As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Madeira Island Ultra Trail 2019 - A minha corrida perfeita.

Foi em 2014 que li a crónica do Paulo Pires sobre participação dele no MIUT. Na altura ainda era um inexperiente nos trilhos, mas a descrição dele da Floresta Laurissilva ficou-me na cabeça e decidi logo ali que um dia ia estar na Madeira. Um ano e uma decisão impulsiva depois, lá estava eu em Porto Moniz para enfrentar os 115km que haveriam de mudar tudo. Passaram 5 anos desde que o Paulo me apresentou o MIUT. Milhares de quilómetros noutros trilhos, noutras montanhas, noutros países.. Mas todos os anos lá voltava eu a Porto Moniz para mais uma travessia. 

Quatro MIUTs depois e aos 105km do quinto, no Larano, ultimo abastecimento da prova, o ciclo estava prestes a fechar-se. Tentava segurar as lágrimas. Tão perto da meta mas tão longe. As pernas estavam desfeitas, gritavam por descanso, por paz. O meu corpo pesava mais de 500kg em cima daquela cadeira. A 11.2km da meta senti que não conseguiria dar nem mais um passo, a minha prova tinha acabado ali. 

Mas.... levantei-me.

Retirado do Facebook da organização.
Nunca tinha estado tão tranquilo antes de um MIUT. Estava completamente seguro do treino que tinha feito, vinha de algumas provas que me deram muita confiança e, acima de tudo, sentia-me muito bem. A viagem foi mais uma vez feita com grandes amigos, a Sara diz que é a minha viagem de finalistas anual :) O Rodrigo e o Simão estavam comigo na partida dos 115km, enquanto o João Bastos e João Miguel esperavam em Machico pelo inicio das suas provas, 42 e 85km. 

Rodrigo, Simão, Bastos e Cabeçudo.
Este ano éramos uns impressionantes 960 em Porto Moniz! No meu primeiro ano partiram 350. À meia noite lá iniciámos a cada vez mais stressante primeira subida e descida. É muita gente para escoar e os engarrafamentos são quase inevitáveis, mas mesmo assim consegui descer com bom andamento para a Ribeira da Janela, onde como sempre nos esperava um cada vez mais impressionante banho de multidão. 

A subida seguinte, a primeira grande subida da prova, até ao Fanal, tem sofrido algumas ligeiras alterações ao longo dos anos. Sinceramente, parece-me que todas a foram tornando mais acessível! Não deixam de ser 1200+ em 10km, mas a inclinação nunca é exagerada e o desnível, apesar de ir acumulando no corpo, vai-se papando quase sem dar por isso. Mas o MIUT estava prestes a começar e foi longo com estrondo.

A famosa e sempre espetacular serpente. Retirado do Facebook da organização.
Para este ano a grande alteração foi a descida a seguir ao Fanal. Aquela que para mim era a mais difícil de todo o percurso seria substituída por uma supostamente mais acessível, mas sinceramente dali não vieram facilidades. A nova descida, que acrescentou quase 3km ao percurso, foi quase toda feita em escadas (quem diria), embrenhada na Laurissilva. Um trilho espetacular mas muito difícil, como quase todos nesta prova, onde é quase sempre impossível de correr e o único pensamento é segurar as pontas para o que aí vem. E ainda mais cuidados se devem ter quando o que se segue é o monstro do MIUT: a subida para Estanquinhos. 

Juro que de ano para ano eles sobem a cota de Estanquinhos. Tem que ser, aquilo parece-me sempre maior. O mesmo desnível da subida para o Fanal mas com metade do comprimento. Uma verdadeira bomba que se não for tratada com o máximo cuidado nos rebenta nas mãos. Senti-me bem nesta subida. Ao contrário de 2018, fui poucas vezes virado e consegui manter um ritmo constante sem nunca entrar em demasiado esforço. O único contratempo foi a 50 metros do abastecimento onde, desconcentrado, dei uma valente queda que deixou uma bonita marca na perna. O pior foi quando me tentei levantar e os músculos das pernas ficaram imediatamente com cãibras, afinal já iam em tensão completa com as 2 horas de subida intensa. Mas não havia tempo a perder, lambi as feridas, entrei no abastecimento e tentei comer, só que desta vez e ao contrário do habitual, o estômago não estava a colaborar e só consegui comer dois pedaços de banana. Paciência, logo se há-de ver, siga para a descida. 

A Courtney a chegar ao Fanal. Mais uma da organização.
Este ano tivemos a sorte de apanhar um excelente dia, não choveu durante toda a noite, pelo que a descida a seguir a Estanquinhos estava sequinha. O dia perfeito para a descida perfeita, na qual em quase 10km se perdem os 1200m que se ganharam na subida. Umas vezes rolante, outras vezes técnica, outras vezes desesperante com os seus lances de escadas super íngremes, é uma descida que nos convida a andar rápido mas para a qual pagamos uma portagem elevada. 

O preâmbulo do MIUT estava completo. Não alinho na conversa do MIUT só começar aqui, na verdade acho mais que o MIUT são 35km e 3100+ de prova, seguidos de 80km a gerir os cacos resultantes da violência deste embate inicial. Ali naquele pequeno abastecimento no Rosário, já na parte final da descida após Estanquinhos, contam-se armas e fazem-se planos antes da segunda parte da batalha. É aqui que todos se tornam pequenos e fazem a pergunta: será que tenho o que é preciso?

Comecei a gerir mentalmente a prova por etapas. Primeiro o caminho Quebra Panelas, com os seus degraus infinitos e muito curtos que nos levam à Encumeada. As boas sensações físicas contrastavam com a barriga que teimava em não entrar na prova. Com a companhia do Ricardo Chung tricotámos pelos degraus acima até desembocarmos na estrada que nos levaria ao abastecimento da Encumeada. Estava bastante moído, normalíssimo. Sentei-me e, como sempre fiz aqui, fui buscar uma canja. Só que desta vez ela não entrou. Ainda assim forcei, deixar o depósito vazio era impensável, e, agoniado, lá segui.

Os degraus até à Encumeada, pelo Alexandre Andrade. Obrigado!
Lá subi pela 5ª vez o famoso pipeline e virei a montanha para o Curral de Freiras, que de ano para ano me parece mais afundado num vale. Bem no topo, antes da descida, parei 5 minutos para meter um gel e despir o corta vento, a excelente noite tinha-se transformado num dia lindo e de céu limpo, estava a aquecer. Ao contrário da subida até ali, na qual senti que estava a ir abaixo, a descida para o Curral trouxe de volta as boas sensações. O Strava diz que foi a melhor das 5 e o certo é que estava solto. Bom sinal!

Transito no Pipeline, pelo Alexandre.
Entrada no abastecimento do Curral das Freiras, accionei o botão e entrei em modo Base de Vida. Fui buscar o saco, troquei de roupa, lavei os dentes, levei o meu Compal de pêra e fui sentar-me a comer um prato de massa com carne. Uma, duas, três colheres e acabou. Sentia-me cada vez mais agoniado e não quis forçar, bebi o sumo quase todo, sempre serviria de alimento. Percebi que esse aspecto não ia melhorar até ao fim, por isso mudei de estratégia e decidi que a partir dali ia depender dos géis, que a bem ou a mal lá iam entrando. 

A meio dos afazeres, pelo Ricardo.
A etapa seguinte era a infernal subida ao Pico Ruivo. 1350+ em pouco mais que 10km numa autentica torradeira, naquele que eu creio ser o único sitio da Madeira com eucaliptos. Um trilho aos ésses, com pedras e degraus, terra muito seca que levanta pó e torna as coisas ainda mais desconfortáveis. As primeiras quase 2 horas de subida são passadas nesta estufa sufocante, a beber água como se não houvesse amanhã. Comecei muito mal, fui passado por algumas pessoas, o que normalmente não me faz confusão nenhuma porque gosto de ir ao meu ritmo, mas foi a meio daquela subida que a coisa começou a mudar. 

Ao ser passado por mais um comboio de 4 ou 5 atletas, todos da prova de 85km, decidi colar neles. Porra, que se lixe, se quebrar quebrei, mas estou a sentir-me bem, sou capaz de ir mais depressa. Entrei no ritmo deles e rapidamente os deixei para trás, à medida que saíamos do inferno dos eucaliptos e chegávamos perto dos picos e das escadas. O ar ficou imediatamente mais fresco e eu automaticamente também me senti melhor. Meti mais um gel antes do ataque final ao Pico Ruivo o que me deu um ultimo boost. Cheguei lá acima a acabar o terceiro flask, foi quase litro e meio nesta subida! 

No abastecimento nem tentei comer, enchi os flasks e fiz-me ao caminho. Apesar do próximo abastecimento ser a 10km, estes dividem-se em duas etapas muito distintas: a primeira delas é a razão pela qual faz valer a pena voltar ano após ano, a travessia entre os picos. Por mais que eu tente descrever estes 5km todos os anos, é impossível fazer-lhe justiça. Têm tanto de duro como de incrivelmente bonito, uma coisa de outro mundo. 

Caminho entre os picos, pelo João Miguel, aka Cabeçudo.

Esta é do Alexandre. Brutal.
Continuei com a minha estratégia de "ou vai ou racha" e mais uma vez o Strava me diz que fiz o melhor tempo nesta secção entre os picos. Era a primeira vez que estava a encarar uma prova de 3 dígitos desta maneira, ainda por cima no MIUT onde sou sempre tão cauteloso. Corri nos pequenos troços onde dava para tal e subi os degraus devagar mas sem hesitar ou parar. Lembro-me de no meu ano de estreia me ter sentado umas 50 vezes naqueles degraus! De repente o caminho que era muito longo até ao Areeiro tornara-se curto, já estava a entrar nos 4km de descida para o abastecimento do Chão da Lagoa.
Na descida para o Chão da Lagoa, foto da Jennifer Alves. Obrigado!
Nada é fácil nesta prova, porra! A descida começa com escadas atrás de escadas, toros de madeira redondos que condicionam a passada. Depois saímos das escadas e entramos nas pedras, mais terreno difícil, mais umas pequenas subidas a meio. Forcei o trote, sempre. Olhei para o relógio e comecei a fazer contas de cabeça. "Ora bem, se chegar às 17:20 ao Chão da Lagoa, depois 2h30 até ao Poiso, depois ..... epah, não, cala-te estúpido. Não comeces com essas merdas!".

17:15, cheguei ao Chão da Lagoa. 200 metros antes do abastecimento tinha decidido que não me ia demorar, já que não estava a conseguir comer ia só encher os flasks e seguir. Mas, assim que paro, o corpo parece que desligou e tive mesmo que me sentar. "Porra. Esquece, nunca mais chegas ao Poiso em 2h30, caga nisso, nem sequer penses. Nem te aguentas em pé!"

Levantei-me com os flasks cheios e 2 gomos de laranja no bucho. Liguei à Sara a dar novidades enquanto caminhava no trilho, de qualquer maneira aquilo já não dava para correr. Ainda assim quando desligo faço uma tentativa de trote, mas tudo me dói! Caraças, não me hei-de vergar. Batalhei a descida inteira para o Ribeiro Frio com dores em todas as articulações e músculos das pernas, a pancada já tinha sido muita e agora estava a levar mais uma carga de porrada naquela descida. Surpreendo-me quando chego ao alcatrão, lá em baixo. "Isto já é a base da descida?" perguntei a um voluntário, como se não soubesse já. Tinha ideia que era mais comprida... 

Uma selfie! Depois de muita insistência da Sara para meter uma foto na página do blog.
Tomo novo gel. Tinha demorado uma hora a descer, para chegar ao Poiso antes das 20 tinha 1h30. O que achava muito difícil parecia tornar-se impossível, enquanto trabalhava aquela parede horrível na parte inicial da subida. Raios parta. Já tenho os músculos a ceder, já não sei se me doem mais os quadricepes a subir ou descer. Mas a porra do caminho agora está quase plano, tenho que trotar, caraças.

Olho para o relógio a controlar a altitude, o abastecimento do Poiso está aos 1400m e faltam 200 para lá chegar. São 18:40. Epah... queres ver... 

Menos 150...menos 100..menos 50...  Faltam menos de 50 metros para o Poiso, são 19 horas. Acho que nunca cheguei aqui tão cedo.

Entro no abastecimento às 19:16 e mais uma vez cedi à tentação de me sentar. O meu corpo está no fio da navalha, percebo isso porque assim que me sento sinto os sistemas rapidamente a desligar um por um. Levanto-me de repente e vou encher os flasks. Forço mais 1 ou 2 pedaços de banana e ligo à Sara que me confirma que nunca cheguei ali tão cedo, mas a diferença para o 2016, o meu melhor ano, não era significativa. Era muito, muito apertado. Ainda assim não consegui evitar olhar para aquela luzinha lá ao fundo. Primeiro muito ténue, mas cada vez mais intensa. A luz que me dizia que era possível chegar a Machico antes da meia noite. Mas para isso acontecer tive que fazer uma aposta. Desde o Curral das Freiras que estava a arriscar, forcei bem mais do que normalmente faria, mas agora estava num precipício e tinha que tomar uma decisão. A luz das sub24 estava acesa, mas para lá chegar precisava de, mais do que arriscar, entrar em modo suicida. 

Fiz all in. Agora estava a entrar num jogo novo.

Do Poiso à Portela são 9km a descer. Primeiro num trilho de downhill pouco técnico, depois num estradão e finalmente numas levadas misturadas com escadas. Forcei como se estivesse numa prova de 10km. A dor nos músculos das pernas tornara-se aguda com o impacto, mas não desarmei, precisava de chegar à Portela antes do por do sol, o melhor que conseguira nas 4 edições foi ligar o frontal a meio da descida, era desse sinal que eu precisava. Então fui atrás dele. Fiz toda a secção a correr enquanto o meu cérebro entrava em ebulição com a perspectiva de conseguir. 

Pensei mais uma vez não me sentar no abastecimento, mas assim que subo os 5 degraus para o controlo quase que desmaio e sentei-me na primeira cadeira que encontrei. Deitei os bastões para o chão, ofegante, ensopado em suor, sem conseguir falar. Estava prestes a cair do precipício, era impossível, não ia conseguir, ia rebentar de certeza!

"Sim, dê-me um copo de café, sff". Com o café comi dois figos secos, não dava para mais. Que se lixe. Ou vai ou racha. 

Saí do abastecimento e devia estar lívido, as voluntárias perguntaram-me se estava bem. Óbvio que não estava, mas não havia volta a dar, agora era até ao fim.

Ainda era de dia quando saí da Portela para os curtos 5km até ao Larano. Sabia de cor e salteado o caminho. Três km de estradão plano, um trilho ondulante e para terminar a terrível Descida da Degolada. O trote que parecia ter fugido enquanto desfalecia no abastecimento afinal ainda lá estava nas pernas e consegui percorrer os 3km de estradão sempre a correr. 

A luz estava cada vez mais forte... Mas ainda faltava tanto!!

Entrada no trilho ondulante. Estendi o trote até ao limite. Sempre, mas sempre, a forçar. Estava cada vez mais difícil. Não que tivesse abrandado, mas todos os alarmes estavam a tocar de forma estridente! A cabeça ainda era mais forte e mandava o corpo seguir, mesmo quando parecia impossível! 

Até que veio a Descida da Degolada, aqueles 400m de descida demolidora antes do abastecimento. 

Oh não... Não consigo descer isto. Não consigo. Tinha dores fortes a cada apoio, desesperava em cada balcão que tinha que virar e descer mais uns degraus altíssimos. Sufoquei. Senti a garganta a apertar. A luz das sub24, que ainda há pouco quase me encadeava, começou a sumir depressa. 

Acabou. Tinha caído num abismo tão fundo como aquele que via no fundo da Degolada. 

Entrei no abastecimento do Larano. O ultimo, a 11.2km da meta. Estava perdido. Desta vez nem pensei em não me sentar, simplesmente não tinha força para estar de pé. Tentei segurar as lágrimas, mas com muito pouco sucesso. Que raio de ideia, nunca consegui e nunca vou conseguir chegar antes da meia noite, não o tenho em mim, devia ter percebido o ano passado! Eram 21:28, tinha 2 horas e meia para fazer os cerca de 12km até ao fim, o que em circunstancias normais daria perfeitamente, mas aquelas não eram circunstancias normais, de todo. Ia ficar ali mais uns 20 ou 30 minutos, que se lixe a luz, vou arrastar-me até ao fim e pronto. 

Devastado, peguei na toalha para a atirar para o chão, mas quando estava prestes a encerrar o assunto...ela estava lá. Muito fraca. Uma pequena luz. "Oh meu grande anormal, já pensaste bem que tens 2h30 para fazer 12km? Mas tu já fizeste bem as contas? Foda-se! Deixa-te de merdas, nem que partas uma perna!" (a luz é um bocado mal criada, desculpem).

Levantei-me. 

Tinha que dar, tinha que conseguir. 

Foi o tudo ou nada. Corri praticamente toda a vereda do Larano. Encontrei o Carlos, amigo dos Açores, que me deu boleia durante 1km, depois segui sozinho nos trilhos que ligam o Larano às Levadas de Machico. Puxei como nunca tinha puxado por mim, mas a cada passo de corrida que dava a luz ficava mais forte e as pernas mais leves. A cabeça estava a levar a melhor e quando assim é conseguimos tudo! 

São 23 e estou prestes a entrar em Machico. 

Está feito. 

Consegui. 

Abrandei naqueles 2km finais, tirei a corda da garganta e saboreei cada metro. Pensei na prova que tinha acabado de fazer e principalmente pensei em tudo o que me levou ali. Não só os 4 MIUTs anteriores, mas todos os quilómetros que percorri. Pensei no treino que fiz nos meses que antecederam esta prova, em todas as horas que tirei à minha família, todos os sacrifícios, todas as vezes que acordei às 5 da manhã para treinar. Foi o final perfeito para um ciclo de 5 anos de MIUT. 23h20 não é um tempo nada de especial. Valeu-me o lugar 206 entre os 960 que começaram e 640 que terminaram. Ganhei a mesma medalha que todos os que chegaram depois do terceiro lugar e para muitos até seria considerado um tempo fraco. Mas para mim foi muito especial. Foi a prova que tudo valeu a pena, todo o treino, toda a dedicação, tudo foi recompensado. Foi a minha corrida perfeita.

A melhor foto da minha chegada!








Link para a prova no Strava

quinta-feira, 18 de abril de 2019

MIUT 2019 - Pronto para a luta.

Está feito!

Pelo quinto ano consecutivo, encontro-me naquela semana mágica antes do MIUT. Já tenho a aplicação do Flight Radar instalada no telefone e ando a controlar a previsão meteorológica para Machico. O transporte dos bastões está orientado, já tenho barras e géis e as sapatilhas estão escolhidas. Os voos e estadias estão marcados desde Setembro do ano passado e o treino... bem, mal ou bem, o treino está feito!

Este ano a principal alteração na preparação não é o que fiz a mais, mas antes o que fiz a menos. Por esta altura no ano passado estava a treinar 3 vezes por semana no ginásio, a juntar às 5/6 corridas. Foi também por esta altura que contraí uma lesão muscular chata que me acompanhou até ao fim do verão. Para poupar o músculo de exercícios muito localizados deixei de ir ao ginásio e a verdade é que nunca mais voltei. Não é que não goste, porque gosto bastante, mas há duas razões para não ter voltado: primeiro porque acabava o treino muito em cima da hora de saída para o trabalho, o que originava muito stress três vezes por semana, segundo porque comecei a notar já perto do final do ano passado, quando fiquei 100% dessa lesãozita, que estava com mais disponibilidade física na corrida. Ou seja, conseguia treinar de maneira mais eficaz. Pernas mais frescas nos treinos com subidas e mais rápidas nas séries, já para não falar da recuperação. Estava a treinar no ginásio nos 3 dias por semana em que fazia corrida de recuperação, claro que acabava por abusar e não recuperava nada. Com essa maior disponibilidade física acabei por aumentar o volume na corrida. Passei a treinar 7 dias por semana, sendo que 3 deles são de recuperação activa, ou seja, 30/40 minutos a pastelar. 

Este ano corri em 102 dos 106 dias, apenas parei dois antes e dois dias depois do TISM. O resultado é, ao dia de hoje, 1309km com 44500D+ em 146 horas. Pouco mais que o ano passado, apenas 130km e 1500+, mas sinceramente sinto-me bem melhor e mais confiante que em 2018. Acho que nunca estive tão sólido a correr e trago comigo as duas melhores provas que alguma vez fiz: A Travessia Integral da Serra de Montemuro e o Proença Cross Trail. 

Desde o inicio do ano, estas foram as provas:

Cork Trail (21km)

Quanto ao treino, adoptei a quarta feira como dia de séries e falhei muito poucas desde o inicio do ano, coisa que fazia pouco o ano passado. Passei várias semanas dos 3000+ e o volume de km também aumentou, agora sempre à volta de 80km. Mas principalmente sinto-me muito bem a treinar e completamente livre de lesões e moínhas.

Agora é ir lá virar aquilo. E isso, está claro, nunca são favas contadas... O MIUT é uma prova brutal, muita coisa pode acontecer, inclusive ficar pelo caminho. O ano passado, se bem se lembram, atirei a toalha ao chão em relação às sub 24 horas. Pois bem, provavelmente vou arrepender-me disto, mas não consigo evitar pensar que ainda está no horizonte. Podia estar aqui e dizer que só quero acabar, mas vou ser sincero: acabar antes da meia noite seria perfeito. Tudo terá que se alinhar, tem que ser um dia perfeito para mim, se assim for e jogar as minhas cartas bem pode acontecer. Uma coisa é certa: pra semana vou à luta!


MIUT 2016. O único ano em que passei bem nesta zona. Que se repita em 2019!

terça-feira, 9 de abril de 2019

Madeira Island Ultra Trail - Tips for first-timers

Take note: the following text is just my take on the Madeira Island Ultra Trail course and how I think it should be managed.  It comes from my four participations on the race, from 2015 to 2018 (you can read all about it on my blog, but I'm afraid it's still portuguese only, it's a real pain in the ass translating these!). I'm not an expert, I'm just a middle of the pack runner, so if you're an elite runner this shouldn't be that interesting. This year I'll be back for my fifth race across Madeira.


We're just a couple weeks away from being in Porto Moniz, so the training is done. At this time you're spending half your day anticipating the day you're flying to Madeira. It's time to tune up your gear, plan your diet and, very important, study the course.

I know some of you don't think it's that important, you just start running and figure it out as it goes, but not me. I like to thoroughly study the course.  Stop thinking about mile X to Y and start seeing it as a multi stage race. First you have this climb, than the VK, following that technical section, that hard descent, and so on. That's what I'm about to do, explain how I divided MIUT's course and the way I think you should manage your effort.



First Stage: Porto Moniz - Estanquinhos


The first 30km, ending in Estanquinhos, are maybe the most important stage. Not for the reasons you're thinking, forget about the time barrier. My first year I obsessed about it and after came to the conclusion that it's not that tight. No, forget about time or speed, the most important thing about this 30km and almost 3000m elevation gain is to pace your effort perfectly, because any mistake during this night will certainly compromise the rest of the race.

That first hill on the elevation profile is a gift from the organization. First you'll climb 400m on a paved road and enter a really easy downhill on a very runnable trail. You won't find anything as easy as this untill the end. To avoid traffic jams as you enter the first trail, my advice is to start no too far back on the pack and then push a little on the easy uphill. In 2017 I started way back and had to walk the entire downhill because there's just too many people. It's also really important you place yourself at least in the middle of the pack because you'll be climbing the next two hills following a train of runners and you don't want to fall asleep when moving too slow.

The next two ascents, to Fanal and Estanquinhos, are absolutely insane. They're both over 1000m elevation gain and you'll be running through mud, trails e steps. Lots of steps.  Once again, pacing yourself is crucial. If you're going on a too fast train, just pull over, don't over do it. If you feel you're going to hard, you probably are. Take baby steps, think about every step you take, try not to spread your legs too much.

The Fanal control post, at the end of the first VK, isn't at the mountain's peak, when you exit it there's a bit more climbing to do and 2 or 3km before you start descending. So you'll finish a really tough uphill in the middle of the forest, you're hot and sweating and it's really easy to get cold before you start running on the descent. Be very careful, don't take too long on the control post.

The next uphill, to Estanquinhos, is even harder than the last one. Technical from bottom to top and really steep. It's the most difficult on all the course, although it won't seem that hard while you climb it. Remember you're only around 5 hours and 20km in, so your legs are still fresh. But every little mistake you make here will cost you much further ahead. The last part is on an exposed plateau, it can get really cold. Although the weather in Madeira is pretty stable, in 2018 the temperature dropped drastically here and started pouring rain. A lot of runners weren't counting on this and quit in Estanquinhos.

Second Stage:Estanquinhos - Curral de Freiras


The descent after Estanquinhos is probably one of the best you'll ever do. You'll do it around sunrise so it'll be perfect. It's relatively easy until the final section, where you'll find some steep stairs, but it's mainly easy trails and levadas (water canals, very typical in Madeira) where the only problem is to pace yourself no to go too fast. It'll be hard not to get carried away.

After this wonderful descent you'll be climbing through the first true stairs sections, including the famous MIUT green pipeline, but also some unforgettable landscapes and quite a few runnable miles, after the Encumeada control post.

Although it's fairly easy section, this is where you'll realize if you did good on the first night. My first year in MIUT this was where I knew I was screwed!

The descent to Curral de Freiras is tricky because you'll try to run fast. It starts easy but you'll find yourself breaking stone meter after meter, and it just gets steeper. It's very technical and mentally tough. Once again, try to be eficient, go slow if you have to, don't just jump around pushing it, you’ve been running all night long but it's still a long way to go. Also, remember, before getting to the life base in Curral de Freiras there's still a really steep and short climb that's an absolute nightmare for someone who's been going downhill for more than half an hour. It's the middle of the day, probably really hot. It's rough!

Third Stage: Curral de Freiras - Chão da Lagoa


Really important: at Curral de Freiras fill all your water carriers. At least 1.5L. Believe me: you will need every last bit of it. I usually carry only two soft flasks, but I'll leave one on my drop bag just so I can take on the next ascent. I can't begin to tell you how many people get out of water before reaching the summit in Pico Ruivo. And keep in mind it's an excruciating climb that follows. Not that difficult at the first 800 meters  climb, but right about when you think it must be over, and you will… oh boy, you're in for a treat. Now you're in stair heaven.

It's absolutely unbelievable. You'll feel like you're on another planet, but it's so tough it will crush your spirit. You'll climb steep stairs, up and down, time and time again. You'll walk on scary ridges, go through dark tunnels, wet your feet on icy water, and it'll just seem more and more difficult and alien. The best part? At the end f the day this 7km section will make everything worth it. Look at me, I'm about to go for my fifth round because of it!

Besides the water, there's something very important you have to keep in mind after Curral de Freiras. The Pico Ruivo control post is of very difficult access so don't expect to get much food there, unlike every other control post on this race. So you'll get a REALLY TOUGH 20km section from Curral de Freiras to Chão da Lagoa, my advice is to carry some "real food" because it's a long stretch before you get it from a control post. Don't rely on gels.

Fourth Stage: Chão da Lagoa - Machico


You'll probably make the same mistake i did, my first year. From now on it's mainly downhill, so the hard part is past us. Well, actually, it kind of is, the problem is exactly what you left behind. Something like 80km and 6500 elevation gain. Even if it was a road with 5% downhill inclination you'd find it difficult at this point. And it's not easy descents, at all. Particularly the one to Ribeiro Frio. Dark soil, lot's of roots and really steep muddy trails. Just like the next, and last, ascent, to Poiso.

When you get there, in Poiso, you can now start breathing. It really is almost over. A series of easy and runnable descents right until Larano, where it gets really tricky and steep. It'll be nerve wracking, so take your time, be cool, don't ruin everything now that you're so close.

If you reach Larano on day light you're in for a blast at the Vereda do Larano. An absolutely breathtaking  7km trail near the sea, slightly uphill but really easy and beautiful. The problem is if you get there at night, like I did every time. Than it's a never ending trail that goes uphill all the way just to fuck you up some more. My God, is it nerve wracking! It just goes on and on and it'll seem like you're running on a treadmill! …Well, ok, my memories might be a little distorted, when I reach Larano I just want to get to Machico!

The good thing is once you pass it, that's it. You're done! Just a few easy trails, some Levadas, a couple roads and Machico is at your feet. Nothing will stop you now, so call your family and have them watching the live feed. You did it, congratulations!

Hm? What's that? You still have to run it? Well, ok. I guess I'll see you there!

terça-feira, 12 de março de 2019

Proença Cross Trail (44km) - à morte.

Umas horas antes da partida confessei aos meus companheiros que, pela primeira vez nesta distancia, ia arriscar. A recuperação de Montemuro foi pacifica e tenho andado a treinar bem desde então, a ideia de ver até onde dava começou a formar-se lentamente nas ultimas semanas e foi com alguma ansiedade que cheguei a Proença no Sábado. Os anunciados 2500+ para 44km impunham respeito, mas depois de ter feito esta prova em 2014 e ter falado com alguns amigos sabia que o percurso seria pouco técnico e bastante "corrível", apesar do desnível muito alto. Tenho andado a sentir-me muito bem a subir e contava com as descidas para recuperar, fossem elas fáceis. Na realidade não foi bem assim, mas os dados estavam lançados. Como diz o Sommer, no trail há duas maneiras de correr: à morte ou a fugir da morte. Aquele era o meu dia de correr à morte.

Antes da partida, com algumas das minhas pessoas preferidas e companheiros do dia: Bastos, Cabeçudo, Ângelo e Rodrigo.
Ok. Calma. Quando soou a partida às 9 da manhã não desatei a correr a 3 ao km, à Tiago Godinho. O meu "à morte" basicamente foi tentar estender até ao limite o trote nas subidas, em vez de parar ao primeiro aperto, dar tudo nas descidas fáceis, meter o trote antes do final das subidas e correr sempre em plano. Ou seja, é um à morte muito mariquinhas, desculpem desapontar-vos. 

Foto da organização
Dez minutos depois da hora é dada a partida em Montes da Senhora, para onde fomos transportados de autocarro. Gosto sempre destas provas lineares, que não começam onde acabam. Dá mais a ideia de irmos a progredir no terreno. Estava eu a dizer, 9:10 é dada a partida e vejo-me mais ou menos entre os 20 primeiros, dos 90 que partiram. Como já perceberam, o meu à morte mariquinhas não me permitiu grandes veleidades, por isso os primeiros 5 ou 6km, mais planos ou a descer, foram feitos confortavelmente ali entre os 4 e os 5 ao km. Todas as, ainda, pequenas subidas eram feitas a trote sem grande esforço e os esperados estradões e trilhos fáceis permitiam um andamento muito constante. So far so good.

44km, 2500 D+, muito sobe e desce.
Quem já fez provas do antigo Território Circuito Centro, da Horizontes, sabia o que esperar. Provas pouco técnicas, com muito estradão, em locais interessantes. Apesar do percurso ser integralmente diferente do que fiz em 2014, a filosofia manteve-se. Cerca de 60 ou 70% de estradão e estrada florestal, trilho confortável no meio do pinhal e algum, pouco, trilho mais técnico. O nome, Proença Cross Trail, diz tudo! Mas esta prova tem um pormenor muito importante, o desnível positivo acumulado é enorme para a distancia. Por exemplo, tem tanto como o Zela e quase tanto como o Freita Sky Marathon, ambas provas de sky running, onde o desnível é rei. A diferença é que aqui chegamos lá por caminhos diferentes, mas os metros subidos ficam todos nas pernas na mesma. Outra particularidade que me deu alguma confiança para "arriscar" foi perceber que apesar do perfil dar a entender que é um constante parte pernas, as subidas tiveram sempre no mínimo 200+. Ou seja, eram longas o suficiente para não ficar com aquela impressão que detesto de nem perceber se estou a subir ou descer. 

Foto random da organização, para mostrar que também haviam trilhos.
A coisa seguia tranquila nos primeiros 11km, onde chegámos ainda com pouco desnível positivo. A única surpresa até foram algumas descidas bastante inclinadas que não davam de maneira nenhuma para repor energia, mas continuava a sentir-me muito solto e sempre com trote pronto nas pernas. O primeiro abastecimento de sólidos surgiu apenas aos 17km. Sim, é um pouco tarde, mas a informação existia, tínhamos que ir preparados. Na prova existiram apenas 3 abastecimentos de sólidos. Há quem ache pouco, mas sinceramente não acho um problema, até porque estavam os 3 mesmo muito completos. Há que fazer o trabalho de casa e preparar a alimentação para o tempo entre abastecimentos. Teria sido grave, sim, se estes fossem fracos. Mas não era o caso.

Foto da organização do Pedro Oliveira, no topo de um monte.
Esta zona do país tem uma particularidade. É montanhosa, mas não tem nenhuma montanha que seja muito proeminente. O que quer dizer que apesar de termos andado em cotas bastante elevadas (até 920m), nunca deu aquela ideia de estarmos muito altos, porque à nossa volta haviam várias montanhas com alturas parecidas.

Tal como o percurso, a minha corrida não teve grande história. O plano foi cumprido na perfeição, tive sempre pernas para no mínimo iniciar as subidas a trote e retomar antes do fim destas. Acabei por me salvaguardar em várias descidas que foram mais difíceis, mas dei tudo quando estas eram em estradão. Não tenho registo da frequência cardíaca, mas de certeza que foi bem mais alto do que o normal em provas desta distância. Comi e bebi bem nos abastecimentos e precavi-me para a desidratação provocada por um calor anormal para a altura. 

Este estradão marcava simultâneamente o ponto mais alto do percurso e o fim da ultima subida. A partir daqui eram 9km praticamente sempre a descer! Foto da organização.
Como disse no inicio, quando a prova começou vi-me nos primeiros 20. É engraçado que durante todo o percurso nunca fui ultrapassado, com excepção de algumas trocas de posição que ora passava ora era passado, e ultrapassei apenas 4 ou 5 pessoas, acabando em 15º, 5h37 depois. Mas a classificação pouco ou nada importa, já que a prova, apesar de ser do campeonato nacional de ultra trail, não tinha muita concorrência. O que me deixa realmente orgulhoso foi o risco que tomei ser totalmente compensado. Foi sem dúvida a prova na distancia ultra mais sólida que já fiz e deu uma pica brutal atirar o martelo nas descidas e ir no limite. Na parte final, já depois dos 40km, tenho alguns quilómetros entre os 4 e 5'/km. Nada de especial para quem normalmente anda na frente, mas deixou-me a mim muito satisfeito!

As medalhas eram bem giras. foto da organização.
Quanto à prova, é o que é e não tenta ser mais do que é. Isso, para mim, é positivo. Achei o percurso muito rolante mas com a dificuldade extra do desnível ser alto. No entanto não faltaram alguns bons trilhos, passagens em povoações (às vezes parecia que estávamos a invadir quintais) e paisagens bem bonitas. Obviamente que é uma prova onde dá para correr muito mais que numa prova de sky, mas há espaço (e gostos) para tudo. Quanto às marcações, são as típicas marcações da Horizontes. Não se espere que o percurso esteja sinalizado tipo pista de aterragem de aviões, as fitas são poucas mas estão sempre no sitio certo. Exige mais concentração, é verdade, mas eu até prefiro assim do que ter a papinha toda feita. Foi um dia muito bem passado com amigos e um belo treino para o MIUT, que está aí ao virar da esquina!


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Link para a actividade no Strava 



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Travessia Integral da Serra de Montemuro (110km) - às cegas.

65km, 19:00, 10h30 de prova, 1150m de altitude.

A fita laranja está à minha direita, estou encostado a ela. Varro 360º à minha volta com o foco branco do meu frontal à procura da próxima, mas o nevoeiro espesso não me deixa ver mais que 5m. Aponto para o chão à procura de um caminho marcado por pegadas, parece-me ver um terreno mais escuro e sigo-o instintivamente. Avanço, às cegas, mais uns 200m até que reparo que estou num estradão. Paro. Mais 360º. Olho para baixo, mas no estradão já não se vêem pegadas. Aleatoriamente decido seguir para a direita Só consigo distinguir mais do que o branco opaco se estiver encostado à berma, por isso depois de descer 100m a olhar para a berma direita sem encontrar fitas, volto para cima, agora pelo outro lado. Nada. Parece-me estar no ponto onde entrei no estradão, decidi ir para a esquerda e repito o processo. Gritei alto, perguntei se estava ali alguém.! Desliguei a minha luz para procurar outros frontais que por ali andassem, mas... Nada! Decidi voltar ao sitio onde tinha visto a ultima fita, subi o estradão e entrei no mato. Andei 100, 200, 300 metros no meio de maciços de granito e não encontrei nenhuma fita. Voltei a varrer 360º, a respiração começou a ficar pesada, comecei a andar de um lado para o outro, impacientemente a subir e descer rochas! Nada, não se via NADA!

Até que distingo um foco branco lá ao fundo... 

EIIII!!!!!!!


0km, 7:30, 0 horas de prova.


Falta meia hora para começar a Travessia Integral da Serra de Montemuro. Somos poucos dentro do pavilhão da escola EB 2,3 de Cinfães, onde está instalado o secretariado e o pórtico da meta. Perto de 80, contando com alguns que vão fazer a prova por estafetas. A partida atrasa cerca de 10 minutos, mas tudo tranquilo. Mais 10 minutos na conversa com as muitas caras conhecidas e com o Bastos, Rodrigo e Pedro, que haveriam de ser uma espectacular equipa de apoio durante o dia. A minha mochila rebentava pelas costuras com o muito equipamento obrigatório e outro que achava que podia ser importante numa prova deste género. Foi a prova desta envergadura para onde fui mais às cegas até hoje. A informação disponibilizada tinha sido pouca, mas já em Cinfães fiquei mais confortável. As pessoas da organização com quem fui falando pareceram-me sempre disponíveis e simpáticas. Pelo sim pelo não, fiz a minha parte e preparei-me para qualquer eventualidade. Pelo menos era o que eu pensava...

Os 3 dos 110 e os 3 da equipa de apoio.
28km, 12:30, 4h30 de prova.


Portas de Montemuro, ponto mais alto da Serra. A vista era quase toda composta pelo branco pastoso do nevoeiro, mas ainda dava para ver blocos de neve pontuados pelo granito ou a fazer um contraste muito forte com o solo escuro e agreste da serra. A temperatura tinha baixado imenso. A meio daquele ataque final ao cume, feito suavemente e por estradões que apanhámos após o segundo abastecimento, decidi enfiar o gorro de lã na cabeça, buff a cobrir pescoço, nariz e boca e luvas grossas nas mãos. Estava confortável.

Para trás tinham ficado 9km iniciais onde passámos por alguns trilhos à Abutres: muito parte pernas, terra escura e lamacenta, muitas árvores e um rio que corria no meio de pedras cobertas de verde do musgo.

Foto da organização
entrada na montanha deu-se por volta dos tais 9km, num pequeno abastecimento. Iniciou-se então a primeira grande subida e deu para começar a perceber o "conceito" da prova. Não foi uma subida difícil, nenhum foi ao longo do dia. Andámos muito em estradão, caminhos de pedra de granito arrumada, estilo calçada romana, e por dentro de inúmeras aldeias serranas. Adianto já que gostei muito do percurso! Não muito difícil, mas desafiante quanto-baste e sempre muito interessante. Claro que não faltaram também os trilhos, nos quais também notei outra tendência: muitas vezes estes não existiam ou não estavam limpos. Eram colocadas fitas distantes umas das outras e depois íamos fazendo o nosso caminho, não poucas vezes à custa de arranhões nas pernas. Este é um pormenor que vai ser importante daqui a umas horas!

Passámos em muito caminhos antigos marcados por muros de pedra que delimitavam os terrenos. Muitas vezes estes trilhos e caminhos serviam como canais de escoamento de água, o que resultou em pés molhados do inicio ao fim da corrida, mesmo nas zonas mais altas da serra! O piso foi talvez dos aspectos mais difíceis de lidar nesta prova, ora estávamos com água pelo tornozelo e no meio da lama ora estávamos a saltitar de pedra em pedra, em piso muito duro. Inevitavelmente os pés e articulações iriam ressentir-se de toda esta pancadaria.

Foto da organização, uns dias antes da prova. Muitos destes caminhos eram autenticos ribeiros.
Ainda antes das Portas de Montemuro passámos pelo primeiro abastecimento a sério, nos 22km. Esta prova teve 3 bases de vida, aos 22, 40 e 63km. Penso que ninguém deixou nada nesta primeira, mas tenho a certeza que todos os que lá passaram levaram alguma coisa. Eu, por exemplo, levei uma malga de sopa e uma bifana no bucho! Um abastecimento muito bom, completo, com muita gente a dar assistência. 

A chegar ao abastecimento, foto do João Bastos
52km, 16:30, 8h20 de prova.


Quinto posto de abastecimento. Tal como no 4º, aos 40km em Tendais, estava lá o Armando Teixeira. Vou aqui dizer e fica escrito: o Armando é o gajo mais porreiro do trail! Ele fala connosco, dá ânimo, enche flasks, ouve os queixumes e ainda dá incentivo! No abastecimento anterior tinha-me dito que pela frente teria uma subida de cerca de 400+ em 4km para transpor que levar-nos-ia de volta aos 1100m e ao tempo frio, o que se confirmou. Depois a descida até Moimenta, onde me encontrava agora, foi relativamente fácil e sempre corrivel, com muita pedra e água, o que continuou a massacrar os pés.

Foto da Susana Luzir, do Miguel Soares a descer um trilho enlameado
A prova estava a correr-me na perfeição. Oito horas aos 52km, cerca de metade do caminho, foi muito melhor que a minha previsão, mas ainda melhor era não ter ainda minimamente sinal do homem da marreta! 

A Fernanda Luzir também me tirou fotos!
Ao contrário do abastecimento anterior, nos 40km, desta vez o que o Armando não fez foi dar-me uma taça de sopa, porque não havia. Este era o 5º abastecimento e o 3º onde só havia banana, marmelada e tomate. Bom, mas até agora estava a resultar bem. Comi bem aos 22 e 40km depois fui gerindo a alimentação com o que levava e as bananas com sal que encontrava nos abastecimentos. O próximo, aos 63km, era a principal base de vida, onde deixei o meu saco. Aí estava anunciada comida quente. Ainda bem, já que o abastecimento era nos 1100m, inicio de noite e umas boas horas depois do ultimo mais completo. 

Só que....

63km, 17:40, 10h de prova.


Base de Vida no abastecimento de São Pedro do Campo.

"Boa tarde. Há comida quente?"
"Não.. mas há chá!"

A subida até aqui mais uma vez tinha sido fácil. Muito suave, com alguns troços em que até dava para correr. Ainda sem sinal da marreta, ativava com cada vez mais confiança o trote em troços pouco inclinados. Passada a cota 1100 virámos a montanha e andámos 1 ou 2km num planalto lá em cima. Tinha voltado o nevoeiro e o frio, o sol estava a por-se. Planeava na Base de Vida sair de frontal, enquanto isso ia reparando nas marcações que seguia. Muito espaçadas, sem refletores, alguns pauzinhos brancos espetados onde anteriormente existiam bandeiras... Comecei a ficar um pouco preocupado...

São Pedro do Campo, foto do refugio onde estava a base de vida, pelo João Bastos
Entrei no abastecimento e imediatamente pedi o meu saco. Indicaram-me uma sala com um banco onde podia trocar de roupa e, como faço sempre, tentei perder o menor tempo possível nos meus afazeres. Estava muito confortável com a minha combinação de térmica + tshirt técnica + manguitos + corta vento, por isso só troquei a t-shirt técnica por uma seca. De seguida meti o relógio a carregar dentro da mochila. O meu Garmin Fénix 3 já tem uns aninhos, a bateria já só dura 12 horas, e como estava a chegar ali com 10 decidi que era uma boa altura para o meter a carregar para a segunda metade da prova. 

Uma decisão que se revelou quase fatal para o desenrolar da prova.

Foto do Bastos, dentro da Base de Vida.
Incrédulo, perguntei aos voluntários pela prometida comida quente. Parece que a senhora que ficou de fazer a sopa tinha o filho com febre e....bom, havia chá!

Enfim, não protestei. Há lugar para isso e de certeza que aquelas pessoas não tinham culpa. Agarrei-me ao Compal de Pêra que tinha no saco (ah pois é, não falha!) e ataquei um pão de ló que lá havia. Devo ter comido metade enquanto estava na galhofa com o Bastos, Rodrigo e Pedro que estavam lá a dar apoio. 

Despedi-me deles e saí super motivado para os 47km finais de prova. Frontal na cabeça e totalmente equipado para o frio, íamos andar uns bons km sempre em cotas altas. 

Assim que saio lá de dentro dei 5 passos e parei a hesitar. Não sabia para onde era o caminho e também não via lá ninguém para me ajudar.  Voltei a entrar na base de vida e lá me indicaram a direcção. Duzentos metros à frente, lá vi uma fita. Sem reflector.

65km, 19:00, 10h30 de prova, 1150m de altitude.


EIIIIII!!!!!

A luz vinha na direcção contrária à minha. Era o Paulo Carvalho!

Então meu, tens a certeza que estás no caminho certo?! Ando perdido. Tenho a merda do relógio a carregar dentro da mala! Tens o track??

Hesitámos ali um bocado. Eu não tinha nada ideia de estar a andar em sentido contrário, mas o Paulo tinha a certeza que estava bem. Segui-o. 

Até que..uma nova luz, outra vez em sentido contrário ao nosso!

AJUDEM-ME!! Estou em pânico, não vejo nada, não vejo fitas!!!

Era a Verónica, aflita, completamente à toa! 

Fizemos o nosso melhor para a acalmar e decidimos seguir juntos. O Paulo tinha o track no relógio, mas avançávamos completamente às cegas, porque apesar de estarmos em cima do percurso não víamos nenhuma fita e andávamos em zonas onde não havia trilho (lembram-se de ter falado disto lá atrás?). Com os três frontais no máximo vasculhávamos tudo à procura de fitas, mas estas simplesmente não haviam! Centenas de metros às cegas, com temperaturas negativas, chuva e muito, muito nevoeiro!

Com o passar dos metros, já tinha deixado de estar aflito com a situação. Estava sim cada vez mais irritado com aquilo tudo. Com a incrível falha da organização, mas também comigo próprio, por ter metido a porcaria do relógio a carregar mesmo quando ele era preciso! Decidi parar e tirar o relógio da mala, o Paulo não estava muito seguro a seguir o track e eu já estava com 50% de bateria. Liguei-o, carreguei o track e...puff, a linha verde! Nesse momento fiquei 100% seguro, na minha cabeça só tinha um pensamento: nada me ia impedir de virar a porcaria da prova, esta ia ser de raiva!

Chegámos ao abastecimento dos 73km juntos, ainda lá bem em cima, nos 1100m. Alertei os voluntários que lá estavam do perigo do que se estava a passar lá atrás, eles trataram logo de informar o resto da organização e de facto disseram-me no abastecimento seguinte que já andavam batedores a repor fitas e à procura de pessoas perdidas. Foram muito prestáveis e a banana com sal também estava muito apetitosa! ...Desde os 40km sem nada além de banana, tomate e marmelada. Agora separavam-nos do próximo abastecimento nada menos que 17km....

83km, 21:30, 14 horas de prova. 


10km de descida já ficaram para trás. Mais uma vez não foi difícil. Continuava a sentir-me espectacular, apenas muito dorido dos pés e das articulações dos tornozelos, resultado da muita pancada que levámos até aqui. Os 50% de bateria que tinha lá em cima estavam já nos 20% e o relógio dava sinal de estar a morrer. Parei na primeira aldeia por onde passámos para voltar a meter a carregar, lá em baixo não havia nevoeiro e haviam fitas com fartura! 

Seguiram-se 7km de sobe e desce a cotas baixas até ao abastecimento, o penúltimo, nos 90km. Foi finalmente aqui, 50km depois, que voltei a comer um caldo de legumes! Repeti três vezes! Peço desculpa aos que vieram atrás se não chegou para todos, mas soube-me pela vida! 

Faltava agora virar apenas uma montanha antes do final. 750m verticais de subida levar-nos-iam de novo ao inferno gelado que era o topo da montanha. 

101km, 1:30, 18 horas de prova.


Subimos de forma muito constante até voltarmos a mergulhar no nevoeiro denso. Já muito perto do topo vejo duas luzes na minha direcção - mais dois companheiros completamente perdidos que depois de muita volta lá em cima não se aperceberam que estavam a caminhar na direcção errada! Os dois juntaram-se ao grupo e agora éramos 5 a navegar no mar branco e pastoso de nevoeiro. Para ajudar, tinha começado a chover copiosamente, tirei pela primeira vez o impermeável da mala e vesti por cima de tudo, mantendo-me seco e quente. 

Um pouco antes tinha ficado o ultimo abastecimento, aos 97km, onde degustámos uma bela banana com um copo de isotónico, iluminados pelos faróis de um jipe!

Sobravam agora apenas 7km de descida até à meta, feitos em grupo do inicio ao fim. Mais uma vez, neste troço final haviam muitas zonas sem marcações, mesmo a chegar a Cinfães voltámos a perder-nos. Mas nada nos impediria agora de cruzar a meta. 

108km, 2:30, 19 horas de prova. Meta.

A foto possível, na meta, tirada pelo Pedro. Sim, o sacana estava à minha espera às 2:30 da manhã!
Esta foi a prova de três dígitos mais sólida que fiz até hoje. Sempre muito motivado e sem nenhuma quebra física, nunca me faltaram pernas! Sobraram apenas as naturais dores de pés e articulações. Fiquei muito contente com o resultado, que superou largamente a minha previsão! 

Quanto à organização, já perceberam que nesta primeira edição existiram falhas muito graves, nomeadamente as marcações mas também a alimentação. No entanto não notei um pingo de arrogância de nenhum membro da organização quando foram chamados à atenção, pelo contrário percebi que reconheceram os erros. Por isso tenho a certeza que vão aproveitar o maravilhoso percurso que prepararam e corrigir o que foi menos bom este ano.

Depois de cruzar a meta dei os parabéns à Verónica, que tinha sido a primeira mulher, depois cumprimentei os restantes 3 membros daquela equipa de 5 que se juntou lá em cima. Todos passámos por momentos muito stressantes. É engraçado, mas também esclarecedor, ver na classificação final que quase ninguém chegou sozinho à meta. Dos muitos quilómetros de provas que já fiz até hoje nunca tinha passado por uma situação tão aflitiva como aquela aos 63km. Eu sei, muito por culpa própria, porque escolhi a pior altura possível para carregar o relógio, Mas tenho a certeza de que se não nos tivéssemos encontrado aos 5 nas alturas em que nos encontrámos não acabaríamos a prova. Por isso, agradeço-vos: Verónica, Paulo, Pedro e Manuel. Esta é tanto minha como vossa!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Às portas de Montemuro.

E pronto. Chegámos àqueles dias especiais. A antecâmara de mais uma grande aventura, desta vez na Serra de Montemuro. O desafio é a sua travessia integral, 110km e 6500D+ de montanha invernal e agreste. Uma prova que me está a deixar especialmente apreensivo, como aconteceu poucas vezes. É uma primeira edição e a informação tem sido muito escassa, é em condições invernais (este fim de semana ficou coberta de neve) e a organização está a deixar uma série de avisos que me deixam um pouco assustado. Por exemplo, a obrigatoriedade de levar o track no relógio (já levaria) e a atribuição de um traker GPS a cada participante, por razões de segurança. Além disso, o conjunto de material obrigatório é bastante extensivo e exigente, a fazer lembrar o kit de emergência para tempo frio no UTMB. Bom, eu prefiro muito mais condições invernais que calor tórrido e, ao contrário de outras vezes no passado, não vou facilitar um milímetro com o equipamento, mas não deixo de estar especialmente ansioso, i.e., todo borradinho com o que me espera!

Fotografia da organização, este domingo
Mas não são só as condições invernais que me deixam de pé atrás. O percurso promete ser especialmente duro. Está a demorar a sair o track, mas analisando o perfil percebem-se várias zonas de parte pernas misturadas com subidas e descidas muito longas. Os 6500m de subida total não são brincadeira, apenas menos 700m que o MIUT quando subiremos no máximo aos 1400m de altitude. Em suma, vai ser um desafio a sério!

Quanto à minha forma... bom, não sei bem. Há 3 semanas, se me perguntassem, respondia que estava melhor que nunca. E estava! Sentia-me o super homem, era records pessoais atrás de records pessoais, sempre levezinho. Depois rebentei em Montejunto e logo a seguir, uma semana depois, fui dar cabo do resto ao Louzantrail. Sobraram duas semanas, que tenho gerido com pinças. Corridas curtas e lentas, pouco desnível, com esta ou aquela aceleração para reanimar. Uma semana depois da Lousã finalmente voltei a sentir vida nas pernas mas só vou realmente saber às 7:30 da manhã de sábado, quando iniciar a luta. Pelo menos chego a este ponto sem mazelas a chatear, apenas preocupado com a forma, que é o ideal.

In other news, o Quarenta e Dois faz anos!! Já passaram 5 aninhos desde que comecei aqui a partilhar as minhas corridas. Já disse várias vezes como este blog tem sido importante na minha vida, da quantidade de pessoas que conheci por causa dele e do prazer que me dá escrever aqui. O que não sabem é que isto tem estado um bocado estagnado, há algum tempo que as visitas não aumentam. Quem me segue aqui, no facebook ou no instagram sabe que eu sou muito pouco dado a promover e publicitar o blog. Na verdade, tenho zero paciência para isso. Escrevo textos demasiado longos e chatos, tenho pouca actividade no Facebook, não partilho os posts em 50 grupos... Obviamente que chego a pouca gente, da já pouca gente que pratica o nosso desporto, e às vezes penso em mudar as coisas ou, por outro lado, simplesmente deixar-me disto, já que não deve haver assim tanta gente com interesse. Mas depois lembro-me daquele sentimento quando acabo e publico um post, como o do Louzantrail a semana passada. Podem não acreditar, mas reviver a prova e vomitar aquilo tudo cá pra fora de uma vez deixa-me num estado grande de excitação! Acabei de escrever essa crónica às 22 e só consegui adormecer depois da uma da manhã (isto para quem acorda todos os dias às 5:20 é uma grande coisa! eheh). Por isso, desculpem, mas vou continuar a escrever textos erráticos, demasiado longos e descritivos, porque gosto mesmo disto. A vocês, que vão estando por aí, agradeço sinceramente, tem sido verdadeiramente uma grande viagem!