As minhas corridas na estrada

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Trilhos dos Abutres 2015 (50km) - brutal.

Três e meia da manha, toca o despertador. Estou na cama desde as 22 a insistir num sono leve e ansioso. Oiço os estores a abanar com o vento e a chuva a cair, nada que não estivesse à espera, as previsões apontavam nesse sentido. Num pensamento arrogante agradeço pela intempérie "vamos a isso, quanto mais difícil melhor!", achava eu. É incrível o que meia dúzia de provas bem sucedidas fazem ao nosso ego. De repente já ousava fazer frente aos Abutres, de peito feito! Mas eles puseram-me no meu lugar. Não, eles mandaram-me um rotativo na peito, uma esquerda seguida de uppercut no queixo e finalmente um cuspidela na cara quando já estava no chão!

Excelente cartaz, com o saudoso João Marinho
A hora marcada para o encontro com os meus colegas dos 20km de Almeirim era às 4:30 da manhã, e foi a essa hora que partimos de Almeirim rumo a Miranda do Corvo. Muita chuva e vento pelo caminho aumentaram a ansiedade. Um nervoso miudinho apoderava-se de mim mas sem me provocar medo ou respeito, só me queria fazer ao caminho! A 10 minutos de chegarmos a Miranda recebo uma sms da organização a avisar que devido às condições climatéricas a partida seria adiada duas horas. Nãoooo!! Já me estava a ver nos trilhos e agora faziam-me esperar esta ETERNIDADE? Grande desilusão! Ainda por cima se estão condições perigosas tanto melhor, a malta quer é dureza!

....agora que penso nisso, juro que nesta altura passou um abutre a voar e se vinha a rir!

A ansiedade dentro do pavilhão era palpável. O levantamento dos dorsais decorreu sem qualquer problema e o saco de ofertas incluía um magnifico buff da prova, mesmo da marca Buff original! Por ali nos mantivemos durante hora e meia a fazer tempo até às 9, para nos equiparmos. O tempo em Miranda não estava muito mau, mas no horizonte dava para ver as omnipresentes nuvens negras a cobrir a Serra. 

A excelente e muito completa feira Abutrica, vista das bancadas.
Eram nove horas e finalmente fomos equipar-nos. Mais uma vez, a arrogância imperou. "impermeável? Epah não sei bem, se calhar levo só na mochila, não deve estar assim tão mau... Luvas não levo, só vai atrapalhar". Felizmente ainda tinha uma gota de bom senso em mim, e parti com uma camisola de manga comprida, uma t-shirt do clube por cima e o impermeável vestido. Um buff na cabeça e outro no pescoço. Nas pernas, o habitual calção curto e nenhuma compressão. Ah, e sem luvas. Falo-vos da minha escolha de equipamento porque mais à frente ela vai-se revelar crucial, quase fatal para a minha continuação em prova!

Depois de um justificadamente rigoroso controlo zero encaminhámo-nos para o exterior do pavilhão. Estava finalmente na hora da partida! Como que a gozar connosco, o tempo nesta altura estava óptimo! Um sol radioso e temperatura amena elevavam a moral e o entusiasmo. 536 atletas estavam prestes a entrar na aventura de uma vida. 

5 dos 7 Almeirinenses presentes
A partida foi dada às 10 em ponto. Iniciámos então cerca de 5km corridos dentro de Miranda, para dispersar o muito grande pelotão antes de entrarmos nos trilhos. Foram 5 ou 6km nas ruas da cidade, muitas vezes com vista para um ribeiro que corria furiosamente ao nosso lado, quase a transbordar. Apesar de no sábado não ter chovido anormalmente, o mesmo não se pode dizer dos últimos dias. Entre conversas com alguns atletas locais, disseram-me que há 3 dias que chovia ininterruptamente na Serra. Cá em baixo conseguimos ter vislumbres do resultado dessa chuva, quase como um aviso da natureza. 

O rio que transbordou e inundou um campo de jogos
Percorri estes 5km a forçar um pouco o ritmo o que me colocou na metade da frente do pelotão. Na altura achei que talvez tivesse abusado, mas agora sei que esta decisão pode ter ditado a minha continuidade em prova. Já vão perceber porquê.

A entrada nos trilhos foi tranquila. Algumas poças, alguma lama, subidas difíceis mas não demasiado inclinadas e 1 ou 2km de trilhos corriveis que serpenteavam na floresta da Lousã. À medida que avançamos ficamos mais e mais embrenhados na Serra e no mundo dos Abutres. O ribeiro que corria ao nosso lado atravessa-se vezes sem conta à nossa frente. Ora pra cá, ora pra lá, lá fomos passando por cima dele. Umas vezes era uma passagem tranquila, noutras lá íamos molhando uma perna até ao joelho. De repente deixa de haver leito do rio, há um liquido castanho que corre por todo o lado! Não dá para saltar de um lado para o outro do ribeiro porque estamos a subir por dentro dele!

A minha cara parece dizer "Elaaaah, então mas, mas...."
A chuva que caiu nos últimos dias escorria sem regras pelas encostas da Serra, todos os caminhos valiam. Os trilhos abertos serviam como canais que facilitavam a descida da água, e era mesmo por aí que ela decidia vir. Pelo caminho trazia terra, folhas e matéria orgânica que lhe escureciam a cor. De vez quando parecia que corríamos contra uma torrente de lava castanho escura, quase preta, viscosa, que avançava vagarosamente cobrindo completamente o chão à nossa frente. Os buracos e raízes apareciam de surpresa, à traição, e os pés enfiavam-se muitas vezes dentro de armadilhas que nos enterravam até acima do joelho. Dizer que a progressão era lenta é favor. O terreno era plano e provavelmente corrivel em condições normais, mas naquele dia as condições estavam longe de normais. Todos os passos eram cuidadosamente medidos e ponderados, a consequência de não fazer este processo seria uma queda ou um pé torcido.

Conseguem ver lá à frente alguém que caiu numa armadilha.
Os Abutres estavam finalmente a mostrar a sua personalidade. Rapidamente percebo que não me iam dar tréguas, nunca! A cada troço de 200m que conseguia correr seguia-se um obstáculo incrivelmente técnico. Começaram então a surgir as subidas. Mas não eram simples subidas! Eram autenticas escaladas por encostas completamente enlameadas. Cada passo em frente era um desafio, cada apoio era seguido de uma escorregadela. Subíamos agarrados a árvores, a pedras, aos bastões, uns aos outros, como desse! Subimos sem parar tempos e tempos, com a dificuldade sempre a aumentar, sem dar tréguas!

Um exemplo do tipo de subidas por onde andámos vários quilómetros
Esta prova é conhecida pela sua dificuldade técnica elevadíssima, mas não nos podemos esquecer de avaliar o desnível acumulado. Foram 2450d+ muito duros, quase sempre por trilhos muito técnicos que nunca nos deixavam subir com um passo certo. A meio de grandes subidas por vezes apanhávamos um descida a pique, um autentico escorrega de lama e pedras que exigia a máxima concentração e não permitiam o mínimo descanso. 

O perfil, que só conta uma parte (pequena) da história
O primeiro abastecimento, ao km 15, marcava o inicio do primeiro ataque aos 900m de altitude. Encostei no abastecimento para comer qualquer coisa, já que o pequeno almoço tinha sido às 4 da manhã. Assim que paro oiço um grande trovão. Ok, vamos ter festa. Foi logo a seguir ao abastecimento que apanho a primeira chuvada de granizo. Toda a gente que ia perto de mim começou aos gritos de alegria, sorrisos, piadas, ....  Já íamos com 15km de Abutres e mesmo assim continuávamos a menosprezá-los. Mas não ficaríamos a rir durante muito mais tempo.

Considero que a prova só começou verdadeiramente neste ponto, no inicio desta subida. Mais uma vez, foi implacável. Cada vez mais embrenhados num floresta muito densa. O som da água a correr era omnipresente, por todo o lado víamos correntes de água que desciam violentamente pela encosta. Muitas vezes a vir contra nós. O granizo que há pouco teve a sua piada não parou e até aumentou. Era agora incomodativo e aumentava ainda o caudal de água. As paredes sucediam-se e só eram interrompidas com descidas abruptas no meio da lama. Correr era praticamente impossível, até andar era difícil. Seguia com máxima concentração, sempre focado no passo seguinte.



À medida que subíamos e nos aproximávamos da cota máxima a temperatura baixava perigosamente. O vento soprava agora cortante, já que a vegetação diminuía à medida que chegávamos perto do topo. O granizo tinha-se transformado em flocos de neve que se transformavam em água assim que tocava no chão. Sentia-me a arrefecer muito e foi aqui que começaram os meus problemas. Estupidamente, e reforço a palavra ESTUPIDAMENTE, achei que não precisaria de luvas, logo eu que tenho muitas dificuldades em aquecer as mãos! Mas agora ia pagar um preço muito elevado por isso.

Dá para ver o granizo
Os polegares foram os primeiros a perder a sensibilidade. Custava-me agora a agarrar nos bastões. De seguida foram os dedos mindinhos. A perda de sensibilidade começou a dar lugar a uma dor horrível nos dedos. Parei, várias vezes, tirava a alça do bastão e tentava mexer as mãos, batê-las contra as pernas para ganharem vida, mas nada. Não conseguia dobrar 2 dedos de cada mão, e quando forçava o movimento tinha dores de morte. O vento, cada vez mais forte e frio, cortava-me as mãos que imploravam por calor. Comecei a sentir uma dormência muito grande nos 3 dedos que me "restavam", até deixar de sentir as pontas. Estava agora no ponto mais alto da Serra e debaixo de uma chuva intensa de granizo. A meio de cada subida só pedia um troço recto para conseguir correr e recuperar a temperatura corporal, mas o Abutre é cruel e no fim de cada subida apresentava-me mais um escorrega de lama dificílimo. Comecei a ter pensamentos tão negros como as nuvens que me cobriam, apetecia-me ir para casa ter com a minha filha e mulher, para o quentinho e conforto da minha casa. Estava a entrar em desespero com as mãos que deixei de sentir por completo. Foi num trilho apertado, bem lá em cima, que perdi a esperança. 

Mandei os bastões para o chão, não consegui encostá-los, e meti as mãos dentro do impermeável, junto ao corpo. para as aquecer com o calor corporal. Não estava a resultar e comecei a arrefecer ainda mais. Tirei a mochila para sacar da manta térmica e embrulhar-me nela, a minha prova acabava ali, só pensava como conseguiria voltar para casa!

Assim que tiro a mochila passa um colega por mim, que me pergunta se estou bem. Eu digo que estou +/-, que tinha perdido a sensibilidade nas mãos e que estava a arrefecer muito. Ele perguntou-me: "Queres umas luvas? Trouxe um par a mais!". 

Só conseguir balbuciar uns 4 ou 5 obrigados, que me tinha salvo a prova, obrigado obrigado! Ele reconheceu-me do blog, coincidência das coincidências, era o Paulo Oliveira do "Pela Estrada Fora"!! Continuei a agradecer-lhe, quase em lágrimas, até que ele seguiu. 

Tinha as mãos tão rígidas que não conseguia calçar as luvas grossas, até que passa mais um colega por mim que me pergunta se estou bem. Peço-lhe ajuda e ele passa ali dois minutos a calçar-me as luvas. Incrível. 

Nunca falei aqui no blog do famoso "espírito do trail", porque acho que isso não existe. O que acho mesmo que existe são pessoas boas, dispostas a fazer tudo para ajudar o próximo. O Paulo e o colega que me ajudou são duas dessas pessoas boas. Ainda agora me emociona pensar naqueles 15 minutos lá em cima e digo muito sinceramente que a minha prova teria terminado ali se não fossem eles. Obrigado aos dois, do fundo do coração! Ah, e Paulo, diz qualquer coisa nos comentários para eu te enviar as luvas pelo correio :)

A segunda melhor opção, a seguir ás luvas do Paulo 

Seguia agora com o ânimo restabelecido e com a moral em alta. As pernas até agora ainda não se tinham queixado, e tive sempre a sensação que conseguia passar todos os obstáculos. Talvez tenha sido esse excesso de confiança que me provocou o primeiro tombo a sério, numa descida. Escorreguei de rabo e de costas uns 10 metros, sem conseguir parar, até ficar com uma perna e nádega em sangue. Levantei-me, atordoado e sorri para os companheiros que vinham atrás. Siga, isto é para acabar!

Ainda antes de chegar ao abastecimento e controlo dos 30km passaríamos por algumas das zonas mais técnicas do percurso. Primeiro foi isto:


Porque as descidas não eram complicadas o suficiente, lá tivemos que descer por um ribeiro com espuma branca a correr furiosamente! Foram cerca de 300 metros muito perigosos. A meio deste curso de água passei por um atleta com um golpe grande no joelho, tinha caído numa das tais armadilhas. 

A descida abrupta continuava, e foi nesta altura que tive o meu segundo grande incidente da prova, que mais uma vez iria mudar o rumo das coisas.

Ao descer um dos famosos escorregas de lama apoiei todo o meu peso no bastão do lado esquerdo, que resvalou numa pedra. Isto originou um movimento muito estranho, como que me dobrei sobre mim mesmo lateralmente, não sei se conseguem imaginar. Ouvi imediatamente um som estranho e senti uma dor lancinante no flanco esquerdo.

Pronto, já te f.....

Levantei-me e levei a mão ao sitio onde me doía. Respirei fundo umas vezes e reparei que quando enchia muito a caixa era como se levasse uma facada. Ensaiei um passos de corrida, não era insuportável. Não voltaria a correr com alegria até ao fim da prova, teria sempre aquela nuvem negra e aquela dor forte cada vez que retomava o passo de corrida, cada vez que me apoiava no bastão e cada vez que respirava fundo. Mais uma vez, pensei que aquele não era o meu dia.

O abastecimento dos 30km era coincidente com o infame corte das 5h30. Até agora, nunca tinha feito nenhuma prova a olhar para o relógio preocupado com os tempos limites. Foi mais uma lição de humildade que os Abutres me deram! Quando passei pelo tapete de controlo do chip lembrei-me do post da Isa e olhei para o relógio. Cinco horas e 18 minutos. Por 12 minutos não fiquei logo ali retido! Este corte iria ser responsável pelo fim de prova de muita, muita gente. Uma quantidade à primeira vista absurda provocada por um tempo limite bastante complicado de cumprir, lembro que seguia +/- a meio do pelotão! No entanto, ele tinha razão de ser, e já vamos ver mais à frente porquê.

Este abastecimento marcava o inicio de mais um ataque ao topo da serra. Estava mal disposto, já bastante saturado daquele suplicio e a dor por baixo das costelas retirava-me o resto da alegria. Comi uns cubos de marmelada à pressa e fiz-me ao caminho, só queria chegar. 

Mais um erro.

Demorei quase duas horas a percorrer os próximo nove quilómetros. Mais uma vez sucederam-se as paredes de lama seguidas de pequenas descidas só para acabar de partir as pernas. Nesta parte do percurso nem faltou uma cascata de cerca de 2 metros (era mais alta que eu) que tivemos literalmente que escalar no meio da água! Nenhuma subida era fácil, nenhuma descida era fácil, nenhum troço dava para correr. Os Abutres estavam agora no seu auge, perfeitamente implacáveis!

Passámos ainda pela famosa cascata dos Abutres, que nesta foto estava calmíssima. Este sábado parecia um trovão autentico, com jactos de vapor por todo o lado, furiosa, assustadora, lindíssima!

Sacado da net
Subimos e subimos até a vegetação começar a desaparecer. O vento aumentou e a temperatura voltou a baixar abruptamente. Agora dava para ouvir as eólicas que permaneciam escondidas no meio das nuvens. A meio da subida comecei a ficar com muita fome e com tonturas, como aconteceu no Réccua Douro Ultra Trail. Tirei imediatamente as duas barras que levava comigo e comi-as sofregamente, com terra e lama à mistura. A subida continuava, bruta, sem dar folgas. A cada apoio do bastão era como se me dessem um murro no flanco, estava a ficar insuportável. As mãos estavam controladas mas sentia o corpo a arrefecer cada vez mais. Pela primeira vez sentia frio nas pernas e nos pés.

Até que finalmente chegámos ao topo, onde havia um abastecimento dentro de uma tenda. Lá dentro, milagre! Bifanas em papo seco quentinhas e um chá a ferver! comi duas bifanas, dois copos de coca cola e rematei com um copo de chá a ferver. Demorei naquele abastecimento pelo menos 20 minutos. Valeu cada segundo, mais uma vez enchi os depósitos de ânimo!

Saio do abastecimento e preparo-me para mais uma tareia na descida. Mas, acreditem ou não, o Abutre deu uma folga!!! Assim que saímos da tenda entramos num trilho no meio de pinheiros gigantes aos ésses pela encosta abaixo. Um trilho seco, sem descidas malucas, sem lama pelo joelho, sem ribeiros para atravessar - diversão pura! Os primeiros passos de corrida são feitos com um movimento muito forçado, dobrado, rígido, numa tentativa de disfarçar a dor por baixo das costelas. À medida que avanço começo a aquecer e a esquecer a dor, consigo assim correr cerca de 2km, sempre devagar, mas 2km de puro prazer. As pernas responderam sempre bem. Mais uma vez culpo o reforço muscular! O pior é quando tenho que parar numa subida e depois volto a abrir a passada para a corrida. Imediatamente é como se levasse uma facada. Tenho que fazer alguma coisa em relação a isto, não vou desistir a 10km do fim!

Como devem ter reparado, coloquei bastantes fotos no inicio do texto e depois deixei de pôr. Isto porque a certa altura cheguei à conclusão que para fazer filmes e tirar fotos significava quase sempre um desequilíbrio e posterior estatelanço no chão! Ainda por cima, cada vez que queria filmar tinha que limpar a câmara que estava sempre coberta de lama! Decidi deixar-me dessas aventuras e concentrar-me no caminho. Só para perceberem o que estou a dizer, vejam o estado da gopro no fim da prova:



O abastecimento dos 40km, o penúltimo, foi em Gondramaz, a aldeia do xisto que vos falei no post do Trail Serra da Lousã. Decidi tomar o brufen que levava comigo, para tentar amenizar as dores que sentia. Mais uma vez, dependi da ajuda de outra pessoa que me retirou o comprimido da mochila, abriu e mo deu para a mão. Desta vez um membro da organização. Obrigado!

Até ao próximo abastecimento seriam 5km. Estranhei logo a distancia ser tão pouca, mas depois percebi porquê, já que demorei uma hora a lá chegar.

O percurso começou com um quilómetro bastante corrivel. Sabia-me incrivelmente bem correr nesta altura. As pernas estavam muito massacradas mas até li tinha corrido muito pouco, por isso quando havia oportunidade para isso era uma alegria. O segundo quilómetro foi feito num trilho muito apertado, numa encosta íngreme. Até aqui tudo bem, mas havia o pormenor de termos que dividir o trilho com água que corria a toda a velocidade e bastante caudal. Coitada, tinha que descer por algum lado. No terceiro quilómetro voltámos a entrar dentro da floresta e para junto de água. Estávamos a entrar numa das partes que achei mais perigosas de todo o percurso. Sempre a entrar e a sair de cursos de água que corriam fora do caudal. Já eram 5 da tarde, estava a escurecer, imaginei fazer aquilo de noite e percebi a razão do corte tão apertado. Mais que nunca, ali senti que um passo em falso facilmente teria consequências desastrosas! Passámos por umas 10 "pontes" rudimentares, que mais não eram que dois ou três troncos cheios de musgo! Segundo soube depois, esta parte era em comum com o UTAX. Quando entrámos num estradão a 500 metros do abastecimento já era praticamente de noite, tinha que ligar o frontal. Segundo um colega que já tinha feito a prova dos 25km, até à meta seria um estradão tranquilo. 

AHAHAH claro...

Parei no ultimo abastecimento, a 5km da meta, apenas para ligar o frontal. O brufen fez efeito e aqueles últimos metros de corrida antes do abastecimento souberam-me muito bem! No abastecimento perguntei ao pessoal que lá estava quanto faltava para a meta. Responderam-me:

5km.

Boa. 

De lama.

Ok, nada de novo, mas já deitava lama pelos ouvidos.

De lama até ao pescoço.

Hm? Nah, devem estar a exagerar. Não pode ser pior do que já apanhámos até aqui!

Mas podia.

Os 3km seguintes foram indescritíveis. O tal "estradão tranquilo" estava coberto de água e lama. como se toda a água que tem caído tivesse ido ter ali. Passo sim passo não ficávamos com lama acima do joelho. Era de noite, estava completamente saturado, só me apetecia chegar! Enquanto pensava nisto enfiei o pé num buraco e fiquei com lama pela barriga! De noite! A chover! Sozinho! 

Na altura aquilo pareceu-me um bocado desnecessário. Não tinha nada de técnico, era só perigoso e molhado. Agora que penso nisso, chateia-me menos. O costume...

Acelerei até apanhar um grupo, não me apetecia nada ir sozinho naquelas condições. Esse mesmo grupo acompanhou-me até ao fim, no ultimo quilómetro que faltava percorrer dentro de Miranda.

Ah, mas antes da meta falta contar esta história:

Uma espécie de Walking Dead
Antes de mais, o tom pastoso resultante de uma camada muito grossa de lama que entretanto secou. Depois o sangue. Podia dizer-vos que foi num tronco que estava debaixo de água ou num calhau pontiagudo, mas não. Depois de 49km duríssimos foi no quilómetro final, dentro de Miranda, quando passámos por um jardim publico que eu decidi saltar por cima de um canteiro. De rosas.

A aventura chegou ao fim 9 horas certas depois. Foi um tempo bastante fraquinho, sei disso. Mas digo muito sinceramente que nesta prova senti-me um vencedor por ter conseguido terminar, sem qualquer ponta de exagero. Resta dizer que dos 538 iniciantes, apenas 319 terminaram, o que equivale a 59% dos atletas! 

Na meta, com o excelente troféu 
Dizer que foi duro é menosprezar o que se passou. Eu sei que os Abutres são assim, implacáveis, mas este ano ainda teve um condimento especial que elevou a fasquia. Foi extremo, incrível, brutal! Fiquei contente por ter superado o desafio e pelas lições que aprendi para o MIUT. 

Este deve ter sido o relato mais comprido que já escrevi, agradeço a quem teve paciencia para chegar até aqui! Desculpem, mas agora que penso nisso foi a prova com mais para contar que tive até hoje. 

Ah, e a mais difícil, não sei se já vos tinha dito! :)

Despeço-me com uma fotografia do meu lindo impermeável azul. Sim, vamos chamar-lhe azul.



28 comentários:

  1. Parabéns, Valeu o esforço :D

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  2. Não tenho palavras.
    Só me posso curvar, respeitosamente, perante o grande atleta que és.
    Absolutamente fantástico.
    Entraste directamente pela porta grande para a galeria dos súper corredores de Trail em Portugal!
    A enormidade de atletas que não conseguiram superar esse desafio, e os atletas extremamente experientes que foram vencidos pelos “Abutres”...
    Penso que nem tens bem a noção da grandeza da tua prova e do feito que alcançaste!
    Um grande abraço.

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  3. Impressionante! Parabéns Filipe por tudo o que fizeste.
    Repito, o teu relato é impressionante!

    Corrijo só uma coisa. Estava a seguir a prova pelos tempos de passagem do Lap2Go e pelo Web Tracker e os que partiram foram 613 atletas, sendo que 277 não passaram no 1º controlo.

    Um abraço e PARABÉNS!!!

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  4. Parabéns
    Grande Relato Verdadeiro
    Fiquei aos 25kms o companheirismo e a integridade física falaram mais alto.
    Ficou o sabor a lama por não acabar.

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  5. Esses canteiros de rosas, pá! Traiçoeiros, é o que te digo! ;)
    Agora a sério, relato espectacular e prova impressionante. Muitos parabéns pelo feito de teres terminado. Fez-me sentir menos mal por não ter ido, sei que nunca passaria do primeiro corte. :D Mas invejo a experiência que deve ter sido (acho que já me esqueci como é estar numa prova completamente esgotados física e mentalmente, afinal, já passaram duas semanas.. :D) essa prova deve ser ímpar em termos de desafio.
    Beijinhos e boa recuperação, que essa dor não seja nada de grave!

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  6. Relato impressionante! Fico contente por teres concluído, e bem, esta prova tão dura. Sem qualquer pretensão, posso também afirmar que, quem lá esteve, dará um sentido especial à tua descrição, tal foi a dureza desta edição.
    Quanto ao frio que se fazia sentir, era de facto imenso mas, o teu sucesso na prova dependeu das pernas e não das mãos :). Se fores ao Castelejo ou ao Piódão encontramo-nos lá, se não, deixa um comment com o teu gmail no meu blog e eu dou-te o adress para enviares as luvas, eh eh! Um grande abraço!

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Muitos parabéns pelo teu sucesso nesta prova mítica e pela tua partilha com quem está a começar nestas andanças. Muitos parabéns pois vais ser uma referência para quem como eu esta no inicio.

    PARABÉNS

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  9. Impressionante o querer e a vontade de terminar, por muito menos muitos "caíram", a fibra comandou o teu cérebro, sem ela terias ficado por ali algures na Serra vencido mas não convencido. Fiquei nos 30 kms vergado pela dureza da 1ª subida mas fundamentalmente a descida que nos leva ao posto de controlo, alguns foram barrados por segundos eu fui por 1,30h e não lamento ter passado por aquela experiência terrível, isso dá-me a ousadia de vos considerar uns heróis, os que terminaram, sem esquecer todos aqueles que lutaram para o conseguir e ficaram ali naquele local injusto mas providencial. Desejo-te uma boa recuperação e trata das mazelas antes de te meteres noutra.

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  10. Filipe, em primeiro lugar quero dizer que faço-te uma vénia e aplaudo-te de pé!
    Foste GRANDE, ENORME! ÉS UM HERÓI!
    Nós ficámos pelo caminho, mas apesar de para nós ter sido mais curta, concordo que foi a prova mais brutal que já fizemos. O terreno estava uma lástima e o tempo....sofri como tu com as mãos geladas e eu até tinha luvas vê bem! Foi assustador e tive que recorrer a todos os truques e mais alguns para aquecer as mãos, o Vitor sofreu mais dos pés.

    Quando soubemos que tinhas conseguido passar no controlo dos 29 km ficámos a torcer por ti, pois eras o único atleta que conheciamos que ainda continuava em prova. E ficámos muito felizes quando soubemos que terminaste.
    És um guerreiro! E depois disto, não digo que a MIUT pareça fácil, mas com certeza que foi uma excelente preparação.

    Não tenho mais palavras para o teu enorme feito, por isso PARABÉNS GRANDE ATLETA!!!

    Beijinhos

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  11. E páhh...o que dizer da tua prestação e deste texto absolutamente assombroso? A tua prestação foi heroica e absolutamente espectacular..grande admiração e respeito por ti e por todos os outros que (acabando ou não) enfrentaram os já de si duros Abutres, nas condições em que estavam neste fim de semana.
    O teu texto é sublime....consegui acompanhar a tua prova e sentir a tua prova....lembrei-me de partes dos meus Abutres do ano passado (em condições muito menos adversas que este ano)....espectáculo...obrigado por isso.
    Muitos, mas mesmo muitos parabéns pela prova e pelo texto!!
    Grande abraço Filipe

    P.S. Se lesses o PK com atenção, terias sabido a solução para acabar com as mãos geladas....a técnica chama-se "mãos nas nádegas", está patenteada e é um bocado para o totó, mas funciona....

    http://papakilometros.blogspot.pt/2013/03/treino-no-gelo-e-maos-nas-nadegas.html

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  12. Fantástico Filipe, fazer uma prova nessas condições e passar pelo que passaste é impressionante, deve ser preciso uma força de vontade enorme para enfrentar tudo isso.

    Muitos parabéns. Espero que recuperes bem e que o problema da dor não seja nada de grave.

    Abraço

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  13. Que a-ni-ma-li-da-de! Grande report, à altura da bravura que tiveste em acabar a prova.

    Boa recuperação, Filipe!

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  14. Obrigado pela partilha do teu Blog. A minha prova foi muito semelhante à tua, com excepção que não passei por cima do canteiro de rosas, e não tomei o Brufen(porque não levava) !!!

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  15. Muitos parabéns Filipe! Aplaudo de pé todos os que conseguiram terminar aquela prova indescritível, apenas ao alcance da elite do trail nacional. E ainda por cima conseguiste transpor para palavras e criar um texto fantástico que todos os que lá estiveram são capazes de se relacionar. Li-o ontem mal o publicaste, mas com o sabor a bilis ainda presente, esperei por hoje para o reler com mais calma e dar-te os mais que merecidos parabéns!
    Grande abraço.

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  16. Epa excelente Filipe! És grande! Eu não sei se era capaz de enfrentar isso! Grande, grande prestação!

    Parabéns pelo enorme post, com certeza se vai tornar uma referência no mundo do trail!

    Como dizem os americanos: Respect!

    Um abraço!

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  17. Eram rosas senhor, eram rosas!

    Dissimuladas!

    Antes de mais espero que essa dor aí pelas laterais não seja nada de mais nem que te impeça de nada.

    Depois e de resto, apenas 5 palavras:

    A-NI-MAL BRU-TAL!

    E graças ao que li vou já ali comprar uma luvas que sempre achei uma treta para quem corre em Portugal e não vai para a serra...espera...trail, serra, hmmm, se calhar é isso...

    O relato está épico, como épico é o que tu e os que foram aos Abutres fizeram, tenham ou não acabado, tenham tido corte por tempo ou por decisão própria.

    Já o que li o ano passado me impressionou, por exemplo o do Carlos, mas este ano parece-me que as condições estavam ainda mais duras.

    Sinceramente não é esse o meu objectivo num trail, já fiz caminhadas nessas situações ou talvez até piores, mas sempre com outro tipo de apoio e em especial equipamento (luvas, pff, até um passa montanhas :) ) mas isso apenas aumenta a minha admiração por quem se mete neles.

    Grande abraço, com cuidado por causa dessas costelas.

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  18. Ainda bem que há provas que nos servem de lições. Muitas pessoas não ligam nenhuma ao material mínimo obrigatório. O tempo pode mudar radicalmente em menos de uma hora e uma manta térmica, umas luvas e um bom impermeável fazem toda a diferença.
    Ainda bem que te serviu de lição e da melhor maneira, sem teres tido a má experiência de te lesionares à séria ou teres de desistir.
    Foste um bravo, Filipe!! Parabéns!

    (Olha lá, o trail de Almeirim não vai ser assim, pois não?? Não estás com ideias novas, certo? :)))

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  19. Fantástico Filipe, muitos parabéns!

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  20. Grande coragem e determinação. Mas atenção são os erros que nos ajudam a melhor, e crescer com eles.Ptt nunca dx as luvas de lado :) :) hiiiiii Boa recuperação. Parabéns

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  21. É fantástico poder fazer parte e ter terminado esta edição dos Abutres, foi uma aventura Extreme :) Se volto lá para o ano? Sim, de certeza que sim pelo menos para terminar com todos os meus amigos que não conseguiram seguir a partir do Km 30 :) Se fosse fácil não teriamos gostado...mas também não era preciso ser tão dificil :) Grande prova e grande resultado, uma excelente recuperação

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  22. Muitos parabéns pela conquista dos Abutres e por este relato tão vivido e sofrido :)

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  23. Nunca esquecer que a Sorte Protege os Audazes.

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  24. Sabia que desta aventura iria sair um belo texto... soube no sábado de manhã pelo site da prova que os atletas estavam a passar um mau bocado.
    Assim que me apercebi que tinhas terminado e que a crónica já tinha sido "lançada" esperei pelo momento em que mais calma e paciência tivesse para estar tranquilamente a ler toda esta aventura.

    Só me posso CURVAR perante tal feito!

    Passaste por uma verdadeira sobrevivência naquela serra.
    Curvo-me, curvo-me perante todos aqueles que terminaram, e tentaram terminar a prova.
    Melhor curvo-me perante aqueles que tiveram a ousadia de olhar os Abutres de frente.

    RESPEITO!

    É isso que tenho neste momento por ti e por todos aqueles que conseguiram conquistar os Abutres.
    Respeito também por aqueles que enfrentaram, tentaram mas infelizmente não o conquistaram.
    Foram realmente condições climatéricas astronómicas e superar isso em plena montanha foi astronómico também!

    Muitos PArabéns Filipe!!
    És um Homem de garra!!!
    Ribatejano claro que está :)

    Uma óptima recuperação... e a sério que depois daquilo tudo tinhas que saltar pelas rosas?!
    hahhahahahh

    É das tais coisas....

    Beijinhos e boa recuperação!

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  25. Confessa: isso na perna é ketchup do Big Mac que comeste no final da prova! :) Agora, canteiros de flores, achas que alguém acredita nisso?

    Parece que foi um pouco mais difícil que Proença a Nova, não? :)
    Para o ano, inscrevo-me nesta prova, isto se conseguir estar disponível 30 minutos para o fazer, que deve ser o tempo em que a prova esgota em 2016.
    Disseram-me que o de Piódão é como os Abutres, mas sem a lama. Sabes se há alguma veracidade nisto?

    De resto, acho o troféu Finisher uma verdadeira maravilha! É daqueles que fica mesmo bem em cima da lareira ou no móvel do hall de entrada, com o merecido destaque! :)

    Quanto às decisões da organização, não estando lá, concordo com elas. Vá, talvez o corte às 5h de prova para quem lá passou com segundos ou minutos de atraso tenha sido muito rígida. Quem passou com mais do que isso, acho bem que tenham sido barrados. Dada a dificuldade da prova, o mais provável era o tempo da demora no checkpoint seguinte ser ainda maior. Mas pronto, cada um tem a sua opinião e a organização tem de zelar pela integridade dos atletas e da sua reputação enquanto organizadora de provas.

    Mais uma vez, muitos parabéns! É pena não te encontrar em Almeirim, porque vou à Meia Maratona de Lisboa, mas a "tua" prova era um bom treino para Piódão! Fica para uma próxima oportunidade, quando ofereceres dorsais a atletas de topo e eu tiver direito a um! :D

    Abraço e boa recuperação das costelas!

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  26. Já tinha lido a semana passada e depois de ver a reportagem ontem na RTP2 fiquei ainda mais impressionado.

    Inacreditável toda a corrida e os precalços que foste tendo e mesmo assim teres chegado ao fim da corrida.

    Espectular! :)

    Boa recuperação

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