As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Serra Amarela SkyRace (35km) - Uma pérola.

De vez em quando vêem-se por aí aqueles apanhados das provas que há no mesmo fim de semana, normalmente a realçar a enorme quantidade de oferta. Não vi nada sobre o ultimo, mas acredito que tenha sido um desses, assim de repente lembro-me de 7 ou 8. Este fim de semana arrisquei. Peguei na família, fizemos mais de 350km de carro e fomos para um parque de campismo no sopé do Gerês, na localidade de Entre Ambos-Os-Rios. O pretexto era a participação na Serra Amarela SkyRace, uma prova de 33km organizada pelo Carlos Sá. Na verdade, a aposta até nem foi muito arriscada, as organizações do Carlos são reconhecidamente de excelência. Estava à espera de uma boa prova, num sitio magnífico que é o Parque Nacional da Peneda-Gerês, mas esta corrida foi tão mais do que estava à espera, no meio de tanta oferta encontrei uma verdadeira pérola. Se tivesse que fazer uma check-list com o que acho que uma prova deveria ter, esta preenchia todos os requisitos. Perdoem-me todos vocês que participaram noutras provas, mas a melhor corrida do fim de semana (ou do ano?) teve inicio às 7 da manhã em Entre Ambos-Os-Rios.

O fim de semana estava planeado há uns meses. Eu e a Sara, antes de sermos pais, acampávamos todos os anos e, com o mai-novo já com 2 anos, decidimos que íamos finalmente acampar com os miúdos. Infelizmente o fim de semana invernal em pleno Junho fez-nos alterar os planos e fizemos o up-grade da tenda para uma muito confortável casa na árvore! Sim, leram bem, vejam lá:




Ficámos no parque de campismo Lima Escape, numa espécie de península rodeada de água por 3 lados, um sitio inacreditável. Além do habitual espaço para tendas e caravanas, o parque tem uma oferta muito interessante de bungallows. Já ficámos em hotéis mais baratos (70 euros por noite), mas é daquelas coisas que valem bem mais que o dinheiro. 

Localização, vista no maps. Já agora, a Adega do Artur tem uma boa posta barrosã!
Como em tantas outras aventuras, juntaram-se a nós o Vasco e a família. A corrida era no domingo, o que deixava o sábado livre para passear pelo Gerês e, claro, uma corridinha ao amanhecer :)

Era esta a vista do parque quando começámos o treino de 11km com 400+. Juro que não fui ao google pesquisar por "paraíso"!
Apesar da manhã espetacular, o tempo acabou mesmo por virar e durante a tarde veio a chuva que continuou a cair durante toda a noite. Estava uma autentica manhã de inverno quando fomos a pé, às 6:30, para o local da meta. Antes da partida o Carlos Sá deixou umas breves recomendações em relação à prova. Avisou que lá em cima estava agreste a sério, que quem não ia bem equipado era melhor ir à prova dos 23km que se manteria por cotas mais baixas e que os 33 passariam a 35km, já que no dia anterior tinham estado duas horas a tentar montar a tenda do abastecimento no ponto mais alto (Louriça, 1350m) mas que devido à chuva e vento não conseguiram e tiveram que descer um pouco a encosta para um sitio mais abrigado, o que aumentaria a distancia. "Pensem bem no que se estão a meter, isto é uma prova de montanha, não há estradões para vos ir buscar! Se começarem a subida têm obrigatoriamente que chegar ao topo para terem assistência!". Engoli em seco.

Com o Vasco antes da partida, abrigados da chuva.
Passava pouco das 7 das manhã quando o Joca, debaixo de chuva torrencial, deu a partida aos cerca de 250 atletas distribuídos pelas provas de 48km (150) e 35km (100). Os percursos eram muito semelhantes. Começaríamos por subir todos até ao Alto da Louriça, depois os 35km voltariam logo para baixo e os 48km desceriam a outra vertente da montanha para voltar a subir à Louriça e descer até à partida. Este é o perfil da minha prova:

Uma subida, uma descida, 1800D+. Numa palavra: perfeito.

Os primeiros 4km, aquela parte mais plana, foram todos feitos a correr a bom ritmo, sempre em trilhos. Foi nesta altura que fizemos a primeira de 5 ou 6 travessias de rios. Com o que choveu durante a noite estes tinham muita corrente e caudal, invariavelmente eram atravessados com água pela cintura! Soube depois que nesta primeira travessia, a única sem cordas, os participantes acabaram por fazer uma corrente humana para se ajudarem uns aos outros a passar. Muito fixe. Sim, estava perigoso, mas sinceramente não me chocou. Quem se mete numa prova destas tem que saber que vai apanhar coisas assim. Aliás, não ouvi ninguém a queixar-se! Ainda a semana passada se viu a Emelie Forsberg e amigos a fazerem o mesmo na Madeira.

Foto espetacular que o Paulo Machado me enviou!
A subida propriamente dita começou antes dos 5km. Seriam nada mais nada menos que 10km onde venceríamos 1300m de desnível positivo! No inicio ainda de baixo de chuva, esta foi desaparecendo à medida que a cota ia subindo e nos embrenhávamos na serra. O trilho era muito técnico, a subida muito trabalhosa, mas nunca demasiado inclinada. O meu estado de euforia ia subindo na mesma proporção que a altitude, enquanto ia entrando mais e mais na prova. As nuvens mais baixas dispersavam e tivemos uma panorâmica impressionante da montanha, arrependo-me tanto de não ter tirado fotografias! 

A subida era incessante, muito variada, com troços planos que dava para meter trote. Impossível andar devagar. Pelos 700m entrámos nas nuvens e num nevoeiro muito cerrado, mas pouco frio. Chuvia novamente. Só via o trilho e um raio de 15 metros. Lembro-me de pensar que num trilho tão perfeito como aquele não precisava de mais, podia estar ali sozinho o dia todo a subir, ofegante, a escorrer suor que se misturava com os pingos gelados da chuva, só com 15 metros de visão - valeria a pena. Nem precisava de ter visto aqueles cavalos selvagens a surgirem do nevoeiro a 10 metros de mim, nem aquelas vacas barrosãs, nem os incríveis maciços graníticos. Mas vi isso tudo nesta subida. Ah, vi tanto nesta subida! Pelos 1100m a nuvens voltaram a dispersar e vi os arbustos rasteiros com flor amarela e lilás que cobriam a encosta. Vi a calçada romana que nos conduzia pela crista da montanha mas também vi encostas nuas para subir, sem trilho, mesmo como gosto. Nova travessia de um ribeiro, desta vez aos 1000m, com água gelada pela cintura e logo a seguir toca de subir uma parede. Muita água, frio e vento, mas logo a seguir as nuvens dispersavam e a temperatura subia a pique, só para voltar a descer uns segundos depois. Cheguei ao abastecimento da Louriça, o segundo da prova, com um sorriso parvo na cara. O único problema desta subida era não ter continuado mais uns quilómetros.
A única fotografia que tirei na prova, nos 1300m. Aquilo lá ao fundo, no colo, é uma tenda. Tentem fazer zoom para perceberem a imensidão. 
Metade estava feito, estava no topo, com quase 1600+, e era altura de descer em igual proporção. A meta estava a quase 20km, praticamente sempre a descer. Mas era muito mais do que uma descida que me separava de Entre Ambos-Os-Rios. Naqueles primeiros 7 ou 8km, onde descemos lentamente dos 1350 até aos 900m de cota, entrei em perfeita comunhão com a montanha, como nunca me tinha acontecido. Não quero parecer lamechas nem pretensioso, não consigo descrever aquele sentimento de outra maneira. Durante este período não vi uma única pessoa, só as bandeirolas laranja me guiavam pelo planalto, sem trilho. Eu é que tinha que decidir a melhor maneira de ir de uma até outra. As nuvens ora cobriam ora dispersavam, até que fecharam completamente nos 1000m e a chuva voltou a cair muito forte. Água por todo o lado, escorria pela encosta formando pequenos cursos de água que explodiam debaixo dos meus pés. A certa altura parecia flutuar por cima do caminho super técnico, que obrigava a uma concentração permanente. Quando este dava uma pequena folga a passada abria imediatamente e voava por cima do terreno fofo. Foi assim durante quase uma hora até chegar a novo abastecimento. Parei para comer umas fatias de presunto quando uma voluntária me perguntou: "então, está muito mau lá em cima?" Mau? Estava perfeito!!

Nova travessia, esta com cordas, já perto do fim. Foto da organização 
A descida continuou, agora em terrenos mais rurais ou em calçada de granito onde era possível correr mais depressa, até que voltámos à cota do rio para uns quilómetros finais mais técnicos em que os atravessamentos deste eram constantes. Nesta altura cruzámos com a malta dos 23km, o que me cortou um pouco aquela sensação de ir sozinho na montanha. O que não cortou foi a adrenalina, dei tudo naquela descida, sem qualquer gestão de esforço. Tanto que nas pequenas subidas (depois do topo ainda subimos mais 200m) já me sentia a ir um pouco abaixo. Mantivemo-nos no trilho até 150 metros da meta, onde tivemos que subir uma rampa em alcatrão. Lá estavam a Sara e os miúdos, que atravessaram a meta comigo.



4h53 para os 35km com 1800+. Mesmo a tempo de ir a correr ao parque de campismo tomar banho antes do check-out e seguir para uma francesinha em Ponte da Barca, antes de enfrentar de novo os 350km de carro!

No final estava extasiado e demorei algum tempo a descer à terra. Foi perfeito. Não me ocorre outra palavra. Tudo nesta prova foi perfeito. O percurso 99% em trilho (e que trilho), boa subida, boa descida, marcações impecáveis, 4 abastecimentos super completos, simpatia de toda a gente, ambiente incrível, técnico, duro, com partes para andar depressa, rios para atravessar... até o clima ajudou! Quem gosta de trail gostará desta prova, não tenho a menor dúvida. É uma verdadeira pérola que o Carlos Sá aqui tem e fiz questão de lhe dar os parabéns no fim. Mas, shhh, se calhar é melhor parar com os elogios, fica só o nosso segredo. Para o ano quero fazer novamente aqueles 7km de descida sozinho :)





terça-feira, 1 de maio de 2018

Madeira Island Ultra Trail 2018 - De corpo e alma.

A partir do momento em que à meia noite em ponto passamos a meta em Porto Moniz, estamos à mercê dela. Tal como um predador que consegue cheirar o medo nas suas presas, a ilha sente imediatamente o odor da sobranceria, da má preparação e da leviandade. O caminho que liga uma ponta à outra daquele paraíso, levando-nos às entranhas mais profundas de montanhas e florestas, elevando-nos abruptamente do nível do mar ao cimo das nuvens, está lá, escancarado. Ela concede-nos passagem, mas a portagem é muito cara. Não serão os mais fortes, que tentarão forçar a passagem, nem os mais manhosos, que pensarão erradamente tê-la percebido e encontrado algum truque infalível, a obter passagem. Não. Só passarão os honestos. O preço a pagar para atravessar a ilha é nada mais nada menos que deixar tudo de nós em cada metro dos mais de 115km. Entregar-nos de corpo e alma e esperar que tudo o que temos seja o suficiente. Na minha quarta tentativa de travessia ousei levantar ligeiramente a cabeça e pensar em tempos e marcas, mas não demorou muito até ter sido posto no meu lugar. "Meu menino", terá pensado ela, "por mais que te ponhas em bicos dos pés, nunca serás mais alto que um grão de areia".

Créditos na foto
Uns minutos antes da meia noite fechei os olhos e respirei profundamente. Desde a minha primeira travessia, em 2015, que mais que dobraram os participantes, este ano são quase 800 a apresentarem-se em Porto Moniz. Durante a noite este número iria sofrer um grande desbaste, mas àquela hora a euforia era impressionante. À medida que o relógio da prova se aproximava da meia noite eu aumentava os períodos de introspecção. Tentava por tudo acalmar a ansiedade que me dava um nó na garganta, mais apertado ano após ano. Foi de olhos fechados que ouvi a contagem decrescente e sem sequer esboçar um sorriso parti para mais uma grande aventura. Começou o MIUT 2018.

Créditos na foto


Para a minha quarta participação decidi que o objectivo principal seria fazer uma prova sólida e, dessa maneira, baixar naturalmente das 24 horas de prova. Ao contrário dos outros 3 anos, desta vez saí perto do pórtico da meta, no primeiro quarto do pelotão. O objectivo era evitar o congestionamento na primeira descida e atacar o primeiro quilómetro vertical a um ritmo não demasiado baixo. 

Porto Moniz - Chão da Ribeira.
19km, 1550+ / 1250-
Foi preciso chegar ao topo da primeira subida, aquele montinho, para finalmente a ansiedade acalmar. A descida foi feita a ritmo confortável, sem congestionamentos. A meio desta já se ouvia a multidão na Ribeira da Janela, que parece maior e mais barulhenta ano após ano! O bom de seguir numa zona mais adiantada do pelotão é que pude observar em todo o esplendor a mítica serpente do MIUT enquanto atacava o primeiro quilómetro vertical, na subida para o Fanal. O mau, e isto foi um pormenor que nem me passou pela cabeça, é que indo eu numa zona do pelotão que não era a minha, toda a gente tinha um ritmo mais alto que o meu. Ou seja, muita gente me passava e eu não conseguia colar em ninguém. Isto foi inesperado e o resultado foi ter que me concentrar bastante para seguir ao meu ritmo e não tentar acompanhar algum comboio. A estratégia acabou por resultar, cheguei ao Fanal, primeiro abastecimento, cerca de 15 minutos antes em relação aos anos passados e sem ter forçado o andamento. 

A serpente. É impressionante vê-la viva, parece uma veia a pulsar
A previsão meteorológica entretanto tinha-se tornado bastante sólida: partiríamos com tempo seco mas a chuva chegaria por volta das 4 da manhã até às 10. Isto deixou-me aliviado porque, fazendo as contas, seria mesmo à conta de fazer a descida do Fanal com piso seco, aquela que considero a mais manhosa do MIUT. Assim foi, as centenas de degraus e infinitas raízes são muito mais seguras estando secas, permitindo-me percorrê-la de forma confortável e ganhar mais uns minutos na chegada ao Chão da Ribeira. 

Chão da Ribeira - Rosário
15.5km, 1400+, 1100-
Deixei o abastecimento do Chão da Ribeira às 3:20. Seguia-se aquela que para mim é a subida mais difícil da prova, a mítica subida de Estanquinhos. É a tempestade perfeita. Começa com aquela rampa de 5km e 1100+, num trilho de inclinação constante mas bastante técnico, muito trabalhoso. Depois desemboca num planalto que vagarosamente nos leva aos 1600 metros de altitude por estradões completamente expostos. Não houve nenhuma vez que aqui tenha passado sem ver alguém debruçado a vomitar e outros a voltarem para baixo a meio. Não se esqueçam, vamos com menos de 20km de prova! Uma autentica máquina trituradora. O que não falhou foi a chuva, que apareceu pelas 5 da manhã. Nessa altura estava já no tal planalto. A temperatura baixou muito de repente e também de repente percebi que a prova se tinha transformado. 

Armando a chegar ao Fanal. Créditos na foto
Ainda antes de chegar ao abastecimento vesti o impermeável por cima do equipamento e calcei as luvas. Já tinha partido bem equipado para o frio, apesar de nem ter estado muito no início da noite, o impermeável tratou de estancar as perdas de calor. Entrei no abastecimento ainda com uns bons minutos de folga, mas não foi a pensar no tempo final que me demorei o menos possível. Estávamos a 1600 metros, a chuva estava a tornar-se mais pesada e o vento a aumentar. Já tenho experiência suficiente para saber que se me demorasse iria perder energia e gelar assim que saísse da tenda, ainda por cima a descida começava num estradão de cerca de 2km muito exposto, onde não dá para correr muito depressa porque tem muitas pedras. Ou seja, demoraria uma eternidade a aquecer e isso poderia ser fatal. 

Bebi um café quente, uns figos secos, batata doce e banana só para cumprir com a alimentação e fiz-me rapidamente à descida. Como previa, o baque à saída da tenda foi muito forte, mas não havia tempo para pensar nisso. Desci da maneira mais eficiente que consegui de forma a entrar rapidamente na densa floresta Laurissilva e pelo menos proteger-me do vento. Por estranho que pareça, senti-me revigorado com o frio. Eram 6 e meia da manhã, o dia estava prestes a nascer, normalmente esta é a fase mais complicada das provas para mim, mas a chuva fria a bater-me nas pernas deixava-me alerta e estava a sentir-me forte quando entrei na segunda fase da descida, a levada. O ânimo aumentou quando percebi que estava a passar em partes que só conhecia de dia e ainda estava de noite cerrada. A terceira fase da descida são os 700 e tal degraus. Muito escorregadios com a chuva. Aqui a coisa começou a complicar-se. Sabia que a quarta e ultima fase era um trilho brutal, com cerca de 3km, onde dava para voar até ao fim da descida, mas assim que o começo a percorrer percebo que com a chuva este se tinha transformado completamente. Agora era um autentico escorrega de lama! Esqueci rapidamente essa história de voar e fui de escorregadela em escorregadela numa progressão muito lenta e esforçada sempre apoiado nos bastões. O resultado foi perder toda a margem que tinha e desgastar-me bastante mais do que previa nesta descida. Enfim, nada a fazer, lamber feridas e siga para a Encumeada.

Rosário - Curral das Freiras
22km, 1600+, 1500-
O dia nasceu muito cinzento. A chuva fria era constante, nada que não se esperasse. Mantinha-me quente mas obviamente muito desconfortável e foi assim que cumpri os 500 metros de subida em degraus até à Encumeada. Ao virar o colo levo com uma rajada de vento e chuva na cara e a vista brutal para um vale majestoso de gigantes de pedra tinha sido substituída por um branco pastoso. Lembro-me dos meus amigos que estão ali pela primeira vez e tenho pena que não tenham tido aquele choque de entrar num planeta diferente. Cerca de 1.5km de estrada separam-me do abastecimento, no hotel da Encumeada, percorro-os a bom passo para tentar compensar a energia que perdi na subida lenta e dessa maneira aquecer mais um pouco. 

Abastecimento do Hotel. Já li por aí que estavam fracos este ano...
Nestas condições os abastecimentos são  um perigo. Num dia tão mau como aquele estava a ser, o pior que podemos fazer é ficarmos confortáveis no abastecimento, depois corremos o perigo de não conseguir aquecer assim que voltarmos à rua. Acho que aqui estive mais stressado do que no fim da descida de Estanquinhos. Peguei numa taça de canja quente e comi-a o mais depressa que pude, enchi os dois flasks porque sabia que se seguia um troço muito grande entre abastecimentos e fiz-me ao caminho. Eram 20 para as nove da manhã, nos 3 anos anteriores liguei à Sara neste ponto, a esta hora, a dar conta da primeira noite. Mas desta vez não quis facilitar com o frio e decidi seguir o mais depressa possível. 

Segue-se uma pequena descida que desemboca na famosa subida do pipe-line, uma atrocidade de degraus altíssimos que serpenteia ao lado de um tubo verde. Nesta altura, por volta das 9 da manhã, reparo que ao fundo do vale as nuvens se estão a dissipar, apesar de ainda estar a chover. A previsão parecia estar a bater certo e respirei de alivio, já que cada vez estava mais desconfortável. Esta foi, sem dúvida, a pior noite que apanhei nas 4 edições do MIUT que fiz. Mas a verdade é que a previsão apontava para isso e é nosso dever partirmos preparados para o pior. É muita altitude, são climas diferentes do que estamos habituados no continente e tendo em conta a brutalidade que são os primeiros 30km não se podia facilitar minimamente. Muita gente não resistiu a esta primeira noite, infelizmente, o que contribuiu para uma taxa de desistências record. 

O quê? Já viram esta foto? Pois, não tirei uma única outra vez :\
Entretanto, antes de virar o colo para descer para o Curral, o tempo já tinha virado. Continuava muito frio e vento, mas as nuvens tinham dissipado. 

De ano para ano parece que me custa mais fazer a descida para o Curral! São 4km onde se perdem 800 metros de desnível, num trilho muito técnico, com muitas pedras e degraus, que acaba numa estrada que destrói quadricepes. Este ano a diferença é que em vez de acabar numa estrada de alcatrão que nos embalava até ao abastecimento em Curral das Freiras, ainda tinhamos pela frente um trilho de degraus escavados na terra, muito inclinado. Como referi no post que fiz com dicas para a prova, esta parte deixava-me de pé atrás e o receio confirmou-se. Depois da brutalidade de descida foi muito complicado mudar para pernas de subida e escalar aquele morro, mas fez-se. Cheguei à Base de Vida, no Curral, às 11:45. Precisamente à mesma hora que em 2016, quando tive a minha melhor prestação.

Curral das Freiras - Pico Ruivo
11km, 1370+, 290-
Assim que entro na base de vida quase que vomito, há um cheiro intenso a merda no ar! Fui só eu que senti?? Tento abstrair-me e depois de ir buscar o saco da muda começo a tratar das tarefas. Depois de tanta barraca que dei em bases de vida, inclusivamente nesta mesma o ano passado, revi mentalmente todos os passos dezenas de vezes. Tratei de mudar de roupa, meter o relógio a carregar, preparar a mala para a segunda metade e só depois tratar da comida e bebida. Esta ultima parte não correu muito bem, tendo em conta que até a comida me sabia a merda por causa do cheiro intenso! Mas lá forcei um prato de sopa com carne picada e arroz lá dentro. 

Eu e o Vasco no Curral. O cheiro a merda não se sente pela foto, mas peço que tentem imaginar. Tive a companhia do meu grande amigo Vasco praticamente desde o início. Esta besta decidiu que este ano, a sua terceira participação no MIUT, seria sem bastões. Claro que acabou uma data de tempo antes de mim!
A segunda parte da mudança deste ano vinha a seguir, o trilho antes de iniciar a grande subida para o Pico Ruivo. O que dantes era uma estrada de alcatrão com cerca de 1.5km a subir, agora era um trilho muito sinuoso, com algumas descidas, inclusivamente com cordas. Ok, custou-me bastante, e até me pareceu mal a parte das cordas que acho um pouco fora de contexto no MIUT, mas agora a frio percebo a opção de substituir uma estrada por um trilho. Acho que é lógico e para o ano já ninguém se lembra disso.

Árvores fantasma na chegada à Boca das Torrinhas. Foto minha. De há 3 anos!
É na subida para o Ruivo que o resultado final da prova se começa a desenhar. É enorme e implacável, mas é só a partir da Boca das Torrinhas, aquele sitio no perfil onde tem uma pequena descida, que se torna decisiva. É nessa altura que entramos noutro planeta e começa a travessia dos picos.

Pico Ruivo - Chão da Lagoa
9.5km, 545+, 785-
Não me correu bem a parte final da subida antes de chegar ao Ruivo. Se nos outros anos me poupei na parte inicial para depois colher frutos nas escadas, desta vez senti-me com pouca energia. Foi de forma um pouco sofrida que saí do abastecimento para enfrentar o incrível caminho entre os picos.

O dia estava perfeito. Céu limpo, vento fresco. Felizmente não aqueceu como nos outros anos, até tive que vestir o corta vento para não arrefecer de mais. Ano após ano fico deslumbrado com este trilho, é monstruoso. Nunca vi nada assim, nem nos Alpes, nem nos Pirenéus nem em lado nenhum. Escadas a subir, escadas a descer, túneis, ravinas, vertigens... Duríssimo, mas vale o bilhete de volta todos os anos. Infelizmente foi nesta fase que a prova virou de vez para mim.

Foto abismal do Javier Santos, pelo João M. Faria.
Já com a estação meteorológica do Arieiro em vista comecei a sentir cada vez menos energia para enfrentar os degraus. Tão perto e tão longe. Não me saía da cabeça aquele ultimo ataque, com dezenas de degraus muito altos. Parei no inicio do lance a comer uma barra a tentar ganhar ânimo, mas a meio percebi que já tinha passado para o outro lado. Tinha rebentado. 

Pela primeira vez na prova tive que parar para ganhar fôlego, sentei-me num degrau e comecei a pensar. Como disse tanto no inicio deste post como noutros anteriores, era meu objectivo acabar antes da meia noite. Sabia que para tal teria que ser um dia perfeito, mas o que é um dia perfeito? A gestão da minha corrida estava a ser no ponto com o que tinha pensado, estava a comer muito certinho sem qualquer problema, passei nos locais à hora planeada e não poupei uma única gota de esforço. Treinei bem, como nunca tinha treinado, fiz concessões na alimentação e levei muito a sério o reforço muscular. Não faria nada diferente do que fiz. Naquela altura era claro para mim que as 24 horas não iam cair, mas havia outra coisa que também era clara: foi um erro sequer pensar que poderia domar uma prova como o MIUT ao ponto de meter um objectivo de tempo. Não dá. A única coisa que há a fazer é, como disse lá atrás, entregar-nos de corpo e alma. Dar o nosso melhor e fazer uma prova honesta. As 24 horas não cairiam por uma razão muito simples: não tenho capacidade para isso. Isso é, e tem que ser, uma constatação tranquila!

Créditos na foto
Levantei-me decidido. Seja em que tempo fosse, havia de virar mais uma vez a ilha. Soube naquele momento que ia chegar ao fim.

Chão da Lagoa - Poiso
10.6km, 675+, 790-
Foi esgotado mas confiante que cheguei ao abastecimento do Chão da Lagoa, que substituía o do Arieiro este ano. Lá encontrei o Rodrigo, que estava na prova dos 85km. O Rodrigo é meu grande amigo e companheiro de praticamente todos os treinos que faço, não podia pedir melhor prenda que encontrá-lo nesta fase. Expliquei-lhe que estava todo partido (não foi bem esta palavra que usei), mas que ia tentar ir com ele. Ele também não estava muito bem (quem diria), mas ainda assim estava melhor que eu e isso foi fundamental para mim. 

Eu e o Rodrigo no Chão da Lagoa
Partimos para a descida até ao Ribeiro Frio, eu atrás dele. Como previsto, ele estava bem mais solto que eu e tive alguma dificuldade em acompanhar, mas lá consegui ir no encalce, apesar de estar mentalmente pronto para o deixar seguir sozinho se visse que não tinha pernas e obviamente que ele também não ia fazer sala à minha espera. 

Como sempre, esta descida é tramada, com zonas muito técnicas e até algumas subidas. A alteração na parte final acabou por lhe acrescentar ainda mais dificuldade, mas nada de especial. Fizemos uma boa descida e eu lá me mantive colado.

Fotografia brutal do Rodrigo, tirada numa das subidas da descida.
Nesta altura já ia com praticamente 7000D+, mas ainda faltava a ultima grande subida, o meio quilómetro vertical que nos separava do Poiso. Esta foi igual ao ano passado, muito difícil ao inicio, num trilho a fazer lembrar Sintra, e depois a acalmar na parte final em estradões no meio de um bosque lindíssimo. Fiz a primeira parte sempre com ele mas no fim tive uma grande quebra e tive necessidade de abrandar. Ele acabou por se distanciar ao ponto de não o ver, mas eu estava tranquilo porque sabia que naqueles estradões haveria de voltar à vida, e assim foi. Quando cheguei ao abastecimento ele ainda lá estava a comer e eu fiz por me despachar para seguir com ele.

A chegada ao Poiso é das partes mais importantes de toda a prova. Estamos com 99% do desnível positivo feito, faltam 26km praticamente sempre a descer. À primeira vista podem pensar que nesta fase está feito, mas não podiam estar mais enganados. É incrível a quantidade de gente que desiste nestes últimos quilómetros e a razão é simples de explicar. Estes 26km seriam muito fáceis, mas chegamos lá com 90km e 7200+ em cima. Temos pela frente estradões e trilhos fáceis, levadas suaves com piso confortável. Todas as nossas fibras dizem para correr, mas o corpo não consegue. Para a cabeça é devastador. Ainda por cima a minha malta, aqueles do meio do pelotão, chegam aqui já a entrar na segunda noite. É facílimo mentalmente começar a ceder. Por isto tudo, é simples: uma boa descida do Poiso à Portela significa uma prova tranquila, uma má descida significa o inferno até Machico. Venham de lá esses 9km.

Poiso - Machico
26km, 120+, 1520-
O Rodrigo não disse uma única palavra para me motivar ou puxar por mim, sabia que a qualquer altura se podia voltar para trás e não me ver e seguiria tranquilo. Ele já me conhece e sabe que eu detesto que esperem por mim (ou esperar por alguém). Mas a verdade é que a boleia dele foi essencial. Houve alturas que se fosse sozinho teria metido um passo mais lento ou tinha começado a andar, mas não queria mesmo descolar por isso consegui fazer integralmente a descida até à Portela a correr. 

A noite entretanto caíra e quando chegámos ao abastecimento já era cerrada. Perguntei-lhe se precisava de encher os flasks com água, disse-me que não. Combinámos demorar o mínimo de tempo possível para não arrefecermos e tentarmos continuar naquele trote. 

Seguia-se um troço curto, de 5km, até ao Larano. Já o conheço de cor e salteado. Primeiro 2km de estradão, depois 2km de trilho e finalmente 1km de descida suicida. O ano passado o Rodrigo correu nos 42km, por isso também já conhecia esta parte. Sabíamos o que nos esperava a seguir e decidimos que iríamos poupar energia nesta fase para conseguir correr nos quilómetros finais. Na parte de trilhos ele estava mais solto e voltou a meter corrida, eu esforcei-me por o acompanhar. Depois na terrível descida da Degolada era eu que estava melhor e passei-o. Chegámos ao Larano, ultimo abastecimento, às 22:51. Apenas 12km nos separavam de Machico!

Pela frente tínhamos os terríveis 5km da vereda do Larano. Um trilho lindíssimo, numa falésia, que infelizmente se estende por 4km a mais do que devia! Imaginem um trilho ligeiramente a subir, sempre a direito, em que a paisagem não muda nem um bocadinho (pelo menos à noite). Uma espécie de passadeira virada para a parede, com 2% de inclinação na velocidade 8 onde correm durante uma hora! Mas o plano tinha resultado e conseguimos percorrê-lo praticamente sempre a correr. Se nesta fase sentia que estava ligeiramente melhor que o Rodrigo, de seguida, nos 6km de levadas antes de chegar a Machico, foi novamente ele que puxou por mim. Corremos ao que na altura me pareceu uns estonteantes 4 e tal ao km, mas que o Strava de certeza que interpretou mal e diz que foi a 7!

Vereda do Larano, vista de dia
Um final de prova perfeito que me deixou com a adrenalina a bombar, em contraste com o ano passado em que acabei a arrastar-me no Larano e nas Levadas. Acabei mesmo por recuperar muito do tempo perdido e terminar a prova em 24h47, menos 5 minutos que o ano passado!

4 em 4
Estava concluído o meu 4º MIUT. Talvez aquele em que passei a meta mais em paz. Liguei à Sara, que foi comigo cada um dos 116000 metros, dei um abraço aos meus companheiros de equipa que estavam à minha espera àquela hora, lembrei-me da Vânia que teve um problema de saúde um dia antes lá na Madeira, dei um abraço ao Rodrigo que me rebocou durante quase 40km, outro ao Alex, o sempre prestável Alex, que teve que desistir em Estanquinhos, e finalmente arrastei-me, agora sim, para o quarto na nossa casa alugada, onde esperei o Luis Sommer que chegaria poucas horas depois com 1001 histórias como só ele sabe contar da sua prova. No dia seguinte, às 7 da manhã, lá estava o grupo outra vez todo reunido, cada um a fervilhar com histórias para contar, prontos para apanhar o voo de regresso. Rodrigo, Sommer, Alex, Chico, Simão, Vasco e Rita (como é que não tirámos uma foto?). 

Os fins de semana de MIUT são sempre intensos, este não falhou nem um bocadinho. Perguntam-me porque volto tantas vezes, não consigo explicar de maneira melhor do que escrevendo estes textos, talvez para o ano, quando voltar para o penta, me percebam.

Não quero parecer hipócrita, eu sei que tinha dito que o objectivo era chegar quase uma hora antes, mas sinceramente fiquei satisfeito com o resultado final. 24h47 não é um bom nem mau tempo, é o tempo que eu precisei, ponto. Estou orgulhoso de todo o caminho até aqui e não fazia nada de diferente. Vistas bem as coisas, fiquei no lugar onde pertenço: 232º em 496 finalizadores de 782 que começaram. Cumpri o derradeiro objectivo: deixei tudo naqueles 116km. Corpo e alma. 












segunda-feira, 16 de abril de 2018

MIUT 2018 - Tudo pronto.


Não é o tipo de post que gosto de fazer, mas foi assim nos últimos 3 anos por isso também não há-de ser à quarta que vou fazer diferente. Senhoras e senhores, chegou a altura da Análise Anual ao Umbigo, Com Vista À Participação No MIUT.

Pois é. Chegámos àquela altura. Falta pouco mais que uma semana e estou oficialmente em período de recuperação para a minha quarta participação nos 115km do MIUT. Como sempre, a ansiedade está nos píncaros e é difícil pensar em mais alguma coisa durante as 24h do dia a não ser a Madeira. Acreditem, o respeito e medo da prova não é menor por ser a quarta participação, no MIUT é impossível que seja de outra maneira. No entanto, isso não me impede de este ser o ano em que estou mais confiante. Isto porque estou de consciência tranquila relativamente ao trabalho que, desde o início do ano, fiz em três campos: treino, alimentação e reforço muscular.

Treino


Como se pode ver na imagem, este foi o ano com mais quilómetros nos 3 primeiros meses do ano, mas não ficou muito longe do ano de 2016, quando fiz o meu melhor tempo (24h07). Aliás, nesse ano só não foi melhor porque no mês de Janeiro estava a recuperar de uma lesão. Quanto ao desnível, tem sido praticamente sempre o mesmo, tirando 2015, quando na verdade estava longe de estar preparado. Tem sido um bom ano, neste aspecto. Consegui 6 ou 7 semanas acima de 4000+ e cumpri melhor a regra de 3 de carga + 1 de recuperação. No mês de Março ainda deu para a melhor semana de sempre a nível de distancia, sem provas, (103km com 4300+), o que contribuiu para o mês com mais quilómetros de sempre. Em nenhum dos meses ultrapassei os 15000+, o que já consegui noutras ocasiões, mas não é coisa que me aflija.

Inseridas na "categoria treino" estão as provas que fiz este ano, apesar de não ter feito nenhuma em "modo treino", como se costuma dizer. Não, quando participo em provas é para dar tudo. Umas correram melhores que outras, é verdades, mas de todas tirei lições.

Trail de Almeirim - 35km


Reforço Muscular

Esta já não é nova por aqui, mas é a primeira vez que vou fazer o MIUT com esta componente do treino. O ano passado já fazia duas sessões de ginásio por semana, desde Janeiro passei a três, que cumpro religiosamente. Não me canso de dizer, quem não faz isto não imagina o benéfico que é. Vale mesmo a pena o esforço.

O que também me deixa orgulhoso é que TODOS os treinos, tanto de corrida como de ginásio, foram feitos de manhã antes do trabalho. De segunda a sexta o despertador toca às 5:30 para uma hora de corrida e, três vezes por semana, esta é seguida de uma hora de ginásio. Depois ao sábado é dia de festa, então, não raras vezes, o despertador toca às 4:30 da manhã ou até antes. A premissa é chegar a casa antes da hora de almoço. Já estou perfeitamente adaptado a este horário e é inacreditável como os dias assim rendem mais. O problema é chegar às 22:30 e estar a cair para o lado mas, hey, não há almoços grátis.


Alimentação

Depois de anos a resistir, finalmente tomei a decisão de melhorar este aspecto da minha vida. Sim, vida, não só do treino! A decisão mais drástica foi abandonar tudo o que tenha açúcar adicionado: doces, bolos, sumos, bolachas, chocolates, etc, etc, etc. Além disso tenho feito um esforço grande em diminuir a ingestão de hidratos de carbono simples, como o arroz, massa e pão brancos, mas isto tem sido muito mais difícil, principalmente o pão. Ainda não consegui eliminar por completo estes últimos, ao contrário do açúcar que não consumo há três meses.  Quanto a isto, há duas conclusões a tirar: eliminar os açucares tem sido muito mais fácil do que julgava e, pasmem-se, sinto-me francamente melhor com estas mudanças! Não diminui muito o peso, também não era o meu objetivo, mas de uma forma geral sinto-me com mais energia e disponibilidade e com menos propensão a quedas abruptas de energia (aquela sensação de precisar de uma sesta a seguir a um bom almoço rematado com uma sobremesa).


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Estou de consciência tranquila, penso que fiz o meu trabalho. Controlei tudo o que podia controlar: treino, alimentação e reforço muscular. Tenho a estratégia de alimentação durante a prova afinada e conheço o percurso de cor e salteado. No entanto, numa prova como o MIUT, isso é só uma pequena parte. Há milhares de variáveis que estão só à espera atrás duma árvore para nos pregar uma rasteira. Vai ser preciso um dia perfeito, com os astros alinhados e sem nenhum imprevisto, para cumprir os meus dois objectivos: fazer uma prova sólida e, conseguindo isso, baixar finalmente das 24 horas.

Tudo feito. Agora é controlar os nervos e esperar pela meia noite de sexta feira 27 para começar a aventura. Vemo-nos em Machico!

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Zela Sky Marathon (45km) - À mau

De acordo com o meu método rudimentar e autodidata de planear o treino, a semana que passou foi o culminar do período de carga para a preparação do MIUT e entrei nas 3 semanas de alívio. Nos últimos dois anos aproveitei os 50km da Ultra do Piodão como ultimo grande aperto, uma prova rolante, pouco técnica mas com muito desnível. Este ano decidi arriscar num tipo de corrida que me atrai cada vez mais, o Sky Running. A prova foi o Zela Ultra Marathon (ZUM), na distancia de 40km e uns anunciados 2600 metros de desnível positivo. Números impressionantes, típicos do Sky Running, numa ambiciosa primeira edição da prova de Vouzela.

Fui acompanhando ao longo dos meses a preparação do percurso através de conversas com o meu amigo da organização Hugo Costa, que, de maneira a tentar explicar-me o que tinha pela frente, definiu a prova como uma mistura de Serra D'Arga e Abutres. Ou seja, a aliar ao muito desnível teríamos pela frente um percurso com partes bastante técnicas. Bonito! Comecei a pensar que tinha arranjado maneira de apanhar amasso tal que não teria tempo de recuperar para a Madeira. Bom, nada a fazer, siga para os 250km de carro até Vouzela!

Como todos sabem, as ultimas semanas, particularmente a ultima, foram de muita chuva em todo o país. Estava previsto atravessarmos vários ribeiros que nos últimos dias aumentaram consideravelmente de caudal, impossibilitando os atravessamentos. A organização teve então que fazer algumas alterações que, segundo os mesmos, originariam "pequenos bónus de altimetria e desnível". Compreensível. Melhor do que ninguém, eles saberão o que poria em risco a segurança dos atletas. Sky Running ou não, essa deve ser a primeira prioridade. O problema, talvez o único que tenho a apontar, é que esses pequenos bónus nunca foram quantificados. Ou seja, ninguém sabia à partida quantos quilómetros ou desnível iria fazer.

Esquerda para a direita: Pedro, Vasco, eu, Rodrigo e Mota.
O dia anunciava-se molhado e foi debaixo de chuva que saí da Pousada da Juventude de São Pedro do Sul com o Rodrigo e o Mota, para nos juntarmos ao resto da comitiva da Parreira que tinha ficado em Vouzela. A partida, marcada para as 8:30, não aconteceu sem antes dos cerca de 100 participantes serem sujeitos a um diligente controlo de material obrigatório. Já tinha ouvido dizer que a Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, entidade que organiza o campeonato nacional de SkyRunning, é bastante rigorosa neste aspecto. Percebi durante o dia que são bastante mais exigentes do que imaginava! Lá chegaremos.

Partida dada à hora certa e o pelotão não precisou de mais do que os primeiros 2km à saída de Vouzela para dispersar. Também não demorou muito até entrarmos no tipo de terreno que nos acompanharia em praticamente todo o percurso. Encostas muito íngremes de terra completamente preta, coberta de cinza, cravejadas de maciços graníticos, como pontos cinzentos a sair de uma massa escura. Por todo o lado paus verticais, cinzentos, secos, mortos, cravados no chão. Um cemitério de árvores carbonizadas que cediam ao mais ligeiro encosto. A água continuava a correr no fundo dos vales, numa tentativa desesperada de voltar a dar vida àquele inferno. Os incêndios do ano passado foram catastróficos e passados tantos meses ainda é impossível passar em sítios destes sem ficar esmagado.

Fotografia brutal do João Marques. Um exemplo perfeito do que é uma subida do ZUM
O percurso, tal como prometido, rapidamente se mostrou muito complicado. Como conseguem ver na fotografia, era difícil sequer pisar chão, tal a quantidade de pedras. Todas as subidas e descidas eram feitas numa espécie de escalada por entre o granito. Confesso que é o meu tipo de rocha preferida. Mesmo molhada agarra como se fosse lixa, só é perigoso se estiver com terra por cima. 

Tinha até ontem alguma dificuldade em explicar a alguém o conceito de Sky Running, mas o meu amigo Rui Nascimento, que participou na distancia maior (62km), não podia ter sido mais claro: se tens um monte de calhaus a separar-te do topo de um monte tens duas hipóteses: se estiveres numa prova de trail contorna-los por um estradão ou um trilho, se a prova for de Sky vais direito a eles e passas por cima, pela distancia mais curta até ao cume. Isto é das coisas que mais gosto no Sky, é tudo feito "à mau", uma grande parte das vezes nem sequer há trilho. As próprias marcações ajudavam a isso, distanciadas quanto-baste, quase a convidar a fazermos a nossa própria trajectória, o que nem era difícil já que não havia nenhuma vegetação, só terra preta e granito. Falando em marcações, não posso deixar de dizer que ouvi algumas pessoas a queixarem-se. Sinceramente, nunca me perdi ou tive dúvidas, mas admito que em certas alturas o tal distanciamento e inexistência de trilhos possa ter originado alguns problemas. 


Outra do João. Quase que dá para cheirar a cinza. Reparem que não há trilho
Os primeiros 15km do percursos foram os mais técnicos, com subidas e descidas constantes no meio das pedras. No entanto, as secções tinham comprimento suficiente para não ser o parte-pernas puro, o que me agradou bastante. Fizemos vários quilómetros ao longo do leito de ribeiros no fundo de vales, a fazer lembrar os tais Abutres, subimos por caminhos romanos graníticos, tal como em Arga. Havia água por todo o lado, dentro e fora dos ribeiros. Muita lama e descidas escorregadias. À medida que nos aproximávamos da Serra do Caramulo as encostas ficavam mais expostas e as subidas mais trabalhosas, mesmo como eu gosto. 


Estava a divertir-me muito e, melhor de tudo, sentia-me fresco e cheio de força. Deserto para chegar aos 20km para atacar a maior subida do percurso, com cerca de 600+. Essa chegou depois do segundo abastecimento e foi ainda melhor do que esperava. O Hugo há algum tempo me dizia que eu ia gostar desta subida, que tinha lido os meus relatos e sabia que era do meu agrado. Não se enganou minimamente! Muito variada, nada monótona, todo o tipo de pisos e inclinações, a acabar com uma escalada no meio de gigantes de granito num pico com uma grande proeminência! Ganhei vida nesta subida! Assim que pisei plano desatei a correr como se nada fosse. Aliás, como se não levássemos já 2100+ em apenas 27km! 

Início da subida, numa das raras zonas verdes do percurso
Lá em cima estava o terceiro e muito completo abastecimento. Comi presunto acabadinho de fatiar, uns copos de isotónico e arranquei a comer uma bifana muito boa. Não reparei na canja, que também havia, se não também tinha marchado. À porta do abastecimento estava um segundo controlo de material, desta vez pediram o frontal e apito. Todos paravam e quem estava em falta foi penalizado com tempo!

Ei, não se pode ficar sempre bem nas fotografias...
Os restantes 18km da prova foram um pouco diferentes do que tínhamos encontrado até então. A primeira grande descida, depois de conquistado o ponto mais alto, foi excelente e permitiu rolar a velocidades muito interessantes, sempre no meio de encostas graníticas. Depois mais um pico conquistado e começou a fase mais rolante da prova, quando já íamos com 2500D+ e as pernas começavam a pedir algum descanso. Isto para mim é o ideal, apanhar porrada no início e depois embalar para a meta. Ainda tivemos tempo de ir buscar mais 250+ antes de voltar a entrar em Vouzela com 2750+. A distancia? Bem, aos 40km somámos cerca de 5, perfazendo 45km. Mais de 10% além do anunciado. 

Na chegada.
Adorei a prova. Cada vez gosto mais deste género de percurso. Chamem-lhe Sky Running ou lá o que quiserem, mas gosto. Gosto de provas mais "caseirinhas", nota-se o empenho de todos e o gosto em deixar uma boa impressão em cada um dos atletas. Bons e bem distribuídos abastecimentos, bons trilhos (ou, melhor ainda, falta deles) e critério na escolha do percurso. No fim, algo inédito: toda a gente no balneário se estava a queixar da água! Não, não estava fria, estava quente de mais! O ZUM está de parabéns. Como já disse lá atrás, o único problema para mim foi não terem dito logo que o percurso teria um acréscimo tão grande. Nem tanto pelos 5km, como a parte final da prova foi mais rolante nem se deu por eles, mas para que à partida se saiba o que se tem pela frente.

Quanto à minha prova, dificilmente poderia ter corrido melhor! Penso que, dentro desta distancia média, foi a melhor que alguma vez fiz. Não senti a mínima quebra e diverti-me do primeiro ao ultimo passo. Comi nas horas certas, sem problemas de estômago. Tudo parece ter corrido bem, o que resultou num boost brutal para o MIUT! Terminei os 45km com 2750D+ em 6h30, numa zona da tabela não muito habitual para mim, mas o melhor de tudo foi sentir as reservas muito longe de estarem esgotadas. Que daqui a 3 semanas os astros se voltem a alinhar desta maneira...

Agora, que comece o tapering!!




sexta-feira, 23 de março de 2018

O que precisava.

Aproveitando o feriado municipal e uns dias de férias que tinha do ano passado, fui com a Sara e os miúdos até Miranda do Corvo passar uma semana. A ideia era a do costume, conjugar passeios em família com o vicio aqui do menino. 

Ao contrário de outras vezes que fomos até à Serra da Lousã, desta vez não ficámos na Casinha do México, um alojamento local muito giro em Gondramaz. É uma casa perfeita para ir com mais amigos, mas como éramos só os 4 decidimos ficar no Hotel Parque Serra da Lousã, em Miranda. Fazendo um bocadinho de Pipoca Mais Não Sei Quê, deixem-me que vos diga, para quem viaja com miúdos pequenos, é uma opção espetacular. Dois parques infantis exteriores e um interior, piscina e SPA interior, quartos perfeitamente espaçosos (ficámos num duplo com cama extra e um berço, completamente à vontade), um parque biológico com animais mesmo ao lado e, cereja no topo do bolo, o percurso dos Abutres passa literalmente à porta do Hotel!

Cascata da Sra. da Piedade de Tábuas (vulgo Cascata dos Abutres). Abismal.
O planeado foi cumprido, e consegui treinar 4 vezes. Saída sempre à primeira luz, pouco depois das 6 da manhã, e duração do treino entre as 3 e as 4 horas, de maneira a estar no hotel a horas do pequeno almoço, claro. A Serra estava perfeita. Depois de semanas de Inverno tivemos a sorte de apanhar 4 dias de Primavera. Todos os ribeiros estavam cheios, havia água por todo o lado, mas nenhum transbordava. Tudo na medida certa! Ainda tentei arranjar companhia (e guia) no Facebook, mas não consegui, e também não houve grande problema. Nada que um bom relógio e uns tracks não resolvam. Na verdade, adoro andar lá sozinho! Eu sei, é perigoso, bem que me lembrei disso quando dei uma cacetada com o joelho numa pedra que até vi estrelas, enfiado no trilho entre Gondramaz e Espinho. Felizmente foi só chapa. 

Trilho por cima de Gondramaz
Acabei por fazer 3 treinos em trilhos dos Abutres e um a partir da Lousã, em que cumpri o percurso do quilómetro vertical LOUZAN1000, que sobe 1000+ em 8km, até ao Alto do Trevim. No total foram 80km e mais de 4000+. Números nada maus para mim, mas por incrível que pareça, apesar de treinar todos os dias cerca de 20km, nunca me senti cansado. Nada como fazer aquilo que gostamos... Partilhei algumas fotos e video no meu Instagram e comentários sobre os percursos no meu Strava. Passem por lá!

Serra da Estrela Vista do Alto do Trevim!
Cascata no inicio do Penedo dos Corvos.
Este ano começou terrível para mim. Para que percebam, no primeiro mês e meio do ano tive 3 acidentes com carros do trabalho e o nosso particular teve uma avaria bastante grande. Foram semanas terríveis, naturalmente de muito stress no trabalho mas também em casa, já que entrámos em despesas para as quais não estávamos preparados. A maré estava de tal maneira má que cheguei ao ponto de ir levantar dinheiro ao multibanco e a máquina não me entregar as notas todas (sim, pode mesmo acontecer!). Eu não sou religioso, nem tão pouco supersticioso, mas andava desanimado ao ponto de considerar o conselho que recebi dezenas de vezes: Filipe, tu precisas de ir à bruxa!

Afinal não. Afinal, e escrevo isto uma hora depois de chegarmos a casa, o que precisava era de ir à Serra. Precisava de ver a cascata da Sra. da Piedade e parar lá uns segundos das 3 vezes que lá passei. Precisava de fazer a descida para Gondramaz. Precisava de ver aquele grupo enorme de veados perto do Trevim. Precisava de sentir os músculos no limite enquanto subia o Penedo dos Corvos agarrado a uma corrente. Precisava de ver a minha filha, orgulhosa, a mostrar os mergulhos na piscina do hotel. Precisava de sentir o meu filho ao colo a apertar-me quando estivemos a dois metros de um urso no parque biológico. Precisava de ver a Sara feliz, coisa que na verdade está 99% das vezes, eu é que sou um gajo muito cinzento quando as coisas me correm mal. Precisava disso tudo para perceber que no fundo sou um gajo com sorte. Com sorte daqueles 3 acidentes terem sido só chapa, de ter uma família saudável e feliz, de ter feito tão bons amigos ao longo da vida, de ter um trabalho que nos permite fazer estas férias, de não ter nenhum impedimento fisico que não me deixe aproveitar tudo o que a natureza nos DÁ. Sinto que as coisas estão a mudar, a maré negra ficou para trás. Afinal de contas, estamos quase no fim de Março e ainda não tive nenhum acidente! :)


Com o Manel no Castelo da Lousã
Anda cá pá!

A cabeça dele não é assim tão grande.
 

Parque infantil interior do Hotel


Meti a Sara a fazer sozinha o trilho até à Cascata da Sra. da Piedade. Só caiu 2 vezes!

Reforço muscular.
Depois de lá passar nos Abutres decidimos ir visitar. Confirmo. Aquilo não tem jeito nenhum (Templo Ecuménico)
No parque biológico.

Linces, lobos, ursos, veados, gamos.. Muito engraçado o parque.
Quarto

Piscina 

Hotel Parque