As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Ultra Trail Serra da Freita (100km) - Sangue, Suor e Lágrimas.

Não sei quem nomeou aquela subida a seguir à aldeia de Covas do Monte, no quilómetro 50, mas não podia ser mais apropriado para o que se passou no sábado. A Freita já se tinha apresentado, mas até ali vinha forte física e psicologicamente. Estava a ser tudo o que diziam e mais alguma coisa, uma loucura que não dava 1 metro de descanso, mas a minha prova estava a correr bem! Até que, no fundo do vale antes da subida, pico do calor, uns minutos depois de ter tomado banho numa bica, limpei a cara com o braço. Quando olhei para o braço estava vermelho. Vermelho sangue. Começou no Portal do Inferno a minha viagem às profundezas da Freita.

Atingi um novo baixo neste post. Fui roubar fotografias ao Miguel Cadalso da prova do ano passado. É verdade, não tirei uma única. Pior. Blogger. Do Mundo. Querem saber o que é esta foto? Têm que continuar a ler)
Nove horas antes, às 6 da manhã, o tempo ainda estava fresco. Éramos cerca de 150 prestes a enfrentar os 100km da mítica UTSF. A Freita era uma pedra no sapato para mim, andava há anos para a fazer, mas por estar nalguma prova no estrangeiro ou coincidir com outras que também queria ir, a minha estreia acabou por acontecer apenas na 14ª edição. Hoje, depois de tudo o que se passou nas quase 24 horas que lá andei, acho que foi na altura certa. Apesar de tudo o que ouvi sobre a prova, e foi muito, nada me podia preparar para aquilo. A Freita é tudo o que diziam e muito mais!

Sim, voltaram as imagens do perfil com os risquinhos vermelhos. Desculpem mas é uma maneira de eu não me perder no percurso.
Começámos de mansinho, na subida mais longa e mais fácil de toda a prova. Um tricotado de trilhos de terra escura, com pouca pedra, no meio das árvores, levou-nos até ao miradouro da Freita, no Detrelo da Malhada. A meio dos 800 e poucos metros de subida ainda passámos pelo Moutinho, ele próprio tão mítico como a prova, cujos gritos se ouviam a centenas de metros. Havia de me cruzar com ele várias vezes durante o percurso.

Enquanto me cruzada com o Moutinho. Foto do Paulo Nunes.

Detrelo da Malhada. Foto do Paulo Nunes.
A Freita começou a mostrar-se no planalto seguinte, que percorremos antes de descer ao segundo abastecimento. Gostei muito desta parte, trilhos difíceis mas bons de correr, com pouco desnível e muita pedra. O esforço para fugir dos estradões era óbvio, à medida que nos embrenhávamos em paisagens mais graníticas, com passagem entre gargantas de pedra cinzenta. As facilidades continuaram na descida ao Tebilhão, segundo abastecimento, aos 21km. Vejam bem que a certa altura fizemos um estradão que devia ter perto de 1km, sempre debaixo de sombra, fresquinhos!



Da Malhada até ao Tebilhão
Apesar do percurso até aqui ser, digamos, amigável, nesta fase da prova não me estava a sentir muito bem. Tinha acordado com dores no peito e tosse e estava a custar-me entrar na prova. Nada de novo, já passei por isso. No Tebilhão comi uns quadrados de pizza e enchi os flasks pela segunda vez, nunca levei tão a sério os cuidados com a hidratação, estava a beber água mesmo sem sede desde o início.

Se bem se lembram da descrição da Alice, a Freita ia começar aqui, depois do Tebilhão, na separação das provas. O que se seguiu até à Base de Vida foram os 35km mais inacreditáveis da minha vida. Sem comparação com o que quer que seja que já tenha feito. Só para perceberem, demorei 10 horas a percorrê-los! A Alice dizia, e bem, que estes 35km são A prova. Não podia concordar mais com ela! Vamos então começar.

Tebilhão até Covêlo do Paivô.
A primeira etapa seria a do Rio Paivô. A seguir ao abastecimento descemos primeiro por umas aldeias e logo nos embrenhámos num PR chamado Caminho do Carteiro. Um trilho não muito difícil, com toros de madeira enterrados no chão a fazer de degraus, que nos embalou para caminhos esculpidos na encosta cada vez mais inclinados. Fizemos uma primeira abordagem ao fundo do vale junto ao Rio de Frades, nesta garganta passámos por instalações mineiras abandonadas muito interessantes, tivemos que atravessar uma mina abandona onde só se via com um frontal, e voltámos a sair do vale. A próxima pequena descida levou-nos finalmente ao mítico Rio Paivô.

Trilhos esculpidos na encosta. Foto do Miguel Cadalso.

A mina abandonada, pelo Miguel Cadalso.
Os 3km ao longo do Rio Paivô são dos segmentos mais conhecidos do UTSF. Por esta altura já toda a gente terá visto as imagens de pessoas a atravessarem o rio agarrados a uma corda com água pelo meio do peito, mas o que não viram foram as centenas e centenas de metros que se fazem antes de chegar a esse ponto. Foram dezenas de travessias do rio, milhares de saltos de rocha em rocha, correntes e vias ferratas, cada passo medido milimetricamente para não escorregar. Foi o trilho plano de mais difícil progressão por onde passei e adorei cada metro. Curiosamente foi este o trilho que me acordou para a prova! As dezenas de banhos (e atenção, quando digo banho é mesmo da cabeça aos pés) revigoraram-me, bebi água do rio cada vez que o atravessava e sabia tão bem, fui ficando cada vez mais motivado e bem disposto, vinha só a pensar que a próxima vez que visse o Moutinho lhe ia dar os parabéns e agradecer por ter metido aquilo na prova!

Um exemplo do tipo de caminho onde andámos junto ao rio

A tal travessia da cordas. Nesta fotografia está o meu amigo Rui Nascimento, na prova do ano passado, claro. 
Encontrei-o logo a seguir ao trilho, no terceiro abastecimento, em Covêlo de Paivô. Claro que fiquei com vergonha e não lhe disse nada, mas pode ser que ele leia isto.

Eu, a chegar ao abastecimento do Covêlo. Foto do Paulo Nunes.
Com 32km estava finalmente dentro da prova. No abastecimento comi uma pratada de esparguete com atum que me soube espetacularmente bem. Bom sinal, estava a comer e beber bem desde o início e sem sinal da coisa fechar. Com cabecinha e a coisa vai lá, pensava eu.

Covêlo do Paivô até à Pena
Saí do abastecimento e ataquei a etapa seguinte com a confiança no máximo. Estava a subir bem, num trilho daqueles que gosto, em caminhos de pedra de granito arrumada. Subia a bom ritmo e metia trote quando o terreno deixava. A parte final, antes de virar para a descida, foi feita no leito de um rio quase seco, onde corria pouca água, já perto do planalto. Muito bonito, parecia um oasis no meio da paisagem agreste da serra.

Nesta altura tudo me maravilhava na prova. Até a descida seguinte, que nos levou até Regoufe me encantou, com as suas pedras soltas, o xisto a ferver e inclinação brutais. Um bocado mais difícil que as outras, pensava eu, mas não há-de ser nada. A Freita é linda e eu quero é chegar à Escarpa para ver se é assim tão difícil!

Miguel Cadalso

Miguel Cadalso
A escarpa é aquele primeiro montículo no perfil ali em cima. Gostava de vos dar os dados da subida, mas é tão inclinada que quando mexo o cursor no Strava ele passa logo para a descida! Uma alarvidade de subida, curta e grossa, onde íamos a ver a sola dos sapatos do colega da frente. Não devia ter mais que 200+, mas a inclinação era certamente sempre a rondar os 40%. Nesta subida baixei um bocado a crista, a prova começava a cobrar o seu preço.

A parte final da escarpa pelo...sim, Miguel Cadalso!
O calor apertava e o meu litro de água, que durava desde o ultimo abastecimento, estava perigosamente perto do fim. Antes da Pena ainda faltava a famosa subida das Almas Penadas, tinham-me dito que havia uma bica de água na base desta. Estava a contar com isso quando sorvi o ultimo gole do flask ainda na descida da Escarpa. Ainda passaram uns 15 minutos até a encontrar, o suficiente para perceber que ficar sem água nesta prova seria o fim. Foi um alívio quando vi a torneira. Molhei a cabeça e o corpo, bebi meio litro de rajada e voltei a encher os dois flasks para a subida. Faltavam 3km para o próximo abastecimento, mas haveria de lá chegar novamente seco. Sim, o dia estava assim tão seco e quente!

As Almas Penadas foi tudo o que me tinham dito e muito mais. A subida típica da Freita: curta (a rondar os 400+) e grossa (esta tem segmento do Strava, por isso consigo ver os dados: 400+ em 1.5km!). Esta tem a particularidade retorcida de por 3 vezes parecer que já se vê o pico e depois quando lá chegamos temos mais um bocado pela frente. Dizem que o homem da marreta estava por lá, mas o que eu senti foi o calor a apertar, e muito, naquela encosta completamente exposta. No entanto virei-a calmamente e fiz-me à descida, mais uma vez ultra técnica, que é como quem diz, cheia de pedra de todos os tamanhos, muitas vezes sem trilhos, com inclinações brutais.

Almas Penadas vistas de cima. Sim, já conhecem esta foto do post da Alice

Por esta altura havia uma característica da Freita começava a ser evidente, eram raríssimos os trilhos confortáveis, o caminho era sempre super agreste e de difícil progressão. O pé nunca assentava por completo, estávamos sempre em desequilibro! A consequência mais imediata deste facto era a destruição total dos pés. É inevitável, não acredito que haja uma única pessoa que faça esta prova, ainda para mais num dia de calor, que acabe bem dos pés. Entramos e saímos da água centenas de vezes, os pés aquecem brutalmente por causa da temperatura ambiente mas principalmente pelo xisto que emana quase tanto calor como o sol, os pés literalmente cozem dentro das sapatilhas, as solicitações são de todo o tipo.. É uma combinação letal. Ainda assim, mesmo a chegar à Pena passamos por um ribeiro e o que é que eu faço? Pois claro, entro lá pra dentro e molho-me todo :)

Exemplo de uma descida tipica da prova. Também da Alice.
O abastecimento da Pena estava instalado na esplanada de um restaurante muito giro. Uma rapariga serviu-me uma sopa de legumes com massa e perguntou-me se queria cerveja ou água. Sentei-me à sombra e comi dois pratos da deliciosa sopa. O estômago continuava a 100%. Excelente. Aqui já vi algumas desistências e muitas pessoas em mau estado, felizmente não era o meu caso. As 8 horas de prova estavam a ter os seus efeitos, principalmente nos pés, mas continuava a comer e beber bem e sentia-me com força. Siga lá então.

Pena - Portal do Inferno
Estava prestes a fazer uma das únicas partes que já conhecia do percurso, a subida do Portal do Inferno, que percorri no Pisão o ano passado. Na altura adorei a subida, por isso parti motivado. Depois de superada uma pequena subida iniciei a descida que me levou até Covas do Monte. Foi aqui a primeira estocada. Talvez a mais difícil de todas, ou pelo menos uma das que me afectou mais. Quase a direito, cheia de pedra de todos os tamanho, sem a mínima hipótese de descer confortavelmente. Desci de maneira atabalhoada por entre o xisto pontiagudo, espetado na terra. Quando comecei a ver Covas do Monte estava abananado, não só pela violência da descida como pelo calor intenso das 3 da tarde. Parei numa bica na aldeia, mesmo na base da subida. Molhei-me todo, enfiei o chapéu com água na cabeça, voltei a encher os flasks e tomei um gel. Estava sôfrego, desconfortável... Era hora de subir ao Inferno.

Uma foto minha a subir o Portal do Inferno, pelo Friz Fritz. No Pisão. Sim, é o desespero por fotos. 
Meti o passo igual ao de todas as subidas: curto e seguro. O trilho desenhava-se numa incrível garganta, esculpida por entre duas encostas muito íngremes. Um trilho abismal, talvez o meu sitio preferido de toda a prova. Estava com aquele sabor esquisito na boca por causa do gel, cuspi. Algo se passava, o cuspe estava vermelho escuro, o gel era branco, não tinha comido nada.... Voltei a cuspir. Vermelho, outra vez. Limpei a boca com o braço, quando olhei para a mão estava toda vermelha. Sangue.

Assustei-me e parei. Assoei-me para o chão, voltou a sair sangue. Limpei a cara e voltei a ficar com o braço todo vermelho. Fiquei um bocado em pânico, mas tenho que confessar que o primeiro pensamento foi limpar antes que alguém visse e me obrigasse a parar! Assim foi, fui para um ribeiro (há sempre algum à mão na Freita), bochechei, lavei a cara e as mãos e a coisa parecia ter ficado controlada. Fiz um check up mental, não me sentia tonto nem em fraqueza, atribuí aquilo ao facto de estar cheio de dores de peito e a tossir, mas ainda não consegui perceber o que se passou. Terá sido do calor? Se alguém tiver uma teoria, que me diga.

Voltei a subir, mas algo tinha mudado. Não sei se fisicamente, mas algo estava diferente. Sentia-me pouco confiante. O vermelho não me saía da cabeça, pensamentos negativos começaram a minar-me. Será que é prudente continuar? Será que isto é alguma coisa séria? Estarei desidratado? Será que não é melhor.....desistir?!?

E pronto, a semente estava plantada. Desde o instante em que pensei que talvez fosse melhor desistir a minha prova virou. Nunca mais me consegui livrar disso. Continuei a subida imerso em pensamentos negativos, cabisbaixo, nem olhei para a paisagem. Mesmo antes de chegar ao topo, novo revés. Decido ir fazer xixi e reparo que este está castanho escuro. Novamente ligeiramente em pânico, nunca me tinha acontecido tal coisa! Estava a beber água abundantemente, mas seria desidratação? Não sei, mas era mais um sinal, mais uma facada na confiança. Comecei a projectar na minha cabeça os cenários para a desistência vezes e vezes sem conta.

Alguém a sair do Inferno, numa foto que a Alice mandou, provavelmente da prova do ano passado...
Cheguei atónito ao abastecimento e sentei-me logo. Tinha que conseguir comer, felizmente esse aspecto ainda estava a 100%. Comi bem e rematei com uns bons bocados de melancia. A semente da desistência estava plantada, não havia volta a dar, mas decidi continuar pelo menos até à Base de Vida e depois decidir. Afinal de contas, a parte da comida e bebida estava a correr bem, podia ser que a coisa virasse.

Portal do Inferno - Póvoa das Leiras

A Alice avisou-me que a descida para Drave era abismal e não desiludiu. Já conhecia esta zona de quando fiz o Pisão, as encostas aqui são inacreditáveis. Ao longe dava para ver a Garra, que haveríamos de subir ainda nesta etapa, mas até lá chegar tínhamos que descer abruptamente uma encosta, sem trilho, percorrer um vale até Drave e finalmente subir pelo trilho dos Três Pinheiros. 

Embalado pelo descanso e comida do abastecimento, consegui descer bem até Drave, mas as pequenas subidas até chegarmos à base dos três pinheiros já eram todas feitas de maneira muito sofrida. Esta parte da prova até tinha vários sítios que dariam para meter um bom trote, mas eu estava totalmente afectado psicologicamente. Constantemente a pensar na desistência, a pensar no sangue e na urina, quase à procura de uma desculpa para parar. Arrastava-me cada vez com mais dificuldade, até que comecei a sentar-me no trilho para descansar. Tanto a subir como a descer, já começava a desligar a máquina, era só chegar à Base de Vida e atirava a toalha ao chão, mas primeiro ainda tinha os Três Pinheiros para subir.

Drave
Trilhos à saída de Drave, numa foto sacada da net que o Rui Nascimento me enviou.
A subida é feita pela crista de um dos dedos da Garra. É lindíssima. Uma subida bem a meu gosto, não demasiado inclinada, 400+ em 2km (lá está, a subida típica do UTSF), sem trilho, pela encosta exposta. 

Antes de me fazer a ela tive que encher os dois flasks num ribeiro, já estava no limite e era muito perigoso começar a subir sem água. Sei que não é muito aconselhável beber água directamente do rio, mas devo ter bebido em todos os ribeiros da serra!

A subida acabou por me fazer bem, continuava a conseguir avançar bem no terreno e não perdi demasiado tempo nela, apesar de ir bem devagar. Foi-se conquistando, até passar pelos dois grandes pinheiros esbranquiçados (reza a lenda que o terceiro não resistiu ao Moutinho) isolados no topo da montanha. Ainda antes do abastecimento percorremos o inacreditável Trilhos dos Incas, esculpido numa encosta granítica, cheio de escadas e com um precipício de um dos lados. Só me fez lembrar a Madeira e o caminho entre os picos! 

Fotografia abismal do Cadalso no trilho dos Incas. Prova do ano passado. 

Adivinharam? São os Três (dois) Pinheiros! 
Na Base de Vida estava à minha espera a comitiva almeirinense que tinha ido aos 26km, o Rodrigo, Bastos, Dourado, Chico e Simão. Que luxo! A meio dos 3 pinheiros tinha ligado à Sara a dar conta da minha ideia de desistir, que tinha estado a sangrar há umas horas. Muito má ideia. Deixei-a a ela e aos meus amigos preocupados, o que ficou reforçado quando me viram a cambalear com mau ar antes do abastecimento. Lá troquei de roupa, comi e fiz-me ao caminho, com a promessa de que se acontecesse outra vez pararia de certeza.  

Póvoa das Leiras - Bondança
A Besta. Finalmente, a Besta. Anos a ouvir falar dela e agora estava finalmente à minha frente. Tenho que dizer que não desiludiu nem um bocadinho, para mim foi a melhor subida da prova e uma das mais espetaculares que já fiz! Subimos pelo leito de um rio, que quando corre deve fazer mesmo uma cascata, enfiados num vale debaixo de árvores. Nada mais nada menos que 400+ em menos que 1km. Quase 50% de inclinação média! Um absurdo. Subida a pés e mãos, autentica escalada. Ainda corria alguma água, por isso vários pontos foram feitos com as mãos e pés dentro de água, em rochas com musgo, agarrados a tudo o que oferecesse alguma resistência! Uma brutalidade! É impossível descrever por palavras, mas vejam este video que o Rui Nascimento me mostrou, já ficam com uma ideia.

A BESTA. O melhor é verem o video. Ou, ainda melhor, irem lá!
Cheguei ao abastecimento de Bondança, 71km, já com lusco fusco. Sentei-me cabisbaixo e estive ali uns minutos em silencio antes de começar a comer. O pensamento de desistir continuava bem presente, reforçado pela chegada da noite. A perspectiva de passar uma noite inteira em prova era exasperante. Como sempre acontece quando chego à parte final das provas, começo a descurar a alimentação. Não é que estivesse a deixar de comer, mas quase nunca me apetece e não faço um esforço, deixo andar. Antes de sair ainda perguntei no abastecimento se se quisesse desistir haveria algum ponto bom no caminho para me irem buscar, mas responderam-me que não, que até à Lomba, próximo abastecimento, era sempre no mato. Enfim, vamos lá ver o que dá...

Bondança - Lomba
Não sei se a descida que nos leva até às Porqueiras, aquele ponto mais baixo no perfil, tem algum nome. Mas devia ter. Gostava de chamar pelo nome a filha da mãe da descida que fez parecer a da Degolada uma brincadeira de crianças! Faço esta comparação com a descida da Madeira porque a parte final é muito parecida, num trilho de terra com muitas raízes e uma inclinação brutal. Parecia interminável, à medida que nos íamos afundando no vale até à cota mínima de toda a prova. 

A subida pelas Escadas do Martírio fez-nos chegar ao abastecimento da Lomba, uma aldeia isolada na serra. Mais uma subida clássica da Freita, com os seus 400+ da praxe, esta foi feita quase toda em degraus de pedra, de todos os tamanhos e feitios, mais uma vez a fazer lembrar a Madeira! Confesso que esta não foi das que achei mais difíceis, os degraus são bons para bastonar e é tipo a besta, a inclinação é tanta que aquilo passa de repente!

Escadas do Martírio, fotografia da Alice, provavelmente no Inverno. Este ano não tinha tanta água.
Cheguei à Lomba e a previsão da Alice estava certa, cheirava mesmo muito mal e a canja soube mesmo muito bem! ahah Sentei-me a comer, ligeiramente mais animado. A subida tinha-me corrido bem e estava a conseguir progredir relativamente bem nas descidas. De costas ou de barriga havia de conseguir virar aquilo. Mal sabia eu que ainda havia de....sim, adivinharam, de BRADAR AOS CÉUS!

Da Lomba a Albergaria da Serra
Saí da Lomba, reconfortado pela canja e bifana, em direção ao Pico da Gralheira, que já conhecia do Freita SkyRunning. A subida, baptizada de Bradar aos Céus, era mais uma clássica do UTSF, com os seus 400 e tal de desnível positivo. Mas se já estava a levar uma grande abada da Freita, ela aqui fez-me um TKO. Todas as gotas de energia e pensamento positivo que ainda tinha ficaram naquela encosta inclinadissima, naquele trilho demoníaco que parecia cada vez mais absurdamente difícil. 

Adoptei a estratégia das grandes subidas e decidi descansar a cada 100 metros subidos, mas estava cada vez mais difícil lá chegar. A cada paragem me custava mais recomeçar, já que as feridas nos pés acordavam ao mínimo sinal de descanso. Se tivessem sempre a andar iam adormecidas. Nesta pequena subida passaram-me pelo menos 15 pessoas, tinha dado um verdadeiro estoiro e o pensamento da desistência estava mais forte que nunca.

Virado o pico ainda tínhamos mais uns obstáculos antes de chegar ao abastecimento de Albergaria da Serra. Primeiro um planalto, que fiz a andar devagar, depois uma descida das Pedras Parideiras, onde ainda em Outubro no SkyRunning passei a voar, mas que aqui fiz a andar e, finalmente, porque o sofrimento não era já suficiente, ainda nos fomos enfiar no ultra técnico PR7! Meu Deus. Quando entrei no abastecimento tirei imediatamente a mochila e procurei um sitio para me deitar. Indicaram-me um colchonete. Perfeito. Estiquei-me e...adormeci!

Pumba, tirei uma selfie no abastecimento. Estava com bom aspecto!
Acordei passados poucos minutos, completamente derrotado. Mantive-me de olhos fechados uns minutos, enquanto ouvia as conversas à minha volta. Lá me sentei, enquanto lutava interiormente com o tentação de ficar ali. Justificava a mim mesmo que era o melhor, que não estava a ter prazer nenhum, que ia ser só sofrer até ao fim, que nem merecia acabar a prova, que tinha os pés destruídos, que o sangue e o mais não sei o quê e bla bla bla... Tudo a pesar do lado da balança que dizia para desistir. No outro prato estava algo que o Helder Baptista me disse há uns anos no Estrela Grande Trail, provavelmente a ultima prova onde passei assim tão mal. "Filipe, cansaço não é razão para desistir, cansados estamos todos!" Pois, Hélder. Tens razão. Vamos lá virar esta merda.

Albergaria da Serra - Arouca
Levantei-me, olhei para o relógio e fiz as contas ao que faltava. Cerca de 13km, 8 deles a descer. Calculei que se fizesse aquilo tudo a andar (não tinha outra hipótese) demoraria umas humilhantes três horas, no máximo. Que seja, de qualquer maneira para o corte ainda faltavam quase 8 horas, havia de lá chegar. 

Mas custou tanto... Normalmente nas partes finais das provas grandes, mesmo quando estou completamente derrotado, vou encontrar alguma energia para fazer as ultimas descidas a correr. Mas não foi o que aconteceu aqui. Foi um martírio absoluto fazer aquela descida. Na parte inicial, a mais inclinada e com mais pedras, parei de 100 em 100 metros. Não eram 100 metros de desnível negativo, eram de distância! A cada passo tinha dores horríveis nos pés, que aumentavam pelas dezenas de vezes que voltei a passar por dentro de água. Quando chegámos à estrada comecei a correr mas não conseguia fazer mais que 200 metros de seguida. 

Completamente de rastos, derrotado, humilhado e sovado pela Freita. Já com o sol a nascer subi as escadas do pavilhão muito devagar, sem sequer pensar em correr até estar mesmo à porta. No pavilhão, quase deserto, estavam ainda o Moutinho e a Flor Madureira, à espera de todos os que ainda estavam em prova. Há muito tempo que não acabava uma prova assim, derrotado. Senti durante muitas horas que não merecia sequer estar a entrar naquele pavilhão. Desde então tenho pensado muito em tudo o que aconteceu, consigo arranjar mil desculpas esfarrapadas para a prova não me ter corrido como eu imaginava, mas no fundo eu sei que não há desculpas. Parece que, nesta prova, a montanha ganha sempre, mas no fim alguns conseguem sobreviver.

A camisola.
Quase 24 horas depois de partir, cruzei a meta e recebi a medalha das mãos do Moutinho, que me a colocou no pescoço e disse-me, olhando-me nos olhos: "Hoje cobriste-te de glória. Parabéns."




36 comentários:

  1. SUBERBA DESCRIÇÃO...APETECE ENTRAR NESSA AVENTURA, "NEGRA" MAS FERVILHANTE....PARABÉNS

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  2. Puta que pariu … desculpa, mas é o que me ocorre. Nem sei o que te diga … que brutalidade Filipe. Essa medalha das mãos do Moutinho foi totalmente merecida … muitos mas muitos parabéns e obrigado por esta descrição absolutamente brutal.
    Aquele abraço e boa recuperação

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  3. Fantástica descrição como sempre.
    É de facto uma serra devastadora, vê-se mesmo que tudo foi pensado ao pormenor para destruir quem a atravessa. Tudo pensado ao detalhe.
    Estive nos 65Km, e o sentimento também é o mesmo, apenas sobrevivi.

    Boa recuperação. Abraço

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    1. Mesmo isso, tudo pensado ao detalhe! Parabéns pela tua prova!

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  4. Que descrição incrível! Os teus relatos são sempre excelentes e este ainda nos leva mais para lá, contigo, na tua luta.

    Não consigo sequer imaginar o que seja fazer uma prova com esta dureza. Fui tentando acompanhar pelas redes sociais e pelo site da prova, e só pensava o quão duro devia estar a ser, ao ver os teus tempos de passagem nos vários pontos. Não imaginava eu o quanto!

    Percebo o teu sentimento no final. É um sabor agridoce (ahahah), cortar aquela meta mas sentires-te derrotado. Não é uma questão de desculpas. Tu sabes perfeitamente o que correu mal. E também sabes que, dadas as circunstâncias, muita gente teria desistido. Talvez tivesse sido sensato, teres desistido. Mas tu não o fizeste. Porque tu não desistes. Mesmo com a moral em baixo, mesmo com o psicológico afectado, mesmo com dores, mesmo em desespero, tu continuaste, quilómetro após quilómetro. Podias ter desistido e não o fizeste, Filipe. Não te esqueças disso!

    Não fizeste a prova que gostarias de teres feito, mas superaste um desafio incrível ao alcance de muito poucos. Mereceste aquela medalha e mereces sentir-te orgulhoso!

    Cá estaremos daqui a um ano, para ler a tua desforra à Freita ;)

    Boa recuperação!

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    1. Eish, nem consigo pensar nisso de voltar eheh Pois, ainda nunca desisti, mas esse dia chegará inevitavelmente. Se calhar mais valia ser mais cedo que tarde, nem imagino como vai ser quando acontecer!

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  5. Bem...sem palavras!!! Sigo os teus trilhos e a cada descrição fico mais tua fã. Uma loucura saudável, um bichinho que fica...
    Obrigada Filipe. Um dia, quem sabe, nos cruzaremos na Freita😉👍

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  6. Parabéns. Que inveja desses momentos. Obrigado

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  7. Que brutalidade!!
    Já sabia que a prova é dura, mas a tua escrita transporta-nos para o terreno e dá uma percepção ainda mais real das dificuldades.
    Muitos parabéns Filipe.
    Abraço

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    1. Obrigado, Paulo! É uma prova diferente, sem dúvida.

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  8. Acho que os comentários anteriores exprimiram tudo, o do Carlos em então, na mouche!

    É nestas alturas que percebo o menino que sou nestas coisas.

    Quem sabe quando for grande ;)

    O sangue...com o calor e esforço há vasos sanguíneos que rebentam, normalmente se problema de maior.

    Normalmente é o nariz.

    E nunca tiveste "aquele sabor a sangue" depois de um esforço físico muito violento?

    Final épico e merecedor!

    Boa recuperação, grande abraço

    PS: Ligar à Sara que andaste a marcar território com sangue?
    A sério? Bom, o oxigénio deveria ser pouco, nem faço ideia.

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    1. Foi isso mesmo, em relação ao sangue!Nada de preocupante. Pois, esse telefonema foi muito má ideia. Ainda estou a sofrer consequencias eheh

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  9. Parabéns Filipe. Excelente descrição! "Parece que, nesta prova, a montanha ganha sempre, mas no fim alguns conseguem sobreviver".

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  10. Bolas que BRUTALIDADE!!! Levaste um porradão, mas terminaste. E já descobriste porque estavas a sangrar??
    O Gajo já andam com ideas da Freita, OMG...

    **

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    1. Sim, parece que era mesmo do calor! A tensão arterial aumenta e os capilares no nariz não aguentam. Terá ido algum sangue para a garganta. Não foi nada de especial, a principal consequencia foi mesmo ter deixado a dúvida na minha cabeça!

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  11. Espetacular descrição. Até fiquei com vontade de a fazer!!!

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    1. eheh pensava que a consequencia era a contrária :) Obrigado!

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  12. Antes de mais, Parabéns Filipe!

    Tenho a dizer-te que fiquei esmagada, arrebatada, etc com a tua descrição. Conheço a Serra da Freita (via estradas alcatroadas e sem o serem) porque o meu trabalho leva-me lá algumas vezes e consigo imaginar o que descreves.
    Acho que nunca mais vou conseguir olhar para a Serra da mesma forma....

    Boa recuperação!

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    1. Éverdade, a Arada/Freita é impressionante mesmo de carro, também noto isso sempre que lá vou! Obrigado, Sofia!

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  13. C'um car*****!
    Medonho e fantástico ao mesmo tempo!
    És um contador de histórias do caraças. Esta e outras davam uma grande colectânia, para amantes do trail e gajos que não percebem nada disso, como eu...
    Se eu não tivesse já gravado o vídeo na minha reles página (sai pela hora do jantar), tinha-te "parabenizado" com vénias a 90º em vez de graçolas... sinto-me como se tivesse desrespeitado um profeta depois de uma travessia bíblica por sítios que eu nem imaginava que existissem nessa extremidade do Império Romano!
    Começaste a viagem todo janota e na última fotografia estás um caco humano. Valeu a pena
    Viva, Filipe!

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    1. ahaha és o maior. Vou ver o teu video, como sempre! Devias publicar aquilo como podcast, dá muito mais jeito ouvir no carro do que ver o filme!

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  14. Acho que está tudo dito e muito bem explicado o que é a "escola Moutinho"... quanto pior melhor e o ideal é que haja mais de 50% desistências. Caso contrário, houve erro na construção do perfil da prova e tipo de pisos...e no ano seguinte há que rever onde falhou...
    Não é por acaso que a Freita é a Freita!
    Embora eu pense que se devia manter a matriz e ser conhecida pelo Memorial ao Sálvio Nora, que foi quem levou o Moutinho a conhecer a Freita...
    Parabéns Filipe. Principalmente por teres dobrado este cabo das tormentas, mas também por este naco de prosa que é sempre um prazer devorar!
    Forte Abraço
    Orlando Duarte

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  15. Excelente descrição. Vivi um pouco da tua experiência pois já calcorreei parte desses trilhos em trekking e fiz os 26 km 2 vezes (sou um sprinter eu sei). Parabéns pelo feito e pela coragem demonstrada.

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  16. Excelente relato Filipe!

    Eu fiz em 2014 os 70km e na altura não sabia o que era a Freita nem no que me estava a meter.
    A meio da prova tive que fazer um pacto com a malvada. "Deixaste sair daqui e eu prometo que vou de mansinho e não tento me armar em esperto contigo"

    Acontece que terminei bem a prova e sai de lá com dois sentimentos. Adoro esta Serra da Freita e... não quero voltar cá para fazer a prova.

    Pelo teu relato, apesar de teres sofrido a partir de certa altura, vejo que também ficaste fão! ;)

    Fizeste uma prova funtástica e mereceste chegar ao fim!

    Espero que essa questão do sangramento tenha ficado resolvida. É possivel que a razão disso seja a mesma que te tenha enfraquecido.

    Pondera fazeres os 65km num ritmo de passeio. Mesmo a andar se for preciso, a tirar fotos e a fazer filmes, e vais ver uma Freita diferente.

    Runabraços
    Rui Faria

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  17. Parabéns pelo texto e pela finalização de mais um marco.
    Não te esqueças que foi lá que tudo começou... ;)

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  18. Não sei que dizer...

    Um grande abraço de parabéns!!!!

    ps - Muito estranho isso do sangue. Já há alguma teoria?

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  19. É impossível ficar indiferente a esta tua descrição tão detalhada do que viveste. Quase senti o sabor do sangue na boca 😋 verdadeira determinação. Conheço apenas o trilho dos 26km da edição de à 2 anos, e da SkyFreita que ja deu muito que fazer e depois de o mês passado ter passado pela Scafell Sky trail em Inglaterra fiquei aliviada por afinal nao ser tão absurdo demorar 9h para fazer 35km. É de valente e tu estás sem dúvida de Parabéns. E ao que chamas fraquezas eu chamo de admiração e vai sendo assim com relatos que vais inspirando outros, a mim, a não recearem por voos mais altos. Boa recuperação e foco no próximo desafio

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  20. Parabéns! Finalmente desceste ao nível do comum dos mortais e como eles sofrem numa prova fraquinha lol! Essa Freita deve ser colossal! Grande prova. Recupera e curte o empeno.
    Um abraço

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  21. Fenomenal Filipe. Fenomenal.

    Nem vale a pena dizer mais nada.

    PS: ao contrário do que leio na maioria dos comentários, não fiquei com vontade nenhuma de fazer isto! Que sofrimento eheh

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  22. Parabens pela prova..
    Respeito ✊
    Foi mesmo, sangue suor e lágrimas....
    Antes também me acontecia isso do sangue,associava um pouco à fraqueza, e à exposição da cabeça ao sol.

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  23. Parabéns Filipe. Mais um empeno fenomenal.
    Fiz a Freita em 2016 e foi a única prova até hoje que me destruiu completamente os pés. De tal maneira que a última descida foi como relatas. Um sacrifício! Abraço

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  24. Excelente descrição de uma prova, ........ simplesmente sobrenatural.
    Só extraordinários atletas (fisico e mente juntas) é que conseguem concluir uma prova destas.
    Muitos parabéns, mesmo.
    No entanto deixo apenas um ponto á reflexão: pelo itinerário da prova temos atletas completamente abandonados na serra. Se alguém tem necessidade de ser assistido, como é?
    Não seria de exigir á organização um completo plano de assistência
    médica? Estaremos á espera de uma desgraça para depois atuarem? Não deveriam ser os mais experientes (mais conhecedores da serra), a proporem e coordenarem esse plano?
    Já li muitos textos sobre esta prova e ninguém ainda abordou este tema. Quem faz uma prova destas tão difícil merece respeito.
    Especialmente vós, grandes atletas, pensem nisto.
    MIKE
    Happyrun

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  25. Brutal Filipe, parabéns!
    Arrepia ler-te, quase que estamos lá contigo.

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