As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Ultra Trail do Piodão 2017 (50km) - Dava para pedir mais?

O ano passado foi sem dúvida das minhas provas preferidas. Não só porque me correu muito bem, mas principalmente porque adorei o percurso, que é bem ao meu jeito. Gosto de subir durante muito tempo, gosto de recuperar em descidas longas e gosto, muito, de andar na montanha. E o Açor é montanha a sério.

Mais um post com a excelente contribuição fotográfica do Miguel Cadalso! Tenho que começar a fazer o meu calendário em função das provas que ele participa.
O fim de semana tinha tudo para correr bem. Pela primeira vez este ano conseguimos fazer uma viagem de família até uma prova. Saímos os 4 ao fim do dia rumo ao Inatel Piodão, para nos juntarmos aos companheiros do Grupo Desportivo da Parreira até domingo. A previsão era de tempo frio e seco, perfeito! No entanto, nas ultimas semanas andei sempre com a sensação que estava longe do meu melhor e como não abrandei a carga na semana anterior preparei-me para mais uma prova sofrida, como foram praticamente todas este ano.

Foto da meta tirada pela Sara da janela do nosso quarto no Inatel. Viu a partida sem ser preciso sair do quarto, luxo!
Este ano, ao contrário de todas as anteriores edições, a partida foi dada no centro da aldeia do Piodão, em vez de ser no Inatel. Foi essa a única diferença no percurso em relação ao ano passado, os 500m da descida e subida ao hotel. Olhei 360º à volta para as grandes montanhas que nos rodeavam, estávamos bem no fundo do vale. Percorri o percurso mentalmente uma ultima vez, lembrava-me bem quais os picos que subiriamos, para onde partiriamos e o caminho de regresso. Junto ao pórtico as caras conhecidas são mais que muitas. Últimos cumprimentos e fotografias e estávamos prontos para a viagem. Siga!



A partida foi dada e imediatamente entrámos no trilho que nos levaria até Chãs d'Égua, na base da primeira grande subida do Piodão Ultra Trail. Foram 5km tranquilos, num single muito bonito com pequenas subidas e descidas, ideal para meter o motor a funcionar antes de começarem os grandes desníveis da prova. 


O primeiro abastecimento (eram 7 no total!!) apareceu logo aos 5km, nesta aldeia. Não parei, estava com pouco mais que meia hora, mas aproveitei para armar os bastões e preparar-me para os 600m de desnível da primeira grande subida da prova. Primeiro em escadarias da aldeia e depois, a grande maioria, num estradão que zigue-zagueava pela encosta permitindo aliviar a inclinação em vários patamares. 

Não sendo fisicamente dotado e não treinando os volumes que outros treinam, tenho consciência que a gestão das provas e do meu esforço é dos maiores trunfos que tenho. Dificilmente me apanham em picanços ou a perseguir alguém que me passa. Ainda por cima pouco confiante como estava, a minha estratégia era simples: esta subida teria que envolver o mínimo de esforço possível, de forma a chegar lá acima incólume. Escusado será dizer que numa subida tão acessível como esta, e no início da prova, passaram dezenas de pessoas por mim! Escusado será também dizer que, apesar de não aumentar o passo para ir atrás, foram poucas as vezes que ao passarem por mim não pensei "espera lá que já te viro, ainda falta muito!" :)

Parte final do estradão da subida, foi só aqui que meti passo de corrida.
Parece ter resultado. Quando cheguei ao topo não estava minimamente cansado e ataquei os 5km de descida até Malhada Chã com alma. Um aspecto que acho perfeito nesta prova é que as descidas dão sempre para recuperar das subidas, apesar desta até ser das mais técnicas da prova. Um single espetacular numa encosta, com muita pedra e algumas pequenas subidas. Muito longa e variada, tive a sorte de andar quase sempre sem ninguém à frente ou atrás e pude meter o ritmo que era mais confortável para mim. Foi aqui que comecei a sentir que talvez fosse um bom dia.

Chegada a Malhada Chã
Malhada Chã é daquelas aldeias que só se vêem nos postais. É tudo perfeito! Bem no fundo do vale, do lado oposto da mesma montanha onde está o Piodão, com pequenas pontes e escadas de xisto. Era lá que estava o segundo, muito basto, abastecimento. Aqui já parei para beber uns copos de isotonico (gold drink, da gold nutrition) e umas fatias de presunto. Ultimamente tenho tomado mais atenção ao aspecto da reposição de sais. Não me apetece implementar a rotina de tomar uma cápsula de sais de hora a hora, já chega ter que me preocupar com a comida, mas em todos os abastecimentos meto alguns sais. Muitas vezes opto por banana com sal, que há em todas as provas, mas se há presunto como neste não hesito.

Da aldeia, lá bem de baixo, dá para ver o Picoto do Cebolo, ponto mais alto de toda a prova nos 1400m. Nova subida de 600m, esta com uma primeira metade bastante inclinada que depois desagua num estradão na cumeada que nos leva até Picoto. 

À saída de Malhada Chãs

Primeira parte da subida, no trilho mais técnico
Foi nesta primeira parte, a mais difícil, que realmente entrei na prova. Adoro este tipo de subida em que posso ir a tricotar de forma a encontrar o caminho que implique menos amplitude de movimentos. Apercebi-me que estava muito entusiasmado quando dei por mim a tagarelar com o Miguel, que já me respondia pouco eheh. 

Chegados ao estradão há um pequeno troço plano, antes do ataque final. Tal como no ano passado, as pernas respondem sem hesitar ao passo de corrida que imprimo. Está a correr bem, mas não me entusiasmo. Assim que inclina volto a andar com os bastões. Nesta altura, com a Estrela nas costas e acima dos 1000m, está um vento cortante muito frio.

Aqui ainda a correr, com o picoto lá ao fundo
Ops, já está a subir, toca a andar!
A partir daqui separei-me do Miguel, por isso as fotografias vão diminuir. Mas acho que já é seguro dizer que nunca tive um post com tantas! 

A segunda subida da prova foi conquistada mais uma vez sem grande esforço, agora seguia-se outra longa descida até Covanca. Lembrava-me bem desta parte no ano passado. Os dois primeiros quilómetros eram um estradão que, não sendo demasiado inclinado, permitia soltar completamente as pernas se assim o quiséssemos. Assim foi! Disparei para dois quilómetros muito rápidos antes de entrarmos numa parte mais inclinada e finalmente num trilho que nos levaria até à aldeia de Covanca, aos 25km, onde estava o terceiro abastecimento. 

Metade da prova estava feita e as sensações eram muito boas. Comi uma sopa de legumes e fiz-me ao caminho até à Fornea, próximo abastecimento. O caminho até lá é possivelmente das partes mais desinteressantes do percurso inteiro, com uma subida não muito grande no meio dos eucaliptos, depois uma secção intermédia em alcatrão e finalmente dois quilómetros em trilho que já acaba ligeiramente a subir até à Fornea. 

Cerca de 1km de alcatrão plano, até apanharmos o trilho
O que não é nada desinteressante é o abastecimento da Fornea. Se a subida seguinte é a mais conhecida do percurso, este abastecimento é daqueles que dão nome ao Mundo da Corrida. Um autentico banquete de casamento! Nesta altura ainda estava cheio com a sopa de Covanca, mas arranjei espaço para meia bifana, muito salgada, como se quer.

Como referi no parágrafo anterior, esta próxima subida é a mais temida do percurso. Curiosamente, desde que percebi que estava num bom dia, estava ansioso por a encontrar. Tal como aquela primeira parte da subida ao Picoto do Cebolo, toda ela é muito técnica e inclinada, não tão longa como as outras, mas mais trabalhosa. Meti o meu passinho certo e tricotei por ali acima com o entusiasmo em crescendo. Já perto do fim, com o motor a entrar em sobre aquecimento, começou a soprar uma brisa gelada que tratou de arrefecer para níveis confortáveis. Perfeito!

Parte final da subida, já menos inclinada mas com as mesmas pedras.
Virada a montanha, a vista é incrivel. 10km separam-nos do Culcurinho, ultimo pico do dia a conquistar, as eólicas instaladas na cumeada indicam-nos o caminho até lá. Mesmo por baixo de nós já se vê o Piodão, mas ainda há uma grande volta a dar antes de lá chegarmos. 

Aquele pico lá ao fundo é o Culcurinho.

Foi nesta altura que deixei de parte a estratégia conservadora e comecei a dar um bocado mais. Não que tivesse desatado a correr por todo o lado, mas já forçava muito mais do que até ali. Foi assim nos 10km de sobe e desce intermédios até ao ataque final ao Culcurinho, ultimo grande obstáculo da prova e onde o ano passado levei uma pequena marretada.


São apenas 300m de subida em estradão, mas facilmente apanham desprevenidos os mais incautos (como me apanhou a mim, o ano passado). Basicamente porque já ninguém conta com ela nesta altura. As três grandes subidas da prova, aquelas que saltam à vista no perfil, estavam ultrapassadas, era só mais um montículo antes da grande descida final! Nada mais errado, são 300 metros muito inclinados numa altura que já vamos com cerca de 2300d+ nas pernas, isto numa cota acima dos 1000m. Se não formos mentalizados para ela o homem da marreta espera por nós confortavelmente lá em cima na capela.

Início da subida, com a capela lá ao fundo no pico.
Parte final
Desta vez já não me apanhou desprevenido, mas confesso que vacilei um pouco aqui. Lá no topo estava o penúltimo abastecimento. Parei brevemente para beber isotónico e uns amendoins, o ano passado as cãimbras atacaram-me nesta ultima e longuíssima descida, não queria voltar a passar pelo mesmo.

São 7km e 800m de descida que nesta altura nos separam de Foz d'Égua. É muito raro apanhar descidas tão longas em Portugal e eu sei, por experiência própria, como elas podem ser perigosas. É muito mais fácil treinar subidas que descidas. Não há reforço muscular ou treino de propriecoiso (nem com a ajuda do Google consegui escrever esta palavra) que simulem a tareia que é para o corpo levar com uma grande descida deste género. Primeiro numa parte muito inclinada e com muita pedra, que nos obrigava a travar constantemente, depois num estradão infinito que zigue-zagueava e permitia meter velocidades mais altas e finalmente num trilho mais técnico, numa mistura explosiva para os quadricepes, que hoje estão bem doridos. Excelente!

Miguel, tive que ir ao Google buscar uma imagem da Foz d'Égua, estás a falhar!
Chegados ao Shire, perdão, a Foz d'Égua, estava à nossa espera o ultimo abastecimento da prova (recordo, de 7 (sete)). Apenas 3km separavam-nos do Piodão, num single que subia vagarosamente pela encosta, vale acima. Sentia-me na máxima força nesta altura e forcei bastante, sem nunca me sentir a quebrar.

Trilho de acesso ao Piodão. Pronto Miguel, estás perdoado.
A chegada ao Piodão foi pelo mesmo sítio do ano passado, com cerca de 500m a descer. A diferença é que desta vez ficámos por lá, em vez de subirmos os 500 metros até ao Inatel. Cortei a meta a sentir-me bem e muito satisfeito! 

Foto tirada pela mulher do Miguel. Vou contratar a família toda para o Quarenta e Dois!
Demorei 6h43, menos 5 minutos que o ano passado, mas se juntarmos o km que foi cortado o tempo seria ligeiramente superior ao anterior registo. Acreditem, não é da boca pra fora quando digo que o tempo foi o menos importante neste dia. Na verdade, considero que a minha prova foi perfeita! Foi uma das poucas vezes que sinto que venci a distancia de 50km, sem nunca quebrar, com uma gestão perfeita do esforço. Este ano raramente me senti assim. Desde os Abutres, quando comecei a desconfiar de tudo, que andava pouco confiante para o que aí vem (o MIUT). Era exactamente de uma prova destas que precisava para voltar a ganhar confiança.

À minha espera na meta estava o Vasco, do GDP. Juntos fizemos o que ficou a faltar: a subida ao Inatel. Não que tivessemos muita vontade mas..estávamos lá alojados :)

O dia continuou com um banho na piscina do Inatel com os miúdos, jantar no hotel com a família do GDP e no domingo ainda deu para passear pelo Piodão e ir até à Estrela ver a neve. Um fim de semana que só não foi MESMO perfeito por causa do Judas Pereira!

Jantar no Inatel. Grande grupo!

A nossa melhor tentativa de foto de família. Quase que os miúdos ficavam bem!

A Estrela ainda tinha muita neve. E o casaquinho vermelho de finisher do Circuito Endurance da ATRP? Ah pois é!
A três semanas de enfrentar mais uma vez o MIUT dificilmente poderia pedir um fim de semana melhor. Agora sim, estou confiante que o treino feito desde o início do ano não me deixará mal. Não quer dizer que a prova está no papo, se há corrida que não se dá com este tipo de sobranceria é o MIUT, mas sei que tenho o que é preciso. Segue-se uma semana ainda de carga com um longo mais suave e duas semanas a descer até ao grande dia. A ele!

segunda-feira, 27 de março de 2017

II Trilhos de Bellas (27km) - Trail debaixo d'água.

Depois de na primeira edição ter falhado por lesão e de uma segunda edição adiada pela organização, este domingo foi finalmente dia de me estrear nos Trilhos de Bellas, a convite dos meus amigos dos Go!Runners. 


Como sabem, daqui a 4 semana vou tentar pela terceira vez atravessar a Madeira, no MIUT. Uma prova como esta, curta e com muito parte pernas, em principio não seria o mais ajustado para esta altura do campeonato, mas aproveitei para no dia antes fazer um bom treino no Montejunto e compor um bocadinho mais o fim de semana. O quê? Mesmo assim não foi boa ideia? Meh, não interessa.

O dilúvio anunciado alterou o plano de uma viagem em família, que incluía a prova + um almoço pela zona, para mais uma empreitada solitária. Foi então sozinho que, às 9:20, estava dentro do carro a ganhar coragem para apanhar os primeiros pingos de chuva do dia, para ir levantar o dorsal. O inevitável foi adiado até ao limite. Saí do carro e dei inicio à molha que só seria interrompida lá para as 13:15, quando voltasse a entrar no carro.

As provas perto de Lisboa parecem-me sempre um convívio de conhecidos, acho que ali todos se conhecem. Poucos minutos antes da partida para a prova longa (27km) ainda os quase 300 atletas estavam encostados a um prédio, protegidos da chuva pelas varandas, até que nos começámos a dirigir lentamente para o pórtico. Breves palavras do Filipe Sousa ao microfone, contagem decrescente de 3 para 0 e ala que se faz tarde e isto de estar parado à chuva não tá com nada!

Única foto da meta que encontrei!
O previsível parte pernas começou uns escassos metros a seguir à meta. Primeiro num caminho largo até ao topo e depois a descida por um trilho simpático, no meio de umas árvores. Muitas vezes andámos em trilhos utilizados pelo pessoal das bikes para o downhill, curiosamente a maior parte deles fazíamos a subir. Na primeira metade da prova achei o equilíbrio entre trilhos e estradões perfeito. Notou-se bem a preocupação na escolha do percurso para ligar a máxima quantidade de trilhos, e a verdade é que há bons trilhos por ali! Por vezes o terreno fazia-me lembrar a Serra de Sintra, com os grandes maciços de granito arredondado. 

sobidesce sobidesce sobidesce sobidesce sobidesce
A chuva, que não parou um segundo, tornava tudo mais desafiante. Muitas vezes os próprios trilhos serviam como canais de escoamento de água. Confesso que adoro correr com estas condições! Andámos dentro de ribeiros e em estradões pesadíssimos, com aquela lama que prende a sapatilha. 



A certa altura passámos por dentro de uma conduta de água de uns 2.50m de diâmetro e talvez uns 100m de comprimento, com água pelo meio da canela. Não sou grande fã deste tipo de obstáculos, mas admito que é só uma questão de gosto, porque o pessoal que ia perto de mim pareceu estar satisfeito. Assim que saímos voltámos ao carrossel de subidas e descidas, que por não terem muito desnível permitiam andar sempre a bom ritmo, principalmente quando era preciso abrir a passada nas descidas. 



A meio do percurso entrámos numa zona um pouco incaracterística em relação ao resto do percurso, com 2 ou 3km de estradão. Soube depois que tiveram à ultima hora que cortar uma parte do trajecto e que aquela foi a melhor solução. Compreensível, e confesso que na altura até soube bem para desenrolar e papar alguns quilómetros. A viragem e regresso aos trilhos aconteceu com a entrada no Prémio Montanha, um segmento cronometrado numa subida com cerca de 100m de desnível, das mais longas da prova. Lá em cima estava o segundo de dois abastecimentos. Bastante completos e, na minha opinião, em número suficiente para uma prova com estas características. 

A simpática equipa do primeiro abastecimento
Os últimos 10km foram talvez a melhor parte do percurso. Sentia-me bem e acabei por fazê-los todos a passo de corrida, e que delícia foi passar a abrir por aquele emaranhado de trilhos no meio das árvores nos quilómetros finais! 

A pedir velocidade!

A chuva, que foi aumentando de intensidade ao longo da manhã, funcionou um bocado como anti-climax na chegada. A zona da meta estava naturalmente com pouca gente e meio tristonha. Encaminhei-me, ensopado, para uma espécie de tenda militar onde estava o abastecimento da meta, mas este só tinha laranjas. Soube depois que haviam bifanas e pasteis de nata ali perto. Burro, a culpa foi minha que nem me dei ao trabalho de me informar antes! Corri, literalmente, até ao carro para trocar de roupa e tentar aquecer, já que além da chuva estava bastante frio. Tenho pena de não ter ficado para o convívio, ouvi dizer que correu muito bem.

Gostei da prova! Muita gente da organização ao longo do percurso, marcações irrepreensiveis, abastecimentos bem compostos e em número suficiente. Mas o que interessa realmente é que tinha bons trilhos num percurso divertido, duro qb e nada monótono. Cada vez mais é o que procuro e valorizo numa corrida.

Quanto à minha prova, foi o esperado para esta altura. Foram 3h05 sempre a andar bem, mas há algum tempo que não me sinto forte nas provas e acabo-as sempre um pouco frustrado. Não tenho abrandado nada nestas ultimas semanas e agora seguem-se os 50km do Piodão no próximo sábado. Depois sim, começam 3 semanas de tappering até estar novamente em Porto Moniz para enfrentar mais um MIUT. Espero que esta sensação de cansaço nas últimas semanas seja mesmo de andar a apertar de mais e que chegue afinadinho à Madeira!

segunda-feira, 20 de março de 2017

III Trail de Almeirim - do lado fácil.

Nesta terceira edição do Trail de Almeirim a primeira vez que entrei no Pavilhão da Escola Preparatória das Fazendas de Almeirim foi no Sábado. Quando lá cheguei já os kits estavam ensacados, os stands dos patrocinadores montados e o pórtico de chegada a ser montado e limpo pelo Hélder e o Francisco. No secretariado, a Andreia entregou-me o meu dorsal e o da Sara. Devemos ter sido dos primeiros a levantar, porque ainda faltavam duas horas para a abertura oficial. Não faz mal, já estava tudo preparado. 


Nessa manhã, enquanto treinava em Montejunto, os três percursos do Trail de Almeirim (30, 18 e caminhada) estavam a ser passados a pente fino, à procura de fitas e placas por colocar. Por isso, quando cheguei ao local de partida, no Domingo, tinha a certeza que o trabalho duro estava feito e que não ia falhar nada. O que também não falhou foi o discurso do Omar antes da partida da prova longa. Inevitavelmente é ele a cara do trail, e todos os que ali estão já o conhecem. Com a atenção que a adrenalina pré-prova permite, ouvimo-lo a apresentar os padrinhos e vassoura da prova, imediatamente antes da contagem decrescente para a partida. Passavam poucos minutos depois das 9 quando os 130 e tal começaram a viagem.



Não participei nas várias reuniões e dias de trabalho no campo, por isso o percurso era uma incógnita. Nem sequer conhecia o ponto de entrada na nossa Serra, 1km de alcatrão depois e imediatamente num trilho novinho. Também não estive envolvido na decisão de distribuição dos abastecimentos, por isso foi uma surpresa quando ainda nem 5km tínhamos e já estávamos a passar pelo primeiro! Lá estava o Joel e comitiva, a dar boas-vindas e uma palavra de ânimo, que nesta altura até era mais importante do que mesas recheadas de comida (que até estavam).


Eu só tive que correr neles, mas alguém abriu e roçou mato de maneira a oferecer tanto single track novo. A certa altura cheguei a pensar que talvez tivessem feito um esforço extra e tapado todos os estradões da Serra, porque vi muito poucos! Os meus familiares trilhos antigos apareciam do nada, ligados por caminhos novos. 

Também do nada apareceu o segundo abastecimento, aos 11km. Relembro, estamos numa prova de 30km e aos 11 já vamos com dois abastecimentos. Mais uma vez não parei, agradeci o apoio ao Hélder e equipa, vi de relance os tabuleiros cheios de queijo, fruta, enchidos, marmelada, e sabe-se lá mais o quê, e trotei trilho acima.

O parte-pernas é constante. A nossa Serra não dá para mais, a amplitude é muito pequena, por isso não há super subidas. Há que compensar com muito carrossel. Os quadricepes não se queixam do pouco trabalho, pelo contrário, há algum tempo que estão a ganir! Arrasto-me trilho acima e abaixo enquanto o suor escorre em bica e arranho as pernas no tojo. Começo a sonhar com um isotonico fresquinho, que não levava, quando aos 17km aparece o terceiro abastecimento no Vigia, o ponto mais alto da Serra. Lá estava o Clemente vestido de frade, 3 mesas cheias de comida e copos de isotonico à disposição. Emborquei três antes de me fazer aos 6 ou 7km mais fáceis da prova, os únicos onde deu para rolar e abrir a passada, até chegarmos a novo abastecimento (sim, 4, em 30km!). Mais uma vez declino a muita comida disponível e troco umas rápidas palavras com o Paulo enquanto sorvo mais uns copos de isotónico. Faltam 8km, dizia ele, a parte das Camelas.

O ultimo brinde preparado pela A20KM era num terreno completamente desconhecido para mim. Não participei nas reuniões onde se decidiu levar o pessoal para ali. Provavelmente teria ficado com uma ponta de pena ao perceber o martírio que todos passariam já tão perto do fim! Mais carrossel, mais sobe e desce, mais singles. Às tantas já não se sabe se vamos a subir ou descer, só sabemos que doi! Quando finalmente saímos do labirinto das Camelas vejo o David a 200 metros da meta, que me recebe com um abraço. 

Agora era só correr até ao pavilhão, entrar lá para dentro, receber a medalha gravada à mão pelo Vitor das mãos da Oriana, irmã do Omar. Desta vez só tive que tomar vantagem do muito completo abastecimento final já na meta, não tive que me preocupar com reposições. Alguém se estaria a preocupar, já que não faltava nada. 

Chegada da grande Sara Brito, vencedora feminina.




Segui para casa com a Sara, que correu na caminhada, para tomar banho antes do almoço incluído na inscrição. Quando lá chegámos só tive que me dirigir ao refeitório e, sem nenhuma fila, recolher a minha taça de Sopa da Pedra, uma bifana e um pampilho, e sentar-me num dos muitos lugares disponíveis. As bebidas eram à descrição, escolhemos entre a diversa oferta e almoçámos calmamente à conversa. Dentro da cozinha via o Alexandre na azáfama do costume a orientar tudo e todos. Estava a correr bem, cá fora as coisas estavam perfeitamente fluídas.

Preparação para o almoço
Para mim o Trail de Almeirim acabou ali. Para eles, a dúzia que trabalhou durante meses, ainda ia a meio. Havia ainda muito para fazer. Nos últimos dois anos eu era um deles, desta vez a minha missão estava muito simplificada: só tive que correr 30km!

Não tenho qualquer justificação para acabar o post com esta fotografia minha e do Rodrigo, mas vou fazer isso na mesma. Obrigado pela compreensão.

NOTA - todas as fotografias são da minha amiga Fátima Condeço.



domingo, 12 de março de 2017

Território - Circuito Centro - Vila de Rei 2017


Para a segunda prova do ano decidi voltar a um Circuito que me deixou muito boas recordações há dois anos, o Território - Circuito Centro, da Horizontes. Na altura corri na etapa de Proença a Nova e gostei muito. Desde o percurso, ao ambiente familiar e paisagens, foi uma prova que me surpreendeu e me deixou com muitas expectativas para aquela que, parece-me, é a etapa rainha do circuito: Vila de Rei. Se correspondeu? Bom... o melhor é continuarem a ler.


Esta prova tinha desde logo uma característica que a diferenciaria de todas as outras etapas do circuito: serviu para apurar dois atletas para o campeonato do mundo de trail, a realizar em Itália. Claro que este facto serviu para chamar toda a elite do trail nacional, tornando-a numa cimeira como poucas vezes se vê, com as principais figuras a competirem directamente. O revés da medalha é que se perdeu o ambiente familiar, o que, sinceramente, também não me faz assim grande confusão. Por razões óbvias, o aumento de competitividade na frente não me afecta lá muito!

Antes da partida houve ainda um momento importante (para mim, claro). Há alguns meses que saí da Associação 20km de Almeirim mas foi apenas recentemente que me juntei a um grupo de bons amigos que já me acompanha na corrida há muito tempo, o Grupo Desportivo da Parreira, nomeadamente o Vasco, que para quem segue este blog não é nenhum estranho. Sábado foi o dia em que vesti pela primeira vez a camisola do GDP.

Atletas do GDP presentes em Vila de Rei.
Cumpridas as formalidades do levantamento de dorsal e controlo zero, fez-se a concentração junto à câmara municipal para uns últimos conselhos e contagem decrescente. Passavam uns minutos das 9 da manhã quando os 200 e tal partiram, sob um céu nublado a ameaçar chuva. Vinte segundos depois, mais coisa menos coisa, já levava 2km de atraso para o grupo da frente. Esfumaram-se cedo as minhas pretensões de qualificação para Itália :(

A partida
O percurso começou logo a subir até ao ponto mais alto da corrida, no marco que assinala o centro geodésico de Portugal, aos 600m de altitude. Os estradões inclinados que nos levaram até lá acima, aos 4km, foram depois substituídos por um trilho bastante longo e rápido a descer outros tantos quilómetros. Na etapa de Proença a Nova foi uma característica muito vincada do percurso, secções muito interessantes, técnicas e até difíceis, com ligações por estradão e estradas florestais. Na altura não me chatearam nada os km de estradão, porque se notava que estavam ali por uma razão. Além disso eram quase sempre no meio de árvores, nunca os achei muito monótonos. Infelizmente não posso dizer o mesmo dos 7 ou 8km após a descida do marco. Um estradão largo, praticamente plano, depois a subir até novo marco geodésico, de Melriça, convidava a ritmos de estrada.

NOTA: este post tem mais uma vez o alto patrocínio do talento fotográfico do grande MIGUEL CADALSO! Depois desta e dos Abutres, nomeado fotografo oficial do Quarenta e Dois. Só é preciso fazer as mesmas prova que eu. :)

hm..
O abastecimento chegou pouco tempo depois da subida ao marco, aos 14km. Desde há algum tempo que quando parto para uma prova vou preparado para não estar dependente dos abastecimentos. Levo comida para cada hora e vou trincando qualquer coisa nos abastecimentos para não serem só geis e barras. No entanto, não tenho por hábito levar isotonico porque não gosto de o beber mole e acabo por beber sempre nos abastecimentos. Infelizmente, em nenhum dos 4 abastecimentos desta prova havia isotónico. Já que estou a falar de abastecimentos, tenho que dizer que, tal como na Ericeira (outra prova da Horizontes), mais uma vez me pareceram mal distribuídos. Eram 4, para 50km. Poucos, mas nada de extraordinário. O problema é que o ultimo estava a 2km da meta. Ou seja, na prática eram 3 abastecimentos. Para mim, não faz sentido aquele abastecimento ali, mas é só a minha opinião. Quanto à qualidade e diversidade prefiro não opinar, já percebi que cada um tem as suas preferências e o que para mim pode ser pobre para outros será mais que suficiente. Mas o que não pode acontecer é ter ouvido amigos que andaram mais para trás no pelotão a dizerem-me que quando lá chegavam já nem fruta havia... Epah, e já agora: "a que km estamos?", "quantos km faltam para o próximo?". TODAS as pessoas que estão a gerir um abastecimento TÊM que saber responder a estas duas simples perguntas! 

Pronto, já despachei isto tudo para não deixar para o fim e pensarem que isto é só dizer mal.

Depois de deixado para trás o abastecimento entrámos numa fase totalmente diferente da prova. Descemos até uma ribeira que cruzámos algumas vezes, com algumas passagens muito giras, andámos em vales muito fechados, sempre em caminhos apertados, com rocha molhada à mistura. Até comentei com um companheiro que parecia uma prova nova. Tal como em Proença, estas zonas muito interessantes depressa fizeram esquecer o estradão chato de há momentos.

Numa das secções de rocha.
Não demorou muito até entrarmos novamente nos estradões de ligação. Muito sobe e desce, picadas, terreno plano, muita corrida, muita. A verdade é que depois de concluída a prova temos pena de não ter andado sempre em trilhos, mas na altura sabe bem papar quilómetros nestas ligações. Ao contrário dos Abutres, desta vez já me senti bem praticamente na prova toda, e logo depois de uma ou outra subida mais complicada tinha pernas para retomar o ritmo de corrida. Os troços mais giros apareciam invariavelmente depois de uma descida acentuada até um vale. Era quando andávamos junto às linhas de água e nos trilhos mais técnicos, com subidas e descidas muito boas.

As zonas que compensavam os estradões

Aqui já vinha a treinar a minha MIUT Face para daqui a mês e meio.
A dupla da frente: David Quelhas e Tiago Romão. Que animais!


Depois do penúltimo abastecimento, no Penedo Furado, a prova pouco mudou. Continuámos a passar por zonas muito engraçadas, mas sempre com os inevitáveis estradões de ligação. Nesta altura o calor já apertava muito e comecei a ficar um pouco desconfortável de estar a beber tanta água. As subidas, nunca demasiado longas ou inclinadas, sucediam-se até que apanhámos uma descida muito técnica, das melhoras da prova, até ao ultimo abastecimento, na zona da Cascata dos Poios. Era aqui, a 2km da meta, que estava o ultimo abastecimento. Segui para a subida final sempre junto à cascata. Uma subida técnica e trabalhosa, muito boa. 

Na meta, à minha espera estava a Sara, que ultimamente, derivado a questões de termos dois miúdos que ainda não se desenrascam sozinhos, tem andado arredada destas lides. Desta vez só teve que esperar 6h49, o tempo que demorei a percorrer os 50km certinhos. Como disse lá atrás, fiquei contente por desta vez não ter passado por debilidades físicas como nos Abutres, mas a prova também era completamente diferente. Uma coisa tenho notado, o nível médio do pelotão tem subido bastante! Ou é só impressão minha?


Quanto à prova, acho que já perceberam que na verdade não me deixou muitas saudades. Ao contrário de Proença, achei certas partes muito maçadoras, apesar de ter troços mesmo muito interessantes. Percebo que não deve ser fácil ligá-los, já que estão distantes, mas foram muitos quilómetros de estradão. As marcação são à Horizontes, económicas QB, mas sempre no sitio certo. Não se espere uma densidade de fitas muito grande, mas na verdade só nos perdemos se formos distraídos. Fiquei a gostar ainda mais desta zona e com vontade de fazer a etapa de Vila Velha de Rodão, mas dificilmente repetirei a de Vila de Rei.

Agora é altura de apontar baterias ao Piodão, etapa final antes de mais um MIUT. O pensamento neste momento é: mas como é que vou dobrar a distancia e triplicar o desnivel daqui a 6 semanas??? Bem, alguma maneira hei-de arranjar!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Trilhos dos Abutres 2017 - Trail a sério

Acho que desde que comecei a correr em montanha oiço este e aquele a definirem o que é o trail. Há quem diga que tem que ser em trilhos, que tem que ter muita altimetria e dificuldade, outros nem por isso, e falam da distancia e da lógica do percurso. Há quem diga que os há a brincar e a sério. Falam da percentagem de asfalto e de estradão, da quantidade de correntes e rochas para escalar e caminhos para rolar. A mim, se me perguntarem, eu respondo - trail é Abutres.


Depois da espectacular conjugação de factores que tornaram a edição de 2015 numa espécie de tempestade perfeita, e de no ano passado ter falhado por lesão, 2017 marcou o meu regresso àquela que, juntamente com MIUT, Piodão e Arga, é para mim a melhor prova de montanha em Portugal. Desta vez a previsão nos dias anteriores afastou logo o cenário dantesco de 2015, mas a Serra da Lousã não precisa de meteorologia extrema para se agigantar. Na verdade, nenhum dos quase 600 que estavam às 8 da manhã no mercado de Miranda do Corvo fazia ideia do que ia apanhar nas próximas horas. De uma coisa todos nós tínhamos consciência - não ia ser fácil. 

Uma viagem desde Almeirim um pouco em cima da hora não permitiu que conseguisse um lugar na parte da frente do pelotão antes da partida, por isso foram uns primeiros 2km dentro de Miranda a forçar o ritmo, para evitar congestionamentos na entrada dos trilhos. 

O céu estava nublado, mas a chuva acabou por nunca aparecer. Até a temperatura estava amena, o que me fez arrepender imediatamente da escolha de equipamento. A meio da primeira subida suava em bica, já ligeiramente preocupado com a perda de sais.

Este ano houve a novidade de subir um monte de cerca de 300m nos primeiros 7km, em vez de o contornarmos como nos anos anteriores. Uma subida toda ela feita em estradão, que serviu para abrir o pelotão e acrescentar mais uns metros à conta final de desnível positivo, que foi de 2700. No topo do monte encontrámos o Templo Ecuménico de Miranda do Corvo. Parece que é um templo onde estão representadas todas as religiões do mundo, mas há uma que, para mim, se destaca muito das outras. A religião de Nossa Sra. do Mau Gosto.

Sem comentários. Foto do Miguel Cadalso.

Depois de descer o monte da pirâmide cor de laranja a voar num estradão, entrámos finalmente na Serra. O caminho de entrada era um trilho que há dois anos estava completamente inundado. Assim seco era um espectáculo para correr, sempre junto a um ribeiro. O percurso até Vila Nova (15km), espécie de prelúdio dos Abutres, ia sendo feito quase sem dar por isso. Pernas leves e soltas, sorriso na cara enquanto ia deixando bocados de conversa com este e aquele amigo, e cada vez são mais as caras conhecidas nestas provas. Vi o Ricardo, que me levou de volta ao MIUT onde nos vimos pela ultima vez, o Marcelo, que me transportou àquele km que partilhámos em Vallorcine, antes da subida final no UTMB, vi o João Pereira que encontrei há 3 anos no DUT e me fez lembrar a fatídica subida aos bombeiros... Lamechices à parte, é incrível a quantidade de pessoas que fazem parte da minha vida por causa deste desporto.

No trilho de entrada
Depois do abastecimento em Vila Nova começou a primeira grande subida da prova, até ao Observatório. Falar em subidas nos Abutres é sempre duvidoso, porque o sobe e desce é tal maneira constante que às tantas não se sabe bem se estamos numa subida ou descida. Mas a cota no relógio continuava a aumentar, por isso devia mesmo ser a subir. 

Chegados a um planalto antes do ataque final aos 930m do observatório, lembrei-me logo da minha prova de há dois anos. Foi ali que estive no precipício, quase quase a cair na desistência, por causa do frio. Desta vez, com o trilho seco e temperatura amena, o prazer de correr naquele caminho macio e escuro ligeiramente a subir era imenso. Só não era maior porque desde lá de baixo de Vila Nova que 2 ou 3 companheiros decidiram que eram os novos malucos do riso e acharam que toda a gente devia saber isso. Mas pronto, cada um vive aquilo à sua maneira...

Chegada ao observatório, foto do Miguel Cadalso
Foi no observatório o único sitio durante toda a prova que senti algum frio. Demorei-me o mínimo possível no abastecimento, só para voltar a encher o depósito de água. Continuei com a alimentação de geis e barras de hora a hora.

Seguia-se a descida até à Sra. da Piedade. 5km numa espécie de jogo de computador que vai tendo vários níveis de dificuldade. Há de tudo. Desde trilhos bons para correr, outros cheios de pedra, com lama, com água, sempre intercalados com pequenas picadas a subir, mesmo à Abutres. Conhecia bem os próximos 15km. Passei a ultima semana de Dezembro em Gondramaz com a Sara, os miúdos, o Vasco (que também estava em prova) e família. Fizemos lá uns treinos daqueles que enchem a alma e dava um certo conforto reconhecer os sítios onde andava.

Nesta descida comecei a ter as primeiras dificuldades da prova. Cada vez que precisava de alçar as pernas para passar um obstáculo os músculos prendiam e tinha câimbras. Comecei a descer mais devagar e a ser ultrapassado. Contava os quilómetros até ao abastecimento para poder comer alguma coisa salgada, já que não tinha sais nem isotónico. Fiquei um bocado desanimado, ainda era muito cedo e já estava com estes sinais de falência física.

A chegada ao corte da Sra. da Piedade, 28km, foi com 4 horas, mais de uma hora antes do tempo de 2015. Mas é incomparável, foram provas totalmente diferentes. Comi uma sopa espessa e a escaldar, num abastecimento que estava cheio de mais (logo a seguir perceberia porquê). Saí de lá com o Manteigas, o Marcelo e o Miguel com a moral em alta para atacar o que faltava. E não faltava pouco. Os Abutres iam começar.

À saída do abastecimento com o Manteigas e Marcelo, foto do Miguel Cadalso.
A pausa e a sopa fizeram-me bem, assim como a companhia daquele grupo de 4. Íamos entrar nos quilómetros mais técnicos de toda a prova, mas assim que o caminho começa a ficar mais acidentado começam a formar-se filas. Estranho.. O pelotão já estava muito disperso ainda há pouco... 

Os congestionamentos continuaram, chegando mesmo a parar algumas vezes, até que percebi que estávamos a apanhar a cauda da prova dos 30km. Tenho que confessar que foi bastante frustrante. Não que fosse andar muito mais depressa que aquilo, mas parávamos constantemente e as ultrapassagens eram muito, muito, complicadas. É certo que nos desgastámos menos, mas psicologicamente fui-me um bocado abaixo. Acabei por passar nalgumas das melhores partes do percurso em stress. Uma situação chata, mesmo para quem vai na outra prova.

Fila para o supermercado aos 30km. Yep, Miguel Cadalso.
Na cascata dos Abutres
Depois de uma primeira parte muito técnica e inclinada a subir, entramos num estradão curto que desce durante um km, até voltarmos novamente a um trilho para a parte final da subida ao Posto de Vigia. No estradão os engarrafamentos finalmente dispersaram e pudemos abrir um bocado a passada para recuperar o tempo perdido. O pior foi voltar a subir em condições. As câimbras tinham voltado em força. Mesmo em subidas fáceis tinha que abrandar o ritmo e chegava mesmo a coxear. Merda para as câimbras, quase nunca tenho, mas fico irritado quando aparecem de tal forma limitadoras que são. 

Cumpri a subida até ao observatório em serviços mínimos. Nunca me senti a forçar, mas a parte muscular simplesmente não correspondia. Teria de ser o abastecimento que há dois anos me salvou da hipotermia a voltar a dar-me vida. 

Mesmo no final da subida, antes do posto. Foto do Miguel Cadalso.
Lá em cima, no posto de vigia, comi uma bifana deliciosa e mais uns copos de isotonico. Seguia-se mais uma tareia de trilhos que têm tanto de bonito como de técnico, precisava de uma grande amplitude de movimentos das pernas que naquele momento não tinha. O que me dava algum alento é que nas zonas que dava para rolar conseguia fazê-lo de maneira confortável, mesmo quando subia ligeiramente. Antes de chegar à parte mais técnica, junto a Gondramaz, ainda teríamos a parte que mais ansiava da prova. Um trilho espetacular para correr, no meio do bosque, percorrido pelo menos 5 vezes por mim e pelo Vasco naquela semana de dezembro. Esqueci a porra das câimbras e a prova que já estava a fugir do "bom" para o "meh" há algum tempo e voei nessa descida!

Mais uma do Miguel, nessa descida.
Esta descida é o exemplo perfeito do que são os Abutres. Começa nesta autentica passadeira acolchoada, transita para uma parte muito mais inclinada e desemboca numa secção final brutalmente técnica, que inclui a subida para Gondramaz. Duzentos metros verticais a escalar por entre rochas, cascatas, árvores, lama e musgo. Com correntes, cordas e mãos arranhadas. Há dois anos esta parte foi cortada por causa do mau tempo, desta vez voltou para acabar de derreter as minhas pernas que já guinchavam por todo o lado!

Não foi na prova, foi quando lá estivemos em Dezembro, mas passámos por aqui em sentido contrário
Mais uma vez voltaram as câimbras na subida, cada vez mais limitadoras. Rais parta isto, andava a treinar tão bem e agora esta porra... Sossegava-me esta ser a ultima subida da prova. Apesar de ainda termos trilhos muito técnicos até ao fim, esses seriam mais fáceis de gerir.

Breve paragem em Gondramaz, mesmo no largo da Igreja em frente à Casinha do México, onde já fiquei alojado várias vezes. Novo reforço de isotónico e siga caminho. 

Abastecimento de Gondramaz
O percurso até Espinho, local do ultimo abastecimento a 4km da meta é mágico. Só para reforçar a ideia que valeu mesmo a pena andar ali. Consegui colar atrás do Ricardo Diez, do Mundo da Corrida, que não me conhece mas foi a minha lebre durante 4 ou 5km sempre percorridos a trote, num crescente de ânimo que empurrava para um canto as câimbras e  restantes dificuldades. 

Passagem em Espinho sem parar. Faltam 4km, um deles num rio de lama que há dois anos me chegou à cintura. Desta vez pouco passou do tornozelo. 

Mesmo assim estava bonito. Adivinhem? Outra do Miguel Cadalso.
O quilómetro e meio em alcatrão até à meta foi cumprido num trote rígido, apesar de tudo as pernas ainda respondiam. Oito horas e vinte depois estava de volta ao pavilhão e confesso que ainda hoje estou um bocado desiludido com a minha prova. Não pelo tempo, não estabeleci nenhuma marca para cumprir, mas porque nos últimos meses me tinha andado a sentir super bem nos treinos e estava à espera da recompensa neste sábado. Mas não. Nunca andei no limite, mas também nunca me senti com muita força. É frustrante e até tenho andado um bocado desmotivado. Enfim, melhores dias virão.

Sras e srs, MIGUEL CADALSO! Depois de tamanha contribuição para este post com fotos,  acho que a da chegada tem que ser dele! eheh
Apesar de desiludido com a minha prestação, não estou de forma nenhuma desiludido com a prova. Os Abutres mais uma vezes cumpriram na perfeição. São cada vez mais uma prova à parte no panorama português, com pormenores de organização como só vi no MIUT e UTMB, duas provas do world tour. Como diria um senhor, que finalmente conheci naquele dia: aquilo sim, é trail a sério!


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Oh não, mais um post resumo!

Olá. Ainda vou a tempo do post de 2016? Não? Meh.. faço na mesma.

2016...

2016 foi..... bem, foi esquizofrénico. 

É isso. 

Provavelmente o ano com mais convulsão na minha vida. A nível pessoal e familiar foi uma autentica loucura. Desde o nascimento do "mai novo", até à construção da nossa actual casa (que começou e acabou durante 2016), duas mudanças, o trabalho que passou por uma fase terrível e acabou o ano numa das melhores de sempre... 

A montanha russa teve espelho na corrida. Em Janeiro, mês que fui sorteado para ir ao UTMB, praticamente não corri por causa de uma lesão. Com o MIUT a aproximar-se perigosamente arrisquei reiniciar os treinos mesmo não estando 100% seguro que estava recuperado. A coisa correu bem e com dois meses e meio de treino afincado consegui arrancar a melhor prova da minha vida, num dia praticamente perfeito e dificilmente repetivel na Madeira.

No final das 24h e SETE MINUTOS do MIUT 2016
A seguir à prova da Madeira cometi provavelmente o maior erro do ano, que foi participar no Estrela Grande Trail apenas um mês depois. Na verdade foi toda uma conjugação de factores que passaram muito pela sobranceria com que encarei esta prova e que resultaram no fracasso que foi a minha participação no EGT 2016. 

Pelo menos deu para boas fotos!
No fim era altura de lamber feridas e limpar o histórico. Três meses separavam-me do Ultra Trail du Mont Blanc. Mais que o óbvio grande objectivo do ano, a participação no UTMB transformou-se numa das experiências mais avassaladoras da minha vida. A prova correu-me mal. Com o devido distanciamento, admito que ainda não estava preparado para ela, mas faria tudo exactamente da mesma maneira para poder VIVER aquelas 44 horas nos Alpes. Ainda hoje me arrepio quando viajo mentalmente por aqueles trilhos, e a prova que não me consegui desligar dela é que ainda carrego a pulseira vermelha. 


Além das provas, 2016 fica também marcado pelo melhor "treino" da minha vida. E meto treino entre aspas porque a viagem a Serra Nevada foi muito mais que um simples treino. Agora consigo perceber que foi a partir daí que passei a encarar a corrida de uma maneira diferente. Desde aquele fim de semana na montanha, atrai-me não só a parte competitiva do trail, o treino, o chegar mais longe e mais rápido, mas principalmente a aventura. O passar horas na montanha. Aquela sensação de iniciar um treino, ou prova, e não fazer a mínima ideia do que nos espera. A gestão do esforço, o diálogo interior.... 

Pronto, já chega, tá a ficar lamechas.

No fim da segunda ascensão ao ponto mais alto da Península Ibérica.
Ok, já está um ano despachado. Passemos a 2017.

Assim, curto e grosso, estas são AS provas de 2017:

MIUT (115km, 7200D+, Abril) - Vou para o hat trick. Como já disse por aqui, é impossível resistir ao MIUT, é a prova perfeita. Tem tudo o que gosto numa corrida, desde percurso a organização. Mal posso esperar para voltar à ilha e tentar chegar a Machico 7 minutos mais cedo que o ano passado!

Andorra MITIC (112km, 10000D+, Julho)- Balancei muito na escolha desta prova. A ideia original era nova viagem ao Alpes, para o Eiger ou Lavaredo. Pesou principalmente o factor económico, é muito mais barato ir para Andorra com a família do que para os Alpes Suíços ou Italianos, mas já se tornou mais que isso. As estatísticas da Mitic são ridículas. Enfrentarei o mesmo desnível que no UTMB mas com 60km a menos. Desde a primeira edição a taxa de desistências nunca foi inferior a 50% e o tempo médio para terminar anda sempre à volta das 40 horas, o mesmo que no UTMB (relembro, com 60km a menos!). É uma brutalidade de desafio. Eu, que sempre disse que não gosto de provas demasiado técnicas, vou-me enfiar precisamente na boca do lobo! O respeito é gigante, mas a vontade de superar o desafio ainda maior. Já sonho com a famosa subida a Comapedrosa, um quilómetro vertical entre os 2000 e 3000m de altitude, cumprido em 3km!

UTAX (110km, 6000D+, Outubro) - A Serra da Lousã é dos meus sítios preferidos de Portugal. Adoro Gondramaz, onde já passei vários dias com a família. Além disso tenho uma dívida com esta prova, depois de em 2015 não ter participado por lesão. 

Além destes três colossos, a agenda do primeiro semestre já está bastante preenchida com passagens pelos Abutres (50km em Janeiro), Vila de Rei (50km em Março) e Piodão (50km em Abril). Depois, relativamente a provas, apenas tenho intenção de participar novamente no Grande Trail Serra de Arga. Logo se verá.

Pronto. Aguentaram com mais um post resumo de 2016 e planos para 2017. Parabéns! 

Antes de ir embora, vou fechar esta publicação com a minha fotografia preferida de sempre. Simboliza tudo o que foi aquela semana nos Alpes. Tirada pela Joana, namorada do Zé Nuno, que estava com o Manelíco ao colo, no fim do UTMB. Foram 44 horas percorridas não só por mim, mas por eles os 5. O Zé, a Joana, a Sara, a Mel e o Manel.

Vamos a 2017!