As minhas corridas na estrada

domingo, 16 de agosto de 2020

Distrito de Santarém - Pico Aire (679m)

Quando fiz a lista dos cumes correspondentes a cada distrito reparei que a grande maioria até já tinha subido. Haviam dois mais óbvios: Lisboa (Montejunto) e Santarém (Aire). De facto, acho que já subi mais de 100 vezes cada um deles! Pensei se faria sentido incluí-los na minha lista, afinal quase todas as semanas lá vou, por outro lado o que não faria mesmo sentido era retirar deste projecto as duas serras que mais me dizem em Portugal! Decidi avançar, mas com uma condição: o treino teria que ser guiado por alguém que tivesse lá ido ainda mais vezes que eu. 

O Vale Garcia. Fotografia tirada num outro treino

A escolha para o distrito de Santarém, o meu distrito, era mais que óbvia. Com certeza absoluta a pessoa em Portugal que pode afirmar com mais propriedade que aquela é a sua Serra. Mostrou-a aos amigos, à família e a milhares de pessoas, através da organização do Trail do Almonda, que vai para a 11ª edição. Um dos mais antigos e respeitados ultra-maratonistas em Portugal! Pois claro: o Aníbal Godinho!

Eu sei que a malta lá atrás está desfocada, mas eu também queria era mostrar o Aníbal!

O encontro com o Aníbal estava marcado para as 8 de Domingo. À hora certa lá estava com o João Miguel, meu companheiro de Almeirim em tantas dessas dezenas de incursões a Aire, para nos juntarmos a um grupo muito porreiro de malta da equipa Caracol Trail Running e outros amigos, como o ilustre Hugo Água e o Rui Lopes, que vieram de Coruche. Como sempre acontece nestes treinos em grupo (pelo menos a mim, que não o faço com muita frequência) os normais constrangimentos de meter conversa com pessoas com quem não convivemos habitualmente desaparece no preciso momento em que se inicia o cronómetro. De repente éramos todos amigos de longa data, irmãos de armas a contar histórias de batalhas passadas! 

Com o grande Henrique Dias.

Apesar da Serra d'Aire, pertencente ao Parque Natural das Serra d'Aire e Candeeiros (para quem não conhece, quando se vai na A1 para Norte, Aire é a serra que fica do vosso lado direito), estar a menos de 45 minutos da minha casa, confesso que até há coisa de dois não ia lá assim tantas vezes. Descobri Montejunto mais cedo, há 5 ou 6 anos, e fiz o erro de me acomodar lá. Mas Aire lá estava, proeminente, visível a quilómetros de distância em qualquer sitio da nossa Lezíria. Sabia que mais cedo ou mais tarde ficaria intimo dela.

Primeiro foi o Fojo, um trilho pelo qual me apaixonei. Subi-o e desci-o dezenas de vezes, numa espécie de introdução a Aire. Lentamente fui juntando trilhos, imaginando ligações, pesquisando dezenas de treinos do Aníbal e outros habituais e através de muito corte e cola de tracks fui entrando na Serra. Agora já temos uma relação. Imagino percursos e sei por onde ir se quiser alguma coisa mais rolante ou meter mais desnível. Conheço os trilhos mais bonitos e vistosos e as pedras mais desconfortáveis. Os pontos de água e os diferentes pontos de encontro.

Foto do Fojo, numa madrugada destas.

Começámos por subir um dos meus velhos conhecidos: o trilho dos medronheiros, que liga com o Fojo para formar o meio km vertical de Aire. Um trilho muito inclinado, difícil, no meio de árvores, silvas e medronheiros. A ligação foi feita ao muito recente Trilhos dos Escuteiros, talvez o mais percorrido da serra nos últimos meses e um dos meus preferidos. 3km de subida muito variada, com patamares, muita pedra, zigue-zague e entrada e saída de bosques. Talvez o trilho mais desafiante da serra! A ligação ao parque de merendas, na face norte da serra, foi feita por um muito massacrante estradão coberto de brita de calcário, mas este é daqueles que vale a pena porque dá acesso a um dos melhor caminhos da serra, o trilho que faz o planalto inteiro, subindo ligeiramente até às antenas e ao Pico Aire. Inclinação pequena, muitas curvas e contra-curvas, uma maravilha para fazer toda a trote quase sem esforço! Lá em cima picámos o ponto no marco do Pico, ponto mais alto do distrito de Santarém com 679m e finalmente descemos pelo meu primeiro amor nesta serra: o Fojo. 

Foram 22km com 1000D+. Andámos a bom ritmo, foi um bom treino! 

679 metros. Pico Aire

Mas... sabem que mais? Isso não interessa nadinha! 

Como já expliquei no post do Marão, este "projecto" é muito mais do que treinar e subir aos marcos geodésicos. O que eu queria mesmo era ouvir as historias sem fim do Aníbal, conhecedor em primeira pessoa de tudo o que é corrida fora de estrada em Portugal, conversar com o Henrique sobre treino, trabalho e tudo e mais alguma coisa, ficar a conhecer a campeã Tetyana, falar com ela sobre o seu filho campeão de natação. Encontrar o Carlos, com quem tinha partilhado uns km o ano passado no Almonda, e o Ricardo. Rir com o Hugo enquanto as conversas fluíam já no Centro Escolar do Pedrogão, onde comemos um delicioso bolo de cenoura feito pela mãe do Henrique. Queria mesmo era ver o olhar orgulhoso do Aníbal e companhia, enquanto lhes explicava quais eram os meus trilhos preferidos da serra. É claro que conhecia o percurso. Conhecia-o de trás para a frente! Mas fazê-lo com o Aníbal foi impagável e precisamente o que eu quero que isto seja.


Mas é claro que não podia ficar por aqui. Depois de um banho tomado nos balneários do centro escolar, seguimos para casa do Aníbal para almoçar! Basicamente fomos do quintal dele para casa dele, faz sentido. Lá se juntaram os filhos do Aníbal, o grande Tiago Godinho, que de certeza conhecem, e a simpática Joana, que deviam conhecer. A Maria do Rosário, mulher dele, os vizinhos do lado (literalmente), a Sara, o Hugo, o João Miguel.... Mais de 3 horas de almoço, entre amigos e família. A conversa era infinita, por entre km e km de trilhos e provas, risos e histórias intermináveis. Impossível pedir mais: correr em casa e sentir-me em casa. Entre amigos. 

O distrito de Santarém está riscado da lista, mas algo me diz que as visitas a Aire vão continuar por muito e bom tempo. 

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Xfun Race - 3 em 1 na Serra da Arada

Sou fã da malta do Spotcriativo Eventos. A primeira prova que fiz deles foi a Zela, logo na primeira edição, desde então já corri duas vezes no Pisão e outra na Arada Night Race. Têm sabido criar provas com uma identidade muito própria, principalmente aquelas que acontecem na magnifica Serra da Arada, cujas encostas exploram a fundo, não se limitando a aproveitar os muitos trilhos existentes. Para este ano tinham grandes planos, como uma prova de etapas a acontecer em Junho, mas claro que isso foi tudo ao ar. Como compensação souberam adaptar-se à nova realidade e criaram alguns desafios muito interessantes. Primeiro uma corrida vertical no Caramulo (palco da Zela) e agora a XFun Race, na Arada, onde participei no fim de semana passado (continua activo até dia 15 de Agosto).

Ah, até me estava a esquecer de outro atrativo das provas do Spotcriativo: a probabilidade de ficarem com uma fotografia tirada pelo Fritz é muito grande!

O desafio consiste em dois percursos a rondar os 12km e 1000+. Dentro de cada um exista uma subida mítica da Arada. A primeira é a subida do Fujaco (todas as distâncias do Pisão lá passam) e a segunda a subida da aldeia da Pena, que inclui o Trilho do Morto que Matou o Vivo e o Monstro da Pena. Daqui resultavam 4 classificações: uma para cada percurso completo e uma para cada subida. A orientação é feita pelo track, não há marcações, e o tempo para a classificação é retirado de segmentos do Strava. Simples. Bora lá.

Eu disse que valia a pena pelas fotos!

Percurso do Fujaco - 13km, 1080D+

Às 6 da manhã já estava ao pé das eólicas, nos 1000m, com o João Tomás (devem lembrar-se dele de aventuras como a travessia do Parque da Serra d'Aire e Candeeiros e da de Arganil - Manteigas). Tínhamos dormido a noite anterior na Pousada da Juventude de São Pedro do Sul e saímos às 5:30 para começarmos a correr ao nascer do dia. Já lá estava o grande Samuel, aka FRITZ, fotografo por excelência da Arada mas sobretudo um gajo super porreiro. O sol ainda demoraria uma boa meia hora a nascer, por isso aproveitamos para conversar um bocado com o Fritz enquanto tomávamos o pequeno almoço trazido numa box da Pousada (excelente opção para pernoitar quando se quer treinar na Arada, Freita ou Caramulo!). Entretanto juntou-se o Sérgio, mentor do Spotcriativo, e às 6:40, minutos depois do nascer do sol, lá partimos.

Já conhecia praticamente todo o percurso do Fujaco das participações no Pisão. Começámos mesmo em cima de um dedo da Garra, num trilho espetacular e técnico (como foram todos) que nos afundaria bem até ao fundo do vale, aos pés de Gourim. Há uns meses passei ali com água pelo meio do peito, desta vez mal molhei os pés. 


A descer a garra. Aquela estrada a serpentear foi onde o Tiago Ferreira bateu o record de subida em 24h de BTT, lembram-se? Foto do Fritz.

É claro que perdi logo o João de vista (só para verem o nível, está no pódio das 4 classificações), mas isso não me impediu de descer a fundo, como já não fazia há meses! Quando comecei a muito inclinada subida já ia ofegante e com as pulsações bem lá em cima. Que saudades! Mãos nos joelhos, dobrado para a frente e toca a içar-me pelos trilhos xistosos. Mesmo sem abrandar ainda saquei do telemovel para tirar uma foto à Garra antes de começar a descer. 

Fritz, desculpa meter uma foto minha aqui no meio das tuas!

O modo era totalmente de prova. E prova rápida! Por isso, por cima de Gourim, dei só uma espreitadela ao relógio para saber a direção e lancei-me num trote esforçado para vencer os últimos metros de desnível positivo antes de começar a descer pelo estradão do Fujaco. Aí, mais uma vez, foi abrir a passada e martelar todos os músculos das pernas que passaram os últimos meses a folgar! 

Restava agora a demolidora subida do Fujaco. Mais ou menos 4.5km e 700+, com o desnível concentrado quase todo nos primeiros 2km. Não é uma subida muito técnica, o chão é em xisto solto e dá para meter uma passada constante, mas ao facto de ser muito longa e inclinada juntou-se um dia muito quente, mesmo àquela hora da manhã! 

Acham que ia em esforço? Foto do Fritz. Viemos lá do fundo, do Fujaco.

Pulsações no red line, completamente encharcado, pernas a arder e à beira do colapso, respiração ofegante e muito sonora. Caraças, como eu sentia falta disto! Baixei a cabeça, cerrei os punhos e meti um trote muito esforçado sempre que conseguia. Lá em cima já se viam as antenas onde estava a meta, o desnível era pouco acentuado nos últimos 2km, o que "obrigava" a abrir a passada e subir mais depressa. 

Foto do Fritz

Foram quase duas horas (1h54) para completar o percurso. Quase 2 horas de muito esforço em que não deixei nada no depósito! ...espera, não deixei nada? Pois, isso vai ser um problema, porque dali a uns minutos ia ter um encontro com um Monstro...

Link para o Strava do Percurso do Fujaco

Percurso da Pena - 11km, 1000+

Chegamos ao fim do Fujaco, trincámos qualquer coisa, e arrancámos de carro para o São Macário, onde iniciava o percurso da Pena. Foram cerca de 15 minutos de viagem. Já tinha avisado o João sobre o Monstro da Pena, podem ler sobre isso aqui, naquela que foi certamente das maiores aventuras da minha vida. Mais uma vez, conhecia mais ou menos todo o percurso, sabia que, ao contrario do Fujaco que tinha aqueles km de estradão a descer, todos os metros deste 11km seriam desafiantes. O que não esperava era ser de tal maneira triturado como fui!

Desculpem a imodéstia, mas acho que esta é a minha melhor foto de sempre! Pelo Fritz

Mal arrancámos percebi que tinha deixado um bocado das pernas no Fujaco. Normal, dei tudo e isso é coisa que não fazia há algum tempo. Desta vez nem tentei acompanhar o João, antes decidi fazer a muito dificil descida inicial resguardado para ter pernas para o Monstro. Foi a descida mais técnica que apanhámos, muito desafiante. Pedras e socalcos por todo o lado, usei mãos e rabo para conseguir descer, sempre em esforço, concentração máxima. Tricotámos uma crista vertiginosa e avançámos para o precipício que nos levaria até ao fundo do vale. 

Logo no início começaram as dificuldades. Foto do Fritz.

O litro de água que levava depressa se esgotou e a meio do percurso percebi que isso ia ser problemático. O dia estava muito quente e abafado. Não me estava a sentir nada solto, mesmo quando era a descer fácil, por isso desliguei um pouco o modo prova e liguei o modo sobrevivência, o meu amigo das ultras. Bebi água diretamente de ribeiros e enchi os flasks sempre que podia, enquanto subia o incrível trilho do Morto que Matou o Vivo, que me levaria até à aldeia da Pena.

Esta é minha, a meio do Morto que Matou o Vivo. 

Para quem não sabe, este trilho tem esse nome porque, reza a lenda, estavam a transportar um caixão da Pena para Covas do Rio quando o deixaram cair em cima de um homem que morreu. Não sei se é verdade, o que me lembro sempre deste trilho é das impressionantes escarpas verticais que o ladeiam, formando uma garganta muito apertada. Só para verem a imponência, o relógio perdeu várias vezes o sinal de GPS durante a subida!

Chegado à aldeia da Pena voltei a encher os flasks, terceira vez neste curto percurso, e preparei-me para enfrentar o Monstro da Pena, parte final da subida. Não o vou conseguir descrever tão bem como naquele artigo que fiz referência lá atrás sobre a minha participação nos 65km do Pisão, porque, na verdade, o impacto foi bastante maior na altura. Mas adorei revisitar os blocos enormes, subidos a força de braços, as cristas proeminentes e os caminhos impossíveis da verdadeira loucura sky running que é este troço da subida. 

Já com pernas a latejar, constantemente a dar sinal de câimbras, o Monstro literalmente cuspiu-me aos pés do São Macário. Desta vez já nem consegui trotar nos últimos metros, tudo o que tinha ficou naquela subida.

Foi aqui que me libertei do Monstro. Mais uma grande foto do Fritz.

Mais um vez foram duas horas para completar este percurso. Este muito mais técnico e desafiante que o primeiro. Fazê-los de seguida é claro que não foi a melhor das ideias, mas para quem não é de perto parece-me mesmo assim uma boa opção. Se optaram por os fazer de seguida, aconselho muito a começarem pelo Fujaco, fiz a subida às 8 da manhã e o calor era insuportável, não quero imaginar às 11 ou meio dia! 

Link do strava para o percurso da Pena.

Bem, dizia eu que fazê-los de seguida não foi a melhor das ideias. Então o que se faz depois de acabar os dois? Pois claro, vamos ao terceiro!

Percurso dos Incas - 11km, 720D+

O nosso bonus track estava fora da Xfun Race. O Sérgio arranjou-me um percurso para passar pelo incrível trilho dos Incas, que o João não conhecia. Eu já tinha feito uma parte na UTSF e outra no Pisão, mas nunca tudo seguido. Pois bem, estava decidido!

Começámos nada mais nada menos que ao meio dia e meia. Yep. Já tinha perdido e bebido litros de água e estava completamente derretido. Tinha tudo para correr bem.

Arrancámos no parque de campismo do Retiro da Fraguinha e, agora mais descontraídos e sempre juntos, fomos papando a descida bastante difícil até à aldeia do Candal. Aos 4km, quando lá chegámos ao Candal, já implorava por uma bica de água, quando encontrámos um pequeno tanque. Milagre. Mas o melhor foi mesmo o oásis por onde passámos antes da Póvoa das Leiras:

Aqui não parece, mas ali no meio dava para mergulhar. Nem pensámos duas vezes!

Notei logo no início da subida que a coisa não estava fácil. Não conseguia subir confortável de maneira nenhuma. Mãos nos joelhos, mãos na cintura, mãos atrás das costas, suspiros pelos bastões.... Enfim, quando não há pernas tudo atrapalha. O calor estava a tornar-se insuportável já na parte de baixo do vale, tínhamos constantemente 5 ou 6 moscas a chatearem-nos e a pousar na pele pegajosa do suor. Mas o pior, o inferno, chegou depois da Póvoa das Leiras, quando saímos da sombra das árvores.

O Trilho dos Incas.

A imponência deste trilho é inacreditável. Quando lá passei a primeira vez, na UTSF, lembrei-me muitas vezes da travessia entre os picos do MIUT. Mais uma vez, é impossível uma fotografia de telemóvel fazer jus ao que vimos ali. 

O trilho é numa encosta totalmente exposta ao sol mas protegida do vento. O piso é todo ele em lajes de xisto e quartzo, brilhantes, que refletem a luz solar e conservam o calor. A sensação era literalmente a de estar dentro de um forno, calor por cima e por baixo. Estava completamente encharcado em suor e tentava racionar a água, sabia que agora já só teria no final. Voltei a ter aquela sensação de ter que lutar por cada passo, também ela afastada há meses. A certa altura tive que me sentar numa pedra e foi como se tivessem aumentado a temperatura do forno! Levantei-me logo e batalhei pelos metros finais, que teimavam em aparecer.

Virado o colo, já perto dos 1100m, restavam dois km de estradão até ao parque de campismo, cumpridos em enorme esforço e clara falência física. Ufa!

No total foram cerca de 35km e 2800D+. Três percursos muito desafiantes, difíceis e igualmente interessantes. Foi de tal maneira violento que hoje, terça feira, ainda me custa a levantar. No domingo mal me mexia! Já não estava habituado a levar tanta porrada, mas foi um excelente treino para um desafiozinho que vai acontecer lá para Outubro do qual mais tarde vos falarei melhor, o Trans Peneda Gerês, de 160km. Por agora não quero pensar muito nisso, até porque estou cheio de dores nas pernas!

Pumba, só assim para acabar!


domingo, 26 de julho de 2020

Distrito do Porto - Sra. da Serra (1418m)

Este fim de semana dei início a um novo objectivo. Desta vez não tem tanto a ver com o lado desportivo, mas com tudo o resto que o trail oferece. A ideia é subir aos pontos mais altos de cada distrito de Portugal. Dito assim parece básico, e, na verdade enquanto estava a ver a lista reparei que já tinha subido a praticamente todos! Mas este projecto é mais que isso. A corrida tem que ser guiada por alguém local, que conheça a serra como a palma da mão, e as voltas não serão demasiado longas, a rondar os 25/30km, para permitir ter físico e disposição para a segunda parte: passear com a família. 

O primeiro distrito escolhido foi o Porto, por razão nenhuma em especial. Marcámos uma estadia de três dias em Amarante e falei com o Bruno Silva, amigo e organizador do Ultra Trail do Marão, do Marão Sky Up e de outras 1001 actividades na sua serra. Conhece o reino do Marão como ninguém e, mais importante ainda, tem uma paixão por aquelas montanhas que é impossível esconder. Para lá, não sei quem manda, mas no Marão manda o Bruno!

Vista da Fraga da Ermida

Às cinco e meia da manhã já o Bruno estava à porta do nosso Airbnb. Infelizmente teve um azar há duas semanas, caiu de bike e anda com um braço ao peito, não me vai poder acompanhar na corrida. Decidiu ir na mesma comigo, para me dar "assistência". Ainda lhe disse que não valia a pena, afinal eram só 27km e ele já me tinha dado um track, mas percebi logo que para ele qualquer desculpa para estar na serra é boa. Cumprimos os cerca de 15 minutos de carro até Ansiães, uma aldeia no coração do Marão, onde há uns meses iniciou o Marão Sky Up

"Pronto, vais por ali, encontro-te a meio do PR6".

Uns minutos antes das 6 da manhã lá comecei. Se leram o artigo que escrevi em Novembro sobre o Marão Sky Up, devem lembrar-se da descrição que fiz da parte final da ultima descida. Escrevi na altura que tinha entrado para o top dos meus trilhos preferidos de sempre. Pois bem, fiz questão de lá passar de novo, desta vez a subir. A adrenalina e frenesim da descida da prova foram substituídos pela tranquilidade do nascer do dia, num trilho e numa serra só para mim. Uma maravilha de subida, pouco inclinada e muito variada, perfeita para trotar. 

As marcações são do PR6, aconselho muito a visitarem! Está completamente limpo e transitável.


"Porque é que quando tiras selfies ficas sempre com cara de quem avistou um javali?" Sara.

Postal

Patamar atrás de patamar, lá saí do PR6 e entrei numa zona mais despida da serra. Desta vez num trilho mais a pique, daqueles que se fazem com mãos nos joelhos. Continuava a correr na sombra, mas o sol, mais alto, já começava a iluminar um a um os picos mais altos que me rodeavam. Um privilégio estar ali àquela hora, completamente sozinho, com a serra só para mim. 

À saída do PR6

Bem, não era só para mim. Estava lá o pastor do Marão, o Bruno. Depois de me encontrar a meio do PR6, voltei a vê-lo por duas ou três vezes, nos locais mais inesperados, já perto da Sra. da Serra. Lembrava-me mais ou menos desta subida, por a ter feito a descer no MSUP, mas nesse dia estava um temporal lá cima, não deu para perceber bem o quão espectacular era o trilho na encosta ao lado da Sra. da Serra, onde se avista a proeminência do pico.

Sra. da Serra lá em cima. 

O cume foi conquistado 10km depois da partida, 1140D+ desde Ansiães. A Sra. da Serra é o ponto mais alto da Serra do Marão e do distrito do Porto, aos 1418m de altitude.



Normalmente de poucas palavras, o ar sério transforma-se assim que entra na serra, mas foi ali em cima que vi o verdadeiro Bruno. Como quem mostra as divisões da casa nova aos amigos, apontou-me para todas as montanhas que a vista alcança a 360º . Num dia de visibilidade perfeita, conseguimos ver até à Serra da Estrela. Vimos a Sra. da Graça, o Montemuro, Alvão, Nevosa e os vários picos do seu Marão. Falou-me das subidas que planeia abrir e das outras linhas que só ele conhece. 


Apontou-me o caminho a seguir, como quem traça uma linha imaginária pelas arestas e picos. Contou-me dos dois dias que passou a desbravar o trilho na crista que me levará aos Seixinhos e do miradouro da Fraga da Ermida, apenas uns metros abaixo da Sra. da Serra. Marcámos encontro para um colo, uns km à frente. 


Fraga da Ermida

Antes de partir, aconselhou-me a, quando estivesse na Fraga da Ermida, fazer uma pausa e aproveitar bem as vistas. Assim o fiz, depois de uma boa subida que me voltou a deixar muito perto dos 1400m de altitude parei para respirar fundo junto ao marco geodésico da Ermida. Pausei o relógio e sentei-me no marco, a absorver o que me rodeava. Impossível descrever por palavras a serenidade que é estar lá em cima, completamente sozinho, com uma vista que alcança centenas de quilómetros. É isto que faz valer tudo a pena.

Seguia-se agora o tal trilho que demorou 2 dias a abrir, uma maravilha numa aresta, sempre a subir e descer maciços de granito, com um precipício para cada lado.

A crista vista da Ermida. É claro que não pus um pé no estradão, imaginem uma linha a fazer a aresta toda. 

Quase no fim da crista. Lá ao fundo, o ponto mais alto é a Fraga da Ermida, de onde vim.

No marco geodésico dos Seixinhos.

Para descer dos Seixinhos até Mafómedes fui pelo trilho da Luzzzir, dedicado à fotografa por excelencia do Marão, a Susana Luzir. Tentem lá adivinhar porquê:

zzzzzz

Abandonado o granito, este trilho foi todo feito em xisto solto, sempre aos zês para desfazer o desnível, num esforço muito maior do que fazia prever, já que ia constantemente a travar e a ajustar a direcção. 

Mafómedes é uma aldeia embrenhada na serra. É lá que está a Tasca do Valado, restaurante do Ricardo e da Paula, amigos do Bruno, e um albergue para montanhistas. Foi lá que enchi os flasks e me demorei uns minutos à conversa com o Bruno, antes de atacar os 500+ que me separavam da descida final até Ansiães. 


Uma parte da subida muito boa depois de Mafómedes

Já no topo da subida, pelo Bruno

Seis km separavam-me agora de Ansiães, cumpridos praticamente todos a descer. O Bruno, como sempre, apresentou-me o trilho que se seguia, o dos "4 javalis". Mais um filho dele, aberto de fresco. O final perfeito para um percurso perfeito. Descida toda cumprida dentro de um bosque, sempre à sombra, a passar por várias linhas de água, por um trilho que parecia que sempre tinha existido ali daquela maneira. Para mim, é isso que distingue um bom de um mau trilho. Os bons trilhos parece que fluem pela montanha, nada é forçado, é intuitivo, nem precisava de olhar para o relógio para saber por onde seguir.

Chegada a Ansiães.

Foram 27km e 1760+, como podem ver aqui no Strava. Mas, mais que isso, foi exactamente aquilo que eu quero que seja este "projecto". Uma volta guiada pelo anfitrião que conhece a casa melhor que ninguém. 

Mas, como expliquei logo no início do texto, havia muito mais para este fim de semana que uma corrida. Ainda não era 11 horas quando cheguei a Amarante, bem a tempo de organizar as tropas para um dia em cheio. Voltámos a Mafómedes, para a Tasca do Valado, do Ricardo, onde almoçámos no restaurante com melhor vista de Portugal, pelo menos até prova em contrário.

A Sara na Tasca do Valado. Lá atrás na montanha dá para ver os zês da Luzzzzzir!

De seguida, mais uma vez aconselhados pelo nosso anfitrião, fomos até à praia fluvial da Póvoa, um tesouro de águas translúcidas escondido aos 1000 metros de altitude.


Mas o ponto alto do dia foi mesmo ao jantar, num sítio que permanecerá secreto a pedido do Bruno, comemos trutas do Marão! Apanhadas há umas horas, num sitio que mais familiar só se fosse na sala de jantar da cozinheira!


Depois de jantar ainda deu tempo de ir comer um gelado ao muito bonito centro de Amarante e ouvir um concerto de música clássica por um quarteto de clarinetes dentro da Igreja de São Gonçalo!

A ponte e a igreja de São Gonçalo.

Antes do regresso ainda deu tempo para uma corrida por Amarante, desta vez mesmo pela cidade. Decidi experimentar uma funcionalidade da Garmin que andava há muito para testar. Consiste em pedir ao programa para fazer uma rota, na distancia que quisermos a partir do ponto que quisermos. Ele utiliza os dados de milhares de corredores e manda-nos para os sítios mais populares. Foi assim que fiquei a conhecer a Linha do Tâmega, uma linha de comboio desactivada transformada em Ecopista. Uma volta de 12.5km muito agradável, onde fiquei a conhecer outra parte de Amarante. Podem ver aqui no Strava.

A ecopista do Tâmega.

Para o regresso dividimos os quase 400km com várias paragens. Cruzámos o famoso tunel do Marão até ao Peso da Régua, onde não estávamos desde 2014. Depois pedimos ajuda ao Google e encontrámos uma praia fluvial na Serra do Caramulo, onde estivemos bem lá em cima. Finalmente passámos pela Serra da Lousã e tomámos um banho rápido na praia fluvial do Cabril do Ceira. Este foi, sem dúvida, o momento anti-climax. O local é lindíssimo, mas parecia a praia de Carcavelos! Nem tive coragem de tirar uma fotografia. Aconselho muito a visita, mas vão lá durante a semana, de preferência no Inverno!

Um mini São Gonçalo (a Maria Amélia diz que é um osso) e um café, na excelente (e surpreendentemente barata!) pastelaria O Moinho, mesmo ao pé da ponte. Se forem a Amarante não deixem de provar a doçaria.

À saída do nosso pitoresco Airbnb. Vejam o link que meti lá cima para mais pormenores.

No Peso da Régua, à beira Douro.

No topo do Caramulo, rio Dornas.

Um início perfeito para este "projecto" que não tem prazo ou pressas. O nosso obrigado ao Bruno. Foste um anfitrião perfeito. Não deixem de estar atentos aos projectos que ele vai lançando, que vão ser muitos, parece-me!

Nove horas depois de sairmos de Amarante, chegámos a casa. Completamente estafados mas de coração muito cheio. Foi um fim de semana com tudo o que gosto e procuro nesta paixão, que é a corrida de montanha. Não são só os trilhos que vão ficar na memória. É o ar satisfeito do rapaz que nos serviu as trutas, é aquele primeiro vislumbre de água cristalina depois de 3km stressantes a andar de carro numa estrada de terra esburacada a seguir à Póvoa, a surpresa de ouvir musica clássica dentro de uma igreja lindíssima, o sorriso orgulhoso do Bruno enquanto eu lhe dizia o que tinha achado do percurso... É isso e tantas mais coisas que fazem tudo valer a pena. Mal posso esperar pelo próximo!


Strava:


domingo, 28 de junho de 2020

Dos Picos do Açor ao Vale Glaciar

Por aqui continuam os desafios pós-covid. As ideias têm fervilhado e o que não faltam são alternativas às provas que, aparentemente, continuam muito longe de se voltar a realizar. Mas, sinceramente, no fim da viagem de ontem, apetece-me perguntar: mas quem é que precisa de provas??


Há uns tempos tive a ideia de fazer a Travessia Trevim - Torre. Começar no alto do Trevim, passar por Góis, Arganil, Piodão e Torre. Pesquisei, falei com algumas pessoas, mas não estava conseguir encontrar nenhuma ligação de jeito entre o Trevim e Arganil. Depois comecei a montar o percurso a seguir a Arganil. Falei com o André Rodrigues, que me aconselhou o track do seu Desafio Picos do Açor para sair de Arganil, depois liguei no Google Earth os Picos a Piodão, juntei o percurso do Ultra Piodão, depois o do EstrelaAçor, que me levava ao Alvoco, e a partir daí subia o conhecido km vertical, descia o trilho do Major e finalmente desembocava no Vale Glaciar. No fim fiquei já com cerca de 75/80km. Se quisesse juntar o trajecto Trevim - Arganil teria que somar à vontade 30km, o que já daria mais do que me apetecia fazer. Ficou então decidido a Travessia Trevim-Torre passaria à Travessia dos Picos do Açor ao Vale Glaciar!


O percurso acabou por ter 76km com 4650D+

O plano estava traçado, lancei o desafio ao João Tomás, que, se bem se lembram, fez o Trans'Aire comigo, ao João Lopes, o Flecha da Parreira, e ao Guilherme Lourenço, que dispensa apresentações. Aos 3 havia de se juntar o meu amigo Jorge Duarte, colega da APT que conheci há uns meses num estágio na Estrela, que se encontraria connosco lá pelo Alvoco. Já repararam no denominador comum, não é verdade? Pois, são todos muito mais fortes que eu! Este facto acabou por se tornar preponderante durante o dia. Já lá vamos.

Na partida, junto às piscinas de Arganil.

Depois de uma noite dormida em Arganil, às 6 da manhã em ponto iniciámos a viagem. O dia estava nublado e abafado, com muita humidade. Esta primeira parte, correspondente aos primeiros 15km do Desafio Picos do Açor, eram passados em trilho técnicos embrenhados na vegetação do Açor. Muita água, subidas a pique, trilhos xistosos e levadas espetaculares, embalaram-nos num constante sobe e desce que acumulou rapidamente muito desnível. O André tinha-me avisado que, dos 15km, 14 deles estariam limpos e que restaria pelo menos 1km ainda com mato. Assim foi, a grande maioria dos trilhos estava impecavelmente limpa e mais valor demos ao trabalho de quem os limpou quando entrámos na parte que tinha mato! 




A desbravar mato. Enquanto eram fetos e não silvas estávamos nós bem!

Aqui estavam limpinhos




Desde o início que não me sentia nos meus dias. Esforçava-me para os acompanhar enquanto respirava ofegante. Desde o dia anterior que estava bastante mal disposto, coisa que muito raramente me acontece, e naquele dia suava em bica praticamente desde que partimos. Aproveitava aqueles minutos em que a progressão era lenta por causa do mato para recuperar o fôlego e acalmar a pulsação, mas, ao fim de poucos minutos, já estava com este ar acabado:


Saímos do percurso dos Picos do Açor pelos 14km, no Posto de Vigia, já com 1400+. A ultima subida foi a maior picada até então, com uns 400+, onde, mais uma vez, tive muita dificuldade em acompanhar os meus companheiros. Estava também preocupado com a hidratação, estava a beber profusamente tailwind para compensar a muita transpiração, mas sabia que até Piodão, nos 32km, dificilmente encontraríamos algum ponto de água. Falei com eles, que aparentemente estavam muito mais à vontade que eu, e todos tinham pelo menos 750ml de água, eu já só tinha menos que 500ml. Combinámos que em caso de necessidade eles me dariam água. 

A subir a tal picada final, foto pelo João Tomás.

Os 15km seguintes, até ao Piodão, foram desenhados no Google Earth. Não fazia ideia do que íamos encontrar! Parecia-me que seriam maioritariamente estradões das eólicas que percorriam a encumeada, mas a verdade é que andámos em alguns trilhos e marcámos o ponto em quase todos os marcos geodésicos do percurso. Acabou por ser uma secção muito gira, com algum desnível (700+), vistas espetaculares e sempre corrivel. 



Ou seja, a única parte que íamos ao desconhecido acabou por correr melhor do que o esperado! Até à descida final para o Piodão... Quando já viamos os telhados de xisto da bonita aldeia, saímos do estradão que nos estava a embalar até ao Inatel para procurar um trilho que tinha encontrado já não sei onde. O problema é que já ninguém lá devia passar há anos, estava completamente dominado pelas silvas! Se podiamos ter voltado para trás? Pois podiamos, mas, como toda a gente que anda nisto sabe, quando se passa aquele ponto mágico do "epah, agora já não vamos voltar para trás, ainda por cima é a subir", já não há nada a fazer. Deixei lá uns bons gramas de carne agarrados àquelas silvas mutantes durante pelo menos 1km literalmente a abrir mato, mas lá conseguimos chegar ao Piodão, 32km, onde teriamos o primeiro "abastecimento".


Primeiro abastecimento.

Já restabelecidos depois de uma boa paragem, flasks cheios, tailwind preparado, entrámos no percurso do Ultra Trail do Piodão até Chãs de Éguas. Aqui os trilhos estavam limpinhos e a progressão foi muito boa. Sentia-me bastante melhor depois da paragem, ainda assim tinha que vir muito perto do limite para os conseguir acompanhar. Também o calor decidiu aparecer por esta altura, depois de uns km muito confortáveis lá em cima, agora estava seco e quente. Bebi água e molhei-me em todas as bicas que ia encontrando, até porque até Teixeira de Baixo, local do terceiro "abastecimento" eram cerca de 20km. 

A subida para sair da Serra do Açor foi pelo estradão aos zigue-zagues do Ultra Piodão, onde, mesmo a andar bem, fiz os meus companheiros esperar uns bons 10 minutos lá em cima. A situação estava a tornar-se um bocado frustrante, custava-me que eles tivessem que esperar, mas estava a dar o que tinha. 

Lá em cima, tal como me lembrava, a vista era deslumbrante. De um lado o estradão que serpenteava e culminava no Picoto da Cebola, ponto mais alto do Açor, do outro a imponente Estrela, com os 1990 parcialmente tapados por nuvens. O caminho para o Alvoco era em linha reta, num estradão na encumeada, com algumas das vistas mais bonitas de todo o percurso.

Em Chã de Éguas, antes da subida.


Lá ao fundo, o Picoto da Cebola.




Chegámos a Teixeira de Baixo já com 52km. Parámos na primeira bica que encontrámos e sentámo-nos a beber e a comer o que trazíamos, desta vez não havia nenhum café. Íamos entrar na parte final do percurso, estávamos com cerca de 3000+ e faltava-nos nada mais nada menos que a subida do KV do Alvoco com mais um extra, já que iríamos partir abaixo da cota 500 e a subida andaria pelos 1600+. A má disposição já estava mais ou menos ultrapassada, mas cada vez se notava mais a diferença de andamento para os meus colegas. Antes de partimos pedi-lhes para não esperarem por mim, que nos encontraríamos no Alvoco. Preferia muito mais ir sozinho do que os estar a prender, e assim foi. Os 7 ou 8km que nos separavam do Alvoco foram praticamente todos cumpridos sozinhos a andar bem, sempre em trilhos que subiam vagarosamente paralelos ao rio. A cerca de 1km do Alvoco encontrei o grande Jorge, um amigo que fiz no estágio da APT e com quem gosto muito de correr. Tinha estacionado em Piornos, descido o KV e agora ia voltar para trás connosco. É pena que desta vez já me tenha encontrado em tão avançado estado de decomposição!

No abastecimento de Teixeira de Baixo

O João e Teixeira de Baixo ao fundo.

Estávamos então com 60km e a beber uma coca-cola no Alvoco. Este percurso tem essa característica demolidora, acaba com o quilómetro vertical do Alvoco. Para mim, a mais dura e melhor subida de Portugal Continental. Desde aquele ponto são 1200+ em menos que 5km. Mas a parte principal, o KV, são 1000+ em 3.8km. Foi a sexta vez que o subi e já por lá passei em muito diferentes condições. Desde estar fresquinho, no inicio de um treino, a completamente acabado, como no EGT em 2016. A primeira vez, em 2014, foi no saudoso KV do Alvoco, uma prova organizada pelo Armando Teixeira que só teve essa edição. 

Esta não foi de todo a melhor subida que lá fiz, mas também não foi a pior. Subi devagar mas muito certinho, sem nunca parar a não ser para a obrigatória foto na mariola gigante que marca o fim da parte mais demolidora da subida. Mais uma vez cumpri-o sozinho, tendo quase obrigado os meus companheiros a subirem ao seu ritmo. Assim o fizeram. Só para perceberem, o Guilherme demorou menos 26 minutos que eu a subir (1h00 vs 1h26) e mesmo assim ficou a 18 minutos do record dele! 

A Torre ao fundo do Planalto dos Corvos. Uma vista que provoca sempre alívio!

Mau aspecto, junto à famosa mariola gigante

A parte final da subida, com a mariola nas costa

Alvoco lá ao fundo.

O quarto e ultimo abastecimento foi na Torre, onde o Jorge estava em casa. Fomos à loja do tio dele e mamámos uma valente sandes de queijo e presunto com uma coca cola. À entrada do centro comercial tive que por a máscara, que passou a fazer parte do material obrigatório. Agora imagem, todo rebentado, aos 2000m, com uma máscara na cara. Digamos que não foi lá muito confortável!

Na Torre, já com o Jorge

As sandes do tio do Jorge.

Restava-nos agora "apenas" descer o mítico Major, depois apanhar o planalto da Nave de Santo António e descer pelos zigue-zagues até ao Vale Glaciar, onde cumpriríamos os km finais junto ao Zêzere, nascido uns metros lá atrás, no Covão d'Ametade. 

Já estava com o modo ultra ligado, em gestão cuidada do esforço, há umas boas horas. Tinha vindo desde o início em ritmo de prova a tentar acompanha-los, mesmo sem conseguir. Tal como numa prova já tinha tido momentos muito baixos. Mas lidei com eles, como faço em prova, e aproveitei aquele ressalto de quando voltamos à vida. Desci o Major de forma resguardada e ainda tive pernas mais que suficientes para atravessar a Nave de Santo António a trote, assim como a parte final já no Vale Glaciar. 

O Vale Glaciar

Inicialmente tinha pensado ir mesmo até Manteigas, mas o trilho do Vale Glaciar desaparece sensivelmente a meio do trajecto, sendo que os ultimos 4 ou 5km são cumpridos num estradão plano muito chato. Por isso decidi ficar a meio do vale, onde existe uma praia fluvial e dá para estacionar o carro. Lá estava a Sara, há umas 3 horas à nossa espera! Pusemos as pernas de molho nas águas geladíssimas do Zêzere, arrumámos a trouxa e iniciámos a viagem de quase 4 horas que ainda nos faria passar por Arganil antes de descer para casa!

O Guilherme e o João, já de molho.

Foram 76km com 4650+ em 13 horas certinhas. Demorou bastante mais do que esperava, estava a apontar para as 11/12 horas, mas o percurso também foi muito mais difícil do que tinha imaginado. Encarei-o como uma autentica prova, de tal maneira que hoje estou num estado que raramente fico. Todo dorido, desidratado, arranhado... Mal me consigo mexer! 

O percurso foi mesmo muito interessante. As travessias têm aquela coisa boa de conseguirmos passar em muitos sítios diferente na mesma volta, e esta foi bastante grande. Começámos nos trilhos técnicos e fechados dos Picos do Açor, andámos pelos estradões da encumeada do Piodão, subimos o demolidor KV, acabámos no lindíssimo Vale Glaciar... Houve de tudo! Houve também um grupo espectacular mas que claramente andou mais devagar pela minha presença. É raro estar num grupo de treino onde sou o mais lento, a sensação não é a melhor. Fiz o melhor que consegui, mas a conclusão que chego no fim disto é que há níveis para este jogo. O Guilherme está seguramente entre os 5 melhores do país, nunca tinha corrido com ninguém deste nível durante tanto tempo, é impressionante como estamos tão distantes. Planetas diferentes!

E agora? Bem, as ideias pós-covid continuam a aparecer. Todos os ingredientes que procuro neste desporto estão presentes nestas aventuras, e certamente esta não será a ultima. É verdade que tenho saudades das provas, porque....... bem, já não me lembro bem do que tenho saudades, acho que principalmente do convívio com amigos! Porque o resto, o desafio, a descoberta, a aventura, o esforço, a montanha, está tudo aqui à mão de semear!