As minhas corridas na estrada

domingo, 26 de novembro de 2017

Lavadeiras, Casaínhos, Almeirim e uma grande empreitada.

Podia fazer deste o post de resumo do ano 2017. Falta um mês para acabar, mas podia começar este post a dizer que 2017 foi o meu melhor ano de sempre! Aliás, devia ser "esse" post. Mas não. 2017 ainda tem uma ultima aventura guardada. Uma aventura que teria tudo para ser uma grande comemoração, não fossem as nuvens negras que se têm formado nas ultimas semanas... Bom, mas já lá vamos. 

Na verdade, se o ano acabasse em Novembro, mais precisamente ontem, teria sido perfeito! Foi dia de voltar a uma das minha corridas preferidas, o Grande Trail das Lavadeiras.
Na minha terceira participação no GTL decidi pela primeira vez não fazer a distancia maior (45km) e, devido à tal ultima aventura de 2017 que vos falarei à frente, participei no trail longo, distancia de 25km. 

Quem leu os meus relatos de 2015 e 2016 sabe que esta prova é um caso especial para mim. No balneário, enquanto tomava banho, ouvi uma conversa que podia resumir tudo o que há a dizer. "Não há rigorosamente nada que possas apontar a esta organização", dizia ele. E é isso mesmo, não há ali uma única ponta solta. Uma organização discreta que não tenta ser mais do que pode ser, um grupo de teimosos que face às limitações de terreno no Baixo Mondego arregaçou as mangas e criou um conjunto de trilhos que fazem inveja a muita prova "grande". E é aí que está o coração das Lavadeiras, nos trilhos. 

Não esperem longas subidas, a prova de 25km tem apenas 600D+. Felizmente o acumulado positivo não é prioridade para esta organização e não se lembraram de meter o pessoal a subir e descer o mesmo monte uma data de vezes, como tantas vezes se vê por aí. Esperem trilhos, muitos trilhos. Uns rápidos, outros muito técnicos e de progressão lenta. Esperem muita lama, terreno difícil e quilómetros de trilhos cobertos de folhas secas. Esperem saltar por cima de dezenas de troncos de árvores e outros tantos que vão ter que passar por baixo. Esperem acabar com as mãos arranhadas e todas sujas. Entrar por túneis que têm que atravessar dobrados, esperem degraus, escadas e pontes de madeira. Esperem correr a 4´/km a meio da prova e logo de seguida andar agarrados a troncos de árvores para não escorregar. Não esperem enganar-se no caminho, é impossível com a qualidade de marcações e a quantidade de voluntários e bombeiros com que se vão cruzar. Não esperem passar fome ou sede, são dos abastecimentos mais completos que já vi. Esperem ser surpreendidos. Se 2018 vai ser a vossa primeira vez garanto-vos que o Grande Trail das Lavadeiras vai superar todas as vossas expectativas e aposto que será muito mais difícil do que julgam. No fim, depois do banho quente tomado no pavilhão da Granja do Ulmeiro, tudo vai valer a pena enquanto estiverem a comer o belo almoço com bebida à descrição que os Pés Troikados preparam para vocês. 


Este ano juntou-se uma grande comitiva do Grupo Desportivo da Parreira rumo ao baixo Mondego, éramos 10 separados pelas três provas. A grande surpresa foi, comandados pela nossa pérola João Lopes (3º lugar da geral), um espectacular 2º lugar por equipas no trail de 25km! O primeiro troféu de equipas que ganhamos! Quanto ao João, o nosso Flecha, um miúdo de 21 anos que ainda agora conseguiu a qualificação para a final da Taça de Portugal nos Açores, marquem as minhas palavras: ainda vão ouvir falar muito dele.

Uma fotografia para a história! O Flecha é o que tem o troféu na mão
Quanto à minha classificação, acabou por ser melhor do que pensava, ficando pelo 12º lugar. Ainda não foi desta que consegui um top 10 :)

Duas semanas antes das Lavadeiras participei na minha outra prova do coração, os Trilhos de Casaínhos.

O melhor elogio que posso fazer a esta prova é dizer que não mudou rigorosamente nada desde a minha primeira de 4 participações. Não há que inventar, tudo ali funciona bem. O percurso, de 15km com cerca de 800D+, pouco ou nada mudou desde 2014. As mesmas duas subidas muito longas, os mesmos trilhos muito rápidos e divertidos. Os únicos chouriços cheios são os que encontramos na habitual feijoada servida num ambiente muito familiar à hora de almoço. Por alguma razão, ano após ano, esta corrida perto de Lisboa esgota. E já vai na 9ª edição! Sinto-me em casa, em Casaínhos, e desconfio que não sou o único. 

Quanto à minha disputa anual com o Sommer, o meu arqui-inimigo sazonal... bom, é como eu digo, as coisas em Casaínhos mudaram muito pouco durante os últimos 4 anos. Mas o melhor é lerem a brilhante crónica que ele escreveu sobre a batalha de 2017.


Ainda antes de Casaínhos, uma semana depois da UTAX, tive a minha 10ª (ou 11ª? Já não seu) participação na prova da casa, os 20km de Almeirim.


Foi a minha única prova de estrada de 2017, mas não podia falhar. Os 20 para nós, Almeirinenses, é mais do que uma simples corrida. O atletismo popular sempre foi um pilar muito importante de Almeirim e é natural que a história da cidade se confunda com os 20, afinal de contas a prova comemorou este ano a sua 31ª edição, numa terra que foi elevada a cidade apenas há 26 anos! É com um orgulho enorme que constato que é uma das corridas mais conceituadas e respeitadas do país, mesmo não tendo nada a ver com a organização. 

Apenas uma semana após os 110km do UTAX, esta foi das minhas participações mais sofridas nos 20. Era suposto fazer uma prova tranquila, lá para trás, mas.....enfim, vocês percebem. Comecei num ritmo ambicioso que aguentei apenas até aos 15/16km. Foi quando levei a real marretada Almeirinense. E, ui, se deu forte! Os últimos 5km foram um sofrimento e arrastei-me até à meta quase um minuto por km mais lento do que nos primeiro 10km. Cruzei o pórtico com 1h27, muito longe da 1h21 que consegui há uns anos. Mas isso interessa pouco. Foi mais uma manhã muito bem passada a correr em casa, este ano num percurso novo que achei ainda melhor que nas outras edições.

Claramente esta foto foi nos primeiros 10km. No final já me ria muito pouco.
Foram assim 3 das 5 semanas que passaram desde o UTAX, no fim de Outubro. Teria sido um final de ano perfeito se por aqui ficasse. Três provas muito queridas para mim, nada de grandes aventuras, e agora seguia-se um Dezembro tranquilo a preparar 2018. Mas não. Ainda há isto:


Pois é. É já na próxima meia noite de sexta para sábado que vou iniciar mais uma grande aventura. A essa hora partirei da Lagoa das Sete Cidades, na ilha de São Miguel, para 105km que me irão levar praticamente até à outra ponta da ilha, nas Furnas. Uma prova que tem tudo para ser espectacular, mas que claramente vem numa má altura do ano para mim. 2017 já vai longo, com 3 provas de 3 dígitos e um record de quilómetros e de desnível positivo. Claramente o mês de Dezembro devia ser de reset, mas, num impulso, a cerca de um mês do UTAX numa altura que estava num pico de forma e achava que conseguia tudo, decidi inscrever-me em mais uma aventura. 

Mas o que me preocupa mais nem é a falta de descanso. Desde a Lousã que ando muito limitado. Durante a prova começou a doer-me o tendão de Aquiles na zona do calcanhar de um pé. Não me impede de correr, mas tenho andado a ignorar a dor pra ver se passa. Estou com um peso na consciência porque sei que está aqui qualquer coisa errada e meter-lhe mais de 100km em cima não há-de fazer muito bem. Se fosse uma prova em Portugal continental certamente não iria, mas com viagens e estadia compradas.... Enfim, vamos lá ver o que dá. 

Pronto, lá tiveram que levar com um parágrafo de choradeira! 

Bom, o post de resumo de 2017 terá que ficar para daqui a umas semanas. Voltamos a falar daqui a 7 ou 8 dias. Desconfio que vou ter uma boa história para contar!




segunda-feira, 23 de outubro de 2017

UTAX 2017 (110km) - Eu e o filhadamãe do trilho.

Cinco anos depois voltei à serra que acolheu a minha primeira aventura no trail. Desde então já fiz uma mão cheia de provas na Lousã. Duas vezes o TSL, outras duas os Abutres e ainda o Louzantrail. Mas faltava-me uma: a rainha. Uma das mais antigas em Portugal, a prova que explora a fundo a mítica Serra da Lousã, sem dúvida uma das melhores, mais agrestes e inacessíveis Serras para a corrida de montanha. Depois de um encontro adiado em 2015, este foi o ano em que finalmente enfrentei os 110km do Ultra Trail Aldeias do Xisto.


Três meses e meio depois da Andorra Mitic, parti para a minha terceira aventura de 3 dígitos de 2017. Foram 3 meses a treinar bem, talvez como nunca tinha treinado. À quilometragem e desnível que já fazia juntei duas sessões semanais de ginásio, o que sem dúvida me tem ajudado. Sentia-me bem, em forma, pelo que na sexta feira estava surpreendentemente calmo e confiante, tendo em conta a enormidade que ia enfrentar. À primeira vista seria a mais acessível das 3 deste ano. 110km com 5300+, quando a Mitic na mesma distancia tinha 10000D+ e o MIUT 7200

Mas foi só mesmo à primeira vista... Se eu precisava de um exemplo que nem sempre os números dizem tudo de uma prova, a Lousã tratou de mo dar. Não, nem foi bem isso. A Lousã tratou de me meter dentro de uma máquina de lavar roupa, ligou a centrifugação, deixou-me lá 20 horas e no fim deu-me um chuto no rabo e deixou-me estendido no chão!


A previsão era de chuva desde a meia noite até às 6 da manhã, mas às 23:59 o tempo estava perfeito. Fresco QB e sem chuva. Parti com uma tshirt térmica e manguitos, mas depois do que aconteceu em Andorra não facilitei e meti na mala material para o pior cenário. 

À meia noite em ponto deu-se inicio ao punk rock. A sério, literalmente! Blitzkrieg Bop a bombar bem alto, os power chords do Johnny Ramone, que ecoaram na minha cabeça horas e horas durante aquela noite, trataram de electrificar ainda mais os 321 que se preparavam para atacar de relâmpago os trilhos da Serra! Bora!

HEY, HO, LET'S GO!!


Ok, ok.. O ataque não foi bem um blitzkrieg. Na verdade aos 4km já estávamos engarrafados na entrada dos trilhos, e, convenhamos, o melhor é ir com calminha não vá a marreta dar de si. Por isso, Joey, se não te importas, LET'S GO mas com cabecinha.

Digam lá, já estavam com saudades dos meus gráficos feitos no paint.
Uma coisa engraçada nesta prova é que já conhecia praticamente todos os sítios onde passámos, pelas diferentes provas e treinos que lá fiz. Esta parte inicial, com saída da Lousã, passa por alguns dos meus trilhos preferidos da Serra, incluindo a passagem pelo castelo da Lousã e a famosa levada com quase dois quilómetros que nos mete a correr numa varanda de 50cm de largura com um precipício do lado esquerdo. 

Para quem ainda não sabia ao que ia (não deviam ser muitos), estes primeiros 17km mostraram bem o que esperar. Na Lousã raramente as subidas são constantes. Primeiro porque os trilhos são quase sempre muito técnicos, com muitas pedras, paus, raízes e pontes que obrigam a todo o tipo de movimentos, a inclinação nunca é constante, depois há as passagens por aldeias com muitas escadas e em cima disso tudo são quase sempre intercaladas com dezenas de pequenas descidas. 

Candal, foto do Miguel Cadalso
A chegada a Cerdeira, local do primeiro abastecimento foi aos 10km. O tempo mantinha-se surpreendentemente seco e frio, o que era excelente. Já não tinha os manguitos e comecei a alimentar a esperança de afinal a noite ser seca. Seguia-se uma pequena subida até ao ponto mais alto desta primeira fase, nos 900m. O abastecimento.... bem, vou guardar a opinião sobre os abastecimentos lá mais para a frente, para não me começarem já a bater.

Foi ali naquele planalto antes da grande descida, enquanto seguia a bom ritmo num excelente grupo, que começou finalmente a chover. Eram duas e meia da manhã, não pararia até às 7:30, ao nascer do dia. Bom, ninguém esperava que fosse fácil.

Até Povorais, 2º abastecimento
E que boa altura para começar a chover! Provavelmente a descida mais difícil da prova. Super inclinada e técnica. Apoiei-me nos bastões de maneira a poupar ao máximo os quadriceps do esforço de amparar os meus 70 e tal kilos em movimento. Resisti a vestir o impermeável até ao fim da descida, até que cruzámos um ribeiro no fundo de um vale apertado. Parei para o vestir e comer um gel. A chuva entretanto começara a cair forte e a temperatura baixara muito. 

Confesso que não me lembro muito bem do caminho até Povorais. Como sempre na Lousã, nunca sei muito bem se estou predominantemente a subir ou descer, e com a chuva a sensação de estar a ser centrifugado ainda é maior. A chuva pesada e o vapor da respiração impedem que veja muito mais que 2 metros à frente, por isso concentro-me unicamente em progredir da maneira mais eficaz possível. Entretanto tinha passado uma hora desde que meti o gel no vale, está na hora de comer. Olho para o relógio e estou em cima dos 9km anunciados para a distancia entre abastecimentos. Não devia tardar, decidi adiar a comida até ao abastecimento. Mas tardou. Quase 3km. A subir, o que significa uns bons 40 minutos. Lá chegou o abastecimento e ..... bom, falo disso lá mais à frente.

Povorais - Castanheira de Pera
Esta foi a altura mais difícil da prova. A chuva continua incessante e a temperatura baixa muito com a altitude. Felizmente esta fase final da subida era fácil, toda em estradão, o que deu para meter um ritmo muito constante e recuperar um pouco do esforço. A única dificuldade neste ataque ao ponto mais alto da prova foi o trânsito automóvel. Passaram uns 10 carros a subir e descer o estradão. Às 5 da manhã. A chover. No topo da Serra. Era uma festa lá em cima, acho eu. Sim, vamos dizer que era uma festa.

Seguia-se a looonga descida até Castanheira de Pera, 11km onde se perdem quase 700 metros de desnível. Lembrava-me bem dela da TSL que fiz há dois anos. Uma primeira fase muito técnica e trabalhosa depois maioritariamente estradões até lá abaixo. 

A entrada no vale de Castanheira de Pera coincidiu com o nascer do dia e com ele começou o festival Miguel Cadalso. Devem lembrar-se dele de outros posts aqui do blog, é o fotografo oficial do Quarenta e Dois. Ele é que ainda não sabe.




Os estradões e longos trilhos bons de correr embalam-nos num trote até à Praia das Rocas, local do terceiro abastecimento, em Castanheira de Pera. Os quilómetros feitos em passo de corrida desgastaram bastante o corpo e, como já aconteceu noutras provas, o nascer do dia tem um efeito negativo em mim, pelo que chego ao abastecimento um bocado abatido e desmoralizado. Entro e preparo-me para comer bem, para ganhar algum alento, mas..... enfim, falamos disso mais lá à frente.

Castanheira - Talasnal (Base de Vida)
O vale de Castanheira de Pera foi o único sítio devastado pelos incêndios por onde passámos. Foi impressionante. Já tinha feito esta subida no TSL há dois anos, lembrava-me bem de andar embrenhado numa floresta por um trilho que serpenteava entre as árvores. Agora a encosta estava completamente despida de árvores, mas por todo o lado despontavam da terra preta pequenos pontos verdes. O incêndio, o catastrófico incêndio de Pedrogão, já foi em Junho, entretanto a natureza estava a encontrar o seu caminho. Paisagens verdadeiramente surreais. 



Impressionante.
A subida foi, finalmente, ao meu jeito! Quase 600 metros de desnível positivo num trilho muito constante. Serviu para recuperar fisicamente mas principalmente voltei a ganhar ânimo. Lá em cima, no planalto, seguimos por estradões que puxavam à corrida e eu respondia-lhes. Enquanto houvesse pernas assim seria! 

A chuva entretanto tinha parado e o sol de vez em quando lá aparecia entre as nuvens. Não podia pedir condições mais perfeitas para fazer a descida até o Talasnal, é provavelmente dos melhores trilhos da Serra. Com poucas pedras e raízes, quase sempre coberto de folhas castanhas e ouriços dos castanheiros. É como se corrêssemos em cima de um colchão que serpenteia pela encosta abaixo. Estou convencido que é humanamente impossível não correr ali, mesmo que estejamos rebentados! O abastecimento do Talasnal, base de vida, está muito perto. Com ele a perspectiva de mudar para roupa seca e comer finalmente alguma coisa quentinha! Finalmente a coisa estava a encarrilhar.
A sério, tentem não correr aqui
Olha eu a chegar ao Talasnal! Desta vez a (muito boa) foto é da Patrícia Povoa.
O abastecimento do Talasnal é, como quase todos os outros, bem apertado e abafado, mas lá encontro uma cadeira e começo de volta dos meus afazeres. Depois do fiasco das bases de vida do MIUT e Mitic não queria falhar em nada desta vez. Percorri mentalmente a lista de tarefas e executei-as eficazmente sem perder muito tempo. Depois dos pés limpos com uma toalha, meias lavadas, tshirt e manguitos novos, relógio a carregar, reabastecidos os geis e barras para a segunda metade, power bank com cabo para carregar o frontal, casacos e equipamento para o frio na mala, lá me sentei a beber o litro de Compal de pêra que tinha levado no saco da muda. Uma dica do campeão Luiz Mota que aconselho vivamente, soube espectacularmente bem! Viro-me para uma pessoa da organização e pergunto pela comida quente, pelo que ela me responde....... bem, falamos disso depois.

Mochila às costas, saco fechado e siga!

Talasnal - Miranda do Corvo
Despeço-me da muita gente conhecida que está no abastecimento e saio bem disposto. Assim que meto um pé fora da casa vejo que o que se segue é uma descida um bocado técnica. Preparo-me para pegar nos bastões e...ups, ficaram lá. 

Volto para trás, envergonhado, pego nos bastões e meto-me a caminho.

Vou a sentir-me super bem, pernas leves e com muito ânimo. Desço as escadas do Talasnal em passo de corrida sem grande esforço e entro num trilho em bom ritmo. Lembro-me de olhar para o perfil que está no dorsal para ver o menu que se segue. Ora deixa lá ver o dorsal..ora o dorsal está...o dorsal....? O DORSAL!! 

Merda. Ficou no abastecimento! Filhadamãe. Toca de subir tudo até lá acima e com cara podre ir buscar o porta dorsal. Como disse o Bruno Ribeiro quando me viu a voltar para trás "tudo só para ter mais umas linhas para escrever!".

Saída do Talasnal. Esta parte fiz duas vezes a descer e uma a subir! Lucky me!!
Estávamos agora a encaminhar-nos para o vale de Miranda do Corvo, numa subida que nos levaria até ao Observatório. Foi a fase com mais estradões da prova, incluindo um longo e plano que nos obrigou a correr uns 5km. Antes de chegar a esse planalto, enquanto fazíamos uma outra subida em estradão, perguntei a um fotografo se o observatório era já lá em cima, ao que ele respondeu "o observatório?? oh amigo, ainda falta muito, MUUUUITO!!! Uuui, é tão longe!!!". E pronto, foi neste preciso momento que encontrei a única pessoa do mundo inteiro que à pergunta "ainda falta muito?" não responde com "é já ali!" ahahah.

Fim do estradão, mesmo a chegar ao Observatório. Viemos daquele lá ao fundo. Este da frente é o famoso Cadalso!
Cheguei ao abastecimento do Observatório bastante bem. É verdade, os estradões são chatos, mas se forem bem enfrentados são excelentes para recuperar energia, principalmente a subir. 

Lá em cima comecei a fazer contas de cabeça ao que faltava. Descer até Miranda e subir pelo outro lado do vale até Gondramaz. Ok, basicamente falta o percurso dos Abutres feito em sentido contrário e depois descer até à Lousã!

A descida é quase toda ela boa de correr, mas de vez em quando lá vamos passando por trilhos super técnicos que iam lentamente destruindo o corpo. A meio ainda passamos pelo abastecimento de Vila Nova. Este, para variar, num espaço bastante amplo. Como sempre, a descida é intercalada com pequenas e inclinadas subidas. Provavelmente não está a transparecer neste relato, basicamente porque ainda não rebentei, mas este tipo de percurso é terrível e está a ser duríssimo. Tanto passamos 5km a correr num estradão como entramos numa secção técnica em que progredimos com dificuldade ao ritmo de 20'/km. Sinto-me bem a nível muscular, mas as articulações começam seriamente a queixar-se do muito difícil terreno e brutal leque de solicitações. 

A chegada ao ponto mais baixo, em Miranda, acontece aos 90km. Faltam 20km, 10 até Gondramaz e depois a descida final. Nunca nesta prova pus em causa que chegaria ao fim, mas nem aqui, em Miranda, consegui pensar que já estava. Como a prova não tinha grandes descidas ou subidas organizei-a por etapas entre os abastecimentos. Sabia que me faltava pelo menos uma etapa muito difícil, a subida até Gondramaz.

Miranda do Corvo - Gondramaz
Este segmento é literalmente a parte final dos Abutres em sentido contrário. Foi engraçado os sentimentos contraditórios que tive nesta subida. Lembrava-me praticamente de tudo dos Abutres. Começa super técnico em Gondramaz e vai diminuindo de dificuldade à medida que chegamos a Miranda. Lembro-me do sentimento de alívio quando pisei o alcatrão de Miranda, mas desta vez ia em sentido contrário, perfeitamente consciente que ia enfrentar a parte mais difícil de toda a prova.

Estava muito moído, mas ainda me sentia com pernas, por isso corri toda a parte inicial de estrada e estradão, enquanto o nível de dificuldade ia subindo. E como previsto, ela foi aumentando. Gradualmente fomos entrando em trilhos mais e mais difíceis. Rochas, lama, correntes e cordas. A progressão era lentíssima, parecia que nunca saímos do mesmo sitio. Subíamos 50 metros, descíamos 20. Vezes sem conta. Sempre a pique, sempre difícil! A cota parecia não subir, até que finalmente chegámos à parede final, que nos levaria 200 metros acima, até Gondramaz. Lá de cima ouvi o João Rita a chamar por mim, companheiro do Grupo Desportivo da Parreira. Estava a chegar a casa. Gondramaz mais uma vez foi a nossa base e lá em cima estava toda a família da Parreira e Almeirim. Nem dei pela subida. Sentei-me à porta da nossa Casinha do México a comer uma sopa quentinha. Não era do abastecimento, era mesmo nossa...

Não me canso de elogiar esta casa. Procurem no Facebook - Casinha do México.
Eram 18:20 quando acabei de comer. O sol ainda brilhava mas a noite não tardava por isso aproveitei para meter o frontal e os manguitos.

Gondramaz - Lousã
Praticamente todos os quilómetros que percorri em grandes ultras foram sozinhos. Não gosto muito de me colar por duas razões: se estou mais lento não gosto de forçar para conseguir acompanhar nem que os outros esperem por  mim e se vou mais rápido não gosto de abrandar para esperar. Mas em Gondramaz saiu-me a sorte grande. Já há alguns quilómetros que passava e era passado por um grupo de 3 vimaranenses, íamos com andamentos muito parecidos. Decidi ali que seguiria com eles até ao fim e foi a melhor decisão que tomei, custou muito menos! 

Foi juntos que enfrentámos mais uma dose de trilhos super técnicos a sair de Gondramaz. Juntos entrámos na segunda noite e junto iniciámos a grande descida de 7km até à Lousã. Cruzámos a meta os 4, 20 horas e 38 minutos depois de termos partido da Lousã. 

Infelizmente ainda não achei uma fotografia com os 4.
Foi assim a história da minha 9ª aventura de 3 dígitos. Eu sei, o relato não foi grande coisa. Na verdade a minha corrida também foi um bocado sem história. Nunca rebentei, nem me senti perto disso, mas também nunca andei tão leve e solto como achava que andaria. Antes de começar apontei para entre as 20 e 21 horas, o que seria uma prova a correr bem. Secretamente tinha a esperança de baixar das 20 horas, porque me sentia muito bem nas semanas que antecederam a prova, mas infelizmente não se confirmou. Não me interpretem mal, foi provavelmente a prova de 3 dígitos mais sólida que já fiz, mas... não sei, esperava mais. A Sara e os miúdos não me puderam acompanhar, depois de estar tudo combinado há muito tempo, acho que isso contribuiu para que no fundo tivesse passado 20 horas a ver se despachava aquilo.

Quanto ao percurso, organização e abastecimentos... bom, acho que tenho que dizer qualquer coisa. 

Primeiro, o percurso. Como disse lá atrás, reconheci praticamente todos os sítios onde passámos, a UTAX agrega todos os trilhos da Lousã. Sinceramente, acho que uma prova de 50km é mais equilibrada nesta Serra, fiquei com a sensação que houve um certo enchimento de chouriço para chegar aos 110km. Quanto ao tipo de percurso, como perceberam, não é de todo onde me sinto melhor. Prefiro subidas e descidas muito longas, quilómetros verticais e alta montanha. Mas percebo perfeitamente que haja quem prefira este tipo de percurso. Reforço, é só a minha opinião. Gostei de fazer as provas de 50km nestes caminhos, adorei os TSL e os Abutres que fiz, mas desta vez, a certa altura, já só queria sair dali. 

E agora, os abastecimentos. Prometi a mim mesmo que nunca mais falaria de abastecimento, depois da tareia que levei no relato do Louzantrail. Mas desta vez queria dizer alguma coisa. Eu sei que assim que lerem isto vão aparecer os mauzões do costume a dizer que os abastecimentos podiam ser só casca de pinheiro e água da chuva, mas para mim há mínimos a cumprir. Por exemplo, não acho normal que numa prova de 110km só haja comida quente em dois abastecimentos, um aos 34 e outro aos 98km, nem na base de vida havia!. Não acho normal que haja um desequilibro tão grande entre salgados e doces, via tortas danecake, chocolate, gomas e biscoitos em todos, mas salgados praticamente não vi. Não acho normal que a informação de distancia entre abastecimentos tenha sido erradas tantas vezes, e isto para mim é o pior. Aprendi com o tempo a não estar dependente dos abastecimentos, porque nem sempre são ao nosso gosto, por isso parto sempre com comida para ser auto suficiente e foi isso que aconteceu. Nunca comi tantos geis numa prova. Quando percebi o que enfrentava passei a comer um gel ou barra de hora a hora, certinho, se apanhasse um abastecimento 10 minutos depois não interessava. 

Enfim. Detesto acabar neste tom negativo, por isso deixo-vos uma ultima foto do Cadalso. Eu nunca fui ao pé dele, quando passei neste ponto ia sozinho. Juro que pensei "epah, que espetáculo. Só espero que o Cadalso tire uma foto disto, tem que entrar no post!" E, adivinhem, o Cadalso tirou :)

As encostas queimadas de Castanheira, pontuadas de verde. A vida vence sempre!



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Freita Skyrunning (42km) - Uma prova quase fofinha

"Freita Sky Marathon. É uma prova sonsa, começa toda fofinha e depois mastiga-te." M.S.D.


Pronto. Este relato podia ficar pela citação do Miguel, o que até dava jeito porque ao elaborar terei inevitavelmente que falar da diferença do sky running para o trail normal e não sei bem qual é. Mas não, vou a fundo.

Ora bem, pelo inicio. Este fim de semana corri os 42km da Freita Sky Marathon na...isso mesmo, na Serra da Freita. Além dos números impressionantes, 2800+ para a distancia, aliciava-me conhecer finalmente os trilhos técnicos e agrestes desta Serra, coisa que, curiosamente, cada vez me atrai mais. A 5 semanas do UTAX, distancia e desnível na medida certa: toca de esmifrar o Airbnb, pegar na Sara e nos miúdos e partir para um fim de semana na montanha. 

Tenho que confessar, desde o início que algo me parecia estranho com esta prova. Uma primeira edição, por uma organização que nunca tinha ouvido falar, uma imagem simples e uma página de Facebook apenas com o essencial. Numa altura em que somos bombardeados com spam diário de tudo o que é prova, pareceu refrescante. Bom, na verdade deixou-me de pé atrás. Pensei: na pior das hipóteses faço um bom treino, até me perder por más marcações, desidratar por não haver água nos abastecimentos e cair de uma ribanceira de 800m. Não há-de ser nada. 


As duas ultimas corridas que participei foram o MIUT e a Mitic, duas super provas, com organizações gigantes e centenas de pessoas. Já não me lembrava o que era levantar um dorsal sem confusão, ir até à primeira fila por baixo do pórtico cumprimentar amigos e voltar lá para trás para esperar calmamente pela partida. Às 9, hora marcada para a partida, ainda alguém da organização discursava a agradecer a presença de todos, os cerca de 80 que partiam para os 42km e outros tantos para os 25. 

Poucos minutos depois, sem qualquer expectativa ou conhecimento do que me esperava, partia para enfrentar aquele que certamente foi um dos melhores e mais desafiantes percursos que já percorri.



Até ao primeiro abastecimento
Começou fofinha, como diz o Miguel. Uma pequena subida em estradão e logo entrámos num trilho com mais de 2km a descer por entre maciços graníticos cravados no chão. O pequeno pelotão rapidamente dispersou. Corria completamente à vontade e assim continuei na subida de 300+ que nos levaria de volta à cota inicial. Praticamente toda a suave subida foi feita a trote, até abrir a passada e entrar na simpática descida em single track que nos levou até ao primeiro abastecimento, nos 10km. Cheguei lá com 1 hora de prova. 

Hm, isto do sky running é só manias, a prova até é bem fofinha!


O abastecimento estava a meio da descida. Rapidamente comi uma banana, uns salgados, beijos na Sara & miúdos e segui caminho a bom passo. A descida continuou agora junto a uma levada, num trilho muito estreito e incerto. Algumas pessoas optaram por ir com os pés dentro de água, outros, como eu, continuaram a saltitar de uma margem para a outra do canal. 

Desde a partida que raramente saímos de trilhos. Trilhos simpáticos que percorri quase sempre a correr, mesmo quando subia. Até que, do topo daquele montículo, se viu a descida que nos levaria ao fundo do vale. 

Olá. Isto é novo. 

Do topo via-se o fim da descida, 200 metros abaixo, até ao fundo apertado de um vale enorme. O trilho era selvagem, completamente exposto, por entre xisto solto e inclinações brutais que controlei com os bastões. Chegados ao fundo do claustrofóbico vale nem tivemos tempo de respirar antes de apanhar com uma parede subida a 4 apoios: pés e braços. 

"Poupem as pernas, a partir de agora isto é muito duro!!" Dizia um elemento da organização presente naquele sitio.


Até ao segundo abastecimento, situado a meio da grande subida de 800m que nos separava do topo, corremos num single espetacular, super variado, com picadas fortes a subir e pequenos troços planos que davam para esticar as pernas. Passámos pelas aldeias abandonadas de Porqueiras e Berlengas, por cascatas e trilhos de xisto, sempre numa sombra fresca.

Cascata de Porqueira. Sacado do Google, obviamente.
O abastecimento, situado na aldeia de Lomba aos 19km, marcava o meio da subida e parecia que entrávamos numa serra diferente. Os trilhos apertados e sombrios de xisto passaram a grandes paisagens de granito, expostas, megalómanas. Trepávamos agora por entre grandes maciços. Subíamos da minha maneira preferida: sem trilho. As fitas, sempre visíveis, estavam bastante distanciadas e deixavam ao nosso critério a melhor trajectória a seguir. Nem parecia que estávamos na mesma prova! 

A chegar ao topo. Foto do Nuno Baixinho.
Sem dar por isso já estava nos 1000m, no fim de uma longa e muito variada subida. Antes da descida tínhamos pela frente 3km de planalto para correr entre manadas de vacas arouquesas, solo macio e granito. Muito granito. 

42km não é de forma alguma uma distancia pequena, mas o meu chip ainda estava ligado nos três dígitos. O facto de percorrer menos de metade disso oferecia-me a confiança para abrir a passada e curtir os trilhos como há muito não o fazia. As pernas estavam soltas e eu fiz-lhes a vontade. Corri no planalto e na descida muito técnica, com muita pedra solta, até ao 3º abastecimento, onde estava novamente a minha comitiva. 



Estiveram muito tempo no abastecimento com pouco para fazer...



Mais uma vez, a descida levou-nos até ao fundo d'O Vale Mágico (é mesmo o nome, não estou a inventar). É impressionante como fica apertado lá em baixo. Acho que se abrirmos os braços conseguimos tocar nas duas encostas ao mesmo tempo. 

A coisa já tinha deixado de ser fofinha há algum tempo, mas agora ia começar a apertar. Esperava-nos um monstro de 800D+ percorridos em menos de 4km. E não foi meigo. 

O primeiro golpe foi disferido sem misericórdia. Uma parvoíce de uma encosta que nos levaria a ganhar cerca de 200m verticais com inclinações entre os 40 e 50%. Não, não me enganei a escrever. Ainda com as pernas a tremer, já fora da linha das árvores, deixamos a terra escura e húmida e voltamos ao austero granito. Vão-se os trilhos, volta novamente a outra face da prova. A encosta muito inclinada protege-nos do vento fresco que sossegava o calor e a subida continua a bater, bruta, até que finalmente avistamos a torre meteorológica, aos 1050m.

Quase lá em cima.
"O pior já passou!", dizia um senhor da organização lá em cima. 

Bom, se calhar tem razão. 33km, as duas principais subidas estão conquistadas, falta ali uma rampazinha de 350m mas não há-de ser mais difícil que esta.

Lembram-se da frase do MSD? Pois bem, entrámos na boca da Freita, agora é que vamos ser mastigados.

Parece fácil.
Logo a seguir à torre o percurso parece dar razão ao senhor. Um estradão, praticamente o único de toda a prova, embala-nos para 1.5km de corrida rápida e confortável, até apanharmos uma pequena rampa e nova descida tranquila, agora em trilho. Entrávamos na aldeia de Cabaços, local de uma segunda barreira horária. 

E então começou. Aos 36km, 6 do fim, quando tudo parecia resolvido, a Freita mostrou-se finalmente em todo o seu esplendor. Não há volta a dar, íamos ser sovados a torto e a direito e nem sequer desconfiávamos.

Aldeia de Cabaços.
Sem pedir licença, logo a seguir à saída da aldeia, mandam-nos para uma encosta que parecia saída dos Pirineus. Passámos por sítios vertiginosos durante a prova, mas nada como ali. Honestamente, tive medo de escorregar enquanto descia apoiado no rabo e com as mãos no chão. E não era uma rampa pequena. Descemos e descemos, sem trilho, num caminho cada vez mais difícil que se embrenhava nas árvores. Os bastões eram inúteis enquanto tentava única e simplesmente não resvalar por ali abaixo. 

O barulho de água a correr avisa-nos do fim da subida. De facto lá estava ela, a correr entre grandes maciços de granito no fundo de um vale. Atordoado ataquei imediatamente a subida, que ainda por cima era uma nova rampa super inclinada e incerta. 

Pufff. Progressão lentíssima. A subida acalma e entramos num trilho difícil que percorre a encosta numa espécie de varanda por entre as árvores. Paro para respirar e beber um pouco de água, enquanto aproveito para olhar à volta. Foi então que fiquei completamente arrebatado.

Não estava à espera. Não sabia que íamos passar ali! Ouvi falar dela dezenas de vezes, mas não esperava que fosse assim. Não consigo imaginar melhor maneira de a conhecer. Estava bem no coração da Frecha da Mizarela, à minha frente a água corria quase em câmara lenta pela gigantesca encosta de pedra até explodir no fundo do vale. Foi arrepiante. Saquei do telemóvel pela primeira vez para tirar uma fotografia, mas, como sempre, cheguei rapidamente à conclusão que não vai captar nem uma ínfima parte do que é estar ali e vê-la pela primeira vez. 

É impossível encontrar uma foto que lhe faça justiça.
Estava na barriga da besta. O trilho leva-nos ainda mais para baixo, numa descida muito perigosa que vou gerindo curva a curva. O tempo passa muito mais depressa que os metros. São, de longe, os quilómetros mais lentos de toda a prova. Começo a ficar com medo da "pequena rampa de 350m" que falava há bocado. 

Adivinhem? Sim, o medo era justificado. Já bem mastigados, a Freita preparava-se para nos cuspir. 

Apesar de ter metade do tamanho das outras, foi de longe a mais difícil. Completamente selvagem, sem trilho, com mato e pedras, exposta. Parece que um dos princípios do Sky Running é ir do ponto mais baixo ao mais alto pelo caminho mais curto possível. Aqui foi aplicado na perfeição! Que filha da mãe de subida! Estava a escassos 2km da meta e tinha a sensação que ainda ia a meio da prova! Lá em cima um elemento da organização incentivava com vontade todos os que se arrastavam encosta acima. Quando lá cheguei parei, olhei para ele e sorri. Ele riu-se de volta e disse-me orgulhoso: "Inventámos esta só para a prova!".

Demorei quase meia hora a percorrer os escassos 800 ou 900 metros! C'um caraças. Ainda com as pernas bambas corri na descida difícil e cheia de pedra que nos deixou às portas de Felgueira, a 500 metros da meta. Até que, finalmente, tivemos descanso. Era só passar o pórtico.


Que surpresa de prova! Adorei cada metro! O percurso é perfeito, foi-se mostrando nível a nível, nada monótono. Foi duro e técnico, com muito desnível e trilhos de progressão muito lenta, mas, como é característico das melhores provas, nunca deu a impressão que nos estavam a dificultar a vida só porque sim. A organização tem o maior crédito por ligar os diferentes trilhos de uma maneira que fez perfeito sentido. As marcações estavam impecáveis, sem exageros e colocadas de forma inteligente. Os abastecimentos, 4, eram suficientes e bem compostos. O único reparo que tenho é pela ausência de pessoal nas zonas mais perigosas. Atenção, sou completamente a favor da inclusão destas passagens, mas houve zonas que deviam ter alguma vigilância. 

Parece que há um bocado a tendência de colar a Freita ao UTSF e ao inevitável Moutinho. Mas, tal como a Serra da Lousã tem provas como o UTAX, Abutres ou Louzan, há espaço nesta magnifica Serra para mais que uma prova. Na minha opinião, esta primeira edição foi um sucesso estrondoso e esta prova tem tudo para ser marcante. Foi certamente das melhores que já participei e de certeza que vou voltar. 

Ah, já agora, lembram-se daquelas vacas arouquesas que eu disse que vi lá em cima? O naco que comi nessa noite era mais ou menos do tamanho de uma inteira.

Não me queria ir embora sem mostrar isto.



terça-feira, 5 de setembro de 2017

Porque fazemos o que fazemos.

Este fim de semana, em conversa com uns amigos Muggles, veio à baila a empreitada que o português José Massuça vai iniciar no Hawai daqui a uns dias: o EPIC 5. Trata-se de um ironman por dia, durante 5 dias, em 5 ilhas diferentes daquele arquipélago. Imediatamente a conclusão de todos foi que isso é uma parvoíce e que "já é de mais". Bem, de todos menos...eu. 

Não sei exactamente em que ponto da minha vida se deu a mudança. Tempos houve em que eu próprio falei em exagero, loucura ou ultrapassar limites. Como em 2010, quando corri a minha primeira maratona e me falaram em ultras. Ou 2012, quando fiz o meu primeiro trail, de 30km, e no mesmo dia se corriam os 80km do UTAX. 

O que leva alguém a fazer 5 ironman seguidos? Atravessar o Canal da Mancha a nadar, correr 250km no sitio mais quente do planeta, 300km nos Alpes ou na Via Algarviana? O que leva alguém, que tem uma família e uma profissão, a passar horas a treinar de madrugada, quando não tem a mais pequena ambição de sequer chegar a um pódio, quanto mais fazer uma vida disto? 40 ou 50 minutos de exercício 3 vezes por semana parece-me perfeitamente razoável para ter uma vida saudável, porque é que não ficamos por aí? Porquê perseguir uma série de conquistas inúteis, como tão brilhantemente o Rui Pinho descreveu depois da sua participação no UTMB'17?

A resposta não vem na forma de uma epifania. Aliás, sinceramente nem sei se há uma resposta! Cada um tem as suas motivações, suponho. Descobrir até onde podemos chegar, estar em comunhão com a natureza, a aventura ou a competição. Eu persigo aquela sensação de estar na linha de partida de uma aventura que durará 1 ou 2 dias, depois de horas e horas de treino, sem fazer a mínima ideia do que me espera. A conquista da distancia, do desnível, o virar de um cume, a vertigem de uma descida, o medo, a euforia, o desespero...

Mais do que uma resposta a esta pergunta, o ponto de viragem aconteceu no momento em que percebi uma coisa muito simples: nós somos capazes. 

Não é nenhum gene especial ou super poder físico. 

Sim, eu sei que isto soa a Gustavo Santos, mas a conclusão não podia ser mais básica e despretensiosa! É que, por arrasto, de repente damos por nós a fazer a pergunta que pode mudar a nossa vida: porque não?

Eu não sei qual foi a motivação do Massuça para ir fazer o EPIC 5, mas entendo-o.