As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Há 4 semanas de molho.

Andava preso por arames. Vocês sabiam, eu contei-vos. Desde o MIUT que tinha consciência que a coisa não estava boa. Fiz uma preparação muito deficiente para a prova nos Alpes, serviços mínimos, o suficiente para me levar ao fim. Acabou por nem ser nada mau, fiz uma prova sólida e a perna direita aguentou-se à bronca, mas sabia que logo de seguida precisava de uma paragem obrigatória. Pensava que a coisa se resolvia numa ou duas semanas, mas demorei pouco tempo a perceber que não seria bem assim. Pois, não está fácil...

A fotografia não tem nada a ver com o texto, mas só arranjei agora fotos da prova e não queria perder a oportunidade de meter nojo.

Não gosto de falar sobre as minhas "lesões", ou dores ou seja lá o que lhe queiram chamar. Por isso não vos vou chatear com queixumes. Escrevo este post porque durante estas, já, 4 semanas que estou no estaleiro despertei uma paixão antiga: a natação.

Como alguns sabem, a natação foi o meu desporto durante muitos anos. Competi durante toda a minha adolescência e, apesar de ter tido sempre um nível medíocre, o nível de empenho e treino era bastante alto. Treinos bi-diários, alguns de madrugada antes das aulas, competições semanais e um volume de treino maior do que alguma vez fiz na corrida. Mais importante do que alguns pódios regionais e uns 57 segundos aos 100L dos quais me orgulho muito, ficaram as muito boas recordações, a ética de treino e aquelas lições que só uma actividade desportiva intensa nos podem dar. O que também ficou, apesar de adormecido há uns bons 15 anos, foi o gosto de nadar. 

O que é? Estou a falar de natação e na fotografia há água!
Quando me vi impossibilitado de correr a seguir ao X-Alpine tinha que fazer qualquer coisa para, no mínimo, manter a forma. Não, mais que isso, para manter a sanidade mental! Há anos que faço desporto pelo menos 6 dos 7 dias da semana, mais que seguir planos de treino torna-se uma necessidade. Eu sei que a bicicleta seria a opção mais natural, mas sinceramente não gosto de andar. É desconfortável, fico com os braços e pescoço muito mais doridos que as pernas, a ultima vez que tentei foi um sacrifício do início ao fim. Como andava desde o MIUT a nadar uma vez por semana decidi que seria esse o caminho. E claro, como costuma acontecer comigo, se é para ser é a sério, e há 3 semanas que vou todos os dias à piscina de Santarém. 

Piscina de Santarém. A interior de Almeirim está fechada no verão.....
Tem sido engraçado sentir a evolução. Naturalmente a anos luz do que era dantes, mas dia a dia começo a sentir-me mais solto e vejo os tempos a baixarem. Faz-me lembrar quando comecei a correr! Uma coisa que não havia "no meu tempo" são estes novos relógios que contam as piscinas, braçadas, ritmos, etc etc etc. Tal como na corrida, é super motivador ....e pelo menos vai dando alguma vida ao meu Strava. 

Este sábado foi o dia que tentei voltar a correr, três semanas depois da X-Alpine. Foi mau. Muito mau. Para afogar as mágoas decidi pegar na família e ir para a barragem do Castelo de Bode nadar. Tenho muito pouca experiência em águas abertas, mas correu bastante bem. Fui com o meu amigo João Pedro, antigo companheiro da natação e mais recentemente do trail (foi comigo ao UTMB, lembram-se?) e ainda sacámos cerca de 3500m a um ritmo interessante, para a minha realidade actual, claro, 1'41''/100m. 

Lago Azul, em Ferreira do Zêzere, Barragem do Castelo de Bode

Os treinos de natação têm um grande problema: voltei a treinar ao fim do dia, com todos os problemas que isso acarreta. O que vale é que a Sara sabe que a versão Filipe sem treinar é MUITO pior do que aquelas duas horas que passo fora todos os dias, e mais um vez lá vai tapando buracos para permitir os meus caprichos.

E pronto. Vou para a minha quarta semana de molho. É verdade, tem sido muito bom nadar, mas não consigo disfarçar a ansiedade de não conseguir correr. Ontem, domingo, fui-me muito abaixo por perceber que mesmo 3 semanas sem correr não serviram de nada. Tenho que pensar noutras estratégias para atacar isto. Agosto é tradicionalmente o mês em que corro mais, e este ano até vamos acampar uma semana para o Gerês. Sinto mesmo muita falta de treinar de madrugada, dos longos de fim de semana, de andar nos trilhos....enfim. Quanto a corridas até ao fim do ano, não estou muito preocupado. Tenho a ideia de fazer os 100km da EstrelAçor, mais para fechar o campeonato do que outra coisa. Se não conseguir treinar a tempo, talvez vá aos 100 de Abrantes com o mesmo objectivo. O que quero mesmo é voltar a correr.

terça-feira, 10 de julho de 2018

X-Alpine (111km) - O Muro Alpino

A X-Alpine é uma prova diferente de tudo o que fiz até agora. Não foi a mais difícil nem a mais longa, mas foi certamente a que mais me surpreendeu. Na altura da inscrição foi o assombroso perfil que me atraiu, mas estava longe de perceber o que significava exactamente TODAS as subidas e descidas de uma prova terem no mínimo 1000 metros de desnível. Assim como me escapava à compreensão o que era estar numa prova com a previsão de 30 horas e ter apenas disponíveis 5 abastecimentos com comida. "É só mais uma aventura", pensava eu. Não demorei muito a perceber que não seria só mais uma. À uma da manhã de sábado, na vila de Verbier, com a Sara e a Maria Amélia no meio dos muito poucos assistentes, lá parti para muitas horas de pura imersão nos Alpes, numa aventura que não me vou esquecer tão depressa.



Verbier - Sembrancher
12km, 1150-
Foi a partida de uma grande prova mais tranquila que já fiz. Sem fogos de artificio ou musicas épicas, parecia tudo demasiado calmo. Verbier fica a 1500m e teríamos que descer até aos 714m, altitude mínima da prova, em Sembrancher, mas antes uma pequena subida para contornar a montanha. Trilhos puramente alpinos, no meio de uma floresta, com terra escura e muitas raízes, tal e qual como me lembrava do UTMB. A descida continuou na mesma toada, com trilhos limpos e bons de correr. A minha preocupação era apenas ir devagar e não abusar, numa prova destas a gestão começa ao passar a meta. Sem grandes pressas nem ultrapassagens, seguia numa comboio a bom ritmo, num trilho brutal aos ésses. A encosta era tão inclinada que se viam 4 ou 5 pernadas de ésses lá para baixo, mas o trilho estava bem desenhado e a inclinação nunca era muito exagerada. Uma hora de descida depois estava no primeiro abastecimento, em Sembrancher. A organização preparou um mimo para este abastecimento e havia uma espécie de pequeno almoço: pão com doce e manteiga de amendoim. Consciente do que vinha a seguir, tomei o meu tempo e empanturrei-me de pão. Esperava-me nada mais nada menos com um duplo quilómetro vertical, a maior subida que já fiz na vida.

Sembrancher - Champex
14.1km
2034+, 1278-
Respirei fundo e parti determinado. A descida anterior tinha sido bastante fácil o que me aumentou a confiança, mas mesmo assim nunca exagerei enquanto subíamos numa estrada florestal aos ésses na encosta. A temperatura estava óptima e a floresta muito densa protegia-nos da brisa mais fria - condições ideais. Já íamos quase com 1000m de subida e mais uma vez o caminho era muito fácil! Na minha cabeça começou a formar-se a hipótese de se calhar ter vindo com demasiadas precauções, que a prova afinal até era fofinha! Foi então que finalmente chegámos ao refúgio de Catogne e saímos da linha das árvores. Lá dentro da cabana havia um abastecimento, apenas líquidos. Faltavam 800m de subida totalmente expostos, tratei de praticamente não parar no abastecimento (ainda tinha água) e segui logo para não arrefecer. Quando entrei no trilho percebi que tudo tinha mudado. 


Olhei para trás e vi uma linha vermelha a desenhar os contornos das montanhas que nos rodeavam. Eram 5 da manhã, o sol estava a começar a nascer. Faltavam mais de 700 metros de subida para o primeiro cume do dia e à minha frente uma fila infinita de luzes brancas recortava a linha da montanha contra o céu. Subíamos pela crista da montanha numa cascalheira, de ambos os lados um precipício de mais de mil metros. Subia já há 3 horas em esforço quando de repente um dos maciços de granito se mexe debaixo dos meus pés e eu enfio uma perna até à virilha entre as pedras cinzentas que escalava. Paralisei. A respiração ofegante do esforço era agora quase pânico. Os companheiros de subida perguntavam em francês se estava tudo bem, mas eu só acordei quando a dor intensa na canela me despertou. Um deles puxou-me e ajudou-me a sair, "ça va?" "oui, merci" "allez!". Ele continuou a escalada e eu fiquei uns segundos sentado numa pedra, a tremer. Antes de arranjar coragem para me levantar, pensei: onde é que me vim meter?

Na crista
Fotografias tiradas já perto do cume, onde dá para ver bem a proeminência da montanha. Aquelas luzes estão quase 2000 metros abaixo
Já muito perto do cume a quase escalada foi substituída por uma caminhada muito perigosa numa crista de pedras, mais ou menos plana. Cordas, correntes e pegas de aço chumbadas na encosta. Nem na surreal Mitic me senti tão inseguro como aqui. No pico, La Catogne, estava uma cruz a coroar na perfeição uma montanha perfeita, quase triangular, que emergia 2700m acima do vale. Estava cumprida a subida e devia estar aliviado por ir começar a descer, mas algo me dizia que as coisas não iam melhorar...

La Catogne, visto de baixo
O ano passado, na Mitic, disse que a descida de Bony de La Pica para Margineda tinha sido a coisa mais assombrosa que já tinha feito. Pois bem, esta descida para Champex não lhe ficou atrás. Depois de feito o cume ainda andámos um pouco na crista, lá em cima em mais uma via ferrata insana, pendurados a mais de mil metros. Depois pensei que fossemos começar a descer um trilho suavizado por ésses, mas não. Descemos em linha recta pela encosta, sempre com a vista desimpedida para Champex, mil e tal metros abaixo. Uma perfeita loucura que me deixou sinceramente assustado. Teve vários segmentos com 50% de inclinação em que a minha única preocupação era não escorregar. Ao analisar os dados no Strava o quilómetro 26 tem 398 metros de desnível negativo! Acreditem, não estou mesmo a exagerar quando digo que um deslize ali era trágico. A meio da descida, quando voltámos a entrar na floresta, a inclinação começou a suavizar. O trilho é que acabou por se tornar ainda mais fechado e de difícil progressão. Foram cerca de hora e meia para fazer 4.4km a descer! Quando cheguei ao abastecimento de Champex, que já conhecia do UTMB, vinha meio abananado.

Champex visto de cima
Champex - Saleina
15.2km
1466+, 1636-
Demorei algum tempo no abastecimento, era o segundo e já ia com 6h de prova. O conceito de abastecimento desta prova é diferente do que estava habituado. Não quero com isso dizer que a malta em Portugal está mal habituada, os abastecimentos da Mitic e do UTMB eram excelentes, mas na X-Alpine não havia cá mordomias para ninguém. Só uns snacks, às vezes nem fruta havia, o caldo era mesmo só isso, um caldo transparente salgado e que só havia nalguns sítios (em Champex não havia). Apenas o mínimo e essencial. Mais do que alimentar-me, procurei recuperar algum fôlego antes de me fazer à subida seguinte, que tinha nada mais nada menos que 1500D+, até ao ponto mais alto da prova nos 2800m. 

Se a primeira subida tinha começado suavemente, numa estrada florestal, agora que já estávamos dentro da prova esta entrou a matar. Um trilho cheio de pedras e raízes, muito trabalhoso, embrenhado na floresta. Técnico e a dar muito trabalho. O sol já espreitava por cima de La Catogne e começava a aquecer a encosta, mesmo que não conseguisse furar a floresta densa. Quando passámos a linha das árvores e voltámos aos picos graníticos voltavam os segmentos super técnicos feitos em alta montanha. Mais cascalheira pontuada com gelo, mais vias-ferrata, mais cristas. Agora não sempre a subir mas num sobe e desce curto mesmo no topo da montanha, a fazer a linha da cumeeira. 
Uma espécie de varanda, bem lá em cima. Nós vínhamos lá de baixo
Esta era a vista para o lado contrário. Vejam as pedras, era por ali a progressão, sem trilho.
O cume, no refúgio de Orny, surgiu depois de um troço de 800m feitos numa crista com um glaciar do lado esquerdo e um precipício do lado direito. Uma coisa abismal, perto dos 3000m de altitude. Passámos por blocos de gelo super escorregadios, tanto a descer como a subir, os pés estavam sempre molhados do gelo. Não dava um passo sem pensar 5 vezes se seria seguro e para onde iria a seguir.

Três horas de subida depois cheguei à Cabana de Orny. Mais uma vez o abastecimento era apenas de líquidos, mas desta vez havia café. Pedi um copo grande a ferver e isolei-me numa rocha a beber café e a comer uma barra que levava comigo. 

Refúgio de Orny, foto da organização. Reparem no glaciar
Abastecimento, foto minha
O café serviu como revigorante e, apesar de já estar muito amassado, senti-me muito bem quando iniciei a descida. Um monstro com 1600 metros de desnível perdidos em apenas 7km. Desta vez, apesar de ser uma descida abismal, o trilho aos ésses suavizava a inclinação e deu quase sempre para ir a trote. Desde as paisagens graníticas dos cumes até entrarmos na floresta para os trilhos de terra escura. Sempre ao lado de ribeiros e cascatas de água gelada, que de vez em quando ia bebendo. Mas uma descida destas, apesar de não ser tão difícil como a outra, tem o seu preço. Mais hora e meia a trotar num trilho técnico, constantemente a solicitar músculos para travar e mudar de direcção, tiveram o seu preço e a portagem paguei-a em Saleina, lá em baixo, com duas varas verdes a tremer em vez de pernas. Aqui nem abastecimento de líquidos havia, esperava-me antes mais hora e tal até chegar a La Fouly numa subida suave que fiz em sentido contrário no UTMB, a qual ataquei prontamente. A Sara, os miúdos e os meus pais estavam lá em La Fouly à minha espera.

Saleina - Col du Grand St Bernard
22.5km
1739+, 559-
A subida suave de 6km até La Fouly, a tal que conhecia em sentido contrário do UTMB, foi o inicio da pior fase da minha prova. Meio do dia, no fundo de um vale, o calor estava a apertar e muito. Já tinha passado mais de 6 horas desde o ultimo abastecimento sólido e quase 13 horas de prova. O trilho era muito fácil, com troços a pedirem trote, que fui entregando sempre que conseguia. De hora a hora lá tinha que parar para meter com sacrifício mais um gel. Não me posso queixar, foi para isso que lá fui, mas aqueles primeiros dois montes tinha sido de uma tal dificuldade que condicionariam o resto da minha prova. Agora pensava com aflição no resto do perfil e receava que se o nível não baixasse simplesmente podia ser de mais para mim!

A minha receção em La Fouly :)
Sentei-me no abastecimento de La Fouly acompanhado pela minha família. A Sara percebeu logo que alguma coisa estava mal. Estava desanimado e receoso, pelas razões que já vos expliquei. Mais uma vez o abastecimento não tinha nada de especial, acabei por beber o tal caldo transparente e salgado e comi alguns alperces. Mais do que abastecer com comida, nesta prova estes "checkpoints" servem como inicio e final de etapas. Aproveitei em todos para tirar a mochila, relaxar e mudar o chip para a etapa seguinte. A toda a volta já se começavam a ver cadáveres, a coisa realmente estava a apertar.

A subida seguinte levar-nos-ia novamente aos 2700m de altitude, num esticão com 1275D+. É verdadeiramente impressionante como nesta prova sempre que se fala em subidas e descidas são monstros com 4 dígitos. Uma coisa engraçada é que durante toda a prova nunca pensei na distância em quilómetros, sempre na quantidade de metros que faltavam subir ou descer. Se no relógio não levasse a indicação da distância não me tinha feito falta nenhuma. Aliás, no dorsal aparecia um perfil altimétrico, mas sem indicação de distancia ou localização dos abastecimentos, apenas as cotas mais altas e baixas!

Arranquei para o quilómetro vertical seguinte com a confiança em baixo, como já tinha dito. Felizmente foi nesta altura que a prova começou a dar algumas abébias e os trilhos foram-se tornando cada vez mais acessíveis. Esta subida até ao Col de Fenetre parecia copiada metro a metro da grande subida do Col Ferret do UTMB. Primeiro num estradão e depois num trilho limpo aos ésses que nos permitia meter um passinho certo e ir recuperando energia. 

O tal estradão no inicio
As vistas continuavam engraçaditas
Já perto do col entramos numa espécie de planalto nos 2700 metros, para subir mais alguma coisa antes de virarmos finalmente a montanha para Itália. Lá em cima, no planalto, estavam os Lacs de Fenetre. É impossível descrever aquele sítio por palavras, tão pouco com fotografias. Três lagos de um azul escuro intenso, numa espécie de cratera  ladeada por cumes cinzentos e brancos nas pontas, isto tudo a 2700m de altitude. Atrás da nossa cratera já se viam os grandes gigantes dos Alpes, como o Monte Branco ou o Cervino. Fiquei zonzo e acho que não era pelo ar rarefeito.

Nenhuma fotografia lhe fará justiça
Virada a montanha começámos a pequena descida que faltava fazer antes do abastecimento do Col du Grand Saint Bernard (sim, a terra dos cães!) que se situa mesmo na fronteira da Suiça com Itália. O ar mais fresco lá em cima tinha-me devolvido o ânimo perdido em La Fouly e a subida mais fácil permitiu-me aumentar as reservas de energia para o que aí vinha. Cheguei ao abastecimento de St. Bernard 10 minutos depois da previsão que fiz para chegada neste ponto. Mesmo com um inicio de subida muito sofrido tinha recuperado algum tempo!

Col du Grand Saint Bernard, sacado do Google. O Col, ou passagem, é o ponto mais baixo da cumeada da montanha. Uma passagem entre dois vales, sem ser no pico.
Grand Saint Bernard - Bourg Saint Pierre
14.4km
434+, 1264-
Lá em cima, nos 2500m, estava bastante frio e vento, apesar de estar sol e serem 5 da tarde. Decidi equipar-me para o frio, já que me esperava uma pequena ascensão aos 2700 antes de descermos finalmente aos 1600 onde estava a Base de Vida (76km). A passagem que nos levaria ao vale que desceríamos até à Base de Vida foi no Col Chevaux e assim que o virámos iniciamos uma descida brutal toda ela corrível por um vale imenso. A prova continuava a dar abébias e nesta altura estava cada vez mais confiante num desfecho positivo.

Inicio da descida. Reparem no bom aspecto do trilho
Oh yes, tirei uma selfie. No Col Chevaux antes de começar a descer
A descida era nova empreitada gigante, com 1250D- e quase 12km de comprimento. Aqui é tudo à grande. Felizmente o trilho era dos mais simpáticos de toda a prova e fiz segmentos muito grandes sempre a correr, até contornarmos a margem esquerda do Lac des Toules e finalmente descer um pouco mais a pique para a base de vida. Fiz esta descida quase uma hora mais depressa que o previsto. Esta é a principal diferença da X-Alpine para a Mitic, uma prova com números parecidos (110km com 9700+). A prova de Andorra não dá descanso do primeiro ao ultimo metro, é sempre difícil, já nesta dos Alpes, depois daquele inicio demolidor, havendo pernas é uma prova mais acessível. No entanto há uma coisa que me impressionou mais na X-Alpine, que é a dimensão das coisas. Todas as subidas e descidas são gigantes, é demolidor. E ainda estava por vir o maior muro que já enfrentei na vida...

Lac des Toules
Cheguei à Base de Vida, em Bourg Saint Pierre, com 19 horas de prova. Dois terços do total. Até aqui consumi cerca de 15 geis e 3 ou 4 barras e precisava desesperadamente de comer algo mais substancial. Mas já devia saber que não ia encontrar nada no abastecimento... A diferença da Base de Vida para o resto dos abastecimentos era estar o nosso saco e haver sitio para massagem. A comida era o habitual caldo salgado e desta vez havia esparguete sem nada, que meti dentro do caldo. Esta foi a parte que tive mais dificuldade em gerir em toda a prova, a alimentação. Já sabia de inicio que eram espaçados, errei ao pensar que poderia gerir como faço habitualmente que é ir metendo gel ou barras de hora a hora. Algo a afinar se me meter em nova empreitada como esta. 

Com a rapaziada na Base de Vida
Restavam duas subidas e duas descidas. Dois montes separavam-me de Verbier. Dois montes, uma noite inteira e .... um muro. 

Bourg St. Pierre - Lourtier
23.3km
1100+, 1646-
Esta era a menor subida das 5 (SÓ 1050+) e curiosamente a que menos gostei de todas. Não por ser difícil, mas os 1050+ distribuídos por 12km deixavam muito espaço para trilhos planos e pequenas descidas. Foi a única altura da prova que senti necessidade de olhar para a distancia percorrida em vez da altitude, parecia que nunca mais acabava. A subida era fácil, num trilho aberto, pouco inclinado. A encosta era muito exposta e o sol estava a por-se do outro lado do vale, só liguei o frontal já depois das 22. Estava a sentir-me bem a subir e pela primeira vez em toda a prova comecei a passar algumas pessoas. Muito perto do topo, já de noite, calculo que estaríamos a percorrer uma crista, já que o vento aumentou de repente e a temperatura diminuiu bruscamente. Por isso entrei no refugio de Mille só mesmo para reforçar as camadas térmicas e fazer-me o mais rápido possível à descida, já a tremer. Bom, também não podia fazer muito mais, só se fosse beber água!

Cabane de Mille vista de dia, sacado da net. Agora é que estou a ver que realmente percorremos uma crista, dá para ver na foto!
A descida, a segunda maior da prova (1500-) era também das mais difíceis, com excepção daquela loucura logo no inicio. Foi aqui que me apercebi de outra característica desta prova. Pela primeira vez andei muito tempo sozinho e tive necessidade de me guiar pelas marcações em vez de ir em comboio. Acontece que isto é malta que não gosta muito de meter fitas, passava às vezes centenas de metros sem ver marcações. Vejamos, elas estavam onde era preciso, ou seja, onde haviam mudanças de direcção, mas o resto do trilho era por intuição e sem marcações. Não me entendam mal, nunca me perdi, mas a meio da segunda noite, já com muitas horas de esforço, o cérebro já me começava a enganar e senti alguma aflição quando descia e descia sem ver nenhuma marcação. E esta descida não foi mesmo nada fácil... As abébias que a prova deu acabaram em Mille, agora ia ser a doer até ao fim. Novo trilho super técnico e muito inclinado. Apoiava o peso inteiro nos bastões, os quadricepes já estavam a chegar ao limite e a ultima parede não me saía da cabeça. A parte final em estradão já foi toda a andar. Não que não conseguisse pelo menos trotar, mas levantava a cabeça e via luzes tão lá em cima!!! Aí estava ele. O muro.

Lourtier - Verbier
12km
1300+, 866-
O MURO
O abastecimento final, em Lourtier, parecia um cemitério. Fui ver as estatísticas e foi onde desistiram mais pessoas. A um monte do final! Não era para menos. Ali, aos 104km, começaria a subida mais difícil de toda a prova, o Muro. Uma besta com 1250+ ganhos em apenas 5km. Sem dúvida a subida que me custou mais a fazer na vida.

Ataquei-a com a maior precaução possível, passinhos muito pequenos muito apoiado nos bastões. Fixei a cota final e fui descontando os metros até lá acima. Planeei parar para respirar de 100 em 100 metros subidos e estava confiante nessa estratégia. Tão confiante que depois de algum tempo a subir, já no limite da exaustão, pensei para mim mesmo "pronto, já subiste mais que 100m de certeza, agora mereces um descanso!". Olhei para o relógio e...tinha subido 30m! Oh oh...vamos ter problemas...

O trilho era horrível. Além da inclinação natural da subida, este praticamente não tinha pedras que poderiam servir como pequenos patamares para ir escalando. Toda o piso da subida era inclinado, obrigando a uma extensão constante dos gémeos e um permanente desequilíbrio. Evitava olhar para o relógio até estar prestes a cair para o lado porque quando olhava não teriam passado mais que 20 ou 30 metros! Comecei a parar montes de vezes. Sentava-me e deitava-me no trilho. Arrependia-me logo de seguida porque as bolhas na palma dos pés que estavam dormentes de levar tanta porrada voltavam à vida depois do mais pequeno descanso. Comecei a fazer contas e as 6 ou 7 horas para o corte deixavam-me margem para dormir ali mesmo no trilho. Lá está, o cérebro a pregar partidas... Mas pelos vistos não fui o único com essa ideia, passei por 10 ou 15 cadáveres deitados ou sentados com ar de desespero, outros a vomitar, outros a dormir ou a olhar para o vazio. Que loucura! 

Depois de subir os primeiros 400m estava de tal forma esgotado que praticamente desmaiei no trilho. Deitei-me e passou-me tudo pela cabeça. Como é que ia conseguir subir mais 800m? As pernas tremiam. Estiquei as mãos e também os dedos tremelicavam. Respirava ofegante, incapaz de controlar e acalmar. Fechei os olhos e pensei em meter um gel (o 20º do dia?) mas só o pensamento disso me fez vir o vómito à boca! Então lembrei-me que tinha uma única barra de reserva. Abri-a, sentado, e calmamente comi-a toda, enquanto bebericava isotónico.  No fim, uns 10 minutos depois, levantei-me decidido a subir 100m de seguida antes da próxima paragem. Foi então que comecei a falar sozinho.

Comecei a subir e a falar com os franceses e suiços. Aqueles que tentei meter conversa em inglês durante toda a prova e nunca me responderam. Não queria saber, agora iam ouvir. Falei-lhes de tudo. Da subida, da prova, das outras que já fiz, falei-lhes de quando estive em dificuldades iguais noutras ocasiões e tinha acabado por conseguir superar. Depois fiquei sozinho e acabei a falar com a Sara e os miúdos. Com os companheiros que estavam em Andorra na altura, com os meus amigos das madrugadas de Almeirim. Falei, em voz alta, com eles todos. Enquanto falava desviava a atenção do esforço que estava a fazer. Não me lembrava de olhar para o relógio e os metros iam passando e passando. Quando finalmente olhei tinha subido bastante mais do que esperava, pensei em parar, mas estava a ter uma conversa tão boa com uma árvore que não quis interromper.

De repente o cansaço transformara-se em raiva. Já não tinha conversas alegres com os montes, mas chamava-lhes nomes e dava gritos de desafio. 

AH! Tá quase, cabrão! Manda-me o pior que tiveres!! 

A verdade é que o filha da mãe do monte já não tinha muito mais para me mandar para cima. Estava conquistado o Muro! Quando vi a cabana de Le Chaux ainda acelerei mais o passo. Até cheguei a trotar no estradão mesmo antes do refúgio! Lá dentro enviei a seguinte mensagem à Sara:

Também não ia censurar, né..
Mas é claro que ela se levantou às 4 e meia da manhã para me esperar em Verbier. Claro que estava lá ao frio, de madrugada, enquanto eu descia de raiva os 800- que me faltavam. Praticamente sozinha na meta, só com duas ou três pessoas da organização, a ver o sol nascer por trás da montanha, enquanto eu percorria os quilómetros finais, bastante difíceis por acaso. 28h50, 111km e 8400D+ depois de me ter deixado na meta recebeu-me de braços abertos em mais uma conquista. Estava feito. A X-Alpine estava domada.


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