As minhas corridas na estrada

terça-feira, 10 de julho de 2018

X-Alpine (111km) - O Muro Alpino

A X-Alpine é uma prova diferente de tudo o que fiz até agora. Não foi a mais difícil nem a mais longa, mas foi certamente a que mais me surpreendeu. Na altura da inscrição foi o assombroso perfil que me atraiu, mas estava longe de perceber o que significava exactamente TODAS as subidas e descidas de uma prova terem no mínimo 1000 metros de desnível. Assim como me escapava à compreensão o que era estar numa prova com a previsão de 30 horas e ter apenas disponíveis 5 abastecimentos com comida. "É só mais uma aventura", pensava eu. Não demorei muito a perceber que não seria só mais uma. À uma da manhã de sábado, na vila de Verbier, com a Sara e a Maria Amélia no meio dos muito poucos assistentes, lá parti para muitas horas de pura imersão nos Alpes, numa aventura que não me vou esquecer tão depressa.



Verbier - Sembrancher
12km, 1150-
Foi a partida de uma grande prova mais tranquila que já fiz. Sem fogos de artificio ou musicas épicas, parecia tudo demasiado calmo. Verbier fica a 1500m e teríamos que descer até aos 714m, altitude mínima da prova, em Sembrancher, mas antes uma pequena subida para contornar a montanha. Trilhos puramente alpinos, no meio de uma floresta, com terra escura e muitas raízes, tal e qual como me lembrava do UTMB. A descida continuou na mesma toada, com trilhos limpos e bons de correr. A minha preocupação era apenas ir devagar e não abusar, numa prova destas a gestão começa ao passar a meta. Sem grandes pressas nem ultrapassagens, seguia numa comboio a bom ritmo, num trilho brutal aos ésses. A encosta era tão inclinada que se viam 4 ou 5 pernadas de ésses lá para baixo, mas o trilho estava bem desenhado e a inclinação nunca era muito exagerada. Uma hora de descida depois estava no primeiro abastecimento, em Sembrancher. A organização preparou um mimo para este abastecimento e havia uma espécie de pequeno almoço: pão com doce e manteiga de amendoim. Consciente do que vinha a seguir, tomei o meu tempo e empanturrei-me de pão. Esperava-me nada mais nada menos com um duplo quilómetro vertical, a maior subida que já fiz na vida.

Sembrancher - Champex
14.1km
2034+, 1278-
Respirei fundo e parti determinado. A descida anterior tinha sido bastante fácil o que me aumentou a confiança, mas mesmo assim nunca exagerei enquanto subíamos numa estrada florestal aos ésses na encosta. A temperatura estava óptima e a floresta muito densa protegia-nos da brisa mais fria - condições ideais. Já íamos quase com 1000m de subida e mais uma vez o caminho era muito fácil! Na minha cabeça começou a formar-se a hipótese de se calhar ter vindo com demasiadas precauções, que a prova afinal até era fofinha! Foi então que finalmente chegámos ao refúgio de Catogne e saímos da linha das árvores. Lá dentro da cabana havia um abastecimento, apenas líquidos. Faltavam 800m de subida totalmente expostos, tratei de praticamente não parar no abastecimento (ainda tinha água) e segui logo para não arrefecer. Quando entrei no trilho percebi que tudo tinha mudado. 


Olhei para trás e vi uma linha vermelha a desenhar os contornos das montanhas que nos rodeavam. Eram 5 da manhã, o sol estava a começar a nascer. Faltavam mais de 700 metros de subida para o primeiro cume do dia e à minha frente uma fila infinita de luzes brancas recortava a linha da montanha contra o céu. Subíamos pela crista da montanha numa cascalheira, de ambos os lados um precipício de mais de mil metros. Subia já há 3 horas em esforço quando de repente um dos maciços de granito se mexe debaixo dos meus pés e eu enfio uma perna até à virilha entre as pedras cinzentas que escalava. Paralisei. A respiração ofegante do esforço era agora quase pânico. Os companheiros de subida perguntavam em francês se estava tudo bem, mas eu só acordei quando a dor intensa na canela me despertou. Um deles puxou-me e ajudou-me a sair, "ça va?" "oui, merci" "allez!". Ele continuou a escalada e eu fiquei uns segundos sentado numa pedra, a tremer. Antes de arranjar coragem para me levantar, pensei: onde é que me vim meter?

Na crista
Fotografias tiradas já perto do cume, onde dá para ver bem a proeminência da montanha. Aquelas luzes estão quase 2000 metros abaixo
Já muito perto do cume a quase escalada foi substituída por uma caminhada muito perigosa numa crista de pedras, mais ou menos plana. Cordas, correntes e pegas de aço chumbadas na encosta. Nem na surreal Mitic me senti tão inseguro como aqui. No pico, La Catogne, estava uma cruz a coroar na perfeição uma montanha perfeita, quase triangular, que emergia 2700m acima do vale. Estava cumprida a subida e devia estar aliviado por ir começar a descer, mas algo me dizia que as coisas não iam melhorar...

La Catogne, visto de baixo
O ano passado, na Mitic, disse que a descida de Bony de La Pica para Margineda tinha sido a coisa mais assombrosa que já tinha feito. Pois bem, esta descida para Champex não lhe ficou atrás. Depois de feito o cume ainda andámos um pouco na crista, lá em cima em mais uma via ferrata insana, pendurados a mais de mil metros. Depois pensei que fossemos começar a descer um trilho suavizado por ésses, mas não. Descemos em linha recta pela encosta, sempre com a vista desimpedida para Champex, mil e tal metros abaixo. Uma perfeita loucura que me deixou sinceramente assustado. Teve vários segmentos com 50% de inclinação em que a minha única preocupação era não escorregar. Ao analisar os dados no Strava o quilómetro 26 tem 398 metros de desnível negativo! Acreditem, não estou mesmo a exagerar quando digo que um deslize ali era trágico. A meio da descida, quando voltámos a entrar na floresta, a inclinação começou a suavizar. O trilho é que acabou por se tornar ainda mais fechado e de difícil progressão. Foram cerca de hora e meia para fazer 4.4km a descer! Quando cheguei ao abastecimento de Champex, que já conhecia do UTMB, vinha meio abananado.

Champex visto de cima
Champex - Saleina
15.2km
1466+, 1636-
Demorei algum tempo no abastecimento, era o segundo e já ia com 6h de prova. O conceito de abastecimento desta prova é diferente do que estava habituado. Não quero com isso dizer que a malta em Portugal está mal habituada, os abastecimentos da Mitic e do UTMB eram excelentes, mas na X-Alpine não havia cá mordomias para ninguém. Só uns snacks, às vezes nem fruta havia, o caldo era mesmo só isso, um caldo transparente salgado e que só havia nalguns sítios (em Champex não havia). Apenas o mínimo e essencial. Mais do que alimentar-me, procurei recuperar algum fôlego antes de me fazer à subida seguinte, que tinha nada mais nada menos que 1500D+, até ao ponto mais alto da prova nos 2800m. 

Se a primeira subida tinha começado suavemente, numa estrada florestal, agora que já estávamos dentro da prova esta entrou a matar. Um trilho cheio de pedras e raízes, muito trabalhoso, embrenhado na floresta. Técnico e a dar muito trabalho. O sol já espreitava por cima de La Catogne e começava a aquecer a encosta, mesmo que não conseguisse furar a floresta densa. Quando passámos a linha das árvores e voltámos aos picos graníticos voltavam os segmentos super técnicos feitos em alta montanha. Mais cascalheira pontuada com gelo, mais vias-ferrata, mais cristas. Agora não sempre a subir mas num sobe e desce curto mesmo no topo da montanha, a fazer a linha da cumeeira. 
Uma espécie de varanda, bem lá em cima. Nós vínhamos lá de baixo
Esta era a vista para o lado contrário. Vejam as pedras, era por ali a progressão, sem trilho.
O cume, no refúgio de Orny, surgiu depois de um troço de 800m feitos numa crista com um glaciar do lado esquerdo e um precipício do lado direito. Uma coisa abismal, perto dos 3000m de altitude. Passámos por blocos de gelo super escorregadios, tanto a descer como a subir, os pés estavam sempre molhados do gelo. Não dava um passo sem pensar 5 vezes se seria seguro e para onde iria a seguir.

Três horas de subida depois cheguei à Cabana de Orny. Mais uma vez o abastecimento era apenas de líquidos, mas desta vez havia café. Pedi um copo grande a ferver e isolei-me numa rocha a beber café e a comer uma barra que levava comigo. 

Refúgio de Orny, foto da organização. Reparem no glaciar
Abastecimento, foto minha
O café serviu como revigorante e, apesar de já estar muito amassado, senti-me muito bem quando iniciei a descida. Um monstro com 1600 metros de desnível perdidos em apenas 7km. Desta vez, apesar de ser uma descida abismal, o trilho aos ésses suavizava a inclinação e deu quase sempre para ir a trote. Desde as paisagens graníticas dos cumes até entrarmos na floresta para os trilhos de terra escura. Sempre ao lado de ribeiros e cascatas de água gelada, que de vez em quando ia bebendo. Mas uma descida destas, apesar de não ser tão difícil como a outra, tem o seu preço. Mais hora e meia a trotar num trilho técnico, constantemente a solicitar músculos para travar e mudar de direcção, tiveram o seu preço e a portagem paguei-a em Saleina, lá em baixo, com duas varas verdes a tremer em vez de pernas. Aqui nem abastecimento de líquidos havia, esperava-me antes mais hora e tal até chegar a La Fouly numa subida suave que fiz em sentido contrário no UTMB, a qual ataquei prontamente. A Sara, os miúdos e os meus pais estavam lá em La Fouly à minha espera.

Saleina - Col du Grand St Bernard
22.5km
1739+, 559-
A subida suave de 6km até La Fouly, a tal que conhecia em sentido contrário do UTMB, foi o inicio da pior fase da minha prova. Meio do dia, no fundo de um vale, o calor estava a apertar e muito. Já tinha passado mais de 6 horas desde o ultimo abastecimento sólido e quase 13 horas de prova. O trilho era muito fácil, com troços a pedirem trote, que fui entregando sempre que conseguia. De hora a hora lá tinha que parar para meter com sacrifício mais um gel. Não me posso queixar, foi para isso que lá fui, mas aqueles primeiros dois montes tinha sido de uma tal dificuldade que condicionariam o resto da minha prova. Agora pensava com aflição no resto do perfil e receava que se o nível não baixasse simplesmente podia ser de mais para mim!

A minha receção em La Fouly :)
Sentei-me no abastecimento de La Fouly acompanhado pela minha família. A Sara percebeu logo que alguma coisa estava mal. Estava desanimado e receoso, pelas razões que já vos expliquei. Mais uma vez o abastecimento não tinha nada de especial, acabei por beber o tal caldo transparente e salgado e comi alguns alperces. Mais do que abastecer com comida, nesta prova estes "checkpoints" servem como inicio e final de etapas. Aproveitei em todos para tirar a mochila, relaxar e mudar o chip para a etapa seguinte. A toda a volta já se começavam a ver cadáveres, a coisa realmente estava a apertar.

A subida seguinte levar-nos-ia novamente aos 2700m de altitude, num esticão com 1275D+. É verdadeiramente impressionante como nesta prova sempre que se fala em subidas e descidas são monstros com 4 dígitos. Uma coisa engraçada é que durante toda a prova nunca pensei na distância em quilómetros, sempre na quantidade de metros que faltavam subir ou descer. Se no relógio não levasse a indicação da distância não me tinha feito falta nenhuma. Aliás, no dorsal aparecia um perfil altimétrico, mas sem indicação de distancia ou localização dos abastecimentos, apenas as cotas mais altas e baixas!

Arranquei para o quilómetro vertical seguinte com a confiança em baixo, como já tinha dito. Felizmente foi nesta altura que a prova começou a dar algumas abébias e os trilhos foram-se tornando cada vez mais acessíveis. Esta subida até ao Col de Fenetre parecia copiada metro a metro da grande subida do Col Ferret do UTMB. Primeiro num estradão e depois num trilho limpo aos ésses que nos permitia meter um passinho certo e ir recuperando energia. 

O tal estradão no inicio
As vistas continuavam engraçaditas
Já perto do col entramos numa espécie de planalto nos 2700 metros, para subir mais alguma coisa antes de virarmos finalmente a montanha para Itália. Lá em cima, no planalto, estavam os Lacs de Fenetre. É impossível descrever aquele sítio por palavras, tão pouco com fotografias. Três lagos de um azul escuro intenso, numa espécie de cratera  ladeada por cumes cinzentos e brancos nas pontas, isto tudo a 2700m de altitude. Atrás da nossa cratera já se viam os grandes gigantes dos Alpes, como o Monte Branco ou o Cervino. Fiquei zonzo e acho que não era pelo ar rarefeito.

Nenhuma fotografia lhe fará justiça
Virada a montanha começámos a pequena descida que faltava fazer antes do abastecimento do Col du Grand Saint Bernard (sim, a terra dos cães!) que se situa mesmo na fronteira da Suiça com Itália. O ar mais fresco lá em cima tinha-me devolvido o ânimo perdido em La Fouly e a subida mais fácil permitiu-me aumentar as reservas de energia para o que aí vinha. Cheguei ao abastecimento de St. Bernard 10 minutos depois da previsão que fiz para chegada neste ponto. Mesmo com um inicio de subida muito sofrido tinha recuperado algum tempo!

Col du Grand Saint Bernard, sacado do Google. O Col, ou passagem, é o ponto mais baixo da cumeada da montanha. Uma passagem entre dois vales, sem ser no pico.
Grand Saint Bernard - Bourg Saint Pierre
14.4km
434+, 1264-
Lá em cima, nos 2500m, estava bastante frio e vento, apesar de estar sol e serem 5 da tarde. Decidi equipar-me para o frio, já que me esperava uma pequena ascensão aos 2700 antes de descermos finalmente aos 1600 onde estava a Base de Vida (76km). A passagem que nos levaria ao vale que desceríamos até à Base de Vida foi no Col Chevaux e assim que o virámos iniciamos uma descida brutal toda ela corrível por um vale imenso. A prova continuava a dar abébias e nesta altura estava cada vez mais confiante num desfecho positivo.

Inicio da descida. Reparem no bom aspecto do trilho
Oh yes, tirei uma selfie. No Col Chevaux antes de começar a descer
A descida era nova empreitada gigante, com 1250D- e quase 12km de comprimento. Aqui é tudo à grande. Felizmente o trilho era dos mais simpáticos de toda a prova e fiz segmentos muito grandes sempre a correr, até contornarmos a margem esquerda do Lac des Toules e finalmente descer um pouco mais a pique para a base de vida. Fiz esta descida quase uma hora mais depressa que o previsto. Esta é a principal diferença da X-Alpine para a Mitic, uma prova com números parecidos (110km com 9700+). A prova de Andorra não dá descanso do primeiro ao ultimo metro, é sempre difícil, já nesta dos Alpes, depois daquele inicio demolidor, havendo pernas é uma prova mais acessível. No entanto há uma coisa que me impressionou mais na X-Alpine, que é a dimensão das coisas. Todas as subidas e descidas são gigantes, é demolidor. E ainda estava por vir o maior muro que já enfrentei na vida...

Lac des Toules
Cheguei à Base de Vida, em Bourg Saint Pierre, com 19 horas de prova. Dois terços do total. Até aqui consumi cerca de 15 geis e 3 ou 4 barras e precisava desesperadamente de comer algo mais substancial. Mas já devia saber que não ia encontrar nada no abastecimento... A diferença da Base de Vida para o resto dos abastecimentos era estar o nosso saco e haver sitio para massagem. A comida era o habitual caldo salgado e desta vez havia esparguete sem nada, que meti dentro do caldo. Esta foi a parte que tive mais dificuldade em gerir em toda a prova, a alimentação. Já sabia de inicio que eram espaçados, errei ao pensar que poderia gerir como faço habitualmente que é ir metendo gel ou barras de hora a hora. Algo a afinar se me meter em nova empreitada como esta. 

Com a rapaziada na Base de Vida
Restavam duas subidas e duas descidas. Dois montes separavam-me de Verbier. Dois montes, uma noite inteira e .... um muro. 

Bourg St. Pierre - Lourtier
23.3km
1100+, 1646-
Esta era a menor subida das 5 (SÓ 1050+) e curiosamente a que menos gostei de todas. Não por ser difícil, mas os 1050+ distribuídos por 12km deixavam muito espaço para trilhos planos e pequenas descidas. Foi a única altura da prova que senti necessidade de olhar para a distancia percorrida em vez da altitude, parecia que nunca mais acabava. A subida era fácil, num trilho aberto, pouco inclinado. A encosta era muito exposta e o sol estava a por-se do outro lado do vale, só liguei o frontal já depois das 22. Estava a sentir-me bem a subir e pela primeira vez em toda a prova comecei a passar algumas pessoas. Muito perto do topo, já de noite, calculo que estaríamos a percorrer uma crista, já que o vento aumentou de repente e a temperatura diminuiu bruscamente. Por isso entrei no refugio de Mille só mesmo para reforçar as camadas térmicas e fazer-me o mais rápido possível à descida, já a tremer. Bom, também não podia fazer muito mais, só se fosse beber água!

Cabane de Mille vista de dia, sacado da net. Agora é que estou a ver que realmente percorremos uma crista, dá para ver na foto!
A descida, a segunda maior da prova (1500-) era também das mais difíceis, com excepção daquela loucura logo no inicio. Foi aqui que me apercebi de outra característica desta prova. Pela primeira vez andei muito tempo sozinho e tive necessidade de me guiar pelas marcações em vez de ir em comboio. Acontece que isto é malta que não gosta muito de meter fitas, passava às vezes centenas de metros sem ver marcações. Vejamos, elas estavam onde era preciso, ou seja, onde haviam mudanças de direcção, mas o resto do trilho era por intuição e sem marcações. Não me entendam mal, nunca me perdi, mas a meio da segunda noite, já com muitas horas de esforço, o cérebro já me começava a enganar e senti alguma aflição quando descia e descia sem ver nenhuma marcação. E esta descida não foi mesmo nada fácil... As abébias que a prova deu acabaram em Mille, agora ia ser a doer até ao fim. Novo trilho super técnico e muito inclinado. Apoiava o peso inteiro nos bastões, os quadricepes já estavam a chegar ao limite e a ultima parede não me saía da cabeça. A parte final em estradão já foi toda a andar. Não que não conseguisse pelo menos trotar, mas levantava a cabeça e via luzes tão lá em cima!!! Aí estava ele. O muro.

Lourtier - Verbier
12km
1300+, 866-
O MURO
O abastecimento final, em Lourtier, parecia um cemitério. Fui ver as estatísticas e foi onde desistiram mais pessoas. A um monte do final! Não era para menos. Ali, aos 104km, começaria a subida mais difícil de toda a prova, o Muro. Uma besta com 1250+ ganhos em apenas 5km. Sem dúvida a subida que me custou mais a fazer na vida.

Ataquei-a com a maior precaução possível, passinhos muito pequenos muito apoiado nos bastões. Fixei a cota final e fui descontando os metros até lá acima. Planeei parar para respirar de 100 em 100 metros subidos e estava confiante nessa estratégia. Tão confiante que depois de algum tempo a subir, já no limite da exaustão, pensei para mim mesmo "pronto, já subiste mais que 100m de certeza, agora mereces um descanso!". Olhei para o relógio e...tinha subido 30m! Oh oh...vamos ter problemas...

O trilho era horrível. Além da inclinação natural da subida, este praticamente não tinha pedras que poderiam servir como pequenos patamares para ir escalando. Toda o piso da subida era inclinado, obrigando a uma extensão constante dos gémeos e um permanente desequilíbrio. Evitava olhar para o relógio até estar prestes a cair para o lado porque quando olhava não teriam passado mais que 20 ou 30 metros! Comecei a parar montes de vezes. Sentava-me e deitava-me no trilho. Arrependia-me logo de seguida porque as bolhas na palma dos pés que estavam dormentes de levar tanta porrada voltavam à vida depois do mais pequeno descanso. Comecei a fazer contas e as 6 ou 7 horas para o corte deixavam-me margem para dormir ali mesmo no trilho. Lá está, o cérebro a pregar partidas... Mas pelos vistos não fui o único com essa ideia, passei por 10 ou 15 cadáveres deitados ou sentados com ar de desespero, outros a vomitar, outros a dormir ou a olhar para o vazio. Que loucura! 

Depois de subir os primeiros 400m estava de tal forma esgotado que praticamente desmaiei no trilho. Deitei-me e passou-me tudo pela cabeça. Como é que ia conseguir subir mais 800m? As pernas tremiam. Estiquei as mãos e também os dedos tremelicavam. Respirava ofegante, incapaz de controlar e acalmar. Fechei os olhos e pensei em meter um gel (o 20º do dia?) mas só o pensamento disso me fez vir o vómito à boca! Então lembrei-me que tinha uma única barra de reserva. Abri-a, sentado, e calmamente comi-a toda, enquanto bebericava isotónico.  No fim, uns 10 minutos depois, levantei-me decidido a subir 100m de seguida antes da próxima paragem. Foi então que comecei a falar sozinho.

Comecei a subir e a falar com os franceses e suiços. Aqueles que tentei meter conversa em inglês durante toda a prova e nunca me responderam. Não queria saber, agora iam ouvir. Falei-lhes de tudo. Da subida, da prova, das outras que já fiz, falei-lhes de quando estive em dificuldades iguais noutras ocasiões e tinha acabado por conseguir superar. Depois fiquei sozinho e acabei a falar com a Sara e os miúdos. Com os companheiros que estavam em Andorra na altura, com os meus amigos das madrugadas de Almeirim. Falei, em voz alta, com eles todos. Enquanto falava desviava a atenção do esforço que estava a fazer. Não me lembrava de olhar para o relógio e os metros iam passando e passando. Quando finalmente olhei tinha subido bastante mais do que esperava, pensei em parar, mas estava a ter uma conversa tão boa com uma árvore que não quis interromper.

De repente o cansaço transformara-se em raiva. Já não tinha conversas alegres com os montes, mas chamava-lhes nomes e dava gritos de desafio. 

AH! Tá quase, cabrão! Manda-me o pior que tiveres!! 

A verdade é que o filha da mãe do monte já não tinha muito mais para me mandar para cima. Estava conquistado o Muro! Quando vi a cabana de Le Chaux ainda acelerei mais o passo. Até cheguei a trotar no estradão mesmo antes do refúgio! Lá dentro enviei a seguinte mensagem à Sara:

Também não ia censurar, né..
Mas é claro que ela se levantou às 4 e meia da manhã para me esperar em Verbier. Claro que estava lá ao frio, de madrugada, enquanto eu descia de raiva os 800- que me faltavam. Praticamente sozinha na meta, só com duas ou três pessoas da organização, a ver o sol nascer por trás da montanha, enquanto eu percorria os quilómetros finais, bastante difíceis por acaso. 28h50, 111km e 8400D+ depois de me ter deixado na meta recebeu-me de braços abertos em mais uma conquista. Estava feito. A X-Alpine estava domada.


A comitiva toda no nosso Airbnb

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Começar com o pé esquerdo.

Já há algum tempo que não me sentia tão inseguro para uma prova. Não pela dificuldade da mesma, como aconteceu o ano passado na Mitic de Andorra, apesar desta também ter aparentemente um nível de dificuldade altíssimo. Nesse aspecto, depois de no ano passado ter superado aquela loucura de percurso nos Pirinéus, sei que tenho em mim o que é preciso para virar qualquer prova desta magnitude. É óbvio que não são favas contadas, há milhares de variáveis que a qualquer momento poderão virar o jogo. Mas essas há-as em todas as provas, com o tempo vou aprendendo a lidar com elas. O que não estou habituado a lidar é com esta sensação de não ter treinado o suficiente. 

O primeiro trimestre do ano foi o período de treino mais intenso da minha vida. Nunca treinei tanto em volume de quilómetros, desnível e horas. Como sempre, foi um planeamento autodidacta, por isso a qualidade não terá sido equivalente à quantidade. Daí vieram dois resultados: uma prova sólida na Madeira, é certo, mas também umas mazelas que desde a travessia da ilha não me abandonaram, muito provavelmente derivadas do over-training.

Dez semanas separam o MIUT da X-Alpine. Reservei as duas primeiras para descanso completo (apenas umas corridas muito leves), depois 5 de carga e 3 de tapering. No fim da segunda semana percebi que precisava de mais uma calma, reduzindo o período de carga a 4 semanas. No fim da terceira tive que tomar uma decisão. As dores que sentia não tinham atenuado nem eu me sentia mais solto, mas reduzir ainda mais a carga era um risco muito grande. Por isso decidi que ia ser à mau: assobiar para o lado, ir todas as semanas à massagem e, desse por onde desse, tinha que arrancar 4 boas semanas de treino. Mantive os 5 ou 6 treinos de corrida semanais, passei a 2 sessões de ginásio em vez de 3 e juntei uma hora de natação à semana. 

Nas duas primeiras das 4 de carga a coisa não correu nada bem. Média de 70km com 2500+, longe do desejável. O pior de tudo é que continuava a sentir-me preso e a forçar a perna direita. Nas ultimas duas semanas foi o tudo ou nada. Cortei mais uma sessão de ginásio (os exercícios muito concentrados não estavam a fazer bem ao músculo lesionado), mantive a natação (é para continuar, já tinha saudades) e arranquei duas semanas de 90km com 3500+. O longo da primeira foi a espectacular prova na Serra Amarela e da segunda foi um dia de montanha na Serra da Estrela, que incluiu duas subidas e descidas à Torre, naquele que é certamente dos percursos mais exigentes em Portugal: Loriga - Torre - Alvoco - Torre - Loriga, 36km com 2650+.

Entrei nas 3 semanas finais de rastos. O treino da Estrela foi surpreendentemente duro. No dia senti-me leve (talvez o melhor dia pós-MIUT), fiz uma boa descida e subida do Alvoco (e se ela é difícil), mas no dia seguinte mal conseguia andar, tinha rebentado os quadricepes. A primeira semana de tapering foi horrível, parecia que tinha acabado uma prova de 3 dígitos. Neste momento estou a terminar a segunda e tenho-me sentido um pouco melhor. Resta-me a semana final que vou fazer de paragem completa e dessa forma tentar sarar todas as feridas para que à uma da manhã de dia 7 de Julho esteja minimamente em condições físicas. 

Serra Amarela. Das minhas provas preferidas de sempre.

Descanso a meio da Garganta da Loriga

Grupo Bora-Bora Hardcore. Ultima vez visto em Serra Nevada.
Agora a prova.

Tenho estudado muito a X-Alpine. Na altura foi o perfil que me prendeu de imediato. São 111km com 8400D+, com praticamente todo o desnível distribuído apenas em 5 subidas.


Integralmente corrida nos Alpes, discutivelmente a melhor localização do mundo para uma corrida de montanha, a X-Alpine, que vai para a 10ª edição, sempre se identificou como uma prova puramente alpina e de nível técnico muito elevado. Chamam-lhe a Mitic dos Alpes. Todas as 5 principais subidas têm inclinações médias superiores a 20%, sendo que a primeira vence o desnível de 1900m em 9km e a ultima 1250 em 5km (!!!). A cota mínima é de 714m, a máxima de 2828 e vamos andar muito tempo acima dos 2000. Traz ainda uma novidade em relação ao que estou habituado, os abastecimentos são muito espaçados no tempo, o que torna a gestão da alimentação entre abastecimentos crucial. Resumindo, tem tudo o que eu gosto numa prova!

Dia 7, à uma da manhã (meia noite portuguesa) lá estarei em Verbier, no coração dos Alpes Suiços, para pelo menos 30 horas de montanha pura! …e tentar não estar entre os 60% que todos os anos não conseguem terminar a prova.

Uma coisa é certa, venho com boas histórias para contar. 

Sacado do site da prova

idem

idem

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Serra Amarela SkyRace (35km) - Uma pérola.

De vez em quando vêem-se por aí aqueles apanhados das provas que há no mesmo fim de semana, normalmente a realçar a enorme quantidade de oferta. Não vi nada sobre o ultimo, mas acredito que tenha sido um desses, assim de repente lembro-me de 7 ou 8. Este fim de semana arrisquei. Peguei na família, fizemos mais de 350km de carro e fomos para um parque de campismo no sopé do Gerês, na localidade de Entre Ambos-Os-Rios. O pretexto era a participação na Serra Amarela SkyRace, uma prova de 33km organizada pelo Carlos Sá. Na verdade, a aposta até nem foi muito arriscada, as organizações do Carlos são reconhecidamente de excelência. Estava à espera de uma boa prova, num sitio magnífico que é o Parque Nacional da Peneda-Gerês, mas esta corrida foi tão mais do que estava à espera, no meio de tanta oferta encontrei uma verdadeira pérola. Se tivesse que fazer uma check-list com o que acho que uma prova deveria ter, esta preenchia todos os requisitos. Perdoem-me todos vocês que participaram noutras provas, mas a melhor corrida do fim de semana (ou do ano?) teve inicio às 7 da manhã em Entre Ambos-Os-Rios.

O fim de semana estava planeado há uns meses. Eu e a Sara, antes de sermos pais, acampávamos todos os anos e, com o mai-novo já com 2 anos, decidimos que íamos finalmente acampar com os miúdos. Infelizmente o fim de semana invernal em pleno Junho fez-nos alterar os planos e fizemos o up-grade da tenda para uma muito confortável casa na árvore! Sim, leram bem, vejam lá:




Ficámos no parque de campismo Lima Escape, numa espécie de península rodeada de água por 3 lados, um sitio inacreditável. Além do habitual espaço para tendas e caravanas, o parque tem uma oferta muito interessante de bungallows. Já ficámos em hotéis mais baratos (70 euros por noite), mas é daquelas coisas que valem bem mais que o dinheiro. 

Localização, vista no maps. Já agora, a Adega do Artur tem uma boa posta barrosã!
Como em tantas outras aventuras, juntaram-se a nós o Vasco e a família. A corrida era no domingo, o que deixava o sábado livre para passear pelo Gerês e, claro, uma corridinha ao amanhecer :)

Era esta a vista do parque quando começámos o treino de 11km com 400+. Juro que não fui ao google pesquisar por "paraíso"!
Apesar da manhã espetacular, o tempo acabou mesmo por virar e durante a tarde veio a chuva que continuou a cair durante toda a noite. Estava uma autentica manhã de inverno quando fomos a pé, às 6:30, para o local da meta. Antes da partida o Carlos Sá deixou umas breves recomendações em relação à prova. Avisou que lá em cima estava agreste a sério, que quem não ia bem equipado era melhor ir à prova dos 23km que se manteria por cotas mais baixas e que os 33 passariam a 35km, já que no dia anterior tinham estado duas horas a tentar montar a tenda do abastecimento no ponto mais alto (Louriça, 1350m) mas que devido à chuva e vento não conseguiram e tiveram que descer um pouco a encosta para um sitio mais abrigado, o que aumentaria a distancia. "Pensem bem no que se estão a meter, isto é uma prova de montanha, não há estradões para vos ir buscar! Se começarem a subida têm obrigatoriamente que chegar ao topo para terem assistência!". Engoli em seco.

Com o Vasco antes da partida, abrigados da chuva.
Passava pouco das 7 das manhã quando o Joca, debaixo de chuva torrencial, deu a partida aos cerca de 250 atletas distribuídos pelas provas de 48km (150) e 35km (100). Os percursos eram muito semelhantes. Começaríamos por subir todos até ao Alto da Louriça, depois os 35km voltariam logo para baixo e os 48km desceriam a outra vertente da montanha para voltar a subir à Louriça e descer até à partida. Este é o perfil da minha prova:

Uma subida, uma descida, 1800D+. Numa palavra: perfeito.

Os primeiros 4km, aquela parte mais plana, foram todos feitos a correr a bom ritmo, sempre em trilhos. Foi nesta altura que fizemos a primeira de 5 ou 6 travessias de rios. Com o que choveu durante a noite estes tinham muita corrente e caudal, invariavelmente eram atravessados com água pela cintura! Soube depois que nesta primeira travessia, a única sem cordas, os participantes acabaram por fazer uma corrente humana para se ajudarem uns aos outros a passar. Muito fixe. Sim, estava perigoso, mas sinceramente não me chocou. Quem se mete numa prova destas tem que saber que vai apanhar coisas assim. Aliás, não ouvi ninguém a queixar-se! Ainda a semana passada se viu a Emelie Forsberg e amigos a fazerem o mesmo na Madeira.

Foto espetacular que o Paulo Machado me enviou!
A subida propriamente dita começou antes dos 5km. Seriam nada mais nada menos que 10km onde venceríamos 1300m de desnível positivo! No inicio ainda de baixo de chuva, esta foi desaparecendo à medida que a cota ia subindo e nos embrenhávamos na serra. O trilho era muito técnico, a subida muito trabalhosa, mas nunca demasiado inclinada. O meu estado de euforia ia subindo na mesma proporção que a altitude, enquanto ia entrando mais e mais na prova. As nuvens mais baixas dispersavam e tivemos uma panorâmica impressionante da montanha, arrependo-me tanto de não ter tirado fotografias! 

A subida era incessante, muito variada, com troços planos que dava para meter trote. Impossível andar devagar. Pelos 700m entrámos nas nuvens e num nevoeiro muito cerrado, mas pouco frio. Chuvia novamente. Só via o trilho e um raio de 15 metros. Lembro-me de pensar que num trilho tão perfeito como aquele não precisava de mais, podia estar ali sozinho o dia todo a subir, ofegante, a escorrer suor que se misturava com os pingos gelados da chuva, só com 15 metros de visão - valeria a pena. Nem precisava de ter visto aqueles cavalos selvagens a surgirem do nevoeiro a 10 metros de mim, nem aquelas vacas barrosãs, nem os incríveis maciços graníticos. Mas vi isso tudo nesta subida. Ah, vi tanto nesta subida! Pelos 1100m a nuvens voltaram a dispersar e vi os arbustos rasteiros com flor amarela e lilás que cobriam a encosta. Vi a calçada romana que nos conduzia pela crista da montanha mas também vi encostas nuas para subir, sem trilho, mesmo como gosto. Nova travessia de um ribeiro, desta vez aos 1000m, com água gelada pela cintura e logo a seguir toca de subir uma parede. Muita água, frio e vento, mas logo a seguir as nuvens dispersavam e a temperatura subia a pique, só para voltar a descer uns segundos depois. Cheguei ao abastecimento da Louriça, o segundo da prova, com um sorriso parvo na cara. O único problema desta subida era não ter continuado mais uns quilómetros.
A única fotografia que tirei na prova, nos 1300m. Aquilo lá ao fundo, no colo, é uma tenda. Tentem fazer zoom para perceberem a imensidão. 
Metade estava feito, estava no topo, com quase 1600+, e era altura de descer em igual proporção. A meta estava a quase 20km, praticamente sempre a descer. Mas era muito mais do que uma descida que me separava de Entre Ambos-Os-Rios. Naqueles primeiros 7 ou 8km, onde descemos lentamente dos 1350 até aos 900m de cota, entrei em perfeita comunhão com a montanha, como nunca me tinha acontecido. Não quero parecer lamechas nem pretensioso, não consigo descrever aquele sentimento de outra maneira. Durante este período não vi uma única pessoa, só as bandeirolas laranja me guiavam pelo planalto, sem trilho. Eu é que tinha que decidir a melhor maneira de ir de uma até outra. As nuvens ora cobriam ora dispersavam, até que fecharam completamente nos 1000m e a chuva voltou a cair muito forte. Água por todo o lado, escorria pela encosta formando pequenos cursos de água que explodiam debaixo dos meus pés. A certa altura parecia flutuar por cima do caminho super técnico, que obrigava a uma concentração permanente. Quando este dava uma pequena folga a passada abria imediatamente e voava por cima do terreno fofo. Foi assim durante quase uma hora até chegar a novo abastecimento. Parei para comer umas fatias de presunto quando uma voluntária me perguntou: "então, está muito mau lá em cima?" Mau? Estava perfeito!!

Nova travessia, esta com cordas, já perto do fim. Foto da organização 
A descida continuou, agora em terrenos mais rurais ou em calçada de granito onde era possível correr mais depressa, até que voltámos à cota do rio para uns quilómetros finais mais técnicos em que os atravessamentos deste eram constantes. Nesta altura cruzámos com a malta dos 23km, o que me cortou um pouco aquela sensação de ir sozinho na montanha. O que não cortou foi a adrenalina, dei tudo naquela descida, sem qualquer gestão de esforço. Tanto que nas pequenas subidas (depois do topo ainda subimos mais 200m) já me sentia a ir um pouco abaixo. Mantivemo-nos no trilho até 150 metros da meta, onde tivemos que subir uma rampa em alcatrão. Lá estavam a Sara e os miúdos, que atravessaram a meta comigo.



4h53 para os 35km com 1800+. Mesmo a tempo de ir a correr ao parque de campismo tomar banho antes do check-out e seguir para uma francesinha em Ponte da Barca, antes de enfrentar de novo os 350km de carro!

No final estava extasiado e demorei algum tempo a descer à terra. Foi perfeito. Não me ocorre outra palavra. Tudo nesta prova foi perfeito. O percurso 99% em trilho (e que trilho), boa subida, boa descida, marcações impecáveis, 4 abastecimentos super completos, simpatia de toda a gente, ambiente incrível, técnico, duro, com partes para andar depressa, rios para atravessar... até o clima ajudou! Quem gosta de trail gostará desta prova, não tenho a menor dúvida. É uma verdadeira pérola que o Carlos Sá aqui tem e fiz questão de lhe dar os parabéns no fim. Mas, shhh, se calhar é melhor parar com os elogios, fica só o nosso segredo. Para o ano quero fazer novamente aqueles 7km de descida sozinho :)





terça-feira, 1 de maio de 2018

Madeira Island Ultra Trail 2018 - De corpo e alma.

A partir do momento em que à meia noite em ponto passamos a meta em Porto Moniz, estamos à mercê dela. Tal como um predador que consegue cheirar o medo nas suas presas, a ilha sente imediatamente o odor da sobranceria, da má preparação e da leviandade. O caminho que liga uma ponta à outra daquele paraíso, levando-nos às entranhas mais profundas de montanhas e florestas, elevando-nos abruptamente do nível do mar ao cimo das nuvens, está lá, escancarado. Ela concede-nos passagem, mas a portagem é muito cara. Não serão os mais fortes, que tentarão forçar a passagem, nem os mais manhosos, que pensarão erradamente tê-la percebido e encontrado algum truque infalível, a obter passagem. Não. Só passarão os honestos. O preço a pagar para atravessar a ilha é nada mais nada menos que deixar tudo de nós em cada metro dos mais de 115km. Entregar-nos de corpo e alma e esperar que tudo o que temos seja o suficiente. Na minha quarta tentativa de travessia ousei levantar ligeiramente a cabeça e pensar em tempos e marcas, mas não demorou muito até ter sido posto no meu lugar. "Meu menino", terá pensado ela, "por mais que te ponhas em bicos dos pés, nunca serás mais alto que um grão de areia".

Créditos na foto
Uns minutos antes da meia noite fechei os olhos e respirei profundamente. Desde a minha primeira travessia, em 2015, que mais que dobraram os participantes, este ano são quase 800 a apresentarem-se em Porto Moniz. Durante a noite este número iria sofrer um grande desbaste, mas àquela hora a euforia era impressionante. À medida que o relógio da prova se aproximava da meia noite eu aumentava os períodos de introspecção. Tentava por tudo acalmar a ansiedade que me dava um nó na garganta, mais apertado ano após ano. Foi de olhos fechados que ouvi a contagem decrescente e sem sequer esboçar um sorriso parti para mais uma grande aventura. Começou o MIUT 2018.

Créditos na foto


Para a minha quarta participação decidi que o objectivo principal seria fazer uma prova sólida e, dessa maneira, baixar naturalmente das 24 horas de prova. Ao contrário dos outros 3 anos, desta vez saí perto do pórtico da meta, no primeiro quarto do pelotão. O objectivo era evitar o congestionamento na primeira descida e atacar o primeiro quilómetro vertical a um ritmo não demasiado baixo. 

Porto Moniz - Chão da Ribeira.
19km, 1550+ / 1250-
Foi preciso chegar ao topo da primeira subida, aquele montinho, para finalmente a ansiedade acalmar. A descida foi feita a ritmo confortável, sem congestionamentos. A meio desta já se ouvia a multidão na Ribeira da Janela, que parece maior e mais barulhenta ano após ano! O bom de seguir numa zona mais adiantada do pelotão é que pude observar em todo o esplendor a mítica serpente do MIUT enquanto atacava o primeiro quilómetro vertical, na subida para o Fanal. O mau, e isto foi um pormenor que nem me passou pela cabeça, é que indo eu numa zona do pelotão que não era a minha, toda a gente tinha um ritmo mais alto que o meu. Ou seja, muita gente me passava e eu não conseguia colar em ninguém. Isto foi inesperado e o resultado foi ter que me concentrar bastante para seguir ao meu ritmo e não tentar acompanhar algum comboio. A estratégia acabou por resultar, cheguei ao Fanal, primeiro abastecimento, cerca de 15 minutos antes em relação aos anos passados e sem ter forçado o andamento. 

A serpente. É impressionante vê-la viva, parece uma veia a pulsar
A previsão meteorológica entretanto tinha-se tornado bastante sólida: partiríamos com tempo seco mas a chuva chegaria por volta das 4 da manhã até às 10. Isto deixou-me aliviado porque, fazendo as contas, seria mesmo à conta de fazer a descida do Fanal com piso seco, aquela que considero a mais manhosa do MIUT. Assim foi, as centenas de degraus e infinitas raízes são muito mais seguras estando secas, permitindo-me percorrê-la de forma confortável e ganhar mais uns minutos na chegada ao Chão da Ribeira. 

Chão da Ribeira - Rosário
15.5km, 1400+, 1100-
Deixei o abastecimento do Chão da Ribeira às 3:20. Seguia-se aquela que para mim é a subida mais difícil da prova, a mítica subida de Estanquinhos. É a tempestade perfeita. Começa com aquela rampa de 5km e 1100+, num trilho de inclinação constante mas bastante técnico, muito trabalhoso. Depois desemboca num planalto que vagarosamente nos leva aos 1600 metros de altitude por estradões completamente expostos. Não houve nenhuma vez que aqui tenha passado sem ver alguém debruçado a vomitar e outros a voltarem para baixo a meio. Não se esqueçam, vamos com menos de 20km de prova! Uma autentica máquina trituradora. O que não falhou foi a chuva, que apareceu pelas 5 da manhã. Nessa altura estava já no tal planalto. A temperatura baixou muito de repente e também de repente percebi que a prova se tinha transformado. 

Armando a chegar ao Fanal. Créditos na foto
Ainda antes de chegar ao abastecimento vesti o impermeável por cima do equipamento e calcei as luvas. Já tinha partido bem equipado para o frio, apesar de nem ter estado muito no início da noite, o impermeável tratou de estancar as perdas de calor. Entrei no abastecimento ainda com uns bons minutos de folga, mas não foi a pensar no tempo final que me demorei o menos possível. Estávamos a 1600 metros, a chuva estava a tornar-se mais pesada e o vento a aumentar. Já tenho experiência suficiente para saber que se me demorasse iria perder energia e gelar assim que saísse da tenda, ainda por cima a descida começava num estradão de cerca de 2km muito exposto, onde não dá para correr muito depressa porque tem muitas pedras. Ou seja, demoraria uma eternidade a aquecer e isso poderia ser fatal. 

Bebi um café quente, uns figos secos, batata doce e banana só para cumprir com a alimentação e fiz-me rapidamente à descida. Como previa, o baque à saída da tenda foi muito forte, mas não havia tempo para pensar nisso. Desci da maneira mais eficiente que consegui de forma a entrar rapidamente na densa floresta Laurissilva e pelo menos proteger-me do vento. Por estranho que pareça, senti-me revigorado com o frio. Eram 6 e meia da manhã, o dia estava prestes a nascer, normalmente esta é a fase mais complicada das provas para mim, mas a chuva fria a bater-me nas pernas deixava-me alerta e estava a sentir-me forte quando entrei na segunda fase da descida, a levada. O ânimo aumentou quando percebi que estava a passar em partes que só conhecia de dia e ainda estava de noite cerrada. A terceira fase da descida são os 700 e tal degraus. Muito escorregadios com a chuva. Aqui a coisa começou a complicar-se. Sabia que a quarta e ultima fase era um trilho brutal, com cerca de 3km, onde dava para voar até ao fim da descida, mas assim que o começo a percorrer percebo que com a chuva este se tinha transformado completamente. Agora era um autentico escorrega de lama! Esqueci rapidamente essa história de voar e fui de escorregadela em escorregadela numa progressão muito lenta e esforçada sempre apoiado nos bastões. O resultado foi perder toda a margem que tinha e desgastar-me bastante mais do que previa nesta descida. Enfim, nada a fazer, lamber feridas e siga para a Encumeada.

Rosário - Curral das Freiras
22km, 1600+, 1500-
O dia nasceu muito cinzento. A chuva fria era constante, nada que não se esperasse. Mantinha-me quente mas obviamente muito desconfortável e foi assim que cumpri os 500 metros de subida em degraus até à Encumeada. Ao virar o colo levo com uma rajada de vento e chuva na cara e a vista brutal para um vale majestoso de gigantes de pedra tinha sido substituída por um branco pastoso. Lembro-me dos meus amigos que estão ali pela primeira vez e tenho pena que não tenham tido aquele choque de entrar num planeta diferente. Cerca de 1.5km de estrada separam-me do abastecimento, no hotel da Encumeada, percorro-os a bom passo para tentar compensar a energia que perdi na subida lenta e dessa maneira aquecer mais um pouco. 

Abastecimento do Hotel. Já li por aí que estavam fracos este ano...
Nestas condições os abastecimentos são  um perigo. Num dia tão mau como aquele estava a ser, o pior que podemos fazer é ficarmos confortáveis no abastecimento, depois corremos o perigo de não conseguir aquecer assim que voltarmos à rua. Acho que aqui estive mais stressado do que no fim da descida de Estanquinhos. Peguei numa taça de canja quente e comi-a o mais depressa que pude, enchi os dois flasks porque sabia que se seguia um troço muito grande entre abastecimentos e fiz-me ao caminho. Eram 20 para as nove da manhã, nos 3 anos anteriores liguei à Sara neste ponto, a esta hora, a dar conta da primeira noite. Mas desta vez não quis facilitar com o frio e decidi seguir o mais depressa possível. 

Segue-se uma pequena descida que desemboca na famosa subida do pipe-line, uma atrocidade de degraus altíssimos que serpenteia ao lado de um tubo verde. Nesta altura, por volta das 9 da manhã, reparo que ao fundo do vale as nuvens se estão a dissipar, apesar de ainda estar a chover. A previsão parecia estar a bater certo e respirei de alivio, já que cada vez estava mais desconfortável. Esta foi, sem dúvida, a pior noite que apanhei nas 4 edições do MIUT que fiz. Mas a verdade é que a previsão apontava para isso e é nosso dever partirmos preparados para o pior. É muita altitude, são climas diferentes do que estamos habituados no continente e tendo em conta a brutalidade que são os primeiros 30km não se podia facilitar minimamente. Muita gente não resistiu a esta primeira noite, infelizmente, o que contribuiu para uma taxa de desistências record. 

O quê? Já viram esta foto? Pois, não tirei uma única outra vez :\
Entretanto, antes de virar o colo para descer para o Curral, o tempo já tinha virado. Continuava muito frio e vento, mas as nuvens tinham dissipado. 

De ano para ano parece que me custa mais fazer a descida para o Curral! São 4km onde se perdem 800 metros de desnível, num trilho muito técnico, com muitas pedras e degraus, que acaba numa estrada que destrói quadricepes. Este ano a diferença é que em vez de acabar numa estrada de alcatrão que nos embalava até ao abastecimento em Curral das Freiras, ainda tinhamos pela frente um trilho de degraus escavados na terra, muito inclinado. Como referi no post que fiz com dicas para a prova, esta parte deixava-me de pé atrás e o receio confirmou-se. Depois da brutalidade de descida foi muito complicado mudar para pernas de subida e escalar aquele morro, mas fez-se. Cheguei à Base de Vida, no Curral, às 11:45. Precisamente à mesma hora que em 2016, quando tive a minha melhor prestação.

Curral das Freiras - Pico Ruivo
11km, 1370+, 290-
Assim que entro na base de vida quase que vomito, há um cheiro intenso a merda no ar! Fui só eu que senti?? Tento abstrair-me e depois de ir buscar o saco da muda começo a tratar das tarefas. Depois de tanta barraca que dei em bases de vida, inclusivamente nesta mesma o ano passado, revi mentalmente todos os passos dezenas de vezes. Tratei de mudar de roupa, meter o relógio a carregar, preparar a mala para a segunda metade e só depois tratar da comida e bebida. Esta ultima parte não correu muito bem, tendo em conta que até a comida me sabia a merda por causa do cheiro intenso! Mas lá forcei um prato de sopa com carne picada e arroz lá dentro. 

Eu e o Vasco no Curral. O cheiro a merda não se sente pela foto, mas peço que tentem imaginar. Tive a companhia do meu grande amigo Vasco praticamente desde o início. Esta besta decidiu que este ano, a sua terceira participação no MIUT, seria sem bastões. Claro que acabou uma data de tempo antes de mim!
A segunda parte da mudança deste ano vinha a seguir, o trilho antes de iniciar a grande subida para o Pico Ruivo. O que dantes era uma estrada de alcatrão com cerca de 1.5km a subir, agora era um trilho muito sinuoso, com algumas descidas, inclusivamente com cordas. Ok, custou-me bastante, e até me pareceu mal a parte das cordas que acho um pouco fora de contexto no MIUT, mas agora a frio percebo a opção de substituir uma estrada por um trilho. Acho que é lógico e para o ano já ninguém se lembra disso.

Árvores fantasma na chegada à Boca das Torrinhas. Foto minha. De há 3 anos!
É na subida para o Ruivo que o resultado final da prova se começa a desenhar. É enorme e implacável, mas é só a partir da Boca das Torrinhas, aquele sitio no perfil onde tem uma pequena descida, que se torna decisiva. É nessa altura que entramos noutro planeta e começa a travessia dos picos.

Pico Ruivo - Chão da Lagoa
9.5km, 545+, 785-
Não me correu bem a parte final da subida antes de chegar ao Ruivo. Se nos outros anos me poupei na parte inicial para depois colher frutos nas escadas, desta vez senti-me com pouca energia. Foi de forma um pouco sofrida que saí do abastecimento para enfrentar o incrível caminho entre os picos.

O dia estava perfeito. Céu limpo, vento fresco. Felizmente não aqueceu como nos outros anos, até tive que vestir o corta vento para não arrefecer de mais. Ano após ano fico deslumbrado com este trilho, é monstruoso. Nunca vi nada assim, nem nos Alpes, nem nos Pirenéus nem em lado nenhum. Escadas a subir, escadas a descer, túneis, ravinas, vertigens... Duríssimo, mas vale o bilhete de volta todos os anos. Infelizmente foi nesta fase que a prova virou de vez para mim.

Foto abismal do Javier Santos, pelo João M. Faria.
Já com a estação meteorológica do Arieiro em vista comecei a sentir cada vez menos energia para enfrentar os degraus. Tão perto e tão longe. Não me saía da cabeça aquele ultimo ataque, com dezenas de degraus muito altos. Parei no inicio do lance a comer uma barra a tentar ganhar ânimo, mas a meio percebi que já tinha passado para o outro lado. Tinha rebentado. 

Pela primeira vez na prova tive que parar para ganhar fôlego, sentei-me num degrau e comecei a pensar. Como disse tanto no inicio deste post como noutros anteriores, era meu objectivo acabar antes da meia noite. Sabia que para tal teria que ser um dia perfeito, mas o que é um dia perfeito? A gestão da minha corrida estava a ser no ponto com o que tinha pensado, estava a comer muito certinho sem qualquer problema, passei nos locais à hora planeada e não poupei uma única gota de esforço. Treinei bem, como nunca tinha treinado, fiz concessões na alimentação e levei muito a sério o reforço muscular. Não faria nada diferente do que fiz. Naquela altura era claro para mim que as 24 horas não iam cair, mas havia outra coisa que também era clara: foi um erro sequer pensar que poderia domar uma prova como o MIUT ao ponto de meter um objectivo de tempo. Não dá. A única coisa que há a fazer é, como disse lá atrás, entregar-nos de corpo e alma. Dar o nosso melhor e fazer uma prova honesta. As 24 horas não cairiam por uma razão muito simples: não tenho capacidade para isso. Isso é, e tem que ser, uma constatação tranquila!

Créditos na foto
Levantei-me decidido. Seja em que tempo fosse, havia de virar mais uma vez a ilha. Soube naquele momento que ia chegar ao fim.

Chão da Lagoa - Poiso
10.6km, 675+, 790-
Foi esgotado mas confiante que cheguei ao abastecimento do Chão da Lagoa, que substituía o do Arieiro este ano. Lá encontrei o Rodrigo, que estava na prova dos 85km. O Rodrigo é meu grande amigo e companheiro de praticamente todos os treinos que faço, não podia pedir melhor prenda que encontrá-lo nesta fase. Expliquei-lhe que estava todo partido (não foi bem esta palavra que usei), mas que ia tentar ir com ele. Ele também não estava muito bem (quem diria), mas ainda assim estava melhor que eu e isso foi fundamental para mim. 

Eu e o Rodrigo no Chão da Lagoa
Partimos para a descida até ao Ribeiro Frio, eu atrás dele. Como previsto, ele estava bem mais solto que eu e tive alguma dificuldade em acompanhar, mas lá consegui ir no encalce, apesar de estar mentalmente pronto para o deixar seguir sozinho se visse que não tinha pernas e obviamente que ele também não ia fazer sala à minha espera. 

Como sempre, esta descida é tramada, com zonas muito técnicas e até algumas subidas. A alteração na parte final acabou por lhe acrescentar ainda mais dificuldade, mas nada de especial. Fizemos uma boa descida e eu lá me mantive colado.

Fotografia brutal do Rodrigo, tirada numa das subidas da descida.
Nesta altura já ia com praticamente 7000D+, mas ainda faltava a ultima grande subida, o meio quilómetro vertical que nos separava do Poiso. Esta foi igual ao ano passado, muito difícil ao inicio, num trilho a fazer lembrar Sintra, e depois a acalmar na parte final em estradões no meio de um bosque lindíssimo. Fiz a primeira parte sempre com ele mas no fim tive uma grande quebra e tive necessidade de abrandar. Ele acabou por se distanciar ao ponto de não o ver, mas eu estava tranquilo porque sabia que naqueles estradões haveria de voltar à vida, e assim foi. Quando cheguei ao abastecimento ele ainda lá estava a comer e eu fiz por me despachar para seguir com ele.

A chegada ao Poiso é das partes mais importantes de toda a prova. Estamos com 99% do desnível positivo feito, faltam 26km praticamente sempre a descer. À primeira vista podem pensar que nesta fase está feito, mas não podiam estar mais enganados. É incrível a quantidade de gente que desiste nestes últimos quilómetros e a razão é simples de explicar. Estes 26km seriam muito fáceis, mas chegamos lá com 90km e 7200+ em cima. Temos pela frente estradões e trilhos fáceis, levadas suaves com piso confortável. Todas as nossas fibras dizem para correr, mas o corpo não consegue. Para a cabeça é devastador. Ainda por cima a minha malta, aqueles do meio do pelotão, chegam aqui já a entrar na segunda noite. É facílimo mentalmente começar a ceder. Por isto tudo, é simples: uma boa descida do Poiso à Portela significa uma prova tranquila, uma má descida significa o inferno até Machico. Venham de lá esses 9km.

Poiso - Machico
26km, 120+, 1520-
O Rodrigo não disse uma única palavra para me motivar ou puxar por mim, sabia que a qualquer altura se podia voltar para trás e não me ver e seguiria tranquilo. Ele já me conhece e sabe que eu detesto que esperem por mim (ou esperar por alguém). Mas a verdade é que a boleia dele foi essencial. Houve alturas que se fosse sozinho teria metido um passo mais lento ou tinha começado a andar, mas não queria mesmo descolar por isso consegui fazer integralmente a descida até à Portela a correr. 

A noite entretanto caíra e quando chegámos ao abastecimento já era cerrada. Perguntei-lhe se precisava de encher os flasks com água, disse-me que não. Combinámos demorar o mínimo de tempo possível para não arrefecermos e tentarmos continuar naquele trote. 

Seguia-se um troço curto, de 5km, até ao Larano. Já o conheço de cor e salteado. Primeiro 2km de estradão, depois 2km de trilho e finalmente 1km de descida suicida. O ano passado o Rodrigo correu nos 42km, por isso também já conhecia esta parte. Sabíamos o que nos esperava a seguir e decidimos que iríamos poupar energia nesta fase para conseguir correr nos quilómetros finais. Na parte de trilhos ele estava mais solto e voltou a meter corrida, eu esforcei-me por o acompanhar. Depois na terrível descida da Degolada era eu que estava melhor e passei-o. Chegámos ao Larano, ultimo abastecimento, às 22:51. Apenas 12km nos separavam de Machico!

Pela frente tínhamos os terríveis 5km da vereda do Larano. Um trilho lindíssimo, numa falésia, que infelizmente se estende por 4km a mais do que devia! Imaginem um trilho ligeiramente a subir, sempre a direito, em que a paisagem não muda nem um bocadinho (pelo menos à noite). Uma espécie de passadeira virada para a parede, com 2% de inclinação na velocidade 8 onde correm durante uma hora! Mas o plano tinha resultado e conseguimos percorrê-lo praticamente sempre a correr. Se nesta fase sentia que estava ligeiramente melhor que o Rodrigo, de seguida, nos 6km de levadas antes de chegar a Machico, foi novamente ele que puxou por mim. Corremos ao que na altura me pareceu uns estonteantes 4 e tal ao km, mas que o Strava de certeza que interpretou mal e diz que foi a 7!

Vereda do Larano, vista de dia
Um final de prova perfeito que me deixou com a adrenalina a bombar, em contraste com o ano passado em que acabei a arrastar-me no Larano e nas Levadas. Acabei mesmo por recuperar muito do tempo perdido e terminar a prova em 24h47, menos 5 minutos que o ano passado!

4 em 4
Estava concluído o meu 4º MIUT. Talvez aquele em que passei a meta mais em paz. Liguei à Sara, que foi comigo cada um dos 116000 metros, dei um abraço aos meus companheiros de equipa que estavam à minha espera àquela hora, lembrei-me da Vânia que teve um problema de saúde um dia antes lá na Madeira, dei um abraço ao Rodrigo que me rebocou durante quase 40km, outro ao Alex, o sempre prestável Alex, que teve que desistir em Estanquinhos, e finalmente arrastei-me, agora sim, para o quarto na nossa casa alugada, onde esperei o Luis Sommer que chegaria poucas horas depois com 1001 histórias como só ele sabe contar da sua prova. No dia seguinte, às 7 da manhã, lá estava o grupo outra vez todo reunido, cada um a fervilhar com histórias para contar, prontos para apanhar o voo de regresso. Rodrigo, Sommer, Alex, Chico, Simão, Vasco e Rita (como é que não tirámos uma foto?). 

Os fins de semana de MIUT são sempre intensos, este não falhou nem um bocadinho. Perguntam-me porque volto tantas vezes, não consigo explicar de maneira melhor do que escrevendo estes textos, talvez para o ano, quando voltar para o penta, me percebam.

Não quero parecer hipócrita, eu sei que tinha dito que o objectivo era chegar quase uma hora antes, mas sinceramente fiquei satisfeito com o resultado final. 24h47 não é um bom nem mau tempo, é o tempo que eu precisei, ponto. Estou orgulhoso de todo o caminho até aqui e não fazia nada de diferente. Vistas bem as coisas, fiquei no lugar onde pertenço: 232º em 496 finalizadores de 782 que começaram. Cumpri o derradeiro objectivo: deixei tudo naqueles 116km. Corpo e alma.