As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 16 de abril de 2018

MIUT 2018 - Tudo pronto.


Não é o tipo de post que gosto de fazer, mas foi assim nos últimos 3 anos por isso também não há-de ser à quarta que vou fazer diferente. Senhoras e senhores, chegou a altura da Análise Anual ao Umbigo, Com Vista À Participação No MIUT.

Pois é. Chegámos àquela altura. Falta pouco mais que uma semana e estou oficialmente em período de recuperação para a minha quarta participação nos 115km do MIUT. Como sempre, a ansiedade está nos píncaros e é difícil pensar em mais alguma coisa durante as 24h do dia a não ser a Madeira. Acreditem, o respeito e medo da prova não é menor por ser a quarta participação, no MIUT é impossível que seja de outra maneira. No entanto, isso não me impede de este ser o ano em que estou mais confiante. Isto porque estou de consciência tranquila relativamente ao trabalho que, desde o início do ano, fiz em três campos: treino, alimentação e reforço muscular.

Treino


Como se pode ver na imagem, este foi o ano com mais quilómetros nos 3 primeiros meses do ano, mas não ficou muito longe do ano de 2016, quando fiz o meu melhor tempo (24h07). Aliás, nesse ano só não foi melhor porque no mês de Janeiro estava a recuperar de uma lesão. Quanto ao desnível, tem sido praticamente sempre o mesmo, tirando 2015, quando na verdade estava longe de estar preparado. Tem sido um bom ano, neste aspecto. Consegui 6 ou 7 semanas acima de 4000+ e cumpri melhor a regra de 3 de carga + 1 de recuperação. No mês de Março ainda deu para a melhor semana de sempre a nível de distancia, sem provas, (103km com 4300+), o que contribuiu para o mês com mais quilómetros de sempre. Em nenhum dos meses ultrapassei os 15000+, o que já consegui noutras ocasiões, mas não é coisa que me aflija.

Inseridas na "categoria treino" estão as provas que fiz este ano, apesar de não ter feito nenhuma em "modo treino", como se costuma dizer. Não, quando participo em provas é para dar tudo. Umas correram melhores que outras, é verdades, mas de todas tirei lições.

Trail de Almeirim - 35km


Reforço Muscular

Esta já não é nova por aqui, mas é a primeira vez que vou fazer o MIUT com esta componente do treino. O ano passado já fazia duas sessões de ginásio por semana, desde Janeiro passei a três, que cumpro religiosamente. Não me canso de dizer, quem não faz isto não imagina o benéfico que é. Vale mesmo a pena o esforço.

O que também me deixa orgulhoso é que TODOS os treinos, tanto de corrida como de ginásio, foram feitos de manhã antes do trabalho. De segunda a sexta o despertador toca às 5:30 para uma hora de corrida e, três vezes por semana, esta é seguida de uma hora de ginásio. Depois ao sábado é dia de festa, então, não raras vezes, o despertador toca às 4:30 da manhã ou até antes. A premissa é chegar a casa antes da hora de almoço. Já estou perfeitamente adaptado a este horário e é inacreditável como os dias assim rendem mais. O problema é chegar às 22:30 e estar a cair para o lado mas, hey, não há almoços grátis.


Alimentação

Depois de anos a resistir, finalmente tomei a decisão de melhorar este aspecto da minha vida. Sim, vida, não só do treino! A decisão mais drástica foi abandonar tudo o que tenha açúcar adicionado: doces, bolos, sumos, bolachas, chocolates, etc, etc, etc. Além disso tenho feito um esforço grande em diminuir a ingestão de hidratos de carbono simples, como o arroz, massa e pão brancos, mas isto tem sido muito mais difícil, principalmente o pão. Ainda não consegui eliminar por completo estes últimos, ao contrário do açúcar que não consumo há três meses.  Quanto a isto, há duas conclusões a tirar: eliminar os açucares tem sido muito mais fácil do que julgava e, pasmem-se, sinto-me francamente melhor com estas mudanças! Não diminui muito o peso, também não era o meu objetivo, mas de uma forma geral sinto-me com mais energia e disponibilidade e com menos propensão a quedas abruptas de energia (aquela sensação de precisar de uma sesta a seguir a um bom almoço rematado com uma sobremesa).


----


Estou de consciência tranquila, penso que fiz o meu trabalho. Controlei tudo o que podia controlar: treino, alimentação e reforço muscular. Tenho a estratégia de alimentação durante a prova afinada e conheço o percurso de cor e salteado. No entanto, numa prova como o MIUT, isso é só uma pequena parte. Há milhares de variáveis que estão só à espera atrás duma árvore para nos pregar uma rasteira. Vai ser preciso um dia perfeito, com os astros alinhados e sem nenhum imprevisto, para cumprir os meus dois objectivos: fazer uma prova sólida e, conseguindo isso, baixar finalmente das 24 horas.

Tudo feito. Agora é controlar os nervos e esperar pela meia noite de sexta feira 27 para começar a aventura. Vemo-nos em Machico!

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Zela Sky Marathon (45km) - À mau

De acordo com o meu método rudimentar e autodidata de planear o treino, a semana que passou foi o culminar do período de carga para a preparação do MIUT e entrei nas 3 semanas de alívio. Nos últimos dois anos aproveitei os 50km da Ultra do Piodão como ultimo grande aperto, uma prova rolante, pouco técnica mas com muito desnível. Este ano decidi arriscar num tipo de corrida que me atrai cada vez mais, o Sky Running. A prova foi o Zela Ultra Marathon (ZUM), na distancia de 40km e uns anunciados 2600 metros de desnível positivo. Números impressionantes, típicos do Sky Running, numa ambiciosa primeira edição da prova de Vouzela.

Fui acompanhando ao longo dos meses a preparação do percurso através de conversas com o meu amigo da organização Hugo Costa, que, de maneira a tentar explicar-me o que tinha pela frente, definiu a prova como uma mistura de Serra D'Arga e Abutres. Ou seja, a aliar ao muito desnível teríamos pela frente um percurso com partes bastante técnicas. Bonito! Comecei a pensar que tinha arranjado maneira de apanhar amasso tal que não teria tempo de recuperar para a Madeira. Bom, nada a fazer, siga para os 250km de carro até Vouzela!

Como todos sabem, as ultimas semanas, particularmente a ultima, foram de muita chuva em todo o país. Estava previsto atravessarmos vários ribeiros que nos últimos dias aumentaram consideravelmente de caudal, impossibilitando os atravessamentos. A organização teve então que fazer algumas alterações que, segundo os mesmos, originariam "pequenos bónus de altimetria e desnível". Compreensível. Melhor do que ninguém, eles saberão o que poria em risco a segurança dos atletas. Sky Running ou não, essa deve ser a primeira prioridade. O problema, talvez o único que tenho a apontar, é que esses pequenos bónus nunca foram quantificados. Ou seja, ninguém sabia à partida quantos quilómetros ou desnível iria fazer.

Esquerda para a direita: Pedro, Vasco, eu, Rodrigo e Mota.
O dia anunciava-se molhado e foi debaixo de chuva que saí da Pousada da Juventude de São Pedro do Sul com o Rodrigo e o Mota, para nos juntarmos ao resto da comitiva da Parreira que tinha ficado em Vouzela. A partida, marcada para as 8:30, não aconteceu sem antes dos cerca de 100 participantes serem sujeitos a um diligente controlo de material obrigatório. Já tinha ouvido dizer que a Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, entidade que organiza o campeonato nacional de SkyRunning, é bastante rigorosa neste aspecto. Percebi durante o dia que são bastante mais exigentes do que imaginava! Lá chegaremos.

Partida dada à hora certa e o pelotão não precisou de mais do que os primeiros 2km à saída de Vouzela para dispersar. Também não demorou muito até entrarmos no tipo de terreno que nos acompanharia em praticamente todo o percurso. Encostas muito íngremes de terra completamente preta, coberta de cinza, cravejadas de maciços graníticos, como pontos cinzentos a sair de uma massa escura. Por todo o lado paus verticais, cinzentos, secos, mortos, cravados no chão. Um cemitério de árvores carbonizadas que cediam ao mais ligeiro encosto. A água continuava a correr no fundo dos vales, numa tentativa desesperada de voltar a dar vida àquele inferno. Os incêndios do ano passado foram catastróficos e passados tantos meses ainda é impossível passar em sítios destes sem ficar esmagado.

Fotografia brutal do João Marques. Um exemplo perfeito do que é uma subida do ZUM
O percurso, tal como prometido, rapidamente se mostrou muito complicado. Como conseguem ver na fotografia, era difícil sequer pisar chão, tal a quantidade de pedras. Todas as subidas e descidas eram feitas numa espécie de escalada por entre o granito. Confesso que é o meu tipo de rocha preferida. Mesmo molhada agarra como se fosse lixa, só é perigoso se estiver com terra por cima. 

Tinha até ontem alguma dificuldade em explicar a alguém o conceito de Sky Running, mas o meu amigo Rui Nascimento, que participou na distancia maior (62km), não podia ter sido mais claro: se tens um monte de calhaus a separar-te do topo de um monte tens duas hipóteses: se estiveres numa prova de trail contorna-los por um estradão ou um trilho, se a prova for de Sky vais direito a eles e passas por cima, pela distancia mais curta até ao cume. Isto é das coisas que mais gosto no Sky, é tudo feito "à mau", uma grande parte das vezes nem sequer há trilho. As próprias marcações ajudavam a isso, distanciadas quanto-baste, quase a convidar a fazermos a nossa própria trajectória, o que nem era difícil já que não havia nenhuma vegetação, só terra preta e granito. Falando em marcações, não posso deixar de dizer que ouvi algumas pessoas a queixarem-se. Sinceramente, nunca me perdi ou tive dúvidas, mas admito que em certas alturas o tal distanciamento e inexistência de trilhos possa ter originado alguns problemas. 


Outra do João. Quase que dá para cheirar a cinza. Reparem que não há trilho
Os primeiros 15km do percursos foram os mais técnicos, com subidas e descidas constantes no meio das pedras. No entanto, as secções tinham comprimento suficiente para não ser o parte-pernas puro, o que me agradou bastante. Fizemos vários quilómetros ao longo do leito de ribeiros no fundo de vales, a fazer lembrar os tais Abutres, subimos por caminhos romanos graníticos, tal como em Arga. Havia água por todo o lado, dentro e fora dos ribeiros. Muita lama e descidas escorregadias. À medida que nos aproximávamos da Serra do Caramulo as encostas ficavam mais expostas e as subidas mais trabalhosas, mesmo como eu gosto. 


Estava a divertir-me muito e, melhor de tudo, sentia-me fresco e cheio de força. Deserto para chegar aos 20km para atacar a maior subida do percurso, com cerca de 600+. Essa chegou depois do segundo abastecimento e foi ainda melhor do que esperava. O Hugo há algum tempo me dizia que eu ia gostar desta subida, que tinha lido os meus relatos e sabia que era do meu agrado. Não se enganou minimamente! Muito variada, nada monótona, todo o tipo de pisos e inclinações, a acabar com uma escalada no meio de gigantes de granito num pico com uma grande proeminência! Ganhei vida nesta subida! Assim que pisei plano desatei a correr como se nada fosse. Aliás, como se não levássemos já 2100+ em apenas 27km! 

Início da subida, numa das raras zonas verdes do percurso
Lá em cima estava o terceiro e muito completo abastecimento. Comi presunto acabadinho de fatiar, uns copos de isotónico e arranquei a comer uma bifana muito boa. Não reparei na canja, que também havia, se não também tinha marchado. À porta do abastecimento estava um segundo controlo de material, desta vez pediram o frontal e apito. Todos paravam e quem estava em falta foi penalizado com tempo!

Ei, não se pode ficar sempre bem nas fotografias...
Os restantes 18km da prova foram um pouco diferentes do que tínhamos encontrado até então. A primeira grande descida, depois de conquistado o ponto mais alto, foi excelente e permitiu rolar a velocidades muito interessantes, sempre no meio de encostas graníticas. Depois mais um pico conquistado e começou a fase mais rolante da prova, quando já íamos com 2500D+ e as pernas começavam a pedir algum descanso. Isto para mim é o ideal, apanhar porrada no início e depois embalar para a meta. Ainda tivemos tempo de ir buscar mais 250+ antes de voltar a entrar em Vouzela com 2750+. A distancia? Bem, aos 40km somámos cerca de 5, perfazendo 45km. Mais de 10% além do anunciado. 

Na chegada.
Adorei a prova. Cada vez gosto mais deste género de percurso. Chamem-lhe Sky Running ou lá o que quiserem, mas gosto. Gosto de provas mais "caseirinhas", nota-se o empenho de todos e o gosto em deixar uma boa impressão em cada um dos atletas. Bons e bem distribuídos abastecimentos, bons trilhos (ou, melhor ainda, falta deles) e critério na escolha do percurso. No fim, algo inédito: toda a gente no balneário se estava a queixar da água! Não, não estava fria, estava quente de mais! O ZUM está de parabéns. Como já disse lá atrás, o único problema para mim foi não terem dito logo que o percurso teria um acréscimo tão grande. Nem tanto pelos 5km, como a parte final da prova foi mais rolante nem se deu por eles, mas para que à partida se saiba o que se tem pela frente.

Quanto à minha prova, dificilmente poderia ter corrido melhor! Penso que, dentro desta distancia média, foi a melhor que alguma vez fiz. Não senti a mínima quebra e diverti-me do primeiro ao ultimo passo. Comi nas horas certas, sem problemas de estômago. Tudo parece ter corrido bem, o que resultou num boost brutal para o MIUT! Terminei os 45km com 2750D+ em 6h30, numa zona da tabela não muito habitual para mim, mas o melhor de tudo foi sentir as reservas muito longe de estarem esgotadas. Que daqui a 3 semanas os astros se voltem a alinhar desta maneira...

Agora, que comece o tapering!!




sexta-feira, 23 de março de 2018

O que precisava.

Aproveitando o feriado municipal e uns dias de férias que tinha do ano passado, fui com a Sara e os miúdos até Miranda do Corvo passar uma semana. A ideia era a do costume, conjugar passeios em família com o vicio aqui do menino. 

Ao contrário de outras vezes que fomos até à Serra da Lousã, desta vez não ficámos na Casinha do México, um alojamento local muito giro em Gondramaz. É uma casa perfeita para ir com mais amigos, mas como éramos só os 4 decidimos ficar no Hotel Parque Serra da Lousã, em Miranda. Fazendo um bocadinho de Pipoca Mais Não Sei Quê, deixem-me que vos diga, para quem viaja com miúdos pequenos, é uma opção espetacular. Dois parques infantis exteriores e um interior, piscina e SPA interior, quartos perfeitamente espaçosos (ficámos num duplo com cama extra e um berço, completamente à vontade), um parque biológico com animais mesmo ao lado e, cereja no topo do bolo, o percurso dos Abutres passa literalmente à porta do Hotel!

Cascata da Sra. da Piedade de Tábuas (vulgo Cascata dos Abutres). Abismal.
O planeado foi cumprido, e consegui treinar 4 vezes. Saída sempre à primeira luz, pouco depois das 6 da manhã, e duração do treino entre as 3 e as 4 horas, de maneira a estar no hotel a horas do pequeno almoço, claro. A Serra estava perfeita. Depois de semanas de Inverno tivemos a sorte de apanhar 4 dias de Primavera. Todos os ribeiros estavam cheios, havia água por todo o lado, mas nenhum transbordava. Tudo na medida certa! Ainda tentei arranjar companhia (e guia) no Facebook, mas não consegui, e também não houve grande problema. Nada que um bom relógio e uns tracks não resolvam. Na verdade, adoro andar lá sozinho! Eu sei, é perigoso, bem que me lembrei disso quando dei uma cacetada com o joelho numa pedra que até vi estrelas, enfiado no trilho entre Gondramaz e Espinho. Felizmente foi só chapa. 

Trilho por cima de Gondramaz
Acabei por fazer 3 treinos em trilhos dos Abutres e um a partir da Lousã, em que cumpri o percurso do quilómetro vertical LOUZAN1000, que sobe 1000+ em 8km, até ao Alto do Trevim. No total foram 80km e mais de 4000+. Números nada maus para mim, mas por incrível que pareça, apesar de treinar todos os dias cerca de 20km, nunca me senti cansado. Nada como fazer aquilo que gostamos... Partilhei algumas fotos e video no meu Instagram e comentários sobre os percursos no meu Strava. Passem por lá!

Serra da Estrela Vista do Alto do Trevim!
Cascata no inicio do Penedo dos Corvos.
Este ano começou terrível para mim. Para que percebam, no primeiro mês e meio do ano tive 3 acidentes com carros do trabalho e o nosso particular teve uma avaria bastante grande. Foram semanas terríveis, naturalmente de muito stress no trabalho mas também em casa, já que entrámos em despesas para as quais não estávamos preparados. A maré estava de tal maneira má que cheguei ao ponto de ir levantar dinheiro ao multibanco e a máquina não me entregar as notas todas (sim, pode mesmo acontecer!). Eu não sou religioso, nem tão pouco supersticioso, mas andava desanimado ao ponto de considerar o conselho que recebi dezenas de vezes: Filipe, tu precisas de ir à bruxa!

Afinal não. Afinal, e escrevo isto uma hora depois de chegarmos a casa, o que precisava era de ir à Serra. Precisava de ver a cascata da Sra. da Piedade e parar lá uns segundos das 3 vezes que lá passei. Precisava de fazer a descida para Gondramaz. Precisava de ver aquele grupo enorme de veados perto do Trevim. Precisava de sentir os músculos no limite enquanto subia o Penedo dos Corvos agarrado a uma corrente. Precisava de ver a minha filha, orgulhosa, a mostrar os mergulhos na piscina do hotel. Precisava de sentir o meu filho ao colo a apertar-me quando estivemos a dois metros de um urso no parque biológico. Precisava de ver a Sara feliz, coisa que na verdade está 99% das vezes, eu é que sou um gajo muito cinzento quando as coisas me correm mal. Precisava disso tudo para perceber que no fundo sou um gajo com sorte. Com sorte daqueles 3 acidentes terem sido só chapa, de ter uma família saudável e feliz, de ter feito tão bons amigos ao longo da vida, de ter um trabalho que nos permite fazer estas férias, de não ter nenhum impedimento fisico que não me deixe aproveitar tudo o que a natureza nos DÁ. Sinto que as coisas estão a mudar, a maré negra ficou para trás. Afinal de contas, estamos quase no fim de Março e ainda não tive nenhum acidente! :)


Com o Manel no Castelo da Lousã
Anda cá pá!

A cabeça dele não é assim tão grande.
 

Parque infantil interior do Hotel


Meti a Sara a fazer sozinha o trilho até à Cascata da Sra. da Piedade. Só caiu 2 vezes!

Reforço muscular.
Depois de lá passar nos Abutres decidimos ir visitar. Confirmo. Aquilo não tem jeito nenhum (Templo Ecuménico)
No parque biológico.

Linces, lobos, ursos, veados, gamos.. Muito engraçado o parque.
Quarto

Piscina 

Hotel Parque


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Terras de Sicó (52km) - Estava tudo a correr tão bem, até que...

Há 3 anos fiz a minha estreia nos 3 dígitos na prova de Sicó. Uma aventura sofrida, tirada a ferros, mas que vista à distancia até correu bastante bem. Este ano decidi voltar, mas para os 52km do Ultra Trail, os dois meses para o MIUT desaconselhavam uma empreitada de 111km nesta altura. Engraçado que tinha ficado com uma ideia completamente diferente da prova. Pensava eu que pela saturação natural de uma prova tão grande, mas também por naquele dia ter estado nevoeiro praticamente o tempo todo, mas entretanto fui sobrepor os dois tracks e vi que nos 52km só há cerca de 15km em comum, precisamente os que achei mais interessantes na altura. Foi então uma completa e muito agradável surpresa os 52km do Ultra Trail Terras de Sicó!

O Vasco e eu, únicos atletas do GDP nos 52km. Tivemos mais 4 nos 111 e outros 4 nos 25 e 15km!
O que não era novidade apenas para mim era o facto deste ano a prova ser linear. Ou seja, não acaba onde começa. Gosto deste tipo de provas, parece que o ganhar terreno tem mais significado, ao contrário de dar uma grande volta para regressar à casa de partida. Tal como acontece no MIUT há alguns anos, a prova de 52km parte paralela aos 111, apenas para fazer cerca de 3km até entrar no mesmo percurso. Isto é interessante porque vamos desde logo a passar por atletas da prova grande, já com muitas horas e km nas pernas. É estranho estar deste lado da barricada, normalmente sou eu na grande. Sei por experiência própria que é preciso ter alguma sensibilidade na interação com estes atletas, já vão muito saturados e nem sempre estão para aturar as crianças que começaram a correr há meia hora e vão com a pica toda, mas tentei não atrapalhar e dar uma palavra de incentivo a cada um que cruzei.

Pórtico da meta. E começa a contribuição do grande Miguel Cadalso (MC)
A deslocação para o ponto de partida era feita em autocarros. Não correu muito bem, a partida atrasou meia hora, mas, a meu ver, não veio daí mal nenhum ao mundo. Perfeitamente compreensível que as coisas não estejam oleadas, sendo este o primeiro ano em que se fez isto.

Bom, dada a partida às 10, lá seguimos por um estradão com cerca de 3km que nos levou mesmo até ao sopé do Monte Sicó. A subida, relativamente curta apesar de ser a mais comprida do percurso, com cerca de 250+, levou-nos até ao ponto mais alto da Serra, aos 550m. Lembrava-me da subida há 3 anos, por estradão e uma rampa muito inclinada, mas este ano foi completamente diferente. A entrada no percurso principal coincidiu com a entrada num trilho muito bom que nos levou de pedra em pedra em single track até lá acima. Excelente trilho!

A chegar ao topo
Já nas antenas preparei-me para o estradão meloso que conhecia mas, surpresa, ligamos imediatamente a um trilho espetacular que nos embalou por quase 4km de descida que, sinceramente, se não houvesse mais nada até ao fim, teria valido por completo a inscrição na prova! Isto pode ser ainda a adrenalina a falar, mas foi de certeza das melhores descidas que já fiz! No fim desta, sempre em trilho, chegamos ao primeiro abastecimento de onde entro e saio a correr, sem sequer olhar para a comida, tal o entusiasmo. Entramos numa zona de sobe e desce, sempre em trilho, com descidas muito rolantes mas ao mesmo tempo desafiantes que nos levaram até ao já meu conhecido Canhão de Poios, o meu segmento preferido da prova de há 3 anos.

A meio da tal descida.
Nesta altura o ritmo era alto, nem tinha tempo para absorver, estava a divertir-me como tudo e acho que devo ter repetido "espetacular" em voz alta umas 20 vezes! O Canhão mais uma vez não desiludiu. Um vale muito apertado, percorrido sempre em single com muito calcário, até que apanhámos uma parede que nos mandou dali pra fora. Voltei a não comer no abastecimento, não estava a sentir-me bem da barriga e não tive vontade de estar ali a escolher.

Vale do Canhão de Poios (MC)
O segmento seguinte, que nos levaria até ao terceiro abastecimento em Tapeus, teria cerca de 10km. Foi quando apanhámos os primeiros grandes estradões que na minha cabeça caracterizavam a prova. Até então vinha num ritmo muito alto (para mim, obviamente) e tive consciência que teria que abrandar um pouco. Souberam bem os km de estradão praticamente plano feitos a um passo estável. O que nunca senti, desde o inicio, foi conforto. Tal como em Poiares sofri bastante com cólicas e desconforto intestinal, coisa que raramente me acontecia. Muito provavelmente fruto de algumas alterações na dieta que tenho experimentado e que terei que reverter, nomeadamente o que tenho comido antes das provas e treinos.

A descida antes de Tapeus. Excelente trilho, mais um! (MC)

Estradões do Sicó (MC)

Chegado ao abastecimento de Tapeus obriguei-me a parar e comer, apesar de não ter vontade nenhuma. Quanto aos abastecimentos do Sicó… bem, acho que nesta altura do campeonato já nem vale a pena falar deles. São mais conhecidos que a lama dos Abutres, uma espécie de símbolo do trail nacional. Enfardei umas fatias grossas de presunto, que quase me fizeram vomitar, e fiz-me ao caminho.

O regresso aos trilhos foi na zona das Buracas de Casmilo, que também conhecia. Um trilho muito bom, com muita pedra e difícil quanto-baste. Ao contrário de 2015, desta vez passei lá com pernas e consegui apreciar muito mais o caminho. Mais um excelente trilho.

(MC)

(MC)

As Buracas! (MC)
No abastecimento, em Casmilo, voltei a forçar comer. Meia bifana, que fui ruminando enquanto subia o estradão logo a seguir. O caminho até ao ultimo abastecimento, em Zambujal, era de apenas 7km, mas foi cumprido de forma muito sôfrega. Já cheirava a meta, mas não me conseguia livrar do desconforto e sentia-me fraco. No entanto continuei em passo aceitável, quase sempre a trote, até ao abastecimento. O caminho voltou a levar-nos a alguns trilhos muito bons, desta vez na Serra de Janeanes, e acabou numa descida feita a bom ritmo, deixando antever uma boa recta final, que se anunciava de 11km até Condeixa.

Sentei-me e logo o Simões, d'O Mundo da Corrida, se meteu comigo. Ofereceu-me sopa, que aceitei de imediato. Normalmente, quando estou mal da barriga a sopa é das únicas coisas que caem sempre bem porque não empapa, vi ali uma esperança para acabar bem a prova. Esperava uma canja ou um caldo mais salgado, quando ele me apresenta um prato de Sopa da Pedra! Claro que não me fiz rogado, comi tudo e até me soube muito bem! O pior foi quando me levantei e tinha um tijolo na barriga. Enfim, faltam 11km, é ir ao fundo arrancá-los que a Sara e os miúdos estão na meta à minha espera.

A descer a Serra de Janeanes (MC)
O segmento final começava com 2 ou 3km planos, que a bem ou a mal fui papando num trote vagaroso, até que chegámos a um monte para transpor. Eram apenas cerca de 200 metros de subida, num estradão muito inclinado, mas foi nesta altura que saiu de uma moita um senhor pouco simpático e me deu uma marretada valente. Debrucei-me logo, agarrei-me aos joelhos a respirar sofregamente e dei o mote para o resto da prova. O modo sobrevivência estava ligado.


O Miguel Cadalso pelos vistos também ficou surpreendido com o estradão :)
Já há muito tempo que não passava tão mal numa prova. A subida daquele montezito foi um sacrifício. A seguir, quando o viro, mal consigo dar 3 passos a descer sem ter que parar um pouco para recuperar o fôlego. Não consigo sequer beber água e estou constantemente com o vómito na boca, até que passo pela placa do Trilho da Cascata. Lembrava-me dele, principalmente de como sofri para o transpor, tudo indicava que este ano seria diferente, mas não. Foi terrível. O trilho não, esse é fantástico, mesmo muito bom! Mas eu estava num estado deplorável. Já não me lembro da ultima vez que me sentei num trilho, naquele segmento foram umas 4 ou 5. Arrastei-me por ali até que finalmente uma pequena parede, que tive que escalar a 3 ou 4 tempos, nos tira do buraco e desemboca nas ruínas de Conimbriga.

(MC)

Mais Cascata (MC)

Ainda mais Cascata (MC)
Daí foram 2km de estrada que nos levaram de volta a Condeixa. Como sempre, o cheiro a meta faz milagres e consigo correr praticamente o caminho todo. Lá estavam a Sara e os miúdos, que me acompanharam na chegada!


Chegada a 3!
Demorei 6h55, o que não foi mau. Mas pior foi a quebra brutal nos últimos quilómetros. Costumo dizer que as ultras têm três pilares, todos igualmente importantes: a preparação física, a gestão mental e, não menos importante, a hidratação e alimentação. Tanto no Sicó como em Poiares falhei nesta parte, fundamentalmente porque nunca me senti confortável e não consegui comer. Durante meses consegui acertar com este vector e raramente tinha quebras tão grandes, mas não cumprindo, quando a caldeira esvazia completamente, não há preparação física nem força mental que nos façam correr. Bate-se no muro com toda a força. Se a prova for grande o suficiente podemos relaxar, parar um pouco e lentamente tentar voltar a comer e beber. Em provas "curtas" como esta ou Poiares não há grandes hipóteses.

Pack que foi entregue com o dorsal e a camisola de Finalista. Muito bom! (Miguel Cadalso, claro. Nem uma foto destas eu sou capaz de tirar, uma tristeza.)
Quanto à prova, foi uma muito agradável surpresa. A ideia que tinha estava completamente errada, também porque houve muito trilho novo. Nunca tive a impressão de estar a encher chouriço e raramente houve momentos de parte-pernas puro. Trilhos sempre corríveis e muito divertidos, zonas técnicas QB e um desnível respeitável para 52km (2000+). As marcações estavam impecáveis, os abastecimentos sem comentários e o ambiente é o já muito conhecido ambiente do Sicó, excelente. No fim um banho quente e lá me arrastei até uma esplanada ao lado da meta para, em conjunto com o pessoal da equipa, ver a malta dos 111km a chegar. Um dia muito bem passado em Terras de Sicó!




segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Trail de Poiares (35km) - Entrar e sair de buracos

Em todos os artigos que faço sobre as provas que participo tento fazer uma descrição factual do percurso, organização, etc, e depois um relato da minha própria prova. Não participo em muitas, tenho escolhido cada vez mais e aponto quase sempre para aquelas que à partida são a meu gosto. Este domingo corri pela primeira vez numa prova do campeonato nacional de trail. É raro fazer provas tão curtas, porque na verdade prefiro as ultra distâncias, mas ouvi falar muito bem do Trail de Poiares e como o fim e semana era conveniente juntei-me aos muitos colegas de equipa e fui até Vila Nova de Poiares. Quero com isto dizer que neste post é muito importante separar aquilo que pessoalmente achei da prova e percurso das considerações que faço da organização. 

Atletas do GDP presentes na prova longa, 35km. BTW, acabámos em 13º de 31 equipas numa prova do campeonato! Naturalmente ajudados pela nossa estrela João Lopes, 19º da geral e 2º sub 23.
Primeiro, vamos ao factos.

A organização do Trail de Poiares fez um excelente trabalho. Para quem não conhece a zona, a prova desenrola-se muito perto da Serra da Lousã, mas apesar do terreno ser muito parecido com o que se encontra na Serra, andamos em muito pouca altitude. O ponto mais alto anda pelos 300 metros. No entanto, o desnível foi de 1700+ em 34km, o chamado desnível parte pernas. 

A subida maior tinha cerca de 150+
Esta é daquelas organizações que arregaçam as mangas. É impressionante a quantidade de trilhos abertos, num percurso que será à volta de 90% em single track. Impressionante também foi a quantidade de bombeiros presentes no, às vezes, muito técnico e propenso a quedas, percurso. Provavelmente a prova onde vi mais bombeiros. Os 4 abastecimentos para 34km são suficientes e bem distribuídos, haviam voluntários em todas as travessias de estrada e as marcações estavam perfeitas, não deixando a menor margem de dúvida. A logística de levantamento de dorsais está bem oleada e a estrutura de apoio na meta é impressionante. Não posso falar do almoço servido, mas já me disseram que estava muito bom e sem tempo de espera. O kit entregue com o dorsal era excelente, com uma tshirt da 42k, uma pala preta e um par de luvas que me vai dar um jeitão! No final deixou de haver água quente no local destinado inicialmente ao banhos mas rapidamente a organização montou um sistema muito eficaz e rápido para transportar os atletas para um novo local onde, aí sim, a água estava muito quente. 

Kit entregue. O dorsal é do Miguel Cadalso (MC), o inevitável fotografo do blog :) São dele todas as fotografias que vão ver de seguida.
Estes são os factos. Os factos dizem que foi uma prova impecável, sem falhas, e foi mesmo! Mas este é um blog pessoal e, como tal, agora vou deixar a minha impressão pessoal do Trail de Poiares.

Ainda vi o Miguel antes da partida! Foto, claro, do MC.
Não precisava de muito mais, além do do perfil, para perceber que esta não era uma prova a meu gosto. No entanto, há provas com perfis parecidos, como por exemplo o Grande Trail das Lavadeiras, que acabo por gostar bastante e onde se consegue correr muito rápido. Depois de ouvir muitos elogios por parte dos meus colegas de equipa decidi arriscar. Infelizmente, há muito que não acabava uma prova tão saturado. Mas vamos por partes.

Como expliquei lá atrás, as limitações de altitude associadas a um terreno parecido com o que se encontra na Serra da Lousã, ou seja, encostas muito inclinadas, mato muito cerrado, algum xisto e pedra e várias travessias de ribeiros, formavam um conjunto de factores que não deixava grandes hipóteses à organização a não ser inventar, e muito, para chegar ao desnível anunciado. O resultado foi um percurso por vezes muito técnico, com dezenas de encostas super inclinadas ora a subir agarrado às árvores ora a descer de rabo. Passámos por cima e por baixo de dezenas de troncos, numa constante solicitação de todo o género de músculos. 

MC
MC
Nunca utilizei tanto as mãos numa prova. Também nunca caí tantas vezes. Foram raros os momentos a direito e muito frequentes as descidas em que não se podia pensar em muito mais além de não cair. Não demorou muito até ter a impressão que não estava a sair do mesmo sítio. Subíamos sofregamente uma encosta apenas para uns metros depois voltar a enfiar-nos no meio das árvores para descer novamente a mesma encosta e voltar ao rio uns metros abaixo.

Sobe. MC
E desce. MC
Os trilhos, muitos claramente abertos com muito esforço e de propósito para a prova, por vezes pareciam não fazer muito sentido. Andávamos muitas vezes de lado nas encostas, a serpentear por troncos e mais troncos, agarrados a cordas, pedras e raízes. As descidas e subidas curtas eram uma constante, uma autentica máquina de lavar roupa ligada na centrifugação. 

MC
MC
MC
O dia estava feio. Nunca choveu, mas esteve sempre a chuviscar. Muita humidade e a temperatura não muito baixa. Como andávamos sempre embrenhados nas árvores corria muito pouco vento, isso tudo associado ao tipo de percurso formava condições perfeitas para as malditas cãibras, não sei se algum dos 300 e tal conseguiu escapar imune a elas! 

Foi uma prova muito dura. Surpreendentemente dura! Pelo percurso e pelo tempo, obviamente alheio à organização. Sofri muito mais do que esperava e, na verdade, vi-me à rasca para terminar! Acabei os últimos quilómetros saturado, farto de ali andar. Comecei a perder a concentração e caí algumas vezes, uma ou duas até foram quedas feias. Parecia que fazia a mesma descida e a mesma subida repetidamente, a certa altura fiquei com a sensação que passei o percurso inteiro a entrar e a sair de buracos!

A entrar no buraco. MC
Acabei com algumas mazelas e demorei 4h42 para cumprir os 34km. Mesmo assim fui 130º de cerca de 300 que começaram, o que mostra bem a dureza da prova. 

O prémio finisher era um íman para o frigorífico. Eu gostei!
Não gostei do percurso. É a minha opinião, não quer dizer que seja um mau percurso. Aliás, ouvi muita gente no fim maravilhada com o que tinha vivido. Ainda bem que é assim e que há provas para todos os gostos, esta simplesmente não era para mim. 

Agora é altura de lamber feridas e preparar a próxima, que ainda não sei qual vai ser. O que sei é que o MIUT está quase aí, só faltam 2 meses e meio!