As minhas corridas na estrada

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Acabou :(

Oh. Acabou-se... :(

Oito meses de antecipação, duas semanas de ansiedade, 3 dias de intensidade máxima e finalmente uma semana a flutuar numa nuvem de endorfinas depois... PPUUUMMM aterrei de cabeça numa tenebrosa depressão pós-UTMB. Vejo fotos, leio relatos (deste e doutros anos), vagueio pelo vale de Chamonix enquanto insiro dados numa folha de Excel, mas a verdade é que acabou mesmo. 

É altura de seguir em frente.


Antes disso, para fechar o capítulo Monte Branco, há algumas considerações que queria fazer em relação à prova e semana UTMB. 
  1. Como disse o Sr. Ribeiro o ano passado, "Foi a pior prova que fiz na vida e a melhor e a pior e a melhor e isso vezes mil." A minha prova foi exactamente isto. Foi um desastre, muito longe do que imaginava que ia ser. Não sei exactamente onde falhei, não consigo apontar um momento ou uma decisão errada, mas a verdade é que foi completamente diferente do que planeei. A prova que tinha imaginado, a das 40 horas, meti-a na prateleira e arregacei as mangas, porque a outra prova, a das 44h30, tive que a ir arrancar lá bem ao fundo, a um sítio que nem conhecia. Foi linda, intensa e emocionante. Foi isso tudo! Mas também foi enervante, stressante, dolorosa e, há que dizê-lo, de um sofrimento muito grande. Mas sabem que mais? Não queria que fosse nem um bocadinho diferente.
  2. A semana UTMB em Chamonix é unanimemente reconhecida como a semana anual do trail a nível mundial. Realmente é verdade aquilo que toda a gente diz, ali vive e respira-se trail em todas as esquinas. Mas, e agora vou ter que ser sincero, não fiquei grande fan deste ambiente pré-prova em Chamonix. É demasiada confusão para mim. Quando andava na GIGANTE feira de trail só conseguia pensar qual era o caminho mais rápido para a saída. Os preços (de tudo) são muito altos, há gente e movimento a mais. No dia do levantamento do dorsal cheguei a casa completamente rebentado, e no dia da prova, antes da partida, comecei com uma valente dor de cabeça. Eu sei, sou um bocado bicho do mato, e de facto o ambiente no km inicial é absolutamente eletrizante, além da loucura que foi o km final, mas o resto foi de mais para mim.
  3. O percurso da prova é perfeito. Não mudava um centímetro, mesmo na terrível subida final a Tete aux Vents. Não é demasiado técnico, mas também não é corrível ao ponto de se tornar monótono. Pelo contrário, é sempre muito variado, com todo o tipo de subidas e descidas. A paisagem é absolutamente incrível, o apoio de toda a gente é indescritível, os abastecimentos são completíssimos, as marcações não deixam um pingo de dúvida.. Enfim, para mim é a prova perfeita. Se estão a pensar fazer 100 milhas esta é A prova, e se estão a considerar os 100km, o CCC é uma excelente opção.
  4. A recuperação (fisica) tem corrido muito bem. Tenho corrido, pouco, sempre com muito prazer e sem dores, além das mazelas nos pés que entretanto já sararam completamente. 
  5. Para terminar, quero agradecer a todos os que acompanharam a prova on-line, os que me felicitaram por a ter terminado e depois pela crónica que escrevi daqueles dias (que numa semana já é o segundo artigo mais lido de sempre por aqui!). Foi realmente emocionante reler tudo o que escreveram, e se não vos agradeço e respondo a todos individualmente é porque não quero que seja uma coisa demasiado forçada. Estas ultra-provações, além de físicas, são uma experiência muito emocional, acreditem que senti todo o vosso apoio durante a prova e mimo nos dias seguintes. Obrigado a todos, do coração.

Então e o que se segue agora?

Pois bem, está planeado um regresso às origens: a Maratona. Já há algum tempo que tinha vontade de voltar a correr a mítica e o regresso está marcado para dia 6 de Novembro no Porto. No entanto não estou com vontade de me dedicar a ela a 100%, por isso vou substituir alguns longos por treinos no monte. Fazer apenas o suficiente para correr uns 42.2km confortáveis e passar um fim de semana com amigos no Porto. Para o trail há o regresso certo ao irritante Trail de Casainhos (tenho a certeza que desta é que aquilo não vai prestar para nada!) e em principio à terceira edição do Grande Trail das Lavadeiras. Duas provas especiais para mim. Até ao fim do ano ainda irei participar na São Silvestre de Lisboa, para tentar finalmente baixar aos 37 minutos nos 10km. 

Entretanto já se fazem planos mais ambiciosos para 2017. Por enquanto só uma certeza: o MIUT 2017. Vou para o Hat-Trick! Não consigo não ir ao MIUT. Este ano será acompanhado por muitos amigos e com um objectivo especifico que mais tarde vos falarei. Até lá, em principio participarei nos Abutres e no Ultra Piodão, duas das minhas provas preferidas. Quanto às provas grandes, além do MIUT, tenho outras hipóteses em mente, mas ainda muito por decidir. Até lá, vamos falando :)

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Ultra Trail du Mont Blanc 2016 - A viagem de uma vida.

Às vezes, numa grande ultra maratona, há um momento em que deixas tudo para trás. Esqueces os objectivos de tempo ou de classificação, esqueces aquela celebração que tinhas sonhado fazer durante meses, esqueces as paisagens, esqueces onde estás, como ali chegaste, a tua família e os teus amigos. Juntas tudo, enfias dentro de uma grande mala e arrumas a um canto. De repente toda a tua vida se resume a um único objectivo. Tudo o que fazes tem que ser com a maior eficácia, sem distracções, com concentração, foco e determinação. Geres as dores, o tempo, o esforço. Tudo tem que funcionar perfeitamente afinado e oleado. Tudo para aquele que se tornou o grande objectivo da tua vida: conquistar o próximo metro.


Não vos vou dizer que o UTMB era o sonho da minha vida. Na verdade, nem sequer faço trail assim há tanto tempo! Tudo começou em 2011, na Lousã, e desde então as coisas fugiram um bocado do meu controlo. De repente estava a fazer ultras, depois provas de 3 dígitos, depois o MIUT e, de repente, comecei a pensar "e se...?". Fiz as provas qualificativas, inscrevi-me, tive sorte no sorteio e em Janeiro deste ano estava lá dentro. Parecia tudo tão simples! A própria qualificação para o UTMB sabia a conquista, agora tinha oito meses para me preparar, ir lá desfrutar da prova e tirar umas fotos em Chamonix. Confesso que durante estes oito meses raramente pus a hipótese da coisa correr mal. Delineei o plano a régua e esquadro e preparei-me bem, tudo afinado ao milímetro, só faltava correr as 100 milhas! Mas, de repente, chegou aquele momento. O momento em que deixei isso tudo para trás.

Horas antes desse momento, na Place de l'Amite, em Chamonix, estava de olhos fechados, arrepiado, a ouvir Vangelis no sistema de som enquanto um ambiente absolutamente frenético explodia por toda a vila. Entalado entre 2555 corredores e, literalmente, milhares de espectadores, limpei umas lágrimas malandras que se formavam, dei um ultimo abraço ao meu companheiro João e ouvi a contagem decrescente com o pórtico da meta a cerca de 200m de mim. Estava na hora, ia começar a maior aventura da minha vida.


A primeira etapa da prova era uma espécie de volta de consagração com 9km. E, meus amigos, consagração é uma palavra pequena de mais para descrever o primeiro destes 9km! Chamonix estava completamente à pinha, a lembrar aqueles sectores com mais público do Tour de France, a puxar desde o primeiro até ao ultimo atleta! 

Chamonix - Les Houches. 9km, 118+
Apesar de serem 9km em trilhos largos e estradões, era impossível dispersar o pelotão, éramos demasiados. Seguimos sempre junto ao Rio L'Avre, que corria com um caudal furioso proveniente da neve e glaciares que derretem no verão. Um sobe e desce muito suave, a entrar nos típicos bosques alpinos, muito cerrados a cotas baixas (perto dos 1000m). Seguimos todos em silêncio, nitidamente atordoados pelo entusiasmo demonstrado pelos milhares de pessoas que foram pontuando estes primeiros quilómetros. Em Les Houches tive o primeiro encontro durante a prova com a minha super comitiva: a Sara, Mel & Manel mais o Zé Nuno e a Joana, dois amigos que passaram estes dias connosco. Eles próprios estavam a começar uma grande aventura e na altura nem sabiam o que os esperava!

Encontro com a comitiva em Les Houches
O ritmo até Les Houches andou pelos 6min/km, o que demonstra bem como este segmento foi fácil. Mas as facilidades iam terminar muito rapidamente. Logo de seguida iríamos apanhar a primeira de 10 montanhas que haveríamos de virar. Vamos a ela!

Les Houches - Saint Gervais. 13km, 883+
Apesar desta ser a primeira subida da prova, continuámos em modo "vamos ser simpáticos com eles". Com o vale de Chamonix a ficar pequeno lá em baixo, subimos os 800m em 6km num estradão simpático, sempre aos zigue-zagues que cruzava várias vezes uma pista de ski. Nesta altura tudo era maravilhoso. Não sabia para que lado olhar, é espectacular a sensação de estar completamente imerso nas montanhas, um postal vivo a 360º. Cumpri escrupulosamente com o plano de alimentação, uma barra a cada hora. Sentia-me muito bem e controlado, mas a lutar com o desconforto provocado pelo calor e humidade muito altos. Felizmente (achava eu) a noite estava a chegar. 

Foto do Miro Cerqueira a meio da primeira subida
A descida foi exactamente o que eu imaginava que seria o UTMB. Um trilho largo, simpático, sempre aos ésses pelo meio de árvores gigantes e nascentes de água, muita erva verdinha, chão de terra bom de correr, declive pouco exagerado..uma delícia! Logo aqui se notou uma característica destes trilhos alpinos: quase sempre do topo da subida dá para ver o fundo da descida. É uma sensação quase vertiginosa perceber o caminho que temos pela frente, invariavelmente muito longo! Esta descida, por exemplo, perdia 1000m em 7km. Era das mais fáceis da prova e provavelmente a mais longa que já tinha feito até àquela altura! Só bastante mais tarde iria perceber que estas descidas deliciosas me deixariam tão perto do abismo.

Em Saint Gervais, nos 818m (cota mais baixa de toda a prova) teríamos o primeiro abastecimento sólido. Ainda demasiada confusão para o meu gosto, cumpri o plano de ir trincando qualquer coisa nos abastecimentos para complementar barras/geis e saí logo dali. A noite entretanto tinha caído mas guardei a paragem para colocar frontal e camadas térmicas para quando estivesse ao pé da Sara e do resto da comitiva, que estavam a seguir ao abastecimento à minha espera.


Vesti o corta vento e coloquei o frontal. Ainda estava calor, mas é importante não deixar o corpo arrefecer e ter que despender energia para o voltar a aquecer. Foi aqui, aos 21km, que finalmente acabaram as facilidades. Esperava-nos nada menos que uma subida com 24km e cerca de 2000d+. Despedi-me deles, roubei-lhes uma fatia de pizza e meti a minha game face. Só os voltaria a ver em Courmayeur, 60km depois. O UTMB ia começar.

St Gervais - Les Chapieux. 30km, 2000+
Foi nesta mega subida que finalmente me apercebi da tarefa hercúlea que ainda teria pela frente. Rapidamente percebi uma coisa: no UTMB é tudo em grande. Todas as subidas são intermináveis, todas as descidas são massacrantes. Esta subida até Croix du Bonhomme, muito perto dos 2500m de altitude foi das que mais me impressionou. Desde St Gervais foram 4h30 sempre a subir. Primeiro 10km suaves, num estradão simpático com muita gente a assistir, mas à medida que conquistávamos metros à montanha o nível ia subindo. O estradão passou a trilho largo, que depois passou a trilho e finalmente a caminhos cheios de pedra muito técnicos. Cada vez mais inclinado. Subi sempre controlado, mas um certo desconforto estava a apoderar-se de mim. A muita humidade, que me fez transpirar litros, também me fez perder muitos sais e um dos quadricepes andou muitas horas no limiar da câimbra. Aumentei a toma de sais para tentar controlar a situação, o que deve ter provocado algum desequilibro já que comecei a ter dores agudas na barriga. 

A subida, essa, não facilitava. A cada cotovelo, quando parecia que estávamos muito perto do fim, ela apresentava-nos mais um carreiro interminável de luzes montanha acima. Era quase desesperante, e não era o único a pensar assim. A certa altura um inglês atrás de mim suspira e diz preocupado "my God, it just goes on and on!".

Quatro horas e meia depois finalmente virei a montanha. Esta tinha deixado marcas, principalmente na minha moral. Custou-me, a filha da mãe. Felizmente a descida (mais 5km com 900D-) foi das mais divertidas de toda a prova e aproveitei para desfrutar bem dela. É engraçado que estou a escrever isto e a perceber exactamente os sítios onde errei, mas lá chegaremos... Entretanto estava a aproveitar o trilho quase infinito, sem nenhumas derivações (esta prova quase que nem precisava de marcações) que serpenteava encosta abaixo até desembocar num estradão. Aproveitei mais uma vez para abrir a passada e ganhar algum tempo, quando cheguei ao abastecimento já tinha recuperado o ânimo. Peguei numa sopa e num copo de café e sentei-me na rua, onde estava menos confusão, a comer calmamente. À saída do abastecimento foi altura de uma inspecção surpresa do material obrigatório (atenção, nesta prova não facilitam MESMO) e parti de barriga cheia para o prato seguinte, e que prato: a conquista dos Col de La Seign e des Pyramides Calcaires.

Les Chapieux - Lac Combal. 15km, 1300+
O UTMB é uma prova pensada ao mais ínfimo pormenor, e acho que a secção seguinte foi a prova disso. Tanto a subida a Bonhomme como a descida a Les Chapieux foram muito duras, agora em vez de nos colocarem novamente muita carga em cima, apanhámos um estradão com 4km a subir ligeiramente pelo vale acima. Foi o ideal para recuperar da tareia anterior e preparar o que aí vinha. Claro que não durou muito, rapidamente se começaram a perceber as luzes brancas lá MUITO em cima na montanha. Saímos do estradão e entrámos em mais um daqueles trilhos inacabáveis aos ésses por ali acima.

Foi o primeiro ataque aos 2500m, no Col de la Seign. A subida foi toda feita em escuridão total, não havia luar e a única luz era a dos nossos frontais. Sempre em silencio, só intercalado com o tilitar dos bastões e os ocasionais suspiros desesperados. É engraçado que sendo a prova com mais participantes onde participei foi simultaneamente a mais solitária. Nunca andei sozinho no trilho, mas praticamente todas as minhas tentativas de meter conversa em inglês (não falo uma palavra de Francês ou Italiano) não surtiram efeito, e portugueses era raro encontrar. 

A chegada ao primeiro Col coincidiu com as primeiras luzes do dia, ainda antes das 5 da manhã. Muito muito leve, mas o suficiente para inaugurar um dos espectáculos mais incríveis a que já assisti. De repente o negro da noite começou a dar lugar aos contornos dos monstros que nos rodeavam. Ali, por mais altos que estejamos, há sempre uma montanha mais alta para nos intimidar. Tentava adivinhar qual dos triângulos perfeitos e monstruosos seriam as famosas Pyramides Calcaires enquanto fazíamos uma pequena descida de 200- para voltar a subir, desta vez até muito perto dos 2600m de altitude no Col des Pyramides. 

Esta foi das secções mais técnicas de toda a prova. Muita pedra, calhaus de todos os tamanho soltos, gelo e neve, muito difícil a progressão. Já tinha ouvido várias vezes que só diz que o UTMB não é técnico quem nunca lá foi, e agora apoio 100% essa afirmação. As dificuldades continuaram na descida, toda feita com muito cuidado e quase sempre a passo. Desta vez já não havia trilho divertido para recuperar, havia dureza e dificuldade. A única coisa que atenuava, e até fazia esquecer este banho de realidade, era o espectáculo indescritível do nascer do sol sobre o Lac Combal, a 2000m de altitude. 

Tirada por mim
Cheguei ao abastecimento do Lac Combal, km 66, com 12 horas de prova, 4 horas antes do corte. Estava bastante satisfeito com a minha prova até então. A primeira noite teve momentos complicados, mas estava a comer e beber bem, nunca falhei uma hora de intervalo. Estava naturalmente cansado e amassado, mas sem sono e com energia para continuar. Sentei-me no abastecimento a comer mais uma sopa e um chá quente, dois dedos de conversa com um grego e fiz-me rapidamente ao caminho. Só faltavam 13km para Courmayeur, onde estava a minha comitiva, e eu estava deserto para estar com eles!

Combal - Courmayeur. 13km, 468+, 1250-
No entanto, é quando menos esperamos que tudo muda. Uma subida relativamente fácil, com pouco mais que 400+, por um trilho simples em terra, numa paisagem de outro mundo, quase que me arrumou. O ritmo sereno e controlado que tinha aplicado em todas as subidas de repente tornou-se penoso. Custava-me a mantê-lo e a tentação de parar era crescente. Sentia a cabeça alheada, como se não estivesse ali, e as pernas tremiam. Uma ligeira tontura fez-me parar e debruçar-me sobre os bastões. Foi ali que tudo mudou.

Faltava pouco mais que 1km para chegar ao Arête du Mont-Favre, topo da subida (2417m). Custava-me a respirar e parava 30s a cada 4 passos. Uns americanos ao verem-me sentado perguntaram-me se tinha alguma coisa doce para comer, que estava muito pálido. Meti dois géis de rajada, ligeiramente preocupado. Quando cheguei ao topo sentei-me numa pedra e tentei meter a minha melhor cara, não queria que os oficiais da prova me viessem fazer exames médicos. Nesse bocadinho enquanto lá estive sentado a realidade bateu-me como uma porta na cara: faltam 100km para terminar a prova e eu levei uma marretada com toda a força. E agora...?

Bem, um passo de cada vez, vamos à descida.

Foi a segunda mais massacrante de toda a prova. Nove quilómetros onde se desceram 1250m. Uma inclinação brutal durante muito tempo, ainda por cima em trilhos bastante técnicos que exigiam manobra e travagens constantes. Uma tareia monumental para o core e principalmente os quadricepes! A entrada em Itália foi celebrada com um abastecimento a meio da descida, no Col Checrouit. Lá estava uma banda a tocar, italianos a falar alto, boa disposição e ... pasta! Não estivéssemos nós em Itália. Que bem que soube! 

Esta paragem a meio também serviu para dividir a descida em termos de dificuldade, a segunda parte foi onde perdemos quase todo o desnível num trilho super inclinado a fazer lembrar muito o MIUT. O trilho era belíssimo, não me entendam mal, sempre embrenhado na floresta com constantes mudanças de direcção, mas muito duro. Pumba, pumba, pumba, sempre a bater, não dava descanso! Estava completamente atordoado quando entrei no alcatrão de Courmayeur. Descemos brutalmente de altitude e a minha confiança seguiu o ritmo, estava muito lá em baixo. 

Courmayeur era onde estava colocada a única base de vida da prova, dentro de um pavilhão. Lá estava finalmente a minha comitiva para me receber. O interior do pavilhão, no local onde era permitido recebermos assistência, parecia um cenário de guerra. Dezenas de corpos estendidos no chão, apáticos, as famílias com ar preocupado sem conseguirem fazer nada, um calor brutal, muito abafado. Depressa decidir sair dali. Disse à Sara e aos miúdos para irem para o exterior, fui comer e depois encontrar-me-ia com eles na rua. 

Chegada a Courmayeur. Com o Zé Nuno lá atrás a puxar por mim.
Já na rua expliquei-lhes o ponto de situação. Era simples: tinha rebentado. Estava a meio da prova e tinha rebentado. Olha que novidade, pensam vocês, rebentar numa prova de 100 milhas! Pois, o problema é que quando rebentei estava a 100km e quase 30 horas da chegada. Psicologicamente foi simplesmente pesado de mais, rapidamente comecei a entrar num lugar muito negro. 

Quase falecido em Courmayeur
Decidi enfrentar um ponto de cada vez. Agora estava em Courmayeur, seguia-se uma subida muito dura, foi para lá que virei o meu foco. Demorei-me bastante na base de vida, talvez uma hora. Deitei-me na rua junto à minha comitiva sem conseguir dizer grande coisa. Logo ali naquele instante apeteceu-me lá ficar. Mas porra, nem para eles era justo. Não, vamos ver como corre a subida!

Courmayeur - Refuge Bertone. 5km, 800+
Esta subida seria decisiva. Se fosse como a anterior a prova estava condenada, ainda me faltava ganhar mais de 5000D+ até Chamonix, tinha que conseguir subir. Tomei um gel no ponto onde ela inclinou, o que me deu alguma confiança. Continuava a conseguir comer e beber bem, enquanto mantivesse o depósito com combustível podia ser que ele continuasse a carburar. Passou muita gente por mim na subida, nunca consegui encostar em ninguém, mas a verdade é que a fui papando metro a metro, quase maquinalmente, sem parar. 

Tal como na chegada, onde descemos a pique, foi a pique que saímos de Courmayeur, e quando finalmente o vale se revelou por trás das árvores no topo da subida foi mais um daqueles momentos arrepiantes. Mais impressionante ainda que o vale de Chamonix, a cidade Italiana está instalada na única área que não é composta por paredes monstruosas.

Gostei desta subida. Gostei ainda mais de ter chegado ao refúgio com ânimo, sem nunca ter parado. Nesta altura preferia ainda não pensar se conseguia acabar a prova ou não, faltava tempo de mais, mas agora estava concentrado noutra coisa: a travessia entre os refúgios Bertone e Bonatti.

Ref. Bertone - Ref. Bonatti - 7km, 300+
Esta travessia estava para mim como o ex-libris do UTMB, tal como a travessia entre os picos Areeiro e Ruivo no MIUT. E, meus amigos,  não desiludiu nem um bocadinho. Um trilho perfeito, com muito sobe e desce, dezenas de ribeiros a atravessá-lo com água gelada e boa para beber. Sempre na encosta de uma montanha totalmente coberta de verde do lado direito, e o esplendoroso maciço do Monte Branco do lado esquerdo, separado por um vale profundo 1000m abaixo, uma coisa abismal. Cruzaram-se connosco dezenas de caminheiros que estavam ali a passear. Gostava de voltar ali com a Sara e os miúdos, é daqueles sítios que todos deviam visitar antes de morrer.

Reparem no trilho do lado direito. Aqui até eu sou bom fotógrafo.
Nesta fase estava num período tranquilo da minha prova. O ponto baixo de Courmayeur estava ultrapassado. Claro que me sentia cansado, com 90km nas pernas também mal seria. Acreditava que conseguiria continuar mais uns bons quilómetros, mas a sensação de achar que estava feito continuava muito distante. 

O Refuge Bonatti chegou depois de uma subida de 200m a pique, só porque o senhor Bonatti achou que uma casinha aos 1900m não era fixe o suficiente. No abastecimento haviam várias vitimas do calor, terá sido um factor decisivo para um número record de desistências em 2016 (42%!). Felizmente, o calor que para mim costuma ser um factor super limitativo, não me estava a afectar muito. Talvez porque bebi água e molhei-me em TODAS as nascentes que vi, e acreditem que foram muitas neste percurso. Descansei uns minutos no abastecimento e fiz-me à descida até Arnouvaz, base da grande subida até ao Grand Col Ferret, ultima incursão aos 2500m de altitude. Curiosamente, neste pequena e aparentemente inofensiva descida, reparei numa coisa: estava muito entrevado a descer. Pouco fluído, muito esforçado, com pequenas dores aqui e ali... Era estranho, nunca me tinha acontecido. Preferi não ligar.

Arnouvaz - Grand Col Ferret. 4.5km, 760+
A subida ao Grand Col Ferret marcava para mim um ponto de viragem importante na prova. Era a ultima vez que íamos tão alto e de seguida tinha uma descida de 20km que em principio daria para carregar energias para a parte final da prova. Precisava de a conquistar para definitivamente ver a luz ao fundo do túnel, como tal encarei-a com toda a sobriedade. Comi bem no abastecimento, descansei uns minutos e fiz-me a ela. Devagar mas constante, como sempre.

O que eu não sabia é que esta subida além de determinante é das mais espectaculares do percurso, pelo menos das que fiz de dia. O trilho era perfeito. Pouco técnico, serpenteava encosta acima com inclinações monstruosas e cotovelos a cada 200m, só para termos a certeza que tínhamos uma boa vista de toda a área. Por todo o lado ouvia-se o barulho da água a correr dos glaciares, como se estivéssemos em pleno inverno. O maciço do Monte Branco parecia ganhar uma nova cara cada vez que olhava para ele, e quando chegamos ao Col e pudemos finalmente ter uma vista desafogada do Vale d'Aosta, com o Monte Cervino a destacar-se, foi realmente de tirar o fôlego. Que privilégio poder estar ali!

Uma das vistas lá de cima.
Nesta altura mandei uma mensagem à Sara: "Só não acabo isto se ficar barrado. Vai ser até à ultima gota". 

Devia ter ponderado melhor isso, porque a seguir... bem, ficou pouco mais que uma gota.

Grand Col Ferret - Champex. 24km, 1500-, 400+
Eu adoro descer. Gosto de uma boa subida, mas adoro descer. Não sou o gajo mais rápido, nem nada que se pareça, mas fazer uma boa descida é das coisas que me dão mais prazer no trail. À minha frente tinha 1500m de descida distribuídos por 20km. Isso mesmo, leram bem. Vinte quilómetros a descer. Nos sítios onde treino, Montejunto e Sintra, consigo no máximo descer durante 2 ou 3km. Na Serra da Estrela consegui um pouco mais que isso e no MIUT talvez uns 5 ou 6. Nada que sequer se aproxime desta monstruosidade. Isto é sem duvida alguma um factor determinante quando se apanham descidas destas, muito mais do que nas subidas longas.

Bem, mas não era altura de pensar nisso. A descida começava num trilho maravilhoso muito fácil de correr, e eu fiz-lhe a vontade. Corri que me fartei, feliz da vida! Foram 4km sempre a dar, a descer lentamente para dentro do vale, uma maravilha! Depois, já na Suiça, o trilho mudou. Estreitou bastante e ganhou pedras no caminho, mas continuei a forçar. A Sara, os miúdos e o resto da comitiva estavam lá em baixo à minha espera! Mas a descida não abrandava, nem facilitava. Continuou, e continuou e continuou... O trilho era cada vez mais desafiante, sempre com pequenas subidas pelo meio. Segmentos com muita pedra que nos obrigavam a travar constantemente, outros cheios de raízes que obrigavam a mudar de direcção e massacravam os pés. E ela continuava e continuava, sem fim à vista. Será ali La Fouly? Hm, não.. demos a volta à montanha e continuámos a descer. É ali? Não. Mais descida...

Quando finalmente cheguei a La Fouly, a meio da descida, estava devastado. Parecia que um comboio me tinha atropelado. Vinha atordoado, sem saber bem o que tinha acontecido. Mudei o chip e voltei novamente a um lugar sombrio, voltei a preocupar-me com gestão do tempo de corte e rapidamente fiz as contas para quanto tempo poderia ficar no abastecimento para poder continuar com uma boa margem de segurança. 


No abastecimento a Sara, os miúdos, Zé e Joana dão-me muito ânimo, mas vejo na cara deles que percebem que estou a cair. Também não ajuda eu já não conseguir articular frases com mais que 5 palavras. Deitei-me num parque de estacionamento junto a eles e ali permaneci uns 15 minutos, totalmente imóvel de olhos fechados. 

Um bocado macabro.
Levantei-me com frio, a noite estava a cair. Decidi preparar-me para ela e não fui meigo com as camadas térmicas: camisola interior térmica, tshirt, corta vento e impermeável. Na cabeça coloquei o buff e o frontal. Sabia que estava altamente debilitado, não precisava nada de entrar numa situação de hipotermia que naquele estado muito facilmente se formaria. Despeço-me deles e preparo-me para mais 10km de massacre a descer. Assim que entro novamente no trilho BRRRUUUMMM um trovão gigante precedido de um raio! Oh oh, temos festa!

Os 10km de descida foram muito parecidos com o que ficou para trás. Reparo que não devo ser só eu que vou mal, já pouca gente me ultrapassa. A trovoada veio mesmo e e fustigava agora brutalmente o vale. Chuva grossa e relâmpagos que iluminavam todo o vale, trovões que pareciam avalanches de neve. Um espectáculo que iria apreciar muitíssimo, não estivesse eu já tão perto do abismo que é a completa exaustão física. Custava-me terrivelmente a descer, já implorava por uma subida. Ela chegou aos 120km, pouco depois de um abastecimento improvisado no quintal de uma família onde bebi sentado um grande copo de café quente. 

Iniciei a subida de cerca de 400+, pequena para o resto da prova, com a confiança totalmente abalada. O trilho ainda por cima não facilitou, era cheio de raízes, com lama e chuva, secções a pique e pequenas descidas enervantes que nos afastavam da cota do abastecimento. Tal como no Lac Combal, volta a ser uma subida "pequena" a dar uma estocada enorme. Tenho que descansar várias vezes e afundo-me cada vez mais. Tenho dores horríveis nos pés, normais de tanta pancada, que se acentuam cada vez que piso uma raiz. Sinto-me a cair cada vez mais a pique. Tento agarrar-me ao facto de estar bem dentro do tempo limite e à tal mensagem da última gota, mas o depósito parece-me perigosamente vazio. Teria já gasto a ultima gota?

Chego ao abastecimento de rastos, física e animicamente. A Sara encontra-se comigo dentro da tenda (as regras deixam uma pessoa por atleta dar assistência lá dentro) e apercebe-se imediatamente do meu estado. Deito-me num banco corrido e peço-lhe que me vá buscar uma sopa e um café. A Mel quando me vê deitado naquele estado começa a choramingar e eu sinto-me terrivelmente mal com isso. Forço um sorriso e digo-lhe que o pai está só um bocadinho cansado, que dali a nada íamos brincar os dois. Ela fica muito caladinha a fazer-me festas, coitadinha... A Sara percebe que aquilo não estava a ser bom para ninguém e diz-me que se vai embora, para eu ficar ali meia hora deitado. Digo-lhe que muito dificilmente vai dar, e estava a ser sincero. Naquela altura não me estava de maneira nenhuma a ver a completar os 46km que faltavam até à meta. Ela dá-me um beijo e diz-me que não me preocupe, que faça o meu melhor. Prometi-lhe que ia fazer uma ultima tentativa. Saíram e eu desliguei.

Foto tirada pela minha filha no abastecimento.
Meia hora depois de um sono leve, deitado em cima de um banco corrido, voltei a sentar-me. Estava ensopado e a tremer de frio, mesmo com todas as camadas. Empurrei umas colheres de sopa que já estava fria e senti-me terrivelmente desconfortável quando me forcei a levantar. Mandei uma sms ao Chico, ao Rodrigo e ao Sommer, que desde o início me vinham a enviar mensagens de ânimo, a dizer que ia tentar uma ultima vez, mas que sentia que aquele não era o dia.

Há quem diga que o UTMB só começa aqui, em Champex. Pois bem, eu estava a começar com um pé e meio de fora.

Champex - Trient. 17km, 900+
Cá estavam elas. As famosas 3 montanhas finais do UTMB. Parecem pequenos montinhos, mas cada uma delas tem perto de 1km vertical. A dificuldade vai crescendo de uma para outra, como um videojogo macabro. Enquanto faço aquela pequena descida antes da subida, um italiano diz-me "isn't it just beautifull when you have to go downhill just to go uphill?". Nunca tinha pensado nisso daquela maneira mas...sim, consigo ver a beleza nisso. Acho eu.

A subida teima em não se mostrar. Andamos ali a engonhar em trilhos que fazem lembrar a Lousã, para cima e para baixo. Começo a enervar-me e a ficar impaciente, vamos lá, de uma vez por todas! Até que, olho para cima e vejo umas pequenas estrelas lá muuuito em cima, no escuro. Atrás de mim um colega diz, assustado "oh my God....". Não eram estrelas, eram frontais. O monstro revelou-se.

Respiro fundo e ataco o trilho. É mesmo como eu gosto: trabalhoso. Daqueles que obrigam a tricotar por entre rochas para encontrar um caminho que envolva a menor amplitude de movimentos possível. Já estou quente nesta altura e subo vagarosamente quando o telefone toca. Mensagem do Sommer: "Agora já está feito, tens tempo. É só ir andando.". 

Foi então que se deu o momento que vos falei no inicio desta crónica. O momento em que deixei tudo para trás. Deixei de pensar na lama, nas subidas, nas descidas, nas dores, no corpo, nos abastecimentos, nos géis e nas barras. Deixei de pensar em tudo menos numa coisa: o próximo passo. O próximo metro. A próxima meta. O sucesso estava à distancia de um metro. Um a seguir ao outro. Passinho atrás de passinho. Fui subindo. Concentrado, focado. Só isso interessava, dar o próximo passo.

Cheguei a La Giete, no topo, e era um homem novo. Fiz contas rápidas e percebi que a subida tinha sido feita a um ritmo bastante aceitável. Inacreditável. 

Comecei a descida para Trient com o mesmo propósito da subida. Os quadricepes doíam-me horrivelmente, a grande descida dos 20km tinha-os destruído completamente, mas isso agora estava em segundo plano. Se não conseguia correr andava! Mais 6km a descer, mais 800- no corpo, mais uma tareia. Mas a primeira das três montanhas estava virada e era este o meu ar à entrada do abastecimento:


Lá no abastecimento já não estava a Sara, mas estava o Zé Nuno e a Joana. Já tinham feito centenas de quilómetros naquele dia, foram levar a Sara e os miúdos a casa e voltaram sem dormir para irem ter comigo a Trient. O Zé é dos meus amigos mais antigos, quase um irmão que conheci a vida toda. Digo-o com toda a certeza, não sei se teria conseguido chegar ao fim sem a ajuda dele.

Cheguei ao abastecimento com 3h abaixo do tempo de corte. Analisei as últimas barreiras nas duas montanhas seguintes e achei-os apertados, decido que tinha que sair de Trient com pelo menos 2h30 de folga, e assim foi. 

Venha o Round 2!

Trient - Vallorcine. 10km, 900+
Esta foi a minha subida preferida de toda a prova. Talvez por a ter feito sem relógio, que estava dentro da mala a carregar, foi o perfeito exemplo de subida metro a metro. Outra vez um trilho mesmo como eu gosto, dos que dão trabalho. O sol nasceu a meio da subida, o que me deu ainda mais pica. A segunda noite passou sem deixar grandes marcas e nem sequer me sentia especialmente sonolento. 

Cheguei a Catogne meia hora antes do que estava a prever inicialmente. Mais um boost de confiança! Mas o pior foi a descida. Muito pior que a subida! Não era especialmente difícil, e fresquinho tinha sido uma loucura porque a paisagem era incrível. Mas foi aqui que definitivamente deitei a toalha ao chão em termos de descidas: já não dava. Os quadricepes estavam completamente rebentados. Eu sei que isto é difícil de imaginar, mas não conseguia dar dois passos de corrida a descer sem sentir dores horríveis. Bem, paciência. Metro a metro. Conformei-me e fiz a descida a caminhar, apoiado nos bastões porque até isso me custava.

Cheguei a Vallorcine com as mesmas 2h30 de folga em relação ao corte, a segunda montanha tinha sido virada mais uma vez com sucesso! No entanto decidi que neste iria ficar apenas o mínimo indispensável. Aproximava-se a derradeira subida, o assalto a Tête aux Vents, o último obstáculo no caminho da glória de Chamonix, e toda a gente dizia que esta era A mais difícil do UTMB. Despedi-me do Zé Nuno (sim, estava lá, como sempre) e fiz-me a ela.

ROUND 3!

Vallorcine - La Flegere. 11km, 910+
Começou com um estradão simpático que subia lentamente por 4km. Fi-lo sem grandes pressas, sempre a poupar energia para o que aí vinha. quando cheguei ao fim deste segmento o calor já apertava muito. Despi todas as camadas térmicas menos a t-shirt, a subida ia ser completamente exposta ao sol. Até que a vi.

Linda. 

Uma parede vertical recortada de cima abaixo por pontinhos coloridos até perder de vista, num zigue zague muito geométrico, quase como se fosse uma parte viva da montanha. Senti um arrepio quando a vi e respirei fundo antes de a atacar.

Vamos lá Filipe, tu consegues. Tu sabes fazer isto. Tricotar até lá acima, evita levantar muito as pernas, evita esforços desnecessários. Não puxes demasiado mas não adormeças. Tu sabes isto, vá lá!!

Eu, de facto, sabia isso. Mas não sabia que o que ia encontrar era todo um novo nível de subida. Pedra, pedra e mais pedra. Rochas para trepar, segmentos inclinadíssimos. Subida interminável, parecia que ganhava força de cada vez que virávamos a montanha. "pleeeease, just make it stop!!" dizia eu aos meus colegas japoneses que, como sempre, não me ligavam patavina. 

P*TA DE SUBIDA!

Sacado da net, aqui já não tirei nenhuma foto.
Chegados ao topo, Tête aux Vents, ainda havia um segmento de 4km até La Flegere, local do ultimo abastecimento e controlo de tempo. Parecia fácil, 4km a descer ligeiramente. Mas espera, era a descer, porra! Eu não conseguia CAMINHAR a descer, quanto mais correr num sitio cheio de pedra! 

O sangue começou a ferver. Via o tempo de corte cada vez mais próximo e o abrigo de La Flegere que teimava em não se aproximar. AAAAH se ao menos estivesse fresco derretia esta merda de pedra toda!!! 

La Flegere chegou depois de uma subida de 100+, fi-la quase a correr, estava genuinamente preocupado com os 8km a descer que iria apanhar de seguida até Chamonix. Tinha umas estonteantes 3 horas para os fazer, por isso podem imaginar o meu estado físico para ficar preocupado com uma folga destas.

ROUND FINAL

La Flegere - Chamonix. 8km, 885-
Aí estava ele, o meu ultimo inimigo a separar-me da glória. Uma descida. Uma merda de uma descida. 

Foda-se, esquece as dores, faz-te homem, desce isto a correr, porra!!

Cerrei os dentes e foi literalmente a gritar que fiz os primeiros metros. As dores nos quadricepes eram lancinantes. 

MERDA!!!

Não dá, não dá, não dá!! 

PORRA, vira-te, vai de costas, faz o que puderes!! 

Desci mais de um quilómetro a correr de costas, só parei porque o trilho derivou para um single com muitas raízes e aí era arriscado. Mais uma vez tentei ignorar as dores horríveis, enquanto via no relógio o tempo a passar muito mais depressa que os quilómetros. 

Tomei um voltaren, que se lixe. Não, não chega, toma dois porra, que se foda! AAAAH corre estúpido, esquece as dores!! 

Parei em todas as nascentes para molhar as coxas, levantei os calções de compressão até acima para ver se era disso, dei murros nas pernas.. sei lá, fiz tudo! Mas não havia volta a dar, os músculos estavam destruídos, nada os repararia de repente! 

Merda, aperta contigo porra!!!

De repente a inclinação começou a acalmar e o trilho a abrir. Voltei a correr de costas, mais um par de quilómetros desta vez. Até que encontro um casal português que me diz: "está feito!! O alcatrão de Chamonix está já ali!!!"

Hein? Está feito? Como assim? Acabou a descida?

Estrada plana. 

Corri. 

Consegui correr novamente. Corri, corri e corri. Disse 1895 vezes merci aos milhares de pessoas que batiam palmas e me congratulavam. 

"BRAVO BRAVO!!" Diziam eles. "Merci, merci, merci!!" Dizia-lhes eu! 

No fim já só me ria. Só me ria enquanto corria e tentava perceber se aquilo era só um sonho. Estava em Chamonix. Estava em Chamonix a correr e a rir. 44 horas depois, 171km depois, estava de volta a Chamonix, e estava a rir. 

SUPER! ALLEZ! BRAVO!! Diziam eles!!

Merci, merci, MERCI!! Dizia-lhes eu!!

Ultima curva, a seguir ficava com o pórtico em vista, eu conhecia aquilo!!

A Sara, a Mel, o Manel, o Zé e a Joana. Todos. Na ultima curva antes da meta à minha espera. Levantei os braços e não evitei começar a chorar. Peguei na Mel ao colo e abracei-me à Sara. 




Obrigado, disse-lhe.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

E de repente....

... só faltam duas semanas!!



Pronto, já não há volta a dar. Neste momento esgotei todos os prazos, todos os créditos e todas as oportunidades. Os frutos que colher de 26 a 28 de Agosto serão direta consequência do que semeei nos primeiros oito meses de 2016, que é como quem diz, do que treinei até agora.

Será que foi suficiente?

A resposta, como é óbvio, não é fácil. Uma coisa é certa: fiz o melhor que consegui. Não foi de todo o treino ideal, queria ter metido mais distancia, horas e desnível no derradeiro mês de Julho (em comparação, por exemplo, com o mês anterior ao MIUT 2016, foi ligeiramente abaixo), mas a vida é mesmo assim. Os constrangimentos familiares e de trabalho fazem todos parte do processo. Afinal de contas, a corrida continua a ser a mais importante das coisas secundárias da minha vida, apesar de ocupar um lugar preponderante e central (por vezes até de mais).

A principal diferença para o MIUT deste ano onde, modéstia à parte, considero que fiz uma prova bastante sólida, é que estou num lugar mental muitíssimo melhor. O início deste ano foi de convulsão para mim e para a minha família, desde o nascimento do meu filho Manel, que tinha poucas semanas na altura da prova, ao trabalho que estava tremido, a construção da nossa casa que ia a meio, a nossa morada, digamos, "incerta" na altura… Enfim, alguns quilos de bagagem que me pesaram muito na mochila enquanto atravessava a Madeira. Felizmente, tudo se conjugou nas ultimas semanas e as coisas finalmente encarrilaram.

Com a cabeça no sitio certo, restava preparar-me bem fisicamente, e nesse aspeto também estou tranquilo. Não sou de todo o gajo mais experiente nisto, mas tenho noção que tenho em mim o suficiente para chegar ao fim. Falando de números, tenho desde o início do ano 2219km e 85000D+. Um ano em que mudei completamente a abordagem que tinha aos treinos, privilegiando muito mais o tempo no monte e desnível acumulado em relação à distancia percorrida. O único arrependimento que tenho  é de ter alinhado nos 90km do Estrela Grande Trail, não pela prova em si, mas porque ainda não estava recuperado do MIUT o que me fez perder as seguintes 3 semanas de treino, quando já só faltavam 2 meses para o UTMB.  No entanto, consegui que as ultimas 7 semanas tivessem em média 3000D+, 85km e pelo menos 10h de treino, quase todas em trilhos, incluindo muitos treinos em Montejunto, Sintra e o fantástico fim de semana na Serra Nevada. Podia ter sido melhor, mas penso que foi o suficiente para fazer A MINHA prova.

Quer isto dizer que são favas contadas? NÃO, de todo!! Como já falei variadíssimas vezes, há fatores e variáveis quase infinitas que podem influenciar e ser determinantes para a conclusão da prova. Aquele que me assusta mais é sem dúvida a alimentação. Pode estar tudo a correr na perfeição, mas se o estômago vira vai tudo por água abaixo. Na Estrela tive pela primeira vez a experiencia de não conseguir comer ou sequer beber água, e o corpo como que se desligou. Há algumas estratégias para lidar com a situação se chegar a este ponto, espero sinceramente não ter que as pôr em prática porque tenho sérias dúvidas que chegaria ao fim.

Há aquela tradição de no fim do objetivo cumprido se deixarem os agradecimentos. Mas o principal agradecimento que tenho não será pelas horas que andarei a contornar o Monte Branco. É pelas 10h semanais, pelos fins de semana que podiam ter sido mas não foram, pela atenção e dinheiro que desviei para esta coisa tão pouco secundária que é a corrida, pela paciência e pelo amor infinitos que tenho da parte da Sara e que possibilitaram preparar-me minimamente para enfrentar os 170km que tenho pela frente. Dia 23 lá voará ela comigo, com os nossos dois miúdos, em vez de estarmos numa praia descansados. Mais uma vez lá estará ela agarrada ao telemóvel, a segurar as pontas, a tratar de uma bebé de 3 anos e outro de 6 meses, e, se eu conseguir cumprir a minha parte do acordo, lá estarão os três à minha espera na meta. Ainda não comecei a correr e já ganhei. Obrigado Sara!

terça-feira, 26 de julho de 2016

O dia que tinha tudo para correr mal

Partimos de Évora já bem depois das 19:30. Até essa hora o dia tinha sido perfeitamente comum. Acordar à hora do costume, trabalho, as nossas mulheres, os nossos filhos... Tudo no seu devido sítio, era um dia igual aos outros. Mas às 19:30 íamos embarcar numa aventura que...bem, não há outra maneira de dizer: tinha tudo para correr mal!

Fomos só ali
Foi há umas 2 ou 3 semanas que o Sommer (o Sr. Ribeiro) me enviou uma mensagem no chat do facebook +/- assim: sair do trabalho, conduzir até à Serra Nevada, partir com directa, treinar e voltar. Assim mesmo à mau! Bora?

Pois com certeza!

Ora, as conversas sobre a viagem basicamente ficaram por aqui. Combinámos a hora de partida e o destino. Lá chegados, a única referencia eram 3 tracks sacados da net, um percurso desenhado na cabeça e a sincera esperança que no local as peças encaixassem todas e aquilo corresse tudo muito bem! O que é que podia correr mal?

Depois de um inesperado e espectacular jantar numa esplanada em Elvas, lá chegámos às 5 da manhã a Pradollano, Serra Nevada, uma estância de ski muito famosa. Com o carro estacionado num parque subterrâneo, recolhemos aos aposentos para um sono descansado e retemperador.

Pronto, na verdade os aposentos eram o parque de estacionamento.

Vá, e não foi bem recolher, deitámos os bancos do carro.

Ok, não foi bem descansado e retemperador, estávamos todos um bocado tortos... Mas, hey, acordei quase uma hora depois com a perna a doer-me e completamente adormecida, por isso pelo menos essa descansou bem!

Diogo, eu e Sommer. Sim, foi o Sommer que tirou a selfie. Que fique registado.
Saímos pela rampa do estacionamento e de repente estávamos no track. Ainda estava meio embasbacado a tentar decidir se os 2200m de altitude que o relógio indicava estariam certos, quando os vejo a atacar a subida. Respirei fundo, liguei o cronómetro e dei um passo em frente. O primeiro record pessoal do dia estava batido: nunca tinha corrido a uma altitude tão elevada. Mal sabia eu o que me esperava.

A primeira subida era o ataque ao Pico Veleta, o segundo mais alto da Sierra Nevada e 3º da Peninsula Ibérica com 3390m de altitude. Na base da pista de ski, onde nos encontrávamos, já conseguíamos ver lá em cima o imponente rochedo. Separavam-nos dele 6km com 1200D+.

Vista do Veleta desde Pradolano.
Seguimos até lá acima sempre pelas pistas de ski. O Diogo já lá tinha ido várias vezes esquiar e ia falando do que nos rodeava, mas eu estava a ter um sério problema em concentrar-me porque não conseguia parar de olhar para todo o lado, o que não dava muito jeito já que cada vez que me virava para trás lá vinha mais uma tontura por causa da altitude. A certa altura o track que seguia indicava dois caminhos para o pico, laterais ao vale, por uns estradões simpáticos. Por onde é que fomos? Pelo meio, pois claro. Apontámos alvo ao Veleta e seguimos pelo caminho mais curto. Dávamos dois passos em frente e um atrás? Siga!  Não podia correr mal, pois não?

A azul: Track que levava comigo. A amarelo: caminho mêmámau.


No topo do Veleta.
Lá chegados acima pudemos ver o nosso próximo destino: Mulhacen. O pico mais alto da Península Ibérica, só superado na Europa pelos Alpes e o Cáucaso. Se a paisagem que deixávamos para trás era deslumbrante, esta vertente da montanha, depois de virar o Veleta, era algo quase extraterrestre. Muito inóspito, árido, pontuado com neve aqui e ali. Uma paisagem quase lunar. 

Vista do Veleta. Lá ao fundo o Mulhacen.
Cerca de 7km separavam-nos do próximo pico, e esta era das partes mais interessantes do percurso. Acontece que não eram "apenas" 7km, mas sim 7km sempre acima dos 3000m de altitude. Um dos maiores desafios era conseguir correr neste planalto e perceber como o nosso corpo reagia à altitude. Para quem nunca tinha passado dos 1990m de altitude da Torre, tinha tudo para correr mal!

Fixámos o pico como destino, mais uma vez evitámos os estradões do track e seguimos quase sempre por trilhos que existiam em todo o lado. A certa altura  um trilho levou-nos a uma escarpa muito pronunciada. Na parede estavam presas umas correntes e havia um pequeno patamar de 20 ou 30cm para se fazer uma passagem de 100 metros. É claro que não fomos por lá. Nenhum pai de família que se preze passaria numa via ferrata a 3000m de altitude com um precipício de 500m para trás. Ouviram Sara, Joana e Inês? Isso teria tudo para correr mal, juro que não passámos por lá. E eu não fiquei todo borradinho e com as pernas a tremer. A sério, voltámos para trás!

Também não sei quem tirou a foto.
Já muito perto do Mulhacen o trilho levou-nos a uma cratera que quase parecia de um vulcão, com um lago lá em baixo. A encosta, ou parede, do pico, coberta de xisto refletia o sol dando-lhe um aspecto surreal. Tirando a primeira vez no MIUT, no caminho entre os picos, nunca tinha ficado tão assombrado com uma paisagem.

Lá ao fundo a parede de 400m que teriamos que escalar antes do pico. Ainda iríamos descer 100m antes de o atacar.
Este ataque final ao Mulhacen é o meu ideal de subida. Muito inclinado, sempre com uns ésses apertados, constante e longa. Os efeitos nefastos da altitude já não se faziam sentir desde o Veleta e aproveitei esta subida muito bem. No entanto, reparei que à mínima variação de ritmo as pulsações disparavam, a respiração ficava mais ofegante e sentia ligeiras tonturas. O truque era subir perfeitamente constante e foi assim que o fizemos. 

Parte final da subida. Havia muita gente a fazer caminhadas na Serra.
Cheguei lá acima num estado quase de euforia. Que subida perfeita! Já para não falar do tempo, que apesar de muito sol, àquela altitude soprava um vento fresco que nunca deixava a máquina aquecer de mais. Lá em cima havia um pequeno palanque em betão e ao lado um rochedo. Eu armei-me em esperto e subi ao rochedo. Foi giro, descobri uma coisa nova: tenho vertigens! É indescritível a vista lá em cima. O pico tem uma proeminência brutal, o que quer dizer que a vista é desafogada em quilómetros e quilómetros.

No Mulhacen, antes de ficar quase em pânico com as vertigens!
Fotografia da praxe. Uma já estava!
Na fase seguinte tínhamos planeado descer até aos 2500m, onde existia um refúgio de montanha. Para isso tínhamos um segundo track e a vã esperança que as coisas magicamente se interligassem na perfeição. De certeza que ia correr tudo bem! Assim que ligo o track aquilo não batia certo. Hm.. caga no track, vamos perguntar ao espanhois. É para ali! Diziam eles. Onde? Naquele vale? Si si! Bem, não há-de ser nada, sabemos que é mais ou menos para aquele lado, é ir andando! O que é que podia correr mal?

A descida dos 3500 aos 2500 foi das minhas partes preferidas do treino todo. Primeiro num single cheio de pedra, sempre aos ésses mesmo como eu gosto e depois quando já só tínhamos estradão à vista (relembro que não sabíamos bem para onde íamos) decidimos mandar-nos de cabeça pela encosta, sem trilho nem nada, cada um inventava a sua trajectória, o importante era chegar à base do vale e esperar que o refúgio estivesse mesmo lá! Uma loucura, acho que foi das vezes que me diverti mais a correr de sempre!

Na base da encosta, conseguem vê-los lá atrás. Foi por aqui abaixo mêmámau!
Incrivelmente, numa estratégia que tinha tudo para correr mal, demos logo com o refúgio! Uma casa isolada na imensidão da montanha, com tudo o que era preciso para dar assistência aos montanhistas que por lá passavam. Decidimos descansar um pouco antes de atacar um novo quilómetro vertical que nos levaria de volta ao Mulhacen. 

No refúgio. Acho que tirei mais selfies neste treino que no resto da minha vida.
Uma hora e tal depois (quem é que estava a contar?), estratégia afinada, fomos para a parte final do treino. Era simples, subir ao Mulhacen outra vez e depois ir para casa. O que é que isso implicava? Nada de especial, só um quilómetro vertical com 4km de extensão, dos 2500 aos 3500m de altitude! 

Porra, já disse isto em voz alta 200 vezes e continua a soar MESMO à mau!

A subida seguia o rio Mulhacen, que no verão não era mais que um pequeno ribeiro, mas o suficiente para fazer crescer erva à volta e cortar um bocado a paisagem inóspita de toda a Serra. Uma espécie de oásis com água gelada. Seguimos junto ao ribeiro durante metade do KV, sempre muito frescos, num trilho espectacular. Era tão ridiculamente bonito que lembro-me de dezenas de borboletas azuis voarem cada vez que pisávamos a erva verde fofa. A sério natureza? Vá, não exageres.

Ridículo.
A parte final desembocou na já conhecida vertente do Mulhacen, para uns salutares zigue-zagues 400m por ali acima. Que subida! Demorámos 1h36 a cumprir o KV, o que, modéstia à parte, foi mêmámau! Estávamos de volta aos 3480m de altitude e tínhamos virado o pico mais alto da Península Ibérica duas vezes no mesmo dia. Se há momentos que pedem uma foto, não me vão dizer que este não é um deles,

O papel foi um espanhol que emprestou.
Conseguem ver na encosta os dois trilhos que a sobem. Primeiro fomos pelo da esquerda e depois pelo que sobe a direito.
Dobrado o Mulhacen pela segunda vez, estávamos com cerca de 27km e 3000D+, cumpridos todos acima dos 2500m de altitude, com excepção dos 2 primeiros quilómetros. Mais uma vez, vou só ali arrumar a modéstia um bocadinho, mas estava a ser um treino do caraças! O melhor de tudo é que estávamos os 3 bastante frescos quando atacámos a descida pelo trilho em zigue-zague. Faltavam só 13km para estarmos de volta ao carro, por um caminho que já conhecíamos, o treino estava feito!

O problema foi exactamente esse: para nós, o treino estava feito. Mas faltavam ainda uns bons quilómetros incluindo os 1200D- em 6km que subimos logo ao inicio. O pior de tudo neste descida, além de ser super longa, é que do ponto mais alto conseguimos ver o nosso destino. Enfim, não havia volta a dar, era altura de meter a faca nos dentes, cerrar os punhos e comer pedra até lá abaixo. Já lá estávamos, agora era só fechar aquilo!

Foram 41km e 3300D+ no total. Um treino que tinha tudo para correr mal: partimos praticamente de directa, não tínhamos percurso definido, não conhecíamos pontos de água, não estávamos habituados à altitude...Tudo, tudo para correr mal. Mas não correu nada mal. Não, foi perfeito!

Agora vou aproveitar que pela primeira vez tirei um monte de fotos e meter um bocadinho de nojo, se não se importam. Aqui vai.





Dezenas de cabras nos pontos mais altos