As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 17 de junho de 2019

II Serra Amarela SkyMarathon (48km)

Para mim, foi A prova de 2018. Incluí-a na lista das 10 provas da minha vida e foi, sem dúvida, uma das melhores que já fiz até hoje. Em todos os aspectos! Este ano voltei para a dose inteira, os 48km, que incluíam uma descida e subida extra, mais 15km de Parque Nacional Peneda-Gerês (PNPG). Mas não foi essa a principal diferença para o ano passado. Essa notou-se assim que saí à porta da nossa Casa da Árvore no parque de campismo Lima Escape: o céu estava azul!

Sim, já viram esta foto noutro lado. É do grande Perneta, Carlos Cardoso, que fez a gentileza de me deixar roubar umas quantas fotografias já que não tirei uma única durante a prova. Obrigado, Perneta!
Chegámos ao Gerês logo na sexta feira, para dois dias que incluíram passeio mas, principalmente, descanso e boa vida no parque de campismo. Os miúdos adoram andar pelo monte a brincar e nós adoramos o descanso, o ar fresco, as refeições com o Vasco e a família na rua, dormir a sesta e acordar com vista para o Rio Lima no nosso bungalow. Se não conhecem, aconselho a todos irem passar uns dias ao Lima Escape, é um paraíso! Além disso, saí com o Vasco, às 7:30 da manhã do Parque para nos deslocarmos a pé para a partida, que foi às 8. Um luxo!

A nossa casa na árvore
O céu estava limpo e ainda antes da partida tirei os manguitos que me deixaram mais confortável a sair de casa. O dia previa-se quente, com temperaturas a rondar os 30º em cotas baixas, diametralmente oposto ao temporal épico de 2018. O ano passado foi especial também por essas condições extremas, mas confesso que estava curioso para realmente ver as paisagens em vez do nevoeiro.

O perfil da Serra Amarela é perfeito. Duas subidas, duas descidas, 48km e 2800m de subida. O percurso da ultra repete na integra os 33km da prova longa, por isso já conhecia a primeira subida e ultima descida. Lembrava-me dos engarrafamentos do ano passado, muito por culpa do elevado caudal do rio Froute, por isso decidi partir a dar tudo para ficar posicionado de forma a não apanhar muita gente na entrada dos trilhos. Objectivo cumprido, não só andei sempre bem nos primeiros 5km, que sobem só ligeiramente, como a travessia do rio foi tranquila, nem deu para molhar os pés.

Estes trilhos são nos tais 5km iniciais. Fotografia do Carlos.
Passados estes primeiros trilhos ligeiramente inclinados, a primeira grande subida começa um bocadinho antes de chegar à Ermida e termina na Louriça, o ponto mais alto da Serra Amarela. Nada menos que 10km e quase 1300+! A subida é perfeita, muito variada, com vários locais a permitirem um trote fácil misturados com outros super inclinados e técnicos. Percorremos parte de uma Grande Rota, com caminho de calçada granítica arrumada à mão, trilhos difíceis já perto do planalto.Foi aqui que o céu limpo compensou, deu para perceber bem a imensidão do PNPG enquanto andávamos no estreito trilho que percorria a crista que nos levaria à Louriça. Do lado direito, entre as encostas agrestes cinzentas do granito, flutuava o espelho de água da Albufeira de Vilarinho das Furnas, perto dos 1000m de cota, e do lado esquerdo montanha a perder de vista, pontuada pelo azul muito escuro do Rio Lima que serpenteava pelo vale. Uma maravilha.

Um trilho espetacular e VIlarinho das Furnas ao fundo. Eu vou lá atrás! Foto da organização.
Há uns meses que ando a correr com uma confiança que nunca tinha tido e, mais uma vez, decidi ir com tudo nesta prova. Sentia-me super bem a subir, nesta primeira ascensão à Louriça demorei menos 20 minutos que o ano passado! Duas horas depois da partida fiz-me à descida desconhecida, que nos levaria até ao Lindoso, para voltar a subir e vir dar ao mesmo sítio. Olhando para o percurso esta parte é um pouco estranha, descemos e subimos de forma quase paralela e acabamos exactamente no mesmo sitio (daí os 33km da prova longa serem integralmente cumpridos). Pelo que me explicaram, e ouvi-o da boca do mestre Carlos Sá, o PNPG não autoriza a passagem em certos sítios da montanha, de forma a preservar a fauna e flora, o que é totalmente compreensível. Aliás, a sensação de andar em sítios virgens e inexplorados é um dos grandes atractivos desta prova.

O planalto antes de chegar à Louriça. O muro de pedra percorria a crista. Foto do Perneta Carlos Cardoso!
A descida acabou por não ser grande coisa em termos técnicos mas serviu muito bem outro propósito, que foi descansar as pernas para o que viria. Foram 7.5km a descer, 2 ou 3 em estradão e o resto em trilhos não muito difíceis e pouco inclinados. Demos a volta no espetacular Castelo do Lindoso, antes de apanhar uma Grande Rota e, aí sim, fazer valer a pena aqueles 15km a mais.

O Castelo do Lindoso, onde demos a volta para subir. Foto do Carlos Cardoso
A subida foi excelente! 7km com 800+ feios de rajada, num caminho cheio de pedra, muito trabalhoso, mesmo como eu gosto. Daqueles que exigem pensar passo a passo qual é a maneira mais económica de subir. Liguei o piloto automático e senti-me muito bem a subir, recuperando mesmo algumas posições. O sol do meio dia começava a apertar quando passámos por uma pequena fonte. Um oásis já perto do topo, onde praticamente tomei banho e aproveitei para voltar a encher os dois flasks que iam na reserva!

Um dos trilhos por onde descemos, até ao Lindoso. Foto do Carlos Cardoso
Quatro horas de prova, 19km para o fim. Uma descida. O ano passado estes 19km ficaram marcados como uma das coisas mais incríveis que já fiz, muito por culpa das condições climatéricas que fomos apanhando, mas este ano consegui ver a serra em toda a plenitude e foi tão bom ou melhor. Primeiro cerca de 5km no planalto, onde descíamos mais, mas também fomos apanhando pequenas subidas, todas cumpridas a trote. Corríamos em paisagens de granito, sem trilho, por cima da pedra cinzenta rugosa ou em tufos de erva, escalámos autenticamente maciços e passámos por manadas de vacas e cavalos. Descidas técnicas, difíceis, mas sempre espectaculares para correr.

A Antena na Louriça. Foto do Perneta, pois claro.
Desde a segunda passagem pela Louriça, antes da descida final, que estava em modo competição. Estava a sentir-me com pernas para descer e a subida tinha-me corrido na perfeição. A primeira metade da descida foi feita sempre no limite, mas já cheguei ao Germil, a 10km da meta e local do penultimo abastecimento, em défice, já não estava solto a descer. Eis senão que, chega a grande Alice Lopes lançada. Tinha andado a trocar de posição (e na conversa, já agora) com ela desde praticamente o inicio, e se a tinha deixado para trás na subida ela vinha lançadissima na descida a defender a primeira posição. Lança-me um "Bora, Filipe!" e eu, ainda a meio de um bocado de aletria, arranco atrás dela a tentar acompanhar. 

Logo a seguir ao abastecimento entramos numa das partes mais rápidas da descida, em caminhos de calçada de granito e trilhos cheio de tufos de erva que escondiam pedras. Vou a dar tudo para acompanhar a Alice, mas claramente está mais forte, mesmo assim não abrando. Sei que a meio destes últimos 10km há uma pequena subida (cerca de 100+, por aí), vou conseguir descansar aí. Já vou a implorar pela subida quando entramos num bosque e finalmente começo a ver o ribeiro que havíamos de atravessar antes de subir. 

Parte final da subida, foto do Carlos.
Ufff, subida! 

O pior é quando abro as pernas para escalar as pedras no ribeiro, estas explodem numa cãimbra generalizada! Ui, como isto está! Respirei fundo e comecei a subir muito devagar, até que, como previa, consegui relaxar, ganhar fôlego e, mesmo assim, subir bem. Seguem-se mais 2km a descer a um ritmo muito alto (para mim, claro), em trilhos cheios de pedra, ligeiramente a descer. Nesta altura apanhámos mais dois companheiros dos 48km (desde a Louriça que vinha a passar pessoal dos 33) que se juntaram ao comboio e estávamos agora muito perto de começar os espetaculares 4km roubados às margens do rio Tamente. Mas ainda havia um obstáculo dificílimo para ultrapassar: um murete de pedra com 50cm de altura. Ah pois, mais cãimbras!

Deitei a toalha ao chão e deixei-os seguir, ia gerir até ao fim. Faltavam 4km, seriam feitos num trilho a direito, pouco técnico, nas margens do Tamente. Os dois primeiros quilómetros fi-los integralmente a correr, ganhando energia vital em cada travessia do rio, onde praticamente tomava banho. O trilho, ora na margem esquerda ora na direita, é todo à sombra e ao lado das águias cristlinas do rio, o que ajudava a refrescar num dia que já estava quentíssimo. 

O Tamente, numa das travessias. Fotografia da página "Sapatilhas Pensadoras"
A dois quilómetros do fim, depois da 5ª ou 6ª travessia do Tamente, depois do 5º ou 6º refrescar na água fresca, já não consegui meter o trote no plano. Agora sim, tinha acabado. Arrastei-me até ao fim e nem consegui correr na rampa final, onde me esperavam a Sara, os miúdos e a família do Vasco!

Mesmo com este estoiro no fim, considero que fiz uma boa prova. Acabei com 6h40, na 26ª posição, em 130 que acabaram! É verdade que ultimamente tenho andado a treinar muito melhor e a correr com mais confiança, mas andar a melhorar os meus resultados só me faz dar mais valor a quem anda na frente. O Ricardo Silva fez só quase 2 horas a menos que eu! Uma palavra também para a impressionante Alice, que não deu hipótese na classificação feminina!

Quanto à prova, nem sei se devo deixar mais elogios, ainda pensam que estou a ser falso. É, para mim, uma das melhores, se não a melhor que já fiz. Percurso, localização, a animação na partida, na chegada, o Tamente, os abastecimentos, o Lindoso, o Gerês, o prémio de finalizador.. Nada, mas mesmo nada, falha aqui. Mais nada a dizer. 

Restam agora duas semanas para a Freita. Se devia ter feito uma prova destas tão perto? Não me parece. Se devia ter ido para os Alpes fazer quase 90km com 6000+ uma semana antes da Serra Amarela? Também não me parece. Mas não trocava o que vivi, quer no Gerês quer nos Alpes, nem que fosse por duas horas a menos na Freita! 

Fotografia pela muito simpática Marta Lopes, da organização.
Antes de acabar, só uma referencia a estes dois miúdos que estão na foto acima. Umas semanas antes da prova a organização anunciou que iria haver uma corrida para os miúdos. Assim que disse isso aos meus, andaram durante dias excitadíssimos, a Maria Amélia não falava de mais nada! Inscrevi-os, levantei os dorsais, e foi muito giro ver o nervosismo deles, principalmente dela. Infelizmente ainda estava em prova quando eles correram, mas acho que foi lindo. O percurso, que seria de 150m acabou por ser bem maior, uns 400m, e incluía uma subida jeitosa em trilho, a mesma que nós fizemos no fim. A Mel meteu a game face e desatou a correr por ali a fora. O Manel, de longe o mais pequeno de todos, quando viu aqueles cavalões todos a ganharem avanço ficou assustado, parou, olhou à volta e voltou para a meta a correr para a mãe ahahah acho que foi um sucesso! A Maria Amélia descreveu-me ao pormenor cada passo, cada ultrapassagem e dificuldade. Depois andou o dia todo com o dorsal e a medalha ao peito e até a levou para a escola! Pequenos pormenores desta prova, que nunca nos vamos esquecer. O primeiro trail da Mel e do Manel! :)

Depois do levantamento do dorsal, a foto obrigatória

Acertar de estratégia de ultima hora. Reparem que o Manel levava o dorsal nas costas, dizia que no peito não dava jeito para correr. Eu acho que era para o estilo.

Linha de partida. Aqui se vê a confiança do Manel, já está à procura da mãe ehehe

Aí está, o primeiro isolado, com o Joca a puxar por ele! Pronto, foi só até ao fim da passadeira vermelha e voltou para trás ahaha

A chegada da Maria Amélia. Diz que ultrapassou uma data deles. Incluindo alguns meninos!! (palavras dela)

Parámos no Mac de Santarém para lanchar, ainda vinha assim.




terça-feira, 11 de junho de 2019

Os Alpes e a cada vez menos secundária corrida

Em Setembro do ano passado, dia em que foram postos à venda os bilhetes para a primavera deste ano na Easyjet, decidimos comprar voos para ir passar uns dias aos Alpes. A ideia era portanto passar uns dias em família com o Zé Nuno, um grande amigo meu que vive em Genebra, mas, claro está, apesar de se dizer que é a mais importante das coisas secundárias,  para mim e para a minha família é cada vez mais um elemento central. Não vale a pena dizer que não. Fazemos férias com esse propósito, os meus filhos passam a vida a falar de subir montanhas e de correr, fartamo-nos de passear, de conhecer sítios e pessoas por causa dela. No entanto eu detesto roubar tempo que posso estar com eles, é por isso que acordo todos os dias às 5:20 da manhã, por isso decidi que os treinos em férias teriam entre 2 a, no máximo, 3 horas. Um de manhã e outro, se se proporcionasse, ao fim do dia. 

Nos meses que antecederam a viagem, e depois de definir os sítios das dormidas (ficaríamos uma noite em casa do Zé, em Genebra, e duas em La Clusaz, uma vila em plenos Alpes), procurei percursos para fazer. Primeiro no Strava, explorando segmentos, e depois em sites como o Wikiloc ou Gpsies. Encontrei alguns, que descarreguei para o relógio, mas é claro que grande parte seria na base da aventura, como se veio a verificar. 

Consegui fazer os 6 treinos previstos, nenhum nos sítios que pensava :) Passei por alguns dos momentos mais incríveis, maravilhosos e também assustadores que já vivi. Descobri limitações, vivi sensações que desconhecia, aprendi muito. Percebi que fiz algumas coisas demasiado arriscadas, mas estou aqui para contar a história, isso é que interessa.

Ao longo dos 4 dias fui fazendo posts na página de Facebook do Quarenta e Dois, deixo agora aqui um apanhado do que fui escrevendo. Gosto muito mais deste formato, para memória futura. 

Dia 1 - Juras, subida ao Le Dôle

A Norte de Genebra existe a cordilheira do Juras. Calhou muito bem que um dos picos mais altos do maciço, o Le Dôle, com 1671m, ficasse a menos de 10km da casa do Zé!
O percurso escolhido é circular, uma subida e uma descida única, mas para evitar eventualmente perder-me e demorar muito tempo (sim, porque parecendo que não, isto são férias de família, não são férias de corrida) subi e desci pelo mesmo sítio. Foram 18km com 1200+, numa única subida e descida, mas esta pequena volta foi muito mais que números. Foi o início perfeito para 4 dias que se adivinham de sonho.
O percurso começa aos 550m de altitude e até aos 1400 é feito integralmente num daqueles trilhos que constam no manual de trilhos perfeitos. Terra escura e mole coberta de folhas secas, algumas raízes, bosque cerrado e um caminho aos esses para diluir o declive. Toda ela boa de se fazer a trote sem grande esforço. Uma maravilha.
Mas o melhor estava guardado para quando saí da linha de árvores e entrei no que pensava ser o topo, mas estava longe de o ser. Uma parede gigante, vertical, erguia-se à minha frente! Os 300m finais da subida foram feito em trilho puramente alpino, super inclinado e técnico, completamente diferente do caminho até então!
Chegado lá acima uma vista de outro mundo para o Lac Leman, que separa a Suíça da França e o Jura dos Alpes tirou-me o fôlego que ainda restava. Lá estavam os picos dos Alpes, pintados de branco, a espreitar.
Antes de arrefecer, e porque o jantar já não devia tardar, apressei-me na descida. Lembram-se da descrição de um trilho perfeito e bom de se trotar? Pois bem, imaginem a descer! Foram 9km a fundo, a serpentear pela encosta no trilho!


Um trilho mesmo junto ao topo

Trilhos perfeitos

No Le Dôle

Vista do Lac Leman, com os Alpes à vista
Dia 2, parte 1 - Juras, nova subida ao Le Dôle

Ainda na Suíça, no-da-manhã subi novamente ao Le Dôle, desta vez uma subida paralela à que fiz ontem. Acabou por ser uns decepcionantes 10km de estradão nos quais subi 1000+, até chegar à mesma clareira onde estive ontem, na base do Dôle.
Aí sim, começou a festa!
Subi a parede pelo outro lado e passei por um Col espetacular, antes do ataque final. O plano inicial era descer por onde subi, mas já tinha sido desilusão suficiente subir aquele estradão, por isso desci pelo mesmo sítio de ontem. Agora com a certeza do caminho ainda foi mais fixe! Lá para o fim apercebi-me que descer duas vezes seguidas 1000m a fundo pode não ter sido muito boa ideia. As pernas já estavam no limite e ainda há muito para subir nestas férias.



Link para o Strava 


Paisagens muito alpinas, no Juras





Dia 2, parte 2 - Já nos Alpes, com uma subida épica ao l'Aiguille!


Agora sim, na montanha!
Chegamos hoje à tarde ao nosso apartamento em La Clousaz. Aqui já não consegui encontrar segmentos de Strava, mas depois de pesquisar no gpsies encontrei alguns percurso que saquei. No entanto, hoje sai sem plano. Ou melhor, quase.
Clusaz é uma aldeia no fundo de um vale brutal, como tantas nos Alpes. Da janela do nosso apartamento consigo ver uns 10 picos diferentes. Mais importante para este dia, da janela do nosso apartamento dá para ver um pico lá bem em cima, com uma cruz a topá-lo! Pois bem, estava decidido, hoje ia até à Cruz. Descobri mais tarde que o pico tem nome, l’Aguille, e estava a 2300m de altitude. Como lá chegar? Pois, não sei. É apontar para lá e siga!
Comecei a subir pela hipótese mais óbvia/chata, que é subir a direito pela pista de ski. Uma espécie de corta fogo glorificado. Faz o serviço, que é ganhar desnível, mas é chato.
Mais ou menos 400m de subida depois, quando me chego perto de um bosque que ladeia a pista, tcharammm, uma pista de downhill! Meti-me logo nela e serpenteei pelo bosque acima. Assim sim!
Continuei no trilho limpo até cerca de 1900m de altitude, quando acabam os teleféricos e cadeiras, mas a Cruz ainda estava lá bem em cima! Só havia uma hipótese, subir à selvagem pela encosta.
Comecei a apanhar neve. Começou a ficar muito inóspito, subia numa crista com um precipício brutal de cada lado. Clusaz estava cada vez mais lá em baixo, mais de 1000m, mas continuava a vê-la quando me voltavam. A vista do Vale era brutal, montanhas por todo o lado! A minha estava cada vez mais inclinada, mais cinzenta do granito, mais fria...
Nuvens escuras começaram a tapar o vale, o vento aumentava. A Cruz parecia que não chegava, subia aos zigue-zagues pela encosta virgem, numa tentativa de diluir o desnível brutal que chegou várias vezes a 50%! Vi alguns veados e outros animais que nem sei o que eram. À medida que subia o tempo ficava cada vez mais agressivo, mas tinha que chegar lá acima!
Finalmente o pico!! E foi ainda mais extraordinário do que alguma vez pensei. Tinha uma proeminência brutal, uma espécie de agulha (aiguille), com precipícios incríveis para todo o lado. Muita neve, muito cinzento, muito vento! Estava tão maravilhado como borrado de medo, à medida que as nuvens cobriam cada vez mais o céu.
Descer. Com pernas, rabo e braços, enquanto tentava não escorregar para o abismo! Finalmente cheguei às pistas de downhill! Foram mais que 5km e 800- em pistas limpinhas, cheias de curvas e contracurvas, chão macio e preto, nem pedras tinha. Uma maravilha para abrir a passada!
Cheguei ao apartamento quase 2h30 depois, apenas com 13km e 1200+. Foi sem dúvida uma das maiores aventuras nos trilhos que já passei.
PS - fui sem destino, mas não deixei as coisas entregues ao destino. Este foi o equipamento que levei, além do normal de corrida:
Corta vento


Impermeável 

Gorro 
Luvas
Manguitos 
Manta térmica
Ligadura
Frontal 
1l de água
3 barras 
Telemóvel carregado com os dados ligados 
Relógio com GPS (e experiência a ler tracks)

Isto tudo para um treino previsto de pouco mais que 2 horas! Já ouviram isto dezenas de vezes, mas, de facto, com a montanha não se brinca.


A Cruz! 

Encosta final


Descobri depois que o animal era uma camurça e não veado!




Dia 3, parte 1 - De um plano furado nasce uma bela manhã de trail


Tinha grandes planos para esta manhã. Era o dia em que ia atacar os picos mais altos, acima dos 2400m. Acordei à hora certa, sai de casa às 7 em ponto e dirigi-me à garagem para fazer de carro os 10km que me separavam do início do trilho. Pois bem, não consegui destravar o carro do Zé Nuno 🙄plano de contingência activado, fui andando até encontrar um trilho aqui ao pé e toca a subir!
Para a semana vai aqui haver o Alps Bike Fest por isso as encostas aqui por La Clusaz estão cheiinhas de trilhos do BTT, todos limpinhos e bem marcados. Ainda por cima este fim de semana ainda não está cá ninguém, por isso os trilhos eram só para mim!
adoptei a mesma estratégia de ontem, fui andando até a um bosque, confiante que encontraria um trilho. E lá estava ele! Uma maravilha. Subi até aos 2000m e desci por um trilho diferente de ontem. Um espetáculo. Manhã de puro trail running.
Foi uma saída mais pequena, 15km com 900+. Nesta altura já levava 68km com 4500+ em apenas 3 dias, começava a pesar.


Trilhos limpinhos

Um maciço lindissimo mesmo ali ao lado


Uma marmota! Vi dezenas


Uma outra vista o Aiguille, o pico que subi no dia anterior. Dá para perceber bem a proeminência!

Dia 3, parte 2 - Uma verdadeira lição

O dia em que vi a vida a andar pra trás.
Passei o dia com a Sara, os miúdos e o Zé no Lac des Confins, mesmo ao lado do início do trilho que tinha planeado subir hoje de manhã. Não consegui evitar passar vários minutos a olhar para a encosta, à procura de trilhos ou alguma linha que pudesse seguir para chegar aos picos.. depois do lanche, quando foi tudo para casa descansar, equipei-me e fiz-me finalmente ao grande objectivo destes dias: chegar pelo menos aos 2500m de um dos grandes picos.
Parei o carro (sim, já o consegui destravar) e mandei uma mensagem a um grupo de amigos a avisar qual seria o track seguido, para saberem onde ia andar caso acontecesse alguma coisa. Liguei o track no relógio e fiz-me ao caminho.
Uma placa no início do trilho avisava entre parênteses que se tratava de um trilho de montanha e que não estava balizado. Enfim, siga!
Comecei a subir e imediatamente percebi que estava noutro jogo que não o dos últimos dias. O trilho era áspero, com muita pedra, técnico e íngreme. Não havia cá os cotovelos do BTT, era pra cima à bruta.
Apanhei o primeiro bloco de gelo ainda nem ia com 200m de subida. Como previa, não era fácil passar. O gelo estava muito duro, escorregava automaticamente! Lá consegui passar o primeiro bloco e continuei pelo trilho, violentamente pra cima.
Segundo bloco, desta vez tinha cerca de 200 para fazer no gelo, ainda por cima a subir numa encosta bem inclinada! Dei uns pontapés até abrir um buraco e enfiei um pé. Repeti o processo com o outro e enfiei as duas mãos no gelo para me puxar. Fui repetindo o processo enquanto escalava no gelo, mas comecei a ficar assustado! Ia a meio caminho quando
Decidi voltar para trás. Desci de costas e tentei aproveitar os buracos que tinha feito, mas não estava fácil. As mãos começaram a doer por estar enfiadas no gelo e cada vez que olhava para baixo para ver onde punha os pés tinha uma tontura provocado pelas centenas de metros que tinha até ao fundo da encosta.

La consegui. Encostei as mãos numa rocha que estava exposta ao sol para as aquecer (apesar de haver muita neve e gelo estava calor, 20°, pelo menos).
Voltar a passar no gelo estava fora de questão, era demasiado perigoso e arriscado! Decidi descer um bocado até conseguir contornar aquele bloco, mas isso implicava ter que subir numa encosta sem trilho. Bem, seja!
Fui subindo pela encosta selvagem, a direito, à selvagem! Estava coberta de erva rasteira seca, sem qualquer socalco ou pedra. A certa altura a inclinação era tanta que tinha que usar as mãos para me puxar, não levantava um pé sem ter a certeza que o outro estava seguro, porque escorregar ali era, literalmente, a morte do artista!
Era claramente demasiado arriscado estar naquela situação, mas eu sou estupido, só pensava em chegar mais alto! Pode ser que lá em cima encontre algum trilho bom, pensava eu..
Pfff
Só olhava para o terreno, evitava olhar para baixo ou para cima porque ficava com vertigens. Quando ficava demasiado ofegante (já estava perto dos 2000m) parava um bocado para recuperar o fôlego, mas sempre sem olhar para trás!
Batalhei encosta acima até que finalmente cheguei a um plateau. Olhei à volta, neve e gelo por todo o lado, sem a mínima hipótese de contornar! Lá de cima do colo começo a ver alguém a descer, quando chegou ao pé mim vi que vinha equipado com crampons, botas de montanhismo, bastões... e Eu com as minhas new balance hierro, de calçãozinho de atletismo e T-shirt! Claramente fora do meu campeonato!
Ok, está decidido, só tinha subido 700 e estava nos 2000 e pouco de altitude, mas o treino tinha acabado, hora de voltar!
Mal sabia eu que o pior estava para vir: a descida!
Lembram-se daquela encosta que dava vertigens a subir? Pois, imaginem a descer! Desci com o rabo a deslizar pela erva, com os braços apoiados atrás do corpo, um passinho de cada vez! Fiquei completamente em pânico, a certa altura não via mesmo maneira de sair dali, a encosta era completamente lisa, não quero sequer pensar o que acontecia se deslizasse nem que fosse 50cm, era impossível parar!
Cheguei ao carro com 6km e duas horas. Mas, acima de tudo, cheguei ao carro com uma certeza: Trail é muito diferente de montanhismo. Não é só uma questão de coragem ou atitude, é um mundo à parte. Equipamento completamente diferente.
Não cheguei aos 2500, mas trouxe da encosta do maciço de Balme uma grande lição!


A encosta subida. O colo, que tentei virar, está a 2300m 
Tirei esta foto sentado na encosta enquanto tentava descer. Gostava que se percebesse melhor a inclinação, mas já conseguem ver o tipo de tipo. Super escorregadio e sem nada para amparar.



O companheiro que vinha com crampons.

É muito frequente nos Alpes isto acontecer, lá atrás dá para ver o fundo, a mais de 1000m. Aumenta muito a sensação de vertigem!

Dia 4 - O ultimo e abençoado dia


Acordei tarde e a más horas. Não faz mal, o plano já era fazer uma volta mais pequena hoje, afinal tínhamos que fazer check out às 12. Para ajudar, estava a chover torrencialmente. No problem, vim prevenido, toca de vestir o impermeável e siga.

Mais uma vez nem precisei de sair de carro. Mesmo ao lado do apartamento há um monte mais pequeno, cerca de 1700m, o plano era arranjar maneira de ir lá acima. Sai sem plano, havia de encontrar algum trilho ou pista de downhill. Hoje já não estava para grandes aventuras!

Por entre a chuva muito forte lá fui subido, primeiro por alcatrão, depois uns trilhos pedestres e finalmente encontrei no meio do bosque a bela da pista de downhill.
No final deu uma respeitável subida de quase 700m, mas a maior surpresa do dia foi a vista brutal do Vale de La Clusaz que tive lá de cima! Completamente sozinho na montanha, explorei os trilhos e as vistas a 360° antes de me lançar novamente na pista de La Ferriaz, uma maravilha com 4km e 600-.
E pronto, acabou o estágio nos Alpes. Nos 4 dias ainda consegui fazer 86km com 6000+, mas o melhor foram as aventuras vividas. Acabaram por não ser uma férias muito caras, não ficou muito mais caro do que ir com a família para o Gerês, por exemplo. Hoje em dia tudo é perto, e vir a uma montanha destas é impagável.

Vista espetacular do Vale


No inicio de todos os trilhos havia uma legenda destas

Tinha que vir estragar a paisagem
Além destas 6 aventuras ainda sobrou bastante tempo para umas óptimas férias de familia. Por entre birras do Manel lá visitámos Anecy, Lyon e La Clusaz, passamos umas boas horas na montanha, num lago, na piscina interior do nosso apartamento, conversámos e rimos. Por, cada vez menos, secundária que seja a corrida, a verdade é que são estes os momentos que nunca vamos esquecer.

A minha filha adora tirar fotografias...

Trataram-se bem

Fotografia tirada pela Mel
O Zé e a Sara

E o Manel e o Lenox, cão do Zé Nuno que passou as férias connosco