As minhas corridas na estrada

domingo, 28 de junho de 2020

Dos Picos do Açor ao Vale Glaciar

Por aqui continuam os desafios pós-covid. As ideias têm fervilhado e o que não faltam são alternativas às provas que, aparentemente, continuam muito longe de se voltar a realizar. Mas, sinceramente, no fim da viagem de ontem, apetece-me perguntar: mas quem é que precisa de provas??


Há uns tempos tive a ideia de fazer a Travessia Trevim - Torre. Começar no alto do Trevim, passar por Góis, Arganil, Piodão e Torre. Pesquisei, falei com algumas pessoas, mas não estava conseguir encontrar nenhuma ligação de jeito entre o Trevim e Arganil. Depois comecei a montar o percurso a seguir a Arganil. Falei com o André Rodrigues, que me aconselhou o track do seu Desafio Picos do Açor para sair de Arganil, depois liguei no Google Earth os Picos a Piodão, juntei o percurso do Ultra Piodão, depois o do EstrelaAçor, que me levava ao Alvoco, e a partir daí subia o conhecido km vertical, descia o trilho do Major e finalmente desembocava no Vale Glaciar. No fim fiquei já com cerca de 75/80km. Se quisesse juntar o trajecto Trevim - Arganil teria que somar à vontade 30km, o que já daria mais do que me apetecia fazer. Ficou então decidido a Travessia Trevim-Torre passaria à Travessia dos Picos do Açor ao Vale Glaciar!


O percurso acabou por ter 76km com 4650D+

O plano estava traçado, lancei o desafio ao João Tomás, que, se bem se lembram, fez o Trans'Aire comigo, ao João Lopes, o Flecha da Parreira, e ao Guilherme Lourenço, que dispensa apresentações. Aos 3 havia de se juntar o meu amigo Jorge Duarte, colega da APT que conheci há uns meses num estágio na Estrela, que se encontraria connosco lá pelo Alvoco. Já repararam no denominador comum, não é verdade? Pois, são todos muito mais fortes que eu! Este facto acabou por se tornar preponderante durante o dia. Já lá vamos.

Na partida, junto às piscinas de Arganil.

Depois de uma noite dormida em Arganil, às 6 da manhã em ponto iniciámos a viagem. O dia estava nublado e abafado, com muita humidade. Esta primeira parte, correspondente aos primeiros 15km do Desafio Picos do Açor, eram passados em trilho técnicos embrenhados na vegetação do Açor. Muita água, subidas a pique, trilhos xistosos e levadas espetaculares, embalaram-nos num constante sobe e desce que acumulou rapidamente muito desnível. O André tinha-me avisado que, dos 15km, 14 deles estariam limpos e que restaria pelo menos 1km ainda com mato. Assim foi, a grande maioria dos trilhos estava impecavelmente limpa e mais valor demos ao trabalho de quem os limpou quando entrámos na parte que tinha mato! 




A desbravar mato. Enquanto eram fetos e não silvas estávamos nós bem!

Aqui estavam limpinhos




Desde o início que não me sentia nos meus dias. Esforçava-me para os acompanhar enquanto respirava ofegante. Desde o dia anterior que estava bastante mal disposto, coisa que muito raramente me acontece, e naquele dia suava em bica praticamente desde que partimos. Aproveitava aqueles minutos em que a progressão era lenta por causa do mato para recuperar o fôlego e acalmar a pulsação, mas, ao fim de poucos minutos, já estava com este ar acabado:


Saímos do percurso dos Picos do Açor pelos 14km, no Posto de Vigia, já com 1400+. A ultima subida foi a maior picada até então, com uns 400+, onde, mais uma vez, tive muita dificuldade em acompanhar os meus companheiros. Estava também preocupado com a hidratação, estava a beber profusamente tailwind para compensar a muita transpiração, mas sabia que até Piodão, nos 32km, dificilmente encontraríamos algum ponto de água. Falei com eles, que aparentemente estavam muito mais à vontade que eu, e todos tinham pelo menos 750ml de água, eu já só tinha menos que 500ml. Combinámos que em caso de necessidade eles me dariam água. 

A subir a tal picada final, foto pelo João Tomás.

Os 15km seguintes, até ao Piodão, foram desenhados no Google Earth. Não fazia ideia do que íamos encontrar! Parecia-me que seriam maioritariamente estradões das eólicas que percorriam a encumeada, mas a verdade é que andámos em alguns trilhos e marcámos o ponto em quase todos os marcos geodésicos do percurso. Acabou por ser uma secção muito gira, com algum desnível (700+), vistas espetaculares e sempre corrivel. 



Ou seja, a única parte que íamos ao desconhecido acabou por correr melhor do que o esperado! Até à descida final para o Piodão... Quando já viamos os telhados de xisto da bonita aldeia, saímos do estradão que nos estava a embalar até ao Inatel para procurar um trilho que tinha encontrado já não sei onde. O problema é que já ninguém lá devia passar há anos, estava completamente dominado pelas silvas! Se podiamos ter voltado para trás? Pois podiamos, mas, como toda a gente que anda nisto sabe, quando se passa aquele ponto mágico do "epah, agora já não vamos voltar para trás, ainda por cima é a subir", já não há nada a fazer. Deixei lá uns bons gramas de carne agarrados àquelas silvas mutantes durante pelo menos 1km literalmente a abrir mato, mas lá conseguimos chegar ao Piodão, 32km, onde teriamos o primeiro "abastecimento".


Primeiro abastecimento.

Já restabelecidos depois de uma boa paragem, flasks cheios, tailwind preparado, entrámos no percurso do Ultra Trail do Piodão até Chãs de Éguas. Aqui os trilhos estavam limpinhos e a progressão foi muito boa. Sentia-me bastante melhor depois da paragem, ainda assim tinha que vir muito perto do limite para os conseguir acompanhar. Também o calor decidiu aparecer por esta altura, depois de uns km muito confortáveis lá em cima, agora estava seco e quente. Bebi água e molhei-me em todas as bicas que ia encontrando, até porque até Teixeira de Baixo, local do terceiro "abastecimento" eram cerca de 20km. 

A subida para sair da Serra do Açor foi pelo estradão aos zigue-zagues do Ultra Piodão, onde, mesmo a andar bem, fiz os meus companheiros esperar uns bons 10 minutos lá em cima. A situação estava a tornar-se um bocado frustrante, custava-me que eles tivessem que esperar, mas estava a dar o que tinha. 

Lá em cima, tal como me lembrava, a vista era deslumbrante. De um lado o estradão que serpenteava e culminava no Picoto da Cebola, ponto mais alto do Açor, do outro a imponente Estrela, com os 1990 parcialmente tapados por nuvens. O caminho para o Alvoco era em linha reta, num estradão na encumeada, com algumas das vistas mais bonitas de todo o percurso.

Em Chã de Éguas, antes da subida.


Lá ao fundo, o Picoto da Cebola.




Chegámos a Teixeira de Baixo já com 52km. Parámos na primeira bica que encontrámos e sentámo-nos a beber e a comer o que trazíamos, desta vez não havia nenhum café. Íamos entrar na parte final do percurso, estávamos com cerca de 3000+ e faltava-nos nada mais nada menos que a subida do KV do Alvoco com mais um extra, já que iríamos partir abaixo da cota 500 e a subida andaria pelos 1600+. A má disposição já estava mais ou menos ultrapassada, mas cada vez se notava mais a diferença de andamento para os meus colegas. Antes de partimos pedi-lhes para não esperarem por mim, que nos encontraríamos no Alvoco. Preferia muito mais ir sozinho do que os estar a prender, e assim foi. Os 7 ou 8km que nos separavam do Alvoco foram praticamente todos cumpridos sozinhos a andar bem, sempre em trilhos que subiam vagarosamente paralelos ao rio. A cerca de 1km do Alvoco encontrei o grande Jorge, um amigo que fiz no estágio da APT e com quem gosto muito de correr. Tinha estacionado em Piornos, descido o KV e agora ia voltar para trás connosco. É pena que desta vez já me tenha encontrado em tão avançado estado de decomposição!

No abastecimento de Teixeira de Baixo

O João e Teixeira de Baixo ao fundo.

Estávamos então com 60km e a beber uma coca-cola no Alvoco. Este percurso tem essa característica demolidora, acaba com o quilómetro vertical do Alvoco. Para mim, a mais dura e melhor subida de Portugal Continental. Desde aquele ponto são 1200+ em menos que 5km. Mas a parte principal, o KV, são 1000+ em 3.8km. Foi a sexta vez que o subi e já por lá passei em muito diferentes condições. Desde estar fresquinho, no inicio de um treino, a completamente acabado, como no EGT em 2016. A primeira vez, em 2014, foi no saudoso KV do Alvoco, uma prova organizada pelo Armando Teixeira que só teve essa edição. 

Esta não foi de todo a melhor subida que lá fiz, mas também não foi a pior. Subi devagar mas muito certinho, sem nunca parar a não ser para a obrigatória foto na mariola gigante que marca o fim da parte mais demolidora da subida. Mais uma vez cumpri-o sozinho, tendo quase obrigado os meus companheiros a subirem ao seu ritmo. Assim o fizeram. Só para perceberem, o Guilherme demorou menos 26 minutos que eu a subir (1h00 vs 1h26) e mesmo assim ficou a 18 minutos do record dele! 

A Torre ao fundo do Planalto dos Corvos. Uma vista que provoca sempre alívio!

Mau aspecto, junto à famosa mariola gigante

A parte final da subida, com a mariola nas costa

Alvoco lá ao fundo.

O quarto e ultimo abastecimento foi na Torre, onde o Jorge estava em casa. Fomos à loja do tio dele e mamámos uma valente sandes de queijo e presunto com uma coca cola. À entrada do centro comercial tive que por a máscara, que passou a fazer parte do material obrigatório. Agora imagem, todo rebentado, aos 2000m, com uma máscara na cara. Digamos que não foi lá muito confortável!

Na Torre, já com o Jorge

As sandes do tio do Jorge.

Restava-nos agora "apenas" descer o mítico Major, depois apanhar o planalto da Nave de Santo António e descer pelos zigue-zagues até ao Vale Glaciar, onde cumpriríamos os km finais junto ao Zêzere, nascido uns metros lá atrás, no Covão d'Ametade. 

Já estava com o modo ultra ligado, em gestão cuidada do esforço, há umas boas horas. Tinha vindo desde o início em ritmo de prova a tentar acompanha-los, mesmo sem conseguir. Tal como numa prova já tinha tido momentos muito baixos. Mas lidei com eles, como faço em prova, e aproveitei aquele ressalto de quando voltamos à vida. Desci o Major de forma resguardada e ainda tive pernas mais que suficientes para atravessar a Nave de Santo António a trote, assim como a parte final já no Vale Glaciar. 

O Vale Glaciar

Inicialmente tinha pensado ir mesmo até Manteigas, mas o trilho do Vale Glaciar desaparece sensivelmente a meio do trajecto, sendo que os ultimos 4 ou 5km são cumpridos num estradão plano muito chato. Por isso decidi ficar a meio do vale, onde existe uma praia fluvial e dá para estacionar o carro. Lá estava a Sara, há umas 3 horas à nossa espera! Pusemos as pernas de molho nas águas geladíssimas do Zêzere, arrumámos a trouxa e iniciámos a viagem de quase 4 horas que ainda nos faria passar por Arganil antes de descer para casa!

O Guilherme e o João, já de molho.

Foram 76km com 4650+ em 13 horas certinhas. Demorou bastante mais do que esperava, estava a apontar para as 11/12 horas, mas o percurso também foi muito mais difícil do que tinha imaginado. Encarei-o como uma autentica prova, de tal maneira que hoje estou num estado que raramente fico. Todo dorido, desidratado, arranhado... Mal me consigo mexer! 

O percurso foi mesmo muito interessante. As travessias têm aquela coisa boa de conseguirmos passar em muitos sítios diferente na mesma volta, e esta foi bastante grande. Começámos nos trilhos técnicos e fechados dos Picos do Açor, andámos pelos estradões da encumeada do Piodão, subimos o demolidor KV, acabámos no lindíssimo Vale Glaciar... Houve de tudo! Houve também um grupo espectacular mas que claramente andou mais devagar pela minha presença. É raro estar num grupo de treino onde sou o mais lento, a sensação não é a melhor. Fiz o melhor que consegui, mas a conclusão que chego no fim disto é que há níveis para este jogo. O Guilherme está seguramente entre os 5 melhores do país, nunca tinha corrido com ninguém deste nível durante tanto tempo, é impressionante como estamos tão distantes. Planetas diferentes!

E agora? Bem, as ideias pós-covid continuam a aparecer. Todos os ingredientes que procuro neste desporto estão presentes nestas aventuras, e certamente esta não será a ultima. É verdade que tenho saudades das provas, porque....... bem, já não me lembro bem do que tenho saudades, acho que principalmente do convívio com amigos! Porque o resto, o desafio, a descoberta, a aventura, o esforço, a montanha, está tudo aqui à mão de semear!

domingo, 7 de junho de 2020

Trans'Aire e Candeeiros

Não é que as provas sejam de forma alguma uma obrigação, eu gosto de fazer. Mas não é só da competição que gosto. Adoro sair à aventura, andar em lugares desconhecidos, levar o corpo ao limite, descobrir novas sensações... O melhor de tudo é que, mesmo com todas as provas canceladas, só a competição é que não está disponível, o resto está tudinho aí fora à mão de semear! A motivação e vontade de correr estão bem lá em cima, tal e qual como se houvessem provas, e a verdade é que ando cheio de planos para estes tempos. Ontem foi dia de embarcar numa dessas aventuras: O Trans'Aire e Candeeiros!


Depois de anos a sonhar com este proje..... ok, esqueçam, no domingo passado pensei que podia ser engraçado atravessar o Parque Natural das Serras d'Aire e Candeeiros, que se situa aqui bem perto de casa. Conhecia algumas parte do parque, mas outras eram completamente desconhecidas. Peguei no telemóvel, fiz um print-screen ao google maps, uns rabiscos e... voilá! 

Está feito o track!
O primeiro e mais importante passo estava tomado, decidir que ia fazer isso. Agora "" tinha que arranjar um percurso que cumprisse o que queria. Falei com o Pedro Ribeiro, que é de Rio Maior, com o Guilherme Lourenço, que é da zona das Alcobertas, com o Aníbal Godinho, que é da zona de Torres Novas e, muito importante, com o João Tomás, que é de Porto de Mós. Reuni uma série de tracks de treinos e provas, uns deles, outros meus, e com a ajuda do João, que aceitou não só ajudar-me a desenhar o percurso mas também a acompanhar-me na aventura (acho que não demorou 15 segundos a pensar), traçamos o nosso Trans'Aire e Candeeiros!

Não ficou muito diferente!
Tracks no relógio e, no sábado às 8 da manhã, lá estávamos no Alto da Serra, ao pé de Rio Maior, prontos a embarcar na aventura. Esperavam-nos cerca de 65km num percurso que obedecia a um principio: não nos interessava andar a subir e descer só porque sim, o objectivo principal era atravessar o parque e ir aos principais picos, pelo que tentaríamos sempre manter-nos na encumeada. Claro que fizemos tudo para fugir dos estradões e andar em trilhos.

PNSAC - Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros
A primeira parte do percurso, que atravessa o parque eólico da serra, era a que conheciamos pior e foi onde fizemos o maior compromisso. É uma zona de muitas pedreiras e com poucos trilhos (pelo menos que nós saibamos) a atravessar longitudinalmente, então decidimos seguir num estradão que percorre a encumeada toda. O percurso total de 65km teve, talvez, 20km de estradão, praticamente todos concentrados nos primeiros 25km. Foi um mal necessário, já que queríamos começar em Rio Maior, mas até nem foi assim tão mau. O estradão andou sempre lá em cima e as vistas eram muito boas. Serviu como um bom aquecimento. Nesta altura já dava para ver a omnipresente Serra d'Aire, a uns impressionantes 50km de distancia em linha recta. Parecia impossível, mas naquele dia ainda lá haveríamos de passar. 

O João a chegar a um dos marcos geodésicos. 
Os primeiros 15km foram praticamente todos cumpridos neste estradão a um bom ritmo. A chegada a Vale Ventos, onde estava a Sara e os miúdos, que andaram a acompanhar-nos durante o dia, marcou o inicio da mudança no percurso. Os seguintes 5km já foram metade trilho metade estradão, sempre na encumeada e em progressão. Lá para os 20km passámos pelo Arco da Memória e iniciámos a primeira subida a sério em trilho para, praticamente até ao fim, não abandonarmos os single tracks. 

Arco da Memória. Cliquem no link aqui em cima para saberem a história.
Estávamos a entrar na zona do João, pelo que ele criou ali um percurso de primeira qualidade. Sempre em trilhos bastante técnicos, percorremos uma crista com uma proeminência brutal, por trilhos que eu nunca imaginei que houvessem ali. Já nem me lembrava dos estradões do inicio, enquanto me tentava equilibrar, pedra ante pedra, na descida do picoto para a vila de Serro Ventoso, no fundo do vale. 
A crista que percorremos durante 6 ou 7km. Como sempre, a imagem fica MUITO aquém da realidade



A subir para a crista

Trilhos espetaculares antes de chegarmos À crista da Bezerra

Algumas zonas bastante técnicas
Depois de Serro Ventoso iniciámos a subida para mais um dos pontos altos do percurso e um verdadeiro ex-libris do Parque - a Fórnea. Quem não conhece, é obrigatória a visita. Um anfiteatro natural inacreditável na serra, que se enche de água e cascatas quando chove. É verdadeiramente impressionante estar ali, faz-nos sentir pequenos. 

A foto obrigatória na Fornea.
Lá, na Fórnea, estavam mais uma vez a Sara e os miúdos. Acordaram comigo às 6 da manhã, vestiram-se entre naturais birras e muito sono à mistura, prontos a passar um dia a andar de ponto em ponto à espera que eu passasse. Se acham que é cansativo correr 65km, imaginem o dia da Sara, mais de 8 horas sozinha com dois miudos cansados e com sono, fora de casa, de um lado para o outro!

Com os artistas.
Depois da Fórnea começamos a percorrer uma encosta lindíssima que nos levaria até Minde. Foram quase 15km num single track limpo, com muito pouco desnível, que percorria toda a encosta. Com o João quase sempre na frente, andámos a muito bom ritmo pelo trilho perfeito para correr. Ora na encosta, ora na encumeada, por entre muros de pedra calcária amontoados à mão, típicos da região. De marco em marco, lá fomos ganhando terreno até à grande descida para Minde. Sem dúvida um dos pontos altos do percurso!

Foram quase 15km desta maravilha

Chegámos a Minde, 50km certos e perto de 1500+, com pouco mais que 5h30. Mesmo com algumas paragens pelo caminho, testemunha bem o bom ritmo que estávamos a meter. Principalmente à custa do João, que se farta de correr e me rebocou montes de vezes!


Faltavam agora cerca de 15km e a maior subida de todas, que nos levaria ao topo da Serra d'Aire, onde já estive dezenas de vezes em treinos. Chegámos a Minde sem um pingo de água e com fome. A Sara tinha ficado a orientar as tropas num parque infantil em Porto de Mós e não conseguiu ir ter connosco, por isso procurámos a primeira tasca e arrastámo-nos (pelo menos eu) para uma mesa na rua. Estava a trabalhar a vapores e precisava muito de comer bem. Felizmente aterrámos na Tasca do Chico, onde é feita a melhor bifana de Portugal, onde as médias estão à temperatura perfeita, mesmo antes de congelar, e os tremoços têm a quantidade certa de sal. Ui, pelo menos a mim pareceu-me o melhor sitio da terra.

Perfeito.
Estivemos uma boa meia hora sentados, entre comida e conversa. Coisa que nunca faria numa prova, mas que ali soube pela vida. Restabelecidos, levantámo-nos já meio perros da paragem em direcção à Serra d'Aire. Foi só cruzar a A1 para o outro lado por uma passagem aérea e começámos uma longuíssima subida de 6km e cerca de 500+ até ao ponto mais alto. Metade deste trilho não conhecia, mas foi a subida perfeita para o final. Sempre em trilho, tricotámos por entre patamares e pedras numa inclinação muito confortável, até aos 680m do pico. 

Lá em cima, no ponto mais alto.
Agora era só descer o planalto e finalmente apanhar o Vale Garcia. Foram 7 ou 8km sempre a descer num trilho muito bom, por onde já passei dezenas de vezes. Se na subida tinha tido as maiores dificuldades do dia, muito por ter comido (e bebido?) tanto em Minde, quando comecei a descer comecei finalmente a sentir-me bem e deu para acabar em grande, mais uma vez a bom ritmo.

Chegámos à pequena aldeia de Alqueidão com 65km e 2000D+ certinhos. Parecia de propósito. Foi uma chegada perfeitamente anti-climática, como sempre acontece nestas aventuras solitárias. Ninguém na aldeia sabia que aqueles dois tinham acabado de correr durante 8 horas, provavelmente não acreditariam que tínhamos saído aquela manhã de Rio Maior, a mais de 60km de distância. Pedimos água a um velhote que estava a cortar a relva no jardim e sentámo-nos num banco do largo da igreja a sorrir, sem falar, enquanto esperávamos pela Sara. Foi uma aventura e uma viagem perfeita, com todos os ingredientes que procurava!


Esqueçam as provas, não precisam delas para se motivarem. Há um mundo lá fora para descobrir e nós temos a sorte de fazer o melhor desporto do mundo. As possibilidades são infinitas, assim haja vontade e determinação. Pronto para a próxima aventura!

Link para o Strava

sábado, 2 de maio de 2020

O dia que corri 100km à porta de casa

Ontem corri 100km à porta de casa.

Porquê? Bem, antes de chegarmos aí, vou descrever como foi!

Meti o despertador para as 4 da manhã. Na noite anterior naturalmente custou-me a adormecer, estava agitado e ansioso, como numa prova. Dormi mal e desconfortável mas lá me levantei às 4. Comi 3 torradas, um copo de água, equipei-me, abri a porta de casa e entrei no meu circuito: um loop circular de 500 metros quase certinhos, com 3 ou 4 metros de desnível positivo por cada volta.


A madrugada estava meio abafada e húmida. Pousei uma mesa pequena no passeio com o abastecimento (tailwind, água e umas amêndoas) e às 4:45 da manhã, sem respirar fundo ou pensar muito nisso, liguei o relógio.

O pórtico da meta.
Tinha planeado começar logo a correr entre os 6' e 6'30''/km mas cedo percebi que não era confortável. Sentia-me a travar e o movimento não era muito natural, por isso estabilizei entre os 5'30'' e 5'45''. As voltas foram sendo dadas praticamente sem esforço durante as primeiras duas ou três horas. Ainda deu para apanhar uma grande molha entre as 6 e 6:30 da manhã, mas logo parou e voltou o tempo quente e húmido. Pelos comentários que fui lendo, acho que a parte que faz mais confusão a toda a gente é andar num circuito fechado e curto, mas, sinceramente, não me fez grande confusão! Nunca cheguei a pensar muito nisso, ia correndo e pronto. Era essa a minha missão, palmilhar metros, tudo o resto era acessório. 

Passei à maratona com 3h56, 5'36''/km de média, mesmo muito confortável. Ainda não tinha comido nada, mas estava a ser certinho com o tailwind, já ia no 4º flask, por isso não sentia ainda nenhumas quebras. Passei o equador dos 50km lá para as 4h40, ainda a um ritmo muito constante, até que finalmente, lá para os 60km, a coisa começou a pesar.


Já me sentia preso há algum tempo, tentava de tempo a tempo fazer umas passadas que dobrassem mais os joelhos para contrariar o movimento repetitivo das ultimas 5 horas. É o grande problema de estar tanto tempo a correr sem desnível numa estrada, o movimento é seeeeempre igual, milhares e milhares de vezes. Sentia a lombar a pesar e sem dar por isso corria mais dobrado para a frente, tendência que contrariava assim que me apercebia (isto também acontece muito no trail), os pés a ferver e as articulações dos joelhos e tornozelos cada vez mais perras. 

72, 73, 74km.. O ritmo mantinha-se abaixo de 5'40''/km, mas agora muito mais em esforço. O desconforto era cada vez maior e comecei a fazer as primeiras voltas acima de 6'/km. Foi por esta altura que comecei a combater uma vontade cada vez mais irresistível de caminhar uns metros, coisa que ainda não tinha feito. Continuava exclusivamente alimentado por tailwind o que, parece-me, foi um erro. 

77, 78km. Cada vez mais difícil. Olhava para o relógio de 100 e 100 metros. O conforto tinha desaparecido por completo e agora já era uma luta constante para dar cada passo. Lá para os 78km a Sara ofereceu-me uma canja quentinha, o que recusei. Por incrível que pareça, a chegar aos 80km, já a sofrer muito, continuava com a mentalidade de "não posso parar, quero é despachar isto o mais depressa possível!"

79, 80km.. Corria dobrado com um semblante de agonia. A tentação de caminhar ecoava como uma sirene dos bombeiros na minha cabeça, luzes vermelhas por todo o lado. Até que finalmente...cedi. Pedi à Sara que me voltasse a trazer a canja e, depois de passar os 80km, sentei-me no nosso abastecimento a comer. 

Adicionar legenda
Apesar de pelo menos há 10km andar a correr ligeiramente acima de 6'/km, o ritmo continuava bastante aceitável, mas ali, sentado, decidi deitar isso borda fora e concentrar-me unicamente em sobreviver ao quinto final daquela insanidade. 

Comi a canja e estive ali 2 ou 3 minutos sentado, a primeira vez que parei de correr em quase 8 horas. Assim que me levantei os musculos e articulações das pernas gritaram de agonia, mas passados 200 ou 300 metros de corrida já estava novamente em piloto automático. Senti-me ligeiramente melhor depois da canja, por isso decidi que, até ao final, se tivesse que parar de novo não iria hesitar. 

Infelizmente, foi sol de pouca dura. Que é como quem diz, o conforto da canja durou 2 ou 3km, depois voltei a entrar no poço. Comecei a caminhar cerca de 100 metros por cada volta, sempre a mesma distancia, a começar e a acabar no mesmo sitio. Era uma espécie de prémio por cada volta dada, só tinha que aguentar os outros 400 metros, depois tinha aquela pequena recompensa. 

Já não sei o que me custava mais, se resistir à tentação de me mandar para o chão assim que começava a caminhar, se voltar a correr depois daqueles 100 metros. Tinha planeado voltar a comer uma canja aos 90km, mas depois de 2 ou 3 voltas que foram uma verdadeira agonia, voltei a sentar-me logo aos 89km. 

Faltavam 11km, mas parecia-me uma eternidade. A partir daí foi um martírio! Demorei 1h20 a fazer estes 11km finais, a andar os tais 100 metros em praticamente todas as voltas e por quatro ou cinco vezes sentei-me mesmo no passeio durante uns segundos.

O ritmo médio tinha obviamente baixado nos ultimos 20km, mas continuava bem real a hipotese de acabar antes das 10 horas e foi mesmo à justinha, com 9h58, que terminei esta loucura de correr 100km à porta da minha casa!

Sentado na meta, já descalço 
Sem pórtico da meta, musica, ou entrevistas do Joca e do Hugo Água, acabei os 100km como quem acaba um treino de 10km. Desliguei o relógio e desfaleci no meio da estrada. Mantive-me sentado no chão uns bons 15 minutos até que me arrastei 20 metros até uma cadeira, onde estive uns 30 minutos.  As dores nas pernas eram agonizantes, não tinha posição. Como acontece sempre depois de uma prova muito dura, estava sem voz, não por rouquidão mas porque não tinha energia para falar. Lá ia balbuciando qualquer coisa entre pensamentos dispersos e sorrisos de satisfação. Estava feito. Agora era arrumar a tralha e voltar para dentro de casa!

Antes de tentar explicar o "porquê", isto se ainda não deu para perceber depois deste texto, tenho que fazer uma referência. Estive sempre na dúvida se devia falar disto ou não, mas foi um factor tão importante que não faria sentido não o mencionar. Tinha planeado fazer isto tudo sozinho, por causa das regras da quarentena. Umas horas antes de começar a empreitada, fiz referência a isso na página de facebook do blog, e logo uns bons amigos de Almeirim se ofereceram para me fazer companhia por algumas voltas. Acabei por correr sozinho apenas nas primeiras 3 horas, a partir daí foram chegando uns, partindo outros, mas corri sempre acompanhado por 2 ou 3 amigos. Passaram por aqui várias pessoas, da espectacular comunidade de corrida de Almeirim. Foi lindo voltar a correr acompanhado, já não o fazia desde o inicio de Março, ainda melhor por alguns dos meus melhores amigos. Não vou fazer aqui referência a nomes porque não sei se ficariam confortáveis com isso, mas agradeço-vos do fundo do coração. Acho mesmo que para o ano podemos pensar em meter um porco no espeto ali no meio, umas colunas a bombar e tornar oficial os "100km da Adema"!!


Agora, a pergunta do milhão de dólares. 

Porquê?

Acho que se leram o texto e, principalmente, se também fazem desporto de endurance perceberam perfeitamente. Nós somos como drogados. Junkies, viciados. Precisamos daquela dose de endorfinas, das pernas rebentadas, da voz rouca no fim de um grande esforço, de acordar doridos... Os problemas do trabalho, a angustia do Covid, todo o stress do mundo real, tudo isso passa para segundo plano quando andamos no fio da navalha, no limite das nossas capacidades. Quando chegamos a esse ponto, a única coisa que importa é conquistar o próximo metro, dar o próximo passo. Principalmente hoje em dia, estamos a viver uma época surreal. O mundo está virado ao contrário. Adormecemos mal, angustiados, a pensar como vai ser a partir de agora. Mais do que  nunca sentia que precisava deste reset, de desligar tudo à minha volta, de fazer alguma coisa extremamente difícil e fazer disso, pelo menos momentaneamente, o meu mundo.