As minhas corridas na estrada

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

E de repente....

... só faltam duas semanas!!



Pronto, já não há volta a dar. Neste momento esgotei todos os prazos, todos os créditos e todas as oportunidades. Os frutos que colher de 26 a 28 de Agosto serão direta consequência do que semeei nos primeiros oito meses de 2016, que é como quem diz, do que treinei até agora.

Será que foi suficiente?

A resposta, como é óbvio, não é fácil. Uma coisa é certa: fiz o melhor que consegui. Não foi de todo o treino ideal, queria ter metido mais distancia, horas e desnível no derradeiro mês de Julho (em comparação, por exemplo, com o mês anterior ao MIUT 2016, foi ligeiramente abaixo), mas a vida é mesmo assim. Os constrangimentos familiares e de trabalho fazem todos parte do processo. Afinal de contas, a corrida continua a ser a mais importante das coisas secundárias da minha vida, apesar de ocupar um lugar preponderante e central (por vezes até de mais).

A principal diferença para o MIUT deste ano onde, modéstia à parte, considero que fiz uma prova bastante sólida, é que estou num lugar mental muitíssimo melhor. O início deste ano foi de convulsão para mim e para a minha família, desde o nascimento do meu filho Manel, que tinha poucas semanas na altura da prova, ao trabalho que estava tremido, a construção da nossa casa que ia a meio, a nossa morada, digamos, "incerta" na altura… Enfim, alguns quilos de bagagem que me pesaram muito na mochila enquanto atravessava a Madeira. Felizmente, tudo se conjugou nas ultimas semanas e as coisas finalmente encarrilaram.

Com a cabeça no sitio certo, restava preparar-me bem fisicamente, e nesse aspeto também estou tranquilo. Não sou de todo o gajo mais experiente nisto, mas tenho noção que tenho em mim o suficiente para chegar ao fim. Falando de números, tenho desde o início do ano 2219km e 85000D+. Um ano em que mudei completamente a abordagem que tinha aos treinos, privilegiando muito mais o tempo no monte e desnível acumulado em relação à distancia percorrida. O único arrependimento que tenho  é de ter alinhado nos 90km do Estrela Grande Trail, não pela prova em si, mas porque ainda não estava recuperado do MIUT o que me fez perder as seguintes 3 semanas de treino, quando já só faltavam 2 meses para o UTMB.  No entanto, consegui que as ultimas 7 semanas tivessem em média 3000D+, 85km e pelo menos 10h de treino, quase todas em trilhos, incluindo muitos treinos em Montejunto, Sintra e o fantástico fim de semana na Serra Nevada. Podia ter sido melhor, mas penso que foi o suficiente para fazer A MINHA prova.

Quer isto dizer que são favas contadas? NÃO, de todo!! Como já falei variadíssimas vezes, há fatores e variáveis quase infinitas que podem influenciar e ser determinantes para a conclusão da prova. Aquele que me assusta mais é sem dúvida a alimentação. Pode estar tudo a correr na perfeição, mas se o estômago vira vai tudo por água abaixo. Na Estrela tive pela primeira vez a experiencia de não conseguir comer ou sequer beber água, e o corpo como que se desligou. Há algumas estratégias para lidar com a situação se chegar a este ponto, espero sinceramente não ter que as pôr em prática porque tenho sérias dúvidas que chegaria ao fim.

Há aquela tradição de no fim do objetivo cumprido se deixarem os agradecimentos. Mas o principal agradecimento que tenho não será pelas horas que andarei a contornar o Monte Branco. É pelas 10h semanais, pelos fins de semana que podiam ter sido mas não foram, pela atenção e dinheiro que desviei para esta coisa tão pouco secundária que é a corrida, pela paciência e pelo amor infinitos que tenho da parte da Sara e que possibilitaram preparar-me minimamente para enfrentar os 170km que tenho pela frente. Dia 23 lá voará ela comigo, com os nossos dois miúdos, em vez de estarmos numa praia descansados. Mais uma vez lá estará ela agarrada ao telemóvel, a segurar as pontas, a tratar de uma bebé de 3 anos e outro de 6 meses, e, se eu conseguir cumprir a minha parte do acordo, lá estarão os três à minha espera na meta. Ainda não comecei a correr e já ganhei. Obrigado Sara!

terça-feira, 26 de julho de 2016

O dia que tinha tudo para correr mal

Partimos de Évora já bem depois das 19:30. Até essa hora o dia tinha sido perfeitamente comum. Acordar à hora do costume, trabalho, as nossas mulheres, os nossos filhos... Tudo no seu devido sítio, era um dia igual aos outros. Mas às 19:30 íamos embarcar numa aventura que...bem, não há outra maneira de dizer: tinha tudo para correr mal!

Fomos só ali
Foi há umas 2 ou 3 semanas que o Sommer (o Sr. Ribeiro) me enviou uma mensagem no chat do facebook +/- assim: sair do trabalho, conduzir até à Serra Nevada, partir com directa, treinar e voltar. Assim mesmo à mau! Bora?

Pois com certeza!

Ora, as conversas sobre a viagem basicamente ficaram por aqui. Combinámos a hora de partida e o destino. Lá chegados, a única referencia eram 3 tracks sacados da net, um percurso desenhado na cabeça e a sincera esperança que no local as peças encaixassem todas e aquilo corresse tudo muito bem! O que é que podia correr mal?

Depois de um inesperado e espectacular jantar numa esplanada em Elvas, lá chegámos às 5 da manhã a Pradollano, Serra Nevada, uma estância de ski muito famosa. Com o carro estacionado num parque subterrâneo, recolhemos aos aposentos para um sono descansado e retemperador.

Pronto, na verdade os aposentos eram o parque de estacionamento.

Vá, e não foi bem recolher, deitámos os bancos do carro.

Ok, não foi bem descansado e retemperador, estávamos todos um bocado tortos... Mas, hey, acordei quase uma hora depois com a perna a doer-me e completamente adormecida, por isso pelo menos essa descansou bem!

Diogo, eu e Sommer. Sim, foi o Sommer que tirou a selfie. Que fique registado.
Saímos pela rampa do estacionamento e de repente estávamos no track. Ainda estava meio embasbacado a tentar decidir se os 2200m de altitude que o relógio indicava estariam certos, quando os vejo a atacar a subida. Respirei fundo, liguei o cronómetro e dei um passo em frente. O primeiro record pessoal do dia estava batido: nunca tinha corrido a uma altitude tão elevada. Mal sabia eu o que me esperava.

A primeira subida era o ataque ao Pico Veleta, o segundo mais alto da Sierra Nevada e 3º da Peninsula Ibérica com 3390m de altitude. Na base da pista de ski, onde nos encontrávamos, já conseguíamos ver lá em cima o imponente rochedo. Separavam-nos dele 6km com 1200D+.

Vista do Veleta desde Pradolano.
Seguimos até lá acima sempre pelas pistas de ski. O Diogo já lá tinha ido várias vezes esquiar e ia falando do que nos rodeava, mas eu estava a ter um sério problema em concentrar-me porque não conseguia parar de olhar para todo o lado, o que não dava muito jeito já que cada vez que me virava para trás lá vinha mais uma tontura por causa da altitude. A certa altura o track que seguia indicava dois caminhos para o pico, laterais ao vale, por uns estradões simpáticos. Por onde é que fomos? Pelo meio, pois claro. Apontámos alvo ao Veleta e seguimos pelo caminho mais curto. Dávamos dois passos em frente e um atrás? Siga!  Não podia correr mal, pois não?

A azul: Track que levava comigo. A amarelo: caminho mêmámau.


No topo do Veleta.
Lá chegados acima pudemos ver o nosso próximo destino: Mulhacen. O pico mais alto da Península Ibérica, só superado na Europa pelos Alpes e o Cáucaso. Se a paisagem que deixávamos para trás era deslumbrante, esta vertente da montanha, depois de virar o Veleta, era algo quase extraterrestre. Muito inóspito, árido, pontuado com neve aqui e ali. Uma paisagem quase lunar. 

Vista do Veleta. Lá ao fundo o Mulhacen.
Cerca de 7km separavam-nos do próximo pico, e esta era das partes mais interessantes do percurso. Acontece que não eram "apenas" 7km, mas sim 7km sempre acima dos 3000m de altitude. Um dos maiores desafios era conseguir correr neste planalto e perceber como o nosso corpo reagia à altitude. Para quem nunca tinha passado dos 1990m de altitude da Torre, tinha tudo para correr mal!

Fixámos o pico como destino, mais uma vez evitámos os estradões do track e seguimos quase sempre por trilhos que existiam em todo o lado. A certa altura  um trilho levou-nos a uma escarpa muito pronunciada. Na parede estavam presas umas correntes e havia um pequeno patamar de 20 ou 30cm para se fazer uma passagem de 100 metros. É claro que não fomos por lá. Nenhum pai de família que se preze passaria numa via ferrata a 3000m de altitude com um precipício de 500m para trás. Ouviram Sara, Joana e Inês? Isso teria tudo para correr mal, juro que não passámos por lá. E eu não fiquei todo borradinho e com as pernas a tremer. A sério, voltámos para trás!

Também não sei quem tirou a foto.
Já muito perto do Mulhacen o trilho levou-nos a uma cratera que quase parecia de um vulcão, com um lago lá em baixo. A encosta, ou parede, do pico, coberta de xisto refletia o sol dando-lhe um aspecto surreal. Tirando a primeira vez no MIUT, no caminho entre os picos, nunca tinha ficado tão assombrado com uma paisagem.

Lá ao fundo a parede de 400m que teriamos que escalar antes do pico. Ainda iríamos descer 100m antes de o atacar.
Este ataque final ao Mulhacen é o meu ideal de subida. Muito inclinado, sempre com uns ésses apertados, constante e longa. Os efeitos nefastos da altitude já não se faziam sentir desde o Veleta e aproveitei esta subida muito bem. No entanto, reparei que à mínima variação de ritmo as pulsações disparavam, a respiração ficava mais ofegante e sentia ligeiras tonturas. O truque era subir perfeitamente constante e foi assim que o fizemos. 

Parte final da subida. Havia muita gente a fazer caminhadas na Serra.
Cheguei lá acima num estado quase de euforia. Que subida perfeita! Já para não falar do tempo, que apesar de muito sol, àquela altitude soprava um vento fresco que nunca deixava a máquina aquecer de mais. Lá em cima havia um pequeno palanque em betão e ao lado um rochedo. Eu armei-me em esperto e subi ao rochedo. Foi giro, descobri uma coisa nova: tenho vertigens! É indescritível a vista lá em cima. O pico tem uma proeminência brutal, o que quer dizer que a vista é desafogada em quilómetros e quilómetros.

No Mulhacen, antes de ficar quase em pânico com as vertigens!
Fotografia da praxe. Uma já estava!
Na fase seguinte tínhamos planeado descer até aos 2500m, onde existia um refúgio de montanha. Para isso tínhamos um segundo track e a vã esperança que as coisas magicamente se interligassem na perfeição. De certeza que ia correr tudo bem! Assim que ligo o track aquilo não batia certo. Hm.. caga no track, vamos perguntar ao espanhois. É para ali! Diziam eles. Onde? Naquele vale? Si si! Bem, não há-de ser nada, sabemos que é mais ou menos para aquele lado, é ir andando! O que é que podia correr mal?

A descida dos 3500 aos 2500 foi das minhas partes preferidas do treino todo. Primeiro num single cheio de pedra, sempre aos ésses mesmo como eu gosto e depois quando já só tínhamos estradão à vista (relembro que não sabíamos bem para onde íamos) decidimos mandar-nos de cabeça pela encosta, sem trilho nem nada, cada um inventava a sua trajectória, o importante era chegar à base do vale e esperar que o refúgio estivesse mesmo lá! Uma loucura, acho que foi das vezes que me diverti mais a correr de sempre!

Na base da encosta, conseguem vê-los lá atrás. Foi por aqui abaixo mêmámau!
Incrivelmente, numa estratégia que tinha tudo para correr mal, demos logo com o refúgio! Uma casa isolada na imensidão da montanha, com tudo o que era preciso para dar assistência aos montanhistas que por lá passavam. Decidimos descansar um pouco antes de atacar um novo quilómetro vertical que nos levaria de volta ao Mulhacen. 

No refúgio. Acho que tirei mais selfies neste treino que no resto da minha vida.
Uma hora e tal depois (quem é que estava a contar?), estratégia afinada, fomos para a parte final do treino. Era simples, subir ao Mulhacen outra vez e depois ir para casa. O que é que isso implicava? Nada de especial, só um quilómetro vertical com 4km de extensão, dos 2500 aos 3500m de altitude! 

Porra, já disse isto em voz alta 200 vezes e continua a soar MESMO à mau!

A subida seguia o rio Mulhacen, que no verão não era mais que um pequeno ribeiro, mas o suficiente para fazer crescer erva à volta e cortar um bocado a paisagem inóspita de toda a Serra. Uma espécie de oásis com água gelada. Seguimos junto ao ribeiro durante metade do KV, sempre muito frescos, num trilho espectacular. Era tão ridiculamente bonito que lembro-me de dezenas de borboletas azuis voarem cada vez que pisávamos a erva verde fofa. A sério natureza? Vá, não exageres.

Ridículo.
A parte final desembocou na já conhecida vertente do Mulhacen, para uns salutares zigue-zagues 400m por ali acima. Que subida! Demorámos 1h36 a cumprir o KV, o que, modéstia à parte, foi mêmámau! Estávamos de volta aos 3480m de altitude e tínhamos virado o pico mais alto da Península Ibérica duas vezes no mesmo dia. Se há momentos que pedem uma foto, não me vão dizer que este não é um deles,

O papel foi um espanhol que emprestou.
Conseguem ver na encosta os dois trilhos que a sobem. Primeiro fomos pelo da esquerda e depois pelo que sobe a direito.
Dobrado o Mulhacen pela segunda vez, estávamos com cerca de 27km e 3000D+, cumpridos todos acima dos 2500m de altitude, com excepção dos 2 primeiros quilómetros. Mais uma vez, vou só ali arrumar a modéstia um bocadinho, mas estava a ser um treino do caraças! O melhor de tudo é que estávamos os 3 bastante frescos quando atacámos a descida pelo trilho em zigue-zague. Faltavam só 13km para estarmos de volta ao carro, por um caminho que já conhecíamos, o treino estava feito!

O problema foi exactamente esse: para nós, o treino estava feito. Mas faltavam ainda uns bons quilómetros incluindo os 1200D- em 6km que subimos logo ao inicio. O pior de tudo neste descida, além de ser super longa, é que do ponto mais alto conseguimos ver o nosso destino. Enfim, não havia volta a dar, era altura de meter a faca nos dentes, cerrar os punhos e comer pedra até lá abaixo. Já lá estávamos, agora era só fechar aquilo!

Foram 41km e 3300D+ no total. Um treino que tinha tudo para correr mal: partimos praticamente de directa, não tínhamos percurso definido, não conhecíamos pontos de água, não estávamos habituados à altitude...Tudo, tudo para correr mal. Mas não correu nada mal. Não, foi perfeito!

Agora vou aproveitar que pela primeira vez tirei um monte de fotos e meter um bocadinho de nojo, se não se importam. Aqui vai.





Dezenas de cabras nos pontos mais altos


segunda-feira, 4 de julho de 2016

Jornada Dupla: Moinhos Saloios On Fire

Nos dois últimos fins de semana, mais ou menos involuntariamente, experimentei um método de treino novo para mim: o chamado back-to-back. A diferença para fazer treinos diários, que faço, é que são dois treinos, ou provas, de grande intensidade, separadas por poucas horas. O que acontece é que as poucas horas que intervalam o esforço (no primeiro fim de semana foram apenas 7 horas) não são as suficientes para que o corpo recupere da prévia tareia, o que faz com que no segundo dia rapidamente se entre numa zona de esforço muito avançada. Quer dizer, eu não percebo nada de fisiologia, isto há-de ter alguma explicação cientifica, a minha opinião vem da experiência e da aplicação do coeficiente de arrasto, ou seja, a pouca capacidade de no 2º treino fazer algo mais do que arrastar-me.

Ora então, o menu foi composto por: Trail da Coruja + 28km em Montejunto no primeiro fim de semana e Santarém On Fire Trail + Moinhos Saloios no segundo.

A intensidade na linha da partida!
O Trail da Coruja foi a primeira edição de uma corrida organizada em Coruche. Com começo às 21 e 15km de extensão. Muito rápida, divertida e interessante! A pedido da organização escrevi uma pequena crónica da mesma que podem ler aqui. O dia (ou madrugada) seguinte era de 28km com cerca de 1650D+, que é a volta base de Montejunto. Acabou por ser o treino naquela Serra que me custou mais fazer. De sempre! 

Este fim de semana, por coincidência, o plano era muito parecido. Primeiro um trail nocturno, agora em Santarém, que se previa muito rápido, e na manhã seguinte os 25km desta vez de uma prova, o 3º Trail dos Moinhos Saloios na Venda do Pinheiro.

A subir uma encosta de Santarém
O Santarém On Fire Trail foi a primeira edição de uma prova organizada em Santarém pelos Bombeiros Municipais (só a organização explica/desculpa o nome meio manhoso). Foram 18km pelas encostas e centro histórico da cidade com partida a umas ainda muito quentes 20h de sábado. 

Ora, eu treino rampas em Santarém todas as semanas (Almeirim fica naquela planície que vêem lá atrás na foto anterior) desde há muito tempo. Pensava que conhecia os recantos e melhores sítios para treinar da cidade, por isso foi num misto de pânico e surpresa quando a meio da 3ª subida da prova comecei a pensar onde é que aquele pessoal tinha ido desencantar aquelas paredes! O percurso foi um constante sobe e desce por trilhos muito interessantes, com subidas demolidoras mas nunca maiores que 90D+ (a orografia não o permite), algumas descidas bastante técnicas e sempre, sempre no red line. Uma espécie de prova de 10km de estrada mas em trilhos! Muito bem marcada, apenas com algumas falhas por fitas claramente roubadas, com 3 bons abastecimentos onde bebi apenas água, quase com 700D+ num misto de trilhos, escadas, calçadas e estrada! 1h41 que me valeram um 14º lugar (não foram muitos pros, obviamente) passadas de pulmões quase em combustão. 

Uma prova muito parecida com a de Coruche, apesar de mais dura, num formato que me atrai bastante. Ao contrário das ultras, onde o factor gestão é super importante, aqui é começar à morte e acabar a morrer, o que oferece um conjunto de sensações a que não estava habituado. De realçar também a excelência da prova e organização. Depois da Scalabis Night Race, para mim a melhor prova de 10km do país, Santarém atinge agora o seu potencial máximo numa prova de trilhos muito interessante que recomendo a todos. Ah, e no fim ainda houve banho no Complexo Aquático, Sopa da Pedra e bifanas para todos. A repetir!

Cartaz dos Moinhos Saloios
Na manhã seguinte rumei à terceira edição do Trail dos Moinhos Saloios, em Venda do Pinheiro. Seriam 25km com 1000D+, o que não sendo um grande desnível era óptimo para complementar o treino anterior. 

Avisado pelas dificuldades que tinha passado a semana anterior, estive uma boa meia hora a alongar em Santarém, na esperança de estar mais fresco nos Moinhos. Infelizmente fresco foi a palavra mais distante possível de tudo o que se passou no Domingo!

A prova teve inicio às 9 horas, no relvado sintético de Venda do Pinheiro. O estádio está um pouco fora da cidade, mas no sentido oposto da localização dos montes onde decorre a prova, o que implica alguns quilómetros (poucos) iniciais e finais necessariamente em estrada antes de chegarmos aos trilhos. Esta não é uma prova com grandes pretensões. Pelo contrário, é uma prova honesta, organizada com gosto e sem grandes manias. Está lá tudo: um percurso que explora ao máximo as potencialidades da zona, abastecimentos bem apetrechados e em bom número, um EXCELENTE abastecimento final, boas marcações e gente simpática. Estão lá bons trilhos (como o do javali, meu preferido e que me levou a pensar que todas as provas têm um trilho do javali), duas subidas desafiantes, a Manique e Atalaia, e muitas outras mais curtas e perfeitamente corríveis, também lá estão as necessárias ligações em estradões e até um chuveiro de água fresca numa localidade a meio da prova!

Infelizmente, uma prova que tinha tudo para ser tranquila, foi de um sofrimento atroz para mim! E atenção, o meu plano nunca era ir no limite, mas antes percorrê-la tranquilamente. Assim que saímos do estádio e temos uma PEQUENA rampa em alcatrão para subir, parecia que já ia com 40km nas pernas. Estive vai não vai para começar a andar logo ali! O que se seguiu foi um espectáculo deprimente e o definhar vergonhoso de um gajo que daqui a menos de 2 meses vai andar a correr 100 milhas nos Alpes. A certa altura apanhámos uns degraus para subir e lembro-me de pensar que aquilo me estava a custar mais que a travessia entre os picos no MIUT deste ano. O calor não ajudou, é certo, mas isso não é desculpa e até serve de aviso, o ano passado esteve muito calor no UTMB e é mau sinal ir-me abaixo desta maneira. A certa altura já estava tão desconfortável que só queria que aquilo acabasse. Assim que inclinava um bocadinho começava logo a andar!

No fundo era isto que eu queria, um treino intenso. O objectivo foi plenamente cumprido, apesar de todo o desconforto. Estou convencido que este método de treino tem mesmo efeitos, porque em condições normais e com o treino que ando a fazer, não teria grandes dificuldades em completar a prova, apesar do calor intenso. Fi-la em 2h56, com uma aparentemente boa classificação de 35 em 200 e tal, que mais uma vez só foi possível porque não havia muita gente a andar muito.

Destaque especial para o abastecimento no final, na meta. O melhor que já vi! Um dos patrocinadores da prova era um produtor de queijo, então havia queijo fresco com fartura. Eu mamei logo 3 e proponho a partir de agora que queijo fresco (juntamente com melancia) faça parte dos produtos obrigatórios em abastecimentos de provas no verão!

Com Simão, Dourado e Chico. Companheiros de muitas aventuras, antes da prova.
Pois é, o mês de Julho está aí e com isso faltam menos de dois para o UTMB. Partindo do principio que as 3 ultimas semanas vão ser a descer, este é o mês do tudo ou nada. Estou confiante e tranquilo, há planos para ser um mês em cheio. Como sempre disse, se alguma vez fosse ao UTMB iria treinar como nunca treinei na vida para aproveitar a oportunidade, e acreditem, não a vou deixar fugir. Estou quase em Chamonix!




quarta-feira, 22 de junho de 2016

O Combustível

Uma das coisas mais assustadoras fascinantes de correr ultra distancias é a quantidade quase infinita de variáveis que podem influenciar a nossa prestação. Vamos treinar o máximo e o melhor que podemos, vamos testar equipamento até à exaustão, vamos delinear planos alimentares a régua e esquadro, decorar o perfil, vamos fazer tudo conforme as regras. Mas depois a meio da prova apercebemo-nos de uma bolhazita provocada pela água toda no percurso (que não era suposto existir), ou o estômago vira por causa de um gel a que não estamos habituados, ou desata a chover, ou está um calor infernal, etc etc, e de repente estamos num mundo novo. Deitamos fora a folhinha branca A4 dobrada e arrumada a um canto da nossa cabeça, rasgamos o canto de um papel velho e amarrotado, pegamos num lápis mal afiado e começamos a delinear a estratégia que nos permitirá chegar até ao fim.

Confesso que demorei bastante tempo a aceitar o facto de que há coisas na corrida que não consigo controlar. Sou uma pessoa extremamente metódica e analítica, apaixonei-me pela física e formei-me em engenharia civil precisamente pela satisfação e conforto que me dá pensar em coisas absolutas. Curiosamente, essa incerteza nas ultras é das coisas que mais me atrai! Deve haver uma explicação qualquer para isto, mas, como não sou um gajo das humanidades, escapa-me.

O truque parece ser controlar o máximo de variáveis possíveis. Nesse aspecto, acho que há 3 importantes campos a serem trabalhados:

Já disse que gosto de esquemas?
O Treino é o mais importante de tudo. Todos os aspectos do treino - físico e mental.

O Equipamento utilizado durante uma prova que dura muitas horas é importantíssimo. Quero fazer um post sobre o que vou levar para o UTMB, mas esse campo ainda vai ser trabalhado nos próximos dois meses.

O terceiro vértice do triângulo, a Alimentação, é o que me levou a escrever este artigo.

Ao longo dos anos já andei em campos completamente opostos do espectro: desde achar que bananas e amendoins é mais que suficiente, até ir carregado de coisas na mala. Nesta altura estou bastante seguro da minha estratégia para o UTMB e é por isso que faço este post. No entanto, é importante partir de dois pressupostos:

1 -  Não tenho qualquer acompanhamento a nível da nutrição. Todas as conclusões a que cheguei são baseadas no método experimental. Este método dá origem a um corolário: sendo ele baseado na MINHA experiência, não sei se se aplicará a outros.

2 - Não é por fazermos uma alimentação imaculada que vamos chegar ao fim sem levar com a marreta. É só mais uma variável que tentamos controlar e dessa forma adiar a vinda do senhor do martelo. Que eu saiba ainda não há barritas que se transformem em pernas, por isso o melhor é treinar.

Posto isto, vou aqui deixar uma bomba que aposto vai ser novidade para vocês, já que duvido que alguma vez alguém tenha chegado a essa conclusão: o nosso corpo precisa de combustível para andar.

Pronto, deixem assentar, respirem...

É verdade. Não me perguntem quantos gramas de hidratos ou proteínas precisamos por hora. O que sei é que, por experiência, se não for abastecendo o depósito de vez em quando, mais cedo ou mais tarde meto o pisca e encosto à borda da estrada.

Independentemente do que há nos abastecimentos, há uma coisa que não pode falhar: no máximo de hora e meia em hora e meia tenho que ingerir qualquer coisa. Já aprendi que não posso estar dependente dos abastecimentos das provas. Primeiro porque nem sempre são completos ou bem localizados, depois porque podem passar horas entre abastecimentos, e isso pode ser fatal. A consequência é andar carregado como um burro de carga e ter os ombros doridos ao fim do dia, mas quando começo uma prova tenho que saber que posso chegar ao fim sem precisar dos abastecimentos sólidos.

Como disse lá atrás, já experimentei de tudo neste campo. No MIUT do ano passado, fora dos abastecimentos, apenas ingeri 2 (dois) géis durante a prova toda. Ok, o MIUT tem os melhores abastecimentos que já vi, mas não foi de todo suficiente. Por exemplo, entre Curral de Freiras e o Pico do Areeiro, onde estavam dois abastecimentos de sólidos, passaram 16km e  +/- 1500d+. Nesse ano demorei umas 5 ou 6 horas a cumprir o percurso, isto tudo sem comer! (estou neste momento a auto-infligir calduços com bastante força). Só um exemplo de que estar dependente dos abastecimentos, pelo menos para alguém do meu nível, NÃO FUNCIONA.

Já andei carregado com comida a sério. Sandes, panados, frutos secos, atum, etc... Ponto negativo nº 1, é muito volumoso e pesado. Ponto negativo nº 2, ao fim de algumas horas é virtualmente impossível comer alimentos muito secos. Não estou a exagerar, por mais que me esforce é IMPOSSÍVEL engolir certos alimentos. Empapa e não desce. Se muito a esforço conseguir empurrar com água o mais provável é ficar enjoado a seguir.

As barras parecem uma opção lógica. São alimento sólido, têm lá na fórmula os ingredientes todos que interessam, são pequenas e saborosas (algumas, vá). Mas tal como as sandes, sei que a partir de certa altura não as vou conseguir comer, é certinho.

O gel, que ainda há um ano era um grande NÃO na ementa, é, para mim, o combustível ideal. Têm os hidratos, os eletrolitos e essa treta toda, podem ter cafeína, são rápidos de ingerir e depois de 3 goles de água vão abaixo e já não nos lembramos dele. O ponto negativo é que se tiver sensação de fome até posso comer 3 géis que ela não me passa.

Posto isto, senhoras e senhores que conseguiram ler até aqui sem adormecer, aqui está a minha estratégia de alimentação para o UTMB:
  • Ir carregado com géis e barras que nem uma mula. Na primeira metade da prova, até Courmayeur, +/- 20h, vou levar 10 barras e 10 géis. Nesse abastecimento, que serve de posto de vida, vou ter outras tantas barras e géis num saco para abastecer até ao fim. As primeiras horas vou tentar comer 2x barra 1x gel (com cafeína). Por exemplo: 1h30 (barra), 3h (barra), 4h30 (gel com cafeína). Já sei que vou enjoar as barras, por isso vou aproveitar enquanto o estômago deixa para ir atafulhando. A partir do momento em que começar a não entrar as barras vou-me virar exclusivamente para o gel, para que não haja hipótese do motor ficar a seco.
  • Levarei apenas água pura comigo, 1.5l no camel back, não gosto de levar bidons nem flasks. Vou aproveitar todos os abastecimentos para beber isotónico e café. 
  • Em todos os abastecimentos vou tentar meter comida "a sério". Sei que a única que vai entrar sempre bem será comida mais húmida, tipo canja, banana, marmelada ou aletria. O ideal seria como no MIUT, onde comi canja em TODOS os abastecimentos, mas não sei se isso será possível no UTMB.
  • Não levo isotónico comigo mas levo cápsulas de eletrólitos. Não sou muito disciplinado com elas, normalmente só tomo quando tenho ameaças de cãibras. Nessa altura tomo de meia em meia hora até me esquecer, sinal que já passaram as cãibras. 

Estas são as marcas que vou usar:


Zipvit ZV7 - Um bocado espesso, mas daqueles que parece que dão mesmo um boost. Há vários sabores e a caixa pode ser comprada com uma mistura de sabores. É bom porque assim vamos variando e não enjoamos. Será o meu principal alimento



Zipvit ZV7c - Com as características do anterior mas a adição de uma quantidade grande de cafeína. Não sabe tão bem como o outro, mas para mim é importantíssimo ir ingerindo cafeína, principalmente durante a noite logo antes de amanhecer.



My Protein Ener:Gel - Uma muito boa surpresa. Não tem o poder do Zipvit (quantidades de hidratos, etc), mas é muito mais fluído e saboroso. Parece que estou a beber um sumo. É bom para desenjoar do outro e mesmo assim ir alimentando.

As barras são a maior dor de cabeça. Já experimentei uma quantidade muito grande delas, mas acabo sempre por as enjoar e depois nem consigo comer nos treinos, quanto mais em prova. Gostava ainda de experimentar outras barras mais "orgânicas", como por exemplo as Olimpo, mas até ver estas são as duas que se têm mantido na dieta e que à partida vou levar.

Gold Nutririon Extreme Bar - É provavelmente a barra com sabor mais sintético de todas, parece um chocolate Mars. Mas apesar de ser um bocado borrachosa não empapa, e em 4 dentadas mandamo-la abaixo. O melhor que tenho a dizer delas é que são as que como mais e ainda não  enjoei.


My Protein Energy Bar - Bastante maiores que as Extreme, talvez por isso quando as como fico mais saciado. À primeira dentada parecem muito duras e difíceis de comer, mas curiosamente não empapam nada. Muito saborosas, parecem aqueles snacks que se vendem para a dieta.

Cápsulas Hammer Endurolytes - Basicamente são cápsulas de sais. Não há muito a dizer sobre elas, é sal... Não abuso, como disse lá atrás só as tomo quando sinto as cãibras a chegar.

Alguma sugestão por aí? A gerência agradece.


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Estrela Grande Trail (90km)

Cometi alguns erros este sábado na Serra da Estrela. O principal? Fui arrogante. Subestimei a prova e a Estrela. A humildade deve ser dos factores mais importantes quando se enfrenta uma montanha e desta vez não a inclui no meu equipamento obrigatório. O resultado foi o óbvio: voltei para o meu lugar com o rabinho entre as pernas, envergonhado, vergado a uma força infinitamente maior que eu.


A partida coincidiu com os primeiros raios de sol de um dia que se adivinhava perfeito para correr. Nem frio, nem muito calor, nem chuva. Perfeito, como o ambiente na partida. Deixei-me ficar lá bem para trás quando chegaram as 6 da manhã, e assim ataquei a primeira subida da prova, que surgiu poucos metros depois de passar o pórtico.


Sem tempo para grandes contemplações começamos a primeira escalada do dia, primeiro num estradão que zigue-zagueava entre árvores gigantes que de vez em quando abriam para nos dar um vislumbre do assombroso Vale Glaciar. Depois num trilho dentro de um bosque no cume da montanha, com a vegetação a ficar mais rasteira e os maciços graníticos mais frequentes, até virarmos a montanha, entrarmos no Vale do Rossim e darmos de caras com o espelho de água da represa que reflectia o azul do céu em contraste com os mantos verdes pontuados de cinzento do planalto. O sol, que entretanto também já tinha virado a montanha, disfarçava o vento frio e compunha este quadro quase irritantemente perfeito. Para trás tinham ficado 10km e quase 900 metros de subida, sinceramente nem dei por eles. Gosto destes inícios de prova brutos, nada como chegar ao topo de uma montanha fresquinho para dar confiança!


Os 12km seguintes, até ao 2º abastecimento na Garganta da Loriga, foram dos meus preferidos da prova. Quase sempre a subir, sempre em direcção à Torre que espreitava lá bem ao fundo, uma paisagem virgem e idílica, com mantos verdes rompidos por rochas gigantes que pareciam ter sido colocadas na terra por alguém com sentido de humor. Atravessámos a Fenda da Talisca, saltitámos por entre os milhares de charcos de água transparente, subimos e descemos rochas, cada vez mais alto, cada vez mais perto da Torre. Chegados muito perto dos 1900 metros, com a Torre quase à distancia de um braço, virámos para a Garganta da Loriga.

Talisca. Obrigado Google!
Já tinha ouvido falar muito desta descida. Criei uma grande expectativa em relação a ela, sabia que seria a mais difícil da prova e tinha-lhe um grande respeito. Aqui não fui arrogante, mas todas as projecções que tivesse feito estariam sempre a anos luz da realidade. Descemos por uma garganta super apertada, quase claustrofóbica, que parecia dividida em pequeno patamares à medida que progredíamos. Rochas e mais rochas. Impossível correr, impossível sequer ter um passo constante. Escorreguei dezenas de vezes em rochas molhadas, caí algumas, perdi o fôlego a cada patamar, senti as pernas a latejarem e desesperei quando a empreitada simplesmente parecia difícil de mais, mas depois entrávamos noutro patamar e...bem, tudo fazia sentido outra vez. O quilómetro final, já em estradão e a chegar a Loriga, foi feito a correr e a fazer contas de cabeça ao estrago provocado nas pernas pelos mais de 1000m de descida. Não há-de ser nada.

As pedrinhas da Loriga. 
Saí do abastecimento muito moralizado e confiante, a previsão do tempo de passagem batia certo quase ao minuto. No entanto tinha perfeita noção que a prova só começaria dali a 7km, quando estivesse na base da subida para a Torre.

Os quilómetros até lá, ao Alvoco, passaram sem grande história. Uma subida curta, seguida de uma descida fácil em estradão embalaram-me até ao abastecimento onde estavam a Sara e os miúdos. Sentei-me a comer uma canja calmamente, tirei a camisola térmica e confirmei com ela a previsão de 2 horas para a subida de 1200D+ até lá acima. Desde o início do dia que estava desejoso por enfrentar o quilómetro vertical do Alvoco, era o desafio final do EGT, chegado lá acima com pernas seria o suficiente para ir até ao fim calmamente. Achava eu.

Encarei esta subida quase como uma tarefa do trabalho. Acho que nem levantei a cabeça para olhar para a paisagem, a minha mente trabalhava como uma máquina: escolher onde meter os pés, avaliar o nível de esforço e adaptar a velocidade de subida. Se fosse preciso abrandar, abrandava. Comecei a passar alguns colegas e a ganhar confiança. Lembrava-me de quando fiz o quilómetro vertical há dois anos das partes mais difíceis e de quando serenava. A meio da subida, com 1 hora, comi um gel que quase me fez vomitar. Não tinha levado os géis habituais e que tão bem resultaram na Madeira, comprei antes uns à pressa na feira na noite anterior. É só gel, não há-de haver problema. O ultimo quilómetro, já muito mais suave que o resto da subida, é feito com a Torre em pano de fundo. Percorri-o a sorrir, orgulhoso pelo feito e por ter chegado ali aparentemente com pernas. A estratégia estava a resultar na perfeição, tinha domado a montanha, nada podia correr mal a partir dali!

A recepção :)
Entrei no abastecimento eufórico e virei-me para a mesa da comida. Meti uns bocado de queijo à boca que empaparam, tive que os cuspir na rua. Desde a canja do Alvoco que vinha mal disposto e a cada gole de água dava 2 ou 3 arrotos que se deviam ouvir a 2km (bonita imagem). Bah, agora também é só descer e gerir o resto da prova.

Despedi-me da Sara e dos miúdos, e combinei que já só os veria em Manteigas. Era agora altura de percorrer o famoso Trilho do Major, que nos levaria até ao Vale Glaciar. Encarei-o como uma recompensa pelo esforço da subida anterior. Nada como uma descida num trilho bonito e corrivel aos ésses pela montanha para recuperar de uma subida violenta. Mal podia esperar para o atacar!

Saímos da estrada na Torre e começámos a descer por uns caminhos com alguma rocha e muita água. Corremos 200 ou 300 metros na neve, que fizeram as delicias tanto dos atletas como dos fotógrafos, e voltámos à pedra. O caminho era espectacular, mas muito difícil. Cruzámos uma estrada de alcatrão e entrámos em novo trilho. Era agora que ia começar a minha descidazinha aos ésses boa de correr!

Miro Cerqueira, a fazer fotos de capa desde 2015.
Ah.. Mas.. Isto está cheio de pedra! Talvez descendo mais......não, pedra! 

Rocha, rocha e mais rocha. Mas não são pedras soltas, são rochas grandes que temos que alçar a perna, usar as mãos e o rabo para transpor! Uma brutalidade de descida, uma espécie de Garganta da Loriga! A paisagem era de cortar a respiração, mas ia de tal maneira atordoado que nem me apercebia. Nunca caminhei tanto numa descida, não conseguia correr em lado nenhum. Em parte pela dificuldade técnica mas principalmente pela bordoada que tinha levado. Ninguém me disse que a descida era fácil ou que era corrível, eu é que meti isso na cabeça. Este aparentemente pequeno revés foi o suficiente para despoletar tudo, a partir daqui foi sempre a descer. Não me interpretem mal, os 8km de descida são das coisas mais incríveis que já vi! Muito variados, desafiantes, técnicos... Mas o click já tinha acontecido, e não havia trilho fresquinho aos ésses que me desse a volta. 

Foi quase hora e meia a descer, muito lento. Perdi a noção das horas e o controlo do tempo a que devia comer, quando me lembrei disso tentei comer uma barra mas já só consegui dar uma dentada. Empurrei o resto com água o que me deixou mais enjoado. Depois como no abastecimento... 

Vejam a parte final do trilho, dá para ver as pedras. Foto da Sara.
O abastecimento apareceu depois de uma parede de 300D+ que nos voltou a levar para fora do Vale. Apliquei a estratégia do costume nas subidas, mas esta já foi muito a esforço. Foi com alivio que cheguei ao estradão que nos levaria até ao abastecimento em Poios Brancos, 54km percorridos.

Chegado lá pousei os bastões e preparei-me para comer. Experimentei bananas, uma barras de cereais, marmelada, queijo.. Já nada entrava. Não havia canja, era isso que me salvaria! Paciência, vou continuar, no Vale de Amoreira há de certeza.

A partir daqui a prova mudou radicalmente. Não a minha, essa mudou um pouco mais atrás como perceberam, mas o percurso da prova. Tornou-se de facto rolante, e a prova disso foram os 7km a descer quase sempre em estradão até ao Poço do Inferno, local do 8º abastecimento. Percorri-os quase sempre a correr, todos na casa dos 6min/km, mas sempre muito a esforço. Já nada saía naturalmente, sentia que estava à beira do precipício, ao mínimo desequilibro caía para o outro lado. Cheguei ao Poço do Inferno uma hora antes do inicialmente previsto, o que me dava uma boa margem para ainda conseguir as 16 horas, Talvez ainda desse...

Assim que saio do abastecimento, onde só havia líquidos mas não valeu de muito já que não conseguia beber nada, apanho uma pequena subida, a primeira desde o Vale Glaciar. E foi aí que...


Se houvesse mais neve no pico de certeza que o meu estoiro teria provocado uma avalanche.

Dez quilómetros separavam-me do abastecimento do Vale de Amoreira. Dez quilómetros de estradão quase sempre a descer mas com algumas picadas pelo meio. Nada de extraordinário não é? Pois, não devia ser, mas foi. 

Comecei por fazer as subidas cada vez mais devagar e a demorar mais tempo a recuperar antes de iniciar a corrida nas descidas, até que desisti e fazia as descidas a andar. Aqui ganhei uma nova companhia de viagem, as moscas. Verdes e moles, entravam-me para dentro da boca, ouvidos e nariz. Assim que parava atacavam. Agitava os braços feito maluquinho, estava a entrar em desespero! Por favor, quem estiver a ler isto e que tenha estado lá, digam-me que não estava a alucinar e existiam de facto moscas verdes mutantes naquela parte do percurso! 

De repente a ideia de desistir começou a formar-se na minha cabeça, cada vez que parava e me debruçava sobre os bastões ganhava mais consistência. Desde a Torre que não conseguia comer ou beber, algo porque nunca tinha passado antes e estava agora a ter o seu preço. Estava completamente drenado de energia, o próprio acto de segurar os bastões já era difícil e arrastava-os no chão enquanto andava. A 3km do abastecimento estava perfeitamente decidido a ter a primeira desistência da minha vida e conformado com a ideia, não fazia sentido continuar assim. O quilómetro final, já no alcatrão e ligeiramente a descer, demorei uma eternidade a percorrer. Sentei-me umas dez vezes no chão. Disse à Sara para me vir buscar. Estava em paz com a minha decisão, nada de dramas. 

Chegado ao abastecimento sentei-me numa mesa à parte do resto das pessoas, debrucei a cabeça sobre os braços e assim fiquei algum tempo. Não que me estivesse a sentir mal, mas nem forças para levantar a cabeça tinha! Tirei a mochila e preparei-me para esperar pela Sara. Estava irritado e frustrado, é completamente estúpido pensar que se tem uma ultra dominada só porque se desenvolveu "um sistema", como se não houvessem milhares de variáveis só à espera para nos mandarem abaixo. Não sei o que me chateava mais, se a constatação desse facto ou ter falhado redondamente os objectivos que tracei de maneira tão arrogante neste post

Passaram uns bons 20 minutos até a Sara aparecer. Nesse tempo algumas pessoas vieram falar comigo e tentaram convencer-me a continuar. Uma dessas pessoas foi a Carmen, que basicamente me trouxe de volta à terra. "Mas o que é que tens? Estás com vómitos? Caíste? Doi-te alguma coisa? Torceste um pé? Não?? Então não continuas porquê??? Cansados estão vocês todos! Vá ver!"

Pois..realmente.. nem um tornozelozito dorido...

Bem, mas estava decidido. Quando a Sara chegou ainda estivemos ali uns 10 minutos, até que me levantei para ir embora com ela. 

Meti a mochila às costas. Para ir embora, claro.

Peguei nos bastões. Para levar para o carro.

Comecei a andar em direcção ao carro, quando...

"Olha pronto, vou continuar. Até logo!" Virei as costas e segui caminho.

Desenganem-se, não há aqui nenhuma explicação romântica, nenhum renascer das cinzas ou final épico. Foi em modo Walking Dead que percorri os 20km que me separavam da meta. Primeiro arrastei-me os 800m D+ estradão acima, depois gatinhei nos 800m D- estradão abaixo. Continuei sem conseguir comer ou beber nada, até à manhã seguinte. Deprimente, completamente vergado. Sinceramente acho que não me arrependeria de ter ficado no abastecimento. Não há que fazer grande drama com as desistências, ninguém nos está a julgar, não temos nada a provar a ninguém. Não, nem é bem isso, na verdade ninguém quer saber! Ainda agora que estou aqui sentado a escrever tenho dúvidas se tomei a decisão certa.

Quatro horas depois do abastecimento do Vale de Amoreira, cheguei. Foram quatro horas que serviram para pensar bem nisto da ultra corrida, esta coisa insana de passar horas e horas num limite físico e mental. É estúpido, é masoquista, é, é, é...... pois, isso tudo! Mas.... depois chega a meta e...... o que é que eu estava mesmo a dizer...?






quarta-feira, 18 de maio de 2016

90 quê..?

Hm? 

Estrela Grande Trail? 

90 quê..? Quilómetros?

Ah, pois.. mas isso é só lá pra Maio! Dia 21 ou lá o que é...

Como é que é? Já estamos em Maio?

Ok...mas dia 21 é só.....

ESTE SÁBADO?!?


Pois é, numa altura em que ainda olho para a pulseira do MIUT que carrego no pulso direito com muita saudade e nostalgia estou a 2 dias de alinhar nos 90km com 5300m D+ do Estrela Grande Trail.

Quatro semanas separam as duas provas. É muito pouco? Pois é, têm razão. Felizmente o meu treinador é um gajo porreiro e compreensivo e deu-me o aval, mas só depois de uma conversa muito intensa. Foi mais ou menos assim:

- Man, queria muito ir àquela prova do Armando Teixeira na Estrela, com 90km...
- Hm, isso não é muito perto do MIUT?
- Sim. Mas é na boa!
- Ah, então está bem!

A seguir a Sara perguntou-me porque é que estava a falar sozinho e eu calei-me e fiz a inscrição.


Confesso que nunca tinha estado tão fora de uma prova como desta. Faltam dois dias e ainda não entrei de todo "na zona". Culpa da ressaca do MIUT que ainda não passou, do trabalho que tem sido intenso, e.. bem, por coisas da vida! Por um lado é bom, já que os níveis de ansiedade estão no mínimo, mas é estranho estar à beira do precipício e não sentir formigueiro na barriga. A verdade é que vai ser um desafio brutal: 90km n'A SERRA de Portugal. Sitio onde só corri uma vez mas que figura no meu imaginário como o derradeiro local para correr em Portugal. 

Parto para ela com vários objectivos. O primeiro, e mais importante, é conseguir fazer uma prova sólida nesta distancia. Consegui fazê-lo nos 50km do Piodão, mas falhei (sinto que foi por pouco, mas falhei) no MIUT 2016. Depois quero consolidar a minha forma a subir, que me tem deixado satisfeito, mas principalmente meter quilómetros de descidas nas pernas, onde ainda estou MUITO longe de ser eficaz. Acho que despendo demasiada energia nas descidas para a velocidade que levo, continua a ser a minha maior preocupação para o UTMB. O terceiro e ultimo objectivo é daqueles mais fúteis, mas gostava de voltar a conseguir um lugar no primeiro terço da tabela, como aconteceu no MIUT (sim, conto que os que desistem, e sim, foi mesmo mesmo mesmo no fim do primeiro terço eheh). 

Como sempre, fiz uma previsão do tempo estimado com base num sistema altamente complexo, criado por mim, que consiste em ir aos resultados do ano passado e ver quanto é que fez o gajo do meio. E o resultado foi: 16 horas. 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Madeira Island Ultra Trail - 2016

Quilómetro 70 - 1600m de altitude.
              
Para trás tinham ficado 69km de uma prova quase perfeita - tudo de acordo com o plano! De trás para a frente, controlada, sólida e confortável. Obstáculo atrás de obstáculo transposto. Cada vez mais confiante, mais sorridente e bem disposto!

Mas depois chegou o quilómetro 70.

No quilómetro 70 mudou tudo.


Já estávamos no avião da Easyjet, depois de muitas horas de espera dentro do terminal e de uma primeira falsa partida, quando o meu receio se confirmou - era impossível aterrar no Funchal naquela noite. Pelas cabeças de mais de metade dos passageiros do avião terá surgido imediatamente a mesma dúvida: será que chego a correr?? Felizmente, rapidamente e com uma eficácia espantosa, a Easyjet tratou de marcar um voo para a manhã seguinte e transportou-nos de autocarro para o luxuoso Hotel Marriot. Entretanto, enquanto dormíamos umas curtas 5 horas no que me pareceu o colchão mais confortável alguma vez produzido, o temporal que devastou a Madeira no dia anterior dissipou-se e permitiu-nos aterrar no espectacular aeroporto do Funchal por volta das 10:30 de sexta feira. Nessa altura caiu a ficha: o dia já começou há 5 horas e ainda tenho 115km para correr!

Abençoado colchão do Marriot
Era altura de assentar bagagens, levantar dorsais, almoçar e desligar os motores durante umas horinhas para repor o sono que fiquei a dever ao colchão do Marriot. Felizmente, tudo na Madeira parece que funciona bem e este processo foi muito rápido. Já deitado noutro colchão, o d'O Facho em Machico, depois de uma sesta retemperadora, finalmente sosseguei os receios de um começo em falso. Voo cancelado, planos furados, voltas alteradas... pouco interessa! Eram nove da noite e estava na hora de ir virar a ilha!

Eu e o Vasco, também ele repetente, despedimo-nos dos nossos companheiros de viagem, que teriam prova no dia seguinte, e entrámos no ultimo autocarro rumo a Porto Moniz. Os risos e piadas nervosas dos primeiros minutos deram lugar a um silencio sepulcral dentro do autocarro. Enquanto observava as escovas a limpar uns pingos de chuva do limpa para-brisas, revi a prova na minha cabeça, mas desta vez não numa perspectiva ansiosa, de quem quer saltar para o monte e enfrentar o monstro, mas com puro receio, de quem sabe o que vai encontrar. O nó na barriga apertou quando logo de seguida me lembrei da Sara e dos miúdos, que desta vez tinham ficado em casa. Comecei a entrar num local escuro na minha cabeça e peguei no telemóvel para lhe mandar uma mensagem a dizer que não me estava a sentir bem, mas em boa altura me deixei de pieguices e voltei a arrumá-lo no bolso.

Eu e o Vasco, que já conhecem de outras aventuras. 
Chegámos a Porto Moniz. Temperatura amena, como é habitual na Madeira, e chuva muito muito ligeira. Encaminho-me com o Vasco para a partida e sentamo-nos nos mesmos degraus onde estivemos o ano passado. Estou muito nervoso, o nó na barriga aumentou, mas como sempre a presença do meu amigo é tranquilizadora. Há pessoas assim, o Vasco é uma delas. Ultimo telefonema para casa, emociono-me quando oiço a minha Mel a dizer "gosto de ti pai, o pai ganha!" e despeço-me de todos. Tinha chegado a hora. Mais que em qualquer outra prova, é avassalador o sentimento de respeito que se sente naquele garrafão antes do pórtico de partida. Todos os caminhos me levaram até ali, agora era altura de cumprir o meu destino.

Estava bem lá atrás.
Partida dada e rapidamente me deixo ficar entre os últimos 50 dos 579 que partiram. A estratégia estava mais que definida na minha cabeça, ia enfrentar a prova de trás para a frente e os primeiros 27km eram uma fatia importantíssima do plano. Ao contrário do ano passado, onde dei tudo nesta parte da prova, agora teria que chegar a Estanquinhos seguro e confortável. Era fulcral que assim fosse, até psicologicamente.

Este ano está ainda mais gente nos primeiros metros depois da partida. Centenas ou milhares de pessoas a aplaudir e aos gritos! Impossível não ficar por um lado motivado, por outro envergonhado por começar a passo quando a subida empina. Mas assim terá que ser. Encaro os 400d+ desta primeira subida, que por sinal é a mais fácil de toda a prova, com muita calma e aproveito para observar melhor que o ano passado Porto Moniz lá em baixo. O final coincide com um lance de escadas, onde apanho um pequeno engarrafamento e desemboca numa levada muito boa de correr. Assim que viramos a montanha começam a ouvir-se os gritos da multidão que mais uma vez estava lá em baixo, em Ribeira da Janela. Percorro a descida em zigue zague muito tranquilamente, mais preocupado em não torcer um pé do que com ultrapassagens. Ao passar a ponte lá em baixo olho para trás, mas desta vez venho tão no fim que o famoso zigue zague luminoso não está em todo o seu esplendor! Enfim, essa recordação já eu a tenho. O prologo estava cumprido, ia começar o MIUT.

Zigue Zague. Foto "Madeira lés a lés".
Lembrava-me bem da subida seguinte. Dos primeiros 2km ainda dentro da povoação e mais tarde a entrada no trilho e as primeiras escadas. Subimos debaixo das nuvens até cotas de 500 ou 600m, até que as apanhamos e passamos a andar dentro delas. Foi assim que entrámos no trilho, debaixo de uma chuva ligeira, temperatura amena e humidade altíssima. O que não estava à espera era de um novo elemento que nos foi apresentado precisamente nesta altura: a lama. O temporal dos últimos dias fez estragos, particularmente nesta parte inicial, o que tornou uma subida difícil numa alarvidade com lama pelos tornozelos. Os degraus em troncos estavam ainda mais escorregadios e frequentemente enfiávamos os pés todos dentro da lama. Não estava fácil, muito pelo contrário. Ninguém falava, sentia-se a tensão entre todos. A subida mostrava-se demolidora, os 1200+ em 11km não deixavam margem para dúvidas, aqui os mais fracos não passariam. As árvores cobriam-nos por completo, não passava uma brisa. Por volta da cota 1000 passámos finalmente o nível das nuvens e entrámos numa espécie de planalto. Aqui tenho o primeiro momento arrepiante do dia - a lua, gigante, iluminava um manto branco fantasmagórico poucos metros abaixo de nós, dele despontavam picos pontiguados, agressivos, de contornos pretos, que contrastavam com o mar branco de nuvens. Uma coisa abismal, tive que parar para absorver aquilo! Subíamos em campo aberto e com menos inclinação quando comecei a ouvir os gritos e sinos. O primeiro abastecimento, do Fanal, estava já ali!

Por incrível que pareça, os abastecimentos este ano são ainda mais completos e bem organizados que o ano passado. Bebo rapidamente uma chávena grande de café, uns bocados de queijo e alguns figos. Por esta altura já tinha metido um gel e uma barra, decidi que não passaria uma hora sem comer qualquer coisa, por isso não tinha fome. Olhei de relance e já via algumas pessoas com muito mau aspecto sentadas no abastecimento. O MIUT não brinca em serviço...

A descida seguinte, até Chão da Ribeira, marcou-me no ano passado. É sem dúvida alguma a descida mais difícil que já fiz na vida e assustava-me tanto como um km vertical a subir. Sempre que falava com estreantes avisava-os desta descida e não de qualquer subida. Mas agora arrependo-me disso - devia ter exagerado mais! Que doideira de descida! Degraus, socalcos, degraus, pedras, raízes, lama e mais lama. Escorreguei dezenas de vezes e fi-la quase a passo! Uma brutalidade que dá cabo não só das pernas mas da cabeça, que não consegue sossegar um segundo.

Quando passei o abastecimento do Chão da Ribeira, nos míseros 100 ou 200 metros que intercalam a descida anterior da brutalidade de subida até Estanquinhos senti que estava numa espécie de trituradora implacável. Ai acabaste a descida mais difícil da tua vida? Então toma lá este petiscozinho. 

Já vos falei desta subida o ano passado, mas acho que não fica mal voltar a frisar os números: total de 1200d+, com uma parte inicial de 1100d+ com 3.7km. Só. É inacreditável. Durante 3km vamos com a cabeça ao nível dos pés do companheiro da frente, por cima de nós vêem-se luzinhas a centenas de metros, um zigue zague demolidor e infinito. Ainda por cima o terreno é implacável, muito incerto, nunca dá para meter um ritmo estável. É sem dúvida a subida mais complicada do MIUT, se aparecesse lá mais para o fim acho que metade ficava pelo caminho. O ano passado subi furiosamente a ultrapassar pessoas, desta vez apanhei boleia num comboio que seguia bastante devagar. Muitas vezes tinha vontade de ultrapassar e andar mais, mas dizia a mim mesmo para ter calma, e assim foi. Só lá mais para o fim, quando já ia a adormecer no ritmo, cedi à tentação e fui atrás de um americano que passou o comboio, sentia-me incrivelmente bem e solto. Fomos a bom passo até Estanquinhos, local do segundo abastecimento e primeiro corte da prova, com 6h15, o corte era às 7h30.

Tal como o ano passado, entrei no abastecimento com um sorriso. A diferença é que na altura achava que tinha conquistado a prova, desta vez estava radiante com a conquista dos primeiros 27km. Era apenas um obstáculo ultrapassado.

Este abastecimento já parecia uma zona de guerra. Muita gente pálida, uns embrulhados em mantas, outros a abraçar um copo de chá ou café quente... Esta primeira fase do MIUT é uma brutalidade. Um verdadeiro teste de aptidão, ali não há paisagens de cortar a respiração nem trilhos divertidos, é só dureza e brutalidade, para separar o trigo do joio.

Se a descida anterior ficou na minha memória como a mais difícil de sempre, a que se segue tem lugar como a mais espetacular e variada. Mas foi a meio dela que o ano passado comecei a duvidar que conseguiria acabar, por isso saí do abastecimento num misto de confiança e apreensão.

O primeiro km, em estradão e ainda de noite muito escura, fez-se bem. Tal como me lembrava, era um estradão traiçoeiro, com muitas e grandes pedras. Logo nos embrenhámos na floresta Laurissilva para o parque de diversões. Esta descida foi....bem, é indescritível. Não consigo arranjar palavras que façam jus. Estamos a falar de uma descida com 10km em que se perdem cerca de 1100m verticais, a cada km parece que entramos num nível diferente, um trilho completamente diferente com desafios distintos. O sol que começou a nascer no fim do estradão acendia a encosta monstruosa totalmente coberta de um verde virgem, milenar. Abaixo de nós o manto branco de nuvens só não tapava os picos que emergiam como ilhas, lá ao fundo atrás de uma montanha o céu pintava-se de tons avermelhados. Tive mesmo que parar para tirar uma foto (tirei 3 ao longo da prova!), que obviamente está longe de mostrar o que presenciámos ali. Árvores gigantes, túneis na pedra, cascatas literalmente atravessadas, troços demolidores com escadas, outros cobertos de folhas macias. Absolutamente magistral. Disse e repito, se alguém tentasse não conseguia inventar uma descida tão perfeita. A melhor parte é que desta vez estava a degustá-la como deve ser! Sentia-me cada vez melhor e com vontade de correr mais depressa. Os 3 últimos géis que tomei tinham cafeína, talvez por isso desta vez não senti sono nenhum. Pelo contrário, estava cada vez mais desperto.

Tirada a meio da descida.
Cheguei ao abastecimento do Rosário num estado quase de euforia, mas rapidamente desci à terra. Seguia-se a terrível subida da Encumeada, local onde rebentei o ano passado. Guardei o frontal na mala e despi o impermeável. Comi mais uma barra e ataquei a subida com toda a seriedade. Mais uma etapa.

Em 2015 foi aqui que comecei a parar e debruçar-me sobre os bastões. Foi aqui que me passaram dezenas de companheiros e fiquei em pânico quando percebi onde me tinha metido. Desta vez comecei bastante devagar, sabia que tinha uns km de estradão e trilho fácil antes de chegar às escadarias finais. Foi essa a minha táctica para o MIUT, começar as subidas a um passo muito curto e estável, depois aumentar lá mais para a frente se tivesse pernas. O importante era não parar, e não parei. Conquistei os 500d+ e aquele lance de escadas final demolidor sem grandes sacrifícios e mais uma vez o sentimento de nível superado meteu-me um enorme sorriso na cara! Desta vez já não tive dificuldade nenhuma em correr naquele km de estrada a descer até ao abastecimento.

Hotel da Encumeada. A foto não é do dia da corrida (nem minha).
No abastecimento, situado no espectacular hotel da Encumeada, comi mais uns figos e uma taça de canja. O cenário era idêntico aos anteriores, com algumas baixas espalhadas pelas cadeiras. Revi-me a mim próprio o ano passado, sentado numa cadeira afastado de toda a gente a comer sopa. Mas desta vez não. Desta vez metia conversa com toda a gente e só queria meter-me a caminho!

Depressa me fiz ao resto da descida. De seguida iria apanhar o famoso pipeline, um tubo verde que sobe a pique a encosta, acompanhado por uns degraus muito pouco simpáticos em betão. Há um ano que tenho pesadelos com aquele tubo... Mudei o chip, acalmei a euforia e pus a minha game face. Hora de trabalhar. Mais uma vez a gestão do esforço resultou na perfeição, cheguei lá acima sem hesitar em nenhum degrau e assim que piso o trilho a descer desato a correr. Menos um!

Mesma foto do ano passado. Sim, sou assim tão básico :\
Esta foi provavelmente a minha melhor fase de toda a corrida. São cerca de 4km em trilhos que rodeiam completamente o vale antes de começar a subida final que vira a montanha para o Curral de Freiras. O ano passado arrastei-me, este ano corri sem vergonha nenhuma! Esqueci a gestão, esqueci a cautela e desfrutei a 100% daquela maravilha de caminho. A subida, que este ano me pareceu muito pouco violenta, foi feita a bom ritmo. Lembrei-me do grupo de madeirenses que o ano passado me ajudaram naquele ponto e sorri. Nesta parte final íamos ao lado de uma escarpa tão alta e íngreme que o GPS perdeu o sinal! Tanto eu como os colegas todos que lá estavam. Só na Madeira..

A montanha foi conquistada aos 1400m, agora era altura de descer bem até lá abaixo, ao fundo da garganta, onde estava entalado o Curral de Freiras. Mais uma descida interminável e muito difícil. Um massacre às pernas que parecia não ter fim! Farto-me de dizer que é bem mais difícil treinar para descidas do que para subidas, mais ainda quando as subidas não são rolantes e requerem constantes mudanças de direção e de solicitações ao nosso corpo. Esta descida é um clássico do MIUT e percebe-se porquê, é devastadora.

Curral de Freiras (não é minha, obviamente).
Já muito perto de Curral de Freiras passo pelo local onde no ano passado a Sara e a minha filhota estavam à minha espera. Não consigo evitar emocionar-me e fico cheio de saudades deles… Saquei logo da fotografia que levava comigo.

Atrás do perfil levava uma pequena cábula e...doping :)
Uma das poucas novidades do percurso deste ano era a localização do abastecimento do Curral de Freiras. Desta vez a base de vida estava num pavilhão mesmo dentro da vila. Assim que chego lá dentro encontro um cantinho para mim e começo a tratar das tarefas programadas: comer, trocar de roupa, carregar mais mantimentos, ligar para casa e, importantíssimo neste sitio, encher todos os depósitos que tivesse disponíveis com água. Quem vai fazer o MIUT pela primeira vez, nunca se esqueça disso: toda a água é pouca para o percurso até ao Pico Ruivo.

No abastecimento. Com uma cara que irradia felicidade.
Saí do abastecimento com 60km e já cerca de 5000d+. Estava super bem disposto e confiante. Na minha cabeça tinha vindo a fazer "check" em todas as etapas que considerava cruciais até agora, mas sempre que passava uma lembrava-me "calma, não cantes de galo, ainda falta o caminho do Curral até ao Pico do Arieiro!". Este segmento de cerca de 16km tem duas fases distintas: primeiro um km vertical até às Torrinhas e depois entrávamos no paraíso das escadas, o caminho que liga os dois picos. É a ultima GRANDE dificuldade do MIUT e sabia que se chegasse ao Arieiro com pernas o restante até Machico seria tranquilo. Mas…. era preciso passar lá primeiro. Vamos a isso.

Ataquei o km vertical inicial com a estratégia de sempre: começar devagar, estabilizar e finalmente soltar-me. Dos 3, este é o km vertical mais fácil do MIUT. Embrenhado no meio dos eucaliptos gigantes, com muitos degraus mas nunca demasiado agressivo. Reconheci muitos pontos de passagem do ano passado e até me lembrei de vários sítios onde parei e me sentei num tronco ou numa pedra. Mas não este ano. Este ano segui no meu ritmozinho, sempre sem parar. Estava a ser mais uma vez perfeito. De vez em quando olhava para o relógio e via os metros verticais a passar e o ânimo a subir. Vi de novo as árvores fantasmagóricas do ano passado, e desta vez tirei mesmo uma fotografia. Estávamos de novo acima das nuvens e a vista era de outro mundo.

Esta tirei eu!
Quilómetro 67… Passei a Boca das Torrinhas. A primeira etapa estava conquistada com sucesso! Faltavam agora 2.5km até ao Pico Ruivo, onde estava um abastecimento de líquidos. Iam começar as escadas.

Quilómetro 68. O primeiro km de escadas era quase sempre a descer. Lembro-me de no ano passado ter ficado em pânico quando me comecei a afastar tanto da cota dos 1700, onde estava o Pico. Agora que estávamos acima das nuvens e completamente expostos ao sol reparei que estava a escorrer suor e desconfortável com o calor.

Quilómetro 69. Primeira parte do sobe e desce que iriamos enfrentar nos próximos 7 km. Escadas, escadas e mais escadas… Nova descida abrupta. Olho para a frente e vejo lá MUITO em cima colegas a virarem a montanha. Só há uma maneira de lá chegar, e é pelas escadas.

Preparo-me para enfrentar o lance final até ao abastecimento. Seria 1km a subir a pique. Respiro bem fundo, logo de seguida fico com uma tontura, efeitos da altitude. Inclino-me para baixo e o suor escorre-me como uma torneira aberta. Limpo os olhos, que ardem, com a manga da tshirt já ensopada. Dou um passo. Subo outro degrau. Apoio os dois bastões. Tento levantar a perna de trás, mas…

Quilómetro 70.

Parei.

Debrucei-me sobre os bastões e respirei sofregamente enquanto o suor escorria para o chão. Os pulmões pediam mais. Bebi uns bons 4 goles de água. Olho para o relógio e reparo que é hora de comer, saquei de uma barra. Assim que a meto à boca constato que ia ser uma missão muito difícil, não consigo comer sem me darem vómitos. Arrasto-me escadaria acima, o abastecimento tardava, mas precisava dele. Cada vez mais devagar, até que tenho que parar de novo. Solto uma asneira e de raiva subo os restantes degraus. Lá em cima não corre uma brisa, está um sol abrasador, muito calor.

Entro no abrigo de montanha onde está o abastecimento e espero encontrar um sitio fresquinho, mas não. Também está quente e desconfortável, como eu. De repente fico apreensivo. Começo a rever a prova na minha cabeça, tudo o que falta passa-me pelos olhos como um flash e começo a ficar com medo. Caio em mim e percebo que tinha levado a famosa marretada, tardou mas chegou. Agora tudo ia ser diferente. Respondo a uma sms da Sara: "Estou mais ou menos. Acho que rebentei.".

Abastecimento do Pico Ruivo, lá ao fundo.
Os 5.5km que se seguem são a imagem de marca do MIUT, e isso diz tudo. De uma beleza abismal, uma coisa indescritível, mas igualmente duros. Um constante escalar de degraus de todos os tamanhos e feitios, sempre na crista dos picos que separam o Ruivo do Arieiro. Este ano o céu estava limpo, o que tornava tudo ainda mais impressionante. Estamos perto dos 1800m e conseguimos ver lá em baixo o mar. Monstros erguem-se a pique a toda a nossa volta, passamos por tuneis longos, escuros e húmidos para atravessar montanhas, escadas a descer que metem realmente medo e subidas exasperantes. O sol cada vez mais forte tornava tudo mais difícil, comi dois geis e mais uma vez quase que vomito, deposito a esperança no abastecimento do Arieiro, mas até lá ainda tinha que penar. Deixei de meter conversa com os companheiros e o sorriso há muito que tinha desparecido, estou sinceramente assustado com o que ainda tinha pela frente. Se nunca tinha parado até ao km 70, neste espaço parei mais 5 ou 6 vezes. O suor escorria incessantemente, os braços e pescoço estavam escaldados do sol, o oxigénio não era suficiente para satisfazer. Precisava tanto que a Sara e os miúdos estivessem no fim da subida à minha espera como no ano passado…. Mas não, estava por minha conta e assim me arrastei até ao pico.

Zach Miller a chegar ao Arieiro. Foto brutal do João M. Faria.
O meu receio tinha-se concretizado, estava no Arieiro e tinha rebentado. Faltavam agora 40km. Sabia de cor o que ia apanhar. Se nalguns aspectos é uma vantagem saber ao que se vai, neste é uma grande desvantagem.

O abastecimento estava quente e húmido, todos se queixavam do calor e muita gente tinha rebentado nesta secção, como eu. Estou completamente enjoado mas tenho fome, tenho plena consciência que preciso de comer. Olho para as dezenas de opções e decido-me por uns quadrados de bolo húmido, talvez desse. Mas não. Demoro 5 minutos a comer uma dentada, tudo empapa na boca. Peço uma taça de canja e forço-me a sorver o caldo salgado, pelo menos isso.

Quando saio do abastecimento o meu estado de espirito era completamente oposto daquele com que saí do Curral. Estava pouco confiante, com medo e sem vontade. Sabia que esta descida não ia ser fácil, que tinha partes muito técnicas, que tinha paredes para subir, que era interminável! A parte boa é que este ano o tempo estava muito melhor e dava para apreciar a paisagem que era bastante distinta da parte norte da ilha. Estes trilhos ali são magníficos, tenho muita pena de ainda não ter sido este ano que lá passei com pernas para os aproveitar. Acabámos com cerca de 2km de zigue zague num bosque muito parecido com o que se vê na Serra da Lousã, já perto de Ribeiro Frio, onde estava um abastecimento de líquidos. Corri esta descida toda com o desconforto de uma pedrinha na ponta da sapatilha, raios parta. Depois tiro-a lá em cima no Poiso…

Local onde estava o abastecimento de Ribeiro Frio.
Quando chego à base da descida, no Ribeiro Frio, estou bastante desmoralizado para a subida que se segue, até ao Poiso. Sei que é das mais fáceis da prova, com 500d+, mas simplesmente não me apetecia fazê-la. Não me sentia com a "fome" de acabar que tinha o ano passado. Nessa altura até podia ter rebentado na primeira subida que ia arrastar-me até ao fim, agora só de pensar nos km que faltavam só me apetecia voltar ao colchão do Marriot… Mais uma vez o meu lado piegas veio ao de cima e envio uma sms à Sara a dizer que não seria fácil terminar.

À saída do abastecimento visto o casaco e como mais um gel. Outro sacrifício, mas precisava do boost. Esta subida é realmente fácil. Quase sempre em estradão ou calçada e pouco inclinada. Aplico a minha estratégia do costume, mas desta vez começo ainda mais devagar, pareço um entrevado. Passam uns 4 ou 5 companheiros por mim, mas nem olho para a frente. A porcaria da pedra na sapatilha vai a chatear-me, devia tê-la tirado lá atrás… A parte mais difícil da subida já passou e entramos num pequeno planalto. Os passos muito curtos e entrevados deram lugar a uma passada mais segura. Passo pelo sitio onde o ano passado liguei o frontal, desta vez ainda tinha uma boa hora e meia de luz pela frente. Fiquei animado e aumentei a passada. A parte final no meio da floresta é feita já a bom ritmo e sem dar por ela estava no Poiso! Olha…tu queres ver…

Yep, mesma foto do ano passado. Básico básico...
Entro mais animado no abastecimento, a subida calma e segura fez-me bem! Sento-me e ponho o relógio a carregar com o power bank. Descalço-me e tiro os 3kg de lama que tinha dentro das sapatilhas, já chega de pedrinhas irritantes. Experimentei a comer umas bananas com sal e a coisa até funcionou. De repente fiquei outra vez mais confiante e com vontade de chegar ao fim! Já deixei de tentar perceber estas flutuações, mais vale ir com a maré.

A descida que se segue é a mais fácil de toda a prova, apesar de longa. Começa com um trilho não muito técnico, depois uns km de estradão e finalmente levadas que nos embalam os 8.5km que separam o Poiso da Portela. Ainda bem que cheguei ali de dia, a paisagem como sempre é deslumbrante. As pernas, essas, parece que ganharam nova vida! Percorro tudo a correr, até nas subidas! Só a porra da pedrinha é que lá anda, cada vez mais irritante. Devia ter descalçado a meia também. Bem, não interessa, já só pensava que o abastecimento podia estar mais longe, para evitar parar, aproveitar o balanço e papar quilómetros. Passo algumas pessoas na descida que me tinham passado na subida, o ânimo voltou em força!

Vista da Portela. Não para mim, cheguei de noite :\
Chego à Portela já quase de noite e a coxear ligeiramente por causa da porcaria da pedra. Sento-me e imediatamente descalço-me para resolver o assunto, mas já não sai nada. Na meia, está na meia! Descalço-a também e vejo finalmente que a "pedra" afinal era uma bolha gigante, já vermelha, que rodeava por completo o dedo grande, até a parte de cima! Aaaaah bom, compreendido então! Enfim, siga, faltam 17km!

Passei uns bons 10 minutos no abastecimento muito quente. Saio já de noite, está bastante frio e demoro a aquecer. Quando finalmente aqueço estou a correr novamente, desta vez apenas +/- confortável, mas já era bastante bom. 5km separavam-me do abastecimento do Larano e eu lembrava-me bem deste segmento. Primeiro um estradão, depois uns bons 3km em trilho agradável e finalmente uma descida terrível, a pique, até ao abastecimento. Epah e metam terrível nisso! Acho que o ano passado já estava tão anestesiado que nem dei por ela, mas esta descida é uma brutalidade, principalmente para quem já vem com mais de 100km nas pernas. Tanta asneira que eu disse! Quando finalmente chego ao Larano estou derreado. Sento-me numas escadas e meto conversa com quem lá estava, já não consigo comer nada outra vez e os pés estão a matar-me, correr em piso enlameado é muito duro para os pés.

Faltava apenas uma nova secção, a vereda do Larano, e depois a levada até Machico. Tinha muita curiosidade nesta vereda, mas já sabia que ia passar de noite e o impacto seria muito menor. Foi mesmo. Seriam 4 ou 5km abismais, numa falésia com o mar do lado esquerdo e um trilho muito estreito ligeiramente a subir e sempre com piso bom para correr. Mas de noite perdia o encanto, com exceção dum km que estava completamente iluminado por lâmpadas amarelas presas à falésia, muito bonito. Eu é que já estava com muito pouca paciência para bonitices e insultei alto e bom som os membros da organização, o governo da Madeira e provavelmente até o Obama! Porcaria da vereda que nunca mais acabava! Sobe e desce e sobe e desce e sobe….eish!!! Filhos da mãe do Clube de Montanha do Funchal que não se esforçaram minimamente para tentar meter ali uma passadeirazinha rolante! Com cadeiras! Não, uma passadeira rolante toda forrada com colchões do Marriot! É isso! Hmpf…

Vereda do Larano, de dia.
Ia eu irritado e a pensar nas injustiças desta vida quando olhei para o relógio, 23:20. Faltavam pouco mais que 5km para a meta. Elah! Isto afinal é capaz de dar para chegar antes das 24 horas!! Vá de correr, rápido rápido!

Despedi-me dos companheiros que iam na conversa comigo na altura e arranquei. Tumba, tumba, tumba… Corri, corri, corri.. Passei por gente, corri a subir e a descer enquanto olhava para o relógio. Machico lá em baixo, corri mais e forcei! Encontro um pequeno comboio e agradeço por se terem desviado, digo-lhes que vou tentar chegar antes da meia noite. Ao que um responde muito enfastiado "oh amigo, faltam 10 minutos, só se fores a voar…". Olho rapidamente para o meu relógio, 23:35. Então mas….. AAAAAH! No Poiso antes de ligar o relógio ao power bank ele desligou-se uns minutos!! RAIOS PARTA O MIUT E A MADEIRA E O OBAMA!!!!!

Tenho mesmo que começar a tirar fotos nas provas....
Bem, que se lixe o sub24, fica pro ano! Acalmei-me e encarei os 3km restantes com a sobriedade que mereciam. Não são fáceis, não há nada fácil no MIUT. Já dentro de Machico ainda temos uma descida bem lixada só porque os pés ainda não estavam derretidos o suficiente.

Faltam apenas 500 metros para o fim. Mais uma vez chegaria de alma preenchida. Desta vez festejo o feito. Não pelas 2h30 a menos que o ano passado, mas por ter sentido realmente que estava preparado para ela.


Finalmente, a 100 metros da meta, a ponte pedonal. A mesma onde o ano passado a Sara e a Mel me esperavam e as abracei. Desta vez não estavam lá, mas vieram na mesma comigo. Elas e o Manel, que nasceu entretanto. Sempre comigo, desde Porto Moniz. Atrás delas vinham todos os meus amigos que enviaram mensagem de ânimo, que me deram força, que me acompanharam no treino e na vida. O grupo da Parreira, companheiros de viagem que se tornaram família. O Vasco, que apesar de ter chegado hora e meia antes também cruzou a meta comigo. Todos, e foram muitos, os que meteram conversa por causa do relato do ano passado. Os que me inspiram, os que me dão força, os que me apoiam. Todos passaram as ultimas 24 horas comigo, e agora era altura de receber a recompensa: a meta. A vocês todos, obrigado, do fundo do coração. Espero que tenham gostado tanto da viagem como eu.