assim terá que ser. Encaro os 400d+ desta primeira subida, que por sinal é a mais fácil de toda a prova, com muita calma e aproveito para observar melhor que o ano passado Porto Moniz lá em baixo. O final coincide com um lance de escadas, onde apanho um pequeno engarrafamento e desemboca numa levada muito boa de correr. Assim que viramos a montanha começam a ouvir-se os gritos da multidão que mais uma vez estava lá em baixo, em Ribeira da Janela. Percorro a descida em zigue zague muito tranquilamente, mais preocupado em não torcer um pé do que com ultrapassagens. Ao passar a ponte lá em baixo olho para trás, mas desta vez venho tão no fim que o famoso zigue zague luminoso não está em todo o seu esplendor! Enfim, essa recordação já eu a tenho. O prologo estava cumprido, ia começar o MIUT.

Zigue Zague. Foto "Madeira lés a lés".
Lembrava-me bem da subida seguinte. Dos primeiros 2km ainda dentro da povoação e mais tarde a entrada no trilho e as primeiras escadas. Subimos debaixo das nuvens até cotas de 500 ou 600m, até que as apanhamos e passamos a andar dentro delas. Foi assim que entrámos no trilho, debaixo de uma chuva ligeira, temperatura amena e humidade altíssima. O que não estava à espera era de um novo elemento que nos foi apresentado precisamente nesta altura: a lama. O temporal dos últimos dias fez estragos, particularmente nesta parte inicial, o que tornou uma subida difícil numa alarvidade com lama pelos tornozelos. Os degraus em troncos estavam ainda mais escorregadios e frequentemente enfiávamos os pés todos dentro da lama. Não estava fácil, muito pelo contrário. Ninguém falava, sentia-se a tensão entre todos. A subida mostrava-se demolidora, os 1200+ em 11km não deixavam margem para dúvidas, aqui os mais fracos não passariam. As árvores cobriam-nos por completo, não passava uma brisa. Por volta da cota 1000 passámos finalmente o nível das nuvens e entrámos numa espécie de planalto. Aqui tenho o primeiro momento arrepiante do dia - a lua, gigante, iluminava um manto branco fantasmagórico poucos metros abaixo de nós, dele despontavam picos pontiguados, agressivos, de contornos pretos, que contrastavam com o mar branco de nuvens. Uma coisa abismal, tive que parar para absorver aquilo! Subíamos em campo aberto e com menos inclinação quando comecei a ouvir os gritos e sinos. O primeiro abastecimento, do Fanal, estava já ali!

Por incrível que pareça, os abastecimentos este ano são ainda mais completos e bem organizados que o ano passado. Bebo rapidamente uma chávena grande de café, uns bocados de queijo e alguns figos. Por esta altura já tinha metido um gel e uma barra, decidi que não passaria uma hora sem comer qualquer coisa, por isso não tinha fome. Olhei de relance e já via algumas pessoas com muito mau aspecto sentadas no abastecimento. O MIUT não brinca em serviço...

A descida seguinte, até Chão da Ribeira, marcou-me no ano passado. É sem dúvida alguma a descida mais difícil que já fiz na vida e assustava-me tanto como um km vertical a subir. Sempre que falava com estreantes avisava-os desta descida e não de qualquer subida. Mas agora arrependo-me disso - devia ter exagerado mais! Que doideira de descida! Degraus, socalcos, degraus, pedras, raízes, lama e mais lama. Escorreguei dezenas de vezes e fi-la quase a passo! Uma brutalidade que dá cabo não só das pernas mas da cabeça, que não consegue sossegar um segundo.

Quando passei o abastecimento do Chão da Ribeira, nos míseros 100 ou 200 metros que intercalam a descida anterior da brutalidade de subida até Estanquinhos senti que estava numa espécie de trituradora implacável. Ai acabaste a descida mais difícil da tua vida? Então toma lá este petiscozinho. 

Já vos falei desta subida o ano passado, mas acho que não fica mal voltar a frisar os números: total de 1200d+, com uma parte inicial de 1100d+ com 3.7km. Só. É inacreditável. Durante 3km vamos com a cabeça ao nível dos pés do companheiro da frente, por cima de nós vêem-se luzinhas a centenas de metros, um zigue zague demolidor e infinito. Ainda por cima o terreno é implacável, muito incerto, nunca dá para meter um ritmo estável. É sem dúvida a subida mais complicada do MIUT, se aparecesse lá mais para o fim acho que metade ficava pelo caminho. O ano passado subi furiosamente a ultrapassar pessoas, desta vez apanhei boleia num comboio que seguia bastante devagar. Muitas vezes tinha vontade de ultrapassar e andar mais, mas dizia a mim mesmo para ter calma, e assim foi. Só lá mais para o fim, quando já ia a adormecer no ritmo, cedi à tentação e fui atrás de um americano que passou o comboio, sentia-me incrivelmente bem e solto. Fomos a bom passo até Estanquinhos, local do segundo abastecimento e primeiro corte da prova, com 6h15, o corte era às 7h30.

Tal como o ano passado, entrei no abastecimento com um sorriso. A diferença é que na altura achava que tinha conquistado a prova, desta vez estava radiante com a conquista dos primeiros 27km. Era apenas um obstáculo ultrapassado.

Este abastecimento já parecia uma zona de guerra. Muita gente pálida, uns embrulhados em mantas, outros a abraçar um copo de chá ou café quente... Esta primeira fase do MIUT é uma brutalidade. Um verdadeiro teste de aptidão, ali não há paisagens de cortar a respiração nem trilhos divertidos, é só dureza e brutalidade, para separar o trigo do joio.

Se a descida anterior ficou na minha memória como a mais difícil de sempre, a que se segue tem lugar como a mais espetacular e variada. Mas foi a meio dela que o ano passado comecei a duvidar que conseguiria acabar, por isso saí do abastecimento num misto de confiança e apreensão.

O primeiro km, em estradão e ainda de noite muito escura, fez-se bem. Tal como me lembrava, era um estradão traiçoeiro, com muitas e grandes pedras. Logo nos embrenhámos na floresta Laurissilva para o parque de diversões. Esta descida foi....bem, é indescritível. Não consigo arranjar palavras que façam jus. Estamos a falar de uma descida com 10km em que se perdem cerca de 1100m verticais, a cada km parece que entramos num nível diferente, um trilho completamente diferente com desafios distintos. O sol que começou a nascer no fim do estradão acendia a encosta monstruosa totalmente coberta de um verde virgem, milenar. Abaixo de nós o manto branco de nuvens só não tapava os picos que emergiam como ilhas, lá ao fundo atrás de uma montanha o céu pintava-se de tons avermelhados. Tive mesmo que parar para tirar uma foto (tirei 3 ao longo da prova!), que obviamente está longe de mostrar o que presenciámos ali. Árvores gigantes, túneis na pedra, cascatas literalmente atravessadas, troços demolidores com escadas, outros cobertos de folhas macias. Absolutamente magistral. Disse e repito, se alguém tentasse não conseguia inventar uma descida tão perfeita. A melhor parte é que desta vez estava a degustá-la como deve ser! Sentia-me cada vez melhor e com vontade de correr mais depressa. Os 3 últimos géis que tomei tinham cafeína, talvez por isso desta vez não senti sono nenhum. Pelo contrário, estava cada vez mais desperto.

Tirada a meio da descida.
Cheguei ao abastecimento do Rosário num estado quase de euforia, mas rapidamente desci à terra. Seguia-se a terrível subida da Encumeada, local onde rebentei o ano passado. Guardei o frontal na mala e despi o impermeável. Comi mais uma barra e ataquei a subida com toda a seriedade. Mais uma etapa.

Em 2015 foi aqui que comecei a parar e debruçar-me sobre os bastões. Foi aqui que me passaram dezenas de companheiros e fiquei em pânico quando percebi onde me tinha metido. Desta vez comecei bastante devagar, sabia que tinha uns km de estradão e trilho fácil antes de chegar às escadarias finais. Foi essa a minha táctica para o MIUT, começar as subidas a um passo muito curto e estável, depois aumentar lá mais para a frente se tivesse pernas. O importante era não parar, e não parei. Conquistei os 500d+ e aquele lance de escadas final demolidor sem grandes sacrifícios e mais uma vez o sentimento de nível superado meteu-me um enorme sorriso na cara! Desta vez já não tive dificuldade nenhuma em correr naquele km de estrada a descer até ao abastecimento.

Hotel da Encumeada. A foto não é do dia da corrida (nem minha).
No abastecimento, situado no espectacular hotel da Encumeada, comi mais uns figos e uma taça de canja. O cenário era idêntico aos anteriores, com algumas baixas espalhadas pelas cadeiras. Revi-me a mim próprio o ano passado, sentado numa cadeira afastado de toda a gente a comer sopa. Mas desta vez não. Desta vez metia conversa com toda a gente e só queria meter-me a caminho!

Depressa me fiz ao resto da descida. De seguida iria apanhar o famoso pipeline, um tubo verde que sobe a pique a encosta, acompanhado por uns degraus muito pouco simpáticos em betão. Há um ano que tenho pesadelos com aquele tubo... Mudei o chip, acalmei a euforia e pus a minha game face. Hora de trabalhar. Mais uma vez a gestão do esforço resultou na perfeição, cheguei lá acima sem hesitar em nenhum degrau e assim que piso o trilho a descer desato a correr. Menos um!

Mesma foto do ano passado. Sim, sou assim tão básico :\
Esta foi provavelmente a minha melhor fase de toda a corrida. São cerca de 4km em trilhos que rodeiam completamente o vale antes de começar a subida final que vira a montanha para o Curral de Freiras. O ano passado arrastei-me, este ano corri sem vergonha nenhuma! Esqueci a gestão, esqueci a cautela e desfrutei a 100% daquela maravilha de caminho. A subida, que este ano me pareceu muito pouco violenta, foi feita a bom ritmo. Lembrei-me do grupo de madeirenses que o ano passado me ajudaram naquele ponto e sorri. Nesta parte final íamos ao lado de uma escarpa tão alta e íngreme que o GPS perdeu o sinal! Tanto eu como os colegas todos que lá estavam. Só na Madeira..

A montanha foi conquistada aos 1400m, agora era altura de descer bem até lá abaixo, ao fundo da garganta, onde estava entalado o Curral de Freiras. Mais uma descida interminável e muito difícil. Um massacre às pernas que parecia não ter fim! Farto-me de dizer que é bem mais difícil treinar para descidas do que para subidas, mais ainda quando as subidas não são rolantes e requerem constantes mudanças de direção e de solicitações ao nosso corpo. Esta descida é um clássico do MIUT e percebe-se porquê, é devastadora.

Curral de Freiras (não é minha, obviamente).
Já muito perto de Curral de Freiras passo pelo local onde no ano passado a Sara e a minha filhota estavam à minha espera. Não consigo evitar emocionar-me e fico cheio de saudades deles… Saquei logo da fotografia que levava comigo.

Atrás do perfil levava uma pequena cábula e...doping :)
Uma das poucas novidades do percurso deste ano era a localização do abastecimento do Curral de Freiras. Desta vez a base de vida estava num pavilhão mesmo dentro da vila. Assim que chego lá dentro encontro um cantinho para mim e começo a tratar das tarefas programadas: comer, trocar de roupa, carregar mais mantimentos, ligar para casa e, importantíssimo neste sitio, encher todos os depósitos que tivesse disponíveis com água. Quem vai fazer o MIUT pela primeira vez, nunca se esqueça disso: toda a água é pouca para o percurso até ao Pico Ruivo.

No abastecimento. Com uma cara que irradia felicidade.
Saí do abastecimento com 60km e já cerca de 5000d+. Estava super bem disposto e confiante. Na minha cabeça tinha vindo a fazer "check" em todas as etapas que considerava cruciais até agora, mas sempre que passava uma lembrava-me "calma, não cantes de galo, ainda falta o caminho do Curral até ao Pico do Arieiro!". Este segmento de cerca de 16km tem duas fases distintas: primeiro um km vertical até às Torrinhas e depois entrávamos no paraíso das escadas, o caminho que liga os dois picos. É a ultima GRANDE dificuldade do MIUT e sabia que se chegasse ao Arieiro com pernas o restante até Machico seria tranquilo. Mas…. era preciso passar lá primeiro. Vamos a isso.

Ataquei o km vertical inicial com a estratégia de sempre: começar devagar, estabilizar e finalmente soltar-me. Dos 3, este é o km vertical mais fácil do MIUT. Embrenhado no meio dos eucaliptos gigantes, com muitos degraus mas nunca demasiado agressivo. Reconheci muitos pontos de passagem do ano passado e até me lembrei de vários sítios onde parei e me sentei num tronco ou numa pedra. Mas não este ano. Este ano segui no meu ritmozinho, sempre sem parar. Estava a ser mais uma vez perfeito. De vez em quando olhava para o relógio e via os metros verticais a passar e o ânimo a subir. Vi de novo as árvores fantasmagóricas do ano passado, e desta vez tirei mesmo uma fotografia. Estávamos de novo acima das nuvens e a vista era de outro mundo.

Esta tirei eu!
Quilómetro 67… Passei a Boca das Torrinhas. A primeira etapa estava conquistada com sucesso! Faltavam agora 2.5km até ao Pico Ruivo, onde estava um abastecimento de líquidos. Iam começar as escadas.

Quilómetro 68. O primeiro km de escadas era quase sempre a descer. Lembro-me de no ano passado ter ficado em pânico quando me comecei a afastar tanto da cota dos 1700, onde estava o Pico. Agora que estávamos acima das nuvens e completamente expostos ao sol reparei que estava a escorrer suor e desconfortável com o calor.

Quilómetro 69. Primeira parte do sobe e desce que iriamos enfrentar nos próximos 7 km. Escadas, escadas e mais escadas… Nova descida abrupta. Olho para a frente e vejo lá MUITO em cima colegas a virarem a montanha. Só há uma maneira de lá chegar, e é pelas escadas.

Preparo-me para enfrentar o lance final até ao abastecimento. Seria 1km a subir a pique. Respiro bem fundo, logo de seguida fico com uma tontura, efeitos da altitude. Inclino-me para baixo e o suor escorre-me como uma torneira aberta. Limpo os olhos, que ardem, com a manga da tshirt já ensopada. Dou um passo. Subo outro degrau. Apoio os dois bastões. Tento levantar a perna de trás, mas…

Quilómetro 70.

Parei.

Debrucei-me sobre os bastões e respirei sofregamente enquanto o suor escorria para o chão. Os pulmões pediam mais. Bebi uns bons 4 goles de água. Olho para o relógio e reparo que é hora de comer, saquei de uma barra. Assim que a meto à boca constato que ia ser uma missão muito difícil, não consigo comer sem me darem vómitos. Arrasto-me escadaria acima, o abastecimento tardava, mas precisava dele. Cada vez mais devagar, até que tenho que parar de novo. Solto uma asneira e de raiva subo os restantes degraus. Lá em cima não corre uma brisa, está um sol abrasador, muito calor.

Entro no abrigo de montanha onde está o abastecimento e espero encontrar um sitio fresquinho, mas não. Também está quente e desconfortável, como eu. De repente fico apreensivo. Começo a rever a prova na minha cabeça, tudo o que falta passa-me pelos olhos como um flash e começo a ficar com medo. Caio em mim e percebo que tinha levado a famosa marretada, tardou mas chegou. Agora tudo ia ser diferente. Respondo a uma sms da Sara: "Estou mais ou menos. Acho que rebentei.".

Abastecimento do Pico Ruivo, lá ao fundo.
Os 5.5km que se seguem são a imagem de marca do MIUT, e isso diz tudo. De uma beleza abismal, uma coisa indescritível, mas igualmente duros. Um constante escalar de degraus de todos os tamanhos e feitios, sempre na crista dos picos que separam o Ruivo do Arieiro. Este ano o céu estava limpo, o que tornava tudo ainda mais impressionante. Estamos perto dos 1800m e conseguimos ver lá em baixo o mar. Monstros erguem-se a pique a toda a nossa volta, passamos por tuneis longos, escuros e húmidos para atravessar montanhas, escadas a descer que metem realmente medo e subidas exasperantes. O sol cada vez mais forte tornava tudo mais difícil, comi dois geis e mais uma vez quase que vomito, deposito a esperança no abastecimento do Arieiro, mas até lá ainda tinha que penar. Deixei de meter conversa com os companheiros e o sorriso há muito que tinha desparecido, estou sinceramente assustado com o que ainda tinha pela frente. Se nunca tinha parado até ao km 70, neste espaço parei mais 5 ou 6 vezes. O suor escorria incessantemente, os braços e pescoço estavam escaldados do sol, o oxigénio não era suficiente para satisfazer. Precisava tanto que a Sara e os miúdos estivessem no fim da subida à minha espera como no ano passado…. Mas não, estava por minha conta e assim me arrastei até ao pico.

Zach Miller a chegar ao Arieiro. Foto brutal do João M. Faria.
O meu receio tinha-se concretizado, estava no Arieiro e tinha rebentado. Faltavam agora 40km. Sabia de cor o que ia apanhar. Se nalguns aspectos é uma vantagem saber ao que se vai, neste é uma grande desvantagem.

O abastecimento estava quente e húmido, todos se queixavam do calor e muita gente tinha rebentado nesta secção, como eu. Estou completamente enjoado mas tenho fome, tenho plena consciência que preciso de comer. Olho para as dezenas de opções e decido-me por uns quadrados de bolo húmido, talvez desse. Mas não. Demoro 5 minutos a comer uma dentada, tudo empapa na boca. Peço uma taça de canja e forço-me a sorver o caldo salgado, pelo menos isso.

Quando saio do abastecimento o meu estado de espirito era completamente oposto daquele com que saí do Curral. Estava pouco confiante, com medo e sem vontade. Sabia que esta descida não ia ser fácil, que tinha partes muito técnicas, que tinha paredes para subir, que era interminável! A parte boa é que este ano o tempo estava muito melhor e dava para apreciar a paisagem que era bastante distinta da parte norte da ilha. Estes trilhos ali são magníficos, tenho muita pena de ainda não ter sido este ano que lá passei com pernas para os aproveitar. Acabámos com cerca de 2km de zigue zague num bosque muito parecido com o que se vê na Serra da Lousã, já perto de Ribeiro Frio, onde estava um abastecimento de líquidos. Corri esta descida toda com o desconforto de uma pedrinha na ponta da sapatilha, raios parta. Depois tiro-a lá em cima no Poiso…

Local onde estava o abastecimento de Ribeiro Frio.
Quando chego à base da descida, no Ribeiro Frio, estou bastante desmoralizado para a subida que se segue, até ao Poiso. Sei que é das mais fáceis da prova, com 500d+, mas simplesmente não me apetecia fazê-la. Não me sentia com a "fome" de acabar que tinha o ano passado. Nessa altura até podia ter rebentado na primeira subida que ia arrastar-me até ao fim, agora só de pensar nos km que faltavam só me apetecia voltar ao colchão do Marriot… Mais uma vez o meu lado piegas veio ao de cima e envio uma sms à Sara a dizer que não seria fácil terminar.

À saída do abastecimento visto o casaco e como mais um gel. Outro sacrifício, mas precisava do boost. Esta subida é realmente fácil. Quase sempre em estradão ou calçada e pouco inclinada. Aplico a minha estratégia do costume, mas desta vez começo ainda mais devagar, pareço um entrevado. Passam uns 4 ou 5 companheiros por mim, mas nem olho para a frente. A porcaria da pedra na sapatilha vai a chatear-me, devia tê-la tirado lá atrás… A parte mais difícil da subida já passou e entramos num pequeno planalto. Os passos muito curtos e entrevados deram lugar a uma passada mais segura. Passo pelo sitio onde o ano passado liguei o frontal, desta vez ainda tinha uma boa hora e meia de luz pela frente. Fiquei animado e aumentei a passada. A parte final no meio da floresta é feita já a bom ritmo e sem dar por ela estava no Poiso! Olha…tu queres ver…

Yep, mesma foto do ano passado. Básico básico...
Entro mais animado no abastecimento, a subida calma e segura fez-me bem! Sento-me e ponho o relógio a carregar com o power bank. Descalço-me e tiro os 3kg de lama que tinha dentro das sapatilhas, já chega de pedrinhas irritantes. Experimentei a comer umas bananas com sal e a coisa até funcionou. De repente fiquei outra vez mais confiante e com vontade de chegar ao fim! Já deixei de tentar perceber estas flutuações, mais vale ir com a maré.

A descida que se segue é a mais fácil de toda a prova, apesar de longa. Começa com um trilho não muito técnico, depois uns km de estradão e finalmente levadas que nos embalam os 8.5km que separam o Poiso da Portela. Ainda bem que cheguei ali de dia, a paisagem como sempre é deslumbrante. As pernas, essas, parece que ganharam nova vida! Percorro tudo a correr, até nas subidas! Só a porra da pedrinha é que lá anda, cada vez mais irritante. Devia ter descalçado a meia também. Bem, não interessa, já só pensava que o abastecimento podia estar mais longe, para evitar parar, aproveitar o balanço e papar quilómetros. Passo algumas pessoas na descida que me tinham passado na subida, o ânimo voltou em força!

Vista da Portela. Não para mim, cheguei de noite :\
Chego à Portela já quase de noite e a coxear ligeiramente por causa da porcaria da pedra. Sento-me e imediatamente descalço-me para resolver o assunto, mas já não sai nada. Na meia, está na meia! Descalço-a também e vejo finalmente que a "pedra" afinal era uma bolha gigante, já vermelha, que rodeava por completo o dedo grande, até a parte de cima! Aaaaah bom, compreendido então! Enfim, siga, faltam 17km!

Passei uns bons 10 minutos no abastecimento muito quente. Saio já de noite, está bastante frio e demoro a aquecer. Quando finalmente aqueço estou a correr novamente, desta vez apenas +/- confortável, mas já era bastante bom. 5km separavam-me do abastecimento do Larano e eu lembrava-me bem deste segmento. Primeiro um estradão, depois uns bons 3km em trilho agradável e finalmente uma descida terrível, a pique, até ao abastecimento. Epah e metam terrível nisso! Acho que o ano passado já estava tão anestesiado que nem dei por ela, mas esta descida é uma brutalidade, principalmente para quem já vem com mais de 100km nas pernas. Tanta asneira que eu disse! Quando finalmente chego ao Larano estou derreado. Sento-me numas escadas e meto conversa com quem lá estava, já não consigo comer nada outra vez e os pés estão a matar-me, correr em piso enlameado é muito duro para os pés.

Faltava apenas uma nova secção, a vereda do Larano, e depois a levada até Machico. Tinha muita curiosidade nesta vereda, mas já sabia que ia passar de noite e o impacto seria muito menor. Foi mesmo. Seriam 4 ou 5km abismais, numa falésia com o mar do lado esquerdo e um trilho muito estreito ligeiramente a subir e sempre com piso bom para correr. Mas de noite perdia o encanto, com exceção dum km que estava completamente iluminado por lâmpadas amarelas presas à falésia, muito bonito. Eu é que já estava com muito pouca paciência para bonitices e insultei alto e bom som os membros da organização, o governo da Madeira e provavelmente até o Obama! Porcaria da vereda que nunca mais acabava! Sobe e desce e sobe e desce e sobe….eish!!! Filhos da mãe do Clube de Montanha do Funchal que não se esforçaram minimamente para tentar meter ali uma passadeirazinha rolante! Com cadeiras! Não, uma passadeira rolante toda forrada com colchões do Marriot! É isso! Hmpf…

Vereda do Larano, de dia.
Ia eu irritado e a pensar nas injustiças desta vida quando olhei para o relógio, 23:20. Faltavam pouco mais que 5km para a meta. Elah! Isto afinal é capaz de dar para chegar antes das 24 horas!! Vá de correr, rápido rápido!

Despedi-me dos companheiros que iam na conversa comigo na altura e arranquei. Tumba, tumba, tumba… Corri, corri, corri.. Passei por gente, corri a subir e a descer enquanto olhava para o relógio. Machico lá em baixo, corri mais e forcei! Encontro um pequeno comboio e agradeço por se terem desviado, digo-lhes que vou tentar chegar antes da meia noite. Ao que um responde muito enfastiado "oh amigo, faltam 10 minutos, só se fores a voar…". Olho rapidamente para o meu relógio, 23:35. Então mas….. AAAAAH! No Poiso antes de ligar o relógio ao power bank ele desligou-se uns minutos!! RAIOS PARTA O MIUT E A MADEIRA E O OBAMA!!!!!

Tenho mesmo que começar a tirar fotos nas provas....
Bem, que se lixe o sub24, fica pro ano! Acalmei-me e encarei os 3km restantes com a sobriedade que mereciam. Não são fáceis, não há nada fácil no MIUT. Já dentro de Machico ainda temos uma descida bem lixada só porque os pés ainda não estavam derretidos o suficiente.

Faltam apenas 500 metros para o fim. Mais uma vez chegaria de alma preenchida. Desta vez festejo o feito. Não pelas 2h30 a menos que o ano passado, mas por ter sentido realmente que estava preparado para ela.


Finalmente, a 100 metros da meta, a ponte pedonal. A mesma onde o ano passado a Sara e a Mel me esperavam e as abracei. Desta vez não estavam lá, mas vieram na mesma comigo. Elas e o Manel, que nasceu entretanto. Sempre comigo, desde Porto Moniz. Atrás delas vinham todos os meus amigos que enviaram mensagem de ânimo, que me deram força, que me acompanharam no treino e na vida. O grupo da Parreira, companheiros de viagem que se tornaram família. O Vasco, que apesar de ter chegado hora e meia antes também cruzou a meta comigo. Todos, e foram muitos, os que meteram conversa por causa do relato do ano passado. Os que me inspiram, os que me dão força, os que me apoiam. Todos passaram as ultimas 24 horas comigo, e agora era altura de receber a recompensa: a meta. A vocês todos, obrigado, do fundo do coração. Espero que tenham gostado tanto da viagem como eu. 


domingo, 17 de abril de 2016

Scalabis Night Race 2016

É absolutamente incrível o que esta malta dos Scalabis Night Runners consegue fazer em Santarém. Foi a minha quarta participação (em quatro) nesta corrida, e cheguei à mesma conclusão que das ultimas 3: este ano foi o melhor. 

Incrível. 

Uma autentica máquina oleada e afinada. Entusiasmante, vibrante e emocionante. Milhares de pessoas na estrada (só nos 10km eram quase 2500), milhares de pessoas na rua a apoiar, mas a apoiar MESMO. Uma cidade engalanada e orgulhosa da sua história, que nesta altura recebe humildemente estes milhares de entusiastas numa celebração anual. 

Tudo correu bem! 

Um percurso desafiante, nada monótono, que inclui calçada, estrada, saibro nas portas do sol, passagem por locais históricos, vários pontos de animação e locais estrategicamente pensados para passar pelos aglomerados de pessoas. Não faltaram os campinos, o folclore, as tunas e o copo de tinto no Quinzena. Uma fórmula testada e aprovada - para quê mudar? Assim deve continuar. No fim um sistema cada vez mais afinado de distribuição do famoso kit bifana+bebida+pampilho diminui a espera a uns míseros 2 ou 3 minutos, mesmo na hora de ponta, e um final de festa (pelo menos para mim) verdadeiramente apoteótico com um fogo de artificio "fim-de-ano-na-Madeira style" a partir do W Shopping, patrocinador da corrida e situado bem no centro da cidade. Tem sido sempre muito bom, mas porra, este ano foi perfeito! Os Scalabis Night Runners, e principalmente a cidade de Santarém, estão de parabéns por este fabuloso evento que só falharei no futuro por motivos de força (muito) maior. 



A uma semana do MIUT, parti para esta prova completamente às escuras. Por um lado estou no meu pico de forma, por outro há meses que não faço uma sériezinha ou fartlek, ando mais entretido a subir montes. Apesar de ter partido do bloco sub40, estava convencido que nesta altura não estava a valer esse tempo e parti sem objectivo. Comecei a um ritmo bastante elevado (para mim) e assim me mantive, sempre à espera do momento do estoiro. Estava convencido que mais cedo ou mais tarde ia acontecer, mas a verdade é que não aconteceu! Não dei pelos quilómetros a passar, de repente só faltavam dois e estava instalado num sub40. Não quer isto dizer que não custou. Porra, se custou! Correr 10km no limite é uma brutalidade e acho que só se consegue porque os níveis de adrenalina são tão altos que nos anestesiam! No final um sprint de recta da meta ainda me valeu um sub39 (38:55), perto do meu record pessoal mas principalmente muito inesperado, para o tipo de treino que ando a fazer. 

Hoje tenho a impressão que abusei. Há muito que não corria com esta intensidade e tenho as pernas doridas e rijas, espero que não tenha estragado nada para o MIUT. Mas há coisas que são impagáveis, e uma delas é chegar a casa com níveis tão altos de endorfina e adrenalina que mesmo todo escavacado não conseguia pregar olho!

Agora sim, baterias 100% focadas na super empreitada que começa sexta feira à meia noite. Até já, Madeira!

domingo, 3 de abril de 2016

Inatel Piodão Trail Run (50km) - Montanha a sério

Arranquei sozinho de Côja às 7, depois do pequeno almoço na vila. Segui as placas para o Piodão, que me encaminhavam para o nascer do sol por trás da montanha. A estrada vazia e sinuosa levava-me cada vez mais alto num zigue-zague arriscado perto de uma ravina perigosa. Levantei o volume do radio quando reconheci a pancada seca e metálica no inicio do single novo do Samuel Úria, e agradeci à Antena 3 pela banda sonora perfeita. Olho à volta para os picos e tento imaginar quais irei visitar, apesar de saber a resposta: todos. Quando viro a montanha e começo a descida para o vale, vejo Piodão lá em baixo enfiado numa garganta impressionante de encostas inclinadíssimas. Entra o baixo na musica e levanto o som ainda mais! Apetece-me parar já ali o carro e desa tar a correr, o cenário é incrível, com a Serra da Estrela a espreitar e as casas de Piodão entaladas na montanha! Se já estava com pica para esta prova, este curto trajecto de carro atestou os depósitos! Portugal tem sítios lindos, apesar de às vezes nos esquecermos, e ontem foi dia de conhecer um dos mais incríveis que já vi - a Serra do Açor.


O Piodão é pequeno para tanta gente, nota-se bem. Os carros estacionados ao longo da estrada parecem autênticos corpos estranhos naquele cenário de postal. As inscrições para esta corrida são compreensivelmente muito limitadas, por isso foram uns privilegiados 300 atletas que às 9 da manhã partiram para os 50km do Ultra Trail do Piodão. 

Piodão
A meta estava montada no Inatel do Piodão, um pouco acima da vila postal. Engraço como 6 horas podem relativizar tanto este "um pouco acima", mas logo já falamos mais sobre isso!

Foto da net, com o Inatel em 1º plano.
A partida, dada com uns minutos de atraso, começou logo a descer até ao Piodão. Rapidamente a elite, presente em grande número nesta prova do circuito nacional de ultra trail, disparou, assim como os habituais nervosos do tiro de partida. esticando o pelotão e colocando-me na segunda metade deste. Sabia que teria cerca de 5km a descer até à base da primeira e mais longa subida da prova, por isso deixei-me ir muito tranquilamente a aproveitar os espectaculares trilhos que percorríamos na parte de baixo da encosta da montanha. Adoro aquele tipo de trilhos! Daqueles que parece que fazem parte da montanha, e não artificialmente inventados só para nossa diversão. Sem darmos por isso estávamos na base da primeira grande subida, 6km com 600d+.


Esta foi feita num estradão que zigue-zagueava pela encosta, aumentando a distancia e diminuindo muito a inclinação. Apesar de muito longa foi uma subida relativamente fácil, já que o piso era muito certinho o que permitia colocar uma passada constante. A temperatura ia diminuindo muito à medida que subíamos, mas a camisola térmica juntamente com o impermeável e a tshirt do clube eram mais que suficientes para manter a temperatura no tronco. O topo chegou aos 10km e 1250m de altitude, literalmente virámos a montanha para o outro lado e demos de caras com uma das paisagens mais incríveis que já vi. No topo do Açor, com a Serra da Estrela nevada atrás de nós, dois vales profundos de cada lado, montanhas recortadas por eólicas, elas próprias também parte da paisagem e tudo envolto ainda naquela neblina leve do inicio do dia que se levantava do chão.

Sacada da net (sim, mais uma vez não tirei um única foto)
Iniciámos a descida até Malhada da Chã por um trilho na encosta, bastante técnico mas não muito inclinado. Desafiante e super divertida de correr, uma descida deliciosa que nos levou até a mais uma aldeia do xisto, nas costas do Piodão, onde estava situado o 2º abastecimento aos 15km. Malhada da Chã é outra daquelas aldeias que nem que fossem desenhadas no AutoCad seriam tão perfeitas. Há a montanha, há o vale, há o ribeiro de águas límpidas, a ponte de pedra e as escadas de xisto. Perfeita, até irrita! O abastecimento era o típico banquete d'O Mundo da Corrida. Decidi levar à risca um plano de alimentação nesta prova, para futuramente utilizar no MIUT e UTMB, por isso quando lá cheguei já levava um gel e uma barra no bucho (a ideia era nunca passar mais que uma hora sem comer nada). Comi duas metade de banana, uns copos de isotónico e siga subir, segue-se o ataque ao ponto mais alto do Açor!

Claro que a Malhada da Chã também tinha que ter uma levada...
Esta segunda subida, também ela muito longa (cerca de 550+ em 4km) começou com uma primeira secção bastante difícil, mas mais uma vez desembocou no estradão das eólicas, que nos embalou serra acima até aos 1400m. O caminho certinho permitia ir constantemente perdido da paisagem, o que tirava dificuldade à subida. Sentia-me muito bem e solto, apetecia-me correr e ir ao limite, mas depois lembrava-me da famosa subida da Fornea, a terceira da prova, e deixava-me ir no meu ritmo tranquilo. A escalada foi feita com relativa facilidade, mas as pernas lá em cima já pediam descanso e o desejo foi concretizado. A descida começou com cerca de 2km de estradão que permitiu esticar as pernas e até me deixei entusiasmar um bocado, com um destes km percorrido em 4.08 minutos! Entrámos depois num troço bastante mais inclinado, o que massacrou muito os quadricepes, e finalmente num trilho que nos levou até Covanca, local do 3º abastecimento, aos 25km.

Covanca
Covanca era bonita, na encosta e com o xisto e tal e tal, mas o que interessa mesmo aqui é a deliciosa sopa de legumes que lá comi! Ui ca boa! Peguei na tigela e pus-me a caminho enquanto sorvia. Nesta altura, a meio da percurso, sentia-me a 100% e super entusiasmado com a minha prova, nem sequer pus a hipótese de me sentar no abastecimento.

O caminho até à Fórnea, 30km e base da grande subida do Piodão, foi em ligeiro sobe e desce ora em estradão ora em trilhos espectaculares. Feito praticamente sempre a correr, sem grande esforço, fui percorrendo o caminho e conversando com companheiros. Em todas as conversas, havia um ponto em comum: o Ultra do Piodão começa aos 30km. 

Ok, vem aí uma subidona, mas primeiro vamos ao banquete! O abastecimento da Fórnea é uma instituição, acho que já tinha ouvido falar mais dele do que a subida a seguir. Comi meia bifana e três fatias de presunto, mas havia muito, muito mais para comer. Ah, e para beber! Inclusivamente uma garrafa do meu vinho preferido, o Foral de Évora ehehe A partir de agora não fico contente com nada menos que uma Cartuxa Reserva nos abastecimentos!

Afinal ainda tirei uma foto. Prioridades! :)

De saída do abastecimento, com a barriga cheia, o ataque à subida começou com uns leves 2km por trilhos, até chegarmos à base do monstro. O prato consistia em 2km com 400+ e em todos os relatos dos outros anos era unânime que era a mais difícil da corrida. Confesso: estava deserto por a encontrar! Esta prova era muito importante para mim porque já não corria nenhuma desde Novembro, por outro lado mudei a maneira de treinar e ansiava por saber se estava no bom caminho. Para trás já tinham ficado muitas e longas subidas, mas precisava de "sobreviver" a esta. Era este o derradeiro teste.

Foto do ano passado da subida.
Ataquei-a exactamente como vou atacar as primeiras subidas no MIUT, com os chamados baby steps. Passada muita curta, constante e segura. O trilho era inconstante e com muita pedra, daquelas subidas que dão trabalho. A progressão era difícil, mas quase sem dar por isso comecei a apanhar companheiros. Segui concentrado, não me entusiasmei, mas também não dei folga. Baby steps. Curto, constante e seguro. De repente a inclinação diminuiu, olhei para cima e as eólicas estavam já ali! Alarguei a passada, subia com um sorriso nos lábios com um passo forte, corri na ponta final e 20 minutos depois...estava lá em cima! Missão cumprida! Acho que ainda soltei um VAMOS antes de começar a descer o estradão :)

Seguia-se a subida ao Colcurinho. Lá de cima da subida tivemos novamente a panorâmica a 360º do Açor, e dava para ver lá bem longe o pico onde iríamos de seguida. Foram 8km lindíssimos no cume da montanha, sempre acima dos 1000m, com subidas e descidas curtas, muitos trilhos excelentes para correr, uma delicia! 

Colcurinho, mesmo a pedir para ser subido.
Seguia nesta altura ultra confiante, corria em todo o lado e sentia-me muito solto. Achei que a coisa estava feita e que chegar ao Piodão já era só um pro forma. No entanto, ainda tive tempo de ser posto no lugar pela Serra, como não podia deixar de ser...

O ataque final ao pico foi muito mais difícil do que julgava, e pela primeira vez na prova vacilei bastante. Era só 1km com 200+, nada de especial comparado com o que já tinha ficado para trás, mas talvez por achar que a coisa estava feita levei uma grande chapada! Lá em cima havia um abastecimento e desta vez sentei-me mesmo. Ofereceram-me sopa, mas tinha acabado de comer uma barra, por isso fiquei-me pelo isotonico. Deixei o estômago assentar e ataquei a longa descida de 7km que se seguia!
Lá atrás, o estradão por onde subimos
Por muitas vezes já disse que as descidas podem ser tão ou mais massacrantes que as subidas, e esta começou bruta. Muita inclinação, muita pedra e os bastões a trabalhar. Foram uns primeiros 2km com as pernas em brasa, até entrarmos no estradão que nos levaria até Foz d'Égua. Podia descrever-vos este estradão, mas fiquem antes com uma imagem do track :)

A descida dos ésses
Curva, contra-curva, curva, contra-curva, curva... 3km neste zigue-zague interminável! Boa inclinação e bom piso para correr. O corpo habituou-se e estabilizei o ritmo e o esforço, corria a bom ritmo e bastante confortável. Esta é uma característica muito vincada do Piodão, é verdade que é provavelmente das provas com mais desnível por km em Portugal continental, mas quase sempre a seguir a uma subida dura há uma boa descida para recuperar. Se estiverem bem preparados para suportar as subidas é uma prova que se faz bem. Claro que depende muito da intensidade com que encaramos a prova, mas eu gostei particularmente deste característica da corrida.

Acabado o zigue-zague entrámos por um trilho espectacular que nos levaria até Foz d'Égua, e aqui apareceu finalmente o grande problema que tive na prova: as câimbras. É muito, muito raro ter câimbras, mas naquela altura já estava bastante calor e transpirei muito. Não bebi muito isotonico nem fui preparado com eletrólitos, por isso era um bomba prestes a rebentar. Quando tive que fazer passadas mais inconstante neste trilho começaram a saltar os músculos por trás da coxa. Meti de imediato dois géis e corri como pude até ao abastecimento na aldeia. 

Chegada a Foz d'Égua, aquele sitio onde filmaram o Shire, a terra dos Hobbits, no Senhor dos Anéis, sabem? 

Porra Açor, isto também já é a gozar com a malta...


No abastecimento comi batatas fritas, frutos secos, sal e isotonico. Faltavam apenas 3km de subida até chegarmos ao Inatel, mas precisava de sair dali recomposto para encarar o que faltava.

Mais uma vez no fundo do vale, seguimos por um trilho na encosta muito bonito, com o ribeiro lá em baixo, sempre ligeiramente a subir. Não seguia com a mesma ligeireza de há duas horas atrás, mas ainda me sentia bem e corria sempre que dava para isso. Desde a Foz d'Égua que se via o Piodão lá ao fundo, não tardou muito até estar novamente nas ruas de xisto da aldeia.

Dentro do Piodão. É no inicio da corrida, mas a rua é a mesma por isso ainda conta! :)
A meta não chegou sem antes apanharmos com o miminho de subir as escadas do Inatel. Obrigado OMDC, foi giro....a sério...foi giro :\

Cruzei a meta com 6h47. Antes da partida tinha para mim que qualquer coisa abaixo das 8h30 seria bom e tinha a esperança de conseguir baixar das 8 horas. Escusado será dizer que fiquei muito, muito contente com a minha prova e, modéstia à parte, acho que foi a melhor ultra que já fiz! Senti-me sempre bem, nunca quebrei e acabei ainda com bastante energia. Depois do calvário de 3 meses após Arga precisava disto para recuperar a confiança e foi a prova que estou a treinar bem. Fiquei ainda convencido com a estratégia de alimentação e de abordagem à prova, depois de me deixar ficar para trás na partida, nunca mais fui ultrapassado até ao final da corrida. Claro que isto tudo em termos de classificação não vale nada, mas para mim soube-me a vitória! Ou melhor, meia vitória, custou-me não ter a minha comitiva habitual à espera na meta e nem consegui saborear bem o feito. Como sempre, a matriarca ficou em casa a segurar as pontas enquanto eu me divertia no monte!

Quanto à prova, basta dizer que entrou directamente para o meu top 3, a fazer companhia ao MIUT e Serra d'Arga. Montanha a sério, subidas e descidas longas, trilhos "verdadeiros", difíceis e divertidos, paisagens de cortar a respiração, abastecimentos em número e quantidade perfeitos e um local de meta inigualável. Foi a minha primeira vez no Piodão mas certamente não será a ultima, caso consiga ser um dos poucos privilegiados a conseguir passagem!

Fui para o carro, vesti-me, pus uma roupa quente que estava frio, preparei-me para a viagem de 250km até Almeirim e liguei o motor. Na rádio estava a tocar novamente o Samuel... Perfeito :)