As minhas corridas na estrada

quarta-feira, 3 de julho de 2019

UTSF - A minha opinião da prova

Se leram a crónica que fiz sobre a minha participação no Ultra Trail Serra da Freita perceberam que em quase nenhum lado teci comentários sobre a minha opinião da prova em si. A ideia era separar a experiência fantástica que tive, as dificuldades, a história e recordações que ficam do que achei do percurso e da prova no geral. Pois bem, neste texto vou comentar o que achei da Freita.

Começo com um cliché: a Freita é a Freita, que é como quem diz, a Freita é uma prova única. Uns dias antes de partida ouvi o Moutinho no X-Trail Forum e fiquei encantado pela maneira como ele descreveu o processo de criação do percurso. O Traçador, como ele se intitulou, explicava que na prova haviam sítios obrigatórios para passar, o grande trabalho seria a maneira de os interligar de forma a melhorar a experiência. Chegou a falar em números. Por exemplo: depois de passar por uma subida que exigisse 80% de esforço, seguia-se uma secção para compensar, com 40 ou 50% de esforço. Adorei a justificação para a nomeação de certos trilhos, acho isso uma excelente ideia. A Besta, as Almas Penadas, as Escadas do Martírio, a Escarpa, Bradar aos Céus, o Rio, etc.... Quem, no mundo do trail, não conhece estes nomes? É impossível para quem lá passa não identificar imediatamente os locais e, principalmente, as sensações em cada um dos segmentos. Isso não aconteceria se disséssemos "aquela subida ao km 64", ou "aquela descida que vai dar à Pena".

Mas a coisa mais importante que ficou daquela "entrevista", e que é a principal característica da prova, foi quando ele explicou que quem participa na distância Elite tem que perceber que vai passar por uma experiência única. Vai, literalmente, ter que sofrer para cumprir o percurso e é tão meritório aquele que o faz em 14 como em 28 horas, porque o traçado é pensado com um único objectivo: lentamente devorar-nos até que não reste nada.

Nesse aspecto o UTSF - Elite é perfeito. É, de facto, um percurso que passa em sítios fantásticos, incrivelmente exigente e imagino que perfeitamente à imagem do que o seu Traçador pensou. A isso alia muito boas marcações, excelentes e bem distribuídos abastecimentos, cortes apertados (como acho que devem ser) e um ambiente único.

Quem conhece o meu percurso sabe que eu não fujo da dificuldade. Se fosse esse o caso não faria provas como a Mitic, o X-Alpine ou 5 vezes o MIUT (ainda há uns dias li alguém a dizer que o MIUT é para meninos...não brinquem com coisas sérias). Não, não tenho medo da dificuldade. Mas não escolho provas de ultra endurance, as de três dígitos, cuja principal característica é serem difíceis. Não fico entusiasmado quando alguém me diz que uma prova tem 60% de desistências. Encolho os ombros quando dizem que aquela é A mais dura. Não quero, de maneira nenhuma, entrar numa prova com o único objectivo de sobreviver e percorrer 100km desconfortáveis e a gerir dores.

Eu adoro a Serra da Freita e a Serra da Arada, onde passa o percurso da UTSF. Adorei alguns dos segmentos, são até dos melhores que já fiz, como o Rio ou a Besta. Acredito piamente que teria gostado muito da versão antiga, dos 70km. Mas, com alguma desilusão minha, enquanto a versão Elite tiver 100 ou mais km esta foi a primeira e única vez que fiz o Ultra Trail Serra da Freita.

Boa sorte a todos os que lá forem, têm o meu respeito!



segunda-feira, 1 de julho de 2019

Ultra Trail Serra da Freita (100km) - Sangue, Suor e Lágrimas.

Não sei quem nomeou aquela subida a seguir à aldeia de Covas do Monte, no quilómetro 50, mas não podia ser mais apropriado para o que se passou no sábado. A Freita já se tinha apresentado, mas até ali vinha forte física e psicologicamente. Estava a ser tudo o que diziam e mais alguma coisa, uma loucura que não dava 1 metro de descanso, mas a minha prova estava a correr bem! Até que, no fundo do vale antes da subida, pico do calor, uns minutos depois de ter tomado banho numa bica, limpei a cara com o braço. Quando olhei para o braço estava vermelho. Vermelho sangue. Começou no Portal do Inferno a minha viagem às profundezas da Freita.

Atingi um novo baixo neste post. Fui roubar fotografias ao Miguel Cadalso da prova do ano passado. É verdade, não tirei uma única. Pior. Blogger. Do Mundo. Querem saber o que é esta foto? Têm que continuar a ler)
Nove horas antes, às 6 da manhã, o tempo ainda estava fresco. Éramos cerca de 150 prestes a enfrentar os 100km da mítica UTSF. A Freita era uma pedra no sapato para mim, andava há anos para a fazer, mas por estar nalguma prova no estrangeiro ou coincidir com outras que também queria ir, a minha estreia acabou por acontecer apenas na 14ª edição. Hoje, depois de tudo o que se passou nas quase 24 horas que lá andei, acho que foi na altura certa. Apesar de tudo o que ouvi sobre a prova, e foi muito, nada me podia preparar para aquilo. A Freita é tudo o que diziam e muito mais!

Sim, voltaram as imagens do perfil com os risquinhos vermelhos. Desculpem mas é uma maneira de eu não me perder no percurso.
Começámos de mansinho, na subida mais longa e mais fácil de toda a prova. Um tricotado de trilhos de terra escura, com pouca pedra, no meio das árvores, levou-nos até ao miradouro da Freita, no Detrelo da Malhada. A meio dos 800 e poucos metros de subida ainda passámos pelo Moutinho, ele próprio tão mítico como a prova, cujos gritos se ouviam a centenas de metros. Havia de me cruzar com ele várias vezes durante o percurso.

Enquanto me cruzada com o Moutinho. Foto do Paulo Nunes.

Detrelo da Malhada. Foto do Paulo Nunes.
A Freita começou a mostrar-se no planalto seguinte, que percorremos antes de descer ao segundo abastecimento. Gostei muito desta parte, trilhos difíceis mas bons de correr, com pouco desnível e muita pedra. O esforço para fugir dos estradões era óbvio, à medida que nos embrenhávamos em paisagens mais graníticas, com passagem entre gargantas de pedra cinzenta. As facilidades continuaram na descida ao Tebilhão, segundo abastecimento, aos 21km. Vejam bem que a certa altura fizemos um estradão que devia ter perto de 1km, sempre debaixo de sombra, fresquinhos!



Da Malhada até ao Tebilhão
Apesar do percurso até aqui ser, digamos, amigável, nesta fase da prova não me estava a sentir muito bem. Tinha acordado com dores no peito e tosse e estava a custar-me entrar na prova. Nada de novo, já passei por isso. No Tebilhão comi uns quadrados de pizza e enchi os flasks pela segunda vez, nunca levei tão a sério os cuidados com a hidratação, estava a beber água mesmo sem sede desde o início.

Se bem se lembram da descrição da Alice, a Freita ia começar aqui, depois do Tebilhão, na separação das provas. O que se seguiu até à Base de Vida foram os 35km mais inacreditáveis da minha vida. Sem comparação com o que quer que seja que já tenha feito. Só para perceberem, demorei 10 horas a percorrê-los! A Alice dizia, e bem, que estes 35km são A prova. Não podia concordar mais com ela! Vamos então começar.

Tebilhão até Covêlo do Paivô.
A primeira etapa seria a do Rio Paivô. A seguir ao abastecimento descemos primeiro por umas aldeias e logo nos embrenhámos num PR chamado Caminho do Carteiro. Um trilho não muito difícil, com toros de madeira enterrados no chão a fazer de degraus, que nos embalou para caminhos esculpidos na encosta cada vez mais inclinados. Fizemos uma primeira abordagem ao fundo do vale junto ao Rio de Frades, nesta garganta passámos por instalações mineiras abandonadas muito interessantes, tivemos que atravessar uma mina abandona onde só se via com um frontal, e voltámos a sair do vale. A próxima pequena descida levou-nos finalmente ao mítico Rio Paivô.

Trilhos esculpidos na encosta. Foto do Miguel Cadalso.

A mina abandonada, pelo Miguel Cadalso.
Os 3km ao longo do Rio Paivô são dos segmentos mais conhecidos do UTSF. Por esta altura já toda a gente terá visto as imagens de pessoas a atravessarem o rio agarrados a uma corda com água pelo meio do peito, mas o que não viram foram as centenas e centenas de metros que se fazem antes de chegar a esse ponto. Foram dezenas de travessias do rio, milhares de saltos de rocha em rocha, correntes e vias ferratas, cada passo medido milimetricamente para não escorregar. Foi o trilho plano de mais difícil progressão por onde passei e adorei cada metro. Curiosamente foi este o trilho que me acordou para a prova! As dezenas de banhos (e atenção, quando digo banho é mesmo da cabeça aos pés) revigoraram-me, bebi água do rio cada vez que o atravessava e sabia tão bem, fui ficando cada vez mais motivado e bem disposto, vinha só a pensar que a próxima vez que visse o Moutinho lhe ia dar os parabéns e agradecer por ter metido aquilo na prova!

Um exemplo do tipo de caminho onde andámos junto ao rio

A tal travessia da cordas. Nesta fotografia está o meu amigo Rui Nascimento, na prova do ano passado, claro. 
Encontrei-o logo a seguir ao trilho, no terceiro abastecimento, em Covêlo de Paivô. Claro que fiquei com vergonha e não lhe disse nada, mas pode ser que ele leia isto.

Eu, a chegar ao abastecimento do Covêlo. Foto do Paulo Nunes.
Com 32km estava finalmente dentro da prova. No abastecimento comi uma pratada de esparguete com atum que me soube espetacularmente bem. Bom sinal, estava a comer e beber bem desde o início e sem sinal da coisa fechar. Com cabecinha e a coisa vai lá, pensava eu.

Covêlo do Paivô até à Pena
Saí do abastecimento e ataquei a etapa seguinte com a confiança no máximo. Estava a subir bem, num trilho daqueles que gosto, em caminhos de pedra de granito arrumada. Subia a bom ritmo e metia trote quando o terreno deixava. A parte final, antes de virar para a descida, foi feita no leito de um rio quase seco, onde corria pouca água, já perto do planalto. Muito bonito, parecia um oasis no meio da paisagem agreste da serra.

Nesta altura tudo me maravilhava na prova. Até a descida seguinte, que nos levou até Regoufe me encantou, com as suas pedras soltas, o xisto a ferver e inclinação brutais. Um bocado mais difícil que as outras, pensava eu, mas não há-de ser nada. A Freita é linda e eu quero é chegar à Escarpa para ver se é assim tão difícil!

Miguel Cadalso

Miguel Cadalso
A escarpa é aquele primeiro montículo no perfil ali em cima. Gostava de vos dar os dados da subida, mas é tão inclinada que quando mexo o cursor no Strava ele passa logo para a descida! Uma alarvidade de subida, curta e grossa, onde íamos a ver a sola dos sapatos do colega da frente. Não devia ter mais que 200+, mas a inclinação era certamente sempre a rondar os 40%. Nesta subida baixei um bocado a crista, a prova começava a cobrar o seu preço.

A parte final da escarpa pelo...sim, Miguel Cadalso!
O calor apertava e o meu litro de água, que durava desde o ultimo abastecimento, estava perigosamente perto do fim. Antes da Pena ainda faltava a famosa subida das Almas Penadas, tinham-me dito que havia uma bica de água na base desta. Estava a contar com isso quando sorvi o ultimo gole do flask ainda na descida da Escarpa. Ainda passaram uns 15 minutos até a encontrar, o suficiente para perceber que ficar sem água nesta prova seria o fim. Foi um alívio quando vi a torneira. Molhei a cabeça e o corpo, bebi meio litro de rajada e voltei a encher os dois flasks para a subida. Faltavam 3km para o próximo abastecimento, mas haveria de lá chegar novamente seco. Sim, o dia estava assim tão seco e quente!

As Almas Penadas foi tudo o que me tinham dito e muito mais. A subida típica da Freita: curta (a rondar os 400+) e grossa (esta tem segmento do Strava, por isso consigo ver os dados: 400+ em 1.5km!). Esta tem a particularidade retorcida de por 3 vezes parecer que já se vê o pico e depois quando lá chegamos temos mais um bocado pela frente. Dizem que o homem da marreta estava por lá, mas o que eu senti foi o calor a apertar, e muito, naquela encosta completamente exposta. No entanto virei-a calmamente e fiz-me à descida, mais uma vez ultra técnica, que é como quem diz, cheia de pedra de todos os tamanhos, muitas vezes sem trilhos, com inclinações brutais.

Almas Penadas vistas de cima. Sim, já conhecem esta foto do post da Alice

Por esta altura havia uma característica da Freita começava a ser evidente, eram raríssimos os trilhos confortáveis, o caminho era sempre super agreste e de difícil progressão. O pé nunca assentava por completo, estávamos sempre em desequilibro! A consequência mais imediata deste facto era a destruição total dos pés. É inevitável, não acredito que haja uma única pessoa que faça esta prova, ainda para mais num dia de calor, que acabe bem dos pés. Entramos e saímos da água centenas de vezes, os pés aquecem brutalmente por causa da temperatura ambiente mas principalmente pelo xisto que emana quase tanto calor como o sol, os pés literalmente cozem dentro das sapatilhas, as solicitações são de todo o tipo.. É uma combinação letal. Ainda assim, mesmo a chegar à Pena passamos por um ribeiro e o que é que eu faço? Pois claro, entro lá pra dentro e molho-me todo :)

Exemplo de uma descida tipica da prova. Também da Alice.
O abastecimento da Pena estava instalado na esplanada de um restaurante muito giro. Uma rapariga serviu-me uma sopa de legumes com massa e perguntou-me se queria cerveja ou água. Sentei-me à sombra e comi dois pratos da deliciosa sopa. O estômago continuava a 100%. Excelente. Aqui já vi algumas desistências e muitas pessoas em mau estado, felizmente não era o meu caso. As 8 horas de prova estavam a ter os seus efeitos, principalmente nos pés, mas continuava a comer e beber bem e sentia-me com força. Siga lá então.

Pena - Portal do Inferno
Estava prestes a fazer uma das únicas partes que já conhecia do percurso, a subida do Portal do Inferno, que percorri no Pisão o ano passado. Na altura adorei a subida, por isso parti motivado. Depois de superada uma pequena subida iniciei a descida que me levou até Covas do Monte. Foi aqui a primeira estocada. Talvez a mais difícil de todas, ou pelo menos uma das que me afectou mais. Quase a direito, cheia de pedra de todos os tamanho, sem a mínima hipótese de descer confortavelmente. Desci de maneira atabalhoada por entre o xisto pontiagudo, espetado na terra. Quando comecei a ver Covas do Monte estava abananado, não só pela violência da descida como pelo calor intenso das 3 da tarde. Parei numa bica na aldeia, mesmo na base da subida. Molhei-me todo, enfiei o chapéu com água na cabeça, voltei a encher os flasks e tomei um gel. Estava sôfrego, desconfortável... Era hora de subir ao Inferno.

Uma foto minha a subir o Portal do Inferno, pelo Friz Fritz. No Pisão. Sim, é o desespero por fotos. 
Meti o passo igual ao de todas as subidas: curto e seguro. O trilho desenhava-se numa incrível garganta, esculpida por entre duas encostas muito íngremes. Um trilho abismal, talvez o meu sitio preferido de toda a prova. Estava com aquele sabor esquisito na boca por causa do gel, cuspi. Algo se passava, o cuspe estava vermelho escuro, o gel era branco, não tinha comido nada.... Voltei a cuspir. Vermelho, outra vez. Limpei a boca com o braço, quando olhei para a mão estava toda vermelha. Sangue.

Assustei-me e parei. Assoei-me para o chão, voltou a sair sangue. Limpei a cara e voltei a ficar com o braço todo vermelho. Fiquei um bocado em pânico, mas tenho que confessar que o primeiro pensamento foi limpar antes que alguém visse e me obrigasse a parar! Assim foi, fui para um ribeiro (há sempre algum à mão na Freita), bochechei, lavei a cara e as mãos e a coisa parecia ter ficado controlada. Fiz um check up mental, não me sentia tonto nem em fraqueza, atribuí aquilo ao facto de estar cheio de dores de peito e a tossir, mas ainda não consegui perceber o que se passou. Terá sido do calor? Se alguém tiver uma teoria, que me diga.

Voltei a subir, mas algo tinha mudado. Não sei se fisicamente, mas algo estava diferente. Sentia-me pouco confiante. O vermelho não me saía da cabeça, pensamentos negativos começaram a minar-me. Será que é prudente continuar? Será que isto é alguma coisa séria? Estarei desidratado? Será que não é melhor.....desistir?!?

E pronto, a semente estava plantada. Desde o instante em que pensei que talvez fosse melhor desistir a minha prova virou. Nunca mais me consegui livrar disso. Continuei a subida imerso em pensamentos negativos, cabisbaixo, nem olhei para a paisagem. Mesmo antes de chegar ao topo, novo revés. Decido ir fazer xixi e reparo que este está castanho escuro. Novamente ligeiramente em pânico, nunca me tinha acontecido tal coisa! Estava a beber água abundantemente, mas seria desidratação? Não sei, mas era mais um sinal, mais uma facada na confiança. Comecei a projectar na minha cabeça os cenários para a desistência vezes e vezes sem conta.

Alguém a sair do Inferno, numa foto que a Alice mandou, provavelmente da prova do ano passado...
Cheguei atónito ao abastecimento e sentei-me logo. Tinha que conseguir comer, felizmente esse aspecto ainda estava a 100%. Comi bem e rematei com uns bons bocados de melancia. A semente da desistência estava plantada, não havia volta a dar, mas decidi continuar pelo menos até à Base de Vida e depois decidir. Afinal de contas, a parte da comida e bebida estava a correr bem, podia ser que a coisa virasse.

Portal do Inferno - Póvoa das Leiras

A Alice avisou-me que a descida para Drave era abismal e não desiludiu. Já conhecia esta zona de quando fiz o Pisão, as encostas aqui são inacreditáveis. Ao longe dava para ver a Garra, que haveríamos de subir ainda nesta etapa, mas até lá chegar tínhamos que descer abruptamente uma encosta, sem trilho, percorrer um vale até Drave e finalmente subir pelo trilho dos Três Pinheiros. 

Embalado pelo descanso e comida do abastecimento, consegui descer bem até Drave, mas as pequenas subidas até chegarmos à base dos três pinheiros já eram todas feitas de maneira muito sofrida. Esta parte da prova até tinha vários sítios que dariam para meter um bom trote, mas eu estava totalmente afectado psicologicamente. Constantemente a pensar na desistência, a pensar no sangue e na urina, quase à procura de uma desculpa para parar. Arrastava-me cada vez com mais dificuldade, até que comecei a sentar-me no trilho para descansar. Tanto a subir como a descer, já começava a desligar a máquina, era só chegar à Base de Vida e atirava a toalha ao chão, mas primeiro ainda tinha os Três Pinheiros para subir.

Drave
Trilhos à saída de Drave, numa foto sacada da net que o Rui Nascimento me enviou.
A subida é feita pela crista de um dos dedos da Garra. É lindíssima. Uma subida bem a meu gosto, não demasiado inclinada, 400+ em 2km (lá está, a subida típica do UTSF), sem trilho, pela encosta exposta. 

Antes de me fazer a ela tive que encher os dois flasks num ribeiro, já estava no limite e era muito perigoso começar a subir sem água. Sei que não é muito aconselhável beber água directamente do rio, mas devo ter bebido em todos os ribeiros da serra!

A subida acabou por me fazer bem, continuava a conseguir avançar bem no terreno e não perdi demasiado tempo nela, apesar de ir bem devagar. Foi-se conquistando, até passar pelos dois grandes pinheiros esbranquiçados (reza a lenda que o terceiro não resistiu ao Moutinho) isolados no topo da montanha. Ainda antes do abastecimento percorremos o inacreditável Trilhos dos Incas, esculpido numa encosta granítica, cheio de escadas e com um precipício de um dos lados. Só me fez lembrar a Madeira e o caminho entre os picos! 

Fotografia abismal do Cadalso no trilho dos Incas. Prova do ano passado. 

Adivinharam? São os Três (dois) Pinheiros! 
Na Base de Vida estava à minha espera a comitiva almeirinense que tinha ido aos 26km, o Rodrigo, Bastos, Dourado, Chico e Simão. Que luxo! A meio dos 3 pinheiros tinha ligado à Sara a dar conta da minha ideia de desistir, que tinha estado a sangrar há umas horas. Muito má ideia. Deixei-a a ela e aos meus amigos preocupados, o que ficou reforçado quando me viram a cambalear com mau ar antes do abastecimento. Lá troquei de roupa, comi e fiz-me ao caminho, com a promessa de que se acontecesse outra vez pararia de certeza.  

Póvoa das Leiras - Bondança
A Besta. Finalmente, a Besta. Anos a ouvir falar dela e agora estava finalmente à minha frente. Tenho que dizer que não desiludiu nem um bocadinho, para mim foi a melhor subida da prova e uma das mais espetaculares que já fiz! Subimos pelo leito de um rio, que quando corre deve fazer mesmo uma cascata, enfiados num vale debaixo de árvores. Nada mais nada menos que 400+ em menos que 1km. Quase 50% de inclinação média! Um absurdo. Subida a pés e mãos, autentica escalada. Ainda corria alguma água, por isso vários pontos foram feitos com as mãos e pés dentro de água, em rochas com musgo, agarrados a tudo o que oferecesse alguma resistência! Uma brutalidade! É impossível descrever por palavras, mas vejam este video que o Rui Nascimento me mostrou, já ficam com uma ideia.

A BESTA. O melhor é verem o video. Ou, ainda melhor, irem lá!
Cheguei ao abastecimento de Bondança, 71km, já com lusco fusco. Sentei-me cabisbaixo e estive ali uns minutos em silencio antes de começar a comer. O pensamento de desistir continuava bem presente, reforçado pela chegada da noite. A perspectiva de passar uma noite inteira em prova era exasperante. Como sempre acontece quando chego à parte final das provas, começo a descurar a alimentação. Não é que estivesse a deixar de comer, mas quase nunca me apetece e não faço um esforço, deixo andar. Antes de sair ainda perguntei no abastecimento se se quisesse desistir haveria algum ponto bom no caminho para me irem buscar, mas responderam-me que não, que até à Lomba, próximo abastecimento, era sempre no mato. Enfim, vamos lá ver o que dá...

Bondança - Lomba
Não sei se a descida que nos leva até às Porqueiras, aquele ponto mais baixo no perfil, tem algum nome. Mas devia ter. Gostava de chamar pelo nome a filha da mãe da descida que fez parecer a da Degolada uma brincadeira de crianças! Faço esta comparação com a descida da Madeira porque a parte final é muito parecida, num trilho de terra com muitas raízes e uma inclinação brutal. Parecia interminável, à medida que nos íamos afundando no vale até à cota mínima de toda a prova. 

A subida pelas Escadas do Martírio fez-nos chegar ao abastecimento da Lomba, uma aldeia isolada na serra. Mais uma subida clássica da Freita, com os seus 400+ da praxe, esta foi feita quase toda em degraus de pedra, de todos os tamanhos e feitios, mais uma vez a fazer lembrar a Madeira! Confesso que esta não foi das que achei mais difíceis, os degraus são bons para bastonar e é tipo a besta, a inclinação é tanta que aquilo passa de repente!

Escadas do Martírio, fotografia da Alice, provavelmente no Inverno. Este ano não tinha tanta água.
Cheguei à Lomba e a previsão da Alice estava certa, cheirava mesmo muito mal e a canja soube mesmo muito bem! ahah Sentei-me a comer, ligeiramente mais animado. A subida tinha-me corrido bem e estava a conseguir progredir relativamente bem nas descidas. De costas ou de barriga havia de conseguir virar aquilo. Mal sabia eu que ainda havia de....sim, adivinharam, de BRADAR AOS CÉUS!

Da Lomba a Albergaria da Serra
Saí da Lomba, reconfortado pela canja e bifana, em direção ao Pico da Gralheira, que já conhecia do Freita SkyRunning. A subida, baptizada de Bradar aos Céus, era mais uma clássica do UTSF, com os seus 400 e tal de desnível positivo. Mas se já estava a levar uma grande abada da Freita, ela aqui fez-me um TKO. Todas as gotas de energia e pensamento positivo que ainda tinha ficaram naquela encosta inclinadissima, naquele trilho demoníaco que parecia cada vez mais absurdamente difícil. 

Adoptei a estratégia das grandes subidas e decidi descansar a cada 100 metros subidos, mas estava cada vez mais difícil lá chegar. A cada paragem me custava mais recomeçar, já que as feridas nos pés acordavam ao mínimo sinal de descanso. Se tivessem sempre a andar iam adormecidas. Nesta pequena subida passaram-me pelo menos 15 pessoas, tinha dado um verdadeiro estoiro e o pensamento da desistência estava mais forte que nunca.

Virado o pico ainda tínhamos mais uns obstáculos antes de chegar ao abastecimento de Albergaria da Serra. Primeiro um planalto, que fiz a andar devagar, depois uma descida das Pedras Parideiras, onde ainda em Outubro no SkyRunning passei a voar, mas que aqui fiz a andar e, finalmente, porque o sofrimento não era já suficiente, ainda nos fomos enfiar no ultra técnico PR7! Meu Deus. Quando entrei no abastecimento tirei imediatamente a mochila e procurei um sitio para me deitar. Indicaram-me um colchonete. Perfeito. Estiquei-me e...adormeci!

Pumba, tirei uma selfie no abastecimento. Estava com bom aspecto!
Acordei passados poucos minutos, completamente derrotado. Mantive-me de olhos fechados uns minutos, enquanto ouvia as conversas à minha volta. Lá me sentei, enquanto lutava interiormente com o tentação de ficar ali. Justificava a mim mesmo que era o melhor, que não estava a ter prazer nenhum, que ia ser só sofrer até ao fim, que nem merecia acabar a prova, que tinha os pés destruídos, que o sangue e o mais não sei o quê e bla bla bla... Tudo a pesar do lado da balança que dizia para desistir. No outro prato estava algo que o Helder Baptista me disse há uns anos no Estrela Grande Trail, provavelmente a ultima prova onde passei assim tão mal. "Filipe, cansaço não é razão para desistir, cansados estamos todos!" Pois, Hélder. Tens razão. Vamos lá virar esta merda.

Albergaria da Serra - Arouca
Levantei-me, olhei para o relógio e fiz as contas ao que faltava. Cerca de 13km, 8 deles a descer. Calculei que se fizesse aquilo tudo a andar (não tinha outra hipótese) demoraria umas humilhantes três horas, no máximo. Que seja, de qualquer maneira para o corte ainda faltavam quase 8 horas, havia de lá chegar. 

Mas custou tanto... Normalmente nas partes finais das provas grandes, mesmo quando estou completamente derrotado, vou encontrar alguma energia para fazer as ultimas descidas a correr. Mas não foi o que aconteceu aqui. Foi um martírio absoluto fazer aquela descida. Na parte inicial, a mais inclinada e com mais pedras, parei de 100 em 100 metros. Não eram 100 metros de desnível negativo, eram de distância! A cada passo tinha dores horríveis nos pés, que aumentavam pelas dezenas de vezes que voltei a passar por dentro de água. Quando chegámos à estrada comecei a correr mas não conseguia fazer mais que 200 metros de seguida. 

Completamente de rastos, derrotado, humilhado e sovado pela Freita. Já com o sol a nascer subi as escadas do pavilhão muito devagar, sem sequer pensar em correr até estar mesmo à porta. No pavilhão, quase deserto, estavam ainda o Moutinho e a Flor Madureira, à espera de todos os que ainda estavam em prova. Há muito tempo que não acabava uma prova assim, derrotado. Senti durante muitas horas que não merecia sequer estar a entrar naquele pavilhão. Desde então tenho pensado muito em tudo o que aconteceu, consigo arranjar mil desculpas esfarrapadas para a prova não me ter corrido como eu imaginava, mas no fundo eu sei que não há desculpas. Parece que, nesta prova, a montanha ganha sempre, mas no fim alguns conseguem sobreviver.

A camisola.
Quase 24 horas depois de partir, cruzei a meta e recebi a medalha das mãos do Moutinho, que me a colocou no pescoço e disse-me, olhando-me nos olhos: "Hoje cobriste-te de glória. Parabéns."




sexta-feira, 21 de junho de 2019

A FREITA - Descrição e dicas pela Alice Lopes.

A Alice, uma amiga e leitora do blog, decidiu descrever-me quase metro a metro o percurso dos 100km da Freita. Ora bem, a Alice Lopes é uma das melhores atletas do trail nacional (vice campeã de Ultra em 2019, vencedora da Freita Elite o ano passado), disso já todos sabemos. O que eu me apercebi nestes dias em que fui trocando mensagens com ela é que é uma apaixonada pela Serra da Freita e por este percurso. As dicas e descrições dela valem ouro para quem, como eu, se vai estrear e devem ser deliciosas de ler para quem já passou por lá. Como não sou egoísta, e porque ela concordou, deixo aqui a descrição e muitas fotos do percurso por, provavelmente, a pessoa a seguir ao Moutinho e à Flor Madureira que conhece melhor a Freita. Depois agradeçam-lhe!




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Sais de Arouca e sobes ao Miradouro, bem no cimo da serra (1096m), encontras o primeiro abastecimento . fácil :) é a tua subida mais fácil de todo o percurso . Vais dos 290m para os 1096. D+ 878 e D- 78. Na subida encontras o Moutinho que te vai cumprimentar com o entusiasmo normal dele.


Partida - Malhada
O Moutinho a receber a Alice

Miradouro
Da Malhada a Tebilhão, segundo abastecimento, tens pela frente 12.1km. Vais ter D+362 e D-670. Tens cerca de 6km de planalto. Para mim é a parte mais chata da Freita (para o ano já não vai existir 🙂) tens uma subida ligeira e uma boa descida.. Pedra, começas a sentir que algo vai acontecer, mas tudo está ainda muito fácil. Não te entusiasmes. Tens agora em Tebilhao 21.100kms

Malhada - Tebilhão
A tua prova está quase a começar.

As provas de 100 e 65km separam-se aqui, seguem-se 35km exclusivos da prova ELITE. E Prepara-te, vão ser qualquer coisa!

Sais do 2º abastecimento, tens pela frente até Covêlo de Paivó 10.800kms D+ 376 e D-844. Ai que bom, é sempre a descer! ... mas não !!! Lembra-te de mim na divisão das provas (aliás, vais encontrar indicação que a tua prova começa lá 😉 ) VAI COMEÇAR A FREITA!!!


Tebilhão - Covêlo de Paivó
Desces pelo trilho do carteiro para o Rio Paivô e, meu caro amigo, tens 3 kms dentro, nas margens, com cordas, com arames, com travessias de rio que dá para nadar .... (eu no meu metro e meio houve um ano que não tinha pé, também não é dificil 🙂 ) e à saída com jeitinho tornas a encontrar o mestre Moutinho e um fotografo com certeza. Sais, fazes uma subidita que te leva à estrada e depois serão, digo eu, uns 500m até ao abastecimento de Covêlo Paivô.

No Rio


A Alice no Rio 
Dicas 1: Neste trajecto não tentes ligar a médias nem estejas stressado com o passar dos km. Desfruta.

Dica 2: Chega bem ao segundo abastecimento. É a partir daí que começa e os erros nesta prova pagam se muito caros.

No Covêlo Paivó levas 31.9kms e tens 14kms para chegar à Pena (lembras-te da subida das Almas Penadas que te falei na Serra Amarela? É a primeira grande subida, para mim a mais dificil. Mas para muitos não).


No 3 abastecimento, Covêlo de Paivó aconselho a comeres, serão 11h 12h máximo... mais coisa menos coisa. Se tiveres quentes, come. Para a Pena são 14kms com 1221 de D+ e 873 D-.

Covêlo de Paivó - Pena
Sais do abastecimento e começas a fazer uma subida em pedra, grande robusta, e desces a Regoufe, onde vais caminhar/correr junto à um riacho. Sempre em single track, onde podes escolher o teu trilho. As fitas são orientadoras. Esta subida vai terminar num estradão. Não, não vais correr em estradão (depois vais perceber porque se demora tanto para fazer estes 100kms 🙂). Voltando ao percurso: atravessas o estradão e .... meu amigo tens uma descida brutal com xisto, pedra pontiaguda, mas o mais magnífico é mesmo a paisagem que está a tua frente. A descida é single track claro está, e termina em pedra solta. Aí dás com um estradão que sobe. Aproveita o estradão a subir para um trote, quando começares a descer, segues por um single track que te leva a um rio. E que bem sabe esta água! Aproveita para encher as garrafas e molhar a cara.

Começas a subir a ESCARPA. Todos julgam estar a subir as almas penadas, mas não. Até lá ainda vais penar muito! Aqui, para mim ,os bastões pouco ajudam. Mãos e pés ... A trepar a escarpa, mais uma vez, mas agora a subir pedra pontiaguda que termina a escalar. Das a um estradão e .... não entras no estradão ... Só o atravessas e ainda sobes mais um bocadito! Aí a descida é a meu gosto, pedra grande. Olhos atentos para não correr mal. Esta descida é curta e termina na estrada. Rapidamente entras novamente no monte numa descida em single track que vai alargando. Quando passares numa bica abastece de água, vais penar! Sim entras no trilho das almas penadas!! (o homem da marreta anda sempre lá.. tu foge)

Almas Penadas
a ESCARPA
Começa com um caminho largo que rapidamente se fecha. Caminho aberto pelo Moutinho para a prova. Se fores como eu pensamentos do género "foda-se como foi ele fazer isto??" É verdade, até ao cimo foi ele que abriu com máquinas grandes, pequenas, tesouras e outras ferramentas. Incrível o trabalho do homem. Quando pensas que estas a acabar, nada disso. Mais um docinho! Chegando ao topo, uma descida em single track, claro está, linda e no início perigosa, que te vai levar a Pena. Uma sopinha ou duas ou trreees é garantido aqui. Estás com 45.9 km e já sentes a Freita!

Descida antes da Pena
Vamos lá sair da Pena.

Rumo ao Portal do Inferno, são 5.8 kms com D+598 e D-399.

Pena - Portal do Inferno
Sais do abastecimento e não segues pela estrada, vais logo para um riacho que te leva a uma subida entre montanhas.

Vais subir essa colina e terás à tua frente uma descida íngreme e curta de pedra solta. Perigosa, que te vai levar ao inicio da subida do portal do inferno. Primeiro um caminho de pedra tipo xisto e depois por entre a floresta ... magnifica ....

Chegas ao topo do portal do inferno, abastecimento, viras-te para a subida que fizeste e deparas com uma paisagem magnifica.

Estás agora com 51.700kms e 3435 de D+. Vamos a meio portanto. Segue-se a base de vida, Povoa das Leiras. Tens 11.4km pela frente irmãmente distribuídos por 826 D+ e 888 D-.





Ora bem saímos do Portal do Inferno. Temos a nossa frente D+ 826 e D-888 em 11.4kms. Começa a segunda parte do empeno. A primeira é do Rio à Pena.


Portal do Inferno - Póvoa das Leiras
Vens de subir o portal do inferno, comes qualquer coisa e abasteces água. Com jeitinho o Miro tira-te aqui uma foto! Começas a descer, mas é coisa pouca, uns 200m, a seguir sobes. Uma subida relativamente curta mas íngreme que te leva ao Planalto. Corres cerca de 1000m em plano e encontras o inicio da descida para Drave.


Início da descida para Drave
A primeira vez que fiz parei a contemplar a parede que estava a minha frente. A descida é a meu gosto. No início sem trilho definido entre pedras fixas e tojo. Depois single track, com desnível muito acentuado. Esta descida termina num rio/ riacho que o vais acompanhar (vontade vai faltar de dar um mergulho) Até à aldeia de Drave. A aldeia encantada.


Drave.
A subida seguinte.

Já ouviste falar da "garra"...? 3 montanhas que vistas de Drave parecem uma garra. Sim, é a mais forte e poderosa que vais subir. Entras no trilho dos 3 Pinheiros. Só vais encontrar 2 pinheiros porque um ardeu. Costumo dizer que não resistiu ao Moutinho. Vamos ver se nós este ano resistimos como os 2 desgraçados dos pinheiros que ainda se aguentam.


Boa sorte para a subida... não é tão longa como as que fizemos na Madeira, mas é técnica de lenta progressão. Tens que pensar para escolher o caminho mais simples de modo a poupares energia... que jogo mental! Até que passas por 2 pinheiros... estás quase....😳 o trilho começa a ficar planoooo e dás por ti a fugir à subida.... que bom vais descer, estás quase na base de vida.... só falta descer os Incas 😍

Desces por um trilho técnico, pedra mais pedra e mais pedra. Passas riachos e passas entre pedras .... magnífico. Terminar num estradão de 500m e sobes para o abastecimento. Uma estrada com 100m máximo mas que correr se torna missão impossível.

Aqui vês bombeiros, normalmente atletas em hipotermia.... come bem, porque vamos voltar ao trilhos em comum com os 65kms. Sim, pensas tu... tudo isto foram só 35kms [desde Tebilhão que fazemos 35km exclusivos para a prova ELITE. Lembrem-se que passámos pelo Rio, pelas Almas Penadas, a ESCARPA, o Portal do Inferno e estamos prestes a enfrentar a Besta com esta bagagem toda. Não admira que a Alice frise bem que estes 35km são A prova!] ???? Sim meu caro Filipe ... ai que empeno em 35kms!

Da Póvoa das Leiras a Bondança são 7.550kms. D+533 D- 622. Sais assustado porque te dizem q ue vais subir a Besta....


Povoa das Leiras - Bondança
Ora bem a besta são cerca de 800m com qualquer coisa de 400D+ e o trilho é.... nem sei como te dizer.... vou-te mostrar:




No fim, és cuspido da Besta desta maneira:


Corres (ou não) num Planalto até que começas um trilho novo, rumo a Bondança. Plano, subidas curtas ... fácil não, porqe já nada é fácil.... Passas pelos moinhos e abordas o abastecimento numa descida espetacular.... Chegas então a Bondança e tens 70.650kms. Parece quase, só faltam 29km. Mas ainda vai faltar tanto!

Sais de Bondança e vais para a lomba. 7.800kms fácil !!! ComD+532 D-717


Bondança - Lomba
Mal sais do abastecimento vais subir cerca de 130 D+ em +/- 2km (a confirmar). É novo o trilho para este ano. Depois começas uma descida brutal, onde desces em céu aberto por trilhos com pedra, com vegetação, entras num PR tipo bosque... chão fofinho, castanho ,numa descida a serpentear e dás as Porqueiras. Uma cascata que te vai fazer lembrar a Mizarela (esta é a prima). Se não a vires lembra-te dela quando tiveres que saltar para um penedo que terá umas correntes para te segurares. 🤪

Sobes quase nada e a descida continua, voltamos ao bosque, voltamos a pedra, vamos ao serpentear até que...🤐🙏🙏viras à direita e ....ESCADAS MARTÍRIO. 800 degraus em pedra com 400 sim 400D+. Degraus pequenos, degraus largos... escadaria ora de 1m de largura ora 50cm. Água a escorrer pelas paredes da escadaria.... Tens que conseguir fazer de dia.


Escadas do Martirio
Terminas este trilho na aldeia da lomba. Costuma cheirar um pouco mal, muito mal mesmo. Mas uma canja aqui sabe a lagosta!

Sais da Lomba rumo ao Merujal, com 78.45kms e tens cerca de 7.68 até ao próximo e último abastecimento. D+ 712 e D-325.


Lomba - Albergaria da Serra
Vieste das Escadas do Martirio, pensas que não pode piorar, mas ainda vais bradar aos céus! Depois de começar a subir numa estrada com grande inclinação, entras num trilho largo e finalmente um single track que te vai levar à parte final do quilómetro vertical do Freita Sky Running. A subida e curta mas muito técnica e poderosa!


A Alice no fim da subida
Acabas na Torre Meteorológica e desces pelas pedras parideiras [esta parte é em comum com a Freita Sky Running]. Aproveita para correr, a progressão foi lenta até aqui e não vejo jeito de ser mais rápida no PR7!

Entras no PR7 e vais sair muito perto do abastecimento. Cerca de 1500m que parecem não ter fim! [o PR7 já eu conheço do skyrunning. Muito dificil, muito técnico. Parece não ter fim é a descrição perfeita, nem quero imaginar com 90km já feito!].

Pensas tu que nos últimos 13km vai ser só descer em direção a Arouca. Não é mentira, mas não é de todo fácil! D+333 E D-951.
Albergaria da Serra - Arouca
Mal sais sobes. Que treta, mas não era sempre a descer? Sobes cerca de 2kms e começas a descer. Single tracks, atravessas estradas entras em campos e vês casas. Que bom estou a chegar! Pensas tu, MAS NAO! Tornas a entrar em trilhos, em campos, em sei lá mais o quê! Ouves cães, vês luzes.... Entras numa estrada, vês casas e...... finalmente.... finalmente nada, tornas a entrar em trilhos, campos blá blá blá.... Quando vires um cemitério estas quase 🤣 agora sim! Mas aquela estrada não tem fim ... raios partam.... até qe viras à direita e vês um insuflável. Ganhas força para correr nas escadas da escola e dentro do pavilhão está o Joca e a Flor e o Paulo o fotógrafo e uma camisola quentinha para vestirmos!!


Com o Moutinho.

Com a Flor.


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Parece fácil, não? Bem, na verdade não parece mesmo nada fácil. Se ainda não estava muito dentro da prova, agora estou a 100% e posso dizer que o factor cagaço aumentou muito!

O que gosto mais nesta descrição da Alice é que ela fala de cada segmento como se fosse algo único e especial. Cada subida e descida é como uma peça do puzzle. Não parece haver ali nada fora do plano, nada para encher. No próximo dia 29 de Junho, sábado às 6 da manhã, lá vamos estar em Arouca para mais uma grande aventura!