As minhas corridas na estrada

domingo, 21 de outubro de 2018

Trail Abrantes 100

O Trail de Abrantes é trail, mas não é trail. O Trail de Abrantes tem 2400D+ mas não tem subidas. O Trail de Abrantes tem muitos estradões, não é sky nem técnico nem de "dureza extrema", ou lá como se diz. O Trail de Abrantes não é nada disso e mesmo assim saí do Trail de Abrantes amassado como há muito não ficava e, melhor de tudo, completamente nas nuvens! Acompanhem-me nesta viagem de 13 horas pelos estradões do Ribatejo.

Primeira de muitas fotos nesta publicação da autoria do grande MIGUEL CADALSO! Que alegria é participar nas mesmas provas do Miguel :)
Não estava nos meus planos ir a Abrantes este ano. Queria fechar o campeonato Endurance com os 100km do EstrelAçor, mas umas dores chatas numa perna não me deixaram preparar bem para a Estrela e, com a substituição do UTAX pelo Abrantes 100, pareceu-me uma boa opção. 

Quem me vai lendo por aqui sabe que este não é de todo o tipo de percurso que costumo procurar, mas na verdade há muito que este tipo de desafio me aliciava, principalmente depois de ler os relatos do Perneta sobre os Caminhos do Tejo ou do Rui Pinho, sobre a PT281. Sabia à partida que seria diferente de todas as provas de 3 dígitos que já fiz, outras preocupações, estratégia ou variáveis. Sabia que é uma prova muito "rolante", que iria permitir correr do inicio ao fim (eu sei que há quem faça as outras também sempre a correr, mas eu não consigo). É uma prova sem subidas ou descidas, sem caminhos técnicos, altitude ou condições meteorológicas extremas. Basicamente a única preocupação é a progressão o mais rápido possível por uns longuíssimos 100km e o natural impacto tremendo que isso tem no corpo.

Os 5 elementos do GDP que correram os 100km, aos quais se juntaram mais uns quantos nas restantes provas.
A partida foi dada à uma da manhã no centro de Abrantes. Uma noite impecável, com o terreno regado há menos de uma hora e temperatura perfeita. Depois de um pequeno périplo pela zona histórica de Abrantes e uma passagem pelo Castelo, que não conhecia, lá descemos a encosta da cidade e atravessámos a ponte para a margem sul do Tejo. Os 200 e poucos participantes lá entraram então num trilho engraçado, que se prolongou por cerca de 2km. Não me apercebi logo da solenidade do momento, mas este foi o único trilho que pisámos em mais de 50km! 

2400+ distribuídos por 100km. Desta vez não me peçam para fazer os riscquinhos vermelhos!
Podem estar a estranhar eu ter dito que a prova não tem subidas quando o desnível positivo é de 2400 metros e estas se podem ver no perfil acima. Mas tenham em conta que a maior amplitude foi de cento e poucos metros. A verdade é que, com algumas excepções, as subidas passavam e nem se davam por elas. Principalmente na primeira metade, até ao Pego, toda ela feita de noite. Foi aqui que começaram as novidades para mim. Uma noite perfeita, estradões muitas vezes de areia molhada, muito macios, e eu a correr a um ritmo perfeitamente confortável. Frequentemente dava por mim a aumentar inconscientemente o ritmo. Foi essa a minha principal preocupação durante os primeiros 52km, correr, mas nunca entrar em esforço, sempre consciente que tudo o que fizesse ali teria repercussões lá para o fim. 

Por falar em novidades, foi uma noite com uma grande estreia para mim! Pela primeira vez na vida tive uma crise grande de diarreia durante uma corrida! Hãn, aposto que estavam desertinhos para saber disto. Que coisa desconfortável! Tive que encostar à boxe 5 vezes, sempre que saía de um abastecimento. Comecei a ficar muito preocupado, primeiro porque nunca me tinha acontecido e não sabia como lidar com aquilo e depois porque tinha consciência que estava a desidratar, mas beber água deixava-me mal disposto. Já desesperado comecei a perguntar envergonhadamente se alguém tinha um Imodium (só me lembrava da publicidade deles: acabe com a diarreia antes que ela acabe consigo), até que finalmente o André Ferreira do Caracol me arranjou! Lá tomei aquilo e, milagre, a coisa foi estabilizando até que finalmente estava impecável! Salvaste-me a prova, André, obrigado!

Não volto a sair de casa sem isto!
A primeira metade da prova tem muito pouco que contar. Acho até que pela primeira vez não me consigo lembrar com exactidão do percurso! Na minha cabeça está tudo misturado, estradão atrás de estradão, mas consigo lembrar-me perfeitamente dos banquetes de casamen...perdão dos abastecimentos. Que. Exagero. Fez-me lembrar os abastecimento do Sicó, em 2015. Só para terem uma ideia, no primeiro, aos 9km, comi 4 croquetes e duas talhadas de melancia. Em todos havia enchidos de toda a espécie, sopa, melancia e sei lá mais o quê. Muito bom ambiente, muita gente a assistir e a dar apoio (os abastecimento eram em vilas) e num deles até havia uma banda de garagem de uns putos a tocarem a Yellow, de Coldplay! Como era uma prova rápida e tinha muitos abastecimentos, nunca demorávamos muito a passar de festa para festa e a verdade é que isso foi muito motivante. 

A prova estava a ser exactamente como eu pensava, uma progressão rápida vila atrás de vila, sempre por estradão, sempre a alternar um trote lento com caminhada quando o terreno inclinava um pouco mais. Cheguei à base de vida (52km), no Pego, com 6h10 de prova, o que dá um ritmo médio de cerca de 7'/km. Mesmo com a paragem em todos os abastecimentos acabei por conseguir fazer os 52km em ritmo de corrida e sentia-me bem, apesar de naturalmente já estar um pouco moído. Comi duas taças de caldo verde, troquei de t-shirt mas deixei as sapatilhas. Estava a estrear uma Saucony que consegui por 50% de desconto, que é a minha característica preferida no calçado, mas os pés estavam em bom estado. Pensei que tinha acertado outra vez (nunca tinha usado Saucony), mas não trocar foi uma opção errada. Acabei por perceber isso umas horas depois. 

Do Pego partia a prova de 50km, em comum com os 50km finais da prova grande. Esta é a foto do Miguel da partida.
Saí muito revigorado da Base de Vida. Demorei-me lá cerca de 15 minutos, o suficiente para o sol clarear um pouco e já não precisar do frontal. Parti cerca de meia hora antes da prova de 50km, o que também me deu ânimo. Tinha alguns amigos nessa prova e ser passado por eles e outros era uma boa distracção. Tinham-me dito que a segunda metade era mais difícil, o que se veio a revelar principalmente nos 25km finais, e a verdade é que a batalha estava prestes a começar.

Logo a seguir à Base de Vida: um trilho! Foto M.C.
Apesar do trilho da fotografia acima, os primeiros 25km desta segunda metade não foram muito diferentes dos outros 52, apesar de termos apanhado um ou outro trilho. O primeiro classificado dos 50km passou por mim aos 60 e poucos km, ia ele com 10km em 40 minutos! Logo a seguir, em 2º, passa o meu amigo Tiago Godinho, do Caracol Apressado. Se não conhecem o blog dele, façam por isso! Além de um atleta brutal escreve que se farta e aposto que esta prova dele vai ser uma boa história. Cumprimentei os dois, dei-lhes um incentivo e eles responderam de volta. Ritual que cumpri com TODOS os que iam passando por mim "força, boa prova, vais bem!!". Alguns respondiam de volta: "força também, coragem!", como o grande Rui Luz. Mas para surpresa minha comecei a reparar que a grande maioria não dizia nada! Confesso que aquilo me deixou um bocado incomodado. É raro estar inscrito na distancia menor e ainda mais que nesses casos as provas se cruzem, como nesta. Aconteceu no Sicó este ano ou na Mitic o ano passado, fiz questão de dar uma palavra a todos os da prova grande que ia ultrapassando. Epah, censurem-me à vontade, chamem-me o que quiserem, não quero saber disso pra nada. Para mim é um questão de respeito. 

De volta à margem Norte do Tejo. Lembro-me de estar a passar nesta ponte e pensar que aquele passeio estreito podia contar como trilho ahah Foto do M.C.
Foi precisamente depois de passarmos nesta ponte, aos 70 e poucos km, que o percurso começou a alterar. Entrámos para um vale apertado por onde passa um afluente do Tejo (desculpem, não consigo perceber como se chama) e andámos mesmo em cerca de 1km de um trilho difícil num sobe e desce pedras num sitio muito bonito, onde não faltaram travessias do rio, cordas ou corrida em levadas. Haveríamos de passar mais uns quilómetros em zonas destas até ao fim, sem dúvida as zonas mais interessantes do percurso.

Grande fotografia, Miguel!

M.C.

M.C.
Com a alteração do tipo de percurso e o acumular dos quilómetros, naturalmente o ritmo também baixou. Os trilhos davam uma motivação extra e sempre que podia metia um trote leve, já não dava para mais. Passei a olhar muito mais vezes para o relógio e os metros custavam a passar, mas a perspectiva de fazer um tempo bastante melhor do que esperava motivava-me. Pela primeira vez numa desta provas levei a informação de ritmo médio no relógio e desde o inicio que andava a fazer contas de cabeça para saber até onde podia ir para cumprir o meu objectivo. 

Nesta altura comecei a ter o acompanhamento da Virgínia, que estava a dar apoio ao marido Luís, nos 50km. Foi bom ter uma cara conhecida em todos os abastecimentos. Esses continuavam a ser um exagero de comida! Até ao fim ainda comi sopa em mais dois abastecimentos, muito bom! 

Com o Luís e uma taça de sopa na mão, num dos abastecimentos
Iniciei a contagem decrescente muito cedo, ainda deviam faltar uns 40km. Comecei a ficar ansioso com o ritmo que já não estava a conseguir manter, tive que dizer a mim mesmo várias vezes para não exagerar, que os momentos maus são apenas isso, momentos. Dali a nada conseguiria voltar a correr. Os metros foram passando e os naturais desconfortos foram crescendo, começando pelos pés. Há muito que os pés não eram um problema para mim, às vezes os 30 ou 40 euros que se gastam a mais numas sapatilhas compensam.... Também o calor começou a apertar o que aumentou ainda mais a urgência de acabar. Estava a entrar num lugar mau com toda esta ansiedade por isso foi uma ajuda enorme quando passei 15 ou 20 minutos da prova a conversar com um companheiro da Trofa (não fixei o teu nome, amigo, desculpa). É muito raro andar com alguém nas provas, mas sempre que o faço fico satisfeito porque realmente ajuda, os quilómetros passam sem darmos por isso e até nos esquecemos das dores. Deixei a companhia dele depois do ultimo abastecimento, a 9km do fim. 

M.C.
Neste último troço já cheirava a meta e, revigorado por mais um banquete que incluiu melancia, sentia-me bem e com força. Fiz os 9km finais praticamente sempre a correr, com os metros a passarem bem depressa no relógio. 

Entrei no estádio da cidade do desporto de Abrantes com 13h18. Muuuuito antes dos 15 horas mínimas que previa, o que deu um ritmo médio de 7'30''/km. A anos luz do que pensava que era capaz, o que me deixou nas nuvens!



Com o grande Hugo Água
Confesso: adorei a prova. Sempre achei que gostaria deste tipo de percurso e ainda fiquei com mais vontade de me meter numa aventura como os Caminhos do Tejo. Não é uma prova de trilhos nem de montanha, mas também não quer ser. É o que é: uma corrida de 100km, praticamente planos, onde lutamos desde o inicio com o nosso limite. A organização foi excelente, os abastecimentos nem vale a pena falar mais, mas tudo o resto esteve impecável, sem falhas. No fim ainda tomei um duche no que me pareceu o melhor chuveiro do mundo, nos balneários do estádio. 

Estou muito orgulhoso da minha prova, até o resultado foi anormal para mim. 31º em 200. Acabei completamente arrasado. Mais amassado do que em muitas provas de montanha! À noite estava com tantas dores que tive a fazer gelo nos joelhos e tornozelos e ainda tive que tomar um brufen porque estava ligeiramente febril. Foi uma tareia tremenda para o corpo e não fosse a nuvem de endorfinas que estou a navegar neste momento podia mesmo dizer que tinha sido um martírio! Com desnível ou não, com montanha ou não, com trilhos ou não, esta vai direitinha ali para aquela coluna do lado direito do blog que diz: "Hall of Fame - As Grandes"!

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

II Freita Sky Marathon - Tão mais que uma prova...

Apetece-me escrever tudo sobre este fim de semana, mas estou há uma hora em frente ao computador e não sei por onde começar. 

Apetece-me escrever sobre o plano louco de ir acampar com mais 10 adultos e 14 crianças para o parque de campismo mais incrível que já vi, no Merujal, topo da Serra da Freita. Um bosque plantado no meio de uma encosta granítica, bem lá em cima, nos 900m. Sobre os jantares, literalmente, em cima do joelho ou dos dias tão preenchidos que parecia que tinham 36 horas. Sobre os  passeios pelos PRs, guiados pela criançada. Da carne do Nino da Freita ou das noites mais geladas que já senti, nas quais nem 4 sacos-cama e uma família amontoada chegavam para aquecer o nariz.

Queria falar daquele passeio de carro que demos. Uma caravana de 5 carros, a aproveitar a ultima hora de luz do dia, numa daquelas estradas que se vêm nos filmes e onde não se sabe o que é mais impressionante: a parede do lado direito ou o precipício do lado esquerdo. 

Também não queria deixar de vos falar sobre a Serra da Freita. A inacessível, a agreste, a inacreditável Freita. Ninguém me convence que assim que passamos Vale de Cambra não entramos num portal que vai dar a outro mundo, a prova disso é que passámos 3 dias sem rede no telemóvel. Não, aquilo não pode ser do nosso mundo. 

Depois houve a prova, no domingo. O ano passado foi sem dúvida alguma o percurso que mais me surpreendeu, dos meus preferidos de sempre. Para o conhecerem melhor, aconselho-vos a ler o que escrevi o ano passado, porque desta vez nem saberia por onde começar. 

O percurso, esse, era igualzinho. Queria falar-vos sobre aquele crescendo brutal de emoções, ou dificuldade, não sei bem. Da gestão possível de uma prova que sabemos à partida nos vai mastigar vivos. Da sempre surpreendente transição do fundo dos vales xistosos para os planaltos graníticos. Do frio na barriga quando se desce para a Mizarela, da sensação de esmagamento quando olhamos para trás e vemos a água a escorrer na encosta. Do desespero da descida do PR7 até à base da ultima subida, uma crista vertical que nos leva de volta aos 900m.  Nenhuma outra prova me faz adiar até tão tarde a sensação de missão cumprida, foi preciso chegar até aos 41 de 42km, 2800m subidos e quase 7, para finalmente respirar fundo e sentir que estava feito, e bem feito. Provavelmente das provas que me correram melhor até hoje. O culminar perfeito de um fim de semana perfeito, que empurrou para um cantinho qualquer joguito de futebol nessa tarde.

Este post fica só como introdução, um dia vou falar-vos sobre isso tudo. Ou então não, se calhar fica  lá do outro lado do Portal de Cambra, naquele mundo que não é o nosso, é o da Freita.












segunda-feira, 1 de outubro de 2018

1º Grande Trail de Alpiarça - Justificadamente GRANDE

Achava eu que alguém se tinha esticado um bocado ao acrescentar o sumptuoso adjectivo "Grande" ao titulo desta primeira edição do Trail de Alpiarça. Afinal de contas, era Alpiarça... Não há montanha, tal como não há em Almeirim (as terras são vizinhas, distam 7km), não há grandes paisagens, nem ribeiros para atravessar, não há caminhos técnicos nem nada dessas coisas que confiram "dureza extrema" à prova, como agora está na moda dizer-se. Achava eu arrogantemente que, na melhor das hipóteses, estávamos perante uma competente prova de aldeia. 

Mas isso foi até chegar ao perímetro da Barragem dos Patudos, onde estavam os primeiros de dezenas de voluntários a envergarem t-shirts vermelhas que vi durante todo o dia e em todo o lado, dentro e fora do percurso. Até ver a impressionante estrutura montada na meta, até perceber como funcionaram de maneira eficaz e rápida os transportes de atletas para o Casalinho, onde estava a partida (a cerca de 10km da chegada). Eficaz como a logística do almoço, bem servido e mesmo junto à meta, por cima dos balneários das piscinas municipais, que estavam ao nosso dispor. Achava que era só mais uma prova de estradão, até estar a correr em quilómetros e quilómetros de trilhos exemplarmente marcados e abertos de propósito para o evento.

Achava que "Grande" era de mais. Que um "Trail de Alpiarça" chegava. Mas isso foi até estar a voltar para casa, já bem a meio da tarde, satisfeito, de alma cheia. Lembrei-me daqueles que vi passar por mim durante o dia, de t-shirt vermelha, com olhar concentrado e preocupado. Aqueles que passaram horas e horas nos últimos meses a construir e depois olear a máquina bem afinada que foi aquele dia. Aqueles que deixaram sangue, suor e lágrimas nos eucaliptais e campos de cultivo, que puseram a organização deste evento lá em cima nas suas prioridades do dia a dia. Tudo para que os mais de 400 inscritos nesta primeira edição fossem, tal como eu, de alma cheia para casa. 

Foi quando me rendi: o 1º Trail de Alpiarça foi Grande, sem dúvida. Foi Grande porque não falhou um milímetro, porque aproveitou a 100% as potencialidades do terreno e não deixou uma única ponta solta do que podia controlar. Mas foi Grande principalmente porque teve Grandes pessoas por trás. A todos os meus parabéns!

Grandes!
Inscrevi-me no Grande Trail de Alpiarça porque me pareceu uma boa preparação para o Abrantes 100, que acontece daqui a 3 semanas. O terreno seria mais ou menos parecido e 30km pareciam-me uma boa distância para um treino longo. Mas é claro que isso de ir para uma prova treinar nunca resulta (pelo menos para mim) e nem sequer pensei em poupar-me, foi prego a fundo desde o início.


Apesar de preferir as ultra distâncias, é sem dúvida nestas distâncias curtas que sou mais competitivo e a verdade é que adoro a adrenalina de ir de faca nos dentes sem pensar em gestões e a controlar as posições à frente e atrás. 

Foi assim neste Trail de Alpiarça, desde o início que andei a trocar de posição com mais 3 atletas, com a perfeita consciência que se facilitasse minimamente já tinha alguém a morder-me os calcanhares. Acreditem quando vos digo que deixei tudo naqueles trilhos! 

No fim confesso que as 2h39 para os 29km com 900D+, uma média de 5'30''/km, me deixaram bastante orgulhoso, com a luta pelas posições a resultarem num 7º lugar da geral e um 3º lugar no escalão sénior! 

Sim, o meu primeiro pódio! ehehe 

Pódio Sénior
Se alguma vez vos perguntarem a definição de Parte-Pernas.
Claro que tenho consciência que isto é um pódio dos pequeninos, basta ver que o Luiz Mota, 2º classificado, chegou 20 minutos antes de mim e o impressionante Miguel Arsénio, sub23, 10 minutos antes dele! Mas, vá lá, deixem-me gozar o prato que isto não é (claramente) todos os dias :)

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Swimrun Arrábida - Que mundo novo é este?!

10:45. Já deviamos ter começado a prova há quase duas horas, mas sobre isso podem ler mais nestaCrónica do Sr. Ribeiro. Estava borrado de medo, prestes a saltar do Galeão do Sado para o mar. Vi o primeiro a saltar lá para dentro, respirei fundo, apertei os oculos contra a cara pela 893ª vez e já com vontade de vomitar saltei para dentro de água.

Fotografia do Facebook da organização
Pânico! Água gelada! Senti pela primeira o peso do equipamento que levava para nadar. Sapatilhas de trail, meias, t-shirt que ganhei numa prova e o dorsal da prova. Dei umas pernadas de bruços para me manter à tona mas as sapatilhas não me deixavam dar o impulso que precisava.


Calma, Filipe!

Passaram uns segundos, meti o Pool Buoy no meio das pernas e dei umas braçadas. Relaxei as pernas, mesmo com as sapatilhas mantiveram-se à superficie. Óptimo. Dei umas braçadas e disse a mim mesmo para descontrair. Estava num ambiente familiar, na água, lá dentro não ouvia nada. Uma, duas, três, quatro braçadas e respira. Ok, estável. Contornei o galeão e preparei-me para a partida. Ainda me virei para o Sommer e disse-lhe para relaxar, que o pool buoy era suficiente para deixar as pernas a flutuar, mas assim que me viro novamente para a frente: PIIIIII!!! PARTIDA, VÃO!!

Sem dar por isso tinha entrado numa máquina de lavar da qual só iria sair mais de duas horas depois!!!

Estava mesmo no meio do furacão! Comecei frenéticamente a nadar, a respirar de duas em duas braçadas. Pernas, braços, sapatilhas por todo o lado! Olhava para a frente e só via espuma, respirei quase em pânico, engoli água. Felizmente os muitos anos de natação dão-me à vontade para lidar com esta situação e isso foi o que precisava para entrar na prova. Cerrei os dentres, foquei-me na braçada e comecei a passar pessoal, e ai da perna que se atravessasse à frente! De repente estava a nadar à vontade, mas a sentir que estava a fazer muito mais força que o habitual. A t-shirt de corrida que levei estava longe de ser a escolha certa para aquela prova e funcionava como uma espécie de cobertor que me prendia o deslize. Isso irritou-me, comecei a apertar mais na braçada e a nadar mais depressa. Olhei para a frente, já via pessoal a sair para a praia, estavam feitos os quase 1000m do primeiro segmento de natação. Mais uma ou duas braçadas e levantei-me. Vi a Sara, a Sra. Ribeiro e o Ribeirinho mais velho na praia aos gritos!

"BORA BORA!!! FORÇA!!!!"

Olhei à volta e não vi o Sommer. Saí na mesma para a praia e fiquei ali meio abananado a correr de um lado para o outro. De repente lá estava ele, a sair a cambalear da água. Não lhe dei tempo para respirar, puxei-o por um braço e comecei a correr praia acima ainda ele estava a tirar os óculos.


Depois da primeira natação, enquanto esperava pelo Sommer.

"Vais bem, vais bem!! Bora lá!!!" disse-lhe.

Ele nem respondeu, meteu a trote atrás de mim. Senti-lhe a respiração super ofegante. Eu ainda tive ali dois minutos a recuperar, ele nem teve tempo de respirar. Pensávamos nisso depois. Tempo para pensar é o que não existe nesta prova!

De saída para a primeira corrida. Somos a dupla 7. Fotografia da IronMe
Primeira corrida. 4km com 200D+. Bora Sommer, cola atrás. Seguimos a trote numa subida de 1.5km onde se vencia praticamente todo o desnível. Sentia-me bem e solto, o Sommer, sempre à mesma distância lá atrás, nunca vacilou. Virámos para a descida e entrámos em trilhos muito bons. Estávamos no nosso ambiente, descontraí na descida e deslizei a velocidades impróprias, a passar mais e mais gente. Senti que o Sommer estava em dificuldades, já o conheço, não estava a relaxar na descida e corria a forçar. Disse-lhe para ter calma, que àquilo já estava ele habituado. Os trilhos sucediam-se e nós seguiamos de faca na boca. Trail a sério, como gostamos!

4km depois estávamos de novo na praia. Pulsação a 1000. Parei, meti a toca na cabeça, óculos, pool buoy entre as pernas e voltei-me para trás. O Sommer estava com ar de pânico. Calma, disse-lhe, vamos relaxar nesta natação, começámos depressa de mais. Sim, disse ele, ainda não consegui respirar! Entrei calmamente na água e deixei-me ficar ao lado dele para me ver enquanto respirava. Alonguei muito a braçada e sentia-me super bem a nadar, sem esforço. Estava mesmo a precisar daquela água fria.

A calma antes da tempestade durou pouco, 300m. Nova praia, agora ele praticamente não perdeu tempo para mim na natação, arrancámos de imediato para novo segmento de corrida, agora com 9km e 450D+. Go go go!!!

Primeira subida, a trote, e parámos num abastecimento para mandar uns copos de água abaixo. Siga, continuámos a trotar subida acima. Fomos passando mais e mais gente. O calor apertou muito, estava a escorrer água e não era a água do mar de onde saí há uns minutos. Esta corrida foi trail puro, muitos e bons trilhos, mesmo ao nosso jeito. Continuava a sentir-me super bem, mesmo as subidas fazia a correr a bom ritmo. Ao mesmo tempo ia espreitando pelo canto do olho enquanto via o meu parceiro, que no seu estilo de quem está prestes a cair para o lado, nunca desarmava. Nunca! Passámos mais pessoal e disparámos na descida. Tens que relaxar agora, lembra-te, estamos em casa!! Disse-lhe. Ele já nem respondia, mas meteu-se atrás de mim a dar tudo. Parámos em novo abastecimento, mais água. Estava um inferno de calor. Faltava só mais uma subida e esta era das boas, quase 200m de desnível num quilómetro. Mãos atrás das costas e bora a arfar até lá acima! Tá feito, é descer até à água, descontrai! Saímos a voar e aqui disparei mesmo. Que loucura, nem sentia as pernas! Só parei em novo abastecimento agora mesmo junto à praia. Reagrupei com o Luís. Iamos para novo segmento de natação, agora com 500m.

A meio de uma das corridas. Sommer logo atrás! Fotografia IronMe
Os segmentos de natação eram ouro para mim, recuperava tudo o que tinha perdido na corrida. A progressão era muito pesada, maldita t-shirt, mas mesmo assim era o suficiente para, com pouco esforço, ir ganhando tempo.

Saímos praticamente ao mesmo tempo da água e corremos na praia, onde estava o Safara, o sr. Swimrun. "vão muito bem, 3º ou 4º!!!" Eish!! Mais ânimo ainda!! Sem tirar a toca atacámos nova corrida, agora era só subir o monte que nos separava da proxima praia e depois correr 500m no areal.

BORA BORA BORAAAA!!!!

Estava eufórico!!! Gritava para o ar enquanto ouvia os passos pesados do Luís mesmo atrás de mim!!

Mesmo antes de entrar para a água, para o ultimo segmento de natação, vi uma touca azul lá atrás (as duplas tinham toucas azuis, como as nossas).  Não há tempo para pensar, mergulha, nada!!!

Mais 400m de natação, sempre a dar, agora sim a deixar lá tudo!!!!

Cabeça fora de água e vejo que a tal touca azul estava ao meu lado. Logo, logo atrás está o Sommer!! BORA, CARALHO!!! Subimos as escadas a correr e começámos a sprintar nos 500m de calçada até à meta!! Passámos a outra dupla! O Luís vinha a gritar atrás de mim. A Sara e os Ribeiros gritavam histéricos a uns metros do pórtico!!! VAI VAI VAIII!!! ESTÃO EM TERCEIRO!!!!

AAAAH MAIS UM BOCADO E..... FEITO!!!!!

Pufff. Desliga o cronómetro, um abraço e toca a agarrar nos joelhos a tentar respirar.

Para a posteridade: Fomos ao pódio!!!!
Dupla 7, com o nosso troféu e...com o Kiko, que também se estreou na modalidade neste dia

Ainda hoje, mais de 24 horas depois, não consegui sossegar o formigueiro na barriga que esta prova me provocou. Que loucura, que intensidade! Quando o Luís me falou do swimrun, há uns meses, confesso que fiquei céptico. Nunca achei grande jeito a isso de nadar com o equipamento de corrida, ou àquela coisas estranha de levar o pool buoy agarrado à perna enquanto corríamos. Até ontem encarei esta prova como uma brincadeira, um dia com o Sommer e mais uns amigos. Fui displicente com o equipamento e praticamente não li nada sobre o desporto. Mas isso mudou tudo quando saltei do galeão para a água do Sado.

Tentei o melhor que consigo, mas é dificil explicar por palavras a intensidade que é participar numa prova destas. Desde ontem que muita gente me pergunta o que é isso do Swimrun mas a minha explicação acaba sempre por ser um embrulhado de palavras. Não é triatlo, nem pouco mais ou menos. É trail com natação. É adrenalina. Segmentos curtos, entra e sai de água. É trabalho de equipa (originalmente inventado na Noruega, foi idealizado como um desporto para ser feito em duplas, e é mesmo assim que para mim faz sentido). 

A organização foi perfeita. Escolha do percurso, marcações, abastecimentos, logística.. Eu nem imagino o que é montar uma prova destas, mas agora percebo perfeitamente quando vi o Safara quase a chorar ao telefone com a Policia Marítima, enquanto via o sonho desmoronar-se por causa do nevoeiro. Ainda bem que tudo se alinhou. 

Este ano já não há nenhuma prova em Portugal Continental, só uma na Madeira, mas para o ano não vou falhar uma do circuito. Aliás, não vamos, porque o Swimrun é um desporto de equipa. Eu, o Sommer, a Sara e a Ribeirada toda, o Safara, o Lizardo, o Roberto, o Kiko, o Salvador, o Zeca, o Prudêncio...... 

Foto de família. Agora bora almoçar!!


segunda-feira, 30 de julho de 2018

Há 4 semanas de molho.

Andava preso por arames. Vocês sabiam, eu contei-vos. Desde o MIUT que tinha consciência que a coisa não estava boa. Fiz uma preparação muito deficiente para a prova nos Alpes, serviços mínimos, o suficiente para me levar ao fim. Acabou por nem ser nada mau, fiz uma prova sólida e a perna direita aguentou-se à bronca, mas sabia que logo de seguida precisava de uma paragem obrigatória. Pensava que a coisa se resolvia numa ou duas semanas, mas demorei pouco tempo a perceber que não seria bem assim. Pois, não está fácil...

A fotografia não tem nada a ver com o texto, mas só arranjei agora fotos da prova e não queria perder a oportunidade de meter nojo.

Não gosto de falar sobre as minhas "lesões", ou dores ou seja lá o que lhe queiram chamar. Por isso não vos vou chatear com queixumes. Escrevo este post porque durante estas, já, 4 semanas que estou no estaleiro despertei uma paixão antiga: a natação.

Como alguns sabem, a natação foi o meu desporto durante muitos anos. Competi durante toda a minha adolescência e, apesar de ter tido sempre um nível medíocre, o nível de empenho e treino era bastante alto. Treinos bi-diários, alguns de madrugada antes das aulas, competições semanais e um volume de treino maior do que alguma vez fiz na corrida. Mais importante do que alguns pódios regionais e uns 57 segundos aos 100L dos quais me orgulho muito, ficaram as muito boas recordações, a ética de treino e aquelas lições que só uma actividade desportiva intensa nos podem dar. O que também ficou, apesar de adormecido há uns bons 15 anos, foi o gosto de nadar. 

O que é? Estou a falar de natação e na fotografia há água!
Quando me vi impossibilitado de correr a seguir ao X-Alpine tinha que fazer qualquer coisa para, no mínimo, manter a forma. Não, mais que isso, para manter a sanidade mental! Há anos que faço desporto pelo menos 6 dos 7 dias da semana, mais que seguir planos de treino torna-se uma necessidade. Eu sei que a bicicleta seria a opção mais natural, mas sinceramente não gosto de andar. É desconfortável, fico com os braços e pescoço muito mais doridos que as pernas, a ultima vez que tentei foi um sacrifício do início ao fim. Como andava desde o MIUT a nadar uma vez por semana decidi que seria esse o caminho. E claro, como costuma acontecer comigo, se é para ser é a sério, e há 3 semanas que vou todos os dias à piscina de Santarém. 

Piscina de Santarém. A interior de Almeirim está fechada no verão.....
Tem sido engraçado sentir a evolução. Naturalmente a anos luz do que era dantes, mas dia a dia começo a sentir-me mais solto e vejo os tempos a baixarem. Faz-me lembrar quando comecei a correr! Uma coisa que não havia "no meu tempo" são estes novos relógios que contam as piscinas, braçadas, ritmos, etc etc etc. Tal como na corrida, é super motivador ....e pelo menos vai dando alguma vida ao meu Strava. 

Este sábado foi o dia que tentei voltar a correr, três semanas depois da X-Alpine. Foi mau. Muito mau. Para afogar as mágoas decidi pegar na família e ir para a barragem do Castelo de Bode nadar. Tenho muito pouca experiência em águas abertas, mas correu bastante bem. Fui com o meu amigo João Pedro, antigo companheiro da natação e mais recentemente do trail (foi comigo ao UTMB, lembram-se?) e ainda sacámos cerca de 3500m a um ritmo interessante, para a minha realidade actual, claro, 1'41''/100m. 

Lago Azul, em Ferreira do Zêzere, Barragem do Castelo de Bode

Os treinos de natação têm um grande problema: voltei a treinar ao fim do dia, com todos os problemas que isso acarreta. O que vale é que a Sara sabe que a versão Filipe sem treinar é MUITO pior do que aquelas duas horas que passo fora todos os dias, e mais um vez lá vai tapando buracos para permitir os meus caprichos.

E pronto. Vou para a minha quarta semana de molho. É verdade, tem sido muito bom nadar, mas não consigo disfarçar a ansiedade de não conseguir correr. Ontem, domingo, fui-me muito abaixo por perceber que mesmo 3 semanas sem correr não serviram de nada. Tenho que pensar noutras estratégias para atacar isto. Agosto é tradicionalmente o mês em que corro mais, e este ano até vamos acampar uma semana para o Gerês. Sinto mesmo muita falta de treinar de madrugada, dos longos de fim de semana, de andar nos trilhos....enfim. Quanto a corridas até ao fim do ano, não estou muito preocupado. Tenho a ideia de fazer os 100km da EstrelAçor, mais para fechar o campeonato do que outra coisa. Se não conseguir treinar a tempo, talvez vá aos 100 de Abrantes com o mesmo objectivo. O que quero mesmo é voltar a correr.

terça-feira, 10 de julho de 2018

X-Alpine (111km) - O Muro Alpino

A X-Alpine é uma prova diferente de tudo o que fiz até agora. Não foi a mais difícil nem a mais longa, mas foi certamente a que mais me surpreendeu. Na altura da inscrição foi o assombroso perfil que me atraiu, mas estava longe de perceber o que significava exactamente TODAS as subidas e descidas de uma prova terem no mínimo 1000 metros de desnível. Assim como me escapava à compreensão o que era estar numa prova com a previsão de 30 horas e ter apenas disponíveis 5 abastecimentos com comida. "É só mais uma aventura", pensava eu. Não demorei muito a perceber que não seria só mais uma. À uma da manhã de sábado, na vila de Verbier, com a Sara e a Maria Amélia no meio dos muito poucos assistentes, lá parti para muitas horas de pura imersão nos Alpes, numa aventura que não me vou esquecer tão depressa.



Verbier - Sembrancher
12km, 1150-
Foi a partida de uma grande prova mais tranquila que já fiz. Sem fogos de artificio ou musicas épicas, parecia tudo demasiado calmo. Verbier fica a 1500m e teríamos que descer até aos 714m, altitude mínima da prova, em Sembrancher, mas antes uma pequena subida para contornar a montanha. Trilhos puramente alpinos, no meio de uma floresta, com terra escura e muitas raízes, tal e qual como me lembrava do UTMB. A descida continuou na mesma toada, com trilhos limpos e bons de correr. A minha preocupação era apenas ir devagar e não abusar, numa prova destas a gestão começa ao passar a meta. Sem grandes pressas nem ultrapassagens, seguia numa comboio a bom ritmo, num trilho brutal aos ésses. A encosta era tão inclinada que se viam 4 ou 5 pernadas de ésses lá para baixo, mas o trilho estava bem desenhado e a inclinação nunca era muito exagerada. Uma hora de descida depois estava no primeiro abastecimento, em Sembrancher. A organização preparou um mimo para este abastecimento e havia uma espécie de pequeno almoço: pão com doce e manteiga de amendoim. Consciente do que vinha a seguir, tomei o meu tempo e empanturrei-me de pão. Esperava-me nada mais nada menos com um duplo quilómetro vertical, a maior subida que já fiz na vida.

Sembrancher - Champex
14.1km
2034+, 1278-
Respirei fundo e parti determinado. A descida anterior tinha sido bastante fácil o que me aumentou a confiança, mas mesmo assim nunca exagerei enquanto subíamos numa estrada florestal aos ésses na encosta. A temperatura estava óptima e a floresta muito densa protegia-nos da brisa mais fria - condições ideais. Já íamos quase com 1000m de subida e mais uma vez o caminho era muito fácil! Na minha cabeça começou a formar-se a hipótese de se calhar ter vindo com demasiadas precauções, que a prova afinal até era fofinha! Foi então que finalmente chegámos ao refúgio de Catogne e saímos da linha das árvores. Lá dentro da cabana havia um abastecimento, apenas líquidos. Faltavam 800m de subida totalmente expostos, tratei de praticamente não parar no abastecimento (ainda tinha água) e segui logo para não arrefecer. Quando entrei no trilho percebi que tudo tinha mudado. 


Olhei para trás e vi uma linha vermelha a desenhar os contornos das montanhas que nos rodeavam. Eram 5 da manhã, o sol estava a começar a nascer. Faltavam mais de 700 metros de subida para o primeiro cume do dia e à minha frente uma fila infinita de luzes brancas recortava a linha da montanha contra o céu. Subíamos pela crista da montanha numa cascalheira, de ambos os lados um precipício de mais de mil metros. Subia já há 3 horas em esforço quando de repente um dos maciços de granito se mexe debaixo dos meus pés e eu enfio uma perna até à virilha entre as pedras cinzentas que escalava. Paralisei. A respiração ofegante do esforço era agora quase pânico. Os companheiros de subida perguntavam em francês se estava tudo bem, mas eu só acordei quando a dor intensa na canela me despertou. Um deles puxou-me e ajudou-me a sair, "ça va?" "oui, merci" "allez!". Ele continuou a escalada e eu fiquei uns segundos sentado numa pedra, a tremer. Antes de arranjar coragem para me levantar, pensei: onde é que me vim meter?

Na crista
Fotografias tiradas já perto do cume, onde dá para ver bem a proeminência da montanha. Aquelas luzes estão quase 2000 metros abaixo
Já muito perto do cume a quase escalada foi substituída por uma caminhada muito perigosa numa crista de pedras, mais ou menos plana. Cordas, correntes e pegas de aço chumbadas na encosta. Nem na surreal Mitic me senti tão inseguro como aqui. No pico, La Catogne, estava uma cruz a coroar na perfeição uma montanha perfeita, quase triangular, que emergia 2700m acima do vale. Estava cumprida a subida e devia estar aliviado por ir começar a descer, mas algo me dizia que as coisas não iam melhorar...

La Catogne, visto de baixo
O ano passado, na Mitic, disse que a descida de Bony de La Pica para Margineda tinha sido a coisa mais assombrosa que já tinha feito. Pois bem, esta descida para Champex não lhe ficou atrás. Depois de feito o cume ainda andámos um pouco na crista, lá em cima em mais uma via ferrata insana, pendurados a mais de mil metros. Depois pensei que fossemos começar a descer um trilho suavizado por ésses, mas não. Descemos em linha recta pela encosta, sempre com a vista desimpedida para Champex, mil e tal metros abaixo. Uma perfeita loucura que me deixou sinceramente assustado. Teve vários segmentos com 50% de inclinação em que a minha única preocupação era não escorregar. Ao analisar os dados no Strava o quilómetro 26 tem 398 metros de desnível negativo! Acreditem, não estou mesmo a exagerar quando digo que um deslize ali era trágico. A meio da descida, quando voltámos a entrar na floresta, a inclinação começou a suavizar. O trilho é que acabou por se tornar ainda mais fechado e de difícil progressão. Foram cerca de hora e meia para fazer 4.4km a descer! Quando cheguei ao abastecimento de Champex, que já conhecia do UTMB, vinha meio abananado.

Champex visto de cima
Champex - Saleina
15.2km
1466+, 1636-
Demorei algum tempo no abastecimento, era o segundo e já ia com 6h de prova. O conceito de abastecimento desta prova é diferente do que estava habituado. Não quero com isso dizer que a malta em Portugal está mal habituada, os abastecimentos da Mitic e do UTMB eram excelentes, mas na X-Alpine não havia cá mordomias para ninguém. Só uns snacks, às vezes nem fruta havia, o caldo era mesmo só isso, um caldo transparente salgado e que só havia nalguns sítios (em Champex não havia). Apenas o mínimo e essencial. Mais do que alimentar-me, procurei recuperar algum fôlego antes de me fazer à subida seguinte, que tinha nada mais nada menos que 1500D+, até ao ponto mais alto da prova nos 2800m. 

Se a primeira subida tinha começado suavemente, numa estrada florestal, agora que já estávamos dentro da prova esta entrou a matar. Um trilho cheio de pedras e raízes, muito trabalhoso, embrenhado na floresta. Técnico e a dar muito trabalho. O sol já espreitava por cima de La Catogne e começava a aquecer a encosta, mesmo que não conseguisse furar a floresta densa. Quando passámos a linha das árvores e voltámos aos picos graníticos voltavam os segmentos super técnicos feitos em alta montanha. Mais cascalheira pontuada com gelo, mais vias-ferrata, mais cristas. Agora não sempre a subir mas num sobe e desce curto mesmo no topo da montanha, a fazer a linha da cumeeira. 
Uma espécie de varanda, bem lá em cima. Nós vínhamos lá de baixo
Esta era a vista para o lado contrário. Vejam as pedras, era por ali a progressão, sem trilho.
O cume, no refúgio de Orny, surgiu depois de um troço de 800m feitos numa crista com um glaciar do lado esquerdo e um precipício do lado direito. Uma coisa abismal, perto dos 3000m de altitude. Passámos por blocos de gelo super escorregadios, tanto a descer como a subir, os pés estavam sempre molhados do gelo. Não dava um passo sem pensar 5 vezes se seria seguro e para onde iria a seguir.

Três horas de subida depois cheguei à Cabana de Orny. Mais uma vez o abastecimento era apenas de líquidos, mas desta vez havia café. Pedi um copo grande a ferver e isolei-me numa rocha a beber café e a comer uma barra que levava comigo. 

Refúgio de Orny, foto da organização. Reparem no glaciar
Abastecimento, foto minha
O café serviu como revigorante e, apesar de já estar muito amassado, senti-me muito bem quando iniciei a descida. Um monstro com 1600 metros de desnível perdidos em apenas 7km. Desta vez, apesar de ser uma descida abismal, o trilho aos ésses suavizava a inclinação e deu quase sempre para ir a trote. Desde as paisagens graníticas dos cumes até entrarmos na floresta para os trilhos de terra escura. Sempre ao lado de ribeiros e cascatas de água gelada, que de vez em quando ia bebendo. Mas uma descida destas, apesar de não ser tão difícil como a outra, tem o seu preço. Mais hora e meia a trotar num trilho técnico, constantemente a solicitar músculos para travar e mudar de direcção, tiveram o seu preço e a portagem paguei-a em Saleina, lá em baixo, com duas varas verdes a tremer em vez de pernas. Aqui nem abastecimento de líquidos havia, esperava-me antes mais hora e tal até chegar a La Fouly numa subida suave que fiz em sentido contrário no UTMB, a qual ataquei prontamente. A Sara, os miúdos e os meus pais estavam lá em La Fouly à minha espera.

Saleina - Col du Grand St Bernard
22.5km
1739+, 559-
A subida suave de 6km até La Fouly, a tal que conhecia em sentido contrário do UTMB, foi o inicio da pior fase da minha prova. Meio do dia, no fundo de um vale, o calor estava a apertar e muito. Já tinha passado mais de 6 horas desde o ultimo abastecimento sólido e quase 13 horas de prova. O trilho era muito fácil, com troços a pedirem trote, que fui entregando sempre que conseguia. De hora a hora lá tinha que parar para meter com sacrifício mais um gel. Não me posso queixar, foi para isso que lá fui, mas aqueles primeiros dois montes tinha sido de uma tal dificuldade que condicionariam o resto da minha prova. Agora pensava com aflição no resto do perfil e receava que se o nível não baixasse simplesmente podia ser de mais para mim!

A minha receção em La Fouly :)
Sentei-me no abastecimento de La Fouly acompanhado pela minha família. A Sara percebeu logo que alguma coisa estava mal. Estava desanimado e receoso, pelas razões que já vos expliquei. Mais uma vez o abastecimento não tinha nada de especial, acabei por beber o tal caldo transparente e salgado e comi alguns alperces. Mais do que abastecer com comida, nesta prova estes "checkpoints" servem como inicio e final de etapas. Aproveitei em todos para tirar a mochila, relaxar e mudar o chip para a etapa seguinte. A toda a volta já se começavam a ver cadáveres, a coisa realmente estava a apertar.

A subida seguinte levar-nos-ia novamente aos 2700m de altitude, num esticão com 1275D+. É verdadeiramente impressionante como nesta prova sempre que se fala em subidas e descidas são monstros com 4 dígitos. Uma coisa engraçada é que durante toda a prova nunca pensei na distância em quilómetros, sempre na quantidade de metros que faltavam subir ou descer. Se no relógio não levasse a indicação da distância não me tinha feito falta nenhuma. Aliás, no dorsal aparecia um perfil altimétrico, mas sem indicação de distancia ou localização dos abastecimentos, apenas as cotas mais altas e baixas!

Arranquei para o quilómetro vertical seguinte com a confiança em baixo, como já tinha dito. Felizmente foi nesta altura que a prova começou a dar algumas abébias e os trilhos foram-se tornando cada vez mais acessíveis. Esta subida até ao Col de Fenetre parecia copiada metro a metro da grande subida do Col Ferret do UTMB. Primeiro num estradão e depois num trilho limpo aos ésses que nos permitia meter um passinho certo e ir recuperando energia. 

O tal estradão no inicio
As vistas continuavam engraçaditas
Já perto do col entramos numa espécie de planalto nos 2700 metros, para subir mais alguma coisa antes de virarmos finalmente a montanha para Itália. Lá em cima, no planalto, estavam os Lacs de Fenetre. É impossível descrever aquele sítio por palavras, tão pouco com fotografias. Três lagos de um azul escuro intenso, numa espécie de cratera  ladeada por cumes cinzentos e brancos nas pontas, isto tudo a 2700m de altitude. Atrás da nossa cratera já se viam os grandes gigantes dos Alpes, como o Monte Branco ou o Cervino. Fiquei zonzo e acho que não era pelo ar rarefeito.

Nenhuma fotografia lhe fará justiça
Virada a montanha começámos a pequena descida que faltava fazer antes do abastecimento do Col du Grand Saint Bernard (sim, a terra dos cães!) que se situa mesmo na fronteira da Suiça com Itália. O ar mais fresco lá em cima tinha-me devolvido o ânimo perdido em La Fouly e a subida mais fácil permitiu-me aumentar as reservas de energia para o que aí vinha. Cheguei ao abastecimento de St. Bernard 10 minutos depois da previsão que fiz para chegada neste ponto. Mesmo com um inicio de subida muito sofrido tinha recuperado algum tempo!

Col du Grand Saint Bernard, sacado do Google. O Col, ou passagem, é o ponto mais baixo da cumeada da montanha. Uma passagem entre dois vales, sem ser no pico.
Grand Saint Bernard - Bourg Saint Pierre
14.4km
434+, 1264-
Lá em cima, nos 2500m, estava bastante frio e vento, apesar de estar sol e serem 5 da tarde. Decidi equipar-me para o frio, já que me esperava uma pequena ascensão aos 2700 antes de descermos finalmente aos 1600 onde estava a Base de Vida (76km). A passagem que nos levaria ao vale que desceríamos até à Base de Vida foi no Col Chevaux e assim que o virámos iniciamos uma descida brutal toda ela corrível por um vale imenso. A prova continuava a dar abébias e nesta altura estava cada vez mais confiante num desfecho positivo.

Inicio da descida. Reparem no bom aspecto do trilho
Oh yes, tirei uma selfie. No Col Chevaux antes de começar a descer
A descida era nova empreitada gigante, com 1250D- e quase 12km de comprimento. Aqui é tudo à grande. Felizmente o trilho era dos mais simpáticos de toda a prova e fiz segmentos muito grandes sempre a correr, até contornarmos a margem esquerda do Lac des Toules e finalmente descer um pouco mais a pique para a base de vida. Fiz esta descida quase uma hora mais depressa que o previsto. Esta é a principal diferença da X-Alpine para a Mitic, uma prova com números parecidos (110km com 9700+). A prova de Andorra não dá descanso do primeiro ao ultimo metro, é sempre difícil, já nesta dos Alpes, depois daquele inicio demolidor, havendo pernas é uma prova mais acessível. No entanto há uma coisa que me impressionou mais na X-Alpine, que é a dimensão das coisas. Todas as subidas e descidas são gigantes, é demolidor. E ainda estava por vir o maior muro que já enfrentei na vida...

Lac des Toules
Cheguei à Base de Vida, em Bourg Saint Pierre, com 19 horas de prova. Dois terços do total. Até aqui consumi cerca de 15 geis e 3 ou 4 barras e precisava desesperadamente de comer algo mais substancial. Mas já devia saber que não ia encontrar nada no abastecimento... A diferença da Base de Vida para o resto dos abastecimentos era estar o nosso saco e haver sitio para massagem. A comida era o habitual caldo salgado e desta vez havia esparguete sem nada, que meti dentro do caldo. Esta foi a parte que tive mais dificuldade em gerir em toda a prova, a alimentação. Já sabia de inicio que eram espaçados, errei ao pensar que poderia gerir como faço habitualmente que é ir metendo gel ou barras de hora a hora. Algo a afinar se me meter em nova empreitada como esta. 

Com a rapaziada na Base de Vida
Restavam duas subidas e duas descidas. Dois montes separavam-me de Verbier. Dois montes, uma noite inteira e .... um muro. 

Bourg St. Pierre - Lourtier
23.3km
1100+, 1646-
Esta era a menor subida das 5 (SÓ 1050+) e curiosamente a que menos gostei de todas. Não por ser difícil, mas os 1050+ distribuídos por 12km deixavam muito espaço para trilhos planos e pequenas descidas. Foi a única altura da prova que senti necessidade de olhar para a distancia percorrida em vez da altitude, parecia que nunca mais acabava. A subida era fácil, num trilho aberto, pouco inclinado. A encosta era muito exposta e o sol estava a por-se do outro lado do vale, só liguei o frontal já depois das 22. Estava a sentir-me bem a subir e pela primeira vez em toda a prova comecei a passar algumas pessoas. Muito perto do topo, já de noite, calculo que estaríamos a percorrer uma crista, já que o vento aumentou de repente e a temperatura diminuiu bruscamente. Por isso entrei no refugio de Mille só mesmo para reforçar as camadas térmicas e fazer-me o mais rápido possível à descida, já a tremer. Bom, também não podia fazer muito mais, só se fosse beber água!

Cabane de Mille vista de dia, sacado da net. Agora é que estou a ver que realmente percorremos uma crista, dá para ver na foto!
A descida, a segunda maior da prova (1500-) era também das mais difíceis, com excepção daquela loucura logo no inicio. Foi aqui que me apercebi de outra característica desta prova. Pela primeira vez andei muito tempo sozinho e tive necessidade de me guiar pelas marcações em vez de ir em comboio. Acontece que isto é malta que não gosta muito de meter fitas, passava às vezes centenas de metros sem ver marcações. Vejamos, elas estavam onde era preciso, ou seja, onde haviam mudanças de direcção, mas o resto do trilho era por intuição e sem marcações. Não me entendam mal, nunca me perdi, mas a meio da segunda noite, já com muitas horas de esforço, o cérebro já me começava a enganar e senti alguma aflição quando descia e descia sem ver nenhuma marcação. E esta descida não foi mesmo nada fácil... As abébias que a prova deu acabaram em Mille, agora ia ser a doer até ao fim. Novo trilho super técnico e muito inclinado. Apoiava o peso inteiro nos bastões, os quadricepes já estavam a chegar ao limite e a ultima parede não me saía da cabeça. A parte final em estradão já foi toda a andar. Não que não conseguisse pelo menos trotar, mas levantava a cabeça e via luzes tão lá em cima!!! Aí estava ele. O muro.

Lourtier - Verbier
12km
1300+, 866-
O MURO
O abastecimento final, em Lourtier, parecia um cemitério. Fui ver as estatísticas e foi onde desistiram mais pessoas. A um monte do final! Não era para menos. Ali, aos 104km, começaria a subida mais difícil de toda a prova, o Muro. Uma besta com 1250+ ganhos em apenas 5km. Sem dúvida a subida que me custou mais a fazer na vida.

Ataquei-a com a maior precaução possível, passinhos muito pequenos muito apoiado nos bastões. Fixei a cota final e fui descontando os metros até lá acima. Planeei parar para respirar de 100 em 100 metros subidos e estava confiante nessa estratégia. Tão confiante que depois de algum tempo a subir, já no limite da exaustão, pensei para mim mesmo "pronto, já subiste mais que 100m de certeza, agora mereces um descanso!". Olhei para o relógio e...tinha subido 30m! Oh oh...vamos ter problemas...

O trilho era horrível. Além da inclinação natural da subida, este praticamente não tinha pedras que poderiam servir como pequenos patamares para ir escalando. Toda o piso da subida era inclinado, obrigando a uma extensão constante dos gémeos e um permanente desequilíbrio. Evitava olhar para o relógio até estar prestes a cair para o lado porque quando olhava não teriam passado mais que 20 ou 30 metros! Comecei a parar montes de vezes. Sentava-me e deitava-me no trilho. Arrependia-me logo de seguida porque as bolhas na palma dos pés que estavam dormentes de levar tanta porrada voltavam à vida depois do mais pequeno descanso. Comecei a fazer contas e as 6 ou 7 horas para o corte deixavam-me margem para dormir ali mesmo no trilho. Lá está, o cérebro a pregar partidas... Mas pelos vistos não fui o único com essa ideia, passei por 10 ou 15 cadáveres deitados ou sentados com ar de desespero, outros a vomitar, outros a dormir ou a olhar para o vazio. Que loucura! 

Depois de subir os primeiros 400m estava de tal forma esgotado que praticamente desmaiei no trilho. Deitei-me e passou-me tudo pela cabeça. Como é que ia conseguir subir mais 800m? As pernas tremiam. Estiquei as mãos e também os dedos tremelicavam. Respirava ofegante, incapaz de controlar e acalmar. Fechei os olhos e pensei em meter um gel (o 20º do dia?) mas só o pensamento disso me fez vir o vómito à boca! Então lembrei-me que tinha uma única barra de reserva. Abri-a, sentado, e calmamente comi-a toda, enquanto bebericava isotónico.  No fim, uns 10 minutos depois, levantei-me decidido a subir 100m de seguida antes da próxima paragem. Foi então que comecei a falar sozinho.

Comecei a subir e a falar com os franceses e suiços. Aqueles que tentei meter conversa em inglês durante toda a prova e nunca me responderam. Não queria saber, agora iam ouvir. Falei-lhes de tudo. Da subida, da prova, das outras que já fiz, falei-lhes de quando estive em dificuldades iguais noutras ocasiões e tinha acabado por conseguir superar. Depois fiquei sozinho e acabei a falar com a Sara e os miúdos. Com os companheiros que estavam em Andorra na altura, com os meus amigos das madrugadas de Almeirim. Falei, em voz alta, com eles todos. Enquanto falava desviava a atenção do esforço que estava a fazer. Não me lembrava de olhar para o relógio e os metros iam passando e passando. Quando finalmente olhei tinha subido bastante mais do que esperava, pensei em parar, mas estava a ter uma conversa tão boa com uma árvore que não quis interromper.

De repente o cansaço transformara-se em raiva. Já não tinha conversas alegres com os montes, mas chamava-lhes nomes e dava gritos de desafio. 

AH! Tá quase, cabrão! Manda-me o pior que tiveres!! 

A verdade é que o filha da mãe do monte já não tinha muito mais para me mandar para cima. Estava conquistado o Muro! Quando vi a cabana de Le Chaux ainda acelerei mais o passo. Até cheguei a trotar no estradão mesmo antes do refúgio! Lá dentro enviei a seguinte mensagem à Sara:

Também não ia censurar, né..
Mas é claro que ela se levantou às 4 e meia da manhã para me esperar em Verbier. Claro que estava lá ao frio, de madrugada, enquanto eu descia de raiva os 800- que me faltavam. Praticamente sozinha na meta, só com duas ou três pessoas da organização, a ver o sol nascer por trás da montanha, enquanto eu percorria os quilómetros finais, bastante difíceis por acaso. 28h50, 111km e 8400D+ depois de me ter deixado na meta recebeu-me de braços abertos em mais uma conquista. Estava feito. A X-Alpine estava domada.


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