As minhas corridas na estrada

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Trail de Casainhos 2018 - Reunião de família

Mais uma vez, aconteceu Casainhos!

Pelo quinto ano consecutivo, o inicio de Novembro é marcado pela ida a Casainhos. Quinto ano que vou escrever um texto sobre uma prova da qual aparentemente não teria nada de novo a dizer. Afinal de contas o percurso é mais ou menos sempre o mesmo, o almoço também nunca foi diferente, até as pessoas vou vendo as mesmas ano após ano. Mas a verdade é que nunca resisto a escrever sobre este domingo, invariavelmente um dos melhores do ano. Em nenhuma outra prova do país me sinto tão em casa. Todos me tratam pelo nome. Desconfio que é assim com quase todos os 300 que lá vão, mas não quero saber. É como se fizesse parte da família.

É isso, família.

O Trail de Casainhos é como se fosse um daqueles ajuntamentos familiares em que se matam saudades dos avós e daqueles tios que não vemos há meses. Há riso, boa disposição, comida com fartura em cima da mesa e um almoço que se prolonga até meio da tarde!

Este ano choveu. Não, desculpem, acho que não passei bem a mensagem. Este ano CHOVEU. Estava a chover quando fomos levantar o dorsal, estava a chover durante a prova e continuou a chover enquanto estávamos a almoçar. A certa altura, durante a corrida, a chuva era tanta que tinha dificuldades em ter os olhos abertos e ver o caminho! Condições perfeitas, diria eu, para uma prova com cerca de 14km e 660 metros de subida onde o ritmo é sempre elevadíssimo. Não há cá tempo para sentir frio ou para gestão de esforço, é prego a fundo do primeiro ao ultimo segundo!

Há coisas que não mudaram mesmo nos ultimos 5 anos. O meu ar envergonhado, o ar ameaçador do Sommer e o facto de chegar à frente dele. Sim, sim.. para o ano é que é, diz ele.
Foi isso que fiz. Às 10:45 arranquei a ritmos perfeitamente anormais para mim numa prova de trilhos, de repente estava no grupo dos 5 primeiros a correr abaixo de 4. Tenho notado ultimamente que demoro uns bons 20 minutos até começar a sentir-me bem a correr, talvez por isso aquela primeira subida em trilho tenha sido tão massacrante! Mas não havia tempo para pensar nisso, lancei-me na descida atrás do Zeca e ultrapassamos mais um na subida seguinte em estradão. Íamos em 3º e 4º! Descemos furiosos pelos trilhos técnicos de Casainhos para o que pensava serem cerca de 3 ou 4km rolantes antes de atacarmos a parede da prova, mas este ano houve uma alteração e tivemos uma boa subida em single track antes de lá chegar. Comecei a subir a trote à frente do Zeca e a aproveitar os pequenos patamares mais planos que o zigue-zague do trilho proporcionava, mas percebi depressa que a minha respiração estava muito mais ofegante que a dele, ainda lhe ofereci passagem algumas vezes, o que acabou por acontecer logo no inicio da parede da prova.

A parede de Casainhos é mítica. Não é uma mega subida, ainda assim ainda vence 160+ em 500 metros, mas tem algumas características muito engraçadas. Primeiro é muito exposta, o que neste dia de diluvio foi significativo, depois é toda feita num trilho bastante inclinado e trabalhoso, e finalmente tem um patamar a meio que não deixa ver a segunda metade da subida até o transpormos. Ou seja, tudo o que uma boa subida de montanha deve ter, mas em ponto pequeno! É espetacular ouvir os comentários do pessoal que não costuma correr em montanha.


Nunca uso fita para registar a frequência cardíaca, mas é nestes momentos que gostava de ter isso. Tenho a certeza que todos os 500 metros foram feitos bem no limite. Ainda assim o limite não foi suficiente, o Zeca fugiu definitivamente e ainda me apanharam mais dois companheiros que vinham logo atrás. Quando cheguei lá acima não sabia se havia de vomitar ou atirar-me para o chão a chorar. Decidi ficar pela terceira opção, que foi desatar a correr atabalhoadamente pelo estradão, entretanto transformado em rio, com água a meio da canela.

Até ao fim ainda fui vendo o Carlos, que ia em 5º, mas apesar de ir ganhando terreno nas descidas nunca o consegui acompanhar nas subidas. Cheguei ao campo do S.C. Casainhos com 1h15 em 6º, 20 segundos atrás do Carlos e 4 minutos depois do 1º! Eu sei que só faço estes "brilharetes" quando não há concorrência, mas, porra, é uma adrenalina do caraças ir a controlar as posições sempre no limite. Uma prova à Tiago Godinho!

Mas este ano o destaque de Casainhos esteve longe de ser o meu sexto lugar. Muito longe! As verdadeiras campeãs foram a Sara, a Sra. Ribeiro e as mulheres do Zeca, Salvador e Diogo (lembram-me do acampamento na Freita Sky Marathon?). As 5 propuseram-se a fazer a simpática e acessível (pensavam elas) prova de Casainhos. Tirando a Sra. Ribeiro, todas tinham zero experiencia de trilhos e apanharam logo o maior diluvio que vi nos últimos anos. Às tantas já estávamos os 5 à espera delas e a conjeturar se teriam o que era preciso para acabar. Achámos que chegariam mal dispostas e prontas a baterem-nos! Não podíamos estar mais enganados. Passadas 3h15 de lama, quedas, corrida, chuva torrencial, trilhos técnicos e paredes transpostas lá entraram as 5 na reta da meta, a correr, sorridentes, umas ao lado das outras. Foi lindo! Uma festa enorme, gargalhadas e vídeos, vinham a explodir com histórias para contar, mas essas tiveram que esperar pelo urgente banho quente.

Foto de família
O terceiro ato deste domingo perfeito foi nas mesas do almoço. Elas 5, nós os 5, mais o João e o Bruno, colegas de trabalho que arrastei para esta vida, e o Ângelo, uma espécie de irmão que tenho desde o primeiro dia de faculdade, em 2002, e que também se estreou nos trilhos neste dia. Tenho a certeza que às dores musculares da corrida se juntaram também maxilares doridos de tanto rirmos, por entre pratos de feijoada, canja e arroz doce. Depois do café, lá para as quatro da tarde, quando os lábios das raparigas finalmente perderam a cor roxa do frio e a feijoada pesava como um tijolo na barriga, lá fomos para casa para uma merecida sesta no sofá.

Com o Ângelo

Que dia perfeito.


Acho que sei porque é que vejo sempre as mesmas 300 pessoas ano após ano em Casainhos. São as 300 pessoas que sabem que este é o segredo mais bem guardado do trail Lisboeta e não perdem tempo a inscreverem-se antes que esgote. Os outros... fiquem atentos em 2019, a família pode sempre aumentar! :)

5 comentários:

  1. Muitos parabéns pelo dia perfeito e pelo 6º lugar à geral!!! Isso já é de elite!!! :)

    Um abraço e força para os próximos desafios

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  2. Impressionante, 7,5 km de casa e nunca lá fui.

    Imperdoável, mesmo.

    Ainda mais pelo que, ano após ano, escreve sobre.

    Parabéns pela prova e classificação, assim como à armada feminina.

    Abraço

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  3. Grande Filipe! Estou como tu... já deve ser a 5° ou 6° edição que participo. Gosto do ambiente e partilho da tua opinião.
    PS: Mal sabes tu que já vinha todo roto...😉👍
    Abraço e para o ano lá voltaremos.

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  4. Maravilha! Claramente que a classificação final é o que menos interessa no meio dessa prova em família. Que senhor dilúvio que apanharam! Abraço!

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  5. Estou a ver que lhe estás a pegar no gosto das provas com a corda na garganta... Cuidado, uma vez lá dentro e já não sais mais de lá :p
    Parabéns pela tua prova e pela da Sara!

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