As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 10 de abril de 2017

MIUT - Algumas dicas para estreantes

Ponto prévio: o que se segue é apenas e só a minha impressão do percurso do MIUT e de como este deve ser gerido. Resulta das minhas quatro participações na prova. Podem ler pormenorizadamente sobre cada uma aqui: 2015, 2016, 2017, 2018. Não sou nenhum especialista e, obviamente, este post só poderá interessar àqueles que, como eu, andam pelo meio do pelotão. Este ano, 2019, voltarei para a minha quinta tentativa. 



Faltam poucas semanas para estarmos em Porto Moniz, por isso o trabalho que havia a fazer está feito. Nesta altura, se forem como eu, já passam mais de metade do dia a antecipar ansiosamente o dia em que vão voar para a Madeira. Está na altura de afinar pormenores do equipamento, preparar os perfis para plastificar, planear a alimentação e, muito importante, estudar o percurso. 

Eu sei que há quem ache o contrário, que o melhor é chegar lá e o que vier morre, mas eu não. Nestas grandes provas gosto de estudar o percurso. Deixar de o ver em quilómetros e passar a defini-lo por etapas. Primeiro esta subida, depois o KV, depois aquela secção entre abastecimentos, a descida técnica, etc, etc. É isso que vou fazer de seguida, explicar como dividi o percurso do MIUT e a forma como acho que o esforço deve ser gerido de forma a concluir a prova em condições. 



1ª Etapa: Porto Moniz - Estanquinhos




Os primeiros 30km do MIUT, que terminam em Estanquinhos, são talvez a etapa mais importante da prova. Mas não pelas razões que estão a pensar: esqueçam a barreira horária. No meu primeiro ano obcequei com isso e depois cheguei à conclusão que não era assim tão apertada. Entretanto até já aumentaram 1 hora a este corte, por isso não é por aí. Estes 30km com quase 3000D+ são importantíssimos porque uma má gestão do esforço durante esta noite pode comprometer definitivamente o resto da prova.

Aquele primeiro montículo no perfil é uma prenda que a organização vos dá. Primeiro sobem 400m em alcatrão e desembocam numa descida em trilho muito fácil. Não vão voltar a encontrar estas facilidades até ao fim. Para evitarem engarrafamentos na entrada do trilho e na descida seguinte, o meu conselho para o início da prova é que tentem partir lá à frente, e nesta subida, que é realmente fácil, puxem um pouco mais para que consigam um lugar pelo menos a meio do pelotão. Isto tem duas vantagens: não passam tempo parados (em 2017, apesar de não ter afunilado no fim da subida, toda a descida seguinte foi feita a passo ou parada) e vão andar numa zona do pelotão que é a vossa. Esta segunda razão é importante porque até Estanquinhos muito provavelmente vão andar metidos num comboio e se a velocidade de cruzeiro for baixa vão adormecendo no ritmo.

As subidas para o Fanal e Estanquinhos são uma brutalidade. Ambas com mais que 1000m de desnível, vão apanhar desde calçada, até lama, trilhos e degraus, muitos degraus. Quando amigos meus se vão estrear em ultras e me pedem conselhos, a primeira coisa que costumo dizer é que nas primeiras subidas se sentirem que vão em esforço é porque vão mal. Se começarem a quebrar não parem, mas metam um passo cada vez mais curto. Se estiverem num trilho procurem tricotar, de forma a não levantarem tanto as pernas. É aqui que entra em questão a importância da velocidade do comboio. Se estiver rápido de mais a solução é fácil, encostam. Se estiver lento não têm grandes hipóteses a não ser irem tipo zombies até conseguirem ultrapassar, o que durante vários quilómetros não é fácil.

O abastecimento do Fanal, no fim do primeiro quilómetro vertical, não fica mesmo no topo da subida, quando saem ainda têm que subir mais um bocado. Evitem estar lá muito tempo, vão chegar muito quentes da subida porque é quase toda feita em túneis de vegetação, mas o ar nos 1500m vai estar frio. Vão arrefecer muito rapidamente e depois como não começam logo a correr, porque ainda há subida, vão demorar a aquecer.

É depois do Fanal a grande alteração no percurso em 2019. Se dantes tínhamos apenas umas poucas centenas de metros a seguir ao abastecimento antes de começar a descida, agora vamos andar 2 ou 3km no planalto. Reforça a importância de não arrefecer no abastecimento e trás uma incógnita para mim: a descida.

Diz quem já a fez que é mais acessível que a anterior descida. mais larga, menos técnica e menos inclinada. No entanto, também me disseram que não é um passeio no parque e numa fase tão inicial da corrida continua a ser muito mais importante ser eficiente do que rápido.

A subida para Estanquinhos é a mais dificil de toda a prova. Ainda lá vão chegar relativamente frescos, por isso não vos vai parecer assim tão custosa. Mas lembrem-se de uma coisa: todos os erros cometidos nesta subida vão ser cobrados lá para a frente. É mesmo muito longa e trabalhosa, e mais uma vez acaba num planalto exposto depois de andarmos no meio da floresta a transpirar. Em 2018 estava muito mau tempo na zona exposta, o que resultou num número elevadíssimo de desistências lá em cima. Não devia ser preciso dizer isto a quem vai fazer uma prova exigente como o MIUT, mas: se apanharem condições dessas, façam o que fizeram, não se metam debaixo dos aquecedores no abastecimento! Assim que saem para a rua é a morte do artista.

2ª Etapa: Estanquinhos - Curral de Freiras


Antes de mais, preparem-se. Dificilmente vão fazer uma descida melhor na vida do que a estão prestes a fazer a seguir a Estanquinhos. Provavelmente vão apanhar o nascer do sol nesta altura, por isso tudo se vai conjugar para ser inesquecível. A descida é relativamente fácil até à parte final, onde existem algumas escadas. A palavra de ordem é sempre "eficácia", mas vai ser dificil não se entusiasmarem num trilho tão bom como aquele.

Após a descida de Estanquinhos vão apanhar as primeiras grandes subidas em escadas, incluindo o famoso pipeline, paisagens brutais e alguns bons quilómetros que dão para rolar, logo a seguir ao abastecimento da Encumeada.

Apesar de ser um troço aparentemente fácil, é aqui que vão perceber se se portaram bem nos primeiros 30km. No meu primeiro ano foi aqui que percebi que estava lixado!

A descida para o Curral das Freiras é traiçoeira porque convida a andar depressa, mas tem muita pedra. Mais uma vez, há que ser económico. Não andem para lá aos saltos porque só vos vai desgastar e ainda falta muito caminho!

Durante esta longa descida vão ver o Curral de Freiras lá em baixo cada vez mais próximo, mas para mal dos nossos pecados, quando acabarmos de descer ele vai estar numa cota mais alta que nós. Ou seja, depois de longos minutos a descer e a partir os quadricepes, preparem-se para umas subidas bem empinadas em trilho antes de chegarem à Base de Vida. Vão chegar a meio do dia, pico do calor, fundo de um vale. É duro!

3ª Etapa: Curral de Freiras - Pico do Arieiro




Muito importante: no Curral encham todos os depósitos de água que tiverem, vão precisar! Vão-vos fazer um controlo de material para que saiam pelo menos com 1 litro de água. Não saiam com menos de 1.5! A minha estratégia será deixar um flask vazio no Curral (Base de Vida), enchê-lo e levá-lo na bolsa de trás da mala. Quando passar o Pico Ruivo, se estiver vazio, transporto-o mesmo assim, o peso também é pouco. Se usarem Camelbak, encham-no e levem pelo menos um flask cheio de reserva. O ano passado saí de lá com 2L, e ainda tive que dar água a algumas pessoas que ficaram enrascadas.

Vão entrar numa parte determinante da prova. Aproveitem o cerca de 1km de estrada logo a seguir ao abastecimento para acalmar a barriga e respirar fundo, a subida para o Pico Ruivo é longuíssima, é o vosso ultimo KV, mas não são os primeiros 800D+ que interessam. Esses são pacíficos, num trilho aos ésses e constante. O pior é quando acharem que já está! Acreditem, aos 800D+ vocês vão achar que já está. Mas não. Na verdade, ainda nem começou! É aqui que tem início o carrossel de escadas. 

Com a atenuante de estarem num sítio incrível, estes quilómetros, desde o tal patamar até ao Pico do Areeiro (incluindo a paragem no Pico Ruivo), são muito, muito duros. Vão subir e descer vezes sem conta, vão pensar que é já ali, vão ter vertigens, vão desesperar com as escadas infinitas e os degraus que parecem cada vez mais altos! O melhor disto tudo? No fim do dia vão chegar à conclusão que estes 7km valeram pelo esforço todo!

Em 2018 surge uma nova alteração, o abastecimento que anteriormente estava no Areeiro avançou uns 4 km. Isto introduz mudanças importantes, a meu ver. O abastecimento a seguir ao Curral, no pico Ruivo, é muito básico, não tem acesso automóvel. Quer dizer que desde o Curral até ao próximo abastecimento substancial vão passar umas 3 a 5 horas MUITO DIFÍCEIS, feitas provavelmente à esturra do sol (foi assim nos meus 4 anos). Além da água levem comida a sério para este troço, não se encostem aos geis porque não vão ter nenhum abastecimento para compor o estômago. 

4ª Etapa: Pico do Arieiro - Machico





Provavelmente cairão no mesmo erro que eu, quando me estreei. Olharam para o perfil e acharam que as dificuldades nesta altura já tinham acabado, que agora era quase sempre a descer até à meta. Bem, na verdade até têm alguma razão, o pior já passou. O problema é o que ficou para trás! Nesta altura até se fosse uma ciclovia com 5% de inclinação a descer vos custava, e a descida a seguir ao Arieiro está muito longe disso. Contem com alguns trilhos técnicos e, surpresa!, umas subiditas pelo meio. A parte final da descida é num terreno que faz lembrar a Serra da Lousã, com terra escura, muitas raízes e pedras. Muito inclinado.

Chegados ao Ribeiro Frio têm a ultima grande subida do percurso. O inicio será num trilho sinuoso semelhante ao final da descida anterior, muito inclinado e técnico, até voltarmos aos estradões suaves que nos levam até aos 1400m do Poiso.

Segue-se uma descida muito longa e fácil até à Portela, aproveitem bem esta parte do percurso para se convencerem que vão conseguir, já falta muito pouco!

Nesta altura a maior dificuldade até à meta, além do cansaço acumulado e de uma outra surpresa que vos falarei, é a descida do Larano, aquele precipício que vêem ali no gráfico. Não desesperem, vão seguros e com calma. É uma descida enervante e difícil, já vão em piloto automático, uma distracção aqui pode ter consequências chatas. 

Se chegarem ao fim dessa descida de dia (coisa que ainda não consegui), aproveitem para se distraírem com a paisagem brutal enquanto percorrem os 7km da vereda do Larano. Talvez seja esse o truque: chegar de dia. Porque de noite, meus amigos, esta vereda que pode parecer o paraíso na terra nas fotografias, vai-vos dobrar e dobrar e dobrar. São 7km ligeiramente a subir, sempre no mesmo trilho, sempre com a mesma vista. Parece uma passadeira infinita. Vai testar a fundo a vossa resistência mental. 

Virado o Larano e chegados ao ultimo abastecimento, venha mais uma vereda, levada, trilho ou estrada, nesta altura nada vos vai desviar do caminho para Machico. Liguem para quem tiverem que ligar: estão a chegar!


Vereda do Larano
Está feito, parabéns!

Hm? Como é que é? Falta correr? Ah, pois.. Bom, então vemo-nos em Porto Moniz!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Ultra Trail do Piodão 2017 (50km) - Dava para pedir mais?

O ano passado foi sem dúvida das minhas provas preferidas. Não só porque me correu muito bem, mas principalmente porque adorei o percurso, que é bem ao meu jeito. Gosto de subir durante muito tempo, gosto de recuperar em descidas longas e gosto, muito, de andar na montanha. E o Açor é montanha a sério.

Mais um post com a excelente contribuição fotográfica do Miguel Cadalso! Tenho que começar a fazer o meu calendário em função das provas que ele participa.
O fim de semana tinha tudo para correr bem. Pela primeira vez este ano conseguimos fazer uma viagem de família até uma prova. Saímos os 4 ao fim do dia rumo ao Inatel Piodão, para nos juntarmos aos companheiros do Grupo Desportivo da Parreira até domingo. A previsão era de tempo frio e seco, perfeito! No entanto, nas ultimas semanas andei sempre com a sensação que estava longe do meu melhor e como não abrandei a carga na semana anterior preparei-me para mais uma prova sofrida, como foram praticamente todas este ano.

Foto da meta tirada pela Sara da janela do nosso quarto no Inatel. Viu a partida sem ser preciso sair do quarto, luxo!
Este ano, ao contrário de todas as anteriores edições, a partida foi dada no centro da aldeia do Piodão, em vez de ser no Inatel. Foi essa a única diferença no percurso em relação ao ano passado, os 500m da descida e subida ao hotel. Olhei 360º à volta para as grandes montanhas que nos rodeavam, estávamos bem no fundo do vale. Percorri o percurso mentalmente uma ultima vez, lembrava-me bem quais os picos que subiriamos, para onde partiriamos e o caminho de regresso. Junto ao pórtico as caras conhecidas são mais que muitas. Últimos cumprimentos e fotografias e estávamos prontos para a viagem. Siga!



A partida foi dada e imediatamente entrámos no trilho que nos levaria até Chãs d'Égua, na base da primeira grande subida do Piodão Ultra Trail. Foram 5km tranquilos, num single muito bonito com pequenas subidas e descidas, ideal para meter o motor a funcionar antes de começarem os grandes desníveis da prova. 


O primeiro abastecimento (eram 7 no total!!) apareceu logo aos 5km, nesta aldeia. Não parei, estava com pouco mais que meia hora, mas aproveitei para armar os bastões e preparar-me para os 600m de desnível da primeira grande subida da prova. Primeiro em escadarias da aldeia e depois, a grande maioria, num estradão que zigue-zagueava pela encosta permitindo aliviar a inclinação em vários patamares. 

Não sendo fisicamente dotado e não treinando os volumes que outros treinam, tenho consciência que a gestão das provas e do meu esforço é dos maiores trunfos que tenho. Dificilmente me apanham em picanços ou a perseguir alguém que me passa. Ainda por cima pouco confiante como estava, a minha estratégia era simples: esta subida teria que envolver o mínimo de esforço possível, de forma a chegar lá acima incólume. Escusado será dizer que numa subida tão acessível como esta, e no início da prova, passaram dezenas de pessoas por mim! Escusado será também dizer que, apesar de não aumentar o passo para ir atrás, foram poucas as vezes que ao passarem por mim não pensei "espera lá que já te viro, ainda falta muito!" :)

Parte final do estradão da subida, foi só aqui que meti passo de corrida.
Parece ter resultado. Quando cheguei ao topo não estava minimamente cansado e ataquei os 5km de descida até Malhada Chã com alma. Um aspecto que acho perfeito nesta prova é que as descidas dão sempre para recuperar das subidas, apesar desta até ser das mais técnicas da prova. Um single espetacular numa encosta, com muita pedra e algumas pequenas subidas. Muito longa e variada, tive a sorte de andar quase sempre sem ninguém à frente ou atrás e pude meter o ritmo que era mais confortável para mim. Foi aqui que comecei a sentir que talvez fosse um bom dia.

Chegada a Malhada Chã
Malhada Chã é daquelas aldeias que só se vêem nos postais. É tudo perfeito! Bem no fundo do vale, do lado oposto da mesma montanha onde está o Piodão, com pequenas pontes e escadas de xisto. Era lá que estava o segundo, muito basto, abastecimento. Aqui já parei para beber uns copos de isotonico (gold drink, da gold nutrition) e umas fatias de presunto. Ultimamente tenho tomado mais atenção ao aspecto da reposição de sais. Não me apetece implementar a rotina de tomar uma cápsula de sais de hora a hora, já chega ter que me preocupar com a comida, mas em todos os abastecimentos meto alguns sais. Muitas vezes opto por banana com sal, que há em todas as provas, mas se há presunto como neste não hesito.

Da aldeia, lá bem de baixo, dá para ver o Picoto do Cebolo, ponto mais alto de toda a prova nos 1400m. Nova subida de 600m, esta com uma primeira metade bastante inclinada que depois desagua num estradão na cumeada que nos leva até Picoto. 

À saída de Malhada Chãs

Primeira parte da subida, no trilho mais técnico
Foi nesta primeira parte, a mais difícil, que realmente entrei na prova. Adoro este tipo de subida em que posso ir a tricotar de forma a encontrar o caminho que implique menos amplitude de movimentos. Apercebi-me que estava muito entusiasmado quando dei por mim a tagarelar com o Miguel, que já me respondia pouco eheh. 

Chegados ao estradão há um pequeno troço plano, antes do ataque final. Tal como no ano passado, as pernas respondem sem hesitar ao passo de corrida que imprimo. Está a correr bem, mas não me entusiasmo. Assim que inclina volto a andar com os bastões. Nesta altura, com a Estrela nas costas e acima dos 1000m, está um vento cortante muito frio.

Aqui ainda a correr, com o picoto lá ao fundo
Ops, já está a subir, toca a andar!
A partir daqui separei-me do Miguel, por isso as fotografias vão diminuir. Mas acho que já é seguro dizer que nunca tive um post com tantas! 

A segunda subida da prova foi conquistada mais uma vez sem grande esforço, agora seguia-se outra longa descida até Covanca. Lembrava-me bem desta parte no ano passado. Os dois primeiros quilómetros eram um estradão que, não sendo demasiado inclinado, permitia soltar completamente as pernas se assim o quiséssemos. Assim foi! Disparei para dois quilómetros muito rápidos antes de entrarmos numa parte mais inclinada e finalmente num trilho que nos levaria até à aldeia de Covanca, aos 25km, onde estava o terceiro abastecimento. 

Metade da prova estava feita e as sensações eram muito boas. Comi uma sopa de legumes e fiz-me ao caminho até à Fornea, próximo abastecimento. O caminho até lá é possivelmente das partes mais desinteressantes do percurso inteiro, com uma subida não muito grande no meio dos eucaliptos, depois uma secção intermédia em alcatrão e finalmente dois quilómetros em trilho que já acaba ligeiramente a subir até à Fornea. 

Cerca de 1km de alcatrão plano, até apanharmos o trilho
O que não é nada desinteressante é o abastecimento da Fornea. Se a subida seguinte é a mais conhecida do percurso, este abastecimento é daqueles que dão nome ao Mundo da Corrida. Um autentico banquete de casamento! Nesta altura ainda estava cheio com a sopa de Covanca, mas arranjei espaço para meia bifana, muito salgada, como se quer.

Como referi no parágrafo anterior, esta próxima subida é a mais temida do percurso. Curiosamente, desde que percebi que estava num bom dia, estava ansioso por a encontrar. Tal como aquela primeira parte da subida ao Picoto do Cebolo, toda ela é muito técnica e inclinada, não tão longa como as outras, mas mais trabalhosa. Meti o meu passinho certo e tricotei por ali acima com o entusiasmo em crescendo. Já perto do fim, com o motor a entrar em sobre aquecimento, começou a soprar uma brisa gelada que tratou de arrefecer para níveis confortáveis. Perfeito!

Parte final da subida, já menos inclinada mas com as mesmas pedras.
Virada a montanha, a vista é incrivel. 10km separam-nos do Culcurinho, ultimo pico do dia a conquistar, as eólicas instaladas na cumeada indicam-nos o caminho até lá. Mesmo por baixo de nós já se vê o Piodão, mas ainda há uma grande volta a dar antes de lá chegarmos. 

Aquele pico lá ao fundo é o Culcurinho.

Foi nesta altura que deixei de parte a estratégia conservadora e comecei a dar um bocado mais. Não que tivesse desatado a correr por todo o lado, mas já forçava muito mais do que até ali. Foi assim nos 10km de sobe e desce intermédios até ao ataque final ao Culcurinho, ultimo grande obstáculo da prova e onde o ano passado levei uma pequena marretada.


São apenas 300m de subida em estradão, mas facilmente apanham desprevenidos os mais incautos (como me apanhou a mim, o ano passado). Basicamente porque já ninguém conta com ela nesta altura. As três grandes subidas da prova, aquelas que saltam à vista no perfil, estavam ultrapassadas, era só mais um montículo antes da grande descida final! Nada mais errado, são 300 metros muito inclinados numa altura que já vamos com cerca de 2300d+ nas pernas, isto numa cota acima dos 1000m. Se não formos mentalizados para ela o homem da marreta espera por nós confortavelmente lá em cima na capela.

Início da subida, com a capela lá ao fundo no pico.
Parte final
Desta vez já não me apanhou desprevenido, mas confesso que vacilei um pouco aqui. Lá no topo estava o penúltimo abastecimento. Parei brevemente para beber isotónico e uns amendoins, o ano passado as cãimbras atacaram-me nesta ultima e longuíssima descida, não queria voltar a passar pelo mesmo.

São 7km e 800m de descida que nesta altura nos separam de Foz d'Égua. É muito raro apanhar descidas tão longas em Portugal e eu sei, por experiência própria, como elas podem ser perigosas. É muito mais fácil treinar subidas que descidas. Não há reforço muscular ou treino de propriecoiso (nem com a ajuda do Google consegui escrever esta palavra) que simulem a tareia que é para o corpo levar com uma grande descida deste género. Primeiro numa parte muito inclinada e com muita pedra, que nos obrigava a travar constantemente, depois num estradão infinito que zigue-zagueava e permitia meter velocidades mais altas e finalmente num trilho mais técnico, numa mistura explosiva para os quadricepes, que hoje estão bem doridos. Excelente!

Miguel, tive que ir ao Google buscar uma imagem da Foz d'Égua, estás a falhar!
Chegados ao Shire, perdão, a Foz d'Égua, estava à nossa espera o ultimo abastecimento da prova (recordo, de 7 (sete)). Apenas 3km separavam-nos do Piodão, num single que subia vagarosamente pela encosta, vale acima. Sentia-me na máxima força nesta altura e forcei bastante, sem nunca me sentir a quebrar.

Trilho de acesso ao Piodão. Pronto Miguel, estás perdoado.
A chegada ao Piodão foi pelo mesmo sítio do ano passado, com cerca de 500m a descer. A diferença é que desta vez ficámos por lá, em vez de subirmos os 500 metros até ao Inatel. Cortei a meta a sentir-me bem e muito satisfeito! 

Foto tirada pela mulher do Miguel. Vou contratar a família toda para o Quarenta e Dois!
Demorei 6h43, menos 5 minutos que o ano passado, mas se juntarmos o km que foi cortado o tempo seria ligeiramente superior ao anterior registo. Acreditem, não é da boca pra fora quando digo que o tempo foi o menos importante neste dia. Na verdade, considero que a minha prova foi perfeita! Foi uma das poucas vezes que sinto que venci a distancia de 50km, sem nunca quebrar, com uma gestão perfeita do esforço. Este ano raramente me senti assim. Desde os Abutres, quando comecei a desconfiar de tudo, que andava pouco confiante para o que aí vem (o MIUT). Era exactamente de uma prova destas que precisava para voltar a ganhar confiança.

À minha espera na meta estava o Vasco, do GDP. Juntos fizemos o que ficou a faltar: a subida ao Inatel. Não que tivessemos muita vontade mas..estávamos lá alojados :)

O dia continuou com um banho na piscina do Inatel com os miúdos, jantar no hotel com a família do GDP e no domingo ainda deu para passear pelo Piodão e ir até à Estrela ver a neve. Um fim de semana que só não foi MESMO perfeito por causa do Judas Pereira!

Jantar no Inatel. Grande grupo!

A nossa melhor tentativa de foto de família. Quase que os miúdos ficavam bem!

A Estrela ainda tinha muita neve. E o casaquinho vermelho de finisher do Circuito Endurance da ATRP? Ah pois é!
A três semanas de enfrentar mais uma vez o MIUT dificilmente poderia pedir um fim de semana melhor. Agora sim, estou confiante que o treino feito desde o início do ano não me deixará mal. Não quer dizer que a prova está no papo, se há corrida que não se dá com este tipo de sobranceria é o MIUT, mas sei que tenho o que é preciso. Segue-se uma semana ainda de carga com um longo mais suave e duas semanas a descer até ao grande dia. A ele!

segunda-feira, 27 de março de 2017

II Trilhos de Bellas (27km) - Trail debaixo d'água.

Depois de na primeira edição ter falhado por lesão e de uma segunda edição adiada pela organização, este domingo foi finalmente dia de me estrear nos Trilhos de Bellas, a convite dos meus amigos dos Go!Runners. 


Como sabem, daqui a 4 semana vou tentar pela terceira vez atravessar a Madeira, no MIUT. Uma prova como esta, curta e com muito parte pernas, em principio não seria o mais ajustado para esta altura do campeonato, mas aproveitei para no dia antes fazer um bom treino no Montejunto e compor um bocadinho mais o fim de semana. O quê? Mesmo assim não foi boa ideia? Meh, não interessa.

O dilúvio anunciado alterou o plano de uma viagem em família, que incluía a prova + um almoço pela zona, para mais uma empreitada solitária. Foi então sozinho que, às 9:20, estava dentro do carro a ganhar coragem para apanhar os primeiros pingos de chuva do dia, para ir levantar o dorsal. O inevitável foi adiado até ao limite. Saí do carro e dei inicio à molha que só seria interrompida lá para as 13:15, quando voltasse a entrar no carro.

As provas perto de Lisboa parecem-me sempre um convívio de conhecidos, acho que ali todos se conhecem. Poucos minutos antes da partida para a prova longa (27km) ainda os quase 300 atletas estavam encostados a um prédio, protegidos da chuva pelas varandas, até que nos começámos a dirigir lentamente para o pórtico. Breves palavras do Filipe Sousa ao microfone, contagem decrescente de 3 para 0 e ala que se faz tarde e isto de estar parado à chuva não tá com nada!

Única foto da meta que encontrei!
O previsível parte pernas começou uns escassos metros a seguir à meta. Primeiro num caminho largo até ao topo e depois a descida por um trilho simpático, no meio de umas árvores. Muitas vezes andámos em trilhos utilizados pelo pessoal das bikes para o downhill, curiosamente a maior parte deles fazíamos a subir. Na primeira metade da prova achei o equilíbrio entre trilhos e estradões perfeito. Notou-se bem a preocupação na escolha do percurso para ligar a máxima quantidade de trilhos, e a verdade é que há bons trilhos por ali! Por vezes o terreno fazia-me lembrar a Serra de Sintra, com os grandes maciços de granito arredondado. 

sobidesce sobidesce sobidesce sobidesce sobidesce
A chuva, que não parou um segundo, tornava tudo mais desafiante. Muitas vezes os próprios trilhos serviam como canais de escoamento de água. Confesso que adoro correr com estas condições! Andámos dentro de ribeiros e em estradões pesadíssimos, com aquela lama que prende a sapatilha. 



A certa altura passámos por dentro de uma conduta de água de uns 2.50m de diâmetro e talvez uns 100m de comprimento, com água pelo meio da canela. Não sou grande fã deste tipo de obstáculos, mas admito que é só uma questão de gosto, porque o pessoal que ia perto de mim pareceu estar satisfeito. Assim que saímos voltámos ao carrossel de subidas e descidas, que por não terem muito desnível permitiam andar sempre a bom ritmo, principalmente quando era preciso abrir a passada nas descidas. 



A meio do percurso entrámos numa zona um pouco incaracterística em relação ao resto do percurso, com 2 ou 3km de estradão. Soube depois que tiveram à ultima hora que cortar uma parte do trajecto e que aquela foi a melhor solução. Compreensível, e confesso que na altura até soube bem para desenrolar e papar alguns quilómetros. A viragem e regresso aos trilhos aconteceu com a entrada no Prémio Montanha, um segmento cronometrado numa subida com cerca de 100m de desnível, das mais longas da prova. Lá em cima estava o segundo de dois abastecimentos. Bastante completos e, na minha opinião, em número suficiente para uma prova com estas características. 

A simpática equipa do primeiro abastecimento
Os últimos 10km foram talvez a melhor parte do percurso. Sentia-me bem e acabei por fazê-los todos a passo de corrida, e que delícia foi passar a abrir por aquele emaranhado de trilhos no meio das árvores nos quilómetros finais! 

A pedir velocidade!

A chuva, que foi aumentando de intensidade ao longo da manhã, funcionou um bocado como anti-climax na chegada. A zona da meta estava naturalmente com pouca gente e meio tristonha. Encaminhei-me, ensopado, para uma espécie de tenda militar onde estava o abastecimento da meta, mas este só tinha laranjas. Soube depois que haviam bifanas e pasteis de nata ali perto. Burro, a culpa foi minha que nem me dei ao trabalho de me informar antes! Corri, literalmente, até ao carro para trocar de roupa e tentar aquecer, já que além da chuva estava bastante frio. Tenho pena de não ter ficado para o convívio, ouvi dizer que correu muito bem.

Gostei da prova! Muita gente da organização ao longo do percurso, marcações irrepreensiveis, abastecimentos bem compostos e em número suficiente. Mas o que interessa realmente é que tinha bons trilhos num percurso divertido, duro qb e nada monótono. Cada vez mais é o que procuro e valorizo numa corrida.

Quanto à minha prova, foi o esperado para esta altura. Foram 3h05 sempre a andar bem, mas há algum tempo que não me sinto forte nas provas e acabo-as sempre um pouco frustrado. Não tenho abrandado nada nestas ultimas semanas e agora seguem-se os 50km do Piodão no próximo sábado. Depois sim, começam 3 semanas de tappering até estar novamente em Porto Moniz para enfrentar mais um MIUT. Espero que esta sensação de cansaço nas últimas semanas seja mesmo de andar a apertar de mais e que chegue afinadinho à Madeira!

segunda-feira, 20 de março de 2017

III Trail de Almeirim - do lado fácil.

Nesta terceira edição do Trail de Almeirim a primeira vez que entrei no Pavilhão da Escola Preparatória das Fazendas de Almeirim foi no Sábado. Quando lá cheguei já os kits estavam ensacados, os stands dos patrocinadores montados e o pórtico de chegada a ser montado e limpo pelo Hélder e o Francisco. No secretariado, a Andreia entregou-me o meu dorsal e o da Sara. Devemos ter sido dos primeiros a levantar, porque ainda faltavam duas horas para a abertura oficial. Não faz mal, já estava tudo preparado. 


Nessa manhã, enquanto treinava em Montejunto, os três percursos do Trail de Almeirim (30, 18 e caminhada) estavam a ser passados a pente fino, à procura de fitas e placas por colocar. Por isso, quando cheguei ao local de partida, no Domingo, tinha a certeza que o trabalho duro estava feito e que não ia falhar nada. O que também não falhou foi o discurso do Omar antes da partida da prova longa. Inevitavelmente é ele a cara do trail, e todos os que ali estão já o conhecem. Com a atenção que a adrenalina pré-prova permite, ouvimo-lo a apresentar os padrinhos e vassoura da prova, imediatamente antes da contagem decrescente para a partida. Passavam poucos minutos depois das 9 quando os 130 e tal começaram a viagem.



Não participei nas várias reuniões e dias de trabalho no campo, por isso o percurso era uma incógnita. Nem sequer conhecia o ponto de entrada na nossa Serra, 1km de alcatrão depois e imediatamente num trilho novinho. Também não estive envolvido na decisão de distribuição dos abastecimentos, por isso foi uma surpresa quando ainda nem 5km tínhamos e já estávamos a passar pelo primeiro! Lá estava o Joel e comitiva, a dar boas-vindas e uma palavra de ânimo, que nesta altura até era mais importante do que mesas recheadas de comida (que até estavam).


Eu só tive que correr neles, mas alguém abriu e roçou mato de maneira a oferecer tanto single track novo. A certa altura cheguei a pensar que talvez tivessem feito um esforço extra e tapado todos os estradões da Serra, porque vi muito poucos! Os meus familiares trilhos antigos apareciam do nada, ligados por caminhos novos. 

Também do nada apareceu o segundo abastecimento, aos 11km. Relembro, estamos numa prova de 30km e aos 11 já vamos com dois abastecimentos. Mais uma vez não parei, agradeci o apoio ao Hélder e equipa, vi de relance os tabuleiros cheios de queijo, fruta, enchidos, marmelada, e sabe-se lá mais o quê, e trotei trilho acima.

O parte-pernas é constante. A nossa Serra não dá para mais, a amplitude é muito pequena, por isso não há super subidas. Há que compensar com muito carrossel. Os quadricepes não se queixam do pouco trabalho, pelo contrário, há algum tempo que estão a ganir! Arrasto-me trilho acima e abaixo enquanto o suor escorre em bica e arranho as pernas no tojo. Começo a sonhar com um isotonico fresquinho, que não levava, quando aos 17km aparece o terceiro abastecimento no Vigia, o ponto mais alto da Serra. Lá estava o Clemente vestido de frade, 3 mesas cheias de comida e copos de isotonico à disposição. Emborquei três antes de me fazer aos 6 ou 7km mais fáceis da prova, os únicos onde deu para rolar e abrir a passada, até chegarmos a novo abastecimento (sim, 4, em 30km!). Mais uma vez declino a muita comida disponível e troco umas rápidas palavras com o Paulo enquanto sorvo mais uns copos de isotónico. Faltam 8km, dizia ele, a parte das Camelas.

O ultimo brinde preparado pela A20KM era num terreno completamente desconhecido para mim. Não participei nas reuniões onde se decidiu levar o pessoal para ali. Provavelmente teria ficado com uma ponta de pena ao perceber o martírio que todos passariam já tão perto do fim! Mais carrossel, mais sobe e desce, mais singles. Às tantas já não se sabe se vamos a subir ou descer, só sabemos que doi! Quando finalmente saímos do labirinto das Camelas vejo o David a 200 metros da meta, que me recebe com um abraço. 

Agora era só correr até ao pavilhão, entrar lá para dentro, receber a medalha gravada à mão pelo Vitor das mãos da Oriana, irmã do Omar. Desta vez só tive que tomar vantagem do muito completo abastecimento final já na meta, não tive que me preocupar com reposições. Alguém se estaria a preocupar, já que não faltava nada. 

Chegada da grande Sara Brito, vencedora feminina.




Segui para casa com a Sara, que correu na caminhada, para tomar banho antes do almoço incluído na inscrição. Quando lá chegámos só tive que me dirigir ao refeitório e, sem nenhuma fila, recolher a minha taça de Sopa da Pedra, uma bifana e um pampilho, e sentar-me num dos muitos lugares disponíveis. As bebidas eram à descrição, escolhemos entre a diversa oferta e almoçámos calmamente à conversa. Dentro da cozinha via o Alexandre na azáfama do costume a orientar tudo e todos. Estava a correr bem, cá fora as coisas estavam perfeitamente fluídas.

Preparação para o almoço
Para mim o Trail de Almeirim acabou ali. Para eles, a dúzia que trabalhou durante meses, ainda ia a meio. Havia ainda muito para fazer. Nos últimos dois anos eu era um deles, desta vez a minha missão estava muito simplificada: só tive que correr 30km!

Não tenho qualquer justificação para acabar o post com esta fotografia minha e do Rodrigo, mas vou fazer isso na mesma. Obrigado pela compreensão.

NOTA - todas as fotografias são da minha amiga Fátima Condeço.



domingo, 12 de março de 2017

Território - Circuito Centro - Vila de Rei 2017


Para a segunda prova do ano decidi voltar a um Circuito que me deixou muito boas recordações há dois anos, o Território - Circuito Centro, da Horizontes. Na altura corri na etapa de Proença a Nova e gostei muito. Desde o percurso, ao ambiente familiar e paisagens, foi uma prova que me surpreendeu e me deixou com muitas expectativas para aquela que, parece-me, é a etapa rainha do circuito: Vila de Rei. Se correspondeu? Bom... o melhor é continuarem a ler.


Esta prova tinha desde logo uma característica que a diferenciaria de todas as outras etapas do circuito: serviu para apurar dois atletas para o campeonato do mundo de trail, a realizar em Itália. Claro que este facto serviu para chamar toda a elite do trail nacional, tornando-a numa cimeira como poucas vezes se vê, com as principais figuras a competirem directamente. O revés da medalha é que se perdeu o ambiente familiar, o que, sinceramente, também não me faz assim grande confusão. Por razões óbvias, o aumento de competitividade na frente não me afecta lá muito!

Antes da partida houve ainda um momento importante (para mim, claro). Há alguns meses que saí da Associação 20km de Almeirim mas foi apenas recentemente que me juntei a um grupo de bons amigos que já me acompanha na corrida há muito tempo, o Grupo Desportivo da Parreira, nomeadamente o Vasco, que para quem segue este blog não é nenhum estranho. Sábado foi o dia em que vesti pela primeira vez a camisola do GDP.

Atletas do GDP presentes em Vila de Rei.
Cumpridas as formalidades do levantamento de dorsal e controlo zero, fez-se a concentração junto à câmara municipal para uns últimos conselhos e contagem decrescente. Passavam uns minutos das 9 da manhã quando os 200 e tal partiram, sob um céu nublado a ameaçar chuva. Vinte segundos depois, mais coisa menos coisa, já levava 2km de atraso para o grupo da frente. Esfumaram-se cedo as minhas pretensões de qualificação para Itália :(

A partida
O percurso começou logo a subir até ao ponto mais alto da corrida, no marco que assinala o centro geodésico de Portugal, aos 600m de altitude. Os estradões inclinados que nos levaram até lá acima, aos 4km, foram depois substituídos por um trilho bastante longo e rápido a descer outros tantos quilómetros. Na etapa de Proença a Nova foi uma característica muito vincada do percurso, secções muito interessantes, técnicas e até difíceis, com ligações por estradão e estradas florestais. Na altura não me chatearam nada os km de estradão, porque se notava que estavam ali por uma razão. Além disso eram quase sempre no meio de árvores, nunca os achei muito monótonos. Infelizmente não posso dizer o mesmo dos 7 ou 8km após a descida do marco. Um estradão largo, praticamente plano, depois a subir até novo marco geodésico, de Melriça, convidava a ritmos de estrada.

NOTA: este post tem mais uma vez o alto patrocínio do talento fotográfico do grande MIGUEL CADALSO! Depois desta e dos Abutres, nomeado fotografo oficial do Quarenta e Dois. Só é preciso fazer as mesmas prova que eu. :)

hm..
O abastecimento chegou pouco tempo depois da subida ao marco, aos 14km. Desde há algum tempo que quando parto para uma prova vou preparado para não estar dependente dos abastecimentos. Levo comida para cada hora e vou trincando qualquer coisa nos abastecimentos para não serem só geis e barras. No entanto, não tenho por hábito levar isotonico porque não gosto de o beber mole e acabo por beber sempre nos abastecimentos. Infelizmente, em nenhum dos 4 abastecimentos desta prova havia isotónico. Já que estou a falar de abastecimentos, tenho que dizer que, tal como na Ericeira (outra prova da Horizontes), mais uma vez me pareceram mal distribuídos. Eram 4, para 50km. Poucos, mas nada de extraordinário. O problema é que o ultimo estava a 2km da meta. Ou seja, na prática eram 3 abastecimentos. Para mim, não faz sentido aquele abastecimento ali, mas é só a minha opinião. Quanto à qualidade e diversidade prefiro não opinar, já percebi que cada um tem as suas preferências e o que para mim pode ser pobre para outros será mais que suficiente. Mas o que não pode acontecer é ter ouvido amigos que andaram mais para trás no pelotão a dizerem-me que quando lá chegavam já nem fruta havia... Epah, e já agora: "a que km estamos?", "quantos km faltam para o próximo?". TODAS as pessoas que estão a gerir um abastecimento TÊM que saber responder a estas duas simples perguntas! 

Pronto, já despachei isto tudo para não deixar para o fim e pensarem que isto é só dizer mal.

Depois de deixado para trás o abastecimento entrámos numa fase totalmente diferente da prova. Descemos até uma ribeira que cruzámos algumas vezes, com algumas passagens muito giras, andámos em vales muito fechados, sempre em caminhos apertados, com rocha molhada à mistura. Até comentei com um companheiro que parecia uma prova nova. Tal como em Proença, estas zonas muito interessantes depressa fizeram esquecer o estradão chato de há momentos.

Numa das secções de rocha.
Não demorou muito até entrarmos novamente nos estradões de ligação. Muito sobe e desce, picadas, terreno plano, muita corrida, muita. A verdade é que depois de concluída a prova temos pena de não ter andado sempre em trilhos, mas na altura sabe bem papar quilómetros nestas ligações. Ao contrário dos Abutres, desta vez já me senti bem praticamente na prova toda, e logo depois de uma ou outra subida mais complicada tinha pernas para retomar o ritmo de corrida. Os troços mais giros apareciam invariavelmente depois de uma descida acentuada até um vale. Era quando andávamos junto às linhas de água e nos trilhos mais técnicos, com subidas e descidas muito boas.

As zonas que compensavam os estradões

Aqui já vinha a treinar a minha MIUT Face para daqui a mês e meio.
A dupla da frente: David Quelhas e Tiago Romão. Que animais!


Depois do penúltimo abastecimento, no Penedo Furado, a prova pouco mudou. Continuámos a passar por zonas muito engraçadas, mas sempre com os inevitáveis estradões de ligação. Nesta altura o calor já apertava muito e comecei a ficar um pouco desconfortável de estar a beber tanta água. As subidas, nunca demasiado longas ou inclinadas, sucediam-se até que apanhámos uma descida muito técnica, das melhoras da prova, até ao ultimo abastecimento, na zona da Cascata dos Poios. Era aqui, a 2km da meta, que estava o ultimo abastecimento. Segui para a subida final sempre junto à cascata. Uma subida técnica e trabalhosa, muito boa. 

Na meta, à minha espera estava a Sara, que ultimamente, derivado a questões de termos dois miúdos que ainda não se desenrascam sozinhos, tem andado arredada destas lides. Desta vez só teve que esperar 6h49, o tempo que demorei a percorrer os 50km certinhos. Como disse lá atrás, fiquei contente por desta vez não ter passado por debilidades físicas como nos Abutres, mas a prova também era completamente diferente. Uma coisa tenho notado, o nível médio do pelotão tem subido bastante! Ou é só impressão minha?


Quanto à prova, acho que já perceberam que na verdade não me deixou muitas saudades. Ao contrário de Proença, achei certas partes muito maçadoras, apesar de ter troços mesmo muito interessantes. Percebo que não deve ser fácil ligá-los, já que estão distantes, mas foram muitos quilómetros de estradão. As marcação são à Horizontes, económicas QB, mas sempre no sitio certo. Não se espere uma densidade de fitas muito grande, mas na verdade só nos perdemos se formos distraídos. Fiquei a gostar ainda mais desta zona e com vontade de fazer a etapa de Vila Velha de Rodão, mas dificilmente repetirei a de Vila de Rei.

Agora é altura de apontar baterias ao Piodão, etapa final antes de mais um MIUT. O pensamento neste momento é: mas como é que vou dobrar a distancia e triplicar o desnivel daqui a 6 semanas??? Bem, alguma maneira hei-de arranjar!