As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Travessia Integral da Serra de Montemuro (110km) - às cegas.

65km, 19:00, 10h30 de prova, 1150m de altitude.

A fita laranja está à minha direita, estou encostado a ela. Varro 360º à minha volta com o foco branco do meu frontal à procura da próxima, mas o nevoeiro espesso não me deixa ver mais que 5m. Aponto para o chão à procura de um caminho marcado por pegadas, parece-me ver um terreno mais escuro e sigo-o instintivamente. Avanço, às cegas, mais uns 200m até que reparo que estou num estradão. Paro. Mais 360º. Olho para baixo, mas no estradão já não se vêem pegadas. Aleatoriamente decido seguir para a direita Só consigo distinguir mais do que o branco opaco se estiver encostado à berma, por isso depois de descer 100m a olhar para a berma direita sem encontrar fitas, volto para cima, agora pelo outro lado. Nada. Parece-me estar no ponto onde entrei no estradão, decidi ir para a esquerda e repito o processo. Gritei alto, perguntei se estava ali alguém.! Desliguei a minha luz para procurar outros frontais que por ali andassem, mas... Nada! Decidi voltar ao sitio onde tinha visto a ultima fita, subi o estradão e entrei no mato. Andei 100, 200, 300 metros no meio de maciços de granito e não encontrei nenhuma fita. Voltei a varrer 360º, a respiração começou a ficar pesada, comecei a andar de um lado para o outro, impacientemente a subir e descer rochas! Nada, não se via NADA!

Até que distingo um foco branco lá ao fundo... 

EIIII!!!!!!!


0km, 7:30, 0 horas de prova.


Falta meia hora para começar a Travessia Integral da Serra de Montemuro. Somos poucos dentro do pavilhão da escola EB 2,3 de Cinfães, onde está instalado o secretariado e o pórtico da meta. Perto de 80, contando com alguns que vão fazer a prova por estafetas. A partida atrasa cerca de 10 minutos, mas tudo tranquilo. Mais 10 minutos na conversa com as muitas caras conhecidas e com o Bastos, Rodrigo e Pedro, que haveriam de ser uma espectacular equipa de apoio durante o dia. A minha mochila rebentava pelas costuras com o muito equipamento obrigatório e outro que achava que podia ser importante numa prova deste género. Foi a prova desta envergadura para onde fui mais às cegas até hoje. A informação disponibilizada tinha sido pouca, mas já em Cinfães fiquei mais confortável. As pessoas da organização com quem fui falando pareceram-me sempre disponíveis e simpáticas. Pelo sim pelo não, fiz a minha parte e preparei-me para qualquer eventualidade. Pelo menos era o que eu pensava...

Os 3 dos 110 e os 3 da equipa de apoio.
28km, 12:30, 4h30 de prova.


Portas de Montemuro, ponto mais alto da Serra. A vista era quase toda composta pelo branco pastoso do nevoeiro, mas ainda dava para ver blocos de neve pontuados pelo granito ou a fazer um contraste muito forte com o solo escuro e agreste da serra. A temperatura tinha baixado imenso. A meio daquele ataque final ao cume, feito suavemente e por estradões que apanhámos após o segundo abastecimento, decidi enfiar o gorro de lã na cabeça, buff a cobrir pescoço, nariz e boca e luvas grossas nas mãos. Estava confortável.

Para trás tinham ficado 9km iniciais onde passámos por alguns trilhos à Abutres: muito parte pernas, terra escura e lamacenta, muitas árvores e um rio que corria no meio de pedras cobertas de verde do musgo.

Foto da organização
entrada na montanha deu-se por volta dos tais 9km, num pequeno abastecimento. Iniciou-se então a primeira grande subida e deu para começar a perceber o "conceito" da prova. Não foi uma subida difícil, nenhum foi ao longo do dia. Andámos muito em estradão, caminhos de pedra de granito arrumada, estilo calçada romana, e por dentro de inúmeras aldeias serranas. Adianto já que gostei muito do percurso! Não muito difícil, mas desafiante quanto-baste e sempre muito interessante. Claro que não faltaram também os trilhos, nos quais também notei outra tendência: muitas vezes estes não existiam ou não estavam limpos. Eram colocadas fitas distantes umas das outras e depois íamos fazendo o nosso caminho, não poucas vezes à custa de arranhões nas pernas. Este é um pormenor que vai ser importante daqui a umas horas!

Passámos em muito caminhos antigos marcados por muros de pedra que delimitavam os terrenos. Muitas vezes estes trilhos e caminhos serviam como canais de escoamento de água, o que resultou em pés molhados do inicio ao fim da corrida, mesmo nas zonas mais altas da serra! O piso foi talvez dos aspectos mais difíceis de lidar nesta prova, ora estávamos com água pelo tornozelo e no meio da lama ora estávamos a saltitar de pedra em pedra, em piso muito duro. Inevitavelmente os pés e articulações iriam ressentir-se de toda esta pancadaria.

Foto da organização, uns dias antes da prova. Muitos destes caminhos eram autenticos ribeiros.
Ainda antes das Portas de Montemuro passámos pelo primeiro abastecimento a sério, nos 22km. Esta prova teve 3 bases de vida, aos 22, 40 e 63km. Penso que ninguém deixou nada nesta primeira, mas tenho a certeza que todos os que lá passaram levaram alguma coisa. Eu, por exemplo, levei uma malga de sopa e uma bifana no bucho! Um abastecimento muito bom, completo, com muita gente a dar assistência. 

A chegar ao abastecimento, foto do João Bastos
52km, 16:30, 8h20 de prova.


Quinto posto de abastecimento. Tal como no 4º, aos 40km em Tendais, estava lá o Armando Teixeira. Vou aqui dizer e fica escrito: o Armando é o gajo mais porreiro do trail! Ele fala connosco, dá ânimo, enche flasks, ouve os queixumes e ainda dá incentivo! No abastecimento anterior tinha-me dito que pela frente teria uma subida de cerca de 400+ em 4km para transpor que levar-nos-ia de volta aos 1100m e ao tempo frio, o que se confirmou. Depois a descida até Moimenta, onde me encontrava agora, foi relativamente fácil e sempre corrivel, com muita pedra e água, o que continuou a massacrar os pés.

Foto da Susana Luzir, do Miguel Soares a descer um trilho enlameado
A prova estava a correr-me na perfeição. Oito horas aos 52km, cerca de metade do caminho, foi muito melhor que a minha previsão, mas ainda melhor era não ter ainda minimamente sinal do homem da marreta! 

A Fernanda Luzir também me tirou fotos!
Ao contrário do abastecimento anterior, nos 40km, desta vez o que o Armando não fez foi dar-me uma taça de sopa, porque não havia. Este era o 5º abastecimento e o 3º onde só havia banana, marmelada e tomate. Bom, mas até agora estava a resultar bem. Comi bem aos 22 e 40km depois fui gerindo a alimentação com o que levava e as bananas com sal que encontrava nos abastecimentos. O próximo, aos 63km, era a principal base de vida, onde deixei o meu saco. Aí estava anunciada comida quente. Ainda bem, já que o abastecimento era nos 1100m, inicio de noite e umas boas horas depois do ultimo mais completo. 

Só que....

63km, 17:40, 10h de prova.


Base de Vida no abastecimento de São Pedro do Campo.

"Boa tarde. Há comida quente?"
"Não.. mas há chá!"

A subida até aqui mais uma vez tinha sido fácil. Muito suave, com alguns troços em que até dava para correr. Ainda sem sinal da marreta, ativava com cada vez mais confiança o trote em troços pouco inclinados. Passada a cota 1100 virámos a montanha e andámos 1 ou 2km num planalto lá em cima. Tinha voltado o nevoeiro e o frio, o sol estava a por-se. Planeava na Base de Vida sair de frontal, enquanto isso ia reparando nas marcações que seguia. Muito espaçadas, sem refletores, alguns pauzinhos brancos espetados onde anteriormente existiam bandeiras... Comecei a ficar um pouco preocupado...

São Pedro do Campo, foto do refugio onde estava a base de vida, pelo João Bastos
Entrei no abastecimento e imediatamente pedi o meu saco. Indicaram-me uma sala com um banco onde podia trocar de roupa e, como faço sempre, tentei perder o menor tempo possível nos meus afazeres. Estava muito confortável com a minha combinação de térmica + tshirt técnica + manguitos + corta vento, por isso só troquei a t-shirt técnica por uma seca. De seguida meti o relógio a carregar dentro da mochila. O meu Garmin Fénix 3 já tem uns aninhos, a bateria já só dura 12 horas, e como estava a chegar ali com 10 decidi que era uma boa altura para o meter a carregar para a segunda metade da prova. 

Uma decisão que se revelou quase fatal para o desenrolar da prova.

Foto do Bastos, dentro da Base de Vida.
Incrédulo, perguntei aos voluntários pela prometida comida quente. Parece que a senhora que ficou de fazer a sopa tinha o filho com febre e....bom, havia chá!

Enfim, não protestei. Há lugar para isso e de certeza que aquelas pessoas não tinham culpa. Agarrei-me ao Compal de Pêra que tinha no saco (ah pois é, não falha!) e ataquei um pão de ló que lá havia. Devo ter comido metade enquanto estava na galhofa com o Bastos, Rodrigo e Pedro que estavam lá a dar apoio. 

Despedi-me deles e saí super motivado para os 47km finais de prova. Frontal na cabeça e totalmente equipado para o frio, íamos andar uns bons km sempre em cotas altas. 

Assim que saio lá de dentro dei 5 passos e parei a hesitar. Não sabia para onde era o caminho e também não via lá ninguém para me ajudar.  Voltei a entrar na base de vida e lá me indicaram a direcção. Duzentos metros à frente, lá vi uma fita. Sem reflector.

65km, 19:00, 10h30 de prova, 1150m de altitude.


EIIIIII!!!!!

A luz vinha na direcção contrária à minha. Era o Paulo Carvalho!

Então meu, tens a certeza que estás no caminho certo?! Ando perdido. Tenho a merda do relógio a carregar dentro da mala! Tens o track??

Hesitámos ali um bocado. Eu não tinha nada ideia de estar a andar em sentido contrário, mas o Paulo tinha a certeza que estava bem. Segui-o. 

Até que..uma nova luz, outra vez em sentido contrário ao nosso!

AJUDEM-ME!! Estou em pânico, não vejo nada, não vejo fitas!!!

Era a Verónica, aflita, completamente à toa! 

Fizemos o nosso melhor para a acalmar e decidimos seguir juntos. O Paulo tinha o track no relógio, mas avançávamos completamente às cegas, porque apesar de estarmos em cima do percurso não víamos nenhuma fita e andávamos em zonas onde não havia trilho (lembram-se de ter falado disto lá atrás?). Com os três frontais no máximo vasculhávamos tudo à procura de fitas, mas estas simplesmente não haviam! Centenas de metros às cegas, com temperaturas negativas, chuva e muito, muito nevoeiro!

Com o passar dos metros, já tinha deixado de estar aflito com a situação. Estava sim cada vez mais irritado com aquilo tudo. Com a incrível falha da organização, mas também comigo próprio, por ter metido a porcaria do relógio a carregar mesmo quando ele era preciso! Decidi parar e tirar o relógio da mala, o Paulo não estava muito seguro a seguir o track e eu já estava com 50% de bateria. Liguei-o, carreguei o track e...puff, a linha verde! Nesse momento fiquei 100% seguro, na minha cabeça só tinha um pensamento: nada me ia impedir de virar a porcaria da prova, esta ia ser de raiva!

Chegámos ao abastecimento dos 73km juntos, ainda lá bem em cima, nos 1100m. Alertei os voluntários que lá estavam do perigo do que se estava a passar lá atrás, eles trataram logo de informar o resto da organização e de facto disseram-me no abastecimento seguinte que já andavam batedores a repor fitas e à procura de pessoas perdidas. Foram muito prestáveis e a banana com sal também estava muito apetitosa! ...Desde os 40km sem nada além de banana, tomate e marmelada. Agora separavam-nos do próximo abastecimento nada menos que 17km....

83km, 21:30, 14 horas de prova. 


10km de descida já ficaram para trás. Mais uma vez não foi difícil. Continuava a sentir-me espectacular, apenas muito dorido dos pés e das articulações dos tornozelos, resultado da muita pancada que levámos até aqui. Os 50% de bateria que tinha lá em cima estavam já nos 20% e o relógio dava sinal de estar a morrer. Parei na primeira aldeia por onde passámos para voltar a meter a carregar, lá em baixo não havia nevoeiro e haviam fitas com fartura! 

Seguiram-se 7km de sobe e desce a cotas baixas até ao abastecimento, o penúltimo, nos 90km. Foi finalmente aqui, 50km depois, que voltei a comer um caldo de legumes! Repeti três vezes! Peço desculpa aos que vieram atrás se não chegou para todos, mas soube-me pela vida! 

Faltava agora virar apenas uma montanha antes do final. 750m verticais de subida levar-nos-iam de novo ao inferno gelado que era o topo da montanha. 

101km, 1:30, 18 horas de prova.


Subimos de forma muito constante até voltarmos a mergulhar no nevoeiro denso. Já muito perto do topo vejo duas luzes na minha direcção - mais dois companheiros completamente perdidos que depois de muita volta lá em cima não se aperceberam que estavam a caminhar na direcção errada! Os dois juntaram-se ao grupo e agora éramos 5 a navegar no mar branco e pastoso de nevoeiro. Para ajudar, tinha começado a chover copiosamente, tirei pela primeira vez o impermeável da mala e vesti por cima de tudo, mantendo-me seco e quente. 

Um pouco antes tinha ficado o ultimo abastecimento, aos 97km, onde degustámos uma bela banana com um copo de isotónico, iluminados pelos faróis de um jipe!

Sobravam agora apenas 7km de descida até à meta, feitos em grupo do inicio ao fim. Mais uma vez, neste troço final haviam muitas zonas sem marcações, mesmo a chegar a Cinfães voltámos a perder-nos. Mas nada nos impediria agora de cruzar a meta. 

108km, 2:30, 19 horas de prova. Meta.

A foto possível, na meta, tirada pelo Pedro. Sim, o sacana estava à minha espera às 2:30 da manhã!
Esta foi a prova de três dígitos mais sólida que fiz até hoje. Sempre muito motivado e sem nenhuma quebra física, nunca me faltaram pernas! Sobraram apenas as naturais dores de pés e articulações. Fiquei muito contente com o resultado, que superou largamente a minha previsão! 

Quanto à organização, já perceberam que nesta primeira edição existiram falhas muito graves, nomeadamente as marcações mas também a alimentação. No entanto não notei um pingo de arrogância de nenhum membro da organização quando foram chamados à atenção, pelo contrário percebi que reconheceram os erros. Por isso tenho a certeza que vão aproveitar o maravilhoso percurso que prepararam e corrigir o que foi menos bom este ano.

Depois de cruzar a meta dei os parabéns à Verónica, que tinha sido a primeira mulher, depois cumprimentei os restantes 3 membros daquela equipa de 5 que se juntou lá em cima. Todos passámos por momentos muito stressantes. É engraçado, mas também esclarecedor, ver na classificação final que quase ninguém chegou sozinho à meta. Dos muitos quilómetros de provas que já fiz até hoje nunca tinha passado por uma situação tão aflitiva como aquela aos 63km. Eu sei, muito por culpa própria, porque escolhi a pior altura possível para carregar o relógio, Mas tenho a certeza de que se não nos tivéssemos encontrado aos 5 nas alturas em que nos encontrámos não acabaríamos a prova. Por isso, agradeço-vos: Verónica, Paulo, Pedro e Manuel. Esta é tanto minha como vossa!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Às portas de Montemuro.

E pronto. Chegámos àqueles dias especiais. A antecâmara de mais uma grande aventura, desta vez na Serra de Montemuro. O desafio é a sua travessia integral, 110km e 6500D+ de montanha invernal e agreste. Uma prova que me está a deixar especialmente apreensivo, como aconteceu poucas vezes. É uma primeira edição e a informação tem sido muito escassa, é em condições invernais (este fim de semana ficou coberta de neve) e a organização está a deixar uma série de avisos que me deixam um pouco assustado. Por exemplo, a obrigatoriedade de levar o track no relógio (já levaria) e a atribuição de um traker GPS a cada participante, por razões de segurança. Além disso, o conjunto de material obrigatório é bastante extensivo e exigente, a fazer lembrar o kit de emergência para tempo frio no UTMB. Bom, eu prefiro muito mais condições invernais que calor tórrido e, ao contrário de outras vezes no passado, não vou facilitar um milímetro com o equipamento, mas não deixo de estar especialmente ansioso, i.e., todo borradinho com o que me espera!

Fotografia da organização, este domingo
Mas não são só as condições invernais que me deixam de pé atrás. O percurso promete ser especialmente duro. Está a demorar a sair o track, mas analisando o perfil percebem-se várias zonas de parte pernas misturadas com subidas e descidas muito longas. Os 6500m de subida total não são brincadeira, apenas menos 700m que o MIUT quando subiremos no máximo aos 1400m de altitude. Em suma, vai ser um desafio a sério!

Quanto à minha forma... bom, não sei bem. Há 3 semanas, se me perguntassem, respondia que estava melhor que nunca. E estava! Sentia-me o super homem, era records pessoais atrás de records pessoais, sempre levezinho. Depois rebentei em Montejunto e logo a seguir, uma semana depois, fui dar cabo do resto ao Louzantrail. Sobraram duas semanas, que tenho gerido com pinças. Corridas curtas e lentas, pouco desnível, com esta ou aquela aceleração para reanimar. Uma semana depois da Lousã finalmente voltei a sentir vida nas pernas mas só vou realmente saber às 7:30 da manhã de sábado, quando iniciar a luta. Pelo menos chego a este ponto sem mazelas a chatear, apenas preocupado com a forma, que é o ideal.

In other news, o Quarenta e Dois faz anos!! Já passaram 5 aninhos desde que comecei aqui a partilhar as minhas corridas. Já disse várias vezes como este blog tem sido importante na minha vida, da quantidade de pessoas que conheci por causa dele e do prazer que me dá escrever aqui. O que não sabem é que isto tem estado um bocado estagnado, há algum tempo que as visitas não aumentam. Quem me segue aqui, no facebook ou no instagram sabe que eu sou muito pouco dado a promover e publicitar o blog. Na verdade, tenho zero paciência para isso. Escrevo textos demasiado longos e chatos, tenho pouca actividade no Facebook, não partilho os posts em 50 grupos... Obviamente que chego a pouca gente, da já pouca gente que pratica o nosso desporto, e às vezes penso em mudar as coisas ou, por outro lado, simplesmente deixar-me disto, já que não deve haver assim tanta gente com interesse. Mas depois lembro-me daquele sentimento quando acabo e publico um post, como o do Louzantrail a semana passada. Podem não acreditar, mas reviver a prova e vomitar aquilo tudo cá pra fora de uma vez deixa-me num estado grande de excitação! Acabei de escrever essa crónica às 22 e só consegui adormecer depois da uma da manhã (isto para quem acorda todos os dias às 5:20 é uma grande coisa! eheh). Por isso, desculpem, mas vou continuar a escrever textos erráticos, demasiado longos e descritivos, porque gosto mesmo disto. A vocês, que vão estando por aí, agradeço sinceramente, tem sido verdadeiramente uma grande viagem!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Ultra Louzantrail (43km) - You can't always get what you want...

Há 4 anos participei na então segunda edição do Louzantrail. Não correu bem. Por razões que podem ler aqui, pelo calor anormal, pela minha própria prestação, a edição de 2015 de Louzantrail não me deixou boas recordações, de todo. Entretanto a prova evoluiu e, bem, eu também. Seria então em 2019 que daria nova oportunidade a esta prova, que já é de referencia a nível nacional. A primeira mudança em relação a 2015 foi o inteligente aproveitamento da passagem dos Abutres para o verão, a Serra da Lousã é incomparavelmente melhor no inverno. Mas não se ficaram por aqui, foram muitas as mudanças.Será que foram todas para melhor? O melhor é continuarem a ler... (que teaser descarado).
Senhoras e senhores, mais um post com a valiosíssima contribuição do Miguel Cadalso!
Como disse há pouco, a prova ganhou muito com a mudança para Janeiro. Ainda por cima tivemos a sorte de apanhar um dia perfeito, sem chuva, nevoeiro ou temperaturas muito baixas. Outra coisa que mudou foi o local de partida, agora na Nave de Exposições da Lousã, de onde partiu o UTAX em 2017. Uma espécie de arena, espaçosa, com todas as comodidades. Uma coisa que não mudou foi a forma muito competente e profissional com que a comunicação foi feita nos meses antecedentes. Um design geral muito bom e um guia de atleta super completo com todas as informações e mais algumas. Lembram-se de há 4 anos o percurso ter passado de 45km anunciados para uns quase insuportáveis 54km? Pois bem, este ano acho que as indicações estavam certas ao centímetro! 43.9km com 3200D+ foi então o menu que às 8 em ponto, sob comando do inevitável Joca, cerca de 400 atletas começaram a degustar.

Foto da Sara, na partida
Esta prova surge na fase final da preparação para a Travessia Integral da Serra de Montemuro, que acontece daqui a 2 semanas (SÓ?!?!). Não tenho treinador, mas tento orientar os meus treinos para a duas ou três semanas do objectivo atingir o pico (vulgo, rebentar num treino) e depois tirar carga para estar afinadinho na prova grande. Desde o Pisão que tenho vindo a treinar muito bem. Sentia a forma a subir semana a semana ao ponto de achar que nunca estive tão bem, até que a semana passada, num treino no Montejunto com malta que anda bem mais que eu, dei o estoiro. Uma semana antes do Louzan. O ideal seria então ir a descer até ao Montemuro, mas havia o Louzan por isso tentei fazer controlo de danos tirando muita carga de forma a conseguir fazer a prova condignamente. A coisa até começou muito bem! Mas quando eu achava que ia sacar dali mais uma boa prestação...pumba, apareceu o Trevim! Bom, já lá vamos...

Foto do Matias Novo, partida dos 43km

Como eu dizia, a coisa até começou bem. Muito bem! Depois de um pequeno périplo pela Lousã, entrámos na serra em trilhos largos e sempre corriveis, bom para dispersar o grande pelotão. O trilho largo foi gradualmente estreitanto enquanto subíamos vagarosamente num single muito limpo que zigue-zagueava pelo meio das árvores. Isto para mim é a imagem de marca deste lado da Lousã, em contraponto com os trilhos agrestes do lado de Miranda. A primeira subida, de quase 8km, foi-se desenrolando com troços pouco inclinados, feitos a trotar, intermediados com algumas, poucas, paredes. Estava soltinho e subia quase sem dar por isso, a certa altura senti o ar a ficar mais frio, puxei os manguitos para cima e olhei para o relógio, já íamos quase com 1000+! Cerca de uma hora depois estava virado o primeiro monte e, melhor sensação do mundo, as pernas responderam assim que lhes pedi para correr na descida. 


Ao contrário do que é habitual, olhei muito pouco para o perfil antes da prova. Aliás, acho que nem olhei. A Lousã não é conhecida propriamente pelas subidas muito longas, mas antes pelo constante parte pernas, quer seja maioritariamente a subir ou a descer. E assim foi. Um tricotado de trilhos atrás de trilhos, com passagem por ribeiros e aldeias do xisto perdidas pelos montes, mais ou menos técnicos, com mais ou menos pedra, a Lousã ia-se mostrando single após single. 

Numa qualquer aldeia do Xisto (Talasnal?) com o Ranger Flávio


O primeiro abastecimento a sério (houve um pequeno, num controlo aos 10km) foi na aldeia do Talasnal, aos 16km. Há 4 anos, depois de ter criticado os abastecimentos do Louzan, decidi que nunca mais ia voltar a falar de abastecimentos. Pontualmente quebrei a regra e vou ter que voltar a fazê-lo desta vez. Se em 2015 foram fracos, este ano estão certamente no top dos mais faustosos! Muito perto de passar aquela linha ténue que distingue um abastecimento de uma prova de um buffet de casamento! Quis demorar-me o menos possível, estava a sentir-me super bem e muito motivado porque ia a acompanhar malta que normalmente anda muito à minha frente. A descida seguinte acentuou as boas sensações, mas era a subir que me estava a sentir melhor e inclusivamente ia ganhando terreno a quem ia mais à frente. Foi verdadeiramente um sol muito forte, mas infelizmente de pouca dura...

MC
A minha prova começou a virar por volta dos 20km. Depois de uma separação da prova de 29km, entrámos numa zona de autentico parte pernas. Quase sempre a subir, mas constantemente a variar entre pequenas descidas a pique e picadas a subir. Subimos e descemos dezenas de vezes, cada vez tinha mais dificuldade em acompanhar o Flávio, companheiro que fez grande parte da prova comigo. O carrossel estava a ser devastador e as pernas foram-se apagando aos poucos, até já não responderem de todo. Aproveitava as partes planas para caminhar e tentar recuperar, antes de respirar fundo para subir vagarosamente ou apenas tentar não cair nas descidas íngremes. Dois km disto depois, chegámos ao abastecimento dos 22km, onde estava a Sara. Demorei-me bastante mais neste abastecimento e consequentemente arrefeci bastante. Voltei a puxar os manguitos para cima e calcei as luvas antes de me fazer a um trilho enorme que nos levaria de volta à cota 1000, depois de subir 350m. 
Uma das tais picadas a subir. MC
Nesse parte pernas ainda passámos por sitios destes, a fazerem lembrar a zona de Gondramaz. MC
Felizmente, esta era daquelas subidas que gosto. Comecei muito mal, mas à medida que o corpo foi entrando na subida fui ganhando confiança e de maneira constante aumentei o passo. Quando viramos o cume finalmente ficamos expostos ao sol o que ajudou a aquecer as mãos que já doíam bastante do frio! Estávamos agora a descer para o Candal em trilhos e estradões bons de correr e, ténuamente, as boas sensações estavam a regressar.

Uma parte da subida, muito limpinha. MC
A descida, com o Candal lá ao fundo. MC
No Candal voltei a encontrar a Sara, mas desta vez de fugida já que não havia abastecimento. Estávamos com cerca de 2300D+ e prestes a iniciar a ultima subida, que nos levaria até ao Trevim nos 1200m. Depois de ultrapassado um circo provocado por um rapaz qualquer dos 29km que decidiu voltar-se para trás e dizer que o pessoal da ultra devia ter ido por outro caminho, provocando o caos num grupo de umas 20 pessoas, lá chegámos ao inicio do meu cabo das tormentas: um interminável corta fogo que nos levaria até aos 1000m. 

Ao contrário de todas as outras subidas da prova, esta não era num trilho a serpentear. Era um corta fogo, puro e duro. Uma reta de 1.4km e 350D+ onde se via o final assim que começávamos a subir e olhávamos BEM lá pra cima. Ok, não era um trilho, mas também não era parte pernas, uma subida constante até podia ser bom pra mim, pensei eu. Vá, vamos a isso. 

Puuuuuxa
Meti um passo pequeno e marquei o ritmo da subida com os bastões, muito certinho. Perna direita, braço esquerdo, perna esquerda, braço direito. A estratégia estava traçada, agora era só passar aquele desconforto inicial, entrar na subida e começar a papar malta. 

Vá, vocês os 3 podem passar por mim, mas deixem-me só entrar na subida que já vos digo!

Bom, tu também, passa lá, ainda estou a ver os outros e lá ao fundo ainda vejo a camisola amarela do Flávio, é só uma questão de tempo até começar a carburar e já ganho terreno!!

Oh porra..mais 5 a passarem.. então mas...

Ok. Houston, we have a problem!

Olhava vezes sem conta para trás e só via gente a aproximar-se, não conseguia colar em ninguém e todas as minhas referencias da frente iam ganhando metros. A subida era dura, mas nada do outro mundo. Eu é que tinha irremediavelmente rebentado. 

Ainda antes do abastecimento no sopé do Trevim, a seguir ao baloiço da Lousã, passámos por uma zona de singles em terreno quase plano, um espectáculo para correr. Mas desta vez as pernas estavam mortas e enterradas, já não saía o mais tímido trote. Era só ver gente a passar e eu cada vez a desmoralizar mais.

Lindo. E andei eu a arrastar-me por aqui. MC
Esta foto no baloiço comigo e os meus miudos obviamente não é da prova, mas tá do caraças e eu quero metê-la aqui :)
Arrastei-me até finalmente chegar ao abastecimento, mais uma vez completissimo, onde comi uma sopa bem quentinha. Faltavam só 200 e poucos metros de subida até ao Trevim e depois seriam 10km sempre a descer. Mas nem isso me animava. Arrastei-me pela subida, sempre sem parar, mas constantemente a ser virado por pessoas. 

Conquistado o alto do Trevim, ponto mais alto da Serra da Lousã, olhei para o relógio e este marcada 33km com 3100D+. Um Pisão! Grande abuso esta prova. Restava nada mais nada menos que 10km de descida, que nos fariam perder 1000m de elevação.

O Trevim lá ao fundo. MC
Vista lá de cima. MC
Fiz-me a ela com a confiança a roçar o zero. Mais um, dois, três, quatro passavam por mim. Até que, aos 2km de descida muito atabalhoada, passa por mim o Carlos e o Bruno. Meti conversa com o Carlos, um conterrâneo, e tentei por tudo acompanhar o ritmo dele na descida. Aos poucos ele foi-me rebocando pela rede interminável de trilhos incríveis que compunham a descida. E, mais uma vez, deu-se o milagre do trail! De morto a enterrado renasci e estava de novo a sentir-me bem! Olhava para a paisagem brutal, ainda aos 1000m, enquanto descíamos num maravilhoso trilho na encosta. Lembrei-me da viúva, em Sintra, quando penetrámos na floresta num single de terra mole e muito escura. Agarrei-me às árvores para fazer aquelas curvas mais apertadas e hipnotizei-me com o som da minha respiração e dos passos a martelar a terra mole. Sorria cada vez mais à medida que via os quilómetros a passar sem dar por eles. Que descida incrível! Dizem-me que aqueles trilhos foram quase todos abertos de propósito para esta prova, pois bem, Montanha Clube, dou-vos os parabéns. Mesmo que o resto tivesse corrido tudo mal, aquela descida do Trevim à Lousã valeu pela prova!

MC

MC
Confessei ao Carlos que se não fosse ele provavelmente teria demorado uma boa meia hora a mais, que lá em cima já tinha atirado a toalha ao chão. Disse-me que ele próprio se motivou por irmos a andar bem, por isso foi mutuo. É sempre surpreendente perceber como a parte psicológica é fundamental numa ultra. 

No final dessa grande descida. Penso eu...
Cruzámos a meta juntos, 6h50 depois da partida, 44km e 3200+ conquistados. Confesso que não fiquei contente com a minha prova, de todo. Acho que estava mal habituado. Depois de me sentir bem do inicio ao fim em Abrantes e no Pisão achava que era capaz de tudo, mas o Trevim meteu-me no meu lugar. Até estava um bocado aborrecido, mas o entusiasmo dos Joões, que fizeram a viagem para baixo comigo e com a Sara, tratou de me contagiar e animar. Enfim, não era bem o que eu queria, mas se calhar era o que eu precisava! (hãn, e esta ligação espetacular ao titulo do artigo? Ah pois é)

Na chegada. MC
Quanto ao Ultra Louzantrail, acho que perceberam ao longo do texto que foi um sucesso brutal.  Tudo no sitio e quantidades certas. Um percurso equilibrado super desafiante, muito bem marcado, apoio do público em muitos sítios, abastecimento excelentes, ambiente na partida e chegada e ainda competitividade quase sem precedentes em Portugal, principalmente nos 29km. Se há 4 anos fiquei desiludido, desta vez fiquei totalmente rendido. O Louzantrail é, sem dúvida alguma, uma das melhores provas do país. Parabéns a todos!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Aquele post #5

"Esquizofrénico, estável ou nenhum dos dois. Espero apenas que 2018 seja mais um ano com muita montanha, muita aventura e muitas horas a fazer aquilo que mais gosto, com quem mais gosto. Mal posso esperar!"

Foi assim que acabei o post resumo de 2018 e que estive agora a reler. Ora, assim de repente: houve montanha, houve aventura, houveram muitas horas (426, segundo o Strava) a fazer o que gosto e definitivamente rodeado por pessoas de quem gosto. Por isso, vou começar pela conclusão: 2018 foi um sucesso!

Mas nem tudo correu bem.

Primeiro foram as sessões de ginásio, que tanto me ajudaram em 2017 e no inicio de 2018. Gostava mesmo daquilo, tanto que já estava a fazer 3 por semana, a juntar aos 6 treinos de corrida. Infelizmente é muita coisa para encaixar nas madrugadas e estava a sair do ginásio às 8, depois de 1 hora de corrida e 1 hora de ginásio, quando tinha que sair para o trabalho às 8:20. Eram 3 manhãs demasiado stressantes e tive mesmo que abandonar. Talvez quando os miúdos forem mais velhos volte a ter disponibilidade ao fim do dia.

Depois foi a porcaria de um músculo da coxa, que me azucrinou desde Abril até Outubro. Fui fazer o MIUT lesionado, naveguei em piloto automático até ao X-Alpine para não agravar e passei UM MÊS INTEIRO sem correr, em Julho. Mas nem tudo a coxa estragou. Como não podia correr acabei por nadar todos os dias desse mês, redescobrindo uma paixão antiga e atingindo uma forma interessante. O resultado foram algumas travessias, até 7 ou 8km, e uma prova de Swimrun. Depois de voltar a correr livremente a natação acabou por ficar novamente para trás, mas não está esquecida. 2019 vai meter água, de certeza!

2018 foi ainda o ano em que, depois de andar anos a adiar, finalmente passei a tomar atenção ao que como. Começou pelo açúcar, que eliminei logo em Janeiro (fez agora um ano), passei a consumir muito mais verdes e frutas e menos arroz, massa e pão. Sinto-me melhor! Principalmente a correr, mas também no dia a dia. Com o mesmo nível de treino perdi cerca de 5kg, quando achava que já estava no peso ideal. Não vos vou dizer que a mudança foi radical, mas sinto-me bem e tenho a certeza que estou a fazer bem ao meu corpo.

Quanto a números, o mês de paragem acabou por mesmo assim não afectar o volume de km. Foram 3600 de corrida, o mesmo do ano passado. Já o desnível acabou por ser menor, 123k D+, números parecidos com 2017, contra 140k de 2018. Menos semanas de 3000+, muitas com 2000+. Não tenho grande explicação para isto, também não sinto que a minha forma tenha sido afectada, por isso não lhe dou grande importância.

O ano começou bem, logo em Janeiro nos Reis. Depois andei enfiado em buracos em Poiares e lidei com alguns problemas intestinais no Sicó. A preparação para a primeira grande do ano continuou numa aventura sky em Vouzela, que adorei. Finalmente chegou o MIUT, pela quarta vez. Não foi o melhor ano nem o pior, foi o ano em que percebi que, como todos, tenho limitações e que por mais que queira há patamares que não vou atingir. A seguir fiz a tal gestão até chegar aos Alpes, com passagem pela Serra Amarela no Gerês, aquela que para mim foi a prova do ano. O X-Alpine foi mais uma daquelas "aventuras de uma vida" que revisito muitas vezes em pensamento. O mês seguinte foi de descida à terra. 30 dias sem correr, coisa que não acontecia há anos. Nadei, muito, e até fui ao pódio de uma prova de Swimrun, um mundo novo que faço intenção de explorar no ano novo. Até ao fim do ano ainda estavam por fazer os 100km mais rápidos da minha vida, numa prova diferente mas que foi muito dura, em Abrantes, e mais incursões pelo sky, na sempre espetacular Serra da Freita e na irmã Serra da Arada, naquela que foi a surpresa do ano.







Em 2019 vou interromper uma corrente já com alguns anos e não vou fazer nenhuma prova no estrangeiro. Devido à contenção orçamental mas também porque ainda não estou com vontade de fazer 100 milhas novamente. Cada vez gosto mais de provas de 100km, sinto-me confortável e acho que ainda há muito para explorar nessa distância. Talvez 2020 seja o ano de voltar aos 168km! 

Quantos a provas, as três grandes serão a Travessia Integral da Serra de Montemuro (110km), já daqui a 4 semaninhas, o MIUT (quem diria?!?) e o Ultra Trail Serra da Freita. Sim, vou finalmente à Freita! Como fico com Julho livre por não ir ao estrangeiro abre essa hipótese. 

Como disse lá atrás, 2019 também vai meter água. Quero fazer pelo menos duas provas de Swimrun e talvez uma loucura qualquer de águas abertas. É um desafio que me alicia bastante.

Vou repetir algumas das melhores de 2018, como a Serra Amarela e o Pisão, experimentar algumas provas novas e ainda fazer um regresso à maratona, no Porto! Quero melhorar nas distancias de trail até aos 50km, é onde sou mais competitivo e confesso que me dá grande pica andar no limite. 

Ao contrário do que parece ser a corrente geral, gostava de em 2019 fazer mais provas! Se não as fizer será mesmo por falta de dinheiro, porque eu gosto muito de provas. Dá-me oportunidade de conhecer sítios novos e testemunhar o esforço de organizações, o que me dá muito prazer. 

As linhas gerais para 2019 estão traçadas, mas muito ainda haverá para descobrir. De certeza que vão ser 12 meses intensos com "muita montanha, muita aventura e muitas horas a fazer aquilo que mais gosto, com quem mais gosto." Até já!



segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Pisão Extreme Skyrace - O culto do desnível

Acho que é inegável que vivemos numa época de ouro do trail em Portugal. Sim, do trail. Durante algum tempo fiz tudo por resistir ao inglesismo e insisti em chamar-lhe corrida de montanha, mas acho que nem é justo para as antigas corridas de montanha estarem metidas ao barulho, até porque muitas vezes os trails que se fazem só com muito boa vontade se podem considerar na montanha. Esse, o trail, existe em Portugal há pouco mais de dez anos e quer eu, que ando nisto há meia dúzia de anos, quer aqueles que começaram em 2018 estão a experiênciar o nascer de uma nova modalidade desportiva no nosso país. Tem sido exponencial de ano para ano o surgimento de novas provas. Umas morrem, outras criam raízes. Temos assistido a verdadeiras loucuras nas corridas a inscrições, mesmo com preços muitas vezes proibitivos. Há muitos que vaticinam a insustentabilidade disto, que são provas a mais, que o pessoal não pensa no futuro, que mais ano menos ano já ninguém liga ao trail. Não podia estar menos de acordo. Adoro ver o dinamismo deste desporto pelo qual me apaixonei. Adoro descobrir novas provas e organizações e com isso novos recantos do nosso país. Adoro que se arrisque na criação de novos desafios e sentir a dedicação das dezenas de pessoas que hoje em dia raramente organizam uma má prova, porque essas rapidamente desaparecem do mapa.

Nos 6 ou 7 anos que pratico trail participei em inúmeras boas corridas. Mas raramente acabei uma prova a sentir que se tinha passado algo especial, algo diferente de tudo o resto. Curiosamente, aconteceu duas vezes este ano, o que mostra bem a vitalidade do desporto. Primeiro na Serra Amarela e finalmente na maior surpresa do ano: a inacreditável Pisão Extreme Skyrace.

Foto fantástica retirada do feed da organização
Chegámos ao Bioparque de Carvalhais, no sopé da Serra da Arada, às 7:30, meia hora antes da partida. Saímos de São Pedro do Sul debaixo de um nevoeiro cerrado. A minha esperança que fossem nuvens baixas confirmou-se quando chegámos perto da cota 500 e se começaram a ver os contornos da montanha. Estava um dia frio e previa-se céu limpo, condições ideais. O ambiente na partida estava muito bom, cerca de 150 atletas e muitos familiares aguardavam juntos enquanto o sol nascia. O Joca ia animando as hostes e reencontravam-se amigos destas andanças, até que às 8 em ponto, hora e meia depois da partida da prova grande, lá fomos nós!

Fotografia à chegada do Parque. A única que tirei o dia todo....
Trezentos metros de alcatrão e entrámos no trilho. Surpresa: era a subir! Não sei se já ouviram as "estatísticas" desta corrida, tem uns impressionantes 3200D+ em menos de 35km! Simplesmente não há espaço para terreno plano e todas as inclinações são monstruosas. O entusiasmo inicial ainda levou muita gente a trotar nesta primeira subida, que nos levaria até perto dos 900m. Primeiro em trilhos fáceis, mas à medida que fomos ganhando metros à encumeada a coisa foi-se complicando até estarmos a saltitar numa crista de maciços de granito gigantes.


A partida estava situada no extremo sul da Serra, por isso só entrámos verdadeiramente na montanha depois de virarmos os 1100m pela primeira vez, pelos 5km. Só vos digo que foi de cortar a respiração. Pequenos amontoados de nuvens preenchiam os vales mais profundos enquanto as pregas verdes e castanhas das encostas davam um relevo quase surreal à montanha. Tive que parar um pouco antes de me fazer à descida para absorver aquilo. Até ia tirar o telemóvel da mala para tirar uma foto, mas os bombeiros que lá estavam devem ter estranhado ver-me parado e começaram a dizer "é aí à direita!!". Pronto, deixa lá a fotografia...

O que vale é que alguém as tira por mim
Foi aqui nesta primeira descida que a prova se começou verdadeiramente a revelar. A primeira subida, dividida em dois por 1km a descer ali pelo meio, passou tão depressa que nem me lembro dela, mas lembro-me perfeitamente de descer por um dos dedos da garra, num trilho super técnico e desafiante. A inclinação era brutal, como não podia deixar de ser, e parecia que quanto mais descíamos mais ela empinava. O trilho era maravilhoso, com bocados corriveis a intercalar o martelar super técnico da maioria do caminho. Era no entanto impossível correr descansado ou descontraído, o trilho exigia uma total concentração. Chegámos ao primeiro abastecimento, em Gourim, já depois de virar o fundo do vale e escalar uma pequena parede. Quase hora e meia para os cerca de 8km, entrei no abastecimento quase em euforia. Virei-me para trás e vi finalmente a famosa Garra em todo o seu esplendor, com pontos coloridos a rasgar uma das cristas. Incrível.

Fotografia da Garra pela organização. Não sei qual foi o dedo que descemos.
Tal como na Zela, lá estava um senhor dedicado exclusivamente a fatiar um presunto. Obviamente que não quis desvalorizar o esforço e comi umas 4 ou 5 fatias empurradas com isotónico. A digestão foi feita numa "pequena" subida de 200+ feita a escalar uma cascata seca, até que virámos mais um monte e iniciámos a descida para a Aldeia Mágica de Drave. Oiço falar desta aldeia há anos, estava muito curioso por a conhecer e não defraudou as expectativas. Perfeitamente entalada no meio de encostas enormes, sem o menor dos comodismos, pareceu uma viagem no tempo. Mas nem deu para respirar porque imediatamente a deixámos para trás em mais uma subida a pique.


Esta foi a parte mais alucinante da prova. Foram 3 subidas e 2 descidas seguidas, todas com perto de 1km e 300m de desnível! O mais impressionante foi o vale a seguir a Drave. Enquanto descíamos para mais uma vez nos enterrarmos no fundo, uma parede, que parecia perfeitamente vertical, erguia-se à nossa frente. Desde o inicio da descida que a estudava pelo canto do olho, à procura de uma pequena aberta que desse para aliviar a subida, mas ela parecia infinita. Como uma onda que se vai formando lá ao fundo e vai crescendo até estar a rebentar mesmo em cima de nós. Até que finalmente vi uns pontos amarelos a rasgar a encosta. Tive que parar e apreciar aquilo com calma. Era perfeitamente vertical! Continuei a descida com um sorriso de orelha a orelha, ansioso por chegar à base daquela loucura! 

Já fiz muitas subidas. Em Portugal, nos Alpes e nos Pirinéus. Já fiz duplos km verticais, já subi aos 3500m na Serra Nevada, mas uma coisa daquelas nunca tinha visto. Uma subida completamente selvagem, sem trilho, vertical. Do ponto mais baixo ao ponto mais alto, era só isso que precisávamos de saber, depois era só vencer os 40% de inclinação MÉDIA daqueles 800m. Os bastões eram inúteis, deixei-os pendurados nos pulsos enquanto usava as mãos para me elevar no xisto afiado. As marcações muito espaçadas indicavam apenas o ponto inicial e final, não havia trilho para seguir. Que maravilha. Tenho a certeza que aquilo foi cansativo, mas sinceramente não me consigo lembrar de ir em esforço!
O companheiro Vasco em plena jornada de trabalho.
Depois de descer para o segundo abastecimento, em Covas do Monte, faltavam apenas dois montes até ao final, os mais longos. O primeiro, logo a seguir ao abastecimento, levou-nos a subir o famoso Portal do Inferno. Completamente enfiados numa garganta apertada, com cascatas e ribeiros por todo o lado, o trilho subia por patamares intermediados com pequenas descidas. Super técnico do inicio ao fim. Uma subida lindíssima, bem embrenhada na montanha. A descida seguinte, para o terceiro abastecimento, em Fujaco, foi das mais longas e fáceis. Uma espécie de miminho da organização. Quase 3km em estradão a fazer lembrar os zigue-zagues do Açor, percorridos a muito bom ritmo, com pernas de quem estava em prova há mais de 4 horas mas praticamente ainda não tinha tido oportunidade de correr. 

Covas do Monte, tirado do Google
Apenas uma maminha nos separava da meta, mas era precisamente a maior. A subida tinha nada mais nada menos que 500+ em 1.4km! Mais uma vez completamente exposta, selvagem, sem trilho. Tínhamos que ir a trabalhar do inicio ao fim, à procura do caminho que implicasse menor amplitude de movimentos. Depois daquela loucura que vos falei lá atrás foi a minha segunda subida preferida da prova, demorei 40 minutos a vencê-la! O melhor de tudo foi chegar ao estradão na encumeada, que subia ligeiramente, e as pernas responderam imediatamente ao trote! É uma sensação impagável. Mesmo antes de virar para a descida olhei para o relógio e vi 28km com 3000+. 

Os 5km finais têm pouca história. Uma espécie de bonança depois da tempestade que foram os primeiros 30km. Sempre em trilho, lá fomos ganhando metros até que a voz do Joca estava mesmo já ali. Cruzada a meta ainda nos ofereceram um par de meias da socks by personalizadas com o logo da prova e um almoço de frango no churrasco.

Ainda não há fotos da chegada vai esta que está gira.
Disse e repito: sou fã desta organização. Se conseguir, não vou falhar uma prova deles. O Pisão foi absolutamente memorável, correu tudo na perfeição e até um dia esplendoroso ajudou à festa. O percurso foi do mais desafiante que já apanhei, violentíssimo. Não é de todo para estreantes e é bom que se perceba isso antes de fazer a inscrição. Um ambiente muito familiar, ao que as poucas inscrições disponibilizadas contribuíram muito. Que assim se mantenha! Muitos parabéns a todos os envolvidos, tenho mesmo a impressão que foi um dia especial e podem estar de peito bem inchado porque fizeram história no nosso desporto!

Parabéns a todos, e obrigado!
Quanto à minha prova, dificilmente podia pedir melhor! Não tive um momento baixo durante todo o percurso e senti sempre que tinha pernas. Em termos de tempo final foi bem melhor do que tinha projectado, mas também é difícil fazer previsões neste tipo de percurso. Foram 6h34 para os 35km, o que me valeu um 18º lugar nos quase 150! Nada mau! 

Agora venha o Natal, os doces e a comida e....bah, quem é que eu quero enganar? Que se lixem os doces, eu quero é desnível!