As minhas corridas na estrada

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Ultra Trail du Mont Blanc 2016 - A viagem de uma vida.

Às vezes, numa grande ultra maratona, há um momento em que deixas tudo para trás. Esqueces os objectivos de tempo ou de classificação, esqueces aquela celebração que tinhas sonhado fazer durante meses, esqueces as paisagens, esqueces onde estás, como ali chegaste, a tua família e os teus amigos. Juntas tudo, enfias dentro de uma grande mala e arrumas a um canto. De repente toda a tua vida se resume a um único objectivo. Tudo o que fazes tem que ser com a maior eficácia, sem distracções, com concentração, foco e determinação. Geres as dores, o tempo, o esforço. Tudo tem que funcionar perfeitamente afinado e oleado. Tudo para aquele que se tornou o grande objectivo da tua vida: conquistar o próximo metro.


Não vos vou dizer que o UTMB era o sonho da minha vida. Na verdade, nem sequer faço trail assim há tanto tempo! Tudo começou em 2011, na Lousã, e desde então as coisas fugiram um bocado do meu controlo. De repente estava a fazer ultras, depois provas de 3 dígitos, depois o MIUT e, de repente, comecei a pensar "e se...?". Fiz as provas qualificativas, inscrevi-me, tive sorte no sorteio e em Janeiro deste ano estava lá dentro. Parecia tudo tão simples! A própria qualificação para o UTMB sabia a conquista, agora tinha oito meses para me preparar, ir lá desfrutar da prova e tirar umas fotos em Chamonix. Confesso que durante estes oito meses raramente pus a hipótese da coisa correr mal. Delineei o plano a régua e esquadro e preparei-me bem, tudo afinado ao milímetro, só faltava correr as 100 milhas! Mas, de repente, chegou aquele momento. O momento em que deixei isso tudo para trás.

Horas antes desse momento, na Place de l'Amite, em Chamonix, estava de olhos fechados, arrepiado, a ouvir Vangelis no sistema de som enquanto um ambiente absolutamente frenético explodia por toda a vila. Entalado entre 2555 corredores e, literalmente, milhares de espectadores, limpei umas lágrimas malandras que se formavam, dei um ultimo abraço ao meu companheiro João e ouvi a contagem decrescente com o pórtico da meta a cerca de 200m de mim. Estava na hora, ia começar a maior aventura da minha vida.


A primeira etapa da prova era uma espécie de volta de consagração com 9km. E, meus amigos, consagração é uma palavra pequena de mais para descrever o primeiro destes 9km! Chamonix estava completamente à pinha, a lembrar aqueles sectores com mais público do Tour de France, a puxar desde o primeiro até ao ultimo atleta! 

Chamonix - Les Houches. 9km, 118+
Apesar de serem 9km em trilhos largos e estradões, era impossível dispersar o pelotão, éramos demasiados. Seguimos sempre junto ao Rio L'Avre, que corria com um caudal furioso proveniente da neve e glaciares que derretem no verão. Um sobe e desce muito suave, a entrar nos típicos bosques alpinos, muito cerrados a cotas baixas (perto dos 1000m). Seguimos todos em silêncio, nitidamente atordoados pelo entusiasmo demonstrado pelos milhares de pessoas que foram pontuando estes primeiros quilómetros. Em Les Houches tive o primeiro encontro durante a prova com a minha super comitiva: a Sara, Mel & Manel mais o Zé Nuno e a Joana, dois amigos que passaram estes dias connosco. Eles próprios estavam a começar uma grande aventura e na altura nem sabiam o que os esperava!

Encontro com a comitiva em Les Houches
O ritmo até Les Houches andou pelos 6min/km, o que demonstra bem como este segmento foi fácil. Mas as facilidades iam terminar muito rapidamente. Logo de seguida iríamos apanhar a primeira de 10 montanhas que haveríamos de virar. Vamos a ela!

Les Houches - Saint Gervais. 13km, 883+
Apesar desta ser a primeira subida da prova, continuámos em modo "vamos ser simpáticos com eles". Com o vale de Chamonix a ficar pequeno lá em baixo, subimos os 800m em 6km num estradão simpático, sempre aos zigue-zagues que cruzava várias vezes uma pista de ski. Nesta altura tudo era maravilhoso. Não sabia para que lado olhar, é espectacular a sensação de estar completamente imerso nas montanhas, um postal vivo a 360º. Cumpri escrupulosamente com o plano de alimentação, uma barra a cada hora. Sentia-me muito bem e controlado, mas a lutar com o desconforto provocado pelo calor e humidade muito altos. Felizmente (achava eu) a noite estava a chegar. 

Foto do Miro Cerqueira a meio da primeira subida
A descida foi exactamente o que eu imaginava que seria o UTMB. Um trilho largo, simpático, sempre aos ésses pelo meio de árvores gigantes e nascentes de água, muita erva verdinha, chão de terra bom de correr, declive pouco exagerado..uma delícia! Logo aqui se notou uma característica destes trilhos alpinos: quase sempre do topo da subida dá para ver o fundo da descida. É uma sensação quase vertiginosa perceber o caminho que temos pela frente, invariavelmente muito longo! Esta descida, por exemplo, perdia 1000m em 7km. Era das mais fáceis da prova e provavelmente a mais longa que já tinha feito até àquela altura! Só bastante mais tarde iria perceber que estas descidas deliciosas me deixariam tão perto do abismo.

Em Saint Gervais, nos 818m (cota mais baixa de toda a prova) teríamos o primeiro abastecimento sólido. Ainda demasiada confusão para o meu gosto, cumpri o plano de ir trincando qualquer coisa nos abastecimentos para complementar barras/geis e saí logo dali. A noite entretanto tinha caído mas guardei a paragem para colocar frontal e camadas térmicas para quando estivesse ao pé da Sara e do resto da comitiva, que estavam a seguir ao abastecimento à minha espera.


Vesti o corta vento e coloquei o frontal. Ainda estava calor, mas é importante não deixar o corpo arrefecer e ter que despender energia para o voltar a aquecer. Foi aqui, aos 21km, que finalmente acabaram as facilidades. Esperava-nos nada menos que uma subida com 24km e cerca de 2000d+. Despedi-me deles, roubei-lhes uma fatia de pizza e meti a minha game face. Só os voltaria a ver em Courmayeur, 60km depois. O UTMB ia começar.

St Gervais - Les Chapieux. 30km, 2000+
Foi nesta mega subida que finalmente me apercebi da tarefa hercúlea que ainda teria pela frente. Rapidamente percebi uma coisa: no UTMB é tudo em grande. Todas as subidas são intermináveis, todas as descidas são massacrantes. Esta subida até Croix du Bonhomme, muito perto dos 2500m de altitude foi das que mais me impressionou. Desde St Gervais foram 4h30 sempre a subir. Primeiro 10km suaves, num estradão simpático com muita gente a assistir, mas à medida que conquistávamos metros à montanha o nível ia subindo. O estradão passou a trilho largo, que depois passou a trilho e finalmente a caminhos cheios de pedra muito técnicos. Cada vez mais inclinado. Subi sempre controlado, mas um certo desconforto estava a apoderar-se de mim. A muita humidade, que me fez transpirar litros, também me fez perder muitos sais e um dos quadricepes andou muitas horas no limiar da câimbra. Aumentei a toma de sais para tentar controlar a situação, o que deve ter provocado algum desequilibro já que comecei a ter dores agudas na barriga. 

A subida, essa, não facilitava. A cada cotovelo, quando parecia que estávamos muito perto do fim, ela apresentava-nos mais um carreiro interminável de luzes montanha acima. Era quase desesperante, e não era o único a pensar assim. A certa altura um inglês atrás de mim suspira e diz preocupado "my God, it just goes on and on!".

Quatro horas e meia depois finalmente virei a montanha. Esta tinha deixado marcas, principalmente na minha moral. Custou-me, a filha da mãe. Felizmente a descida (mais 5km com 900D-) foi das mais divertidas de toda a prova e aproveitei para desfrutar bem dela. É engraçado que estou a escrever isto e a perceber exactamente os sítios onde errei, mas lá chegaremos... Entretanto estava a aproveitar o trilho quase infinito, sem nenhumas derivações (esta prova quase que nem precisava de marcações) que serpenteava encosta abaixo até desembocar num estradão. Aproveitei mais uma vez para abrir a passada e ganhar algum tempo, quando cheguei ao abastecimento já tinha recuperado o ânimo. Peguei numa sopa e num copo de café e sentei-me na rua, onde estava menos confusão, a comer calmamente. À saída do abastecimento foi altura de uma inspecção surpresa do material obrigatório (atenção, nesta prova não facilitam MESMO) e parti de barriga cheia para o prato seguinte, e que prato: a conquista dos Col de La Seign e des Pyramides Calcaires.

Les Chapieux - Lac Combal. 15km, 1300+
O UTMB é uma prova pensada ao mais ínfimo pormenor, e acho que a secção seguinte foi a prova disso. Tanto a subida a Bonhomme como a descida a Les Chapieux foram muito duras, agora em vez de nos colocarem novamente muita carga em cima, apanhámos um estradão com 4km a subir ligeiramente pelo vale acima. Foi o ideal para recuperar da tareia anterior e preparar o que aí vinha. Claro que não durou muito, rapidamente se começaram a perceber as luzes brancas lá MUITO em cima na montanha. Saímos do estradão e entrámos em mais um daqueles trilhos inacabáveis aos ésses por ali acima.

Foi o primeiro ataque aos 2500m, no Col de la Seign. A subida foi toda feita em escuridão total, não havia luar e a única luz era a dos nossos frontais. Sempre em silencio, só intercalado com o tilitar dos bastões e os ocasionais suspiros desesperados. É engraçado que sendo a prova com mais participantes onde participei foi simultaneamente a mais solitária. Nunca andei sozinho no trilho, mas praticamente todas as minhas tentativas de meter conversa em inglês (não falo uma palavra de Francês ou Italiano) não surtiram efeito, e portugueses era raro encontrar. 

A chegada ao primeiro Col coincidiu com as primeiras luzes do dia, ainda antes das 5 da manhã. Muito muito leve, mas o suficiente para inaugurar um dos espectáculos mais incríveis a que já assisti. De repente o negro da noite começou a dar lugar aos contornos dos monstros que nos rodeavam. Ali, por mais altos que estejamos, há sempre uma montanha mais alta para nos intimidar. Tentava adivinhar qual dos triângulos perfeitos e monstruosos seriam as famosas Pyramides Calcaires enquanto fazíamos uma pequena descida de 200- para voltar a subir, desta vez até muito perto dos 2600m de altitude no Col des Pyramides. 

Esta foi das secções mais técnicas de toda a prova. Muita pedra, calhaus de todos os tamanho soltos, gelo e neve, muito difícil a progressão. Já tinha ouvido várias vezes que só diz que o UTMB não é técnico quem nunca lá foi, e agora apoio 100% essa afirmação. As dificuldades continuaram na descida, toda feita com muito cuidado e quase sempre a passo. Desta vez já não havia trilho divertido para recuperar, havia dureza e dificuldade. A única coisa que atenuava, e até fazia esquecer este banho de realidade, era o espectáculo indescritível do nascer do sol sobre o Lac Combal, a 2000m de altitude. 

Tirada por mim
Cheguei ao abastecimento do Lac Combal, km 66, com 12 horas de prova, 4 horas antes do corte. Estava bastante satisfeito com a minha prova até então. A primeira noite teve momentos complicados, mas estava a comer e beber bem, nunca falhei uma hora de intervalo. Estava naturalmente cansado e amassado, mas sem sono e com energia para continuar. Sentei-me no abastecimento a comer mais uma sopa e um chá quente, dois dedos de conversa com um grego e fiz-me rapidamente ao caminho. Só faltavam 13km para Courmayeur, onde estava a minha comitiva, e eu estava deserto para estar com eles!

Combal - Courmayeur. 13km, 468+, 1250-
No entanto, é quando menos esperamos que tudo muda. Uma subida relativamente fácil, com pouco mais que 400+, por um trilho simples em terra, numa paisagem de outro mundo, quase que me arrumou. O ritmo sereno e controlado que tinha aplicado em todas as subidas de repente tornou-se penoso. Custava-me a mantê-lo e a tentação de parar era crescente. Sentia a cabeça alheada, como se não estivesse ali, e as pernas tremiam. Uma ligeira tontura fez-me parar e debruçar-me sobre os bastões. Foi ali que tudo mudou.

Faltava pouco mais que 1km para chegar ao Arête du Mont-Favre, topo da subida (2417m). Custava-me a respirar e parava 30s a cada 4 passos. Uns americanos ao verem-me sentado perguntaram-me se tinha alguma coisa doce para comer, que estava muito pálido. Meti dois géis de rajada, ligeiramente preocupado. Quando cheguei ao topo sentei-me numa pedra e tentei meter a minha melhor cara, não queria que os oficiais da prova me viessem fazer exames médicos. Nesse bocadinho enquanto lá estive sentado a realidade bateu-me como uma porta na cara: faltam 100km para terminar a prova e eu levei uma marretada com toda a força. E agora...?

Bem, um passo de cada vez, vamos à descida.

Foi a segunda mais massacrante de toda a prova. Nove quilómetros onde se desceram 1250m. Uma inclinação brutal durante muito tempo, ainda por cima em trilhos bastante técnicos que exigiam manobra e travagens constantes. Uma tareia monumental para o core e principalmente os quadricepes! A entrada em Itália foi celebrada com um abastecimento a meio da descida, no Col Checrouit. Lá estava uma banda a tocar, italianos a falar alto, boa disposição e ... pasta! Não estivéssemos nós em Itália. Que bem que soube! 

Esta paragem a meio também serviu para dividir a descida em termos de dificuldade, a segunda parte foi onde perdemos quase todo o desnível num trilho super inclinado a fazer lembrar muito o MIUT. O trilho era belíssimo, não me entendam mal, sempre embrenhado na floresta com constantes mudanças de direcção, mas muito duro. Pumba, pumba, pumba, sempre a bater, não dava descanso! Estava completamente atordoado quando entrei no alcatrão de Courmayeur. Descemos brutalmente de altitude e a minha confiança seguiu o ritmo, estava muito lá em baixo. 

Courmayeur era onde estava colocada a única base de vida da prova, dentro de um pavilhão. Lá estava finalmente a minha comitiva para me receber. O interior do pavilhão, no local onde era permitido recebermos assistência, parecia um cenário de guerra. Dezenas de corpos estendidos no chão, apáticos, as famílias com ar preocupado sem conseguirem fazer nada, um calor brutal, muito abafado. Depressa decidir sair dali. Disse à Sara e aos miúdos para irem para o exterior, fui comer e depois encontrar-me-ia com eles na rua. 

Chegada a Courmayeur. Com o Zé Nuno lá atrás a puxar por mim.
Já na rua expliquei-lhes o ponto de situação. Era simples: tinha rebentado. Estava a meio da prova e tinha rebentado. Olha que novidade, pensam vocês, rebentar numa prova de 100 milhas! Pois, o problema é que quando rebentei estava a 100km e quase 30 horas da chegada. Psicologicamente foi simplesmente pesado de mais, rapidamente comecei a entrar num lugar muito negro. 

Quase falecido em Courmayeur
Decidi enfrentar um ponto de cada vez. Agora estava em Courmayeur, seguia-se uma subida muito dura, foi para lá que virei o meu foco. Demorei-me bastante na base de vida, talvez uma hora. Deitei-me na rua junto à minha comitiva sem conseguir dizer grande coisa. Logo ali naquele instante apeteceu-me lá ficar. Mas porra, nem para eles era justo. Não, vamos ver como corre a subida!

Courmayeur - Refuge Bertone. 5km, 800+
Esta subida seria decisiva. Se fosse como a anterior a prova estava condenada, ainda me faltava ganhar mais de 5000D+ até Chamonix, tinha que conseguir subir. Tomei um gel no ponto onde ela inclinou, o que me deu alguma confiança. Continuava a conseguir comer e beber bem, enquanto mantivesse o depósito com combustível podia ser que ele continuasse a carburar. Passou muita gente por mim na subida, nunca consegui encostar em ninguém, mas a verdade é que a fui papando metro a metro, quase maquinalmente, sem parar. 

Tal como na chegada, onde descemos a pique, foi a pique que saímos de Courmayeur, e quando finalmente o vale se revelou por trás das árvores no topo da subida foi mais um daqueles momentos arrepiantes. Mais impressionante ainda que o vale de Chamonix, a cidade Italiana está instalada na única área que não é composta por paredes monstruosas.

Gostei desta subida. Gostei ainda mais de ter chegado ao refúgio com ânimo, sem nunca ter parado. Nesta altura preferia ainda não pensar se conseguia acabar a prova ou não, faltava tempo de mais, mas agora estava concentrado noutra coisa: a travessia entre os refúgios Bertone e Bonatti.

Ref. Bertone - Ref. Bonatti - 7km, 300+
Esta travessia estava para mim como o ex-libris do UTMB, tal como a travessia entre os picos Areeiro e Ruivo no MIUT. E, meus amigos,  não desiludiu nem um bocadinho. Um trilho perfeito, com muito sobe e desce, dezenas de ribeiros a atravessá-lo com água gelada e boa para beber. Sempre na encosta de uma montanha totalmente coberta de verde do lado direito, e o esplendoroso maciço do Monte Branco do lado esquerdo, separado por um vale profundo 1000m abaixo, uma coisa abismal. Cruzaram-se connosco dezenas de caminheiros que estavam ali a passear. Gostava de voltar ali com a Sara e os miúdos, é daqueles sítios que todos deviam visitar antes de morrer.

Reparem no trilho do lado direito. Aqui até eu sou bom fotógrafo.
Nesta fase estava num período tranquilo da minha prova. O ponto baixo de Courmayeur estava ultrapassado. Claro que me sentia cansado, com 90km nas pernas também mal seria. Acreditava que conseguiria continuar mais uns bons quilómetros, mas a sensação de achar que estava feito continuava muito distante. 

O Refuge Bonatti chegou depois de uma subida de 200m a pique, só porque o senhor Bonatti achou que uma casinha aos 1900m não era fixe o suficiente. No abastecimento haviam várias vitimas do calor, terá sido um factor decisivo para um número record de desistências em 2016 (42%!). Felizmente, o calor que para mim costuma ser um factor super limitativo, não me estava a afectar muito. Talvez porque bebi água e molhei-me em TODAS as nascentes que vi, e acreditem que foram muitas neste percurso. Descansei uns minutos no abastecimento e fiz-me à descida até Arnouvaz, base da grande subida até ao Grand Col Ferret, ultima incursão aos 2500m de altitude. Curiosamente, neste pequena e aparentemente inofensiva descida, reparei numa coisa: estava muito entrevado a descer. Pouco fluído, muito esforçado, com pequenas dores aqui e ali... Era estranho, nunca me tinha acontecido. Preferi não ligar.

Arnouvaz - Grand Col Ferret. 4.5km, 760+
A subida ao Grand Col Ferret marcava para mim um ponto de viragem importante na prova. Era a ultima vez que íamos tão alto e de seguida tinha uma descida de 20km que em principio daria para carregar energias para a parte final da prova. Precisava de a conquistar para definitivamente ver a luz ao fundo do túnel, como tal encarei-a com toda a sobriedade. Comi bem no abastecimento, descansei uns minutos e fiz-me a ela. Devagar mas constante, como sempre.

O que eu não sabia é que esta subida além de determinante é das mais espectaculares do percurso, pelo menos das que fiz de dia. O trilho era perfeito. Pouco técnico, serpenteava encosta acima com inclinações monstruosas e cotovelos a cada 200m, só para termos a certeza que tínhamos uma boa vista de toda a área. Por todo o lado ouvia-se o barulho da água a correr dos glaciares, como se estivéssemos em pleno inverno. O maciço do Monte Branco parecia ganhar uma nova cara cada vez que olhava para ele, e quando chegamos ao Col e pudemos finalmente ter uma vista desafogada do Vale d'Aosta, com o Monte Cervino a destacar-se, foi realmente de tirar o fôlego. Que privilégio poder estar ali!

Uma das vistas lá de cima.
Nesta altura mandei uma mensagem à Sara: "Só não acabo isto se ficar barrado. Vai ser até à ultima gota". 

Devia ter ponderado melhor isso, porque a seguir... bem, ficou pouco mais que uma gota.

Grand Col Ferret - Champex. 24km, 1500-, 400+
Eu adoro descer. Gosto de uma boa subida, mas adoro descer. Não sou o gajo mais rápido, nem nada que se pareça, mas fazer uma boa descida é das coisas que me dão mais prazer no trail. À minha frente tinha 1500m de descida distribuídos por 20km. Isso mesmo, leram bem. Vinte quilómetros a descer. Nos sítios onde treino, Montejunto e Sintra, consigo no máximo descer durante 2 ou 3km. Na Serra da Estrela consegui um pouco mais que isso e no MIUT talvez uns 5 ou 6. Nada que sequer se aproxime desta monstruosidade. Isto é sem duvida alguma um factor determinante quando se apanham descidas destas, muito mais do que nas subidas longas.

Bem, mas não era altura de pensar nisso. A descida começava num trilho maravilhoso muito fácil de correr, e eu fiz-lhe a vontade. Corri que me fartei, feliz da vida! Foram 4km sempre a dar, a descer lentamente para dentro do vale, uma maravilha! Depois, já na Suiça, o trilho mudou. Estreitou bastante e ganhou pedras no caminho, mas continuei a forçar. A Sara, os miúdos e o resto da comitiva estavam lá em baixo à minha espera! Mas a descida não abrandava, nem facilitava. Continuou, e continuou e continuou... O trilho era cada vez mais desafiante, sempre com pequenas subidas pelo meio. Segmentos com muita pedra que nos obrigavam a travar constantemente, outros cheios de raízes que obrigavam a mudar de direcção e massacravam os pés. E ela continuava e continuava, sem fim à vista. Será ali La Fouly? Hm, não.. demos a volta à montanha e continuámos a descer. É ali? Não. Mais descida...

Quando finalmente cheguei a La Fouly, a meio da descida, estava devastado. Parecia que um comboio me tinha atropelado. Vinha atordoado, sem saber bem o que tinha acontecido. Mudei o chip e voltei novamente a um lugar sombrio, voltei a preocupar-me com gestão do tempo de corte e rapidamente fiz as contas para quanto tempo poderia ficar no abastecimento para poder continuar com uma boa margem de segurança. 


No abastecimento a Sara, os miúdos, Zé e Joana dão-me muito ânimo, mas vejo na cara deles que percebem que estou a cair. Também não ajuda eu já não conseguir articular frases com mais que 5 palavras. Deitei-me num parque de estacionamento junto a eles e ali permaneci uns 15 minutos, totalmente imóvel de olhos fechados. 

Um bocado macabro.
Levantei-me com frio, a noite estava a cair. Decidi preparar-me para ela e não fui meigo com as camadas térmicas: camisola interior térmica, tshirt, corta vento e impermeável. Na cabeça coloquei o buff e o frontal. Sabia que estava altamente debilitado, não precisava nada de entrar numa situação de hipotermia que naquele estado muito facilmente se formaria. Despeço-me deles e preparo-me para mais 10km de massacre a descer. Assim que entro novamente no trilho BRRRUUUMMM um trovão gigante precedido de um raio! Oh oh, temos festa!

Os 10km de descida foram muito parecidos com o que ficou para trás. Reparo que não devo ser só eu que vou mal, já pouca gente me ultrapassa. A trovoada veio mesmo e e fustigava agora brutalmente o vale. Chuva grossa e relâmpagos que iluminavam todo o vale, trovões que pareciam avalanches de neve. Um espectáculo que iria apreciar muitíssimo, não estivesse eu já tão perto do abismo que é a completa exaustão física. Custava-me terrivelmente a descer, já implorava por uma subida. Ela chegou aos 120km, pouco depois de um abastecimento improvisado no quintal de uma família onde bebi sentado um grande copo de café quente. 

Iniciei a subida de cerca de 400+, pequena para o resto da prova, com a confiança totalmente abalada. O trilho ainda por cima não facilitou, era cheio de raízes, com lama e chuva, secções a pique e pequenas descidas enervantes que nos afastavam da cota do abastecimento. Tal como no Lac Combal, volta a ser uma subida "pequena" a dar uma estocada enorme. Tenho que descansar várias vezes e afundo-me cada vez mais. Tenho dores horríveis nos pés, normais de tanta pancada, que se acentuam cada vez que piso uma raiz. Sinto-me a cair cada vez mais a pique. Tento agarrar-me ao facto de estar bem dentro do tempo limite e à tal mensagem da última gota, mas o depósito parece-me perigosamente vazio. Teria já gasto a ultima gota?

Chego ao abastecimento de rastos, física e animicamente. A Sara encontra-se comigo dentro da tenda (as regras deixam uma pessoa por atleta dar assistência lá dentro) e apercebe-se imediatamente do meu estado. Deito-me num banco corrido e peço-lhe que me vá buscar uma sopa e um café. A Mel quando me vê deitado naquele estado começa a choramingar e eu sinto-me terrivelmente mal com isso. Forço um sorriso e digo-lhe que o pai está só um bocadinho cansado, que dali a nada íamos brincar os dois. Ela fica muito caladinha a fazer-me festas, coitadinha... A Sara percebe que aquilo não estava a ser bom para ninguém e diz-me que se vai embora, para eu ficar ali meia hora deitado. Digo-lhe que muito dificilmente vai dar, e estava a ser sincero. Naquela altura não me estava de maneira nenhuma a ver a completar os 46km que faltavam até à meta. Ela dá-me um beijo e diz-me que não me preocupe, que faça o meu melhor. Prometi-lhe que ia fazer uma ultima tentativa. Saíram e eu desliguei.

Foto tirada pela minha filha no abastecimento.
Meia hora depois de um sono leve, deitado em cima de um banco corrido, voltei a sentar-me. Estava ensopado e a tremer de frio, mesmo com todas as camadas. Empurrei umas colheres de sopa que já estava fria e senti-me terrivelmente desconfortável quando me forcei a levantar. Mandei uma sms ao Chico, ao Rodrigo e ao Sommer, que desde o início me vinham a enviar mensagens de ânimo, a dizer que ia tentar uma ultima vez, mas que sentia que aquele não era o dia.

Há quem diga que o UTMB só começa aqui, em Champex. Pois bem, eu estava a começar com um pé e meio de fora.

Champex - Trient. 17km, 900+
Cá estavam elas. As famosas 3 montanhas finais do UTMB. Parecem pequenos montinhos, mas cada uma delas tem perto de 1km vertical. A dificuldade vai crescendo de uma para outra, como um videojogo macabro. Enquanto faço aquela pequena descida antes da subida, um italiano diz-me "isn't it just beautifull when you have to go downhill just to go uphill?". Nunca tinha pensado nisso daquela maneira mas...sim, consigo ver a beleza nisso. Acho eu.

A subida teima em não se mostrar. Andamos ali a engonhar em trilhos que fazem lembrar a Lousã, para cima e para baixo. Começo a enervar-me e a ficar impaciente, vamos lá, de uma vez por todas! Até que, olho para cima e vejo umas pequenas estrelas lá muuuito em cima, no escuro. Atrás de mim um colega diz, assustado "oh my God....". Não eram estrelas, eram frontais. O monstro revelou-se.

Respiro fundo e ataco o trilho. É mesmo como eu gosto: trabalhoso. Daqueles que obrigam a tricotar por entre rochas para encontrar um caminho que envolva a menor amplitude de movimentos possível. Já estou quente nesta altura e subo vagarosamente quando o telefone toca. Mensagem do Sommer: "Agora já está feito, tens tempo. É só ir andando.". 

Foi então que se deu o momento que vos falei no inicio desta crónica. O momento em que deixei tudo para trás. Deixei de pensar na lama, nas subidas, nas descidas, nas dores, no corpo, nos abastecimentos, nos géis e nas barras. Deixei de pensar em tudo menos numa coisa: o próximo passo. O próximo metro. A próxima meta. O sucesso estava à distancia de um metro. Um a seguir ao outro. Passinho atrás de passinho. Fui subindo. Concentrado, focado. Só isso interessava, dar o próximo passo.

Cheguei a La Giete, no topo, e era um homem novo. Fiz contas rápidas e percebi que a subida tinha sido feita a um ritmo bastante aceitável. Inacreditável. 

Comecei a descida para Trient com o mesmo propósito da subida. Os quadricepes doíam-me horrivelmente, a grande descida dos 20km tinha-os destruído completamente, mas isso agora estava em segundo plano. Se não conseguia correr andava! Mais 6km a descer, mais 800- no corpo, mais uma tareia. Mas a primeira das três montanhas estava virada e era este o meu ar à entrada do abastecimento:


Lá no abastecimento já não estava a Sara, mas estava o Zé Nuno e a Joana. Já tinham feito centenas de quilómetros naquele dia, foram levar a Sara e os miúdos a casa e voltaram sem dormir para irem ter comigo a Trient. O Zé é dos meus amigos mais antigos, quase um irmão que conheci a vida toda. Digo-o com toda a certeza, não sei se teria conseguido chegar ao fim sem a ajuda dele.

Cheguei ao abastecimento com 3h abaixo do tempo de corte. Analisei as últimas barreiras nas duas montanhas seguintes e achei-os apertados, decido que tinha que sair de Trient com pelo menos 2h30 de folga, e assim foi. 

Venha o Round 2!

Trient - Vallorcine. 10km, 900+
Esta foi a minha subida preferida de toda a prova. Talvez por a ter feito sem relógio, que estava dentro da mala a carregar, foi o perfeito exemplo de subida metro a metro. Outra vez um trilho mesmo como eu gosto, dos que dão trabalho. O sol nasceu a meio da subida, o que me deu ainda mais pica. A segunda noite passou sem deixar grandes marcas e nem sequer me sentia especialmente sonolento. 

Cheguei a Catogne meia hora antes do que estava a prever inicialmente. Mais um boost de confiança! Mas o pior foi a descida. Muito pior que a subida! Não era especialmente difícil, e fresquinho tinha sido uma loucura porque a paisagem era incrível. Mas foi aqui que definitivamente deitei a toalha ao chão em termos de descidas: já não dava. Os quadricepes estavam completamente rebentados. Eu sei que isto é difícil de imaginar, mas não conseguia dar dois passos de corrida a descer sem sentir dores horríveis. Bem, paciência. Metro a metro. Conformei-me e fiz a descida a caminhar, apoiado nos bastões porque até isso me custava.

Cheguei a Vallorcine com as mesmas 2h30 de folga em relação ao corte, a segunda montanha tinha sido virada mais uma vez com sucesso! No entanto decidi que neste iria ficar apenas o mínimo indispensável. Aproximava-se a derradeira subida, o assalto a Tête aux Vents, o último obstáculo no caminho da glória de Chamonix, e toda a gente dizia que esta era A mais difícil do UTMB. Despedi-me do Zé Nuno (sim, estava lá, como sempre) e fiz-me a ela.

ROUND 3!

Vallorcine - La Flegere. 11km, 910+
Começou com um estradão simpático que subia lentamente por 4km. Fi-lo sem grandes pressas, sempre a poupar energia para o que aí vinha. quando cheguei ao fim deste segmento o calor já apertava muito. Despi todas as camadas térmicas menos a t-shirt, a subida ia ser completamente exposta ao sol. Até que a vi.

Linda. 

Uma parede vertical recortada de cima abaixo por pontinhos coloridos até perder de vista, num zigue zague muito geométrico, quase como se fosse uma parte viva da montanha. Senti um arrepio quando a vi e respirei fundo antes de a atacar.

Vamos lá Filipe, tu consegues. Tu sabes fazer isto. Tricotar até lá acima, evita levantar muito as pernas, evita esforços desnecessários. Não puxes demasiado mas não adormeças. Tu sabes isto, vá lá!!

Eu, de facto, sabia isso. Mas não sabia que o que ia encontrar era todo um novo nível de subida. Pedra, pedra e mais pedra. Rochas para trepar, segmentos inclinadíssimos. Subida interminável, parecia que ganhava força de cada vez que virávamos a montanha. "pleeeease, just make it stop!!" dizia eu aos meus colegas japoneses que, como sempre, não me ligavam patavina. 

P*TA DE SUBIDA!

Sacado da net, aqui já não tirei nenhuma foto.
Chegados ao topo, Tête aux Vents, ainda havia um segmento de 4km até La Flegere, local do ultimo abastecimento e controlo de tempo. Parecia fácil, 4km a descer ligeiramente. Mas espera, era a descer, porra! Eu não conseguia CAMINHAR a descer, quanto mais correr num sitio cheio de pedra! 

O sangue começou a ferver. Via o tempo de corte cada vez mais próximo e o abrigo de La Flegere que teimava em não se aproximar. AAAAH se ao menos estivesse fresco derretia esta merda de pedra toda!!! 

La Flegere chegou depois de uma subida de 100+, fi-la quase a correr, estava genuinamente preocupado com os 8km a descer que iria apanhar de seguida até Chamonix. Tinha umas estonteantes 3 horas para os fazer, por isso podem imaginar o meu estado físico para ficar preocupado com uma folga destas.

ROUND FINAL

La Flegere - Chamonix. 8km, 885-
Aí estava ele, o meu ultimo inimigo a separar-me da glória. Uma descida. Uma merda de uma descida. 

Foda-se, esquece as dores, faz-te homem, desce isto a correr, porra!!

Cerrei os dentes e foi literalmente a gritar que fiz os primeiros metros. As dores nos quadricepes eram lancinantes. 

MERDA!!!

Não dá, não dá, não dá!! 

PORRA, vira-te, vai de costas, faz o que puderes!! 

Desci mais de um quilómetro a correr de costas, só parei porque o trilho derivou para um single com muitas raízes e aí era arriscado. Mais uma vez tentei ignorar as dores horríveis, enquanto via no relógio o tempo a passar muito mais depressa que os quilómetros. 

Tomei um voltaren, que se lixe.  AAAAH corre estúpido, esquece as dores!! 

Parei em todas as nascentes para molhar as coxas, levantei os calções de compressão até acima para ver se era disso, dei murros nas pernas.. sei lá, fiz tudo! Mas não havia volta a dar, os músculos estavam destruídos, nada os repararia de repente! 

Merda, aperta contigo porra!!!

De repente a inclinação começou a acalmar e o trilho a abrir. Voltei a correr de costas, mais um par de quilómetros desta vez. Até que encontro um casal português que me diz: "está feito!! O alcatrão de Chamonix está já ali!!!"

Hein? Está feito? Como assim? Acabou a descida?

Estrada plana. 

Corri. 

Consegui correr novamente. Corri, corri e corri. Disse 1895 vezes merci aos milhares de pessoas que batiam palmas e me congratulavam. 

"BRAVO BRAVO!!" Diziam eles. "Merci, merci, merci!!" Dizia-lhes eu! 

No fim já só me ria. Só me ria enquanto corria e tentava perceber se aquilo era só um sonho. Estava em Chamonix. Estava em Chamonix a correr e a rir. 44 horas depois, 171km depois, estava de volta a Chamonix, e estava a rir. 

SUPER! ALLEZ! BRAVO!! Diziam eles!!

Merci, merci, MERCI!! Dizia-lhes eu!!

Ultima curva, a seguir ficava com o pórtico em vista, eu conhecia aquilo!!

A Sara, a Mel, o Manel, o Zé e a Joana. Todos. Na ultima curva antes da meta à minha espera. Levantei os braços e não evitei começar a chorar. Peguei na Mel ao colo e abracei-me à Sara. 




Obrigado, disse-lhe.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

E de repente....

... só faltam duas semanas!!



Pronto, já não há volta a dar. Neste momento esgotei todos os prazos, todos os créditos e todas as oportunidades. Os frutos que colher de 26 a 28 de Agosto serão direta consequência do que semeei nos primeiros oito meses de 2016, que é como quem diz, do que treinei até agora.

Será que foi suficiente?

A resposta, como é óbvio, não é fácil. Uma coisa é certa: fiz o melhor que consegui. Não foi de todo o treino ideal, queria ter metido mais distancia, horas e desnível no derradeiro mês de Julho (em comparação, por exemplo, com o mês anterior ao MIUT 2016, foi ligeiramente abaixo), mas a vida é mesmo assim. Os constrangimentos familiares e de trabalho fazem todos parte do processo. Afinal de contas, a corrida continua a ser a mais importante das coisas secundárias da minha vida, apesar de ocupar um lugar preponderante e central (por vezes até de mais).

A principal diferença para o MIUT deste ano onde, modéstia à parte, considero que fiz uma prova bastante sólida, é que estou num lugar mental muitíssimo melhor. O início deste ano foi de convulsão para mim e para a minha família, desde o nascimento do meu filho Manel, que tinha poucas semanas na altura da prova, ao trabalho que estava tremido, a construção da nossa casa que ia a meio, a nossa morada, digamos, "incerta" na altura… Enfim, alguns quilos de bagagem que me pesaram muito na mochila enquanto atravessava a Madeira. Felizmente, tudo se conjugou nas ultimas semanas e as coisas finalmente encarrilaram.

Com a cabeça no sitio certo, restava preparar-me bem fisicamente, e nesse aspeto também estou tranquilo. Não sou de todo o gajo mais experiente nisto, mas tenho noção que tenho em mim o suficiente para chegar ao fim. Falando de números, tenho desde o início do ano 2219km e 85000D+. Um ano em que mudei completamente a abordagem que tinha aos treinos, privilegiando muito mais o tempo no monte e desnível acumulado em relação à distancia percorrida. O único arrependimento que tenho  é de ter alinhado nos 90km do Estrela Grande Trail, não pela prova em si, mas porque ainda não estava recuperado do MIUT o que me fez perder as seguintes 3 semanas de treino, quando já só faltavam 2 meses para o UTMB.  No entanto, consegui que as ultimas 7 semanas tivessem em média 3000D+, 85km e pelo menos 10h de treino, quase todas em trilhos, incluindo muitos treinos em Montejunto, Sintra e o fantástico fim de semana na Serra Nevada. Podia ter sido melhor, mas penso que foi o suficiente para fazer A MINHA prova.

Quer isto dizer que são favas contadas? NÃO, de todo!! Como já falei variadíssimas vezes, há fatores e variáveis quase infinitas que podem influenciar e ser determinantes para a conclusão da prova. Aquele que me assusta mais é sem dúvida a alimentação. Pode estar tudo a correr na perfeição, mas se o estômago vira vai tudo por água abaixo. Na Estrela tive pela primeira vez a experiencia de não conseguir comer ou sequer beber água, e o corpo como que se desligou. Há algumas estratégias para lidar com a situação se chegar a este ponto, espero sinceramente não ter que as pôr em prática porque tenho sérias dúvidas que chegaria ao fim.

Há aquela tradição de no fim do objetivo cumprido se deixarem os agradecimentos. Mas o principal agradecimento que tenho não será pelas horas que andarei a contornar o Monte Branco. É pelas 10h semanais, pelos fins de semana que podiam ter sido mas não foram, pela atenção e dinheiro que desviei para esta coisa tão pouco secundária que é a corrida, pela paciência e pelo amor infinitos que tenho da parte da Sara e que possibilitaram preparar-me minimamente para enfrentar os 170km que tenho pela frente. Dia 23 lá voará ela comigo, com os nossos dois miúdos, em vez de estarmos numa praia descansados. Mais uma vez lá estará ela agarrada ao telemóvel, a segurar as pontas, a tratar de uma bebé de 3 anos e outro de 6 meses, e, se eu conseguir cumprir a minha parte do acordo, lá estarão os três à minha espera na meta. Ainda não comecei a correr e já ganhei. Obrigado Sara!

terça-feira, 26 de julho de 2016

O dia que tinha tudo para correr mal

Partimos de Évora já bem depois das 19:30. Até essa hora o dia tinha sido perfeitamente comum. Acordar à hora do costume, trabalho, as nossas mulheres, os nossos filhos... Tudo no seu devido sítio, era um dia igual aos outros. Mas às 19:30 íamos embarcar numa aventura que...bem, não há outra maneira de dizer: tinha tudo para correr mal!

Fomos só ali
Foi há umas 2 ou 3 semanas que o Sommer (o Sr. Ribeiro) me enviou uma mensagem no chat do facebook +/- assim: sair do trabalho, conduzir até à Serra Nevada, partir com directa, treinar e voltar. Assim mesmo à mau! Bora?

Pois com certeza!

Ora, as conversas sobre a viagem basicamente ficaram por aqui. Combinámos a hora de partida e o destino. Lá chegados, a única referencia eram 3 tracks sacados da net, um percurso desenhado na cabeça e a sincera esperança que no local as peças encaixassem todas e aquilo corresse tudo muito bem! O que é que podia correr mal?

Depois de um inesperado e espectacular jantar numa esplanada em Elvas, lá chegámos às 5 da manhã a Pradollano, Serra Nevada, uma estância de ski muito famosa. Com o carro estacionado num parque subterrâneo, recolhemos aos aposentos para um sono descansado e retemperador.

Pronto, na verdade os aposentos eram o parque de estacionamento.

Vá, e não foi bem recolher, deitámos os bancos do carro.

Ok, não foi bem descansado e retemperador, estávamos todos um bocado tortos... Mas, hey, acordei quase uma hora depois com a perna a doer-me e completamente adormecida, por isso pelo menos essa descansou bem!

Diogo, eu e Sommer. Sim, foi o Sommer que tirou a selfie. Que fique registado.
Saímos pela rampa do estacionamento e de repente estávamos no track. Ainda estava meio embasbacado a tentar decidir se os 2200m de altitude que o relógio indicava estariam certos, quando os vejo a atacar a subida. Respirei fundo, liguei o cronómetro e dei um passo em frente. O primeiro record pessoal do dia estava batido: nunca tinha corrido a uma altitude tão elevada. Mal sabia eu o que me esperava.

A primeira subida era o ataque ao Pico Veleta, o segundo mais alto da Sierra Nevada e 3º da Peninsula Ibérica com 3390m de altitude. Na base da pista de ski, onde nos encontrávamos, já conseguíamos ver lá em cima o imponente rochedo. Separavam-nos dele 6km com 1200D+.

Vista do Veleta desde Pradolano.
Seguimos até lá acima sempre pelas pistas de ski. O Diogo já lá tinha ido várias vezes esquiar e ia falando do que nos rodeava, mas eu estava a ter um sério problema em concentrar-me porque não conseguia parar de olhar para todo o lado, o que não dava muito jeito já que cada vez que me virava para trás lá vinha mais uma tontura por causa da altitude. A certa altura o track que seguia indicava dois caminhos para o pico, laterais ao vale, por uns estradões simpáticos. Por onde é que fomos? Pelo meio, pois claro. Apontámos alvo ao Veleta e seguimos pelo caminho mais curto. Dávamos dois passos em frente e um atrás? Siga!  Não podia correr mal, pois não?

A azul: Track que levava comigo. A amarelo: caminho mêmámau.


No topo do Veleta.
Lá chegados acima pudemos ver o nosso próximo destino: Mulhacen. O pico mais alto da Península Ibérica, só superado na Europa pelos Alpes e o Cáucaso. Se a paisagem que deixávamos para trás era deslumbrante, esta vertente da montanha, depois de virar o Veleta, era algo quase extraterrestre. Muito inóspito, árido, pontuado com neve aqui e ali. Uma paisagem quase lunar. 

Vista do Veleta. Lá ao fundo o Mulhacen.
Cerca de 7km separavam-nos do próximo pico, e esta era das partes mais interessantes do percurso. Acontece que não eram "apenas" 7km, mas sim 7km sempre acima dos 3000m de altitude. Um dos maiores desafios era conseguir correr neste planalto e perceber como o nosso corpo reagia à altitude. Para quem nunca tinha passado dos 1990m de altitude da Torre, tinha tudo para correr mal!

Fixámos o pico como destino, mais uma vez evitámos os estradões do track e seguimos quase sempre por trilhos que existiam em todo o lado. A certa altura  um trilho levou-nos a uma escarpa muito pronunciada. Na parede estavam presas umas correntes e havia um pequeno patamar de 20 ou 30cm para se fazer uma passagem de 100 metros. É claro que não fomos por lá. Nenhum pai de família que se preze passaria numa via ferrata a 3000m de altitude com um precipício de 500m para trás. Ouviram Sara, Joana e Inês? Isso teria tudo para correr mal, juro que não passámos por lá. E eu não fiquei todo borradinho e com as pernas a tremer. A sério, voltámos para trás!

Também não sei quem tirou a foto.
Já muito perto do Mulhacen o trilho levou-nos a uma cratera que quase parecia de um vulcão, com um lago lá em baixo. A encosta, ou parede, do pico, coberta de xisto refletia o sol dando-lhe um aspecto surreal. Tirando a primeira vez no MIUT, no caminho entre os picos, nunca tinha ficado tão assombrado com uma paisagem.

Lá ao fundo a parede de 400m que teriamos que escalar antes do pico. Ainda iríamos descer 100m antes de o atacar.
Este ataque final ao Mulhacen é o meu ideal de subida. Muito inclinado, sempre com uns ésses apertados, constante e longa. Os efeitos nefastos da altitude já não se faziam sentir desde o Veleta e aproveitei esta subida muito bem. No entanto, reparei que à mínima variação de ritmo as pulsações disparavam, a respiração ficava mais ofegante e sentia ligeiras tonturas. O truque era subir perfeitamente constante e foi assim que o fizemos. 

Parte final da subida. Havia muita gente a fazer caminhadas na Serra.
Cheguei lá acima num estado quase de euforia. Que subida perfeita! Já para não falar do tempo, que apesar de muito sol, àquela altitude soprava um vento fresco que nunca deixava a máquina aquecer de mais. Lá em cima havia um pequeno palanque em betão e ao lado um rochedo. Eu armei-me em esperto e subi ao rochedo. Foi giro, descobri uma coisa nova: tenho vertigens! É indescritível a vista lá em cima. O pico tem uma proeminência brutal, o que quer dizer que a vista é desafogada em quilómetros e quilómetros.

No Mulhacen, antes de ficar quase em pânico com as vertigens!
Fotografia da praxe. Uma já estava!
Na fase seguinte tínhamos planeado descer até aos 2500m, onde existia um refúgio de montanha. Para isso tínhamos um segundo track e a vã esperança que as coisas magicamente se interligassem na perfeição. De certeza que ia correr tudo bem! Assim que ligo o track aquilo não batia certo. Hm.. caga no track, vamos perguntar ao espanhois. É para ali! Diziam eles. Onde? Naquele vale? Si si! Bem, não há-de ser nada, sabemos que é mais ou menos para aquele lado, é ir andando! O que é que podia correr mal?

A descida dos 3500 aos 2500 foi das minhas partes preferidas do treino todo. Primeiro num single cheio de pedra, sempre aos ésses mesmo como eu gosto e depois quando já só tínhamos estradão à vista (relembro que não sabíamos bem para onde íamos) decidimos mandar-nos de cabeça pela encosta, sem trilho nem nada, cada um inventava a sua trajectória, o importante era chegar à base do vale e esperar que o refúgio estivesse mesmo lá! Uma loucura, acho que foi das vezes que me diverti mais a correr de sempre!

Na base da encosta, conseguem vê-los lá atrás. Foi por aqui abaixo mêmámau!
Incrivelmente, numa estratégia que tinha tudo para correr mal, demos logo com o refúgio! Uma casa isolada na imensidão da montanha, com tudo o que era preciso para dar assistência aos montanhistas que por lá passavam. Decidimos descansar um pouco antes de atacar um novo quilómetro vertical que nos levaria de volta ao Mulhacen. 

No refúgio. Acho que tirei mais selfies neste treino que no resto da minha vida.
Uma hora e tal depois (quem é que estava a contar?), estratégia afinada, fomos para a parte final do treino. Era simples, subir ao Mulhacen outra vez e depois ir para casa. O que é que isso implicava? Nada de especial, só um quilómetro vertical com 4km de extensão, dos 2500 aos 3500m de altitude! 

Porra, já disse isto em voz alta 200 vezes e continua a soar MESMO à mau!

A subida seguia o rio Mulhacen, que no verão não era mais que um pequeno ribeiro, mas o suficiente para fazer crescer erva à volta e cortar um bocado a paisagem inóspita de toda a Serra. Uma espécie de oásis com água gelada. Seguimos junto ao ribeiro durante metade do KV, sempre muito frescos, num trilho espectacular. Era tão ridiculamente bonito que lembro-me de dezenas de borboletas azuis voarem cada vez que pisávamos a erva verde fofa. A sério natureza? Vá, não exageres.

Ridículo.
A parte final desembocou na já conhecida vertente do Mulhacen, para uns salutares zigue-zagues 400m por ali acima. Que subida! Demorámos 1h36 a cumprir o KV, o que, modéstia à parte, foi mêmámau! Estávamos de volta aos 3480m de altitude e tínhamos virado o pico mais alto da Península Ibérica duas vezes no mesmo dia. Se há momentos que pedem uma foto, não me vão dizer que este não é um deles,

O papel foi um espanhol que emprestou.
Conseguem ver na encosta os dois trilhos que a sobem. Primeiro fomos pelo da esquerda e depois pelo que sobe a direito.
Dobrado o Mulhacen pela segunda vez, estávamos com cerca de 27km e 3000D+, cumpridos todos acima dos 2500m de altitude, com excepção dos 2 primeiros quilómetros. Mais uma vez, vou só ali arrumar a modéstia um bocadinho, mas estava a ser um treino do caraças! O melhor de tudo é que estávamos os 3 bastante frescos quando atacámos a descida pelo trilho em zigue-zague. Faltavam só 13km para estarmos de volta ao carro, por um caminho que já conhecíamos, o treino estava feito!

O problema foi exactamente esse: para nós, o treino estava feito. Mas faltavam ainda uns bons quilómetros incluindo os 1200D- em 6km que subimos logo ao inicio. O pior de tudo neste descida, além de ser super longa, é que do ponto mais alto conseguimos ver o nosso destino. Enfim, não havia volta a dar, era altura de meter a faca nos dentes, cerrar os punhos e comer pedra até lá abaixo. Já lá estávamos, agora era só fechar aquilo!

Foram 41km e 3300D+ no total. Um treino que tinha tudo para correr mal: partimos praticamente de directa, não tínhamos percurso definido, não conhecíamos pontos de água, não estávamos habituados à altitude...Tudo, tudo para correr mal. Mas não correu nada mal. Não, foi perfeito!

Agora vou aproveitar que pela primeira vez tirei um monte de fotos e meter um bocadinho de nojo, se não se importam. Aqui vai.





Dezenas de cabras nos pontos mais altos


segunda-feira, 4 de julho de 2016

Jornada Dupla: Moinhos Saloios On Fire

Nos dois últimos fins de semana, mais ou menos involuntariamente, experimentei um método de treino novo para mim: o chamado back-to-back. A diferença para fazer treinos diários, que faço, é que são dois treinos, ou provas, de grande intensidade, separadas por poucas horas. O que acontece é que as poucas horas que intervalam o esforço (no primeiro fim de semana foram apenas 7 horas) não são as suficientes para que o corpo recupere da prévia tareia, o que faz com que no segundo dia rapidamente se entre numa zona de esforço muito avançada. Quer dizer, eu não percebo nada de fisiologia, isto há-de ter alguma explicação cientifica, a minha opinião vem da experiência e da aplicação do coeficiente de arrasto, ou seja, a pouca capacidade de no 2º treino fazer algo mais do que arrastar-me.

Ora então, o menu foi composto por: Trail da Coruja + 28km em Montejunto no primeiro fim de semana e Santarém On Fire Trail + Moinhos Saloios no segundo.

A intensidade na linha da partida!
O Trail da Coruja foi a primeira edição de uma corrida organizada em Coruche. Com começo às 21 e 15km de extensão. Muito rápida, divertida e interessante! A pedido da organização escrevi uma pequena crónica da mesma que podem ler aqui. O dia (ou madrugada) seguinte era de 28km com cerca de 1650D+, que é a volta base de Montejunto. Acabou por ser o treino naquela Serra que me custou mais fazer. De sempre! 

Este fim de semana, por coincidência, o plano era muito parecido. Primeiro um trail nocturno, agora em Santarém, que se previa muito rápido, e na manhã seguinte os 25km desta vez de uma prova, o 3º Trail dos Moinhos Saloios na Venda do Pinheiro.

A subir uma encosta de Santarém
O Santarém On Fire Trail foi a primeira edição de uma prova organizada em Santarém pelos Bombeiros Municipais (só a organização explica/desculpa o nome meio manhoso). Foram 18km pelas encostas e centro histórico da cidade com partida a umas ainda muito quentes 20h de sábado. 

Ora, eu treino rampas em Santarém todas as semanas (Almeirim fica naquela planície que vêem lá atrás na foto anterior) desde há muito tempo. Pensava que conhecia os recantos e melhores sítios para treinar da cidade, por isso foi num misto de pânico e surpresa quando a meio da 3ª subida da prova comecei a pensar onde é que aquele pessoal tinha ido desencantar aquelas paredes! O percurso foi um constante sobe e desce por trilhos muito interessantes, com subidas demolidoras mas nunca maiores que 90D+ (a orografia não o permite), algumas descidas bastante técnicas e sempre, sempre no red line. Uma espécie de prova de 10km de estrada mas em trilhos! Muito bem marcada, apenas com algumas falhas por fitas claramente roubadas, com 3 bons abastecimentos onde bebi apenas água, quase com 700D+ num misto de trilhos, escadas, calçadas e estrada! 1h41 que me valeram um 14º lugar (não foram muitos pros, obviamente) passadas de pulmões quase em combustão. 

Uma prova muito parecida com a de Coruche, apesar de mais dura, num formato que me atrai bastante. Ao contrário das ultras, onde o factor gestão é super importante, aqui é começar à morte e acabar a morrer, o que oferece um conjunto de sensações a que não estava habituado. De realçar também a excelência da prova e organização. Depois da Scalabis Night Race, para mim a melhor prova de 10km do país, Santarém atinge agora o seu potencial máximo numa prova de trilhos muito interessante que recomendo a todos. Ah, e no fim ainda houve banho no Complexo Aquático, Sopa da Pedra e bifanas para todos. A repetir!

Cartaz dos Moinhos Saloios
Na manhã seguinte rumei à terceira edição do Trail dos Moinhos Saloios, em Venda do Pinheiro. Seriam 25km com 1000D+, o que não sendo um grande desnível era óptimo para complementar o treino anterior. 

Avisado pelas dificuldades que tinha passado a semana anterior, estive uma boa meia hora a alongar em Santarém, na esperança de estar mais fresco nos Moinhos. Infelizmente fresco foi a palavra mais distante possível de tudo o que se passou no Domingo!

A prova teve inicio às 9 horas, no relvado sintético de Venda do Pinheiro. O estádio está um pouco fora da cidade, mas no sentido oposto da localização dos montes onde decorre a prova, o que implica alguns quilómetros (poucos) iniciais e finais necessariamente em estrada antes de chegarmos aos trilhos. Esta não é uma prova com grandes pretensões. Pelo contrário, é uma prova honesta, organizada com gosto e sem grandes manias. Está lá tudo: um percurso que explora ao máximo as potencialidades da zona, abastecimentos bem apetrechados e em bom número, um EXCELENTE abastecimento final, boas marcações e gente simpática. Estão lá bons trilhos (como o do javali, meu preferido e que me levou a pensar que todas as provas têm um trilho do javali), duas subidas desafiantes, a Manique e Atalaia, e muitas outras mais curtas e perfeitamente corríveis, também lá estão as necessárias ligações em estradões e até um chuveiro de água fresca numa localidade a meio da prova!

Infelizmente, uma prova que tinha tudo para ser tranquila, foi de um sofrimento atroz para mim! E atenção, o meu plano nunca era ir no limite, mas antes percorrê-la tranquilamente. Assim que saímos do estádio e temos uma PEQUENA rampa em alcatrão para subir, parecia que já ia com 40km nas pernas. Estive vai não vai para começar a andar logo ali! O que se seguiu foi um espectáculo deprimente e o definhar vergonhoso de um gajo que daqui a menos de 2 meses vai andar a correr 100 milhas nos Alpes. A certa altura apanhámos uns degraus para subir e lembro-me de pensar que aquilo me estava a custar mais que a travessia entre os picos no MIUT deste ano. O calor não ajudou, é certo, mas isso não é desculpa e até serve de aviso, o ano passado esteve muito calor no UTMB e é mau sinal ir-me abaixo desta maneira. A certa altura já estava tão desconfortável que só queria que aquilo acabasse. Assim que inclinava um bocadinho começava logo a andar!

No fundo era isto que eu queria, um treino intenso. O objectivo foi plenamente cumprido, apesar de todo o desconforto. Estou convencido que este método de treino tem mesmo efeitos, porque em condições normais e com o treino que ando a fazer, não teria grandes dificuldades em completar a prova, apesar do calor intenso. Fi-la em 2h56, com uma aparentemente boa classificação de 35 em 200 e tal, que mais uma vez só foi possível porque não havia muita gente a andar muito.

Destaque especial para o abastecimento no final, na meta. O melhor que já vi! Um dos patrocinadores da prova era um produtor de queijo, então havia queijo fresco com fartura. Eu mamei logo 3 e proponho a partir de agora que queijo fresco (juntamente com melancia) faça parte dos produtos obrigatórios em abastecimentos de provas no verão!

Com Simão, Dourado e Chico. Companheiros de muitas aventuras, antes da prova.
Pois é, o mês de Julho está aí e com isso faltam menos de dois para o UTMB. Partindo do principio que as 3 ultimas semanas vão ser a descer, este é o mês do tudo ou nada. Estou confiante e tranquilo, há planos para ser um mês em cheio. Como sempre disse, se alguma vez fosse ao UTMB iria treinar como nunca treinei na vida para aproveitar a oportunidade, e acreditem, não a vou deixar fugir. Estou quase em Chamonix!




quarta-feira, 22 de junho de 2016

O Combustível

Uma das coisas mais assustadoras fascinantes de correr ultra distancias é a quantidade quase infinita de variáveis que podem influenciar a nossa prestação. Vamos treinar o máximo e o melhor que podemos, vamos testar equipamento até à exaustão, vamos delinear planos alimentares a régua e esquadro, decorar o perfil, vamos fazer tudo conforme as regras. Mas depois a meio da prova apercebemo-nos de uma bolhazita provocada pela água toda no percurso (que não era suposto existir), ou o estômago vira por causa de um gel a que não estamos habituados, ou desata a chover, ou está um calor infernal, etc etc, e de repente estamos num mundo novo. Deitamos fora a folhinha branca A4 dobrada e arrumada a um canto da nossa cabeça, rasgamos o canto de um papel velho e amarrotado, pegamos num lápis mal afiado e começamos a delinear a estratégia que nos permitirá chegar até ao fim.

Confesso que demorei bastante tempo a aceitar o facto de que há coisas na corrida que não consigo controlar. Sou uma pessoa extremamente metódica e analítica, apaixonei-me pela física e formei-me em engenharia civil precisamente pela satisfação e conforto que me dá pensar em coisas absolutas. Curiosamente, essa incerteza nas ultras é das coisas que mais me atrai! Deve haver uma explicação qualquer para isto, mas, como não sou um gajo das humanidades, escapa-me.

O truque parece ser controlar o máximo de variáveis possíveis. Nesse aspecto, acho que há 3 importantes campos a serem trabalhados:

Já disse que gosto de esquemas?
O Treino é o mais importante de tudo. Todos os aspectos do treino - físico e mental.

O Equipamento utilizado durante uma prova que dura muitas horas é importantíssimo. Quero fazer um post sobre o que vou levar para o UTMB, mas esse campo ainda vai ser trabalhado nos próximos dois meses.

O terceiro vértice do triângulo, a Alimentação, é o que me levou a escrever este artigo.

Ao longo dos anos já andei em campos completamente opostos do espectro: desde achar que bananas e amendoins é mais que suficiente, até ir carregado de coisas na mala. Nesta altura estou bastante seguro da minha estratégia para o UTMB e é por isso que faço este post. No entanto, é importante partir de dois pressupostos:

1 -  Não tenho qualquer acompanhamento a nível da nutrição. Todas as conclusões a que cheguei são baseadas no método experimental. Este método dá origem a um corolário: sendo ele baseado na MINHA experiência, não sei se se aplicará a outros.

2 - Não é por fazermos uma alimentação imaculada que vamos chegar ao fim sem levar com a marreta. É só mais uma variável que tentamos controlar e dessa forma adiar a vinda do senhor do martelo. Que eu saiba ainda não há barritas que se transformem em pernas, por isso o melhor é treinar.

Posto isto, vou aqui deixar uma bomba que aposto vai ser novidade para vocês, já que duvido que alguma vez alguém tenha chegado a essa conclusão: o nosso corpo precisa de combustível para andar.

Pronto, deixem assentar, respirem...

É verdade. Não me perguntem quantos gramas de hidratos ou proteínas precisamos por hora. O que sei é que, por experiência, se não for abastecendo o depósito de vez em quando, mais cedo ou mais tarde meto o pisca e encosto à borda da estrada.

Independentemente do que há nos abastecimentos, há uma coisa que não pode falhar: no máximo de hora e meia em hora e meia tenho que ingerir qualquer coisa. Já aprendi que não posso estar dependente dos abastecimentos das provas. Primeiro porque nem sempre são completos ou bem localizados, depois porque podem passar horas entre abastecimentos, e isso pode ser fatal. A consequência é andar carregado como um burro de carga e ter os ombros doridos ao fim do dia, mas quando começo uma prova tenho que saber que posso chegar ao fim sem precisar dos abastecimentos sólidos.

Como disse lá atrás, já experimentei de tudo neste campo. No MIUT do ano passado, fora dos abastecimentos, apenas ingeri 2 (dois) géis durante a prova toda. Ok, o MIUT tem os melhores abastecimentos que já vi, mas não foi de todo suficiente. Por exemplo, entre Curral de Freiras e o Pico do Areeiro, onde estavam dois abastecimentos de sólidos, passaram 16km e  +/- 1500d+. Nesse ano demorei umas 5 ou 6 horas a cumprir o percurso, isto tudo sem comer! (estou neste momento a auto-infligir calduços com bastante força). Só um exemplo de que estar dependente dos abastecimentos, pelo menos para alguém do meu nível, NÃO FUNCIONA.

Já andei carregado com comida a sério. Sandes, panados, frutos secos, atum, etc... Ponto negativo nº 1, é muito volumoso e pesado. Ponto negativo nº 2, ao fim de algumas horas é virtualmente impossível comer alimentos muito secos. Não estou a exagerar, por mais que me esforce é IMPOSSÍVEL engolir certos alimentos. Empapa e não desce. Se muito a esforço conseguir empurrar com água o mais provável é ficar enjoado a seguir.

As barras parecem uma opção lógica. São alimento sólido, têm lá na fórmula os ingredientes todos que interessam, são pequenas e saborosas (algumas, vá). Mas tal como as sandes, sei que a partir de certa altura não as vou conseguir comer, é certinho.

O gel, que ainda há um ano era um grande NÃO na ementa, é, para mim, o combustível ideal. Têm os hidratos, os eletrolitos e essa treta toda, podem ter cafeína, são rápidos de ingerir e depois de 3 goles de água vão abaixo e já não nos lembramos dele. O ponto negativo é que se tiver sensação de fome até posso comer 3 géis que ela não me passa.

Posto isto, senhoras e senhores que conseguiram ler até aqui sem adormecer, aqui está a minha estratégia de alimentação para o UTMB:
  • Ir carregado com géis e barras que nem uma mula. Na primeira metade da prova, até Courmayeur, +/- 20h, vou levar 10 barras e 10 géis. Nesse abastecimento, que serve de posto de vida, vou ter outras tantas barras e géis num saco para abastecer até ao fim. As primeiras horas vou tentar comer 2x barra 1x gel (com cafeína). Por exemplo: 1h30 (barra), 3h (barra), 4h30 (gel com cafeína). Já sei que vou enjoar as barras, por isso vou aproveitar enquanto o estômago deixa para ir atafulhando. A partir do momento em que começar a não entrar as barras vou-me virar exclusivamente para o gel, para que não haja hipótese do motor ficar a seco.
  • Levarei apenas água pura comigo, 1.5l no camel back, não gosto de levar bidons nem flasks. Vou aproveitar todos os abastecimentos para beber isotónico e café. 
  • Em todos os abastecimentos vou tentar meter comida "a sério". Sei que a única que vai entrar sempre bem será comida mais húmida, tipo canja, banana, marmelada ou aletria. O ideal seria como no MIUT, onde comi canja em TODOS os abastecimentos, mas não sei se isso será possível no UTMB.
  • Não levo isotónico comigo mas levo cápsulas de eletrólitos. Não sou muito disciplinado com elas, normalmente só tomo quando tenho ameaças de cãibras. Nessa altura tomo de meia em meia hora até me esquecer, sinal que já passaram as cãibras. 

Estas são as marcas que vou usar:


Zipvit ZV7 - Um bocado espesso, mas daqueles que parece que dão mesmo um boost. Há vários sabores e a caixa pode ser comprada com uma mistura de sabores. É bom porque assim vamos variando e não enjoamos. Será o meu principal alimento



Zipvit ZV7c - Com as características do anterior mas a adição de uma quantidade grande de cafeína. Não sabe tão bem como o outro, mas para mim é importantíssimo ir ingerindo cafeína, principalmente durante a noite logo antes de amanhecer.



My Protein Ener:Gel - Uma muito boa surpresa. Não tem o poder do Zipvit (quantidades de hidratos, etc), mas é muito mais fluído e saboroso. Parece que estou a beber um sumo. É bom para desenjoar do outro e mesmo assim ir alimentando.

As barras são a maior dor de cabeça. Já experimentei uma quantidade muito grande delas, mas acabo sempre por as enjoar e depois nem consigo comer nos treinos, quanto mais em prova. Gostava ainda de experimentar outras barras mais "orgânicas", como por exemplo as Olimpo, mas até ver estas são as duas que se têm mantido na dieta e que à partida vou levar.

Gold Nutririon Extreme Bar - É provavelmente a barra com sabor mais sintético de todas, parece um chocolate Mars. Mas apesar de ser um bocado borrachosa não empapa, e em 4 dentadas mandamo-la abaixo. O melhor que tenho a dizer delas é que são as que como mais e ainda não  enjoei.


My Protein Energy Bar - Bastante maiores que as Extreme, talvez por isso quando as como fico mais saciado. À primeira dentada parecem muito duras e difíceis de comer, mas curiosamente não empapam nada. Muito saborosas, parecem aqueles snacks que se vendem para a dieta.

Cápsulas Hammer Endurolytes - Basicamente são cápsulas de sais. Não há muito a dizer sobre elas, é sal... Não abuso, como disse lá atrás só as tomo quando sinto as cãibras a chegar.

Alguma sugestão por aí? A gerência agradece.


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Estrela Grande Trail (90km)

Cometi alguns erros este sábado na Serra da Estrela. O principal? Fui arrogante. Subestimei a prova e a Estrela. A humildade deve ser dos factores mais importantes quando se enfrenta uma montanha e desta vez não a inclui no meu equipamento obrigatório. O resultado foi o óbvio: voltei para o meu lugar com o rabinho entre as pernas, envergonhado, vergado a uma força infinitamente maior que eu.


A partida coincidiu com os primeiros raios de sol de um dia que se adivinhava perfeito para correr. Nem frio, nem muito calor, nem chuva. Perfeito, como o ambiente na partida. Deixei-me ficar lá bem para trás quando chegaram as 6 da manhã, e assim ataquei a primeira subida da prova, que surgiu poucos metros depois de passar o pórtico.


Sem tempo para grandes contemplações começamos a primeira escalada do dia, primeiro num estradão que zigue-zagueava entre árvores gigantes que de vez em quando abriam para nos dar um vislumbre do assombroso Vale Glaciar. Depois num trilho dentro de um bosque no cume da montanha, com a vegetação a ficar mais rasteira e os maciços graníticos mais frequentes, até virarmos a montanha, entrarmos no Vale do Rossim e darmos de caras com o espelho de água da represa que reflectia o azul do céu em contraste com os mantos verdes pontuados de cinzento do planalto. O sol, que entretanto também já tinha virado a montanha, disfarçava o vento frio e compunha este quadro quase irritantemente perfeito. Para trás tinham ficado 10km e quase 900 metros de subida, sinceramente nem dei por eles. Gosto destes inícios de prova brutos, nada como chegar ao topo de uma montanha fresquinho para dar confiança!


Os 12km seguintes, até ao 2º abastecimento na Garganta da Loriga, foram dos meus preferidos da prova. Quase sempre a subir, sempre em direcção à Torre que espreitava lá bem ao fundo, uma paisagem virgem e idílica, com mantos verdes rompidos por rochas gigantes que pareciam ter sido colocadas na terra por alguém com sentido de humor. Atravessámos a Fenda da Talisca, saltitámos por entre os milhares de charcos de água transparente, subimos e descemos rochas, cada vez mais alto, cada vez mais perto da Torre. Chegados muito perto dos 1900 metros, com a Torre quase à distancia de um braço, virámos para a Garganta da Loriga.

Talisca. Obrigado Google!
Já tinha ouvido falar muito desta descida. Criei uma grande expectativa em relação a ela, sabia que seria a mais difícil da prova e tinha-lhe um grande respeito. Aqui não fui arrogante, mas todas as projecções que tivesse feito estariam sempre a anos luz da realidade. Descemos por uma garganta super apertada, quase claustrofóbica, que parecia dividida em pequeno patamares à medida que progredíamos. Rochas e mais rochas. Impossível correr, impossível sequer ter um passo constante. Escorreguei dezenas de vezes em rochas molhadas, caí algumas, perdi o fôlego a cada patamar, senti as pernas a latejarem e desesperei quando a empreitada simplesmente parecia difícil de mais, mas depois entrávamos noutro patamar e...bem, tudo fazia sentido outra vez. O quilómetro final, já em estradão e a chegar a Loriga, foi feito a correr e a fazer contas de cabeça ao estrago provocado nas pernas pelos mais de 1000m de descida. Não há-de ser nada.

As pedrinhas da Loriga. 
Saí do abastecimento muito moralizado e confiante, a previsão do tempo de passagem batia certo quase ao minuto. No entanto tinha perfeita noção que a prova só começaria dali a 7km, quando estivesse na base da subida para a Torre.

Os quilómetros até lá, ao Alvoco, passaram sem grande história. Uma subida curta, seguida de uma descida fácil em estradão embalaram-me até ao abastecimento onde estavam a Sara e os miúdos. Sentei-me a comer uma canja calmamente, tirei a camisola térmica e confirmei com ela a previsão de 2 horas para a subida de 1200D+ até lá acima. Desde o início do dia que estava desejoso por enfrentar o quilómetro vertical do Alvoco, era o desafio final do EGT, chegado lá acima com pernas seria o suficiente para ir até ao fim calmamente. Achava eu.

Encarei esta subida quase como uma tarefa do trabalho. Acho que nem levantei a cabeça para olhar para a paisagem, a minha mente trabalhava como uma máquina: escolher onde meter os pés, avaliar o nível de esforço e adaptar a velocidade de subida. Se fosse preciso abrandar, abrandava. Comecei a passar alguns colegas e a ganhar confiança. Lembrava-me de quando fiz o quilómetro vertical há dois anos das partes mais difíceis e de quando serenava. A meio da subida, com 1 hora, comi um gel que quase me fez vomitar. Não tinha levado os géis habituais e que tão bem resultaram na Madeira, comprei antes uns à pressa na feira na noite anterior. É só gel, não há-de haver problema. O ultimo quilómetro, já muito mais suave que o resto da subida, é feito com a Torre em pano de fundo. Percorri-o a sorrir, orgulhoso pelo feito e por ter chegado ali aparentemente com pernas. A estratégia estava a resultar na perfeição, tinha domado a montanha, nada podia correr mal a partir dali!

A recepção :)
Entrei no abastecimento eufórico e virei-me para a mesa da comida. Meti uns bocado de queijo à boca que empaparam, tive que os cuspir na rua. Desde a canja do Alvoco que vinha mal disposto e a cada gole de água dava 2 ou 3 arrotos que se deviam ouvir a 2km (bonita imagem). Bah, agora também é só descer e gerir o resto da prova.

Despedi-me da Sara e dos miúdos, e combinei que já só os veria em Manteigas. Era agora altura de percorrer o famoso Trilho do Major, que nos levaria até ao Vale Glaciar. Encarei-o como uma recompensa pelo esforço da subida anterior. Nada como uma descida num trilho bonito e corrivel aos ésses pela montanha para recuperar de uma subida violenta. Mal podia esperar para o atacar!

Saímos da estrada na Torre e começámos a descer por uns caminhos com alguma rocha e muita água. Corremos 200 ou 300 metros na neve, que fizeram as delicias tanto dos atletas como dos fotógrafos, e voltámos à pedra. O caminho era espectacular, mas muito difícil. Cruzámos uma estrada de alcatrão e entrámos em novo trilho. Era agora que ia começar a minha descidazinha aos ésses boa de correr!

Miro Cerqueira, a fazer fotos de capa desde 2015.
Ah.. Mas.. Isto está cheio de pedra! Talvez descendo mais......não, pedra! 

Rocha, rocha e mais rocha. Mas não são pedras soltas, são rochas grandes que temos que alçar a perna, usar as mãos e o rabo para transpor! Uma brutalidade de descida, uma espécie de Garganta da Loriga! A paisagem era de cortar a respiração, mas ia de tal maneira atordoado que nem me apercebia. Nunca caminhei tanto numa descida, não conseguia correr em lado nenhum. Em parte pela dificuldade técnica mas principalmente pela bordoada que tinha levado. Ninguém me disse que a descida era fácil ou que era corrível, eu é que meti isso na cabeça. Este aparentemente pequeno revés foi o suficiente para despoletar tudo, a partir daqui foi sempre a descer. Não me interpretem mal, os 8km de descida são das coisas mais incríveis que já vi! Muito variados, desafiantes, técnicos... Mas o click já tinha acontecido, e não havia trilho fresquinho aos ésses que me desse a volta. 

Foi quase hora e meia a descer, muito lento. Perdi a noção das horas e o controlo do tempo a que devia comer, quando me lembrei disso tentei comer uma barra mas já só consegui dar uma dentada. Empurrei o resto com água o que me deixou mais enjoado. Depois como no abastecimento... 

Vejam a parte final do trilho, dá para ver as pedras. Foto da Sara.
O abastecimento apareceu depois de uma parede de 300D+ que nos voltou a levar para fora do Vale. Apliquei a estratégia do costume nas subidas, mas esta já foi muito a esforço. Foi com alivio que cheguei ao estradão que nos levaria até ao abastecimento em Poios Brancos, 54km percorridos.

Chegado lá pousei os bastões e preparei-me para comer. Experimentei bananas, uma barras de cereais, marmelada, queijo.. Já nada entrava. Não havia canja, era isso que me salvaria! Paciência, vou continuar, no Vale de Amoreira há de certeza.

A partir daqui a prova mudou radicalmente. Não a minha, essa mudou um pouco mais atrás como perceberam, mas o percurso da prova. Tornou-se de facto rolante, e a prova disso foram os 7km a descer quase sempre em estradão até ao Poço do Inferno, local do 8º abastecimento. Percorri-os quase sempre a correr, todos na casa dos 6min/km, mas sempre muito a esforço. Já nada saía naturalmente, sentia que estava à beira do precipício, ao mínimo desequilibro caía para o outro lado. Cheguei ao Poço do Inferno uma hora antes do inicialmente previsto, o que me dava uma boa margem para ainda conseguir as 16 horas, Talvez ainda desse...

Assim que saio do abastecimento, onde só havia líquidos mas não valeu de muito já que não conseguia beber nada, apanho uma pequena subida, a primeira desde o Vale Glaciar. E foi aí que...


Se houvesse mais neve no pico de certeza que o meu estoiro teria provocado uma avalanche.

Dez quilómetros separavam-me do abastecimento do Vale de Amoreira. Dez quilómetros de estradão quase sempre a descer mas com algumas picadas pelo meio. Nada de extraordinário não é? Pois, não devia ser, mas foi. 

Comecei por fazer as subidas cada vez mais devagar e a demorar mais tempo a recuperar antes de iniciar a corrida nas descidas, até que desisti e fazia as descidas a andar. Aqui ganhei uma nova companhia de viagem, as moscas. Verdes e moles, entravam-me para dentro da boca, ouvidos e nariz. Assim que parava atacavam. Agitava os braços feito maluquinho, estava a entrar em desespero! Por favor, quem estiver a ler isto e que tenha estado lá, digam-me que não estava a alucinar e existiam de facto moscas verdes mutantes naquela parte do percurso! 

De repente a ideia de desistir começou a formar-se na minha cabeça, cada vez que parava e me debruçava sobre os bastões ganhava mais consistência. Desde a Torre que não conseguia comer ou beber, algo porque nunca tinha passado antes e estava agora a ter o seu preço. Estava completamente drenado de energia, o próprio acto de segurar os bastões já era difícil e arrastava-os no chão enquanto andava. A 3km do abastecimento estava perfeitamente decidido a ter a primeira desistência da minha vida e conformado com a ideia, não fazia sentido continuar assim. O quilómetro final, já no alcatrão e ligeiramente a descer, demorei uma eternidade a percorrer. Sentei-me umas dez vezes no chão. Disse à Sara para me vir buscar. Estava em paz com a minha decisão, nada de dramas. 

Chegado ao abastecimento sentei-me numa mesa à parte do resto das pessoas, debrucei a cabeça sobre os braços e assim fiquei algum tempo. Não que me estivesse a sentir mal, mas nem forças para levantar a cabeça tinha! Tirei a mochila e preparei-me para esperar pela Sara. Estava irritado e frustrado, é completamente estúpido pensar que se tem uma ultra dominada só porque se desenvolveu "um sistema", como se não houvessem milhares de variáveis só à espera para nos mandarem abaixo. Não sei o que me chateava mais, se a constatação desse facto ou ter falhado redondamente os objectivos que tracei de maneira tão arrogante neste post

Passaram uns bons 20 minutos até a Sara aparecer. Nesse tempo algumas pessoas vieram falar comigo e tentaram convencer-me a continuar. Uma dessas pessoas foi a Carmen, que basicamente me trouxe de volta à terra. "Mas o que é que tens? Estás com vómitos? Caíste? Doi-te alguma coisa? Torceste um pé? Não?? Então não continuas porquê??? Cansados estão vocês todos! Vá ver!"

Pois..realmente.. nem um tornozelozito dorido...

Bem, mas estava decidido. Quando a Sara chegou ainda estivemos ali uns 10 minutos, até que me levantei para ir embora com ela. 

Meti a mochila às costas. Para ir embora, claro.

Peguei nos bastões. Para levar para o carro.

Comecei a andar em direcção ao carro, quando...

"Olha pronto, vou continuar. Até logo!" Virei as costas e segui caminho.

Desenganem-se, não há aqui nenhuma explicação romântica, nenhum renascer das cinzas ou final épico. Foi em modo Walking Dead que percorri os 20km que me separavam da meta. Primeiro arrastei-me os 800m D+ estradão acima, depois gatinhei nos 800m D- estradão abaixo. Continuei sem conseguir comer ou beber nada, até à manhã seguinte. Deprimente, completamente vergado. Sinceramente acho que não me arrependeria de ter ficado no abastecimento. Não há que fazer grande drama com as desistências, ninguém nos está a julgar, não temos nada a provar a ninguém. Não, nem é bem isso, na verdade ninguém quer saber! Ainda agora que estou aqui sentado a escrever tenho dúvidas se tomei a decisão certa.

Quatro horas depois do abastecimento do Vale de Amoreira, cheguei. Foram quatro horas que serviram para pensar bem nisto da ultra corrida, esta coisa insana de passar horas e horas num limite físico e mental. É estúpido, é masoquista, é, é, é...... pois, isso tudo! Mas.... depois chega a meta e...... o que é que eu estava mesmo a dizer...?






quarta-feira, 18 de maio de 2016

90 quê..?

Hm? 

Estrela Grande Trail? 

90 quê..? Quilómetros?

Ah, pois.. mas isso é só lá pra Maio! Dia 21 ou lá o que é...

Como é que é? Já estamos em Maio?

Ok...mas dia 21 é só.....

ESTE SÁBADO?!?


Pois é, numa altura em que ainda olho para a pulseira do MIUT que carrego no pulso direito com muita saudade e nostalgia estou a 2 dias de alinhar nos 90km com 5300m D+ do Estrela Grande Trail.

Quatro semanas separam as duas provas. É muito pouco? Pois é, têm razão. Felizmente o meu treinador é um gajo porreiro e compreensivo e deu-me o aval, mas só depois de uma conversa muito intensa. Foi mais ou menos assim:

- Man, queria muito ir àquela prova do Armando Teixeira na Estrela, com 90km...
- Hm, isso não é muito perto do MIUT?
- Sim. Mas é na boa!
- Ah, então está bem!

A seguir a Sara perguntou-me porque é que estava a falar sozinho e eu calei-me e fiz a inscrição.


Confesso que nunca tinha estado tão fora de uma prova como desta. Faltam dois dias e ainda não entrei de todo "na zona". Culpa da ressaca do MIUT que ainda não passou, do trabalho que tem sido intenso, e.. bem, por coisas da vida! Por um lado é bom, já que os níveis de ansiedade estão no mínimo, mas é estranho estar à beira do precipício e não sentir formigueiro na barriga. A verdade é que vai ser um desafio brutal: 90km n'A SERRA de Portugal. Sitio onde só corri uma vez mas que figura no meu imaginário como o derradeiro local para correr em Portugal. 

Parto para ela com vários objectivos. O primeiro, e mais importante, é conseguir fazer uma prova sólida nesta distancia. Consegui fazê-lo nos 50km do Piodão, mas falhei (sinto que foi por pouco, mas falhei) no MIUT 2016. Depois quero consolidar a minha forma a subir, que me tem deixado satisfeito, mas principalmente meter quilómetros de descidas nas pernas, onde ainda estou MUITO longe de ser eficaz. Acho que despendo demasiada energia nas descidas para a velocidade que levo, continua a ser a minha maior preocupação para o UTMB. O terceiro e ultimo objectivo é daqueles mais fúteis, mas gostava de voltar a conseguir um lugar no primeiro terço da tabela, como aconteceu no MIUT (sim, conto que os que desistem, e sim, foi mesmo mesmo mesmo no fim do primeiro terço eheh). 

Como sempre, fiz uma previsão do tempo estimado com base num sistema altamente complexo, criado por mim, que consiste em ir aos resultados do ano passado e ver quanto é que fez o gajo do meio. E o resultado foi: 16 horas.