As minhas corridas na estrada

terça-feira, 11 de junho de 2019

Os Alpes e a cada vez menos secundária corrida

Em Setembro do ano passado, dia em que foram postos à venda os bilhetes para a primavera deste ano na Easyjet, decidimos comprar voos para ir passar uns dias aos Alpes. A ideia era portanto passar uns dias em família com o Zé Nuno, um grande amigo meu que vive em Genebra, mas, claro está, apesar de se dizer que é a mais importante das coisas secundárias,  para mim e para a minha família é cada vez mais um elemento central. Não vale a pena dizer que não. Fazemos férias com esse propósito, os meus filhos passam a vida a falar de subir montanhas e de correr, fartamo-nos de passear, de conhecer sítios e pessoas por causa dela. No entanto eu detesto roubar tempo que posso estar com eles, é por isso que acordo todos os dias às 5:20 da manhã, por isso decidi que os treinos em férias teriam entre 2 a, no máximo, 3 horas. Um de manhã e outro, se se proporcionasse, ao fim do dia. 

Nos meses que antecederam a viagem, e depois de definir os sítios das dormidas (ficaríamos uma noite em casa do Zé, em Genebra, e duas em La Clusaz, uma vila em plenos Alpes), procurei percursos para fazer. Primeiro no Strava, explorando segmentos, e depois em sites como o Wikiloc ou Gpsies. Encontrei alguns, que descarreguei para o relógio, mas é claro que grande parte seria na base da aventura, como se veio a verificar. 

Consegui fazer os 6 treinos previstos, nenhum nos sítios que pensava :) Passei por alguns dos momentos mais incríveis, maravilhosos e também assustadores que já vivi. Descobri limitações, vivi sensações que desconhecia, aprendi muito. Percebi que fiz algumas coisas demasiado arriscadas, mas estou aqui para contar a história, isso é que interessa.

Ao longo dos 4 dias fui fazendo posts na página de Facebook do Quarenta e Dois, deixo agora aqui um apanhado do que fui escrevendo. Gosto muito mais deste formato, para memória futura. 

Dia 1 - Juras, subida ao Le Dôle

A Norte de Genebra existe a cordilheira do Juras. Calhou muito bem que um dos picos mais altos do maciço, o Le Dôle, com 1671m, ficasse a menos de 10km da casa do Zé!
O percurso escolhido é circular, uma subida e uma descida única, mas para evitar eventualmente perder-me e demorar muito tempo (sim, porque parecendo que não, isto são férias de família, não são férias de corrida) subi e desci pelo mesmo sítio. Foram 18km com 1200+, numa única subida e descida, mas esta pequena volta foi muito mais que números. Foi o início perfeito para 4 dias que se adivinham de sonho.
O percurso começa aos 550m de altitude e até aos 1400 é feito integralmente num daqueles trilhos que constam no manual de trilhos perfeitos. Terra escura e mole coberta de folhas secas, algumas raízes, bosque cerrado e um caminho aos esses para diluir o declive. Toda ela boa de se fazer a trote sem grande esforço. Uma maravilha.
Mas o melhor estava guardado para quando saí da linha de árvores e entrei no que pensava ser o topo, mas estava longe de o ser. Uma parede gigante, vertical, erguia-se à minha frente! Os 300m finais da subida foram feito em trilho puramente alpino, super inclinado e técnico, completamente diferente do caminho até então!
Chegado lá acima uma vista de outro mundo para o Lac Leman, que separa a Suíça da França e o Jura dos Alpes tirou-me o fôlego que ainda restava. Lá estavam os picos dos Alpes, pintados de branco, a espreitar.
Antes de arrefecer, e porque o jantar já não devia tardar, apressei-me na descida. Lembram-se da descrição de um trilho perfeito e bom de se trotar? Pois bem, imaginem a descer! Foram 9km a fundo, a serpentear pela encosta no trilho!


Um trilho mesmo junto ao topo

Trilhos perfeitos

No Le Dôle

Vista do Lac Leman, com os Alpes à vista
Dia 2, parte 1 - Juras, nova subida ao Le Dôle

Ainda na Suíça, no-da-manhã subi novamente ao Le Dôle, desta vez uma subida paralela à que fiz ontem. Acabou por ser uns decepcionantes 10km de estradão nos quais subi 1000+, até chegar à mesma clareira onde estive ontem, na base do Dôle.
Aí sim, começou a festa!
Subi a parede pelo outro lado e passei por um Col espetacular, antes do ataque final. O plano inicial era descer por onde subi, mas já tinha sido desilusão suficiente subir aquele estradão, por isso desci pelo mesmo sítio de ontem. Agora com a certeza do caminho ainda foi mais fixe! Lá para o fim apercebi-me que descer duas vezes seguidas 1000m a fundo pode não ter sido muito boa ideia. As pernas já estavam no limite e ainda há muito para subir nestas férias.



Link para o Strava 


Paisagens muito alpinas, no Juras





Dia 2, parte 2 - Já nos Alpes, com uma subida épica ao l'Aiguille!


Agora sim, na montanha!
Chegamos hoje à tarde ao nosso apartamento em La Clousaz. Aqui já não consegui encontrar segmentos de Strava, mas depois de pesquisar no gpsies encontrei alguns percurso que saquei. No entanto, hoje sai sem plano. Ou melhor, quase.
Clusaz é uma aldeia no fundo de um vale brutal, como tantas nos Alpes. Da janela do nosso apartamento consigo ver uns 10 picos diferentes. Mais importante para este dia, da janela do nosso apartamento dá para ver um pico lá bem em cima, com uma cruz a topá-lo! Pois bem, estava decidido, hoje ia até à Cruz. Descobri mais tarde que o pico tem nome, l’Aguille, e estava a 2300m de altitude. Como lá chegar? Pois, não sei. É apontar para lá e siga!
Comecei a subir pela hipótese mais óbvia/chata, que é subir a direito pela pista de ski. Uma espécie de corta fogo glorificado. Faz o serviço, que é ganhar desnível, mas é chato.
Mais ou menos 400m de subida depois, quando me chego perto de um bosque que ladeia a pista, tcharammm, uma pista de downhill! Meti-me logo nela e serpenteei pelo bosque acima. Assim sim!
Continuei no trilho limpo até cerca de 1900m de altitude, quando acabam os teleféricos e cadeiras, mas a Cruz ainda estava lá bem em cima! Só havia uma hipótese, subir à selvagem pela encosta.
Comecei a apanhar neve. Começou a ficar muito inóspito, subia numa crista com um precipício brutal de cada lado. Clusaz estava cada vez mais lá em baixo, mais de 1000m, mas continuava a vê-la quando me voltavam. A vista do Vale era brutal, montanhas por todo o lado! A minha estava cada vez mais inclinada, mais cinzenta do granito, mais fria...
Nuvens escuras começaram a tapar o vale, o vento aumentava. A Cruz parecia que não chegava, subia aos zigue-zagues pela encosta virgem, numa tentativa de diluir o desnível brutal que chegou várias vezes a 50%! Vi alguns veados e outros animais que nem sei o que eram. À medida que subia o tempo ficava cada vez mais agressivo, mas tinha que chegar lá acima!
Finalmente o pico!! E foi ainda mais extraordinário do que alguma vez pensei. Tinha uma proeminência brutal, uma espécie de agulha (aiguille), com precipícios incríveis para todo o lado. Muita neve, muito cinzento, muito vento! Estava tão maravilhado como borrado de medo, à medida que as nuvens cobriam cada vez mais o céu.
Descer. Com pernas, rabo e braços, enquanto tentava não escorregar para o abismo! Finalmente cheguei às pistas de downhill! Foram mais que 5km e 800- em pistas limpinhas, cheias de curvas e contracurvas, chão macio e preto, nem pedras tinha. Uma maravilha para abrir a passada!
Cheguei ao apartamento quase 2h30 depois, apenas com 13km e 1200+. Foi sem dúvida uma das maiores aventuras nos trilhos que já passei.
PS - fui sem destino, mas não deixei as coisas entregues ao destino. Este foi o equipamento que levei, além do normal de corrida:
Corta vento


Impermeável 

Gorro 
Luvas
Manguitos 
Manta térmica
Ligadura
Frontal 
1l de água
3 barras 
Telemóvel carregado com os dados ligados 
Relógio com GPS (e experiência a ler tracks)

Isto tudo para um treino previsto de pouco mais que 2 horas! Já ouviram isto dezenas de vezes, mas, de facto, com a montanha não se brinca.


A Cruz! 

Encosta final


Descobri depois que o animal era uma camurça e não veado!




Dia 3, parte 1 - De um plano furado nasce uma bela manhã de trail


Tinha grandes planos para esta manhã. Era o dia em que ia atacar os picos mais altos, acima dos 2400m. Acordei à hora certa, sai de casa às 7 em ponto e dirigi-me à garagem para fazer de carro os 10km que me separavam do início do trilho. Pois bem, não consegui destravar o carro do Zé Nuno 🙄plano de contingência activado, fui andando até encontrar um trilho aqui ao pé e toca a subir!
Para a semana vai aqui haver o Alps Bike Fest por isso as encostas aqui por La Clusaz estão cheiinhas de trilhos do BTT, todos limpinhos e bem marcados. Ainda por cima este fim de semana ainda não está cá ninguém, por isso os trilhos eram só para mim!
adoptei a mesma estratégia de ontem, fui andando até a um bosque, confiante que encontraria um trilho. E lá estava ele! Uma maravilha. Subi até aos 2000m e desci por um trilho diferente de ontem. Um espetáculo. Manhã de puro trail running.
Foi uma saída mais pequena, 15km com 900+. Nesta altura já levava 68km com 4500+ em apenas 3 dias, começava a pesar.


Trilhos limpinhos

Um maciço lindissimo mesmo ali ao lado


Uma marmota! Vi dezenas


Uma outra vista o Aiguille, o pico que subi no dia anterior. Dá para perceber bem a proeminência!

Dia 3, parte 2 - Uma verdadeira lição

O dia em que vi a vida a andar pra trás.
Passei o dia com a Sara, os miúdos e o Zé no Lac des Confins, mesmo ao lado do início do trilho que tinha planeado subir hoje de manhã. Não consegui evitar passar vários minutos a olhar para a encosta, à procura de trilhos ou alguma linha que pudesse seguir para chegar aos picos.. depois do lanche, quando foi tudo para casa descansar, equipei-me e fiz-me finalmente ao grande objectivo destes dias: chegar pelo menos aos 2500m de um dos grandes picos.
Parei o carro (sim, já o consegui destravar) e mandei uma mensagem a um grupo de amigos a avisar qual seria o track seguido, para saberem onde ia andar caso acontecesse alguma coisa. Liguei o track no relógio e fiz-me ao caminho.
Uma placa no início do trilho avisava entre parênteses que se tratava de um trilho de montanha e que não estava balizado. Enfim, siga!
Comecei a subir e imediatamente percebi que estava noutro jogo que não o dos últimos dias. O trilho era áspero, com muita pedra, técnico e íngreme. Não havia cá os cotovelos do BTT, era pra cima à bruta.
Apanhei o primeiro bloco de gelo ainda nem ia com 200m de subida. Como previa, não era fácil passar. O gelo estava muito duro, escorregava automaticamente! Lá consegui passar o primeiro bloco e continuei pelo trilho, violentamente pra cima.
Segundo bloco, desta vez tinha cerca de 200 para fazer no gelo, ainda por cima a subir numa encosta bem inclinada! Dei uns pontapés até abrir um buraco e enfiei um pé. Repeti o processo com o outro e enfiei as duas mãos no gelo para me puxar. Fui repetindo o processo enquanto escalava no gelo, mas comecei a ficar assustado! Ia a meio caminho quando
Decidi voltar para trás. Desci de costas e tentei aproveitar os buracos que tinha feito, mas não estava fácil. As mãos começaram a doer por estar enfiadas no gelo e cada vez que olhava para baixo para ver onde punha os pés tinha uma tontura provocado pelas centenas de metros que tinha até ao fundo da encosta.

La consegui. Encostei as mãos numa rocha que estava exposta ao sol para as aquecer (apesar de haver muita neve e gelo estava calor, 20°, pelo menos).
Voltar a passar no gelo estava fora de questão, era demasiado perigoso e arriscado! Decidi descer um bocado até conseguir contornar aquele bloco, mas isso implicava ter que subir numa encosta sem trilho. Bem, seja!
Fui subindo pela encosta selvagem, a direito, à selvagem! Estava coberta de erva rasteira seca, sem qualquer socalco ou pedra. A certa altura a inclinação era tanta que tinha que usar as mãos para me puxar, não levantava um pé sem ter a certeza que o outro estava seguro, porque escorregar ali era, literalmente, a morte do artista!
Era claramente demasiado arriscado estar naquela situação, mas eu sou estupido, só pensava em chegar mais alto! Pode ser que lá em cima encontre algum trilho bom, pensava eu..
Pfff
Só olhava para o terreno, evitava olhar para baixo ou para cima porque ficava com vertigens. Quando ficava demasiado ofegante (já estava perto dos 2000m) parava um bocado para recuperar o fôlego, mas sempre sem olhar para trás!
Batalhei encosta acima até que finalmente cheguei a um plateau. Olhei à volta, neve e gelo por todo o lado, sem a mínima hipótese de contornar! Lá de cima do colo começo a ver alguém a descer, quando chegou ao pé mim vi que vinha equipado com crampons, botas de montanhismo, bastões... e Eu com as minhas new balance hierro, de calçãozinho de atletismo e T-shirt! Claramente fora do meu campeonato!
Ok, está decidido, só tinha subido 700 e estava nos 2000 e pouco de altitude, mas o treino tinha acabado, hora de voltar!
Mal sabia eu que o pior estava para vir: a descida!
Lembram-se daquela encosta que dava vertigens a subir? Pois, imaginem a descer! Desci com o rabo a deslizar pela erva, com os braços apoiados atrás do corpo, um passinho de cada vez! Fiquei completamente em pânico, a certa altura não via mesmo maneira de sair dali, a encosta era completamente lisa, não quero sequer pensar o que acontecia se deslizasse nem que fosse 50cm, era impossível parar!
Cheguei ao carro com 6km e duas horas. Mas, acima de tudo, cheguei ao carro com uma certeza: Trail é muito diferente de montanhismo. Não é só uma questão de coragem ou atitude, é um mundo à parte. Equipamento completamente diferente.
Não cheguei aos 2500, mas trouxe da encosta do maciço de Balme uma grande lição!


A encosta subida. O colo, que tentei virar, está a 2300m 
Tirei esta foto sentado na encosta enquanto tentava descer. Gostava que se percebesse melhor a inclinação, mas já conseguem ver o tipo de tipo. Super escorregadio e sem nada para amparar.



O companheiro que vinha com crampons.

É muito frequente nos Alpes isto acontecer, lá atrás dá para ver o fundo, a mais de 1000m. Aumenta muito a sensação de vertigem!

Dia 4 - O ultimo e abençoado dia


Acordei tarde e a más horas. Não faz mal, o plano já era fazer uma volta mais pequena hoje, afinal tínhamos que fazer check out às 12. Para ajudar, estava a chover torrencialmente. No problem, vim prevenido, toca de vestir o impermeável e siga.

Mais uma vez nem precisei de sair de carro. Mesmo ao lado do apartamento há um monte mais pequeno, cerca de 1700m, o plano era arranjar maneira de ir lá acima. Sai sem plano, havia de encontrar algum trilho ou pista de downhill. Hoje já não estava para grandes aventuras!

Por entre a chuva muito forte lá fui subido, primeiro por alcatrão, depois uns trilhos pedestres e finalmente encontrei no meio do bosque a bela da pista de downhill.
No final deu uma respeitável subida de quase 700m, mas a maior surpresa do dia foi a vista brutal do Vale de La Clusaz que tive lá de cima! Completamente sozinho na montanha, explorei os trilhos e as vistas a 360° antes de me lançar novamente na pista de La Ferriaz, uma maravilha com 4km e 600-.
E pronto, acabou o estágio nos Alpes. Nos 4 dias ainda consegui fazer 86km com 6000+, mas o melhor foram as aventuras vividas. Acabaram por não ser uma férias muito caras, não ficou muito mais caro do que ir com a família para o Gerês, por exemplo. Hoje em dia tudo é perto, e vir a uma montanha destas é impagável.

Vista espetacular do Vale


No inicio de todos os trilhos havia uma legenda destas

Tinha que vir estragar a paisagem
Além destas 6 aventuras ainda sobrou bastante tempo para umas óptimas férias de familia. Por entre birras do Manel lá visitámos Anecy, Lyon e La Clusaz, passamos umas boas horas na montanha, num lago, na piscina interior do nosso apartamento, conversámos e rimos. Por, cada vez menos, secundária que seja a corrida, a verdade é que são estes os momentos que nunca vamos esquecer.

A minha filha adora tirar fotografias...

Trataram-se bem

Fotografia tirada pela Mel
O Zé e a Sara

E o Manel e o Lenox, cão do Zé Nuno que passou as férias connosco




segunda-feira, 27 de maio de 2019

X Trail do Almonda - A prova que a Serra d'Aire merecia

A primeira (e única) vez que tinha estado no Trail do Almonda foi em 2014, na altura a 5ª edição desta corrida. Confesso que não me deixou muitas saudades. Lembrava-me de uma descida espetacular num trilho de downhill, um subida dificil num trilho muito fechado na mata, mas lembrava-me principalmente daqueles 4 ou 5km de estradão a direito que apanhámos no fim. Bem, se calhar eram menos, mas já se sabe como é que é esta coisa da memória... Os anos passaram e fui acompanhando as edições do Almonda, aparentemente sem grandes alterações. A decisão de voltar para a 10ª edição partiu de um convite do Aníbal e Tiago Godinho, duas das pessoas que mais prezo nisto do trail. O Aníbal é uma espécie de director técnico da prova e juntamente com os restantes Caracois (Caracol Trail Team) são responsáveis pelo percurso. Ora, eu já esperava uma organização competente, nem punha outra hipótese, o que não estava à espera era de um percurso integralmente diferente do que fiz em 2014 e certamente não estava à espera de apanhar um dos melhores percursos nesta distância que já fiz!

No topo do Vale do Fojo, tirado por mim num dos muitos treinos que lá fiz de madrugada
O dia previa-se muito quente e logo antes da partida o Aníbal avisou toda a gente que haveriam pontos de água extra, além dos 4 abastecimentos previstos. A Serra d'Aire é muito árida e tem pouca vegetação, além disso íamos andar frequentemente encaixados dentro de vales onde provavelmente não correria uma brisa. O calor é de facto um elemento preponderante numa prova destas, mas é o que é, é mau pra todos, não vale a pena chorar sobre o assunto. A minha maneira de lidar com ele foi começar a bebericar água praticamente desde a partida, tanto que aos 5km, onde estava o primeiro abastecimento, já estava a encher de novo o flask de 500ml que levei! 

Foto do Facebook da organização
Até esse abastecimento o percurso estava a ser uma completa surpresa. Partimos em sentido contrário ao percurso de 2014, em direção ao tal estradão chato que nos levaria até ao Vale Garcia. Mas desta vez o estradão transformou-se em trilho cerca de 1km logo após a partida e assim se manteve até ao sopé do maciço da Serra. Um trilho muito bom, que parecia existir ali desde sempre, não daqueles ganhos ao mato à custa do trabalho de roçadoras. 

Como sempre, parti com tudo. Mas desta vez não era só o fôlego que estava dificil de controlar, as pernas parecia que não queriam entrar em jogo. Foi em esforço que ataquei a subida do Vale Garcia, tantas vezes feita a trote em treino mas que aqui teve que ser intermediada várias vezes a passo. A segunda surpresa do dia chegou a meio desta grande subida de 500+, quando virámos à esquerda e damos de cara com uma placa a dizer "Trilho Panorâmico". E que trilho! Com partes de puro sky running, uma via ferrata com correntes de ferro e uma vista brutal para a planície que se estendia por quilómetros. O esticão final foi feito num trilho ganho à encosta, completamente exposto. Perto dos 600m de altitude o ar ficou mais fresco e comecei finalmente a sentir-me bem! 

28km, 1400+, 4 subidas.
Novo abastecimento aos 10km, no Parque de Merendas, mais meio litro de água e toca a atacar a 2ª de 4 subidas. Mais uma vez o trote não estava lá, mas não era o único em dificuldades, já que ninguém me ultrapassava. A subida do Parque de Merendas é topada com um trilho que gosto muito, no planalto, com cerca de 2km ligeiramente a subir e que nos deixa no ponto mais alto da Serra, aos 660m. Metade estava feito e estava no meu melhor momento da corrida. Passo por um senhor que me diz que vou em 12º. Ok, bora lá à procura do top 10! 

Mal sabia eu o que me esperava...

Foi na descida para o Vale Alto que a prova se revelou. O piso da Serra d'Aire é muito agressivo. O calcário está por todo o lado, mas não são os maciços presos à terra que chateiam. Esses obrigam-nos a serpentear e a pensar e corrigir constantemente a trajectória, mas acaba por ser divertido, apesar de duro. O pior é mesmo aquela brita de tamanho médio, solta, da qual não dá para fugir. Toda esta descida era assim, coberta de pedra, muito desconfortável, muito dura. Queríamos correr depressa mas o piso não deixava, estávamos constantemente em esforço. Mau sinal quando a acabar a primeira grande descida já vou com os quadricepes a implorar por uma subida! 

Esta é para a Sara, que diz que fico sempre bem nas fotos das corridas.
Estávamos agora na face Norte da Serra, seguia-se nova subida aos 650m e depois descer o "meu" Vale do Fojo. Antes disso novo abastecimento e 3º refill do flask que chegou à conta para os 5km anteriores. O ar lá em baixo era consideravelmente mais quente, se calhar por isso é que a subida do Trilho da Caverna era tão agressiva, para nos levar lá acima o mais depressa possível! Uma barbaridade com 2km, muitas vezes acima dos 30% de inclinação. Mesmo assim subi bem! Com um passo forte e constante, acabei por ir buscar 2 pessoas e estava em 9º ou 10º! 

Sabia de cor o percurso até ao fim, descer o Fojo e o Medronheiro, depois subir o downhill e rolar até à meta. Passei ali dezenas de vezes em treino, estava no papo, era só fechar! Ataquei o Fojo com tudo mas reparei que estava muito em esforço e ainda nem estava propriamente a descer, o trilho tem 1km praticamente plano lá em cima. Um companheiro estava a apanhar-me e disse para ele passar, decidi que ia fazer a descida controlada para depois dar tudo na subida do downhill. 

Pois, planos...é tudo muito bonito até levarmos uma chapada na cara!

Eu adoro o trilho do Fojo, até lhe fiz uma declaração de amor há uns tempos no Facebook. Mas gosto muito mais de o subir, porque a descer é um pesadelo. Um trilho super técnico, muito variado e inclinado. Estava a custar-me cada vez mais descer, via o colega da frente a fugir e só me apetecia parar, já implorava pelo fim para poder correr um bocadinho a direito. Quando cheguei ao patamar que separa a descida do Fojo dos Medronheiros, na Pedreira do Espanhol, onde havia o ultimo abastecimento, estava completamente de rastos. Os quase 400m de descida mataram-me, não tinha um pingo de água, muito menos combustível no depósito. 

Trilho do Fojo, tirada numa madrugada destas.
O abastecimento naquela clareira era um oásis. Cheguei lá e enchi o flask. Bebi meio litro de penalty, enchi de novo e despejei na cabeça, bebi um bocado de isotónico e voltei a encher de água para o que restava. Dois litros de água em 2h30 já tinham voado. Enquanto tentava ressuscitar com a água, 4 ou 5 companheiros passaram por mim. Lá se foi o top 10. Mas o pior nem era isso. O pior foi a descida dos Medronheiros e logo a seguir a subida do downhill. Que inferno! Um calor intenso e abafado, no fundo da montanha, sem um pingo de energia, completamente vazio. A subida que até nem é nada de especial, muito boa para trotar, foi feita num suplício, a implorar pelo estradão no fim. Quando a virei ainda tive que andar durante algum tempo a passo no estradão até conseguir correr.

Faltavam 2km para o fim e pela primeira vez durante toda a prova senti que foi cheio ali algum chouriço, ou então era eu que já estava tão desesperado. Ficou feito 3h23 depois da partida, acabei em 15º, completamente esgotado, novamente sem água! 

Na reta da meta toda a gente corre! Foto da Inês Agridoce!
O Trail do Almonda foi uma autentica surpresa. Um daqueles dias em que se sente que aconteceu ali alguma coisa especial. O percurso é muito duro, mas equilibrado. Faz sentido, não são trilhos para encher chouriço. A principal dificuldade são as descidas, em nenhuma dá para descansar das subidas e isso tem o seu preço. O calor, como disse lá atrás, é o que é. Todos temos problemas com isso, do primeiro ao ultimo classificado. Os abastecimentos foram em número suficiente (4 em 28km!) e ainda tivemos dois pontos extra com água! Boas marcações e bom ambiente. Tudo no ponto! Em 2014 fiquei com a sensação que a prova estava incompleta, desta vez acho que o Aníbal Godinho e companhia encontraram ouro e esta prova, que perdeu algum protagonismo depois de sair do circuito nacional, tem tudo para se tornar uma referencia. É a prova que a Serra d'Aire merecia!




segunda-feira, 29 de abril de 2019

Madeira Island Ultra Trail 2019 - A minha corrida perfeita.

Foi em 2014 que li a crónica do Paulo Pires sobre participação dele no MIUT. Na altura ainda era um inexperiente nos trilhos, mas a descrição dele da Floresta Laurissilva ficou-me na cabeça e decidi logo ali que um dia ia estar na Madeira. Um ano e uma decisão impulsiva depois, lá estava eu em Porto Moniz para enfrentar os 115km que haveriam de mudar tudo. Passaram 5 anos desde que o Paulo me apresentou o MIUT. Milhares de quilómetros noutros trilhos, noutras montanhas, noutros países.. Mas todos os anos lá voltava eu a Porto Moniz para mais uma travessia. 

Quatro MIUTs depois e aos 105km do quinto, no Larano, ultimo abastecimento da prova, o ciclo estava prestes a fechar-se. Tentava segurar as lágrimas. Tão perto da meta mas tão longe. As pernas estavam desfeitas, gritavam por descanso, por paz. O meu corpo pesava mais de 500kg em cima daquela cadeira. A 11.2km da meta senti que não conseguiria dar nem mais um passo, a minha prova tinha acabado ali. 

Mas.... levantei-me.

Retirado do Facebook da organização.
Nunca tinha estado tão tranquilo antes de um MIUT. Estava completamente seguro do treino que tinha feito, vinha de algumas provas que me deram muita confiança e, acima de tudo, sentia-me muito bem. A viagem foi mais uma vez feita com grandes amigos, a Sara diz que é a minha viagem de finalistas anual :) O Rodrigo e o Simão estavam comigo na partida dos 115km, enquanto o João Bastos e João Miguel esperavam em Machico pelo inicio das suas provas, 42 e 85km. 

Rodrigo, Simão, Bastos e Cabeçudo.
Este ano éramos uns impressionantes 960 em Porto Moniz! No meu primeiro ano partiram 350. À meia noite lá iniciámos a cada vez mais stressante primeira subida e descida. É muita gente para escoar e os engarrafamentos são quase inevitáveis, mas mesmo assim consegui descer com bom andamento para a Ribeira da Janela, onde como sempre nos esperava um cada vez mais impressionante banho de multidão. 

A subida seguinte, a primeira grande subida da prova, até ao Fanal, tem sofrido algumas ligeiras alterações ao longo dos anos. Sinceramente, parece-me que todas a foram tornando mais acessível! Não deixam de ser 1200+ em 10km, mas a inclinação nunca é exagerada e o desnível, apesar de ir acumulando no corpo, vai-se papando quase sem dar por isso. Mas o MIUT estava prestes a começar e foi longo com estrondo.

A famosa e sempre espetacular serpente. Retirado do Facebook da organização.
Para este ano a grande alteração foi a descida a seguir ao Fanal. Aquela que para mim era a mais difícil de todo o percurso seria substituída por uma supostamente mais acessível, mas sinceramente dali não vieram facilidades. A nova descida, que acrescentou quase 3km ao percurso, foi quase toda feita em escadas (quem diria), embrenhada na Laurissilva. Um trilho espetacular mas muito difícil, como quase todos nesta prova, onde é quase sempre impossível de correr e o único pensamento é segurar as pontas para o que aí vem. E ainda mais cuidados se devem ter quando o que se segue é o monstro do MIUT: a subida para Estanquinhos. 

Juro que de ano para ano eles sobem a cota de Estanquinhos. Tem que ser, aquilo parece-me sempre maior. O mesmo desnível da subida para o Fanal mas com metade do comprimento. Uma verdadeira bomba que se não for tratada com o máximo cuidado nos rebenta nas mãos. Senti-me bem nesta subida. Ao contrário de 2018, fui poucas vezes virado e consegui manter um ritmo constante sem nunca entrar em demasiado esforço. O único contratempo foi a 50 metros do abastecimento onde, desconcentrado, dei uma valente queda que deixou uma bonita marca na perna. O pior foi quando me tentei levantar e os músculos das pernas ficaram imediatamente com cãibras, afinal já iam em tensão completa com as 2 horas de subida intensa. Mas não havia tempo a perder, lambi as feridas, entrei no abastecimento e tentei comer, só que desta vez e ao contrário do habitual, o estômago não estava a colaborar e só consegui comer dois pedaços de banana. Paciência, logo se há-de ver, siga para a descida. 

A Courtney a chegar ao Fanal. Mais uma da organização.
Este ano tivemos a sorte de apanhar um excelente dia, não choveu durante toda a noite, pelo que a descida a seguir a Estanquinhos estava sequinha. O dia perfeito para a descida perfeita, na qual em quase 10km se perdem os 1200m que se ganharam na subida. Umas vezes rolante, outras vezes técnica, outras vezes desesperante com os seus lances de escadas super íngremes, é uma descida que nos convida a andar rápido mas para a qual pagamos uma portagem elevada. 

O preâmbulo do MIUT estava completo. Não alinho na conversa do MIUT só começar aqui, na verdade acho mais que o MIUT são 35km e 3100+ de prova, seguidos de 80km a gerir os cacos resultantes da violência deste embate inicial. Ali naquele pequeno abastecimento no Rosário, já na parte final da descida após Estanquinhos, contam-se armas e fazem-se planos antes da segunda parte da batalha. É aqui que todos se tornam pequenos e fazem a pergunta: será que tenho o que é preciso?

Comecei a gerir mentalmente a prova por etapas. Primeiro o caminho Quebra Panelas, com os seus degraus infinitos e muito curtos que nos levam à Encumeada. As boas sensações físicas contrastavam com a barriga que teimava em não entrar na prova. Com a companhia do Ricardo Chung tricotámos pelos degraus acima até desembocarmos na estrada que nos levaria ao abastecimento da Encumeada. Estava bastante moído, normalíssimo. Sentei-me e, como sempre fiz aqui, fui buscar uma canja. Só que desta vez ela não entrou. Ainda assim forcei, deixar o depósito vazio era impensável, e, agoniado, lá segui.

Os degraus até à Encumeada, pelo Alexandre Andrade. Obrigado!
Lá subi pela 5ª vez o famoso pipeline e virei a montanha para o Curral de Freiras, que de ano para ano me parece mais afundado num vale. Bem no topo, antes da descida, parei 5 minutos para meter um gel e despir o corta vento, a excelente noite tinha-se transformado num dia lindo e de céu limpo, estava a aquecer. Ao contrário da subida até ali, na qual senti que estava a ir abaixo, a descida para o Curral trouxe de volta as boas sensações. O Strava diz que foi a melhor das 5 e o certo é que estava solto. Bom sinal!

Transito no Pipeline, pelo Alexandre.
Entrada no abastecimento do Curral das Freiras, accionei o botão e entrei em modo Base de Vida. Fui buscar o saco, troquei de roupa, lavei os dentes, levei o meu Compal de pêra e fui sentar-me a comer um prato de massa com carne. Uma, duas, três colheres e acabou. Sentia-me cada vez mais agoniado e não quis forçar, bebi o sumo quase todo, sempre serviria de alimento. Percebi que esse aspecto não ia melhorar até ao fim, por isso mudei de estratégia e decidi que a partir dali ia depender dos géis, que a bem ou a mal lá iam entrando. 

A meio dos afazeres, pelo Ricardo.
A etapa seguinte era a infernal subida ao Pico Ruivo. 1350+ em pouco mais que 10km numa autentica torradeira, naquele que eu creio ser o único sitio da Madeira com eucaliptos. Um trilho aos ésses, com pedras e degraus, terra muito seca que levanta pó e torna as coisas ainda mais desconfortáveis. As primeiras quase 2 horas de subida são passadas nesta estufa sufocante, a beber água como se não houvesse amanhã. Comecei muito mal, fui passado por algumas pessoas, o que normalmente não me faz confusão nenhuma porque gosto de ir ao meu ritmo, mas foi a meio daquela subida que a coisa começou a mudar. 

Ao ser passado por mais um comboio de 4 ou 5 atletas, todos da prova de 85km, decidi colar neles. Porra, que se lixe, se quebrar quebrei, mas estou a sentir-me bem, sou capaz de ir mais depressa. Entrei no ritmo deles e rapidamente os deixei para trás, à medida que saíamos do inferno dos eucaliptos e chegávamos perto dos picos e das escadas. O ar ficou imediatamente mais fresco e eu automaticamente também me senti melhor. Meti mais um gel antes do ataque final ao Pico Ruivo o que me deu um ultimo boost. Cheguei lá acima a acabar o terceiro flask, foi quase litro e meio nesta subida! 

No abastecimento nem tentei comer, enchi os flasks e fiz-me ao caminho. Apesar do próximo abastecimento ser a 10km, estes dividem-se em duas etapas muito distintas: a primeira delas é a razão pela qual faz valer a pena voltar ano após ano, a travessia entre os picos. Por mais que eu tente descrever estes 5km todos os anos, é impossível fazer-lhe justiça. Têm tanto de duro como de incrivelmente bonito, uma coisa de outro mundo. 

Caminho entre os picos, pelo João Miguel, aka Cabeçudo.

Esta é do Alexandre. Brutal.
Continuei com a minha estratégia de "ou vai ou racha" e mais uma vez o Strava me diz que fiz o melhor tempo nesta secção entre os picos. Era a primeira vez que estava a encarar uma prova de 3 dígitos desta maneira, ainda por cima no MIUT onde sou sempre tão cauteloso. Corri nos pequenos troços onde dava para tal e subi os degraus devagar mas sem hesitar ou parar. Lembro-me de no meu ano de estreia me ter sentado umas 50 vezes naqueles degraus! De repente o caminho que era muito longo até ao Areeiro tornara-se curto, já estava a entrar nos 4km de descida para o abastecimento do Chão da Lagoa.
Na descida para o Chão da Lagoa, foto da Jennifer Alves. Obrigado!
Nada é fácil nesta prova, porra! A descida começa com escadas atrás de escadas, toros de madeira redondos que condicionam a passada. Depois saímos das escadas e entramos nas pedras, mais terreno difícil, mais umas pequenas subidas a meio. Forcei o trote, sempre. Olhei para o relógio e comecei a fazer contas de cabeça. "Ora bem, se chegar às 17:20 ao Chão da Lagoa, depois 2h30 até ao Poiso, depois ..... epah, não, cala-te estúpido. Não comeces com essas merdas!".

17:15, cheguei ao Chão da Lagoa. 200 metros antes do abastecimento tinha decidido que não me ia demorar, já que não estava a conseguir comer ia só encher os flasks e seguir. Mas, assim que paro, o corpo parece que desligou e tive mesmo que me sentar. "Porra. Esquece, nunca mais chegas ao Poiso em 2h30, caga nisso, nem sequer penses. Nem te aguentas em pé!"

Levantei-me com os flasks cheios e 2 gomos de laranja no bucho. Liguei à Sara a dar novidades enquanto caminhava no trilho, de qualquer maneira aquilo já não dava para correr. Ainda assim quando desligo faço uma tentativa de trote, mas tudo me dói! Caraças, não me hei-de vergar. Batalhei a descida inteira para o Ribeiro Frio com dores em todas as articulações e músculos das pernas, a pancada já tinha sido muita e agora estava a levar mais uma carga de porrada naquela descida. Surpreendo-me quando chego ao alcatrão, lá em baixo. "Isto já é a base da descida?" perguntei a um voluntário, como se não soubesse já. Tinha ideia que era mais comprida... 

Uma selfie! Depois de muita insistência da Sara para meter uma foto na página do blog.
Tomo novo gel. Tinha demorado uma hora a descer, para chegar ao Poiso antes das 20 tinha 1h30. O que achava muito difícil parecia tornar-se impossível, enquanto trabalhava aquela parede horrível na parte inicial da subida. Raios parta. Já tenho os músculos a ceder, já não sei se me doem mais os quadricepes a subir ou descer. Mas a porra do caminho agora está quase plano, tenho que trotar, caraças.

Olho para o relógio a controlar a altitude, o abastecimento do Poiso está aos 1400m e faltam 200 para lá chegar. São 18:40. Epah... queres ver... 

Menos 150...menos 100..menos 50...  Faltam menos de 50 metros para o Poiso, são 19 horas. Acho que nunca cheguei aqui tão cedo.

Entro no abastecimento às 19:16 e mais uma vez cedi à tentação de me sentar. O meu corpo está no fio da navalha, percebo isso porque assim que me sento sinto os sistemas rapidamente a desligar um por um. Levanto-me de repente e vou encher os flasks. Forço mais 1 ou 2 pedaços de banana e ligo à Sara que me confirma que nunca cheguei ali tão cedo, mas a diferença para o 2016, o meu melhor ano, não era significativa. Era muito, muito apertado. Ainda assim não consegui evitar olhar para aquela luzinha lá ao fundo. Primeiro muito ténue, mas cada vez mais intensa. A luz que me dizia que era possível chegar a Machico antes da meia noite. Mas para isso acontecer tive que fazer uma aposta. Desde o Curral das Freiras que estava a arriscar, forcei bem mais do que normalmente faria, mas agora estava num precipício e tinha que tomar uma decisão. A luz das sub24 estava acesa, mas para lá chegar precisava de, mais do que arriscar, entrar em modo suicida. 

Fiz all in. Agora estava a entrar num jogo novo.

Do Poiso à Portela são 9km a descer. Primeiro num trilho de downhill pouco técnico, depois num estradão e finalmente numas levadas misturadas com escadas. Forcei como se estivesse numa prova de 10km. A dor nos músculos das pernas tornara-se aguda com o impacto, mas não desarmei, precisava de chegar à Portela antes do por do sol, o melhor que conseguira nas 4 edições foi ligar o frontal a meio da descida, era desse sinal que eu precisava. Então fui atrás dele. Fiz toda a secção a correr enquanto o meu cérebro entrava em ebulição com a perspectiva de conseguir. 

Pensei mais uma vez não me sentar no abastecimento, mas assim que subo os 5 degraus para o controlo quase que desmaio e sentei-me na primeira cadeira que encontrei. Deitei os bastões para o chão, ofegante, ensopado em suor, sem conseguir falar. Estava prestes a cair do precipício, era impossível, não ia conseguir, ia rebentar de certeza!

"Sim, dê-me um copo de café, sff". Com o café comi dois figos secos, não dava para mais. Que se lixe. Ou vai ou racha. 

Saí do abastecimento e devia estar lívido, as voluntárias perguntaram-me se estava bem. Óbvio que não estava, mas não havia volta a dar, agora era até ao fim.

Ainda era de dia quando saí da Portela para os curtos 5km até ao Larano. Sabia de cor e salteado o caminho. Três km de estradão plano, um trilho ondulante e para terminar a terrível Descida da Degolada. O trote que parecia ter fugido enquanto desfalecia no abastecimento afinal ainda lá estava nas pernas e consegui percorrer os 3km de estradão sempre a correr. 

A luz estava cada vez mais forte... Mas ainda faltava tanto!!

Entrada no trilho ondulante. Estendi o trote até ao limite. Sempre, mas sempre, a forçar. Estava cada vez mais difícil. Não que tivesse abrandado, mas todos os alarmes estavam a tocar de forma estridente! A cabeça ainda era mais forte e mandava o corpo seguir, mesmo quando parecia impossível! 

Até que veio a Descida da Degolada, aqueles 400m de descida demolidora antes do abastecimento. 

Oh não... Não consigo descer isto. Não consigo. Tinha dores fortes a cada apoio, desesperava em cada balcão que tinha que virar e descer mais uns degraus altíssimos. Sufoquei. Senti a garganta a apertar. A luz das sub24, que ainda há pouco quase me encadeava, começou a sumir depressa. 

Acabou. Tinha caído num abismo tão fundo como aquele que via no fundo da Degolada. 

Entrei no abastecimento do Larano. O ultimo, a 11.2km da meta. Estava perdido. Desta vez nem pensei em não me sentar, simplesmente não tinha força para estar de pé. Tentei segurar as lágrimas, mas com muito pouco sucesso. Que raio de ideia, nunca consegui e nunca vou conseguir chegar antes da meia noite, não o tenho em mim, devia ter percebido o ano passado! Eram 21:28, tinha 2 horas e meia para fazer os cerca de 12km até ao fim, o que em circunstancias normais daria perfeitamente, mas aquelas não eram circunstancias normais, de todo. Ia ficar ali mais uns 20 ou 30 minutos, que se lixe a luz, vou arrastar-me até ao fim e pronto. 

Devastado, peguei na toalha para a atirar para o chão, mas quando estava prestes a encerrar o assunto...ela estava lá. Muito fraca. Uma pequena luz. "Oh meu grande anormal, já pensaste bem que tens 2h30 para fazer 12km? Mas tu já fizeste bem as contas? Foda-se! Deixa-te de merdas, nem que partas uma perna!" (a luz é um bocado mal criada, desculpem).

Levantei-me. 

Tinha que dar, tinha que conseguir. 

Foi o tudo ou nada. Corri praticamente toda a vereda do Larano. Encontrei o Carlos, amigo dos Açores, que me deu boleia durante 1km, depois segui sozinho nos trilhos que ligam o Larano às Levadas de Machico. Puxei como nunca tinha puxado por mim, mas a cada passo de corrida que dava a luz ficava mais forte e as pernas mais leves. A cabeça estava a levar a melhor e quando assim é conseguimos tudo! 

São 23 e estou prestes a entrar em Machico. 

Está feito. 

Consegui. 

Abrandei naqueles 2km finais, tirei a corda da garganta e saboreei cada metro. Pensei na prova que tinha acabado de fazer e principalmente pensei em tudo o que me levou ali. Não só os 4 MIUTs anteriores, mas todos os quilómetros que percorri. Pensei no treino que fiz nos meses que antecederam esta prova, em todas as horas que tirei à minha família, todos os sacrifícios, todas as vezes que acordei às 5 da manhã para treinar. Foi o final perfeito para um ciclo de 5 anos de MIUT. 23h20 não é um tempo nada de especial. Valeu-me o lugar 206 entre os 960 que começaram e 640 que terminaram. Ganhei a mesma medalha que todos os que chegaram depois do terceiro lugar e para muitos até seria considerado um tempo fraco. Mas para mim foi muito especial. Foi a prova que tudo valeu a pena, todo o treino, toda a dedicação, tudo foi recompensado. Foi a minha corrida perfeita.

A melhor foto da minha chegada!








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