As minhas corridas na estrada

terça-feira, 10 de julho de 2018

X-Alpine (111km) - O Muro Alpino

A X-Alpine é uma prova diferente de tudo o que fiz até agora. Não foi a mais difícil nem a mais longa, mas foi certamente a que mais me surpreendeu. Na altura da inscrição foi o assombroso perfil que me atraiu, mas estava longe de perceber o que significava exactamente TODAS as subidas e descidas de uma prova terem no mínimo 1000 metros de desnível. Assim como me escapava à compreensão o que era estar numa prova com a previsão de 30 horas e ter apenas disponíveis 5 abastecimentos com comida. "É só mais uma aventura", pensava eu. Não demorei muito a perceber que não seria só mais uma. À uma da manhã de sábado, na vila de Verbier, com a Sara e a Maria Amélia no meio dos muito poucos assistentes, lá parti para muitas horas de pura imersão nos Alpes, numa aventura que não me vou esquecer tão depressa.



Verbier - Sembrancher
12km, 1150-
Foi a partida de uma grande prova mais tranquila que já fiz. Sem fogos de artificio ou musicas épicas, parecia tudo demasiado calmo. Verbier fica a 1500m e teríamos que descer até aos 714m, altitude mínima da prova, em Sembrancher, mas antes uma pequena subida para contornar a montanha. Trilhos puramente alpinos, no meio de uma floresta, com terra escura e muitas raízes, tal e qual como me lembrava do UTMB. A descida continuou na mesma toada, com trilhos limpos e bons de correr. A minha preocupação era apenas ir devagar e não abusar, numa prova destas a gestão começa ao passar a meta. Sem grandes pressas nem ultrapassagens, seguia numa comboio a bom ritmo, num trilho brutal aos ésses. A encosta era tão inclinada que se viam 4 ou 5 pernadas de ésses lá para baixo, mas o trilho estava bem desenhado e a inclinação nunca era muito exagerada. Uma hora de descida depois estava no primeiro abastecimento, em Sembrancher. A organização preparou um mimo para este abastecimento e havia uma espécie de pequeno almoço: pão com doce e manteiga de amendoim. Consciente do que vinha a seguir, tomei o meu tempo e empanturrei-me de pão. Esperava-me nada mais nada menos com um duplo quilómetro vertical, a maior subida que já fiz na vida.

Sembrancher - Champex
14.1km
2034+, 1278-
Respirei fundo e parti determinado. A descida anterior tinha sido bastante fácil o que me aumentou a confiança, mas mesmo assim nunca exagerei enquanto subíamos numa estrada florestal aos ésses na encosta. A temperatura estava óptima e a floresta muito densa protegia-nos da brisa mais fria - condições ideais. Já íamos quase com 1000m de subida e mais uma vez o caminho era muito fácil! Na minha cabeça começou a formar-se a hipótese de se calhar ter vindo com demasiadas precauções, que a prova afinal até era fofinha! Foi então que finalmente chegámos ao refúgio de Catogne e saímos da linha das árvores. Lá dentro da cabana havia um abastecimento, apenas líquidos. Faltavam 800m de subida totalmente expostos, tratei de praticamente não parar no abastecimento (ainda tinha água) e segui logo para não arrefecer. Quando entrei no trilho percebi que tudo tinha mudado. 


Olhei para trás e vi uma linha vermelha a desenhar os contornos das montanhas que nos rodeavam. Eram 5 da manhã, o sol estava a começar a nascer. Faltavam mais de 700 metros de subida para o primeiro cume do dia e à minha frente uma fila infinita de luzes brancas recortava a linha da montanha contra o céu. Subíamos pela crista da montanha numa cascalheira, de ambos os lados um precipício de mais de mil metros. Subia já há 3 horas em esforço quando de repente um dos maciços de granito se mexe debaixo dos meus pés e eu enfio uma perna até à virilha entre as pedras cinzentas que escalava. Paralisei. A respiração ofegante do esforço era agora quase pânico. Os companheiros de subida perguntavam em francês se estava tudo bem, mas eu só acordei quando a dor intensa na canela me despertou. Um deles puxou-me e ajudou-me a sair, "ça va?" "oui, merci" "allez!". Ele continuou a escalada e eu fiquei uns segundos sentado numa pedra, a tremer. Antes de arranjar coragem para me levantar, pensei: onde é que me vim meter?

Na crista
Fotografias tiradas já perto do cume, onde dá para ver bem a proeminência da montanha. Aquelas luzes estão quase 2000 metros abaixo
Já muito perto do cume a quase escalada foi substituída por uma caminhada muito perigosa numa crista de pedras, mais ou menos plana. Cordas, correntes e pegas de aço chumbadas na encosta. Nem na surreal Mitic me senti tão inseguro como aqui. No pico, La Catogne, estava uma cruz a coroar na perfeição uma montanha perfeita, quase triangular, que emergia 2700m acima do vale. Estava cumprida a subida e devia estar aliviado por ir começar a descer, mas algo me dizia que as coisas não iam melhorar...

La Catogne, visto de baixo
O ano passado, na Mitic, disse que a descida de Bony de La Pica para Margineda tinha sido a coisa mais assombrosa que já tinha feito. Pois bem, esta descida para Champex não lhe ficou atrás. Depois de feito o cume ainda andámos um pouco na crista, lá em cima em mais uma via ferrata insana, pendurados a mais de mil metros. Depois pensei que fossemos começar a descer um trilho suavizado por ésses, mas não. Descemos em linha recta pela encosta, sempre com a vista desimpedida para Champex, mil e tal metros abaixo. Uma perfeita loucura que me deixou sinceramente assustado. Teve vários segmentos com 50% de inclinação em que a minha única preocupação era não escorregar. Ao analisar os dados no Strava o quilómetro 26 tem 398 metros de desnível negativo! Acreditem, não estou mesmo a exagerar quando digo que um deslize ali era trágico. A meio da descida, quando voltámos a entrar na floresta, a inclinação começou a suavizar. O trilho é que acabou por se tornar ainda mais fechado e de difícil progressão. Foram cerca de hora e meia para fazer 4.4km a descer! Quando cheguei ao abastecimento de Champex, que já conhecia do UTMB, vinha meio abananado.

Champex visto de cima
Champex - Saleina
15.2km
1466+, 1636-
Demorei algum tempo no abastecimento, era o segundo e já ia com 6h de prova. O conceito de abastecimento desta prova é diferente do que estava habituado. Não quero com isso dizer que a malta em Portugal está mal habituada, os abastecimentos da Mitic e do UTMB eram excelentes, mas na X-Alpine não havia cá mordomias para ninguém. Só uns snacks, às vezes nem fruta havia, o caldo era mesmo só isso, um caldo transparente salgado e que só havia nalguns sítios (em Champex não havia). Apenas o mínimo e essencial. Mais do que alimentar-me, procurei recuperar algum fôlego antes de me fazer à subida seguinte, que tinha nada mais nada menos que 1500D+, até ao ponto mais alto da prova nos 2800m. 

Se a primeira subida tinha começado suavemente, numa estrada florestal, agora que já estávamos dentro da prova esta entrou a matar. Um trilho cheio de pedras e raízes, muito trabalhoso, embrenhado na floresta. Técnico e a dar muito trabalho. O sol já espreitava por cima de La Catogne e começava a aquecer a encosta, mesmo que não conseguisse furar a floresta densa. Quando passámos a linha das árvores e voltámos aos picos graníticos voltavam os segmentos super técnicos feitos em alta montanha. Mais cascalheira pontuada com gelo, mais vias-ferrata, mais cristas. Agora não sempre a subir mas num sobe e desce curto mesmo no topo da montanha, a fazer a linha da cumeeira. 
Uma espécie de varanda, bem lá em cima. Nós vínhamos lá de baixo
Esta era a vista para o lado contrário. Vejam as pedras, era por ali a progressão, sem trilho.
O cume, no refúgio de Orny, surgiu depois de um troço de 800m feitos numa crista com um glaciar do lado esquerdo e um precipício do lado direito. Uma coisa abismal, perto dos 3000m de altitude. Passámos por blocos de gelo super escorregadios, tanto a descer como a subir, os pés estavam sempre molhados do gelo. Não dava um passo sem pensar 5 vezes se seria seguro e para onde iria a seguir.

Três horas de subida depois cheguei à Cabana de Orny. Mais uma vez o abastecimento era apenas de líquidos, mas desta vez havia café. Pedi um copo grande a ferver e isolei-me numa rocha a beber café e a comer uma barra que levava comigo. 

Refúgio de Orny, foto da organização. Reparem no glaciar
Abastecimento, foto minha
O café serviu como revigorante e, apesar de já estar muito amassado, senti-me muito bem quando iniciei a descida. Um monstro com 1600 metros de desnível perdidos em apenas 7km. Desta vez, apesar de ser uma descida abismal, o trilho aos ésses suavizava a inclinação e deu quase sempre para ir a trote. Desde as paisagens graníticas dos cumes até entrarmos na floresta para os trilhos de terra escura. Sempre ao lado de ribeiros e cascatas de água gelada, que de vez em quando ia bebendo. Mas uma descida destas, apesar de não ser tão difícil como a outra, tem o seu preço. Mais hora e meia a trotar num trilho técnico, constantemente a solicitar músculos para travar e mudar de direcção, tiveram o seu preço e a portagem paguei-a em Saleina, lá em baixo, com duas varas verdes a tremer em vez de pernas. Aqui nem abastecimento de líquidos havia, esperava-me antes mais hora e tal até chegar a La Fouly numa subida suave que fiz em sentido contrário no UTMB, a qual ataquei prontamente. A Sara, os miúdos e os meus pais estavam lá em La Fouly à minha espera.

Saleina - Col du Grand St Bernard
22.5km
1739+, 559-
A subida suave de 6km até La Fouly, a tal que conhecia em sentido contrário do UTMB, foi o inicio da pior fase da minha prova. Meio do dia, no fundo de um vale, o calor estava a apertar e muito. Já tinha passado mais de 6 horas desde o ultimo abastecimento sólido e quase 13 horas de prova. O trilho era muito fácil, com troços a pedirem trote, que fui entregando sempre que conseguia. De hora a hora lá tinha que parar para meter com sacrifício mais um gel. Não me posso queixar, foi para isso que lá fui, mas aqueles primeiros dois montes tinha sido de uma tal dificuldade que condicionariam o resto da minha prova. Agora pensava com aflição no resto do perfil e receava que se o nível não baixasse simplesmente podia ser de mais para mim!

A minha receção em La Fouly :)
Sentei-me no abastecimento de La Fouly acompanhado pela minha família. A Sara percebeu logo que alguma coisa estava mal. Estava desanimado e receoso, pelas razões que já vos expliquei. Mais uma vez o abastecimento não tinha nada de especial, acabei por beber o tal caldo transparente e salgado e comi alguns alperces. Mais do que abastecer com comida, nesta prova estes "checkpoints" servem como inicio e final de etapas. Aproveitei em todos para tirar a mochila, relaxar e mudar o chip para a etapa seguinte. A toda a volta já se começavam a ver cadáveres, a coisa realmente estava a apertar.

A subida seguinte levar-nos-ia novamente aos 2700m de altitude, num esticão com 1275D+. É verdadeiramente impressionante como nesta prova sempre que se fala em subidas e descidas são monstros com 4 dígitos. Uma coisa engraçada é que durante toda a prova nunca pensei na distância em quilómetros, sempre na quantidade de metros que faltavam subir ou descer. Se no relógio não levasse a indicação da distância não me tinha feito falta nenhuma. Aliás, no dorsal aparecia um perfil altimétrico, mas sem indicação de distancia ou localização dos abastecimentos, apenas as cotas mais altas e baixas!

Arranquei para o quilómetro vertical seguinte com a confiança em baixo, como já tinha dito. Felizmente foi nesta altura que a prova começou a dar algumas abébias e os trilhos foram-se tornando cada vez mais acessíveis. Esta subida até ao Col de Fenetre parecia copiada metro a metro da grande subida do Col Ferret do UTMB. Primeiro num estradão e depois num trilho limpo aos ésses que nos permitia meter um passinho certo e ir recuperando energia. 

O tal estradão no inicio
As vistas continuavam engraçaditas
Já perto do col entramos numa espécie de planalto nos 2700 metros, para subir mais alguma coisa antes de virarmos finalmente a montanha para Itália. Lá em cima, no planalto, estavam os Lacs de Fenetre. É impossível descrever aquele sítio por palavras, tão pouco com fotografias. Três lagos de um azul escuro intenso, numa espécie de cratera  ladeada por cumes cinzentos e brancos nas pontas, isto tudo a 2700m de altitude. Atrás da nossa cratera já se viam os grandes gigantes dos Alpes, como o Monte Branco ou o Cervino. Fiquei zonzo e acho que não era pelo ar rarefeito.

Nenhuma fotografia lhe fará justiça
Virada a montanha começámos a pequena descida que faltava fazer antes do abastecimento do Col du Grand Saint Bernard (sim, a terra dos cães!) que se situa mesmo na fronteira da Suiça com Itália. O ar mais fresco lá em cima tinha-me devolvido o ânimo perdido em La Fouly e a subida mais fácil permitiu-me aumentar as reservas de energia para o que aí vinha. Cheguei ao abastecimento de St. Bernard 10 minutos depois da previsão que fiz para chegada neste ponto. Mesmo com um inicio de subida muito sofrido tinha recuperado algum tempo!

Col du Grand Saint Bernard, sacado do Google. O Col, ou passagem, é o ponto mais baixo da cumeada da montanha. Uma passagem entre dois vales, sem ser no pico.
Grand Saint Bernard - Bourg Saint Pierre
14.4km
434+, 1264-
Lá em cima, nos 2500m, estava bastante frio e vento, apesar de estar sol e serem 5 da tarde. Decidi equipar-me para o frio, já que me esperava uma pequena ascensão aos 2700 antes de descermos finalmente aos 1600 onde estava a Base de Vida (76km). A passagem que nos levaria ao vale que desceríamos até à Base de Vida foi no Col Chevaux e assim que o virámos iniciamos uma descida brutal toda ela corrível por um vale imenso. A prova continuava a dar abébias e nesta altura estava cada vez mais confiante num desfecho positivo.

Inicio da descida. Reparem no bom aspecto do trilho
Oh yes, tirei uma selfie. No Col Chevaux antes de começar a descer
A descida era nova empreitada gigante, com 1250D- e quase 12km de comprimento. Aqui é tudo à grande. Felizmente o trilho era dos mais simpáticos de toda a prova e fiz segmentos muito grandes sempre a correr, até contornarmos a margem esquerda do Lac des Toules e finalmente descer um pouco mais a pique para a base de vida. Fiz esta descida quase uma hora mais depressa que o previsto. Esta é a principal diferença da X-Alpine para a Mitic, uma prova com números parecidos (110km com 9700+). A prova de Andorra não dá descanso do primeiro ao ultimo metro, é sempre difícil, já nesta dos Alpes, depois daquele inicio demolidor, havendo pernas é uma prova mais acessível. No entanto há uma coisa que me impressionou mais na X-Alpine, que é a dimensão das coisas. Todas as subidas e descidas são gigantes, é demolidor. E ainda estava por vir o maior muro que já enfrentei na vida...

Lac des Toules
Cheguei à Base de Vida, em Bourg Saint Pierre, com 19 horas de prova. Dois terços do total. Até aqui consumi cerca de 15 geis e 3 ou 4 barras e precisava desesperadamente de comer algo mais substancial. Mas já devia saber que não ia encontrar nada no abastecimento... A diferença da Base de Vida para o resto dos abastecimentos era estar o nosso saco e haver sitio para massagem. A comida era o habitual caldo salgado e desta vez havia esparguete sem nada, que meti dentro do caldo. Esta foi a parte que tive mais dificuldade em gerir em toda a prova, a alimentação. Já sabia de inicio que eram espaçados, errei ao pensar que poderia gerir como faço habitualmente que é ir metendo gel ou barras de hora a hora. Algo a afinar se me meter em nova empreitada como esta. 

Com a rapaziada na Base de Vida
Restavam duas subidas e duas descidas. Dois montes separavam-me de Verbier. Dois montes, uma noite inteira e .... um muro. 

Bourg St. Pierre - Lourtier
23.3km
1100+, 1646-
Esta era a menor subida das 5 (SÓ 1050+) e curiosamente a que menos gostei de todas. Não por ser difícil, mas os 1050+ distribuídos por 12km deixavam muito espaço para trilhos planos e pequenas descidas. Foi a única altura da prova que senti necessidade de olhar para a distancia percorrida em vez da altitude, parecia que nunca mais acabava. A subida era fácil, num trilho aberto, pouco inclinado. A encosta era muito exposta e o sol estava a por-se do outro lado do vale, só liguei o frontal já depois das 22. Estava a sentir-me bem a subir e pela primeira vez em toda a prova comecei a passar algumas pessoas. Muito perto do topo, já de noite, calculo que estaríamos a percorrer uma crista, já que o vento aumentou de repente e a temperatura diminuiu bruscamente. Por isso entrei no refugio de Mille só mesmo para reforçar as camadas térmicas e fazer-me o mais rápido possível à descida, já a tremer. Bom, também não podia fazer muito mais, só se fosse beber água!

Cabane de Mille vista de dia, sacado da net. Agora é que estou a ver que realmente percorremos uma crista, dá para ver na foto!
A descida, a segunda maior da prova (1500-) era também das mais difíceis, com excepção daquela loucura logo no inicio. Foi aqui que me apercebi de outra característica desta prova. Pela primeira vez andei muito tempo sozinho e tive necessidade de me guiar pelas marcações em vez de ir em comboio. Acontece que isto é malta que não gosta muito de meter fitas, passava às vezes centenas de metros sem ver marcações. Vejamos, elas estavam onde era preciso, ou seja, onde haviam mudanças de direcção, mas o resto do trilho era por intuição e sem marcações. Não me entendam mal, nunca me perdi, mas a meio da segunda noite, já com muitas horas de esforço, o cérebro já me começava a enganar e senti alguma aflição quando descia e descia sem ver nenhuma marcação. E esta descida não foi mesmo nada fácil... As abébias que a prova deu acabaram em Mille, agora ia ser a doer até ao fim. Novo trilho super técnico e muito inclinado. Apoiava o peso inteiro nos bastões, os quadricepes já estavam a chegar ao limite e a ultima parede não me saía da cabeça. A parte final em estradão já foi toda a andar. Não que não conseguisse pelo menos trotar, mas levantava a cabeça e via luzes tão lá em cima!!! Aí estava ele. O muro.

Lourtier - Verbier
12km
1300+, 866-
O MURO
O abastecimento final, em Lourtier, parecia um cemitério. Fui ver as estatísticas e foi onde desistiram mais pessoas. A um monte do final! Não era para menos. Ali, aos 104km, começaria a subida mais difícil de toda a prova, o Muro. Uma besta com 1250+ ganhos em apenas 5km. Sem dúvida a subida que me custou mais a fazer na vida.

Ataquei-a com a maior precaução possível, passinhos muito pequenos muito apoiado nos bastões. Fixei a cota final e fui descontando os metros até lá acima. Planeei parar para respirar de 100 em 100 metros subidos e estava confiante nessa estratégia. Tão confiante que depois de algum tempo a subir, já no limite da exaustão, pensei para mim mesmo "pronto, já subiste mais que 100m de certeza, agora mereces um descanso!". Olhei para o relógio e...tinha subido 30m! Oh oh...vamos ter problemas...

O trilho era horrível. Além da inclinação natural da subida, este praticamente não tinha pedras que poderiam servir como pequenos patamares para ir escalando. Toda o piso da subida era inclinado, obrigando a uma extensão constante dos gémeos e um permanente desiquilibrio. Evitava olhar para o relógio até estar prestes a cair para o lado porque quando olhava não teriam passado mais que 20 ou 30 metros! Comecei a parar montes de vezes. Sentava-me e deitava-me no trilho. Arrependia-me logo de seguida porque as bolhas na palma dos pés que estavam dormentes de levar tanta porrada voltavam à vida depois do mais pequeno descanso. Comecei a fazer contas e as 6 ou 7 horas para o corte deixavam-me margem para dormir ali mesmo no trilho. Lá está, o cérebro a pregar partidas... Mas pelos vistos não fui o único com essa ideia, passei por 10 ou 15 cadáveres deitados ou sentados com ar de desespero, outros a vomitar, outros a dormir ou a olhar para o vazio. Que loucura! 

Depois de subir os primeiros 400m estava de tal forma esgotado que praticamente desmaiei no trilho. Deitei-me e passou-me tudo pela cabeça. Como é que ia conseguir subir mais 800m? As pernas tremiam. Estiquei as mãos e também os dedos tremelicavam. Respirava ofegante, incapaz de controlar e acalmar. Fechei os olhos e pensei em meter um gel (o 20º do dia?) mas só o pensamento disso me fez vir o vómito à boca! Então lembrei-me que tinha uma única barra de reserva. Abri-a, sentado, e calmamente comi-a toda, enquanto bebericava isotónico.  No fim, uns 10 minutos depois, levantei-me decidido a subir 100m de seguida antes da próxima paragem. Foi então que comecei a falar sozinho.

Comecei a subir e a falar com os franceses e suiços. Aqueles que tentei meter conversa em inglês durante toda a prova e nunca me responderam. Não queria saber, agora iam ouvir. Falei-lhes de tudo. Da subida, da prova, das outras que já fiz, falei-lhes de quando estive em dificuldades iguais noutras ocasiões e tinha acabado por conseguir superar. Depois fiquei sozinho e acabei a falar com a Sara e os miúdos. Com os companheiros que estavam em Andorra na altura, com os meus amigos das madrugadas de Almeirim. Falei, em voz alta, com eles todos. Enquanto falava desviava a atenção do esforço que estava a fazer. Não me lembrava de olhar para o relógio e os metros iam passando e passando. Quando finalmente olhei tinha subido bastante mais do que esperava, pensei em parar, mas estava a ter uma conversa tão boa com uma árvore que não quis interromper.

De repente o cansaço transformara-se em raiva. Já não tinha conversas alegres com os montes, mas chamava-lhes nomes e dava gritos de desafio. 

AH! Tá quase, cabrão! Manda-me o pior que tiveres!! 

A verdade é que o filha da mãe do monte já não tinha muito mais para me mandar para cima. Estava conquistado o Muro! Quando vi a cabana de Le Chaux ainda acelerei mais o passo. Até cheguei a trotar no estradão mesmo antes do refúgio! Lá dentro enviei a seguinte mensagem à Sara:

Também não ia censurar, né..
Mas é claro que ela se levantou às 4 e meia da manhã para me esperar em Verbier. Claro que estava lá ao frio, de madrugada, enquanto eu descia de raiva os 800- que me faltavam. Praticamente sozinha na meta, só com duas ou três pessoas da organização, a ver o sol nascer por trás da montanha, enquanto eu percorria os quilómetros finais, bastante difíceis por acaso. 28h50, 111km e 8400D+ depois de me ter deixado na meta recebeu-me de braços abertos em mais uma conquista. Estava feito. A X-Alpine estava domada.


A comitiva toda no nosso Airbnb

26 comentários:

  1. Simplesmente Bru-tal! Que relato...
    Parabéns!

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  2. Bem...quase sem palavras. Talvez a que me ocorra seja ...Demasiado! Demasiado longo! Demasiado duro! Demasiado perigoso! Demasiado belo! Demasiado fantástico e demasiado encantador o teu relato! Demasiado comovente até! Belíssimo, Filipe! Obrigada por nos trazeres um cheirinho desta epopeia com a tua partilha! Muitos Parabéns para ti e para a tua família que te acompanha assim! Muito bonito, comovente e muito inspirador também!Beijinho e boa recuperação.

    Ah...e ainda...demasiados cadáveres pelo caminho, ah ah ah - adorei e o filme inteiro passou na minha cabeça! Fantástica forma de nos "levares" lá!

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    1. Ahaha obrigado, Ana! Tens razão! No fim de publicar fui reler e realmente usei as palavras cadáver e cemitério vezes de mais, está um bocado macabro eheh agora é treinar para as lampas! :)

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    2. Recupera mas é! As Lampas? Fazes aquilo com uma perna às costas! Quais "rampas" qual quê! Vais voar na pista que é o asfalto por ali, apesar do sobe e desce a arrancar lamúrias e lamentos aos "meninos"!

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  3. Estou de mau humor e doem-me os quadriceps. Foi de certeza qualquer coisa que eu li.
    Bottom line: foste muito forte.

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    1. Ahah tens que começar a ler de bastões para poupar os quadricepes!

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  4. Só conheço gente doida versão 3000 ...
    Parabéns

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  5. Fonix.. Que dizer depois de ler isto? Não tenho palavras...

    Um grande abraço de parabéns!!!

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    1. Obrigado, amigo :) um abraço. Que comece a caminhada para a maratona!

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  6. Ganda Filipe … mais um excelente relato que me colocou lá, ao teu lado. Muitos mas mesmo muitos parabéns por mais esta grande conquista. E ficou claro que isto não é prova para mim … tenho vertigens ;) … só acho que reclamas pouco dos abastecimentos*!!! Bem … os teus relatos são inspiradores, consigo mesmo sentir o que descreves e gostando mesmo muito de tudo há um factor que me deixa sempre a lagrimazita a querer saltar do olho … o acompanhamento da Sara e dos miúdos … absolutamente fantástico - tb eles estão de parabéns!!! Abraços para todos vocês!!!

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  7. * no GP de Santa Maria de Lamas que organizamos este fim de semana (estrada, 10km) tivemos uma pessoa a reclamar de 3 coisas:
    - muitas subidas (ver se para o ano conseguimos alisar o terreno)
    - poucos abastecimentpos de água (levaram uma garrafa de agua antes, um abastecimento aos 5km e outro no final … para o ano vamos colocar um de km em km e talvez um porco no espeto de 2,5 e, 25km)
    - que no ano passado demos um queque no final e este ano uma maça (para o ano estamos a pensar num pão-de-ló de ovar de 1kg para cada um)

    Pronto … acho que reclamas pouco, és pouco exigente … era só isto

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    1. Ahaha eu nem queria ir por aí, para não haver Malta a dizer “ah o pessoal em Portugal está é mal habituado! Lá fora só dão casca de pinheiro e ração de cão!”. Acho que temos é que nos adaptar às circunstâncias. Claro que essas exigências na vossa prova são parvas.. mas o que é que vamos dizer? No meu caso, apesar de ter sido um factor importante, não culpo a organização. Eu é que devia ter ido preparado de outra maneira. Ainda hoje me vem o vómito à boca só de pensar em gel! Obrigado grande perneta!

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    2. Eu sei ;) … lembro-me bem de uma posta em que te cruxificaram, acho que por causa de uma das provas na Lousã :):):)

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  8. Bolas, que prova assustadora e ao mesmo tempo maravilhosa, essas paisagens são lindas... E o teu relato é tão perfeito que houve alturas em que senti a cabeça a andar à roda por causa das vertigens, e agora estou com fome!!! Só espero que o Gajo não leia este relato, ainda vai ficar com ideias...
    E é claro que a Sara ia esperar te na meta, até aposto que ela não dormiu ou descansou durante o tempo que passaste na montanha.
    Parabéns!! E agora??? Qual é o próximo??

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    1. Agora acho que vou estar um tempo sem me meter nestas versões hardcore de provas de 100km.. talvez uma mais acessível! Uma pessoa anda desde o início a ganir eheh bom, se calhar isto é só conversa por ainda estar a recuperar :) não tenho dúvida que iam adorar os Alpes. Aquilo é outro mundo

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  9. Não ha palavras para descrever a prova...duríssima e mesmo assim...
    Foste ainda mais rijo que a montanha 💪 os meus parabéns pela prova.

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  10. Que viagem e pêras. Só por essas paisagens o empeno valeu a pena, são fantásticas.
    Adorei o relato por completo, como já nos habituaste. Contudo, esta última fase em que lutas contra o monte, e contra todas as adversidades foi a que mais gostei. Uma luta acesa, e novamente vitória.
    Foste grande. Em relação à tua família, também eles, foram grandes. Como sabe bem sempre a presença de alguém numa empreitada desse tamanho.

    Boa recuperação

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  11. Épico!

    A prova, o relato, as expressões usadas (muito Walking Dead, não?), a maneira como descreves a ultima subida, esse apoio familiar (muitos mas muitos parabéns), tudo isto, épico.

    Não é prova para mim definitivamente...se há muitos anos fartei-me de dizer palavrões numa prova de 80 metros, faço ideia nessa ultima subida.
    Por outro lado, não deverá haver por aí juízes de prova e quanto aos franceses e suíços...aprendiam alguma coisa :)

    Uma das coisas que mais confusão me faz, talvez por nunca o ter feito, é a descrição das passagens nas cristas, inclusive com zonas ferratas. Medo, medo, medo.

    Ah, na próxima selfie, por favor, tens que fazer um V de vitória e fazer um sorriso espectacular, quanto fazes pose.

    Assim até parece que estavas, sei lá, derreado.

    Grande abraço.

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    1. Ahah tenho muito para evoluir ao nível da selfie! Na verdade tirei 4 ou 5, esta foi a única que se aproveita minimamente. Passar nas cristas é o equivalente de um surfista fazer um tubo. É para aquilo que lá ando. Pode parecer arriscado, mas é mesmo o coroar do esforço. E é lindo! As vias ferratas normalmente não são muito perigosas, mas há casos que são realmente, este foi um deles. É uma adrenalina do caraças!

      Como disse à maria, só me apercebi da utilização de termos tão macabros depois de publicar e reler ehehe acho que foi o subsconsciente a falar, deve ter andado pior do que me lembro!

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  12. Foi leitura de um só fôlego de tão entusiasmante. Parabéns por mais uma conquista épica. Que evolução desde que te vi a primeira vez (eu quase a morrer...) próximo do pico do Arieiro no MIUT. Vais ditando para o gravador cada metro que fazes do percurso ??? quase nos transportas para o local. Forte abraço.

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    1. Obrigado, Luís! Nunca mais me vou esquecer desse momento. Eu então já estava bem mais para lá do que para cá eheh curioso que nesta subida final enquanto me lembrava de alturas em que tivesse estado pior do que estava essa foi uma delas. Quanto a lembrar-me das coisas, faço batota. Escrevo logo a seguir não custa nada :) assim é como se lá estivesse a passar outra vez eheh um abraço

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  13. Grande Filipe!
    Ainda bem que superaste os problemas físicos - antes da prova - e levaste de vencido mais este desafio!

    Obrigada por partilhares connosco essa tua aventura, em mais uma excelente crónica!

    Parabéns e boa recuperação! Beijinhos

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  14. Fantástico! Mais uma vez!
    Um gajo fica cansado só de ler este texto...
    Parabéns!

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  15. Bela prova, Filipe.

    Grande dureza. Gostei muito do teu relato e da forma como demonstras o teu foco e preparação para a prova.

    Também é interessante perceber e saber que os PA's desta prova, em comparação com as provas em Portugal, são muito diferentes. Mas é assim mesmo, não existem mordomias nem buffets nas provas.

    Como foi o dia seguinte depois de tomar 20 géis? É muiiiitoooo... :P

    Grande abraço e muitos parabéns pela prova e pela fantástica crónica!

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  16. Sílvio Hortajulho 17, 2018

    FODA-SE! Até fiquei KO com a dureza da prova! Grande máquina que és! Muitos parabéns! Deve ter sido fantástico ter a família a acompanhar. Boa recuperação. Abraço

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  17. Isto merece uma adaptação para filme, com muita música épica! Eu nem imagino o que isto é, está fora do meu universo conhecido... grande relato, com muita informação e emoção. Abraço!

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