As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

XI Trilhos de Casaínhos - Sempre a mesma coisa.

Casaínhos. Mais uma vez, Casaínhos...

É todos os anos a mesma coisa! É que não muda nada! 

Este ano tivemos sorte, estava um bom dia. Mal lá cheguei comecei logo a ver caras conhecidas. Dos 300 inscritos acho que devo ter cumprimentado uns 290! Os tais 300 que todos os anos (e já vamos na 11ª edição) esgotam a prova em poucas semanas, mesmo com praticamente zero promoção. Sempre a mesma coisa...

Vi a malta da organização, meteram-se com a Sara, que este ano não correu, e perguntaram-me pelos miúdos. Vi amigos que já não via há um ano, desde a ultima edição de Casainhos. Trataram-me pelo nome e, como todos os 6 anos que lá fui, senti-me em casa. Em família. Não muda nada...

O percurso? Adivinhem! Yep, igual a todos os outros anos! 14km, 600+, sem inventar, sem arranjar miraculosamente uma ultra maratona pelos cabeços de Fanhões ou uma caminhada para chamar mais gente. Nah, ali há um distância, há bons trilhos, há boas subidas e há dois abastecimento. Quem quer, quer. Quem não quer... bem, paciência, sempre foi e sempre será assim! Igual...

Este ano até foi o meu melhor de sempre em Casaínhos! Foram 14km feitos com a corda no pescoço, quase sempre em conjunto com o meu amigo João Oliveira, que me valeu um 4º lugar na classificação geral! O escalão? Bah, esqueçam isso, em Casaínhos não há cá dessas coisas! 

Despachei-me depressa e fui vendo o pessoal a chegar. Vi o Sommer a chegar com o filho num tempo espetacular (há quem diga que o está a treinar para me ganhar), vi a Mariana Prudêncio a vencer a classificação feminina, vi o João mais uma vez a superar-se, vi dezenas e dezenas de amigos a cruzarem a meta de sorriso na cara. Cada vez que alguém chegava, um miúdo da organização dizia o número do dorsal em voz alta e outra pessoa apontava numa folha de excel, juntamente com o tempo, tirado à mão. Onze anos, zero chips. É assim que se faz em Casainhos, à antiga!

Por falar em sempre a mesma coisa, e o almoço? Pois claro: canja e feijoada! Todos. Os. Anos. Servido por baixo dum telheiro em mesas corridas, como se fossem aquelas matanças de porco à antiga feitas nas garagens dos tios. Garrafas de sumo, água e vinho espalhadas pelas mesas, conversas a sobreporem-se, sem musica de fundo irritante e uma cerimónia de pódio que não durou mais que 5 minutos. O que interessava ali era estar com a família, conversar e matar saudades. 

Casaínhos? É sempre a mesma coisa, não muda nadinha!

...ainda bem!

É isto!

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Marão Sky Up (30km) - Ali viveu-se.

Não há volta a dar. Estou cada vez mais viciado neste tipo de provas! Curtas, com quantidades absurdas de desnível, técnicas a roçar o perigoso e em montanha a sério. É principalmente isso que adoro, andar na montanha. Sair da linha das árvores, escalar pedra, sentir as diferenças de temperatura brutais à medida que subimos a cota, andar enfiado em rios no fundo dos vales e sempre, sempre com o coração a sair pela boca! Não há volta a dar, estou apaixonado pelo Sky Running! Foi a essa vertente do trail que decidi dedicar a ultima metade do ano. Depois dos 42km da Freita e dos 25km da Lousã, desta vez o desafio foi na Serra do Marão, no Marão Sky Up (MSUP), que tinha como cartão de visita uns astronómicos 30km com 3000+!! 

Uma das minhas fotografias preferidas de sempre, pela grande Susana Luzir
Reunimos uma tropa impressionante de malta Almeirinense (éramos sete!) e no sábado lá seguimos no furgão da Associação 20km de Almeirim rumo à aldeia de Ansiães, no coração do Marão. Pela primeira vez fiquei em Solo Duro e, tenho que dizer, foi muito positivo! Penso que os meus companheiros, munidos de colchões que iam de 0.5 a 3cm de espessura, não tiveram a mesma experiência. Eu, como não brinco em serviço, dormi numa king size:

A minha cama está a rir-se de todas as espumas da Yoga deste mundo
Os Vintes presentes no MSUP. 
Durante toda a semana fui falando com o Bruno, traçador do percurso e mentor deste MSUP e do Ultra Trail do Marão, que me dava conta das más condições meteorológicas e como isso lhes estava a dificultar a vida, obrigando mesmo a algumas soluções de recurso. Choveu praticamente todos os dias, incluindo na noite antes, mas na manhã de domingo estava bom. Frio, mas bom. Apesar disso, as nuvens não deixavam ver o topo da serra, o que antevia piores condições lá em cima. Nem eu imaginava quão piores! Mesmo com o Bruno a avisar-me que "o Marão é um inferno, de verão ou de inverno"!

Às 8:30 em ponto, depois de um briefing, feito pelo Bruno e o Isaac (responsável pela segurança), a alertar para as más condições e para a perigosidade de algumas secções, lá partimos para a primeira edição de mais uma grande prova do nosso calendário.

Partida. Da organização
Parti preparado para o pior. Vestido com uma térmica de manga curta, com a tshirt da equipa por cima, e manguitos. Estava bom para o fundo do vale, mas para enfrentar as cotas mais altas levei na mala um impermeável, buff e luvas. Acabei por usar isto tudo e, em certas alturas, puxar os manguitos para baixo e achar que a térmica era de mais! 

O perfil era mesmo como eu gosto! Com o enorme desnível concentrado em três subidas, duas delas km verticais. A primeira era a mais curta das 3, com 500+, que nos levou até ao primeiro pico do dia. Uma subida fácil, em 3km, com alguns estradões, trilhos poucos inclinados e alguns mais difíceis, elevou-nos à cota 1000 onde se percebeu que a partir dali entrávamos noutro mundo. Mas desta vez ainda não ficaríamos lá em cima muito tempo. Uma descida absurdamente inclinada, com vários pontos acima dos 40% de inclinação, tratou de nos enfiar no fundo do vale. Esta é das tais que afasta os curiosos e que activa aquele click na cabeça de muita gente que diz "não, o sky não é para mim". Eu compreendo. Sinceramente, também não é o meu tipo de descida favorito. Com cordas, rapel, quatro apoios e uma dose grande de sorte a afastar-nos de uma queda feia. Mas faz parte! O objectivo é chegar lá abaixo o mais depressa possível, então, siga, mergulha!

Fotografia da Lia Rodrigues. Vejam onde está o viaduto, íamos passar por baixo dele!
Comecei a prova longe daquele sentimento de Fast & Furious que descrevi na Lousã. Era a quinta prova em cinco semanas seguidas. Durante a semana que a antecedeu senti-me sempre muito dorido e as sensações durante as duas primeiras horas de prova nunca foram boas. Até ao inicio da primeira grande subida, que não era um KV puro porque lá em cima tinha uma descida de 100m para ir buscar o resto do desnível, passou muita gente por mim e até já estava conformado para fazer uma prova tranquila, sem a corda no pescoço. 

Mas uma boa subida conquista-me sempre...

Primeiro uma rampa muito inclinada e depois maioritariamente em estradões. A subida foi-me embalando, deixando-me entrar, pondo-me à vontade. Fui-me sentindo cada vez melhor, com as pernas a perderem peso com a altitude e a cabeça a desanuviar, ao contrário das nuvens, que seguiam um caminho contrário, fechando cada vez mais à medida que passávamos da cota 1000 para cima. A temperatura baixara brutalmente, o vento era fortíssimo. As minhas mãos estavam geladas quando virei o pico e ataquei a descida. Demasiado tarde para calçar luvas ou meter camadas, o melhor é correr para aquecer!

A bastonar até ao topo. Foto da Susana Luzir
A descida desta vez também estava a ser amiga. Sempre fácil, boa de correr, o que me metia cada vez mais dentro da prova. Mas dos quase 1000 metros de elevação que se perderam, os 100 finais tinham uma surpresa reservada. Já perto da base do KV embrenhámo-nos no fundo de um vale e cruzámos algumas vezes um rio no qual corria, furioso, o caudal resultante de uma semana de chuva. Muito dificil e até perigoso, a corrente era fortíssima! Mais uma vez, faz parte.. Neste tipo de prova, neste tipo de serra, vamos ter que passar em sítios assim!

Saí revigorado do rio. As pernas agradeceram a água gelada e, agora sim, estava completamente dentro. Game face on e siga trepar o quilómetro vertical!

Cerca de 5km, foi a distancia que nos fez ganhar os mais de 1000m verticais e nos deixou na Sra. da Serra, ponto mais alto do Marão. Estes são os números, mas a subida foi muito mais que números. Foi sky running condensado. Um inicio dificil e quente no fundo do vale, trilhos fáceis dentro de bosques, corta fogos inclinadissimos, o tempo a fechar cada vez mais, a temperatura a baixar abruptamente e o vento a aumentar na mesma razão, o terreno a ficar cada vez mais técnico, mais rochas, água por todo o lado, nevoeiro cerrado, frio, chuva, vento, muito vento, como raramente o senti e que empurrava as nuvens à nossa frente, num cenário caótico!! Não se viam mais que 5 metros à frente, apenas o suficiente para vislumbrar o cor de laranja vivo das marcações impecáveis!! Vesti o impermeável, enfiei o gorro na cabeça para proteger as orelhas do vento cortante! Senti-me vivo ali em cima! Mais que isso, senti-me aumentado! Que saudades que eu tinha de um momento daqueles, agreste, rude, dificil, quase de sobrevivência!! 

Susana Luzir. Não encontrei nenhuma foto mesmo lá em cima! Também não era fácil
Um vulto chamou-me a atenção para um abastecimento que estava instalado num refugio de montanha, lá em cima, nos 1400m. Entrei lá dentro e o mundo parou. Quente, abrigado, com comida e bebida quente. Balbuciei qualquer coisa e levei dois bocados de banana à boca. Não queria estar ali, a vida estava lá fora! Bora descer!!!

Estávamos com 20km e 2750+ de subida. Que loucura! As pernas acusaram bem o desnível conquistado enquanto tentava atirar o martelo na descida, mas já não estava a dar. Com o dia plenamente ganho por aqueles minutos lá em cima, deitei a toalha ao chão e limitei-me a curtir a grande descida final. Antes de chegarmos ainda passámos por uma levada que entre diretamente para o meu top de melhores trilhos onde já passei! Que maravilha! Ou, como disse o Bastos, que Marãovilha!

Mais uma foto brutal da Susana Luzir, na tal levada.
Cheguei à meta com 5h09 num respeitável 12º lugar, o que acabou por nem ser nada mau. Mas, mais que isso, cheguei à meta mais uma vez de alma cheia. É ali que eu gosto de estar, naquele fio da navalha lá em cima, adrenalina a bombar e sentidos apurados. Como diz o slogan da prova, no Marão Sky Up não se corre, vive-se!





domingo, 27 de outubro de 2019

20km de Almeirim - ORGULHO

Hoje corri, pela 14ª vez, os 20km de Almeirim. Já aqui escrevi várias vezes sobre esta prova, que se confunde com a minha cidade, Almeirim. Para mim, os 20 são Almeirim. É neste dia que gosto mais da minha cidade, de cada rua e de cada pessoa que, orgulhosamente, sai à rua. 

Almeirim é uma cidade com uma história gloriosa ligada ao atletismo de rua. Grandes campeões já por aqui passaram. Já se correram campeonatos nacionais de maratona, campeonatos da Europa de meia maratona, é daqui o record nacional dos 20km! Já mudou a data, já mudou o percurso, já houve e deixaram de haver prémios monetários, há cada vez mais concorrência (quantas provas houve este fim de semana, 20?), mas ano após ano há uma multidão de fieis que vem correr nas ruas largas de Almeirim. A nossa cidade. 

Partida. Foto da Fátima, também sempre presente!
A mim, a prova nem correu muito bem. Tinha um ritmo idealizado e a estratégia era tentar aguentá-lo até ao fim. Falhei redondamente. Os sub 4'/km deixaram de aparecer lá para os 11, 12km e foi a sofrer até ao estoiro final, depois da ponte da vala, à entrada de Almeirim. Terminei com 1h21 e muito, quase 22. Mesmo assim, algumas horas depois, há um sentimento que me enche por completo: orgulho

Orgulho pelo Miguel, o grande Madruga, o homem que ouve o nome dele gritado pelo menos por 500 vezes durante o percurso. Fez uma prova de sonho, um tempo brutal. Orgulho pelo Rodrigo, o meu mais antigo companheiro de corridas, que a uma semana da maratona do Porto está numa forma incrível. Fomos juntos até à ponte da vala, depois deixei de ter pernas para o acompanhar. Pelo Mota, que, sempre certinho, fez uma prova perfeita, de trás para a frente. Isto depois de completar 32 anos a semana passada! Eles os três, comigo a fechar o quarteto que treina junto quase todos os dias, deram o 4º lugar por equipas à equipa de Trail da Associação 20kms de Almeirim! Nada mau, para quem gosta é de andar no monte!

Todos dentro do minuto 21!

Orgulho pelo David, que voltou com uma prova bombástica, a alcançar um 3º lugar À GERAL na nova prova de 10km. Orgulho pelo Alexandre, que com pouco mais de duas semanas de corrida fez uns 20 perfeitos e, melhor que tudo, acabou com verdadeira alegria e satisfação. Orgulho pelo João Martins, uma das pessoas mais esforçadas que eu conheço e que me dá uma alegria incrível ver a cumprir os objectivos. Pelo Humberto, que apesar de não ter chegado ao almejado 100, treinou durante meses de forma obstinada de madrugada e isso é mesmo o mais difícil. Pelo Rui, que esmagou os tais 100 e provou ser merecedor do titulo de fingidão. Quer dizer, ainda tem o Gonçalo à perna, que no meio de tanto queixume sacou uma prova fantástica! Pela Sara e, principalmente, a minha Maria Amélia, que já está a entrar no espírito Vinte e completou os 6km da caminhada! Pelo Valter, cada vez mais a cara e a voz de Almeirim, que fez um grande trabalho como speaker. Orgulho pelos ansiães Manuel Almeida, Zé Teodósio e Carlos Garcia, que já estavam lá nos meus primeiros 20, em 2005, ainda lá estão e por lá ficarão muitos anos! Orgulho pelos 80 ou 90 Almeirinenses que saíram à rua nesta manhã para se superarem, para fazerem desporto, para viverem! 

Esta é mesmo a nossa prova. Até para o ano!

Pódio do concelho, do escalão M35. Sim, o pódio dos maiores da rua. O maior é o Rodrigo!

Humberto, Alexandre, Neta e Gonçalo 

Foto de Família da Associação 20kms de Almeirim

Vintes do Trail presentes nos vinte da estrada!

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Louzan Skyrace (24km) - Fast & Furious

No site da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal podemos ler o seguinte:

Em resumo, Skyrunning é uma atividade de corrida pedestre essencialmente na montanha. Os percursos de skyrunning apresentam um elevado desnível positivo, secções técnicas e inclinações acentuadas (superiores a 30%), podendo utilizar caminhos, trilhos, rochas ou neve. 

Eu acho que deviam acrescentar um parágrafo a dizer:

Bem, mas se querem mesmo saber o que é Skyrunnning, vão até à Louzan SkyRace.


Finalmente, fotos de qualidade neste blog! Pois claro, o Miguel Cadalso (M.C.) foi à prova, lá me safei! 
Antes da prova começar já estava tudo a bater certo. Um ambiente familiar, grandes atletas à partida, excelente organização no secretariado e na zona da meta, um percurso certificado pela Federação Internacional de Skyrunnning (o 1º em Portugal) e um dia perfeito na Lousã. Com neblina lá em cima, tempo frio e húmido de Outono e depois de uma semana de chuva. Parecia de encomenda! às 8:30 de domingo lá partiram os cento e poucos atletas para a primeira, e certamente memorável, edição da Louzan Skyrace!

Partida, foto da organização.
O percurso é simples de explicar: 24km com 2200+, 3 subidas e 3 descidas. Três picos para conquistar pelo caminho mais curto (e necessariamente inclinado), um deles o Trevim, e três descidas a pique. É isto que eu adoro no sky: curto e grosso. Desnível, intensidade, técnica e velocidade!

Cerca de 1km em estrada depois da partida foi o que chegou para nos levar à base da primeira montanha. Um arranque rápido tratou de elevar as pulsações e o desnível começou logo a ser-nos servido em doses consideráveis. Primeiro num estradão e muito pouco depois naqueles trilhos de sonho da Lousã: terra castanho-escuro, mole, sem pedras, a serpentear pelas árvores.

M.C.
O modo fast & furious estava ligado, estendia o trote até ao limite, ajudado pelos bastões, até ceder e ter que caminhar. Assim que o terreno permitia voltava a ele, revigorado. 500, 600, 700+. Olhava para o relógio e os metros verticais subiam bem mais depressa que os quilómetros horizontais. À medida que nos aproximamos da cota 1000 o tempo vai piorando, aumenta o vento e o nevoeiro. Começo a ouvir as eólicas, escondidas pelo nevoeiro, quando a vegetação desaparece e o vento aumenta. Sinal que estou perto do topo! Ataco o pico a trote ao mesmo tempo que desarmo os bastões e abro a passada nos 50 metros de planalto antes da descida. Mesmo antes de a atacar olho para a frente e vejo, numa pequena aberta das nuvens, a Serra da Lousã em todo o seu esplendor! Solto um sorriso de pura excitação e meto uma abaixo enquanto me lanço na descida!

M.C.
Inclinada, muito inclinada! Xisto solto por todo o lado! Levo os bastões desarmados, um em cada mão, o que me garante o equilíbrio para descer a uma velocidade bem acima do que normalmente acharia razoável. Tento não pensar muito nisso e acelero ainda mais quando o trilho passa do xisto à terra! Vejo agora no Strava que o ritmo andou quase 1km pelos 4'/km baixos! Já desde o inicio da subida que não passo nem sou passado. Aliás, não vejo ninguém nem à frente nem atrás! Só oiço o bater furioso dos meus pés e a respiração ofegante!

Chego em êxtase da descida a Cerdeira, local do primeiro abastecimento e base do ataque ao segundo pico. Quase nem abrando enquanto pego numa banana à pressa e começo a subir a trote.Volto a armar os bastões. Em movimento, sempre em movimento. Cerca de 1km de sobe e desce rápido levam-nos à pornográfica subida ao Trevim. 

Cerdeira. M.C. 
Uauuuu que subida! Perfeita, perfeita! Subimos por um vale cheio de pedra, muito apertado, com água a escorrer por pedras cobertas de musgo. Super inclinado, super dificil! Que monumento!! Saímos do vale/cascata e entramos numa zona de muita pedra, perigosa, molhada, fria. Apetece-me gritar enquanto sinto o coração a sair da boca. Tinhas as pernas no limite quando o trilho abriu e ficou corrível, tratei de forçar novamente o trote. Vai, vai, vai..!!!


M.C. e M.C.

Trevim.

Uma pequena volta às antenas. Não se vê nada nem ninguém, está muito nevoeiro e frio. Tento recuperar o fôlego enquanto corro os 100 metros a direito antes da descida. Volto a desarmar os bastões, respiro fundo e...siga!!

Faço-me ao trilho a descer a uma velocidade proibitiva. Conheço esta parte inicial do Louzantrail e de uns treinos que lá fiz. É brutal, pouco inclinada, muito técnica e rápida! Saímos deste trilho para 50 metros num estradão e entramos num trilho de terra. Abro a passada, aumento a velocidade! Uma escorregadela e outra e outra... O trilho transforma-se num autentico escorrega de lama, não consigo dar 3 passos sem escorregar de rabo! Tento mais uns metros mas estou cada vez mais lento, depois de mais uma queda decido armar os bastões. Está melhor, mas é mesmo muito dificil, caio vezes sem conta! 

M.C.
Segundo abastecimento. Bebo três copos de isotónico, recuso a comida, tinha metido um gel. Pergunto se a ultima subida estava perto, informam-me que são mais 1km. Ok, bora!

Segue-se 1km num estradão a descer. A fundo, aproveito para dar o gás todo. O trilho aparece. Em terra, macio, mesmo bom. As pernas da subida teimam em aparecer, não consigo manter o trote. Toca a bastonar. Puxa, puxa, puxa..!!! Gradualmente vou entrando na subida, que está cada vez mais inclinada, mas sempre num trilho aos ésses pela terra escura. Tal como nas duas anteriores, quanto mais subo melhor me sinto. O trote volta a aparecer já junto ao pico, mesmo a tempo de o virar. Olho para o relógio: 18km e 2050D+. 

Arruma bastões, respira fundo, mergulha!!!

Yep. Era por ali abaixo! M. C.
Uuuiii que loucura! Que inclinação! Fazemos uma parede com 40 e muito por centro a descer, onde no dia anterior andou o km vertical. Quadricepes a arder, sigo no limite, a fazer uns 10 passos por metro, para tentar manter algum controlo! Saímos da parede, inclinação acalma mas aumenta a tecnicidade. Tumba, tumba, tumba, sempre a puxar! Tropeço, caio, rebolo. Levanto-me, pego nos bastões e siga!

Últimos 3km, andamos muito em estradões e trilhos fáceis, velocidade várias vezes abaixo dos 4'/km! Sinto-me com força, com energia no depósito que nunca mais acaba. Não vejo ninguém nem à frente nem atrás há que tempos, mas isso não interessa nada, ia rebentar com aquela descida! 

M. C.
Uma ultima pequena subida feita no limite e finalmente os 2km finais para a meta. Puxo, meto a carne toda no assador, nem nos 700m finais, feitos na estrada, eu desarmo! Mais um esforço e...META!

Até ao fim!
Com o Hugo Água, na meta! Foto da Carmen Almeida
Puffff!! Que prova!! Que adrenalina! Muitas horas depois, à noite, enquanto tentava dormir, ainda estava elétrico! Que brutalidade de percurso, o melhor que já fiz na Lousã! 3h43 foi o que demorei, classificando-me em 16º. A posição é a mediocridade do costume, mas esta foi daquelas que me deixou mesmo orgulhoso. Foram 3h43 no limite, de faca nos dentes. Hoje tenho os quadricepes desfeitos das descidas mas a mente ainda está naquela subida ao Trevim, naquela ultima descida, naqueles trilhos brutais! 

Obrigado Montanha Clube, obrigado Louzantrail! Foi do caraças!!!








segunda-feira, 7 de outubro de 2019

III Freita Sky Marathon - Colher frutos na Freita

Passaram mais de dois meses desde a ultima vez que fiz uma prova, a Arada Night Race. Na semana seguinte tive a minha habitual (e justificada) quebra anual. Logo a seguir à prova fiquei com febre durante uns dias e demorei umas semanas até me sentir bem novamente. A coisa bateu certa com o meu plano de abrandar um pouco nos meses de Julho e Agosto e preparar o segundo semestre de provas como deve ser. Assim foi, continuei a treinar todos os dias mas com menos intensidade e, devagarinho, foram voltando as boas sensações. As pernas foram ficando mais leves, a velocidade estava a aparecer e sentia-me cada vez melhor a subir. Chegado a meados de Setembro já só tinha uma coisa em mente: voltar a correr com dorsal!

Frecha da Mizarela, foto da organização.
Eu adoro correr em provas. Adoro competir! Mas, atenção, não quero dizer que vá para as provas com a ilusão de discutir pódios, muito menos a vitoria. Não, sei bem o meu lugar. Quando, muito esporadicamente, acontece, é porque a concorrência também não é enorme. Mas uma coisa ninguém me tira, que é chegar ao fim com a consciência que dei tudo o que tinha, desde o primeiro metro! Foi por isso com níveis de ansiedade fora do normal, motivados pela ressaca de voltar a ter essas sensações, que me apresentei em Felgueira, no meio da Serra da Freita, para a minha terceira participação da espetacular Freita Sky Marathon (FSM).

Partida, na Eira d'Além. Foto da organização
Esta é sem dúvida uma das minhas provas preferidas. Tem uma característica que a distingue de todas as que já fiz, o nível de dificuldade vai aumentando gradualmente ao longo dos 42km, culminando na terrível parede que temos que transpor a apenas 2km da meta. Não sei se era esse o objectivo do Ricardo Fernandes quando desenhou este percurso, mas bate certo na perfeição. Depois, outra coisa que gosto, é que o percurso é igual todos os anos. Talvez pelo meu histórico na natação, tenho tendência a comparar registos actuais com anteriores. Uma das coisas que me leva a repetir provas é precisamente tentar superar o que fiz nos outros anos. Era esse o objectivo para 2019: superar as 7h05 de 2018 (em 2017 tinha feito 7h38). 

Em 2017, na primeira edição, descrevi o inicio da FSM como fofinho. São 17km com cerca de 800+, percorridos em trilhos pouco técnicos, misturados com 2 ou 3km de estradão e umas poucas levadas que obrigaram a saltitar e a ter algum cuidado extra. Claro que só é fofinho se formos com pouca intensidade. Parti cheio de vontade e fiz os 17km sempre perto do limite, subidas a trote e descidas a arriscar. Cheguei à aldeia de Berlengas, início da primeira grande subida, com média de 5'40''/km! 

É ali por volta dos 17km, depois da descida abrupta, que realmente começa a prova.
Nas Berlengas começamos a primeira das duas grandes subidas, cada uma com 800+, a primeira em 5km e a segunda em 3. Gosto mais da primeira. Começa por percorrer um trilho muito técnico e inclinado depois da Cascata das Porqueiras (trilho esse feito a descer no UTSF, que tanto trabalho me deu), depois acalma um pouco mas continua embrenhado no bosque até chegar à aldeia da Lomba, onde havia um abastecimento. Aí a subida começa uma segunda fase, esta em paisagens graníticas, sem trilho, mesmo como eu gosto! Com passagens muito técnicas entre maciços de granito enormes, pedaços bons para trotar e outros mais trabalhosos, quase sem darmos por isso já estamos perto da cota 1000 e a percorrer os 2km de planalto antes de começar a descer de novo o Vale Mágico, de volta a Lomba. 

Cascata das Porqueiras, sacado do Google. Claro que não tirei nenhum foto......
Seguindo a máxima de ir aumentando a dificuldade ao longo do percurso, a descida é técnica QB. Um trilho brutal na encosta do vale, com muita pedra (xisto) e a requerer atenção constante. Nova passagem pela Lomba a meio da descida e siga para o fundinho do vale, onde um pequeno e fresco ribeiro, no qual praticamente tomei banho, marca o inicio do KV da Freita. 

Seguia-se a segunda grande subida, com o mesmo ganho de elevação da primeira mas com cerca de metade do comprimento. Em que é que isso se traduz? Pois claro: inclinação com fartura!

Nesta já não há cá patamares para trotrar ou trilhos variados, é apontar pra cima, cabeça baixa e toca a trabalhar! A parte final é coincidente com o famoso trilho de Bradar aos Céus do UTSF, onde ainda há poucos meses penei como um cão. Foi precisamente aqui que tive a minha pior fase nesta FSM. A parte final, feita debaixo de um calor considerável e num trilho xistoso muito exposto, aqueceu como um forno. Comecei a entrar em desequilibro, a transpirar e a beber muita água, com as pernas a perderem forças e a respiração descontrolada. Foi com muito esforço que voltei a meter o trote no estradão ligeiramente a subir já perto do Pico da Gralheira. 

Radar meteorológico no Pico da Gralheira. Do Google, pois claro.
Estavam cumpridos 34 dos 42km. Quase no fim, dizem vocês. Pois bem, na verdade é este ponto que, para mim, marca o meio da prova!

Ia entrar agora na fase decisiva da FSM. Seguiam-se 4 rounds de uma luta intensa, 4 etapas distintas que, tal como é apanágio desta prova, aumentam gradualmente de dificuldade até ao final!

Round 1

Depois de 2km de descida fácil, durante os quais dá para abrir a passada e as pernas começam a desabituar da pressão, uma pequena, mas inclinada, parede de 100+ separa-nos de Cabaços. O desconforto enorme de trocar as pernas de descida pelas de subida é atenuado pela chamada da Sara, que me liga a dizer que está em Cabaços com os miúdos à minha espera. 

Foto da Sara, com a Mel lá atrás, a chegar ao controlo de Cabaços.
Round 2

Mal saímos de Cabaços entramos no infernal PR7. A descida para a base da Mizarela é feita a 4 apoios e constantemente a pensar no passo seguinte. Na base da cascata saltitamos por enormes pedras de granito e voltamos e enfiar-nos no mato para uma parede escalada no meio de raízes e terra preta. O round acaba com uma seta à esquerda e a entrada num balcão que nos dá uma assombrosa vista para a Frecha da Mizarela, este ano com um caudal considerável de água!

Foto do ano passado, na base da Mizarela
Round 3

Agora seguimos completamente embrenhados no PR7. Uma descida suicida enfia-nos no vale onde corre a água da Mizarela. Constantemente a ter que saltar balcões de pedra, num trilho onde os bastões só atrapalham. Tomo um gel a meio da descida já a pensar no round final, mas sinto-me bem. A Sara disse-me em Cabaços que seguia em 10º, o que me surpreende. Não estava à espera de estar tão bem! Desde o km vertical que não via ninguém à frente ou atrás, por isso subir posições estava fora de questão, mas ia dar tudo para manter a que ocupava! O tempo de prova também estava com bom aspecto, um bocadinho menos de 6 horas quando comecei a subida final. Se tudo corresse normalmente chegaria bem antes das 7 horas, mas ainda falta aquela ultima parede...

O PR7, tirado do Google. Dá para perceber bem o tipo de terreno.
Round 4

Aí estava ela, a 2km da meta, a parede final. No papel nem parece grande coisa, tem apenas 800m de comprimento. Mas são os quase 300m de subida, com inclinações que chegam bem acima dos 35%, numa fase tão tardia da prova, que a tornam implacável. É toda feita numa crista completamente exposta, que nos deixa ver do primeiro ao ultimo metro da subida. Meti bastões a trabalhar e icei-me por ela acima, sempre no limite, a escorrer água. Pelo canto do olho vi o 11º e logo a seguir o 12º a começar a subir, levava uns 7 ou 8 minutos de vantagem. Era pouco, o 12º estava com um grande ritmo e tinha ganho uma posição, qualquer hesitação minha e era virado também! A parte final foi toda feito no limite! Com as pernas a ameaçar ceder bebi os dois últimos goles de água que tinha e estava a poupar para aquele ponto. Com um grito virei a subida e debrucei-me sobre os joelhos por não mais que 10 segundos. Rapidamente desmontei os bastões e, sem olhar para trás, lancei-me à descida! 

Estava feito! A descida passou sem incidências, 6h33 depois estava de volta a Felgueira. 33 minutos a menos que o passado e mais de uma hora a menos que 2017! Segurei a 10ª posição mas, acima de tudo, foi aquela adrenalina brutal de ter conseguido cumprir o plano que me deixou nas nuvens. Ao analisar a actividade no Strava percebo que bati os records pessoais nos 12 segmentos onde passámos. A sensação de trabalho recompensado é impagável, treinei muito para conseguir estar nesta forma e é espetacular colher os frutos! 

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Arada Night Race - o Martelo

Estava a ser o melhor ano desde que corro. Sem lesões, a treinar com um volume que nunca tinha atingido, a sentir-me sempre com força e vontade de carregar mais. As provas, naturalmente, também estavam a ser boas! Duas provas de 3 dígitos sólidas (Montemuro e o muito desejado sub 24 no MIUT), muito boas sensações e resultados em provas a rondar os 50km (a Serra Amarela terá sido a melhor que já fiz) e até nem faltou um record pessoal aos 10km (37 alto)! Depois veio o UTSF e...tudo mudou. Eu sei, também faz parte. Também sei que acabei por fechar a prova e que isso, só por si, já não é mau. Também podia estar aqui a enumerar uma lista enorme de razões para a coisa ter corrido mal e começar uma sessão de auto pancadinhas nas costas para acabar com o choro. Mas a verdade é só uma: por mais voltas que dê, sinto que a Freita foi uma derrota imensa. Voltei a entrar no modo walking dead, arrastei-me durante quilómetros, senti-me sem força, sem pernas e sem cabeça para o UTSF. Passei três semanas a duvidar de mim e das minhas capacidades, pus em causa o que ficou para trás e, sinceramente, estava sem a alegria e a motivação que tenho sempre para treinar.

Fotografia brutal do Paulo Nunes
Decidi ir à Arada Night Race uma semana antes da prova. Uma decisão impulsiva, depois de perceber que os planos em família que tínhamos para o fim de semana tinham saído furados. Assim que mentalmente entrei na prova, uma luz acendeu-se. Comecei a estudar o percurso e a falar com o Sérgio e o Bruno, da organização, que me falavam do que ia encontrar. O entusiasmo começou a voltar aos poucos durante a semana e, quando chegou a sexta feira, o pensamento já era só um: vou à Arada e vou à Arada para dar tudo.

A Arada Night Race é organizada pela mesma equipa da Zela e Pisão, duas provas que gosto muito. O palco é a incrível serra da Arada. Para quem não sabe, a Arada é a gémea siamesa da Freita, são duas serras pegadas. Aliás, grande parte do UTSF é corrido na Arada! O início, programado para as 18:30, permitiria correr 2h30 de dia, apanhar o por do sol e terminar de noite, o que me pareceu uma excelente proposta. A partida e base da prova foi o idílico Bioparque de Carvalhais, de onde parte também o Pisão. La cheguei, com o João Miguel, Mota e Alex, uma hora antes. Levantámos os dorsais (eu tinha o dorsal numero 1! Que desperdício...), equipámo-nos tranquilamente e 20 minutos antes da hora marcada estávamos prontos a partir. Temperatura amena, muito bom ambiente e 60 pessoas à partida. Sentia-me bem e super motivado, meti-me logo na segunda fila na partida e às 18:30 lá saí para, o que esperava serem, 40km de faca nos dentes (desculpem o cliché)!


Representação da Associação 20kms de Almeirim na ANR. Foi dia de estrear a camisola!
A Arada Night Race (ANR) teve 38km com 2400+. Bastante desnível mas nada de muito exagerado, para uma serra como esta. Dizia-me o Bruno Figueiredo, traçador do percurso, que seria menos sky e mais corrível que o Pisão.



Imediatamente após a partida começámos a somar o tal desnível positivo. Primeiro num estradão, curto, até que entrámos em trilhos de granito, muito inclinados, a exigirem quase escalada. Como o ritmo não estava muito alto colei-me logo aos 5 ou 6 primeiros, mas claro que para aguentar o ritmo dos primeiros, o "não muito alto", para mim, significa ir no limite. Subia ofegante e a escorrer água ainda nem tinham passado 2km. Os trilhos técnicos eram intercalados com partes menos inclinadas que permitiam subir a trote e de repente já estávamos com 6km e acima dos 1000m.

A trote. Foto Paulo Nunes
Seguiram-se 3 ou 4km num planalto. Trilhos muito traiçoeiros, com tufos de erva seca que escondiam pedras e buracos. Isto quando corríamos em trilho, muitas vezes estes não existiam, eram as fitas espalhadas que nos orientavam no meio do granito. Sobe e desce num ritmo muito nervoso, por paisagens incríveis. Passagem numa levada e em bosques cuja sombra parecia um oásis. Sempre que conseguia aumentava o ritmo e as pernas respondiam, sentia-me a voar por cima dos trilhos técnicos, sem sequer pensar num possível estouro! A adrenalina atingiu doses muito elevadas na primeira grande descida, por volta dos 10km. Um daqueles trilhos típicos desta serra, numa calçada de granito antiga que exigia saltitar de pedra em pedra e a concentração constante para conseguir andar depressa!

Espantado. Fotografia do Paulo Nunes
Depois do primeiro abastecimento, na aldeia do Candal, tínhamos uma pequena picada de cerca de 150+ e iniciamos a grande descida que nos levaria até Côvelo de Paivó. Aqui saímos do granito para o xisto característico desta zona. Faço esta distinção porque é completamente diferente correr em terrenos xistosos. Pedra solta e afiada, mais pequena, enganadora. O trilho parecia fácil mas uma desconcentração podia ser fatal, isto porque facilmente atingimos velocidades altas (fiz os 3km da descida abaixo de 5'/km).

Não chegámos a entrar em Covêlo, entrámos logo no PR13 que, num trilho assombroso esculpido na encosta de um vale apertado, nos elevou lentamente até ao segundo abastecimento, em Regoufe. O sol estava a esconder-se, fiz este vale já no lusco-fusco, uma cor perfeita para aquela paisagem tão agreste. Aquela sensação de conseguir abrir a passada cada vez que o terreno deixava continuava presente e era impagável!

No abastecimento de Candal. Foto Paulo Nunes (Dorsal nº1, não estava a mentir!)
No abastecimento apercebi-me que estava a sofrer da segunda lesão mais parva da historia da humanidade. A primeira foi a conjuntivite que tive no meu primeiro MIUT que me deixou quase às cegas, mas aqui não foi menos parvo. Logo no inicio da prova devo ter dado um jeito qualquer ao maxilar que o fez deslocar e agora simplesmente não conseguia fechar a mandíbula! Juro! Não conseguia juntar os molares sem ter dores e isto estalar tudo! Resultado: alimentação à base de geis a bananas meio trincadas, não conseguia comer mais nada. 

Saí do abastecimento com o frontal na cabeça e já com muito pouca luz natural. Mais de metade da prova estava virada, agora uma pequena picada e depois descida a Drave por um caminho que conhecia do UTSF. Virei para a descida ainda com um fiozinho de luz, que me permitiu ver mais uma vez a espectacular Garra e acelerei a fundo na descida! Depois de no inicio ter andado pela 4ª posição passaram 4 ou 5 pessoas por mim, o pior que andei penso que foi em 9º, mas a partir desta descida voltei a apanhar alguns. Era sempre uma adrenalina ver uma luzinha lá à frente e controlar a de trás pelo canto do olho.

Outra do Paulo Nunes, à saída do abastecimento de Regoufe
De Drave, onde já cheguei de noite, só me lembro do fogo comunitário, das canções dos escuteiros e da escuridão total, apenas interrompida pelo foco do meu frontal. Deixei a aldeia encantada pela subida mais dificil de toda a prova, num trilho a zigue-zaguear, muito trabalhoso, que nos fez subir 300m num quilómetro. Mais uma vez subia a dar tudo, sem deixar 1mm de descanso. Assim que viramos ligo o trote e acelero por um estradão aos ésses até ao terceiro abastecimento, em Gourim. Foi o km mais rápido de toda a prova e soube muito bem aquela pequena folga no piso logo a seguir a uma subida tão dificil.

No abastecimento, onde só comi 2 pedaços de banana meio esmagada, informam-me que o troço seguinte, no Rio Paivô, era muito perigoso, para ter cuidado. Mais uns metros de descida num trilho muito técnico e chego à margem do Rio, para o que pensava ser um atravessamento, mas não. Completamente enganado. Andámos cerca de 300m no leito do rio, a fazer lembrar muito o troço do Rio do UTSF. Pedra ultra escorregadia, água pela cintura, progressão lentíssima. A vegetação cobria-nos e deixava o ar abafado, a água fria era uma delicia. A luz do frontal reflectida na água transparente dava uma luminosidade incrível àquele túnel que atravessávamos. Uma maravilha! 

Saímos do rio a pique, para a ultima grande subida da prova. Menos inclinada que a de Drave, com o inconveniente de ter vários troços quase a direito que exigiam um trote. Eu até faria a andar, mas pelo canto do olho via uma luz a uns 200 ou 300m! 

Ultima grande subida virada e era hora de disparar em direcção ao ultimo abastecimento, na aldeia de Arada. As pernas ainda estavam soltinhas, não só me sentia bem a correr como ainda me permitia carregar no acelerador nas descidas. Primeiro num estradão, para descansar da subida, e os 2km finais num trilho super técnico onde arrisquei como há muito não arriscava!

Já conhecia esta parte final porque era coincidente com os primeiros quilómetros do Pisão, apesar de em sentido contrário, por isso sabia que me esperava uma picada super agressiva na terra, no meio das árvores. Respirei fundo  ataquei a ultima grande dificuldade. Como me lembrava, devia ter uns 40% de inclinação, com piso muito difícil em terra, que escorregava. No entanto era curto, num instante estávamos de volta ao estradão muito inclinado que nos elevaria nos metros finais da ultima descida.

Faltavam agora apenas 3km a descer para a meta, por isso decidi que esta descida ia dar o gás todo que tinha. Larguei o martelo (gosto muito da expressão inglesa drop the hammer mas ainda não encontrei uma equivalência boa em português) e, com os bastões já desarmados o que me permitia movimentar melhor os braços, voei pelos trilhos até ao final! Que loucura! Acho que nunca tinha descido assim, normalmente sou super económico nas descidas, mas ali foi mesmo a fundo.

Chegada à meta, pelo Paulo Nunes
Cruzei a meta em 5h29, literalmente a sprintar pela pequena rampa final. Que adrenalina brutal! Adorei cada metro da prova, subidas difíceis e descidas um misto de técnicas com segmentos muito bons para correr e abrir a passada. Correr ao fim do dia foi espetacular e a temperatura ajudou muito, depois à noite torna-se menos interessante a nível de paisagem, claro. De resto, como é apanágio nesta organização, tudo correu na perfeição. Desde os abastecimentos (apesar do meu problema maxilar fui vendo que não faltava nada), passando pelas marcações, ambiente na partida e chegada, porco no espeto no fim... Outra coisa que gosto neles é a importância que dão à imagem. Além de terem uma comunicação muito atractiva, vê-se o cuidado com as fotografias da prova. O Fritz e o Paulo Nunes são muito provavelmente os dois fotógrafos em melhor forma no trail nacional! 

Quanto à minha prestação, o meu objectivo de vingar a prestação do UTSF foi plenamente cumprido, senti-me muito forte e solto. Terá sido das minhas provas mais sólidas de sempre!

A descansar depois de cruzar a meta. Foto Paulo Nunes
Só mais uma coisa que não quero deixar passar. Quando passei a meta informaram-me que tinha sido o 5º! Ia jurar que estava em 6º e não passei por ninguém, mas ao consultar a classificação reparei que o 6º chegou a 9 segundos de mim. Não sei o que se passou, mas provavelmente ter-se-á enganado na parte final e antes de voltar ao trilho eu entrei à frente dele sem reparar. Se tivesse visto tinha-o deixado passar, afinal de contas fez uma prova melhor que a minha. Peço desculpa por isso, companheiro (se estiveres a ler). 

Com isto, acabei por ir ao pódio do escalão sénior! Mas isso da classificação pouco ou nada interessa, o que me deixa com um sorriso na cara apesar das dores musculares que tenho hoje e não tinha há muito (o tal martelo na descida dá nisto) é que, depois da derrota do UTSF, sinto que estou de volta!

O pódio sénior. Foto do Paulo Nunes

PS - O maxilar parece que foi ao sitio depois da prova. Nem dei por isso. Talvez por já não estar tenso. Só sei que as duas bifanas de porco no espeto foram bem mastigadas!

quarta-feira, 3 de julho de 2019

UTSF - A minha opinião da prova

Se leram a crónica que fiz sobre a minha participação no Ultra Trail Serra da Freita perceberam que em quase nenhum lado teci comentários sobre a minha opinião da prova em si. A ideia era separar a experiência fantástica que tive, as dificuldades, a história e recordações que ficam do que achei do percurso e da prova no geral. Pois bem, neste texto vou comentar o que achei da Freita.

Começo com um cliché: a Freita é a Freita, que é como quem diz, a Freita é uma prova única. Uns dias antes de partida ouvi o Moutinho no X-Trail Forum e fiquei encantado pela maneira como ele descreveu o processo de criação do percurso. O Traçador, como ele se intitulou, explicava que na prova haviam sítios obrigatórios para passar, o grande trabalho seria a maneira de os interligar de forma a melhorar a experiência. Chegou a falar em números. Por exemplo: depois de passar por uma subida que exigisse 80% de esforço, seguia-se uma secção para compensar, com 40 ou 50% de esforço. Adorei a justificação para a nomeação de certos trilhos, acho isso uma excelente ideia. A Besta, as Almas Penadas, as Escadas do Martírio, a Escarpa, Bradar aos Céus, o Rio, etc.... Quem, no mundo do trail, não conhece estes nomes? É impossível para quem lá passa não identificar imediatamente os locais e, principalmente, as sensações em cada um dos segmentos. Isso não aconteceria se disséssemos "aquela subida ao km 64", ou "aquela descida que vai dar à Pena".

Mas a coisa mais importante que ficou daquela "entrevista", e que é a principal característica da prova, foi quando ele explicou que quem participa na distância Elite tem que perceber que vai passar por uma experiência única. Vai, literalmente, ter que sofrer para cumprir o percurso e é tão meritório aquele que o faz em 14 como em 28 horas, porque o traçado é pensado com um único objectivo: lentamente devorar-nos até que não reste nada.

Nesse aspecto o UTSF - Elite é perfeito. É, de facto, um percurso que passa em sítios fantásticos, incrivelmente exigente e imagino que perfeitamente à imagem do que o seu Traçador pensou. A isso alia muito boas marcações, excelentes e bem distribuídos abastecimentos, cortes apertados (como acho que devem ser) e um ambiente único.

Quem conhece o meu percurso sabe que eu não fujo da dificuldade. Se fosse esse o caso não faria provas como a Mitic, o X-Alpine ou 5 vezes o MIUT (ainda há uns dias li alguém a dizer que o MIUT é para meninos...não brinquem com coisas sérias). Não, não tenho medo da dificuldade. Mas não escolho provas de ultra endurance, as de três dígitos, cuja principal característica é serem difíceis. Não fico entusiasmado quando alguém me diz que uma prova tem 60% de desistências. Encolho os ombros quando dizem que aquela é A mais dura. Não quero, de maneira nenhuma, entrar numa prova com o único objectivo de sobreviver e percorrer 100km desconfortáveis e a gerir dores.

Eu adoro a Serra da Freita e a Serra da Arada, onde passa o percurso da UTSF. Adorei alguns dos segmentos, são até dos melhores que já fiz, como o Rio ou a Besta. Acredito piamente que teria gostado muito da versão antiga, dos 70km. Mas, com alguma desilusão minha, enquanto a versão Elite tiver 100 ou mais km esta foi a primeira e única vez que fiz o Ultra Trail Serra da Freita.

Boa sorte a todos os que lá forem, têm o meu respeito!