As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Trail de Poiares (35km) - Entrar e sair de buracos

Em todos os artigos que faço sobre as provas que participo tento fazer uma descrição factual do percurso, organização, etc, e depois um relato da minha própria prova. Não participo em muitas, tenho escolhido cada vez mais e aponto quase sempre para aquelas que à partida são a meu gosto. Este domingo corri pela primeira vez numa prova do campeonato nacional de trail. É raro fazer provas tão curtas, porque na verdade prefiro as ultra distâncias, mas ouvi falar muito bem do Trail de Poiares e como o fim e semana era conveniente juntei-me aos muitos colegas de equipa e fui até Vila Nova de Poiares. Quero com isto dizer que neste post é muito importante separar aquilo que pessoalmente achei da prova e percurso das considerações que faço da organização. 

Atletas do GDP presentes na prova longa, 35km. BTW, acabámos em 13º de 31 equipas numa prova do campeonato! Naturalmente ajudados pela nossa estrela João Lopes, 19º da geral e 2º sub 23.
Primeiro, vamos ao factos.

A organização do Trail de Poiares fez um excelente trabalho. Para quem não conhece a zona, a prova desenrola-se muito perto da Serra da Lousã, mas apesar do terreno ser muito parecido com o que se encontra na Serra, andamos em muito pouca altitude. O ponto mais alto anda pelos 300 metros. No entanto, o desnível foi de 1700+ em 34km, o chamado desnível parte pernas. 

A subida maior tinha cerca de 150+
Esta é daquelas organizações que arregaçam as mangas. É impressionante a quantidade de trilhos abertos, num percurso que será à volta de 90% em single track. Impressionante também foi a quantidade de bombeiros presentes no, às vezes, muito técnico e propenso a quedas, percurso. Provavelmente a prova onde vi mais bombeiros. Os 4 abastecimentos para 34km são suficientes e bem distribuídos, haviam voluntários em todas as travessias de estrada e as marcações estavam perfeitas, não deixando a menor margem de dúvida. A logística de levantamento de dorsais está bem oleada e a estrutura de apoio na meta é impressionante. Não posso falar do almoço servido, mas já me disseram que estava muito bom e sem tempo de espera. O kit entregue com o dorsal era excelente, com uma tshirt da 42k, uma pala preta e um par de luvas que me vai dar um jeitão! No final deixou de haver água quente no local destinado inicialmente ao banhos mas rapidamente a organização montou um sistema muito eficaz e rápido para transportar os atletas para um novo local onde, aí sim, a água estava muito quente. 

Kit entregue. O dorsal é do Miguel Cadalso (MC), o inevitável fotografo do blog :) São dele todas as fotografias que vão ver de seguida.
Estes são os factos. Os factos dizem que foi uma prova impecável, sem falhas, e foi mesmo! Mas este é um blog pessoal e, como tal, agora vou deixar a minha impressão pessoal do Trail de Poiares.

Ainda vi o Miguel antes da partida! Foto, claro, do MC.
Não precisava de muito mais, além do do perfil, para perceber que esta não era uma prova a meu gosto. No entanto, há provas com perfis parecidos, como por exemplo o Grande Trail das Lavadeiras, que acabo por gostar bastante e onde se consegue correr muito rápido. Depois de ouvir muitos elogios por parte dos meus colegas de equipa decidi arriscar. Infelizmente, há muito que não acabava uma prova tão saturado. Mas vamos por partes.

Como expliquei lá atrás, as limitações de altitude associadas a um terreno parecido com o que se encontra na Serra da Lousã, ou seja, encostas muito inclinadas, mato muito cerrado, algum xisto e pedra e várias travessias de ribeiros, formavam um conjunto de factores que não deixava grandes hipóteses à organização a não ser inventar, e muito, para chegar ao desnível anunciado. O resultado foi um percurso por vezes muito técnico, com dezenas de encostas super inclinadas ora a subir agarrado às árvores ora a descer de rabo. Passámos por cima e por baixo de dezenas de troncos, numa constante solicitação de todo o género de músculos. 

MC
MC
Nunca utilizei tanto as mãos numa prova. Também nunca caí tantas vezes. Foram raros os momentos a direito e muito frequentes as descidas em que não se podia pensar em muito mais além de não cair. Não demorou muito até ter a impressão que não estava a sair do mesmo sítio. Subíamos sofregamente uma encosta apenas para uns metros depois voltar a enfiar-nos no meio das árvores para descer novamente a mesma encosta e voltar ao rio uns metros abaixo.

Sobe. MC
E desce. MC
Os trilhos, muitos claramente abertos com muito esforço e de propósito para a prova, por vezes pareciam não fazer muito sentido. Andávamos muitas vezes de lado nas encostas, a serpentear por troncos e mais troncos, agarrados a cordas, pedras e raízes. As descidas e subidas curtas eram uma constante, uma autentica máquina de lavar roupa ligada na centrifugação. 

MC
MC
MC
O dia estava feio. Nunca choveu, mas esteve sempre a chuviscar. Muita humidade e a temperatura não muito baixa. Como andávamos sempre embrenhados nas árvores corria muito pouco vento, isso tudo associado ao tipo de percurso formava condições perfeitas para as malditas cãibras, não sei se algum dos 300 e tal conseguiu escapar imune a elas! 

Foi uma prova muito dura. Surpreendentemente dura! Pelo percurso e pelo tempo, obviamente alheio à organização. Sofri muito mais do que esperava e, na verdade, vi-me à rasca para terminar! Acabei os últimos quilómetros saturado, farto de ali andar. Comecei a perder a concentração e caí algumas vezes, uma ou duas até foram quedas feias. Parecia que fazia a mesma descida e a mesma subida repetidamente, a certa altura fiquei com a sensação que passei o percurso inteiro a entrar e a sair de buracos!

A entrar no buraco. MC
Acabei com algumas mazelas e demorei 4h42 para cumprir os 34km. Mesmo assim fui 130º de cerca de 300 que começaram, o que mostra bem a dureza da prova. 

O prémio finisher era um íman para o frigorífico. Eu gostei!
Não gostei do percurso. É a minha opinião, não quer dizer que seja um mau percurso. Aliás, ouvi muita gente no fim maravilhada com o que tinha vivido. Ainda bem que é assim e que há provas para todos os gostos, esta simplesmente não era para mim. 

Agora é altura de lamber feridas e preparar a próxima, que ainda não sei qual vai ser. O que sei é que o MIUT está quase aí, só faltam 2 meses e meio!

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Montejunto

Este sábado foi um daqueles dias perfeitos para andar em Montejunto, céu limpo e muito frio. Fui sozinho, coisa que acontece cada vez menos ultimamente. Enquanto descia um dos meus trilhos preferidos dei por mim a pensar em tudo o que já passei naquele monte onde, apesar de ter que fazer uma viagem de 1 hora de carro para cada lado, me sinto em casa. 

Foi em 2015 que o Daniel me enviou o track de um treino que fez por lá. Reuni 4 amigos e lá fomos, sem nunca nenhum de nós ter pisado aquela serra. Foi só a primeira de muitas vezes que andei perdido naquela montanha. Semana após semana fui voltando, encontrando novas ligações entre trilhos já conhecidos, partindo à descoberta de outros ou inventando passagens onde não existem. 

Mostrei os cantos da casa a dezenas de amigos, sem conseguir disfarçar o orgulho quando os sinto surpreendidos. Raramente o treino começa de dia por isso foram dezenas as vezes que vi nascer o sol na Lezíria. Apanhei vento, chuva e trovoadas, 28ºC às 6:30 da manhã e até uma tempestade de neve, naquele sábado mítico há dois anos. Uma vez, sozinho, apanhei granizo de tal maneira grande que tive que proteger a cabeça com as mãos, ou da outra vez com amigos, quando começámos um treino à meia noite no qual fomos escorraçados da montanha a meio por uma das tempestades mais agressivas que tenho memória.

Este sábado, em casa, ao analisar os registos do Strava vi que foi 42ª vez que lá treinei, desde Novembro de 2015. Uma média de 27km com 1850+. Dizer que aquela montanha foi importante na minha evolução é pouco. Acho sinceramente que Montejunto é a peça central de onde estou agora.

Foram bem mais de 42 as vezes que subi aquele pequeno lance de escadas antes de chegar à capela nos 670m, já que em cada treino são sempre 3 ou 4 vezes que subo ao topo. No fim de cada subida toco com a mão direita na parede caiada da capela, não num gesto de superstição ou religioso, mas de puro agradecimento. 












segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Ultra Trilhos dos Reis (47km) - Tudo no sítio certo!

Fiz o meu primeiro trail em 2012, dois anos antes da primeira edição dos Trilhos dos Reis, na altura Trail do Centro Vicentino da Serra. Das 4 edições anteriores guardo duas coisas: a inveja pelas inconfundíveis camisolas de manga comprida que via desfilar por aí e uma torrente de elogios que aumentava de ano para ano. Por acaso e, bom, pelos Abutres que se realizam duas semanas depois, foi apenas na quinta edição que rumei a Portalegre em Janeiro. Hoje posso dizer que demorei 5 anos a mais do que devia. Os Trilhos dos Reis entraram definitivamente no meu top de melhores provas do país.

Como toda a gente sabe, Portugal não é propriamente um país com muita montanha, particularmente do Tejo para baixo. Com a explosão de provas de trilhos distinguem-se facilmente alguns tipos de organizações. Há uns que têm a sorte de ter uma montanha e aproveitam os recursos naturais sem terem que se esforçar muito, depois há aqueles que não tendo relevo nenhum de especial trabalham por maximizar a mão que lhes foi dada, há ainda um terceiro caso, aqueles que elevam as suas provas à excelência. Esses, além de terem uma boa base de partida, não ficam contentes e arregaçam as mangas. 

A Associação de Desporto e Aventura de Portalegre (DAP) podia simplesmente ter utilizado o recurso que tem, a Serra de São Mamede. Ligavam uns quantos PRs com estradões, percorriam um ou outro trilho do BTT e faziam disso uma prova. Uma como tantas outras. Mas não, eles decidiram que a sua prova não seria igual às outras. Eles souberam ouvir, evoluíram, aproveitaram os bons exemplos, aceitaram criticas e, principalmente, tiveram a humildade de perceber que os 1000m da Serra, só por si, não eram suficientes para tornar os Reis numa prova de excelência. E, com uma região inteira por trás, criaram uma das melhores provas a que já fui: Os Ultra Trilhos dos Reis.

Atletas do GPD presentes nas 3 provas do evento
Dentro do mercado, no briefing

Percebe-se assim que se entra em Portalegre que a cidade se orgulha da prova. Confirmou-se durante o briefing incial onde, no mercado municipal a rebentar pelas costuras, todo o executivo camarário, além do José Presado do DAP, discursou  para os mais de 500 atletas que iam partir na prova grande (47km). Um conjunto de percussão, que nos iria acompanhar em vários pontos da prova, tratou de acelerar ainda mais as frequências cardíacas momentos antes de se dar inicio à partida simbólica, que nos levaria para o pórtico no exterior do mercado. Antes disso ainda teve lugar uma merecida e, pelo menos para mim, muito emocional homenagem à Antonieta. A minha antiga colega de equipa, conterrânea e acima de tudo amiga Antonieta, que, como todos sabem, tragicamente nos deixou uns dias antes. Em circunstancias normais ela estaria ali naquele dia, se não para correr pelo menos para acompanhar o Gaio. A sua paixão, como ele sempre a chamou. Foi muito emocionante sentir o peso do silencio das muitas centenas de pessoas que estavam ali e a posterior salva de palmas abafada pelas luvas. Lembrei-me muitas vezes dela durante a prova e acredito que o mesmo tenha acontecido a todos os que a conheceram. Que descanses em paz, amiga. 


Lá fora o dia estava frio, mas não tão frio como o esperado. Na verdade a temperatura nunca subiu muito, andei praticamente o caminho todo com as luvas e não despi nenhuma camada, mas o céu estava limpo e o vento calmo. Estava perfeito. Despachado o controlo zero, os quase 500 atletas partiram para os 47km dos Ultra Trilhos dos Reis. 

Fotografia da Bernardete Morita
Não demorou muito até sairmos do alcatrão e entrarmos nos trilhos, local onde decorrem praticamente todos os 47km da prova. Os primeiros 10, 15km pareciam confirmar a ideia que eu tinha do percurso. Uma prova rápida e corrivel, onde não haviam propriamente subidas mas onde estávamos constantemente a subir e descer. Não sei se me percebem. Trilho atrás de trilho, nesta altura ainda sem grande dificuldade técnica, ora em caminhos antigos ora em trilhos abertos de fresco. Só muito raramente percorremos ligações em estradão. Tão raramente que praticamente não me lembro de nenhum! Frequente era também a sensação que a organização estava em todo o lado. Com gritos de incentivo, a Lili vestida de bruxa, outros vestidos de monges, bobos da corte e sei lá mais o quê. Por todo o lado sentia-se que a prova era pensada metro a metro, a fasquia estava bem elevada naqueles primeiros quilómetros, mas a verdade é que até ao fim da prova as surpresas sucederam-se, como que a distrair-nos do massacre que aquele parte pernas estava a ser para o corpo.

Hajam pernas para partir
Abastecimento intermédio, onde estava a bruxa. Reparem no pormenor das etiquetas
Os trilhos da primeira parte. Pelo fotografo oficial do Quarenta e Dois: MIGUEL CADALSO. Desta vez não andei ao pé dele não apareço em nenhuma. 
A primeira subida de registo aconteceu aos 13km, no primeiro ataque ao pico. Foram cerca de 300+ num corta fogo bem inclinado, intitulada "Subida dos Infernos". Já perto do topo deixamos os estradões xistosos e avistamos as primeiras paisagens graníticas. Depois de conquistadas as antenas, que já conhecia do UTSM, viramos para um trilho espectacular (acho que era chamado Trilho da Serpente) que, adivinhem, serpenteava por entre os pinheiros num piso macio coberto de caruma. Este embalava-nos rapidamente para o terceiro abastecimento, reconhecível pelo ribombar dos tambores a quilómetros de distancia. 

Na Subida aos Infernos (Miguel Cadalso - MC)

Perto do topo, lá em cima estavam uns monges (MC)
Claro que o Cadalso tinha uma foto do Trilho da Serpente (MC)
Há algum tempo que decidi não voltar a falar de abastecimentos por aqui. Quebrei a regra na UTAX, por razões negativas, e agora vou quebrar uma segunda vez, precisamente pela razão contrária. Os abastecimentos do UTDR, particularmente este terceiro, foram dos mais completos que já vi na vida. Muita gente a dar apoio, muitas mesas para dispersar as pessoas e uma quantidade incrível de escolha. Não houve nenhum abastecimento que não tenha emborcado 4 ou 5 fatias de presunto, e a prova que eram suficientes e bem posicionados é que, ao contrário de praticamente todas as provas que faço, só consumi 1 gel de toda a comida que levava. 

Chegada ao abastecimento, com a recepção dos tambores (MC)
Saídos do abastecimento iniciámos novo ataque aos 900 metros, desta vez por trilho. Nesta altura comecei a notar que estes estavam a ficar cada vez mais difíceis e técnicos. As descidas já não eram feitas a abrir mas antes com constante atenção às muitas pedras que cravejavam o caminho. Foi por aqui que entrámos numa das zonas mais técnicas, e mais bonitas, do percurso. Se bem me lembro, era chamado o trilho do Castelo dos Reis. Um caminho muito técnico, numa encosta de uma garganta granítica muito apertada, que culminou numa escalada daquelas que requerem muita abertura de pernas, pelos grandes maciços de granito. 

Logo a seguir às Antenas (MC)

MC

Inicio do trilho do Castelo dos Reis (MC)

Esta não era muito corrível (MC)
Fomos avisados no briefing que 2000 dos 2500m de desnível positivo seriam vencidos até aos 30km, mas estávamos com cerca de 29 e ainda faltavam mais de 300m. Sabia, pelo perfil, que nos estava reservada a subida que mais saltava à vista antes dos 30, mas como faltava tão pouco pensei que não chegaríamos aos 2000. A opinião foi-se consolidando à medida que subíamos suavemente por um trilho simpático, até que saímos da linha das árvores, curva de 90º à direita e.. PUUM, à nossa frente estende-se uma encosta totalmente despida inclinadíssima, cortada por uma linha que se estendia por 1km de pessoas completamente dobradas, agarradas aos joelhos! Ataquei-a como faço sempre que não levo bastões, com as mãos atrás das costas de maneira a não dobrar muito as costas. Fui subindo e evitando olhar para a frente, só para os pés. A encosta empinava cada vez mais quando tentei subir aos ésses e a pisar as pedras maiores, de forma a não esticar demasiado a parte de trás das pernas (aquela treta do Aquiles que trouxe da UTAX ainda dá sinal de vez em quando). Apesar de não ser uma grande subida foi verdadeiramente desesperante. Gosto de subidas em trilho, desafiantes e técnicas, aquilo era o oposto. Uma parede autentica feita com o nariz a tocar no chão. Não havia opções a tomar nem estilos diferentes de subir, era ir em frente, tentar não rebolar por ali abaixo e mamar a pastilha! 

MC
As fotos nunca fazem justiça às subidas! (MC)
Lá em cima, nos 30km e já com os tais 2000+, estava um abastecimento intermédio com uma banca da Delta. Bebi um café quentinho e um bocado de Boleima (acho que era assim, o nome), um bolo muito bom que nem conhecia, e, com a promessa de sopa do próximo abastecimento, fiz-me aos 9km que me separavam desse. Pensava que o pior já tinha passado. Ia com um pouco menos que 4h30, faltavam 17km e apenas 500+, pensei que seria um passeio até ao fim. Mas a minha prova deu uma volta de 180º.

Logo a seguir ao abastecimento, troquei as pernas de subida pelas de descida e estas ainda responderam bem. Mas o percurso estava a mudar. Trilho técnico atrás de trilho técnico, o parte pernas era cada vez mais notório. Até que passamos por uma placa a dizer "Bem Vindo ao Carrossel dos Príncipes". Um emaranhado de trilhos com muita pedra, cruzamentos de linhas de água, cordas e constantes subidas e descidas curtas. Comecei a ir muito abaixo e já me arrastava por ali. As pernas começaram a tremer e ansiava pelo abastecimento para poder comer a prometida sopa, sentia-me muito fraco e já com bastante fome. Meti o único gel da prova e ainda comi umas gomas da GU que comprei na feira, mas continuei a sentir as pernas a tremer, ofegante e com a cabeça à roda. Era um suplicio cada vez que tinha que me agarrar a uma corda para subir e fui ultrapassado por muita gente.

Carrossel dos Principes (MC)

MC

Venham cá dizer que os Reis são todos corriveis (MC)
Assim que entro no abastecimento agarro-me à primeira tijela de sopa que vejo e sento-me abraçado ao prato quente. Não tirei os olhos da colher até ver o fundo do prato. A maravilhosa e espessa sopa de legumes com massa, muito quente, foi como um salva vidas. Respirei fundo de alivio e satisfação quando senti o corpo muito mais confortável. 

Sorry, Francisco. Não tinha outra foto da Sopa :) (MC)
Até lá abaixo o caminho foi sem história, uma série de trilhos a descer, intercalados com pequenas subidas (como sempre) embalaram-nos até aos 200 metros de alcatrão antes de voltar a entrar no mercado municipal, local onde estava instalada a meta. Até ao fim ainda tive o incentivo de uma luta intensa contra o relógio, assim que decidi apanhar o comboio das 7. Cruzei a meta com 6h58, foi mesmo à conta!

Os ultimos trilhos, a descer para Portalegre (MC)

A minha chegada apoteótica. Mais ou menos, vá.

Eu com o meu director de imagem, Miguel Cadalso!
Quem me conhece e segue o que aqui vou escrevendo sabe que este não é propriamente o meu tipo de percurso favorito. Dou-me muito mal em percursos tipo parte-pernas, mas isso não me impede de reconhecer o trabalho de excelência que o DAP desenvolveu nestes Trilhos dos Reis. Dá a impressão que, sendo eles próprios atletas, pegaram em todos os bons exemplos que foram apanhando noutras provas e aplicaram-nos na deles. O percurso é 90 e muitos por cento em trilho, muitos deles abertos de propósito, num esforço muito grande para ligar caminhos existentes fugindo a estradões. É muito variado, com secções fáceis e rápidas intercaladas com outras muito técnicas. É divertido e desafiante, os 2600D+ em subidas curtas contam a história. As marcações são perfeitamente irrepreensíveis, os abastecimento fora de série e toda a logística em torno da prova é impressionante. 

Senti-me em casa em Portalegre e só tenho pena de uma coisa: ter chegado com 5 anos de atraso!

Portalegre ao fundo. MC, claro. Até para o ano!



sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Aquele post.

Sim, vão ter que apanhar com ele. Não era no 4º ano de blog que ia deixar o 4º post resumo por fazer.

Se bem se lembram, 2016 foi o ano esquizofrénico. O quê, não se lembram desse post? Como pode! Enfim, mais atenção, por favor. 

Como estava a dizer, se '16 foi o ano esquizofrénico, '17 foi o ano da estabilidade. Estabilizei a minha vida profissional e familiar e com isso estabilizaram os treinos. Foi o ano em que consegui melhor cumprir o que, na altura, me parecia o plano de treino ideal. Adoptei definitivamente os treinos de madrugada e sem chatices de lesões consegui quase sem falhas cumprir os 3000D+ mínimos semanais, isto nas alturas de carga. 

Os números finais mostram praticamente os mesmos quilómetros do ano passado (3600) mas mais desnível positivo ganho (140 mil em 2017, vs 120 mil em 16). Passei a fazer religiosamente duas sessões de ginásio por semana, coisa que aprendi a gostar e neste momento não consigo passar sem. Com isto andei praticamente todo o ano a sentir-me muitíssimo bem fisicamente. Mas se no dia a dia e nos treinos me sentia bem, esta estabilidade e aumento qualitativo do treino na verdade não se traduziu em melhores performances nas provas. Principalmente naquelas que realmente gosto: as grandes.

A primeira do ano foi a terceira na Madeira. Voltei para o Hat Trick no MIUT, aquela que considero a prova perfeita. No entanto, perfeito é um adjectivo que definitivamente não descreve a minha prestação. Ao contrário de 2016 não senti que fiz uma prova sólida, acabando quase uma hora depois do tempo desse ano. Tal como no UTMB, voltei a sentir dificuldades musculares nas descidas e logo na semana seguinte comecei no ginásio.


Julho foi o mês da grande prova do ano, o Andorra MITIC. E que prova! Tudo naquela corrida bate certo. Alta montanha, selvagem, técnica e muito, muito dificil. Adorei cada metro e ao contrário do MIUT acho que fiz uma prova bastante sólida, a melhor do ano e provavelmente das melhores da minha vida. Uma experiência inesquecível e indescritível. Uma prova obrigatória.


Depois veio Agosto que, como sempre, foi dos meses mais produtivos do ano. Mais quilómetros, mais desnível, mais confiança. Foi assim, num estado quase de levitação, que cheguei à Lousã para enfrentar os terceiros três dígitos do ano. Infelizmente acabou por não ser a prova que tinha idealizado. Apesar de sólida, esperava sentir-me melhor e andar mais. 


Ainda antes da prova da Lousã, embalado pela tal confiança exacerbada, decidi inscrever-me em mais uma empreitada de 3 dígitos até ao fim do ano, o Azores EPIC Trail Run. Percebi imediatamente a seguir à UTAX que me tinha precipitado, que o corpo pedia descanso. Acabei por ir aos Açores fazer a prova possível, depois de passar as escassas 5 semanas entre provas a lamber feridas. Uma prova muito complicada devido ao clima e terreno, acabou por ser muito mais dificil do que julgava. Arrependido por começar ou não, foi uma experiência fantástica correr nos Açores e um fim de semana que não trocava por nada. 


Cumprido o EPIC, guardei o mês de Dezembro para fazer reset. Acabou por ser um mês muito dificil. Como quase sempre depois de uma prova grande o sistema imunitário fica debilitado, por isso andei algum tempo a batalhar febres e dores no corpo, além das mazelas físicas que se foram acumulando. Acabou por ser o pior mês dos últimos anos. Mas agora acabou e 2018 está já aí!

Para o ano novo, estas são AS provas:

MIUT (115km, 7200D+, Abril) - Vai ser a minha quarta participação e...bem, já não há muito mais a dizer sobre ela. A novidade deste ano é que vou assumir a tentativa de chegar antes da meia noite (o record está em 24h07 de 2016). 

X-ALPINE (111km, 8400D+, Julho) - Demorei muito tempo até chegar a esta decisão. Estava muito inclinado para uma nova inscrição no UTMB, mas decidi adiar por mais um ano o regresso às 100 milhas. No entanto, o que não queria por em causa era o regresso aos Alpes. Se eu tivesse que idealizar um perfil perfeito acho que chegaria a algo como o da X-Alpine. Vejam:


Basicamente a prova tem 5 subidas, respectivamente com 1900, 1400, 1500, 900 e 1200 metros de desnível positivo. Já disse por aqui que o que gosto é subidas e descidas longas. Além disso vamos andar em alta montanha (todos os picos são acima dos 2200m, com o mais alto perto dos 2900), em terreno muito técnico verdadeiramente alpino.  Com uma taxa média de desistências superior a 50%, é uma prova que na 10ª edição é conhecida por ser uma das mais difíceis naquelas montanhas. Uma espécie de Mitic dos Alpes. 

Para a ultima prova grande do ano ainda estou em dúvida entre duas. O desejo é ir ao Ultra Trail Atlas-Toubkal (UTAT), em Marrocos. Mas provavelmente a viagem em família aos Alpes vai dar-nos cabo do orçamento, por isso em principio apostarei na caseira Estrela-Açor, versão 100km, que acontece em Outubro.

Como sempre, além destas, participarei em várias provas de distancias menores, a começar já daqui a duas semanas nos Trilhos dos Reis e acabando, obviamente, em Casainhos e nas Lavadeiras :).

Esquizofrénico, estável ou nenhum dos dois. Espero apenas que 2018 seja mais um ano com muita montanha, muita aventura e muitas horas a fazer aquilo que mais gosto com quem mais gosto. Mal posso esperar!